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Autor Tópico: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)  (Lida 6007 vezes)
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #60 em: Junho 08, 2020, 22:09:02 »

                                                                                    36

          Eram cerca de onze horas da manh√£ quando Leandro, na sua figura de pirata dos mares, sem a perneira direita das cal√ßas, depois da alta do m√©dico e com a receita dos rem√©dios na m√£o, pode juntar-se √† mulher. Esta, juntamente com Xavier, esperava-o √† entrada, com as mil interroga√ß√Ķes sobre o estado do marido e a gravidade das les√Ķes. E, quando se inteirou de que tudo era menos grave do que √† primeira vista parecia, p√īs Leandro ao corrente do que se vivera em Eito nesse meio tempo. Bastou um telefonema de Joanne para ficarem a saber que os corpos de Ana Rosa e do pequeno Diogo j√° haviam sido levados para a morgue de Aveiro, ali ao virar da porta por onde eles estavam prestes a abandonar o hospital. E foi para ela que um impulso natural impeliu Leandro, antes de ser dissuadido por Dulce e Xavier de, como um homem sombra desiludido com a humanidade, ir ali plantar-se para saber not√≠cias da alma dos dois entes queridos, que o m√©dico legista tivesse, eventualmente, encontrado perdida junto com o cora√ß√£o queimado de cada um.
          Manolito permanecia ainda no provis√≥rio sepulcro da carrinha onde fora imolado. Do que nem sequer parecia um pequeno corpo de crian√ßa, o Delegado de Sa√ļde j√° havia ordenado a remo√ß√£o. Tudo estava transformado num peda√ßo de carv√£o, a que era dif√≠cil atribuir forma humana. Muito menos esp√≠rito. O caso exigia, por isso, maiores cuidados. Com certeza absoluta, s√≥ a aut√≥psia poderia, talvez tamb√©m algum ADN encontrado num fragmento de osso, determinar se, na realidade, se tratava dos restos mortais do pequeno, ou de uma ilus√£o desencadeada pelo fogo,  a quem fora indiferente ter-se alimentado dos p√≥los e len√ß√≥is confeccionados numa f√°brica de contrafac√ß√£o, ou do corpo de um rapazinho infeliz com a morte do seu c√£o. Al√©m de tudo, temia-se que os ciganos, n√£o s√≥ a fam√≠lia directa da v√≠tima como de outras comunidades, ao saberem do holocausto sobre o acampamento, se precipitassem para l√° e viessem a dificultar o trabalho √†s autoridades. No mundo moderno, e, como um pensamento sem freio, as not√≠cias corriam √† velocidade da luz. No exacto momento da divulga√ß√£o de um v√≠deo num lugar remoto a Terra, as novas deixavam de se circunscrever a uma pequena parte da geografia para atingirem o globo inteiro como um meteorito gigante. Talvez o esp√≠rito greg√°rio de outros ciganos j√° tivesse sido alertado da morte do garoto e quisesse dar √† fam√≠lia testemunhos de uma solidariedade t√£o especial como a que se vive no meio da etnia. Nem que fosse s√≥ a solidariedade das l√°grimas, aquela que, ainda assim, √© a mais econ√≥mica entre todas. Al√©m de evidente.
          Quando, vindos do hospital Leandro, Dulce e Xavier passaram pelo largo da igreja, os ciganos permaneciam no mesmo s√≠tio, errantes como outrora em toda a terra, desta vez circunscrita a uma pequena pra√ßa de um lugarejo. Descal√ßos, com fome todos eles, os mais pequenos estavam sobre os colch√Ķes que Susete e as outras mulheres, num gesto de boa vontade, lhes tinham levado durante a madrugada.
           Depois da primeira sandes da manh√£ preparada ainda cedo pela Dona Celeste do caf√©, f√°cil seria concluir pela necessidade de lhes fornecer mais algumas ao longo do dia. E, provavelmente, durante bastante tempo. Sobretudo enquanto os acontecimentos estivessem frescos na mem√≥ria de uma aldeia a bra√ßos com uma trag√©dia sem precedentes. Ainda que ningu√©m estivesse incumbido de matar a fome aos desalojados, era preciso ser solid√°rio na justa medida, enquanto o assunto n√£o entrasse na rota do cansa√ßo caindo paulatinamente por terra ao fim de dois ou tr√™s dias.
          Um pouco ap√≥s as onze horas, enquanto Rodrigo continuava na acampamento junto com a GNR a guardar o corpo do menino cigano, In√°cio, Ramiro e Joaquim ausentaram-se durante algum tempo a fim de tratar do combust√≠vel, quase no casco, para a camioneta. Se n√£o tomassem provid√™ncias, da√≠ a pouco o dep√≥sito do gas√≥leo ficaria completamente seco, impossibilitando-os de ir, pelos pr√≥prios meios, para onde as circunst√Ęncias exigissem. A primeira desloca√ß√£o teria a ver com a viagem de Manolito para a morgue a fim de ser retalhado, num um carro de pol√≠cia apetrechado para v√≠timas de morte violenta como fora a do menino. A segunda, e √ļltima, j√° com ele metido numa urna com a roupa que deveria vestir ao lado, por j√° n√£o haver ali nada que se assemelhasse a uma crian√ßa, seria a ida de todos no dorso da carrinha para o cemit√©rio,  num cortejo colectivo de defuntos uma vez que o funeral conduziria √† cova tr√™s seres inocentes vitimas da mesma cobardia. Pessoas que ningu√©m deveria, talvez, ver uma derradeira vez,  para n√£o ficar, para o resto da vida, com uma impress√£o da morte ainda mais triste do que a morte j√° era.
          Os tr√™s, embora sem dinheiro no bolso, tinham, contudo, alguns trunfos na manga para jogar no momento oportuno. Nada que a sua recente pen√ļria n√£o justificasse
          -N√£o temos com que pagar ‚Äď disse In√°cio para o rapaz da caixa, ap√≥s o abastecimento, enquanto se fazia notar acompanhado dos dois rapazes, filho e sobrinho, todos ciganos e com uma certa fama √©tnica. Naquele momento, era como se tratasse de uma miss√£o diplom√°tica que exigisse todo o respeito por quem a levava a cabo.
          -Fic√°mos sem nada. O nosso acampamento ardeu. Morreu o meu primo, um mi√ļdo de quatro anos. Estamos na rua, no Eito, em frente √† Igreja e quase nus ‚Äď acrescentou Joaquim, apontando para os cal√ß√Ķes com que haviam dormido na √ļltima noite, quando o fogo entrara no terreno dos Vieira com uma for√ßa maior do que a da pol√≠cia na execu√ß√£o de uma ac√ß√£o de despejo ordenada pelo Supremo Tribunal de Justi√ßa.
           -Quando tivermos dinheiro voltamos c√° para lhe pagar ‚Äď acrescentou In√°cio com uma l√°grima a querer saltar-lhe dos olhos, contagiando todos numa irmandade que faziam valer em circunst√Ęncias como aquela e de muitas maneiras poss√≠veis.
O rapaz da caixa engoliu em seco, alisando as arestas de mais um facto consumado. √Äquela hora da manh√£, n√£o era, habitualmente, necess√°rio colocar a bomba em pr√©-pagamento para precaver a ousadia de ladr√Ķes. Por outro lado, aqueles ciganos, feirantes ao que se sabia, seus conhecidos de id√™nticos carnavais, nunca lhe tinham pregado um calote, mais gordo ou mais magro. E, embora se apresentassem com o aspecto de maltrapilhos e cheios de suor, o jovem n√£o dispunha de precedentes que o levassem a suspeitar de qualquer golpe.
          Agora s√≥ tinha de reportar o sucedido ao gerente e esperar que um dia, como quem vai pagar um milagre a F√°tima ou a outro santu√°rio com igual prest√≠gio no mundo da f√©, um dia a promessa se cumprisse Mas o mais certo era ter de lhe rezar pela alma.
                                                      

                                                                                                  37

          Pouco antes do meio-dia, todos os membros da comunidade cigana tiveram direito a uma nova sande e um pacote de leite achocolatado, ou outra coisa do g√©nero. E, como o presidente da junta havia j√° demonstrado preocupa√ß√Ķes quanto ao futuro lar dos mais recentes sem-abrigo, logo se come√ßou a intuir que o pagamento da conta por causa da comida, hoje e nos dias seguintes, estaria a cargo da junta de freguesia, ou da c√Ęmara municipal, como uma crian√ßa sem pai nem m√£e que tivesse de ser adoptada o quanto mais depressa poss√≠vel. De prefer√™ncia antes de morrer.
          Com a carrinha suculenta de gas√≥leo no dep√≥sito, quando os tr√™s regressaram √† aldeia j√° uma outra promessa se cumprira. Desta vez, a que C√°rmen obtivera da parte de Catarina quando esta velava o primeiro sono do filho no Al√©m sob os len√ß√≥is brancos que o cobriam antes da terra definitiva do cemit√©rio. Havia de tudo um pouco: cal√ßas, camisolas, vestidos de diversos tamanhos para as crian√ßas, saias para as mulheres, roupa interior e cal√ßado. Todos os membros da fam√≠lia que tinham ficado no largo durante a ‚Äúopera√ß√£o combust√≠vel‚ÄĚ, apresentavam j√° um novo aspecto. Tinham ido √† casa de banho do caf√© vestir algumas das pe√ßas colectadas pelas mulheres, depois da constata√ß√£o da quase nudez do cl√£. No meio de tudo, havia um saco especial proveniente da √ļltima ma mam√£ da aldeia, e o seu conte√ļdo destinava-se ao beb√© que Luzia trazia na barriga, uma rapariga, segundo ditara a leitura da sina por uma matriarca de Aveiro, j√° que o acompanhamento m√©dico fora pouco ou nenhum. Com a pra√ßa pejada de sacos pl√°sticos, de boca aberta e com roupas de fora como l√≠nguas moles, todos poderiam agora assistir decentemente vestidos √† remo√ß√£o de Manolito para a morgue, quando este fosse fazer companhia √†s outras duas v√≠timas para se cumprir um ulterior destino comum, sob uma ou mais l√°pides de cemit√©rio.
          Pepe, o cavalo, ali preso √† ac√°cia do adro, nas relinchadelas intermitentes da sua peculiar ac√ļstica, j√° tinha dado a entender que estaria sobretudo com sede. E, antes de In√°cio, Joaquim e Ramiro comerem as sandes do almo√ßo, trataram de pedir ao primeiro homem com quem haviam falado de madrugada um balde com √°gua para dessedentar o animal. A seguir, este bebeu com sofreguid√£o, deixando por momentos, de enxotar as centenas de moscas que lhe formigavam continuamente os olhos e o focinho. Enquanto isso, algu√©m sugeria que o levassem para um arrabalde ali bem perto onde o √ļltimo e chuvoso inverno fizera nascer erva abundante, dourada pelo sol do ver√£o como uma ceara de trigo maduro.
          O combate ao fogo prosseguia a sul, agora refor√ßado com mais uma equipa de bombeiros, cujo carro havia abordado o fogo por outro lado, onde ele estava agora mais espevitado, e onde j√° haviam chegado duas equipas de televis√£o para cobrirem o dantesco cen√°rio das chamas. Ambas as corpora√ß√Ķes eram ainda ajudadas por alguns populares, a que Abel, o pai de Telmo, se juntara, mal regressara depois de levar Susete √† f√°brica logo pela manh√£.

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« Última modificação: Julho 12, 2020, 19:49:07 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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« Responder #61 em: Junho 09, 2020, 19:23:51 »

E a luta continua...
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #62 em: Junho 09, 2020, 21:12:45 »

                                                                                              38

          J√° em casa, toda a fam√≠lia de Catarina e de Vasco pensava na melhor maneira de dar a conhecer a S√≠lvia os estragos de um m√™s de Agosto que, tendo um incendi√°rio como carrasco, resolvera cortar as pernas √† felicidade e a um amor que ela quisera enlear pelos n√≥s sagrados do matrim√≥nio na terra onde nascera. Agora, depois de semelhante golpe, nada poderia voltar a ser como dantes, passe o lugar-comum.
          -Ela j√° sabe. Telefonei-lhe enquanto o pap√° e a mam√£ estavam no hospital ‚Äď informa Joanne, depois de o primo ter sido enviado para casa da av√≥ paterna, at√© algu√©m arranjar coragem para lhe falar da perda do irm√£ozito, atrav√©s de eufemismos que o tempo um dia deitaria por terra.
           -E ela? ‚Äď pergunta a m√£e.
           -N√£o sei como nem por quem soube.. Ficou atarantada, a chorar ap√≥s a minha confirma√ß√£o e sem saber o que fazer. Tamb√©m lhe disse que o pap√° se queimara quando tentou salvar a av√≥ mas que n√£o era nada de mais. Pedi-lhe para n√£o vos ligar enquanto estivessem no hospital.  
          -As m√°s not√≠cias correm depressa. S√£o como a chuva, n√£o t√™m fronteiras nem falam l√≠nguas desconhecidas. E que iremos n√≥s fazer quanto ao casamento? ‚Äď pergunta Leandro dirigindo-se √†s duas, compungido como todos eles.
           -A √ļnica coisa que deve ser feita, penso eu. Adiar ‚Äď sugeriu Dulce com firmeza, olhando para a filha e para os cunhados, numa casa desolada, e cheia de l√°grimas at√© ao tecto.
          -Ela, depois de um bocado, pensou sem saber o que fazer pensou nisso. J√° deve ter falado com o Pierre, entretanto. Pobre da av√≥ e do Diogo, que j√° n√£o poder√£o assistir a nada ‚Äď rompeu Joanne em l√°grimas
          -A √ļltima palavra ser√° sempre de ambos. Talvez j√° tenham realmente conversado sobre o assunto. Antes de quarta ou quinta-feira n√£o poderemos fazer os funerais ‚Äď acrescentou Vasco, o marido de Catarina, limpando o rosto com as costas da m√£o suada-. At√© l√°, h√£o-de decidir. Mas agora temos outras prioridades. O melhor √© tratar delas o quanto antes ‚Äď disse sem ter a certeza se estaria em condi√ß√Ķes de ser o homem da casa, quando, embora por fora aparentasse alguma serenidade, por dentro ardia em desespero, a que a raiva e a vontade de matar um culpado por tudo aquilo davam ainda algum f√īlego.
          -Tens toda a raz√£o, cunhado.
          -Tu encarregas-te das coisas da tua filha e do casamento. Eu trato dos enterros ‚Äď e escondeu uma l√°grima teimosa que o obrigou a deixar a sala para a disfar√ßar.
          Da√≠ a pouco, Leandro e Dulce falavam com a filha ao telefone. A decis√£o estava tomada. Adiariam o casamento. Tudo por culpa de um inc√™ndio que destru√≠ra uns milhares de hectares de mata na zona centro do pa√≠s. Um inc√™ndio, como tantos outros, ateado por uma criatura que, com a chama de uma √ļnica igni√ß√£o, enviara tr√™s inocentes para o outro mundo em menos de doze horas.
          -Malditos incendi√°rios! ‚Äď rugiu Leandro, entre a dor da queimadura, apesar do analg√©sico, e a raiva que o levava a dar murros de impot√™ncia nas portas do  sofrimento onde todos se sentiam aprisionados, e de que n√£o podiam fugir. O Inferno, emergido das profundezas, escolhera-os como cobaias, estando agora a injectar-lhes a mais letal dose de sofrimento. A terra natal de S√≠lvia, do pai, dos tios e primos, n√£o era agora sen√£o um covil de pirot√©cnicos fora da lei, aonde n√£o apeteceria voltar nunca mais. Com ossos t√£o grandes de desola√ß√£o √† mostra, os dentes das serras queimadas ao redor, o que outrora fora um o√°sis verde e acolhedor n√£o passava de um monte de cinzas tristes, a que talvez nem a erva da pr√≥xima primavera restitu√≠sse alguma alegria.
A saga de uma fam√≠lia enlutada por duas mortes consistiria agora em desmarcar, junto do padre do santu√°rio, o casamento da portuguesa e do franc√™s, como quem apaga vest√≠gios de um mal-entendido. Seguir-se-ia o contacto com os hot√©is onde os convidados de Marselha iriam ficar durante algumas noites, se a trag√©dia n√£o viesse antes surpreend√™-los. Finalmente viria a anula√ß√£o da boda, na bela quinta nas encostas da serra. O espa√ßo, bem vistas as coisas, corria ainda o risco de ser devorado pelas chamas, se, rapidamente, a protec√ß√£o civil e os bombeiros n√£o fizessem algo mais eficiente do que deitar uma t√©nue √°gua na fervura, como acontecera na aldeia do Eito quando os bombeiros chegaram bem depois da casa roubada, com meia d√ļzia de homens a pingar exaust√£o para lhe erguer as trancas. Em Fran√ßa, desfazer o que j√° estava feito ficou a cargo dos noivos, mantendo-se a data de vinda dos noivos e de alguns parentes. Mas, em vez de o motivo da viagem ser um enlace num santu√°rio bonito, com Deus e os santos a aben√ßo√°-los, eram os funerais de duas pessoas, celebrados com missa de corpo presente na igreja da aldeia, depois de a morte, mais inoportuna do que nunca, lhes bater √† porta √† pancada. Ainda haveria um terceiro enterro para acabar o ciclo da trag√©dia, o de Manolito. Mas isso seria se tivessem for√ßa an√≠mica para enfrentar as l√°grimas de mais algumas fam√≠lias.

                                                                                         39

          Mal In√°cio, Joaquim e Ramiro, acabaram as sandes, respigaram, de dentro dos sacos pl√°sticos, uns pares de cal√ßas e t-shirts, que, como o resto dos ciganos da pra√ßa j√° havia feito, foram vestir ao caf√©, transformado agora num gabinete de provas de pronto-a-vestir de uma feira ao ar livre.
          C√°rmen, com o filho mais novo ao colo a chorar, agora que a carrinha tinha de novo combust√≠vel, quis ir ao acampamento a fim de assistir ao levantamento dos restos mortais do filho, e dar, se poss√≠vel, o √ļltimo beijo num peda√ßo dele que estivesse reconhec√≠vel. O sol, no final da manh√£, caminhava indiferente ao encontro da tarde. Continuava aturdido com o fumo de mil fogos, quando o c√©u j√° se havia tornado numa negra circunfer√™ncia impeditiva de ver, para qualquer lado, a linha do horizonte, que parecia ter desaparecido de vez. E, enquanto os bombeiros, com bagas de suor a escorrer-lhes em caudal pela testa, combatiam ao longe as gigantescas labaredas como anjos ca√≠dos do c√©u, toda a gente sonhava com os dias pardacentos de inverno, varridos a chuva e a vento, ainda que pudessem trazer no ventre uma pequena cat√°strofe, dividida entretanto pelas aldeias como um pequeno mal, ou, mais especificamente, um mal necess√°rio. Ansiava-se, por antecipa√ß√£o, ao inv√©s daquele calor asfixiante, pelo aconchego de um cachecol, arrancado compulsivamente pelo frio dos arm√°rios para a saison. A mesma chuva que, em circunst√Ęncias como as de agora, seria o b√°lsamo para a grande ferida aberta pelo fogo na montanha e na alma de uma pequena aldeia. Mesmo que a √°gua fosse brava, sempre seria prefer√≠vel lidar com uma trag√©dia desencadeada pela m√£e natureza do que por m√£os humanas, e, sobretudo, assassinas. Al√©m de tudo, a agir na sombra. Ao menos, poder-se-ia culpar Deus pelo que pudesse acontecer. Ainda que n√£o fosse poss√≠vel sent√°-Lo num tribunal de comarca terreno, onde um dia esperava ver-se sentado o incendi√°rio que deitara tantas vidas a perder.


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« Responder #63 em: Junho 11, 2020, 09:27:31 »

√Č sempre dif√≠cil aceitar a solteirice da culpa...
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #64 em: Junho 11, 2020, 13:24:21 »

                                                                                           40

         Litos, mal subiu para a carrinha, come√ßou de novo a ficar inquieto, como quando chegara no meio da noite ao largo da pra√ßa com um terr√≠vel segredo que ainda n√£o conseguira desvendar. Lembrava-se da √ļltima vez em que viajara sobre ela, com o cora√ß√£ozito dos seus doze anos de mudo inflamado por um sentimento de dupla perda, para o qual n√£o tinha uma √ļnica palavra em que esse sentimento pudesse ser encaixado. A √ļnica coisa de que tinha a certeza era de que nunca mais iria brincar, nem com Ringo, nem com o pobre Manolito. E nenhum dos outros familiares, que com ele viajavam de regresso ao acampamento para a traslada√ß√£o dos restos mortais do irm√£ozito, foi capaz de o acalmar na sua surdez. Assim, seguiu grunhindo no seu sil√™ncio at√© l√°, durante os escassos quil√≥metros que durou a viagem. Com os ciganos, seguiram v√°rios carros e algumas motas, a que se juntaram alguns curiosos vindos entretanto da esta√ß√£o do comboio. Desde manh√£, mal a GNR chegara, os carros paravam constantemente, come√ßando os condutores a fazer perguntas √† patrulha, enquanto controlavam a vontade de escancarar a porta da carrinha como se, em vez de vinho ou cerveja para matar a sede que o calor for√ßava, quisessem embebedar-se de horrores. Ciganos de outras comunidades, alertados n√£o se sabe por que vozes, ao saberem da trag√©dia, dirigiram-se tamb√©m ao local onde j√° haviam feito o seu ritual de dor, intercalado entre gritos e l√°grimas, a exalta√ß√£o das qualidades da pobre crian√ßa morta. Acabados de chegar, viram de imediato o carro onde seguiria o corpinho mirrado da crian√ßa para o necrot√©rio e a equipa de t√©cnicos a preparar-se para a remo√ß√£o dos vest√≠gios com todos os cuidados. O ch√£o da mata, assim como a chapa e o esqueleto da viatura, ap√≥s doze horas desde igni√ß√£o, apesar de ainda bastante quentes, j√° haviam arrefecido o suficiente para poderem ser manuseados sem qualquer perigo. Al√©m de que os dois homens e a mulher destacados para a opera√ß√£o se encontravam munidos com os aparelhos necess√°rios para n√£o haver percal√ßos. Tudo era uma imensa mortalha negra, onde apenas se mantinham ao alto uns troncos de √°rvores calcinados, teimosos o suficiente para resistirem, quais testemunhas silenciosas, como o pobre Litos, ao desfraldar da pr√≥xima primavera.
          Rodrigo, durante o tempo de vigia ao corpo do sobrinho junto da GNR, com uma p√° de cabo resistente ao fogo, j√° havia enterrado o Ringo embrulhado no cobertor, bem mais inteiro e reconhec√≠vel do que estaria com certeza o pobre Manolito. Esse acto pouparia as crian√ßas, sobretudo Litos, do espect√°culo deprimente de verem de novo o companheiro de brincadeiras sem vida a desencadear-lhe dolorosas recorda√ß√Ķes. Do interior do animal e pela boca, desde a hora da morte at√© ao enterro, havia escorrido uma espuma verde viscosa, que confirmava as suspeitas de Ant√≥nio Pinto quando se referiu √† morte do c√£o como uma ac√ß√£o intencional levada a cabo por quem pretendia ir mais longe.
          Na impossibilidade de serenarem o rapazinho, todos os familiares acabaram por se lhe juntar num pranto semelhante e que j√° se tornara imagem de marca dos ciganos em qualquer parte onde a vida de membros da comunidade tivesse sofrido altera√ß√Ķes de monta. Desde a pris√£o, a casos de sa√ļde dentro de um hospital, ou de morte, como a que agora acontecera a dois ramos da mesma fam√≠lia que vivia em estreita proximidade numa mata sem grandes condi√ß√Ķes.
          -Meu rico filho! ‚Äď gritava C√°rmen, ainda antes de descer, ajudada por In√°cio, enquanto Sameiro, sobre a carro√ßaria e igualmente chorosa, se encarregava de tomar conta de Bruno, o irm√£ozito mais novo, a quem os gritos de todos incutiam o terror irracional de um cont√°gio sem explica√ß√£o, desencadeado geralmente por coisas m√°s.
          -Que mal teria feito este anjinho para ser assim levado para o c√©u?- questionava Luzia sem esperar resposta. Nem de Deus nem do Diabo.
          -Hei-de matar o maldito que fez tudo isto! ‚Äď jurava In√°cio no meio de violentos solu√ßos -. Um bal√°zio no meio dos cornos e nunca mais far√° uma coisa assim! Hei-de ir √† procura dele, nem que seja ao Inferno!
          -Ele n√£o escapar√° irm√£o! At√© pode ser a √ļltima coisa que fa√ßa na vida, mas juro-te que o cabr√£o h√°-de ir desta para melhor na ponta da minha navalha, com uma facada nas tripas como um porco! Nem que por causa disso venha a passar o resto da minha vida na cadeia!
          Os outros membros da comunidade, da sua miss√£o de solidariedade para com os enlutados, evolu√≠ram para um trabalho de apaziguamento dos dois homens, que juravam vingan√ßa indiferentes a qualquer castigo. Muito menos dos homens. E todos eles sugeriam, prudentemente, calma aos exaltados, enquanto, no √≠ntimo de cada um, borbulhavam mil e uma interroga√ß√Ķes e outras tantas suposi√ß√Ķes acerca da autoria daquela barbaridade, sancionadas por pragas em modo de maldi√ß√£o cigana:
‚ÄúJunto-me √† jura, Resolve-se tudo num instante, Aquilo foi coisa dos Vieiras, Se o velho era um homem bom, os herdeiros s√£o uns assassinos, Est√£o por minha conta, Se lhes puder ser bom, n√£o escapam, Hoje por eles, amanh√£ por n√≥s, Que n√£o tenha paz nem sossego quem mandou um anjinho para o c√©u dentro daquela carrinha, queimado como um ti√ß√£o, Afinal os compadres eram gente de bem, Vendiam os p√≥los falsificados nas feiras e n√£o se metiam com ningu√©m, E a droga √© um neg√≥cio como outro qualquer, Como as armas, como os cestos, Ningu√©m obriga ningu√©m a ir a um acampamento comprar seja o que for, N√£o se lhe aponta nenhuma pistola √† cabe√ßa, E depois o que pode um cigano fazer no meio dos paisanos se estes fogem de n√≥s como se tiv√©ssemos uma doen√ßa m√°, Algu√©m daria um emprego a um de n√≥s? At√© os que t√™m jeito para a bola passam a vida a ser criticados, por tudo e por nada. Desconfiam deles √† mais leve coisa, √Č bem feito o que lhes fazemos, Cambada de gente com a mania de que √© melhor do que n√≥s, N√≥s que temos de viver, como eles, N√£o vivemos de ar e vento, Temos de ir ao supermercado para dar de comer aos nossos filhos, Haviam de estar no nosso lugar para saberem o que elas mordem, Tanta gente na aldeia e aqui s√≥ est√£o meia d√ļzia de gatos-pingados. √Č s√≥ para coscuvilhar. Mas nos outros dois mortos deve ter estado uma multid√£o‚ÄĚ.
          -Deixem l√° compadres. Deus Nosso Senhor h√°-de dar o pago a quem fez semelhante coisa ‚Äď aconselha um cigano velho, vestido de negro, que parecia ser o chefe do cl√£ solid√°rio, apontando para o c√©u cinzento ‚Äď. N√£o vale a pena estragarmos a vida, quando nada nem ningu√©m escapar√° √† f√ļria do alto.
          -Compadre, h√° feridas que ningu√©m consegue sarar. A perda de um filho √© uma delas ‚Äď gemeu In√°cio, com quem C√°rmen concordou no meio das suas l√°grimas, limpas a seguir √† manga curta da t-shirt.
Luzia, com um saco plástico na mão e amparando de vez em quando a barriga, ainda fez despoletar na cunhada e no marido o receio de que a criança, sem nenhum sentido de oportunidade, como todas as crianças no nascedouro, resolvesse irromper por aí a qualquer momento. Mesmo ali no meio de nada, um Menino Jesus feminino nascido em Agosto. Mas os seus gestos não passavam, mais ou menos, de uma carícia maquinal à roupa que trazia, um vestido largo, ainda da gravidez de Catarina e que tinha para esta um trágico significado.
          A determinada altura chamou Rodrigo, a quem se propunha entregar o p√£o e o pacote de leite achocolatado, menu id√™ntico ao que os outros membros haviam comido antes. O homem recusou. Apetecia-lhe tudo menos comer. Durante o tempo que passara ali sozinho, s√≥ com os agentes da GNR, a quem n√£o podia confessar as preocupa√ß√Ķes, mais do que qualquer outro membro do cl√£, pudera pensar da dimens√£o total da perda: para al√©m de uma vida, o ouro que desaparecera no meio dos ti√ß√Ķes e se enterrara de baixo da terra, √† semelhan√ßa do que teria de ser feito com Manolito; as pistolas e as ca√ßadeiras; o produto, sobretudo. Os cestos de verga eram coisa pouca, comparados com as d√≠vidas que, da√≠ a pouco, o fornecedor viria cobrar, prometendo um adiamento de mais uns dias, poucos para quem ficara reduzido a zero. Mas, talvez, no meio das finas camadas negras de roupa calcinada pelo fogo, ainda pudesse ser encontrado um cord√£o de ouro, utilit√°rio e salvador ou outras coisas assim.
          Quando se preparava para regressar para mais pr√≥ximo da carrinha onde as autoridades faziam o seu trabalho, Luzia, fazendo men√ß√£o de lhe entregar um saco com umas cal√ßas de ganga e uma camisola, sugeriu-lhe lhe que fosse √† carrinha e se vestisse com elas.
          -N√£o quero. Ao menos para j√° ‚Äď respondeu, com um olhar enigm√°tico, e como se tivesse algo importante a fazer antes de branquear o seu aspecto atrav√©s daquela roupa usada.
          -Fica mal a um cigano estar assim vestido no meio de paisanos e com a morte de um sobrinho.
          -N√£o te rales, mulher. Tenho uma coisa importante a fazer‚Ķ  
          -Diz mal queiras ‚Äď replicou Luzia com o mesmo ar de quebranto que se abatera sobre toda a fam√≠lia mas moderando as lamenta√ß√Ķes, sem a mais pequena ideia do que se passaria na cabe√ßa do marido.
          -Guarda-a para o funeral do Manolito.
          Quando tudo terminou e o pequeno cad√°ver estava prestes a ser levado para a morgue, todos os ciganos, sobretudo os familiares da crian√ßa, preparava-se para seguir atr√°s do carro. Ainda que nenhum deles tivesse no bolso um c√™ntimo para as ex scuts, onde, for√ßosamente, teria de passar o ve√≠culo com os restos mortais de Manolito, deviam-lhe este primeiro cortejo f√ļnebre. Se, noutras circunst√Ęncias igualmente dif√≠ceis, nunca nenhum cigano se encolhera perante dificuldades como aquela, n√£o era num dia triste assim que o iria fazer, fugir com o rabo entre as pernas como c√£es sem personalidade. Talvez ali, com tantas pessoas da ra√ßa a apoi√°-los, n√£o fosse dif√≠cil conseguir alguns euros para matar essa arrelia e outra qualquer, que, de todo em todo, n√£o pudesse ser ignorada.
          Litos, sobre a furgoneta, seguia os movimentos de toda a gente, com o mesmo ar de lamenta√ß√£o que s√≥ o abandonara durante o sono, j√° a madrugada ia alta. Ainda tivera esperan√ßas de ver o irm√£ozito uma √ļltima vez, mas n√£o fora poss√≠vel. Com certeza por ele agora ser pouco mais do que um toco de carv√£o de lareira apagada, incapaz de fazer algu√©m acreditar ter existido ali algum dia uma vida. Isso aumentara-lhe o desespero. Tanto mais que n√£o fora dotado com palavras para poder exprimir esse e desesperos semelhantes, de modo a ser compreendido como toda a gente. E quando In√°cio, depois de ajudar C√°rmen a subir para a carrinha, se preparava para fazer o mesmo, Rodrigo abeirou-se dele com ar de mist√©rio. Olhando para os barracos de tijolos, agora enegrecidos pelo fumo, constru√≠dos √† revelia dos Vieira, segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido, como um ca√ßador de tesouros que n√£o pretendia dar a conhecer o local da escava√ß√£o sen√£o ao parceiro de garimpo:
          -N√£o vou convosco. Agora que tudo est√° bastante mais frio, preciso de tentar encontrar salvados‚Ķ Passem por aqui no regresso‚ĶAlguma coisa h√°-de ter escapado‚Ķ
          In√°cio concordou em sil√™ncio.
          A seguir, com autoridade de chefe de cl√£, da decis√£o do irm√£o informou a cunhada, com um ar enigm√°tico e augurando praticamente um milagre, que, da√≠ a pouco, ira acontecer, por entre todas aquelas coisas mortas. Rodrigo ficaria no acampamento a cuidar de assuntos inadi√°veis, como inadi√°vel seria tratar, na melhor tradi√ß√£o cigana, mal o corpo ficasse dispon√≠vel, do enterro de Manolito, perpetuando na mem√≥ria colectiva um anjinho que partira contra a vontade para a √ļltima viagem e da forma mais terr√≠vel. Por isso, teria ele de conduzir a carrinha com treze pessoas em cima, distribu√≠das entre a cabine e a carro√ßaria, onde C√°rmen se revezaria no conforto aos quatros filhos que lhe restavam. Desde logo o inconsol√°vel Litos e o pequeno Bruno. Ramiro e Sameiro j√° eram adultos o suficiente para suportar melhor a dor e dar livre curso ao caudal das l√°grimas e do sofrimento.

                                                                                                       41

          Mal se iniciou a viagem, na estrada vestida de negro de um lado e de outro, enquanto os carros da pol√≠cia e do delegado de sa√ļde seguiam cada qual o seu destino, com a comitiva de ciganos atr√°s, os rapazes das motas e mais alguns habitantes da aldeia dispersaram, deixando Rodrigo entregue aos seus escombros. √Äquela hora, a fome principiava a apertar, e o cigano, mal se viu sozinho, comeu a sandes que Luzia, momentos antes de partir, teimara em entregar-lhe, juntamente com o saco pl√°stico das cal√ßas e da t-shirt, que deveriam servir para o funeral da crian√ßa. Bebeu igualmente o leite achocolatado, e, j√° um pouco mais revigorado, abeirou-se depois da carrinha onde os p√≥los calcinados, lembrando-lhe o pobre do sobrinhito, lembravam-lhe igualmente que, ali derretido com os len√ß√≥is de refugo, estava o ganha-p√£o de duas fam√≠lias, a bendita ‚Äúfarinha‚ÄĚ. Parte dela ainda por pagar ao fornecedor.
          De seguida, olhando √† volta, tentou reconhecer, nas mil e uma folhas negras, quais past√©is de massa folhada queimados no forno, restos de objectos de que um dia se pudesse ter servido enquanto ali vivera: um par de chinelos a que as labaredas houvessem poupado as pontas, bacias de pl√°stico retorcido e encolhidas pelo calor, com a cara √† banda mimada por um √°vido soco. E era, na verdade, o que tudo aquilo passara a ser, um violento soco na alma de todos.
          Refeito, em parte, da emo√ß√£o, aproximou-se do seu barraco, de onde saiu uma baforada de ar quente. Antes de decidir entrar, colocou as m√£os na orla da porta. Esta tinha desaparecido, deixando as dobradi√ßas negras e desamparadas √† mostra. L√° dentro era igual √† parte de fora. E quando, da√≠ a instantes, p√īs o p√© no interior, sentiu o ch√£o ainda a arder, tomando consci√™ncia de que t√£o depressa n√£o poderia tentar recuperar, de baixo da cama de ferro do casal encontrada no lixo no tempo em que montaram a casa, pelo menos alguma parte do seu ouro.


                                                                                    XXXIV

           -O homem n√£o est√° bom dos miolos! ‚Äď exclamou Mateus Rosa, t√£o conhecedor das caracter√≠stica da verdadeira riqueza. Devia estar farto de saber que o ouro derrete a cerca de mil graus Celsius. O fogo atingira certamente  bem mais do que isso.
          -Ele sabe. Mas, de momento, como o preju√≠zo lhe toca na pele, esqueceu-se. Quando o vai vender na candonga, sabe bem qual √© o destino dele ‚Äď acrescentou Fausto, conhecedor dos h√°bitos comerciais de pessoas ligadas ao mundo do crime e que tenham essa nobre liga como mat√©ria-prima ‚Äď. Mesmo que o comprador esteja autorizado a negociar com ouro, n√£o √© segredo para ningu√©m que, vinte dias ap√≥s a compra, ele √© derretido e moldado em barras, renovado todas as vezes que isso acontece pela alquimia do fogo.
          -Pode ser que tenha sorte ‚Äď aventurou Domingos ‚Äď. Acabei de ver um chinelo com a ponta poupada. Talvez algum cord√£o, ou um alfinete de gravata antigo, possam ser ainda recuperados com vida ‚Äď sublinhou, enquanto experimentava  uma sensa√ß√£o esquisita. Isso deixava-o perdido e a meio caminho entre o hotel, onde o amigo o acolhera em apuros, e a aldeia do Eito representada na tela, e de que, de alguma forma, a trag√©dia de duas fam√≠lias o tornara mais um membro, revoltado com a horrenda ac√ß√£o de Telmo. Era por causa disso que dele se ia apoderando uma forte vontade de fazer ao protagonista o que o protagonista fizera a tr√™s inocentes: lan√ßar-lhe fogo e mand√°-lo para o Inferno, como Telmo  mandara tr√™s almas para o c√©u atrav√©s do  recurso ao maldito isqueiro.
          Assim, numa estranha intermit√™ncia entre realidade e fic√ß√£o, Domingos interrogava-se acerca de Fausto e do seu poder, bem como da droga que lhe ele dera no seu quarto de Pr√≠ncipe da Montanha para lhe amaciar a ressaca. Talvez Fausto tivesse duas caras e uma delas talvez fosse a pr√≥pria cara do Diabo, que, em diversas circunst√Ęncias, sobretudo ao longo da visita ao complexo tur√≠stico ciceronizada pelo anfitri√£o, pareciam sugerir-lhe. Nomeadamente o precip√≠cio, em cujo caminho se cruzara com almas desgarradas como quem vai ansioso para o suic√≠dio, sin√≥nimo de liberta√ß√£o. Quem viva no inferno talvez nunca consiga sair dele. Da√≠ o desespero.
          Orlanda surgiu entretanto √† porta da sala. Fez sinal a Fausto de que mais um amigo acabara de fazer uma reserva para uma estadia longa‚Ķ
          Fausto, pedindo desculpa aos companheiros, levantou-se depois de os informar de que acabava de ocorrer uma emerg√™ncia na recep√ß√£o.
          -Podem continuar. N√£o demorarei, estou em crer ‚Äď mas Mateus Rosa e a amante aproveitaram o ensejo de se libertar do drama que Fausto escolhera para o tempo de lazer do amigo, sabe Deus com que fim.

continua




« Última modificação: Junho 11, 2020, 20:21:18 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #65 em: Junho 11, 2020, 19:56:28 »

E o romance adensa-se!
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #66 em: Junho 12, 2020, 11:58:58 »

                                                                                      42

          Rodrigo, de cal√ß√Ķes, t-shirt e sapatos pretos de pala, que o deixavam algo rid√≠culo, impossibilitado pelo calor de procurar o seu tesouro debaixo das cinzas e algo desiludido, tendo de esperar ali o regresso da fam√≠lia, sentou-se pensativo num pequeno muro da estrada. Sozinho, por agora, triste com todos os acontecimentos, pela primeira vez se dera conta de j√° n√£o fumar um cigarro desde a v√©spera, antes de se deitar ainda com a vis√£o do seu mundo ali √† frente intacta. Sentiu, como nunca, a falta de tabaco. Mas, pobres como estavam, t√£o cedo n√£o poderia dar-se ao prazer de p√īr um cigarro nos l√°bios para matar o v√≠cio por um instante. O dia continuava com o mesmo ar viciado dos √ļltimos tempos, desde que Julho se despedira do calend√°rio, mortal como uma adaga. O calor, √†quela hora, prenunciava uma tarde abrasadora, fustigada de novo a vento leste, com mais um c√©u pl√ļmbeo invadido pelo fumo de todos os inc√™ndios, em cont√≠nua labora√ß√£o de norte a sul numa guerra √† escala nacional.
          Enquanto lamentava a decis√£o de n√£o ter acompanhado a fam√≠lia na viagem de Manolito e se via impossibilitado de ia at√© √† morgue a p√©, principiou a sentir uma sede de homem pouco habituado ao deserto. Nem um p√°ssaro se via por ali, uma mosca, uma lagartixa a rabear, sa√≠da de um buraco para apanhar o sol de in√≠cio de tarde. A mem√≥ria trouxe-lhe lembran√ßas da mata, verde e de p√© ainda na v√©spera, ao passo que hoje n√£o havia ali uma √ļnica √°rvore capaz de derramar sobre si uma nesga de sombra. Tudo estava morto. Aqueles tocos ao alto, aqui e ali, eram a nova realidade, absolutamente fantasmag√≥rica. Todos teriam de a enfrentar com a coragem poss√≠vel, mais ao deus dar√° do que nunca. E, com a secura a rebentar-lhe l√°bios e a assorear-lhe a garganta, ponderados os pr√≥s e os contras de n√£o estar ali quando In√°cio regressasse, decidiu p√īr-se a caminho da aldeia, onde sempre poderia pedir um copo de √°gua √† propriet√°ria do caf√©. Talvez o irm√£o tivesse j√° as coordenadas do funeral do sobrinho, alinhavadas entretanto √† porta da morgue. O cangalheiro incumbido de levar at√© √† √ļltima morada os restos mortais de Diogo e de Ana Rosa devia andar por l√° nos preparativos para os enterros. Ao menos este assunto j√° estaria, com certeza, em vias de ser resolvido. E a refor√ßar-lhe a decis√£o de sair dali estava Pepe, o cavalo, que, como ele, estaria provavelmente sequioso e irritado com as moscas a dan√ßarem-lhe no focinho como vampiros apreciadores de um bom travo de ureia.
          Ao longe, o silvo dolente do comboio deixava-o mais s√≥ do que nunca. E quando, da√≠ a nada, sentiu um carro atr√°s de si e se virou com a inten√ß√£o de pedir, com pouca convic√ß√£o, boleia ao condutor, viu finalmente uma equipa de televis√£o parar ao seu lado como o prop√≥sito de lhe fazer algumas perguntas. √Äs vezes a televis√£o chegava aos locais da trag√©dia primeiro do que os bombeiros, mas, neste caso, dividida pelos quatro pontos cardeais, a fazer a cobertura de um ver√£o pr√≥digo em labaredas, chegara quando o fogo andava entretido noutro quadrante, a queimar o que a ac√ß√£o dos bombeiros n√£o conseguisse impedir. Embora, sabendo-o ou n√£o, a equipa tivesse chegado ao ber√ßo do fogo, um acampamento de gitanos agora reduzido a cinzas e a mem√≥rias tristes.
          Depois de sair da viatura, identificada com o nome da esta√ß√£o, uma jovem rep√≥rter de rabo-de-cavalo, com a certeza que a pele daquele homem de cal√ß√Ķes e algo enfarruscado lhe dava a entender estar perante um cigano, a seguir ao ‚Äúboa tarde‚ÄĚ,  a medo perguntou-lhe:
          -Desculpe, mas √© por acaso parente das pessoas que aqui moravam?
          -Eu morava aqui‚Ķ
          -Lamento muito‚ĶEnt√£o n√£o se importa de me dizer o que se passou, se conseguir? ‚Äď Deve estar abalado com tudo, mas o meu papel neste caso √© informar‚Ķ
          -T√™m, por acaso, a√≠ alguma √°gua? Estou a morrer de sede!...
          Quando o ar calcinava gargantas por todo o lado, era inevit√°vel andar desprevenido e sem uma ou duas garrafas do precioso l√≠quido. E quando um dos homens, de dentro do carro, lhe estendeu uma, Rodrigo esvaziou-a de um trago. A seguir, acedeu √† proposta da jornalista, antes de pedir um cigarro ao colega da rapariga.
          E de novo teve de lembrar a v√©spera fat√≠dica, com um c√£o envenenado √† porta, crian√ßas inconsol√°veis a assistirem praticamente √† morte do animal. Sobretudo Litos e Manolito, este a morrer depois carbonizado dentro da carrinha dos p√≥los enquanto todos fugiam do fogo sem suspeitarem de que este lhes acabava de roubar um dos seus.
          -E a Judici√°ria j√° veio aqui recolher vest√≠gios? ‚Äď perguntou ela?
          -Essa ainda n√£o. Esteve a GNR. At√© levarem o corpo para a morgue.
          -N√£o √© costume. Mas sei l√°‚Ķ
         Mas, em off, a jornalista comentava que os inc√™ndios n√£o eram situa√ß√Ķes de investiga√ß√£o priorit√°ria. E isso era perfeitamente compreens√≠vel. Se em cada ver√£o, sempre que era noticiado um evento do g√©nero, sa√≠sse para o monte uma equipa de investigadores, nem a for√ßa e a m√£o-de-obra de um ex√©rcito chegaria para dar vaz√£o aos milhares de processos acumulados anualmente sobre as secret√°rias dos investigadores. Para isso, para um maior efici√™ncia, teria de haver um ou outro elemento que fizesse a diferen√ßa. Para pior, como no caso recente.
          -Ent√£o ainda deve vir recolher vest√≠gios. Afinal houve aqui uma morte, a que se seguiram outras duas na aldeia.
          Nesse meio tempo, haviam chegado ao local tr√™s motas conduzidas por outros tantos rapazes, seduzidos talvez pela eventualidade de uma imagem de dez segundos no ecr√£.
          Rodrigo, depois de responder √†s perguntas da jovem, pode finalmente acender o cigarro que lhe fora oferecido. Fumou-o avidamente, j√° a equipa arrumava o material usado para a reportagem. A vedeta fora principalmente a carrinha calcinada, que fora focada por v√°rias vezes. Ao lado, viam-se dois barracos de tijolo, erguidos no meio de uma mata de canganhos negros. E tudo ali contrastava com a aur√©ola rasteira onde, sobre o cobertor, tinha estado o c√£o morto, a primeira v√≠tima, ao que se supunha, de um incendi√°rio sem alma.

                                                                                      43

           Foi na viatura da televis√£o que Rodrigo, aproveitando a boleia e furtando-se a um caminho orlado pela aridez do calor, se disp√īs a ir indicar aos rep√≥rteres o local onde haviam perecido Ana Rosa e o pequeno Diogo. Enquanto isso, as motas seguiam atr√°s, com um ou outro carro chegado entretanto, dispostos uns e outros a sulcar a rota da trag√©dia. Nenhum deles sabia se por solidariedade, se por uma necessidade de se empanturrarem de horror at√© ao nojo, tentando enganar deste modo a dor. Nem Leandro, nem Catarina, nem qualquer outro membro da fam√≠lia estava por ali. E, mesmo que estivessem, n√£o quereriam provavelmente submeter o seu sofrimento ao escrut√≠nio nacional atrav√©s de imagens ou algum depoimento, que seria sempre doloroso.
Foi por isso um vizinho de Ana Rosa, um homem √† roda dos sessenta anos, a relatar de novo os acontecimentos, enquanto se procedia neste novo local √† recolha de imagens, completadas pelas informa√ß√Ķes do homem, que tamb√©m as vivera sem nada poder fazer para alterar o resultado.
          O s√≠tio onde, de momento, os bombeiros faziam frente ao fogo foi a etapa seguinte da reportagem, com o Chefe Cl√°udio a fazer o ponto da situa√ß√£o. Enumerou as corpora√ß√Ķes de bombeiros, os equipamentos e a escassez de meios para um combate mais eficaz, j√° que os avi√Ķes n√£o podiam ser para ali deslocados. Al√©m das caracter√≠sticas do fogo e do vento que o alimentava e das portas que seria preciso fechar para o circunscrever.
          Rodrigo, desde a Rua do Cabe√ßo, deslocando-se a p√© para o largo da igreja, com o saco da roupa na m√£o e sem se atrever a vesti-la por estar demasiado enfarruscado, mal chegou, deu de caras com o cavalo a beber √°gua no mesmo balde onde j√° havia bebido antes, cheio agora pela dona do caf√©, incomodada pelas relinchadelas do pobre animal.
          Enquanto esperava pelo regresso da fam√≠lia, o homem pegou em cada uma das coisas ali espalhadas e arrumou-as a um canto como se estivesse a limpar os restos de trapos e pap√©is de uma feira ao final do dia. Sendo hora do almo√ßo, muitos dos homens que haviam ajudado os bombeiros regressavam a casa, combinando entre todos uma colecta de √°gua e de alimentos para levar a seguir aos soldados da paz.
          Da√≠ a pouco chegou o Padre Fernandes, um homem moreno, dos seus sessenta e cinco anos. De estatura mediana e algo careca, vinha de uma missa de s√©timo dia, celebrada numa par√≥quia vizinha onde tamb√©m oficiava. A escassez de voca√ß√Ķes sacerdotais obrigava-o a dividir-se. √Äs vezes tinha quase de ser ub√≠quo, embora n√£o tivesse podido estar ali mais cedo quando tanta gente precisaria de uma palavra de conforto proferida na terra por um representante de Deus.
          Ainda antes de poder entrar na sacristia, dirigiu-se a Rodrigo, trocando com ele algumas palavras. Ao mesmo tempo, constatava qu√£o deprimente era toda aquela exposi√ß√£o de colch√Ķes, farrapos, cobertores e sacos pl√°sticos de boca aberta como a fome dos pobres. Apesar da recente arruma√ß√£o, tudo dava a entender uma gritante falta de h√°bitos de civiliza√ß√£o, de que eles n√£o teriam talvez toda a culpa mas que, ainda assim incomodava.
          N√£o demorou grande tempo at√© S√£ozinha, a zeladora da igreja, entregar ao p√°roco as chaves do templo e do equipamento destinado, durante o ano, a acolher as actividades dos escuteiros.
          Uns minutos ap√≥s, j√° o padre estava no interior das igreja. E, depois da entrevista √† televis√£o na qualidade de autarca, em que real√ßou um certo abandono por parte das entidades oficiais, surgiu Ant√≥nio Pinto afogueado. Entrou a seguir no templo para se encontrar com o p√°roco. O assunto que os obrigava a reunir a toda a pressa tinha a ver com o alojamento dos ciganos.
           -Como o senhor padre v√™, est√£o agora aqui ‚Äď disse apontando para a porta de sa√≠da, como que a sinalizar Rodrigo do lado de fora -. Treze pessoas, com outra a caminho. A mulher daquele ali fora est√° gr√°vida. Quase no fim do tempo. Os outros devem chegar daqui por um bocado. Devem estar agora √† entrada da morgue, sem um c√™ntimo furado no bolso. De comer ainda se vai arranjando, embora a junta n√£o nade dinheiro. Agora um barraco para os meter isso √© um bocado mais dif√≠cil.
          -E ent√£o, como poderia eu ajud√°-lo? N√£o estou a ver um local capaz de albergar treze pessoas com tais caracter√≠sticas‚Ķ
          -Pois. Talvez met√™-los por um dia ou dois nas instala√ß√Ķes dos escuteiros, se o senhor padre concordar‚ĶJ√° estive a matutar no assunto e o caso √© bicudo‚Ķ N√£o √© de uma hora para a outra que se lhe d√° solu√ß√£o. Certo, certo √© eles n√£o poderem ficar ali fora, a sujar o largo e a fazer barulho, de dia e de noite. At√© j√° a dona do caf√©, apesar de os pobres diabos estarem aqui h√° apenas cerca de doze horas, j√° se queixou de que lhe deixaram a casa de banho num m√≠sero estado.
           -E, ent√£o, na sua qualidade de autarca, quer o senhor presidente resolver o problema da Dona Celeste √† custa dos pobres escuteiros... ‚Äď ironizou o p√°roco
          -Bem‚Ķ
          -Na verdade adivinha-se que, deixando eles de causar mossa no caf√© e no largo, muito mais preservados do escrut√≠nio do olhar alheio, a ir√£o provocar no interior do edif√≠cio ‚Äď retorquiu o padre Fernandes, l√ļcido e acutilante.
          -Tem raz√£o. Por mais humanos e cheios de boa vontade que sejamos, n√£o h√° como fazer vista grossa ao estado semi-selvagem deles. E isso, √† partida, complica a solu√ß√£o. √Č claro que o meu medo, como o do senhor padre e de qualquer pessoa, √© eles entrarem num s√≠tio provisoriamente e abancarem l√° para sempre. Como fizeram no pinhal dos Vieira. Mas n√£o podem ficar l√° fora‚Ķ Nem sequer esta noite. Amanh√£ ou depois ser√° o funeral do rapazinho e temos de dar um pouco de dignidade √† quest√£o.
          -E o Senhor Ant√≥nio Pinto quer aproveitar a situa√ß√£o para ganhar mais alguns votos nas pr√≥ximas aut√°rquicas?‚Ķ- N√£o sei se estou disposto a contribuir para a sua estrat√©gia da vict√≥ria‚Ķ ‚Äď acrescentou o padre, a quem se conheciam simpatias pol√≠ticas noutro quadrante ‚Äď. Al√©m de que eu n√£o poderia decidir sozinho...  
          -Senhor Padre, n√£o esteja t√£o certo disso, dos votos!... Este assunto n√£o passa de um pau de dois bicos. Se eu conseguir tir√°-los daqui e p√ī-los num s√≠tio qualquer, a expensas da junta, ajudado eventualmente pelos servi√ßos sociais da c√Ęmara, se houver algumas pessoas a aprovar o resultado, talvez as mais sentimentais, as que morem mais longe do olho do furac√£o, h√°-de haver contudo um sector alargado da popula√ß√£o a acusar-me de gastar os poucos recursos p√ļblicos em prol de gente que n√£o paga um √ļnico c√™ntimo de impostos. Ent√£o se pensarmos na fama do acampamento como um antro de droga, por muita humanidade que cada um possa experimentar ela resvalar√° de imediato pelo cano de esgoto como um mal-entendido.
          -Mas, ser√° que n√£o h√° mais nenhuma hip√≥tese? Que tal uma pens√£o? N√£o seria a primeira vez!... Ali√°s, √© frequente isso acontecer quando h√° desalojados em situa√ß√Ķes de cat√°strofes.
          -Julga que n√£o envidei j√° esfor√ßos nesse sentido? J√° falei at√© com o presidente da c√Ęmara. Mas, qual √© o dono de pens√£o, ou de hotel, que quer ciganos alojados nas suas instala√ß√Ķes? E se os servi√ßos p√ļblicos est√£o vinculados aos preceitos constitucionais de n√£o descrimina√ß√£o, em fun√ß√£o da ra√ßa, ou credo religioso, os particulares arranjam sempre maneira de contornar isso. Foi o que se passou com duas ou tr√™s contactadas. Quando perceberam de quem se tratava, treze pessoas, entre adultos jovens e os restantes, crian√ßas dos dois aos dezasseis anos, as unidades passaram de vazias a abarrotar. E era eu quem as iria desmentir?


continua
                                                                          
« Última modificação: Junho 12, 2020, 12:48:33 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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outono


« Responder #67 em: Junho 14, 2020, 12:02:01 »

No tempo em que comecei a conhecer ciganos eram n√≥madas que pousavam de terra em terra,  ao frio, √† chuva, ao vento. Ningu√©m lhes abria a porta. Os tempos mudaram. Por isso, mas n√£o s√≥, vou abrir a porta. Afinal de cigano e louco todos temos um pouco.
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« Responder #68 em: Junho 14, 2020, 20:33:25 »

                                                                                         XXXV
          Com a emerg√™ncia que o obrigara a levantar-se sanada, Fausto chegou entretanto √† sala. Domingos falou de Mateus Rosa e de Rita, real√ßando a falta de coragem dos dois para assistirem ao resto da trama. Era ‚Äď haviam dito ao levantar-se ‚Äď demasiado dram√°tica para quem, ao longo da vida, nunca tinha sentido um √ļnico momento de escassez. Nem sequer na lata do p√£o. Muito menos de um naco de felicidade que pudesse ser comprada pelo bendito dinheiro.
          Domingos, de novo seduzido pelo carisma do amigo, depois das d√ļvidas de h√° pouco sobre a sua idoneidade, e perante a fartura de tudo com que o presenteara como um verdadeiras m√£os largas, p√ī-lo ao corrente do enredo visionado durante os cinco ou dez minutos de aus√™ncia de Fausto.
          -O padre e o presidente da junta est√£o a discutir a possibilidade de In√°cio e a fam√≠lia irem para as instala√ß√Ķes dos escuteiros. Mas parece-me que o homem estar√° a fugir com o rabo √† seringa. Acaba de sugerir a Ant√≥nio Pinto para mandar os ciganos para uma pens√£o. Este respondeu-lhe que j√° o tentou, sem encontrar uma √ļnica dispon√≠vel, depois de todas elas demonstrarem a pouca import√Ęncia que d√£o √† constitui√ß√£o da rep√ļblica no que diz respeito a minorias √©tnicas.
          -N√£o era de esperar outra coisa. O melhor lugar para os ciganos, gregos, s√≠rios e troianos √© sempre longe da porta. √Č o que todos pensam. Quem escreveu esses princ√≠pios n√£o passa de um rom√Ęntico saudoso do tempo em que os z√≠ngaros erravam pelo mundo, levando atr√°s de si o misticismo das suas lendas. Sobretudo quando as mulheres paisanas, geralmente sacrificadas com in√ļmeros deveres e sem grandes contrapartidas sen√£o parirem uma crian√ßa todos os anos, queriam saber do futuro, adivinhado por uma cigana velha nas palmas das suas m√£os. Nessas √©pocas long√≠nquas, n√£o se sabendo de onde eles vinham os ciganos eram vistos como gente proveniente de uma terra encantada, para l√° dos sonhos e da imagina√ß√£o. Sobretudo das crian√ßas. Era comum estas imaginarem-se a viajar com eles, a ouvir os seus contos fant√°sticos, a partilhar-lhes da magia do colorido das suas roupas de panos tingidos e vindos da √ćndia. Era o que eu sentia quando, entre Setembro e Fevereiro, ouvia o chiar penetrante da carro√ßa a rolar pela estrada e os via, depois, debru√ßados nas cancelas das casas, √† procura de um porco morto de doen√ßa. Mesmo enterrado h√° tr√™s dias. Numa sabedoria milenar, acreditavam estar imunes √† transmiss√£o da peste que vitimara o animal. Talvez por se julgarem mesmo uma ra√ßa encantada, quase supra-humana, vinda de uma outra gal√°xia. Salgada a carne, com sal-gema grosso, havia comida para um bom par de meses. Sobretudo se a morte, nesse ano, durante o cevo dos porcos, tivesse visitado umas poucas de pocilgas em tempo de gripes. Uma galinha enterrada h√° um dia ainda a desenterravam e comiam, mas de uma cabra, acabada de morrer, fugiam como o diabo da cruz.
          Agora, depois de os obrigarem √† fixa√ß√£o, apesar de todas as leis, foi-se a magia e os problemas acamparam com eles. S√£o poucos os que se integram, s√£o poucos os que cedem um bocado dos seus costumes para se adaptarem a uma vida social criada por decreto para os tornar o que eles nunca se sentiram, nem ser√£o. Nem a maioria da popula√ß√£o quer que eles sejam. Essa √© que √© a verdade.
          E se o Padre Fernandes e o presidente da junta, de baixo do telhado da igreja e sob o olhar dos santos, qualquer que ele fosse ‚Äď de toler√Ęncia ou de admoesta√ß√£o ‚Äď, haviam posto o dedo na ferida, em nome dos interesses de uma comunidade, Fausto ia mais longe. Acusava, um e outro, de serem dois hip√≥critas, a quem n√£o interessava um dedal o bem-estar das treze criaturas despejadas do acampamento por um incendi√°rio ainda desconhecido. O foco da quest√£o deslocava-se, de onde deveria estar, para se situar na perspectiva dos danos que a situa√ß√£o pudesse um dia causar √† popula√ß√£o. O que nenhum dos dois desejaria era ter, a queimar-lhe as m√£os como castanhas quentes numa tarde fria de outono, um problema de tais dimens√Ķes. Um problema capaz se se tornar el√°stico, √† medida que se lhe puxassem os fios intrincados e dif√≠ceis de deslindar, por estar em causa gente cujos h√°bitos, incluindo os de higiene, eram tudo menos ortodoxos. Pelo menos aos olhos dos patr√≠cios.
          -A maneira como vivem √©, de facto, pouco convidativa √† integra√ß√£o. A um domingo √† tarde, quando quem n√£o toma banho todos os dias, se lava ao menos para ir √† missa, os homens e rapazitos estavam sujos e remelosos. S√≥ C√°rmen e a filha pareciam limpas. Pelo menos Telmo n√£o desviou o nariz quando se cruzou com elas no comboio, como t√™m de fazer passageiros sens√≠veis brindados, demasiadas vezes, com o mau odor de criaturas pouco amigas da √°gua e do sab√£o.
          -Seja como for, aqueles dois, ali a tecer destinos como quem disp√Ķe as tiras de trapos no tear, regem-se por tudo menos por raz√Ķes humanit√°rias. √Č a esta gente que, na primeira oportunidade, gosto de apanhar a jeito‚Ķ
          -Para qu√™? Para os reciclares? ‚Äď perguntou Domingos, sorrindo ‚Äď. Quem te ouvir pensar√° que tens uma f√°brica de moldar cora√ß√Ķes como se eles fossem de pl√°stico.
         -A meu modo, tenho‚Ķ Na verdade, sinto-me sempre provocado com gente como aquela, e nunca deixo de reagir. Melros iguais ao padre e ao presidente da junta h√°-os aos milh√Ķes em todo o mundo. E s√≥ t√™m provocado estragos na humanidade. Os pol√≠ticos s√£o, a maioria deles, uma ra√ßa maldita. Ent√£o os europeus e os americanos, com a sua grande percentagem de pessoas oriundas do velho continente, os √ļnicos esp√©cimes da cria√ß√£o humana que se acham civilizados, s√£o respons√°veis pela maioria deles nas suas deambula√ß√Ķes pelo globo.
          -N√£o te esque√ßas que n√£o √©s Deus, Fausto. N√£o podes mudar o mundo com um estalar de dedos. As coisas levam s√©culos a mexer-se. Al√©m de nem sequer acreditares em Deus‚Ķ - fez notar Domingos.
          -Ora a√≠ est√°. Os senhores de quem falo, esses sim, julgam-se Deus. Quando est√£o em jogo certos interesses, saem da toca armados at√© aos dentes, dispostos a impingir os seus costumes a povos que nunca os partilharam, nem partilhar√£o, durante o tempo de vida no planeta. Pois se alguns povos, por exemplo, sempre se deram bem com a poligamia, por que raio n√£o h√°-de um homem, um soba africano, ter sete mulheres? Se tiver setenta filhos, dez de cada uma, morrendo trinta ou quarenta por cento, o casamento torna-se na condi√ß√£o b√°sica de sobreviv√™ncia da esp√©cie. E para que lhe h√£o-de levar antibi√≥ticos se depois eles n√£o t√™m de comer? Se ao menos lhe levassem √°gua!... E se sempre se deram bem e conseguiram at√© grandes prod√≠gios civilizacionais com uma ditadura, por qu√™ exportarem para l√° a democracia, quando ningu√©m faz ideia do que isso seja?
          -Tens raz√£o‚Ķ
          -Pois, √© mesmo destes que eu gosto, para os queimar no Inferno‚Ķ
          Se, em certas ocasi√Ķes, Fausto parecia estar ao lado dos mais desvalidos, noutras, ao fazer o levantamento exaustivo da choldra global em que o mundo se transformara, comportava-se como um verdadeiro advogado do diabo. √Äs vezes parecia que o seu lugar era entre os grandes criminosos, como se vivesse para ser continuamente estimulado atrav√©s de sangue e horrores e quisesse advogar irrevogavelmente nas suas causas sinistras. Ou, ent√£o, √† medida que o tempo passava, as drogas tinham em Domingos um efeito que o levavam, progressivamente, a duvidar da generosidade do amigo.


                                                                                       44
          -Senhor presidente, o assunto √© deveras complicado. Mas, n√£o haver√°, de todo em todo, outra solu√ß√£o? At√© pode ser que eles nem queiram nada disto‚Ķ Talvez tenham fam√≠lia‚Ķ
          -N√£o me parece. Se assim fosse, n√£o viveriam h√° anos na mata dos Vieira. Sobretudo depois de estes estarem fartos de lhes pedir para desocupar o terreno‚Ķ Entre amigos, falou-se tamb√©m, e ainda, de uma casa √† venda a que ningu√©m pega por causa da fama de estar assombrada‚ĶFoi o Jo√£o dos frangos quem a sugeriu, ele que tamb√©m ficou sem o avi√°rio‚Ķ
          -Talvez seja boa ideia. Como padre, n√£o me proponho ir l√° fazer um exorcismo. Mas pode ser que uma magia cigana resolva o problema aos fantasmas, espantando-os definitivamente para o reino dos mortos ‚Äď sorriu, depois de ironizar com as almas do outro mundo
          -Se calhar‚Ķ
          -Quando √†s instala√ß√Ķes dos escuteiros, nada feito. N√£o vou permitir que as transformem em aidos onde os ciganos se recolheriam em irmandade com cavalos e galinhas. A organiza√ß√£o merece-me todo o respeito.
          -√Č a sua √ļltima palavra, senhor padre?
          -Com certeza.
          E, entre dentes, Ant√≥nio Pinto esbo√ßou sobre o assunto conjecturas: ‚Äú Quero ver como vai ser com o funeral do rapazito, Um bico-de-obra se os corpos forem libertados da morgue no mesmo dia, Como n√£o caber√£o os tr√™s na capela mortu√°ria, vai ser bonito, Se calhar nem a Catarina nem o Leandro quereriam junt√°-los, Nem o resto da popula√ß√£o gostaria de se misturar com os ciganos, nem sequer no cemit√©rio, Mas isso √© um problema teu. O do alojamento j√° me chega, Resolve como quiseres‚ÄĚ.
          A seguir, ao sair da igreja, comparou as suas fun√ß√Ķes pol√≠ticas com a humanidade de Cristo, tantas vezes apregoada ali dentro em serm√Ķes de missa, e concluiu que umas e outra se equivaliam. √Äs vezes n√£o levavam a nada.
Passou, depois, frustrado pelo insucesso da dilig√™ncia junto do padre, por Rodrigo, brindando-o, n√£o com qualquer palavra, mas com uma express√£o de compreens√£o pela perda do pobre Manolito e dos bens de primeira necessidade de duas fam√≠lias, ignorando os neg√≥cios escuros de que o acampamento seria palco. Neste caso, e no meio de algumas contradi√ß√Ķes, uma pequena frase diria tudo ‚ÄúBem feito!‚ÄĚ
          O calor abatia-se sobre tudo. Milhares de fagulhas mortas, a bailar no ar, procuravam, mais em baixo, caminhos, telhados, terra√ßos e o que encontrassem √† m√£o para se aquietarem um pouco. Sobretudo roupa branca a secar nas varandas, em que se espetavam como mosquitos confiantes nas suas garras predadoras. O som de uma buzina de bombeiros, ao longe, chegava algo esbatido ao centro nevr√°lgico dos acontecimentos, o Largo da Igreja do Eito, enquanto Ant√≥nio Pinto continuava com um grande problema por resolver.
          O homem entrou a seguir no caf√©. Por ser hora de almo√ßo, ali estavam agora Heitor e Ricardo, marido e filho da Dona Celeste, que, na parte superior da casa, ultimava a refei√ß√£o para os tr√™s. E, do caf√©, pode ver alguns homens enfarruscados a sair de carros vindos da frente de fogo. Este, mais ao longe, principiava a galgar os limites do concelho, para se ir empanturrar com as matas vizinhas depois de ter devastado as da terra deixando por todo o lado as marcas de uma passagem devastadora.
          Quando, da√≠ a nada, saiu, embora Heitor j√° soubesse de que m√£os criminosas se haviam apoderado do dinheiro e do ouro da velha Madalena, nada disse a Ant√≥nio Pinto.
          O presidente cruzou-se, a seguir, com o jeep de Nelson, o actual namorado de Marisa, depois de esta, tempos atr√°s, ter descartado Telmo da sua vida como "persona non grata". E, antes de abandonar o largo, onde o cigano ficou sozinho, sentado no banco sob a ac√°cia, Ant√≥nio Pinto pode ver Nelson, algo circunspecto, a entrar na rua da rapariga, enquanto alguns homens se dirigiam √†s suas casas para o almo√ßo. Incluindo Abel e os dois filhos, S√©rgio e Luciano. No fim da refei√ß√£o, todos preparariam um pequeno farnel destinado aos bombeiros, que n√£o arredavam da frente do fogo.

                                                                    45
           Marisa recebeu sorridente o seu estudante de veterin√°ria, antes de perceber que, de v√©spera, Telmo, no breve encontro com eles, quando se despediam √† porta de casa, havia causado alguns estragos na auto-estima do rapaz. Este, um jovem moreno de vinte e um anos, era pouco mais alto do que ela. O cabelo, algo crespo, situava-o numa descend√™ncia de segunda ou terceira gera√ß√£o com origem africana, confirmada pelos l√°bios grossos e pelo tom escuro da pele.
          Ap√≥s o primeiro beijo, demasiado fugidio da parte do rapaz, n√£o demorou muito at√© a rapariga perceber que a inseguran√ßa pessoal voltara a infernizar a vida do namorado. A ponto de for√ßar o encontro de hoje, quando n√£o esperaria que Nelson se aventurasse por estradas cortadas a meio do caminho por causa do fogo, depois de terem passado juntos o domingo.
          Mal subiram √† sala de casa onde Marisa, filha √ļnica, se encontrava sozinha, no dia em que os pais se haviam deslocado a Viana do Castelo por causa da venda de um terreno numa aldeia minhota, Nelson mostrou, quase de imediato, a farpa que o encontro da v√©spera lhe espetara cora√ß√£o. A mesma viera, certeira, quando a rapariga, virada para a rua durante as despedidas, se separara dele, aparentemente comprometida com o passado. Esse gesto, ao que agora lhe parecia, fora entendido por ele como se ela  ela tivesse sido tomada de assalto por um afecto antigo em que o namorado de outrora seria, com certeza, o destinat√°rio. E, depois de uma noite corro√≠do pelo ci√ļme, √†s voltas na cama como uma lagartixa a fugir ao calor, resolvera telefonar-lhe para esclarecer as coisas de uma vez por todas.




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« Última modificação: Junho 23, 2020, 16:38:22 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #69 em: Junho 22, 2020, 16:59:58 »

L√° tem que vir o ci√ļme. Esta gente n√£o aprende que mulheres h√° muitas. Talvez sete para cada um, segundo as estat√≠sticas.
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« Responder #70 em: Junho 24, 2020, 11:25:39 »

                                                                                      
                                                                                              XXXVI
          -Conhe√ßo uma rapariga parecida com a Marisa, mas n√£o consigo lembrar-me de onde. N√£o sei se √© por causa disso que n√£o simpatizo com ela‚Ķ √Č uma delambida, n√£o me inspira confian√ßa. √Č como se j√° me tivesse feito algum mal‚Ķ N√£o sei como, nem como n√£o‚Ķ N√£o me parece que goste muito do rapaz‚Ķ Por mim ele deixava-a‚Ķ
          -Gosta sim. E muito. S√≥ que o rapaz compara-se com o ex da Marisa e boicota-se a ele pr√≥prio. A jovem vai precisar de uma boa dose de paci√™ncia que lhe dar alguma tranquilidade. Telmo esteve talvez demasiado tempo na vida dela. Era ela uma crian√ßa quando ele a foi arrancar √†s saias da m√£e, com o primeiro olhar esverdeado que lhe lan√ßou. √Č natural sentir-se ainda perturbada com a sua presen√ßa. Mas n√£o necessariamente por ainda gostar dele.
          -De facto, o rapaz parece ter um fraquinho por mi√ļdas. N√£o deixou de deitar os olhos de cobi√ßa a Sameiro, quando a encontrou no comboio acompanhada pela m√£e e a manear as ancas, depois de as seguir at√© ao acampamento. A ciganita tamb√©m s√≥ tem quinze anos, ele √© um matul√£o de vinte e seis.

                                                                            

                                                                                                  46
          -Ontem, quando o Telmo se aproximou de n√≥s, ficaste estranha‚Ķ -come√ßou o rapaz por dizer.
          -Estranha, como? ‚Äď fitou-o surpresa, mudando a express√£o inocente com que iniciara o encontro e colocando-se em situa√ß√£o de p√© atr√°s com a conversa.
          -N√£o sei‚Ķ Foi como se o beijo, de repente, te come√ßasse a saber a sab√£o e precisasses de passar a boca por √°gua‚Ķ
          -Que ideia mais disparatada!
          -N√£o √© nada‚Ķ. Se visses a tua cara n√£o dizias isso...
          -E como √© que ficou a minha cara, podes dizer?
          -Desde logo, ficaste vermelha como uma cereja. Era como estivesses a fazer alguma coisa que ele n√£o devesse ver por estares a tirar-lhe direitos adquiridos ao longo da meia d√ļzia de anos em que estiveram juntos‚Ķ
          -Por acaso foi ele que acabou comigo?
          -N√£o. Mas s√≥ o deixaste por ele ser um traste mandri√£o, um drogado. O que n√£o significa que tenhas deixado de gostar dele...
          -Claro que deixei! N√£o sei por que vens agora com isso! Se estivesse feliz n√£o havia raz√Ķes para o largar! E tu est√°s a ser tremendamente infantil!
          -Ele ainda continua a ligar-te?
          -N√£o sei. Talvez anonimamente, de vez em quando. Mas essas chamadas eu n√£o as atendo.
          -Nunca me disseste isso‚Ķ
          -Para qu√™? Para te aborreceres comigo e ficares com essa cara de mal-amado?
          -N√£o era suposto partilharmos todas as coisas?
          -Nem todas, Nelson. Deus te livre de algum dia me pedires a palavra-chave do Facebook e do meu email. Muito menos te atrevas a vasculhar-me o telem√≥vel!
          -Ele fez-te isso algum dia?
          -J√° te disse que sim. Uma vez, j√° n√£o and√°vamos muito bem, devassou-me as mensagens. Nessa altura j√° estava l√° uma tua‚Ķ E por favor n√£o me fales mais nisso! O que eu quero √© esquecer que o Telmo existe! Tu passas a vida a lembr√°-lo, a traz√™-lo para o meio de n√≥s como um fardo para os dois!
          -Eu nunca te farei algo do g√©nero. Era incapaz de ler um email dirigido a ti sem seres tu a mostr√°-lo‚Ķ
          -N√£o sei, n√£o! Com essa mania de que √©s um rapaz desinteressante e que eu sou uma rapariga fatal, ainda acabas por deitar tudo a perder!
         -Desculpa‚ĶN√£o queria que levasses as coisas a este extremo...
         -Ai eu √© que estou em casa sossegada, dizes que queres almo√ßar comigo, fico toda contente e depois vens com essa conversa parva de que ainda estou apaixonada pelo outro anormal! Agora eu √© que levo as coisas ao extremo?
         -Desculpa ‚Äď disse Nelson mais uma vez ‚Äď sabes que sempre fui muito inseguro‚Ķ- e, depois de lhe pegar nos dois bra√ßos com suavidade, tentou beij√°-la, mas a rapariga soltou-se bruscamente, fugindo a seguir para o quarto de l√°grimas nos olhos.
          Nelson seguiu-a, confrangido com a situa√ß√£o que acabara de criar. Tinha, contudo, a esperan√ßa de ali, na macieza da cama, onde tantas vezes se haviam entregado um ao outro como dois p√°ssaros sem mem√≥ria, ambos pudessem deixar para tr√°s, e para sempre, o mal-entendido desencadeado na v√©spera por uma presen√ßa pouco amistosa para com qualquer um deles. Talvez, por entre os beijos e car√≠cias de uma reconcilia√ß√£o, o avesso do mundo, dentro e fora de portas, como a que ele abrira para deixar entrar um ci√ļme sem sentido, deixasse de existir. Mas, antes de tudo, estava com o terr√≠vel medo de que Marisa se zangasse seriamente, e que, por causa de um ‚Äúmorto‚ÄĚ, nunca mais o quisesse ver. Isso seria como rebentar-lhe no peito um petardo que lhe retalharia o cora√ß√£o em estilha√ßos, imposs√≠veis de reunir numa opera√ß√£o de restauro. Amava-a como nunca antes amara outra rapariga. Desde que ela, numa tert√ļlia entre estudantes, no Porto, lhe falara, com alguma m√°goa, de um amor de inf√Ęncia, que, por raz√Ķes de car√°cter da outra parte, estava prestes a ficar no passado com uma mortalha por cima. E j√° se imaginara a entrar com ela vestida de noiva na S√© de Viseu:
           -Casar em Viseu? Agrada-me ‚Äď respondera Marisa sorrindo, quando Nelson a p√īs ao corrente dos seus sonhos de rapaz enamorado.
          -Vamos sair daqui. Conversaremos noutro s√≠tio. Limpa as l√°grimas e anda. N√£o gosto de ver-te chorar ‚Äď disse de novo, pegando-lhe nas m√£os, que de imediato sentiu estrebuchar entre as suas para se soltarem com rudeza.
           -N√£o quero! Est√° tudo a arder por todo o lado. Vai-te embora! N√£o me apare√ßas mais √† frente!
          -Vem ao menos almo√ßar, como combin√°mos‚Ķ
          -N√£o me apetece comer. Vai-te embora, j√° te disse!
          -Por favor, Marisa, s√™ razo√°vel!
          -√Č o que te tenho pedido sempre e v√™ no que deu. E olha, talvez os teus beijos me saibam mesmo a sab√£o e eu prefira sabonete!
           -Desculpa. Saiu-me. N√£o passa de uma frase infeliz‚Ķ
           -Mas saiu! E agora s√≥ me apetece cuspir o mau gosto que ela deixou. Na boca e por todo o lado!


                                                                                  XXXVII
          -Parece que acabaste por influenciar a rapariga contra Nelson‚Ķ ‚Äď ironizou Fausto, provocador -. Ou eu muito me engano, ou este namoro tem os dias contados‚Ķ Ou sou que que estou apenas a deitar achas para a fogueira‚Ķ
          -At√© seria capaz de o fazer, se pudesse ‚Äď respondeu Domingos no mesmo tom de Fausto ‚Äď. N√£o gosto de um nem de outro. O rapaz √© um tonto. S√≥ deve ter jeito para as √©guas e para as cabras. Por isso foi para Veterin√°ria. Talvez tenha lugar em √Āfrica, de onde os antepassados vieram, a salvar animais em vias de extin√ß√£o.
          -Quem sabe? Quem sabe se n√£o o veremos um dia num programa do National Geographic a p√īr elefantes a dormir √† pistola para lhe dar antibi√≥ticos? Ao menos, por l√°, h√° bem menos fogos. Dizem que os ind√≠genas s√£o primitos, mas se h√° gente que conserva bem as florestas s√£o eles. Apesar de, de vez em quando, haver alguns fogos em certos continentes que engolem cidades inteiras, como aconteceu recentemente na Prov√≠ncia de Alberta, no Canad√°. O inc√™ndio de hoje deixou toda a gente com os nervos √† flor da pele.
          -√Č-lhe bem feito ficar sem a rapariga. Quem se havia de lembrar de beijos a saber a sab√£o sen√£o um tonto?
          -N√£o estar√°s, por acaso, com inveja?
          -Com inveja de gente de filme? N√£o me fa√ßas rir, Fausto!
           -Baseado em factos reais, n√£o te esque√ßas. E podes influenci√°-los sim‚Ķ - sugeriu Fausto enigmaticamente‚Ķ Estando tu a dormir, nunca foste acordado com uma pessoa a teu lado absolutamente silenciosa a olhar para ti?
           -Algumas vezes. Pela minha m√£e. At√© quando era pequenino, como ela me chegou a contar.
          -Ent√£o? ‚Äď retorquiu Fausto com ar zombeteiro ‚Äď. Sopra para a tela os teus desejos‚Ķ
          -N√£o me queiras fazer de tonto, como o rapaz dos beijos com sabor a sab√£o... ‚Äď e Domingos sorriu, maldoso.

                                                                                      47

           Nelson, depois de Marisa ter posto na discuss√£o a frase de mau gosto com que, na v√©spera, tentara ilustrar a reac√ß√£o da rapariga, n√£o teve outra alternativa sen√£o bater em retirada. Ao menos por algumas horas. O tempo suficiente para Marisa esfriar a cabe√ßa e decidir-se, em nome do substantivo comum masculino do plural designado por amor, pela desvaloriza√ß√£o do incidente. Nunca esperara uma coisa t√£o violenta da parte dela. Conhecera-a no auge da sua turbul√™ncia afectiva com Telmo, quando ela se sentia o elo mais fraco num namoro de inf√Ęncia, de que ele, o namorado de agora, nunca deixara de ter algum medo. Sempre tivera uma vis√£o rom√Ęntica dos amores de inf√Ęncia. Imaginava os apaixonados unidos por um cord√£o invis√≠vel, tecido num lugar frequentado por deuses e fadas bondosas, mas √†s vezes trapalhonas, inquebr√°vel at√© √† morte. Ainda que, por um motivo qualquer, atravancados com obst√°culos esculpidos nas oficinas do Inferno, os caminhos dos enamorados deixassem de se bifurcar, precisamente no ponto em que ele entrara em cena numa noite de tert√ļlia de estudantes. Mesmo que um e outro fossem infelizes, depois de deixarem para tr√°s a eterna magia do primeiro amor, o mote decisivo para belas recorda√ß√Ķes no futuro. N√£o que a imaginasse uma mosca morta, sem personalidade e a pedir colo por tudo e por nada, uma rapariga mimada e sem peito nem condi√ß√£o para dar a contrariedades. Mas fora exagerada ao mand√°-lo desaparecer. Embora, depois de tudo, concordasse que ‚Äúbeijos a saber a sab√£o‚ÄĚ n√£o haviam sido a melhor met√°fora para catalogar a rigidez com que Marisa se afastara de si  ao deparar-se com Telmo, enraivecido com um cigano avesso a fiados nos seus neg√≥cios e prestes a descarregar a ira no pobre do Zico.
            E, ent√£o, saindo vagarosamente do quarto onde Maria jazia chorosa sobre a cama, regressou √† sala, pegou no telem√≥vel e nas chaves do jeep que havia a√≠ colocado √† chegada. Da√≠ a nada, metia-se nele, constatando que o dia, ilhado de labaredas como um mar encapelado de espuma e nevoeiro, tinha feito descer a sua ira sobre v√°rias vidas. Incluindo a sua e a da Marisa. Apesar de os ter poupado a ambos. Coisa que n√£o acontecera a duas crian√ßas e uma mulher idosa do povo que haviam morrido no meio de chamas.
           J√° dentro do jeep, passou a seguir por Rodrigo, fez-lhe um aceno com a m√£o e regressou a Viseu.


                                                                                         48

          Marisa, sem almo√ßar e com a fome encolhida para o n√≠vel zero, enroscava-se na almofada, como se esta fosse a √ļnica coisa capaz de a reconfortar naqueles instantes de desilus√£o contra os rapazes em geral e contra dois em particular. N√£o conseguia evitar compara√ß√Ķes. Se um se lhe atirara aos calcanhares da inf√Ęncia e a sufocara com a supremacia que a idade lhe dava, o outro, agora que se libertara das garras de Telmo, vinha destapar luras de onde os coelhos j√° tinham partido h√° muito. E se uma bonita cor de olhos, o ar garboso e o cabelo ruivo do ex-namorado haviam tido um papel importante num encantamento de outrora, este principiara a morrer ao mesmo tempo que ela florescia em beleza e se dava paulatinamente conta de que Telmo nunca passaria de um peso morto na vida de uma mulher. Fora demasiadas vezes dissuadida pelos pais de se ligar ao filho mais velho de Suzete e de Abel. Contudo, teimou em ignorar os avisos de mandri√£o e drogado dependurados no pesco√ßo do rapaz, como se ele n√£o passasse de uma loja em saldos. Al√©m de tudo, de fraca qualidade. Telmo nunca fora modelo de virtudes em lado nenhum. E, s√≥ depois de o deixar, passara a compreender melhor a relut√Ęncia dos progenitores em entregar a √ļnica filha a uma pessoa como a que o tempo viria a revelar, deixando-lhe as dobras sinistras √† mostra. Telmo n√£o gostava de trabalhar, Telmo enchia-se de bebida, Telmo, a partir de determinada altura, come√ßara a drogar-se. Teve a certeza disso quando a melhor amiga, ao passar um dia de carro perto do acampamento dos ciganos, o viu a sair de l√° com cara de comprometido.
          -Deixa-o Marisa! Ele √© demasiado velho para ti! ‚Äď Disse-lhe um dia a av√≥ materna, na aldeia, em Viana do Castelo.
Zico, depois de ouvir a porta da rua bater, saiu do lugar onde estava, algures no quintal empoleirado numa √°rvore, e subiu pela porta das traseiras. Pressentindo o des√Ęnimo da dona, foi at√© ao quarto dela, lan√ßando-lhe, do tapete onde se quedara por instantes, um terno olhar, antes de se decidir saltar para a cama e ir aninhar-se junto dela, ronronado de mimo como se a quisesse reconfortar do seu recente desgosto. Marisa acariciou-lhe o p√™lo macio durante algum tempo, acalmando um pouco ao contacto da sua m√£o com um amigo de quatro anos, um gato preto luzidio e af√°vel que um dia ela salvara da incerteza das ruas.
           Da√≠ a nada, o gato dormia tranquilamente uma sesta antecipada. Enquanto isso, ela prosseguia com o invent√°rio da sua vida com Telmo, bastante mais longa do que a que j√° vivera com Nelson. Por isso lhe ocupava bastante mais espa√ßo de mem√≥ria, repleta de coisas sem sentido e a precisar de ser esvaziada para dar lugar a novos arquivos com o novo protagonista. Os pais haviam ficado radiantes quando um dia ela lhe apresentara Nelson depois de se ter livrado de Telmo. Tratava-se um rapaz de boas fam√≠lias, beir√£os retornados de Mo√ßambique depois do 25 de Abril, e que, ap√≥s tantos anos na cidade da Beira no fabrico de cerveja, se dedicavam na zona de Viseu √† cultura de vinhos de qualidade. De algum modo, Nelson escolhera veterin√°ria por ser uma profiss√£o ligada √† terra. Com tr√™s irm√£os, dois rapazes e uma rapariga, ele era o mais novo. E, at√© o dia de hoje, nunca os namorados haviam sido espica√ßados por grandes mal-entendidos de que n√£o pudessem desviar-se a tempo. De resto, Nelson era um rapaz carinhoso, sens√≠vel. Sobretudo, tinha boa √≠ndole e sentido de responsabilidade. Sossegado, n√£o dava muito nas vistas. A n√£o ser quando era descoberto no meio de uma conversa em que se revelava bonito, por entre as suas opini√Ķes sensatas e uma cultura para l√° da m√©dia dos rapazes com a mesma idade.
           -O que lhe ter√° dado hoje? ‚Äď pensava Marisa entre l√°grimas, enquanto continuava a afagar  o p√™lo de Zico, a dormir feliz a seu lado ‚Äď. Nunca se dedicou a met√°foras t√£o bizarras para ilustrar sentimentos.
Talvez fosse melhor transformar a frase infeliz em motivo para rirem os dois quando o mau tempo destapasse o sol, que, por causa do fumo, hoje estava demasiado venenoso. Tanto no céu nacional, como no de Espanha, sujeitando eventualmente o país português ao pagamento de uma indemnização aos vizinhos para ressarcimento de prejuízos provocados em bens e pessoas. Como se Portugal lhes tivesse declarado guerra e ficasse, a seguir, de joelhos, depois de a ter perdido. Cada vez havia mais gente a tossir, apanhada por alergias que, em princípio, deveriam caber por inteiro aos pólenes primaveris, e não ao maldito fogo do verão.
           O melhor, quando os dois se beijassem de novo e ela, porventura, se lembrasse do ‚Äúmimo‚ÄĚ, seria soltar uma gargalhada, arranjar um trocadilho com ele e catalog√°-lo como fazendo parte do seu anedot√°rio privado. Uma esp√©cie de palavra passe comum para entrarem em sintonia, quando se sentissem a resvalar para o exagero e o mau gosto. Contudo, que nunca Nelson se lembrasse de, ap√≥s uma zanga feia como a de hoje, tentar fazer as pazes debaixo dos len√ß√≥is, sem a conseguir primeiro em cima do tapete com boas palavras. E porque teria ainda Telmo tanto peso na sua vida, a ponto de a influenciar dessa maneira?
           -Ser√° que algum dia contarei a algu√©m o facto de um dia ter sido v√≠tima de viol√™ncia da parte de Telmo? N√£o, acho que nunca terei coragem de superar a vergonha.
           Agora, com mais lucidez e desprendida de sentimentos controversos em rela√ß√£o a ele, pensava que nessa altura lhe deveria ter virado as cotas e tomar a bofetada na cara, que ainda hoje lhe do√≠a, se n√£o como um aviso de que um dia poderia ser uma s√©ria v√≠tima de maus-tratos, ao menos como um pretexto para se colocar a milhas de um homem demasiado perme√°vel √† viol√™ncia. Talvez o facto tivesse tido bem mais import√Ęncia do que ent√£o lhe atribu√≠ra. A ponto de ser a raz√£o pela qual hoje reagira t√£o severamente a uma criancice de Nelson. Certamente as andan√ßas da noite, de bra√ßo dado com a morte, deviam ter deixado toda a gente sem discernimento. Ela era s√≥ mais uma a que a falta de um sono tranquilo toldara o bom senso, deixando-a sem jogo de cintura para lidar com uma coisa que, noutra altura, rotularia como uma brincadeira das mais divertidas. N√£o fora √† toa que, no caf√© da Dona Celeste, se defrontara com as suspeitas de Telmo ser o autor do rombo que a vizinha Madalena sofrera na sua pequena reforma. A cada dia que passava, era humilhante constatar a sua paix√£o de outrora por um traste sem nada que n√£o se cingisse a uma figura bonita por fora e cheia de esterco por dentro. N√£o o odiava, apesar de tudo, nem sentia raiva por Telmo a ponto de lhe desejar a morte. Embora, um dia, a espumar de irrita√ß√£o, lha tivesse mesmo desejado, imaginando-o,  inclusive, ser√°fico e im√≥vel dentro de um caix√£o, de onde n√£o poderia jamais sair para lhe infernizar a vida como nos √ļltimos tempos. Mas, nada estava perdido com Nelson. Nelson era o seu ref√ļgio e um bom press√°gio para uma felicidade que n√£o deixaria fugir. No dia seguinte resolveria o mal-entendido com o namorado, que talvez estivesse j√° a pensar num pedido de desculpa por escrito num email carinhoso a que teria acesso da√≠ a nada.
          E, ap√≥s desligar o telem√≥vel, agora que se sentia quase t√£o macia consigo mesma como de fosse a alma g√©mea de Zico e do seu p√™lo sedoso, j√° com saudades do rapaz e dos seus beijos com sabor a sabonete - at√© j√° lhe dava vontade de rir- come√ßou a relaxar, fazendo da√≠ a nada companhia ao gato no seu sono.

continua...
« Última modificação: Junho 24, 2020, 11:35:47 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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outono


« Responder #71 em: Julho 02, 2020, 13:18:24 »

Agora j√° nem falta uma apaixonada chorona. Que mais ir√° acontecer?
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« Responder #72 em: Julho 05, 2020, 15:58:13 »

                                                                                           49

          Seriam duas horas e meia da tarde quando Telmo, depois de n√£o ter aparecido na mesa para o almo√ßo, com olhar de falc√£o saciado com a sua presa n√ļmero, chegou a casa, onde, de momento, n√£o se encontrava quem quer que fosse.
          Dirigiu-se a seguir √† cozinha, despindo a jaqueta de ganga e colocando-a nas costas de uma cadeira, disposto a comer as sobras de um fundo de tacho que, em princ√≠pio, lhe seriam destinadas, e que devia ter comido em conjunto com o pai e os irm√£os hora e meia antes. S√©rgio e Luciano, ap√≥s um banho para removerem os vest√≠gios do carv√£o e das cinzas, contra√≠dos como uma doen√ßa durante o combate ao fogo, a seguir ao almo√ßo, tinham ido √† vila ter com as respectivas namoradas. Paula, j√° com a lou√ßa lavada a escorrer na banca, obedecendo ao pedido do namorado, sa√≠ra com a mesma inten√ß√£o dos irm√£os. Enquanto isso, Abel, com o objectivo de tomar caf√©, dirigira-se ao largo, onde Rodrigo, j√° vestido com a roupa da colecta levada a cabo pelas mulheres, continuava a aguardar a chegada do resto do cl√£, depois de, tanto a prospec√ß√£o do ouro no acampamento como a conversa entre o Padre Fernandes e o presidente da junta se revelarem infrut√≠feras. O homem, ali com cara de abandonado, era Rodrigo, o cigano por quem Telmo, no seu regresso a casa, passara devagar em cima da moto, sem lhe dirigir aceno ou palavra, como se nunca se tivessem visto mais gordos ou mais magros um ao outro.
            Sozinho em casa, habituado a n√£o sentir falta de ningu√©m, quando ningu√©m lhe sentia a falta ‚Äď talvez s√≥ a m√£e se incomodasse um pouco com as suas aus√™ncias ‚Äď Telmo ingeriu o esparguete √† bolonhesa com um apetite que h√° muito n√£o sentia. Ap√≥s, na v√©spera, ao jantar, se ter privado de um bocado de carne estufada para, com o 605 Forte, tirar Zico do mundo dos vivos e n√£o ter, entretanto, comido alguma coisa de substancial, nada como algo que n√£o desse grande trabalho a comer. O esparguete. E n√£o se importava mesmo de ter toda a casa por sua conta. Nem um animal havia agora por l√°. Desde que o √ļltimo gato lhes morrera no derradeiro Natal, precedido pelo c√£o um ano antes, a casa estava interdita a animais dom√©sticos, enquanto Susete fazia ainda o luto pelos seus bichos e a jura de nunca mais querer c√£es ou gatos. Sobretudo porque o filho mais velho come√ßara a nutrir alguma antipatia por eles, acabando uns e outros por estabelecer m√°s rela√ß√Ķes entre si, quando era sabido que ela nunca expulsaria Telmo de casa.
          De seguida, ap√≥s a √ļltima garfada, o rapaz dirigiu-se √† sala, ligou a televis√£o, fez zapping, saltando a correr sobre uma d√ļzia de canais. Parou num deles, cujo cen√°rio parecia o de um filme retratando o Inferno ou coisa semelhante. Na tela, viam-se dezenas de pessoas vestidas como na Idade M√©dia, a fugir, de olhos arregalados e express√£o de terror, √† frente de um mar de chamas, espica√ßadas ainda por diabos com cornos e ganchos de terr√≠veis pontas afiadas nas man√°pulas. Sempre preferira tramas que recorressem a efeitos especiais e her√≥is obrigados a recorrer √† viol√™ncia atrav√©s da metralhadora, pistolas ou facas, escondidas por todo o lado para o golpe final sobre os maus da fita. Por isso, ao longo da rela√ß√£o, Marisa se privava continuamente de assistir a dramas e com√©dias rom√Ęnticas, bem mais do agrado dela.
          Com pouca paci√™ncia depois da ressaca da v√©spera que a √ļltima dose comprada num bairro de Aveiro com a reforma da velha Madalena n√£o aplacara ainda na totalidade, decidiu ir √† Dona Celeste beber um caf√©. Litos, o √ļnico que o poderia reconhecer como o autor do fogo no acampamento, n√£o estava por perto. Fosse como fosse, n√£o lhe agradava a ideia de se cruzar com ele. Isso apesar de confiar na surdez de quase sempre do garoto como a melhor garantia de que, mesmo reconhecendo-o, nunca o poderia denunciar por falta do √≥bvio, as palavras. E, no fundo, recusava acreditar que a chama do seu isqueiro tivesse provocado tr√™s mortes, das quais s√≥ tivera real conhecimento quando regressara j√° com a dose na veia, que, paradoxalmente, o deixava s√≥brio. Nessa altura, j√° o pai teria sa√≠do do caf√© a fim de ir buscar a m√£e √† f√°brica, e j√° esta estaria de posse dos quarenta euros para a receita seguinte, que teria de comprar agora num novo fornecedor, com quem teria de estabelecer boas rela√ß√Ķes para a eventualidade de um dia ter de recorrer a compras a cr√©dito como no dia D.
           Quando bateu a porta da rua, passou pela moto onde a deixara no regresso de Aveiro. Mirou-a como se fosse a √ļltima namorada que ainda lhe restava.
          J√° na pra√ßa, entrou no caf√©, deitando um olho obtuso ao cigano sentado debaixo da ac√°cia e a fazer contas √† vida de sem-abrigo em que recentemente fora lan√ßado. Havia quatro pessoas no interior do estabelecimento, tr√™s homens e uma mulher, sem nenhum deles, como previra, ser o pai.
          Saudou toda a gente com um frio ‚Äúboa tarde‚ÄĚ, pousou a seguir o telem√≥vel e as chaves sobre a mesa. Como o calor esgalhava, em vez do caf√©, pediu um fino para afogar o esparguete que a Paula lhe deixara no fundo do tacho, e que nem precisou de aquecer. Enquanto isso, despia a jaqueta de ganga com que se protegia do vento quando andava de mota a alta velocidade pelas ex-scuts do distrito.
           A Dona Celeste, mal o viu entrar, com a imparcialidade abalada pelo desespero da vizinha Madalena ao ver-se despojada da sua pequena reforma, teve vontade de lhe atirar √† cara, o copo da cerveja. Se o fizesse, seria como se estivesse a substituir-se numa ou outra bofetada que talvez tivesse faltado ao rapaz na inf√Ęncia. A mulher n√£o partilhava das teses de que, dar-se uma palmada no traseiro de um filho quando ele nos levava ao limite, representava um perfeito acto de barb√°rie parental. Antigamente, a receita era de uso regular, e at√© bem vista se n√£o fosse desproporcionada. Uma m√£e tinha o dever de educar todos os seus pequenos bons selvagens √† boa maneira dos m√©todos de fil√≥sofos antigos, respeitados ainda hoje. Uma palmada era s√≥ mais uma forma de o fazer, no meio dos mimos que tamb√©m n√£o deviam faltar. Contudo, com um estabelecimento de porta aberta ao p√ļblico, engoliu a √Ęnsia pedag√≥gica, colocando o copo sobre a mesa com um certo desprezo, enquanto Telmo, mudo por op√ß√£o, manuseava o telem√≥vel sem se sentir obrigado a nenhum agradecimento.
           Nesse meio tempo, os outros quatro clientes comentavam as not√≠cias sobre o fogo de que hoje a aldeia do Eito fora uma das grandes protagonistas. As suas imagens, com a igreja como refer√™ncia, o cavalo a pastar ali perto. O relato das circunst√Ęncias dram√°ticas da morte de duas crian√ßas e uma idosa haviam enchido os √©crans de todas as esta√ß√Ķes durante o primeiro jornal, replicadas vezes sem conta nas emiss√Ķes dedicadas exclusivamente a not√≠cias.
          Depois de beber, Telmo saiu e voltou atr√°s, ao beco,e abriu a porta da garagem de onde retirou o capacete. Colocou-o na cabe√ßa e, da√≠ a nada, galgava at√© √† mata dos eucaliptos, agora reduzidos a garfos espetados ao alto como finas est√°tuas mortas. E, onde o fogo n√£o chegara com tanta intensidade, era vis√≠vel a folhagem chamuscada pelo acastanhado da morte irrevers√≠vel que se apoderara das √°rvores.
           Depois de se cruzar com uns quantos carros e motas a abandonarem o local, ainda se viam por l√° algumas pessoas, embora a maioria j√° houvesse desmobilizado. No ch√£o havia garrafas de √°gua de pl√°stico e paks vazios de sumos diversos, sacos com os vest√≠gios do almo√ßo oferecido aos soldados da paz pela popula√ß√£o. Nessa altura, como o fogo j√° havia deixado de ser uma preocupa√ß√£o para aldeia, abocanhando j√° as fraldas das montanhas vizinhas, os bombeiros principiavam a reunir o equipamento para sa√≠rem dali. Com os fatos vermelhos negros de carv√£o e botas carregadas de lama, ao enrolarem nos carros as longas mangueiras de √°gua espalmadas, pareciam homens das gal√©s exauridos a puxar a frota de guerra romana no Mediterr√Ęneo. Um Mediterr√Ęneo que, ao longo de s√©culos e at√© aos dias de hoje, era como se guardasse na mem√≥ria das suas √°guas uma maldi√ß√£o escrava propalada pelos mortos de ent√£o e repetida at√© hoje pelos milhares de refugiados afogados no lago, depois de o Mundo √Ārabe ter entrado em colapso. Os pobres bombeiros eram a imagem da exaust√£o. Se, quando haviam chegado, cerca das oito horas da manh√£, j√° vinham cansados, agora pareciam sombras de si pr√≥prios, a tombarem enormes e vagamente inertes sob um in√≠cio de sol de fim de tarde. Eles, a quem se exigia, em mil e uma circunst√Ęncias, que n√£o fossem s√≥ os her√≥is de quem se esperava o imposs√≠vel, mas, antes de tudo, que fossem imortais, e que, como imortais, adentrassem as labaredas e lhe combatessem as ra√≠zes impedindo-as de se agigantarem na destrui√ß√£o.
           Mal Telmo desmontou, as criticas sobre si n√£o se ouviam de viva voz. Adivinhavam-se, contudo, nos pensamentos dos presentes, tendo todos estes como denominador comum a vida sem rumo do rapaz ruivo:
          ‚ÄúEste vem agora, Como se fosse para uma festa, Ningu√©m o viu at√© ao momento, Deve ter ido meter para a veia, √Č um parasita, Tenho pena dos pais. Coitado do Abel e da Susete, Os irm√£os √© que h√£o-de sair prejudicados com isto tudo, Os pais h√£o-de gastar o que t√™m e o que n√£o t√™m com ele, Sim, sobretudo a m√£e, que lhe d√° tudo e mais alguma coisa, Este √© que se desaparecesse de uma vez por todas n√£o fazia falta nenhuma, Foi uma pena n√£o terem dado cabo dele na pris√£o, Nunca se soube muito bem a raz√£o de ter estado preso, N√£o foi certamente por ter ajudado um c√£ozinho atropelado e com uma perna partida, Tamb√©m n√£o foi por ter recolocado no ninho um passarinho ca√≠do da √°rvore, Vem s√≥ cheirar o fumo, fingindo que est√° a snifar coca, S√≥ n√£o percebo como arranja ele dinheiro para o v√≠cio, Deve roubar, E traficar, Quando fui √† hora do almo√ßo a casa chegaram-me uns zunzuns de que algu√©m roubou a reforma e algum ouro √† velhota vizinha, a Madalena. C√° para mim foi ele,  Ele e os ciganos podiam ir morrer longe, No Mediterr√Ęneo, que hoje em dia √© a maneira mais f√°cil de se morrer em massa, Tamb√©m n√£o quer√≠amos ser invadidos pelos refugiados vindos l√° do fim do mundo, √Č o que eu penso e √© o que toda a gente deve pensar, J√° temos pouco para n√≥s, E depois vinham para c√° os s√≠rios, as mulheres com os v√©us, assim como quem anda disfar√ßado e em qualquer momento pode cometer um crime sem ser reconhecido, N√≥s que at√© para renovar a carta de condu√ß√£o temos de ter a assinatura do m√©dico a dizer que usamos √≥culos‚ÄĚ.


                                                                          XXXVIII

          -Est√°s tramado, Telmo ‚Äď disse Fausto sorrindo e olhando para Domingos, silencioso a seu lado ‚Äď. Esses a√≠ s√≥ n√£o te ser√£o bons se n√£o puderem.
          -Tens raz√£o. Mas n√£o me chames Telmo. Sou apenas parecido com o personagem‚Ķ Um bom cr√°pula, o rapaz! Se lhe chegassem um f√≥sforo depois de lhe despejarem um balde de gasolina n√£o se perdia nada!
          -Juiz dixit. Senten√ßa final. Ou, ent√£o, que o mandassem de um avi√£o de combate √†s chamas, quando, c√° em baixo, o lume estivesse bem ati√ßado. Como se ele fosse um menino de balou√ßo num dlim-dlan infantil, n√£o daria muito jeito faz√™-lo a partir de terra, dois homens a pegarem-lhe nas pernas qual boneco de trapos sem alma.
           Domingos, quando Fausto se enganou no nome, estremeceu. Deus o livrasse de ser Telmo, o protagonista da trama que a tela continuava a exibir e ia j√° um bocado longa. Ele que, em certos trechos, deixava de lhe prestar aten√ß√£o para experimentar sensa√ß√Ķes esquisitas. Al√©m de dolorosas. Era como se estivesse na pele das v√≠timas a ser incinerado vivo pelas chamas de um cremat√≥rio. Com certeza, era por nunca ter experimentado aquela subst√Ęncia que o amigo lhe dera √† chegada, excessivamente alucinog√©nia para os seus h√°bitos de consumo. E, √† medida que o tempo passava, a inc√≥gnita em que Fausto, aos seus olhos, j√° se havia intermitentemente transformado, aumentava segundo a segundo. Quando lhe chamou ‚ÄúTelmo‚ÄĚ em vez de Domingos, sentiu, como se se tratasse de um mau agouro, um calafrio, um arrepio na espinha, aliado ao facto de, com certeza por causa da maldita droga, nem sequer se lembrar do verdadeiro nome de baptismo. Quem era este homem que lhe tirara a mem√≥ria e o deixava sem passado? Seria algu√©m de carne e osso, ou n√£o passava de uma personagem tirada de um livro semelhante √† Divina Com√©dia, de quem tivesse adoptado e posto em pr√°tica os tiques? Ele que aparentava dominar toda a Literatura, e que, em certas ocasi√Ķes, parecia ter especial apre√ßo pelas v√≠sceras do mundo empanturrando-se com os seus horrores. Fausto era, talvez, uma criatura com um p√© no pecado e outro na santidade, como a ressocializa√ß√£o de delinquentes que levava a cabo com ex-presidi√°rios dava a entender.
          Quanto a si, deveria estar a sofrer de uma terr√≠vel alucina√ß√£o. Mas, quantos Faustos haveria na Literatura Universal para lhe servirem de modelo?
          -H√° dois famosos: o de Marlowe e o de Goethe ‚Äď respondeu Fausto, a meio tom, como se tivesse ouvido as reflex√Ķes do amigo.
          -Disseste alguma coisa, Fausto? ‚Äď perguntou Domingos.
          -N√£o‚Ķ Estava s√≥ a pensar em voz alta. Coisa que os inimigos de Telmo n√£o fazem. Mas, os olhos que lan√ßam ao rapaz dizem tudo.

contínua
« Última modificação: Julho 05, 2020, 16:52:40 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #73 em: Julho 11, 2020, 22:54:59 »

Telmo e Fausto. Parecidos?
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« Responder #74 em: Julho 12, 2020, 22:09:06 »

Não sei se Telmo e Fausto são parecidos, Nação Valente. Vamos ver como se desenrolará a história daqui para a frente...

                                                                                            50

          Telmo, agora que o espect√°culo do fogo entrara no per√≠odo das cinzas, apertando a jaqueta e colocando de novo o capacete na cabe√ßa, montou a mota e saiu dali com toda a calma. De algum modo curioso, dirigiu-se de novo ao largo da igreja, transformado h√° mais de doze horas num est√ļdio de informa√ß√£o, talvez disposto a romper o seu mutismo at√© essa altura e dar opini√Ķes acerca do criminoso, ‚Äú Haviam de lhe fazer o mesmo. Tenho muita pena dos ciganos, Sobretudo do pobre Manolito. E claro, sem falar na senhora Ana Rosa e no pequeno Diogo. Quem faz o que foi feito ao c√£o s√≥ pode ser um bandalho.
          Pousou, a seguir, a mota no descanso, perto de mais tr√™s e ao lado de quatro carros, antes de ficar de novo com a cabe√ßa ruiva √† mostra. Por ali estavam tamb√©m os jovens donos dos ve√≠culos, tanto dos carros como dos de duas rodas. Os motoqueiros mais jovens estavam entretidos com os telem√≥veis. Havia ainda algumas mulheres e raparigas corajosas, que haviam enfrentado as chamas em p√© de igualdade com o sexo masculino.
           A t√≥nica comum, √†s tr√™s horas da tarde e com um calor infernal a esgalhar inclemente no lajedo da pra√ßa, era todos estarem enfarruscados, cheios de lama nas botas e sapatilhas, tal como os bombeiros que haviam deixado entregues √† tarefa de recolher o equipamento de combate. Estavam ali praticamente todos os homens da terra, num Agosto em que, como sempre desde h√° um bom par de anos, a maioria das f√°bricas havia fechado para f√©rias do pessoal e, ou grande parte dos presentes n√£o tinha dinheiro para elas, ou ainda n√£o fora oportuno dar uma escapadela at√© √† Praia da Barra, Costa Nova ou Mira. Alguns nem sequer haviam ainda tirado o gorro e os √≥culos de protec√ß√£o usados durante o combate √†s chamas.

                                                                                51
          N√£o demorou grande tempo at√© Alberto, o homem que acompanhara o Leandro na primeira cerveja e nos amendoins, estacionar o carro √† porta do caf√©, enquanto, de dentro dele, de olhos inchados, saiu Vasco.
          Leandro, de cal√ß√Ķes um pouco abaixo do joelho e com a perna envolta numa ligadura, saiu a seguir. E, quando um dos homens  presentes lhe perguntou como estava da ferida, agradeceu o cuidado dizendo:
          -Estou melhor obrigado. Mas de nada valeu. N√£o impedi a morte da minha m√£e nem a do meu sobrinho ‚Äď e virou-se para a parede de uma casa ocultando o rosto onde as l√°grimas assomaram num impulso, dizendo ainda: - coitada da minha irm√£ Catarina e do meu cunhado. Nem consigo imaginar o que lhes vai na alma.
          -Uma trag√©dia nunca vista ‚Äď acrescenta uma mulher dos seus quarenta e cinco anos, solid√°ria com tamanha dor como toda a gente ‚Äď. Parece que andou por aqui o Diabo √† solta.
Um homem prosseguiu:
          -Tens raz√£o, Concei√ß√£o. O dia de o Diabo andar √† solta √© o dia de S. Bartolomeu, mas este ano o 24 de Agosto veio no in√≠cio do m√™s, para nos dar cabo da vida.
          -Pois, mas o pior √© que o Diabo que matou o meu filho e a av√≥ √© deste mundo! Quem me dera apanh√°-lo e havia de lhe fazer o mesmo! Juro por Deus ou por esse Dem√≥nio dos Infernos que andou aqui a espalhar desgra√ßas! ‚Äď praguejou o homem.
          -Tem de ter paci√™ncia. N√£o v√° agora destruir a sua vida por causa de uma alim√°ria ‚Äď aconselhavam um e outro dos presentes.
          Vasco informou a seguir que os dois corpos seriam liberados pela morgue no dia seguinte cerca das quatro horas da tarde, e que, em princ√≠pio, os funerais seriam na quarta-feira √†s onze horas da manh√£, com missa de corpo presente, ali ao lado, na igreja paroquial.
          Rodrigo, depois de h√° pouco ter deixado o banco onde esteve um bom par de horas a matutar, talvez tamb√©m no ouro perdido, aproximou-se do grupo de Leandro e do pai do pequeno Diogo, para, algo inseguro e numa posi√ß√£o de fragilidade social, prestar o seu apoio:
          -Tem raz√£o, Enfermeiro Vasco. Eu era capaz de fazer uma coisa semelhante a quem nos incendiou o acampamento, matou o c√£o e tirou a vida ao meu querido sobrinho ‚Äď enumerou, limpando a cara h√ļmida ao bra√ßo esquerdo ‚Äď. O Manolito era um anjinho como o seu filho, uma crian√ßa linda. S√≥ tinha quatro anos e nunca fez mal a ningu√©m. O maldito que fez o que fez √© que se deve p√īr √† tabela connosco se um dia for descoberto! N√£o h√°-de ficar com um osso inteiro! ‚Äď jurou j√° menos t√≠mido, cuspindo para o ch√£o como se com isso quisesse descarregar a raiva acumulada ao longo daquele tempo.
          -Claro, ningu√©m pode ficar em paz com semelhante injusti√ßa. E se a justi√ßa da lei n√£o passa ela de uma fraca justi√ßa, h√° que faz√™-la melhor com as pr√≥prias m√£os ‚Äď acrescentou Leandro, no mesmo tom de discurso inflamado dos outros dois e com a garganta embargada pela como√ß√£o, a meias com a raiva.
          -O meu irm√£o tamb√©m deve estar a chegar com not√≠cias da morgue. Temos de arranjar as coisas para o enterro. N√£o sei como, porque n√£o temos um c√™ntimo furado no bolso. Mas l√° se h√°-de enterrar o menino, se Deus quiser.
           Telmo, ao lado dos rapazes das motas, alguns dos quais haviam sido seus colegas na escola, associava-se √† campanha de Vasco e Rodrigo, que, ainda sobre as brasas de uma situa√ß√£o dram√°tica para todos, prometiam uma revanche severa. E, aparentemente solid√°rio com os vingadores, arranjou voz, suficientemente dissimulada, para lhes aprovar os m√©todos:
          -Malditos incendi√°rios! ‚Äď disse, para o vizinho mais pr√≥ximo, como se nada tivesse a ver com tudo aquilo, enquanto olhava para Rodrigo e para os dois cunhados ‚Äď. Se fossem meus filhos e minha m√£e faria o mesmo! Sem nenhum remorso!
           Da√≠ a instantes, entrou de novo no caf√©, bebeu ao balc√£o uma nova cerveja fresca e pagou-a antecipadamente, dando a entender que estaria com alguma pressa em sair dali, apesar de uma confian√ßa grande na mudez de Litos, o melhor era evitar encontrar-se com ele.
           A Dona Celeste, a mando de Ant√≥nio Pinto, longe dali h√° algum tempo, talvez a tratar do alojamento dos ciganos, levava entretanto a Rodrigo uma nova sandes de queijo e uma garrafa de √°gua de trinta e tr√™s centilitros.
Pepe, o cavalo, mais ao fundo a mondar a erva do baldio, como um cão que sabe sempre quando os donos chegam a casa antes de estes meterem a chave na fechadura, relinchou ao ver aproximar-se a carrinha e a comitiva dos ciganos, dando a entender ser demasiado tarde para a retirada estratégica de Telmo. Com certeza reconhecera-o, e, momentos depois, ainda o não acabara de esvaziar a garrafa de cerveja, a família descia do veículo, um a um, Cármen do lado de Inácio, na cabine com Bruno ao colo, e Luzia junto dela, amparando a barriga a que a criança parecia querer fazer rebentar as águas a qualquer momento.
          Litos, cheio de sede, pedira de beber a C√°rmen. Esta apressou-se a entregar Bruno a Sameiro, dirigindo-se a seguir para o caf√© a fim de dar de beber ao filho e talvez aos outros todos. √Ä entrada, obstruindo-a, curiosos com a chegada dos ciganos, portadores certamente de not√≠cias frescas, estavam dois homens a quem Telmo quase empurrou na √Ęnsia de escapar dali o mais depressa poss√≠vel. Contudo, mal saiu, nervoso, deparou-se, como na v√©spera, com os olhos de Litos estarrecidos a fit√°-lo de novo como no remoque cinematogr√°fico de uma trama em que o final se adivinhava pouco feliz. Vendo o mi√ļdo pregado ao ch√£o a fitar Telmo estarrecido como se se tivesse deparado com o Dem√≥nio, C√°rmen chamou o filho com a m√£o enquanto o encorajava a entrar no caf√©:
           -Anda filho‚Ķ Que tens? Os teus irm√£os tamb√©m devem estar mortos de sede‚Ķ E de fome ‚Äď acrescentou, j√° Telmo havia rompido no meio das pessoas, que, √†quela hora, tr√™s da tarde, faziam o rescaldo do dia e de todas as suas desgra√ßas.
In√°cio juntava-se aos presentes, dando conhecimento da sa√≠da do corpo de Manolito no dia seguinte, pouco depois das dezassete horas. Por ser Agosto e alguns m√©dicos-legistas gozarem f√©rias na altura, a morgue estava desfalcada de pessoal. Mas, dado tr√™s pessoas da mesma aldeia terem morrido em circunst√Ęncias t√£o terr√≠veis, o chefe de servi√ßos arranjara forma de que os restos mortais do filho pudessem ser levantados para os funerais em conjunto. J√° falara com o armador, o mesmo que levaria para a √ļltima morada Ana Rosa e o neto Diogo.
          Litos, na sua ex√≠gua linguagem de acenos, gestos e guinchos, apontava agitado para Telmo, enquanto este se escapulia como um rato no meio da multid√£o. Este prosseguiu depois at√© √† mota. De isqueiro na m√£o, foi entretanto interpelado por um jovem a pedir-lhe lume. Parou para satisfazer o pedido deparando-se com a gaguez do isqueiro, que lhe fez perder algum tempo.
          -Anda Litos!... ‚Äď insistia a m√£e  ‚Äď O que foi rapaz?
          O garoto, aflito, insistia em apontar Telmo. E s√≥ quando imitou um isqueiro a acender e se baixou como se estivesse a incendiar o ch√£o, C√°rmen percebeu que, na v√©spera, o viajante do comb√≥io, seu conhecido por causa dos neg√≥cios do acampamento, poderia ter estado na origem da morte de Manolito.
           -Que dizes filho? ‚Äď E, na mimica poss√≠vel, de modo a entender Litos e de Litos a entender a ela, fez directamente a pergunta: ‚Äď Foi aquele rapaz que matou o teu irm√£o?
          O mi√ļdo fez que sim com a cabe√ßa.
          Nessa altura, a dona do caf√©, assistindo ao estranho di√°logo entre o mudo e a m√£e, compreendia, em simult√Ęneo com C√°rmen, a acusa√ß√£o que o pobre surdo-mudo acabara de lan√ßar sobre Telmo.
Estarrecida, a mulher deitou as mãos à cabeça, enquanto Cármen esbaforida aponta Telmo, dirigindo-se-lhe e gritando desaustinada na sua direcção.
          -Assassino! Assassino! Foste tu que ati√ßaste fogo ao acampamento, mataste o meu filho e deste cabo da nossa vida!

                                                                                            XXXVIIII

          -√Č agora Telmo‚Ķ Encomenda a alma ao Diabo ‚Äď aconselhou Fausto, num amplo e ir√≥nico sorriso, dirigindo-se ao espectador a seu lado, que cada vez estava mais alucinado depois de ter experimentado um novo psicotr√≥pico que lhe estava a provocar reac√ß√Ķes estranhas ainda o filme n√£o ia a meio.
          Domingos n√£o disse nada.

                                                                                                      52

           Telmo, com mil olhos cravados em si, suspendeu a subida para a moto, enquanto C√°rmen prosseguia o libelo acusat√≥rio e, √† sua volta, todos se calavam momentaneamente at√≥nitos.
          -De que est√° voc√™ a falar, mulher? ‚Äď perguntou, acossado pela ira de C√°rmen, j√° esta estava √† sua frente prestes a esmurr√°-lo com a viol√™ncia dos punhos de uma m√£e ferida pela dor de ter perdido um filho naquelas circunst√Ęncias terr√≠veis.
          -Foste tu que chegaste fogo ao acampamento! O meu Litos acaba de mo dizer! ‚Äď insistia dando  murros contra o peito do rapaz, enquanto toda a gente principiava a reagir ap√≥s o sopapo de h√° instantes desencadeado pela acusa√ß√£o.
          -Voc√™ n√£o est√° boa da cabe√ßa, mulher! ‚Äď assegurava Telmo fingindo-se zangado e aparando com os bra√ßos os golpes que a cigana lhe dirigia sem d√≥ nem piedade.
           -Foste sim! Tenho a certeza!
          -E voc√™ acredita nos grunhidos de um surdo-mudo? Deixe-me em paz! N√£o me chateie!
          -Ele n√£o mente! N√£o pode mentir porque nem sequer tem palavras para isso! ‚Äď retorquiu, enquanto era rodeada por Luzia e por todos os outros ciganos entre o pranto e a raiva.
          Depois da revela√ß√£o, no meio de toda aquela assembleia, o primeiro a romper com a incredulidade e colocar os p√©s na terra foi In√°cio. Mas nem s√≥ ele precisava de encontrar urgentemente algu√©m para arcar com as culpas de todas as desgra√ßas ocorridas, mas s√≥ ele sabia, com muitos graus de certeza, que a afirma√ß√£o de Litos era a mais pura das verdades. O motivo era √≥bvio:
           -Isto n√£o se pode fiar. Mais depressa lhe entregava a carrinha com os p√≥los.
          Por causa disso, Telmo vingara-se da maneira mais absurda. Matara-lhes primeiro o c√£o e depois Manolito. Agora teria de ser ele a convencer toda a gente da terr√≠vel afirma√ß√£o. O ruivo era, sem sombra de d√ļvida, o culpado de tudo. S√≥ teria de o demonstrar sem dar a conhecer os neg√≥cios escuros do acampamento e o motivo que levara o rapaz at√© l√°.
           Vasco, mal refeito da surpresa, n√£o querendo enveredar por acusa√ß√Ķes sem fundamento, dirigindo-se a C√°rmen, agora mais pac√≠fica e de novo chorosa, perguntando-lhe:
           -Isso √© verdade?
          -Ele ‚Äď disse a mulher apontando Telmo, aos berros ‚Äď esteve l√° ontem, por volta das sete, a falar com o meu marido. E pelos vistos n√£o se entenderam. Depois voltou l√° de novo para fazer o que fez!
           -Tem a certeza? ‚Äď perguntou o pai do pequeno Diogo, come√ßando a ficar enlouquecido com a possibilidade de poder descarregar de imediato em algu√©m toda a sua raiva, contida at√© ent√£o por causa de Catarina.
           -Tenho, sim senhor ‚Äď respondeu In√°cio em vez da mulher-. Essa criatura ‚Äď apontou Telmo com rancor ‚Äď viajou com a minha mulher e a minha filha no comboio das sete. A seguir foi falar comigo. Queria namorar a Sameiro. Como n√£o deixei, vingou-se desta maneira.
           -Bandalho! ‚Äď rugiu Leandro a faiscar de √≥dio, a seguir a levantar-se do banco debaixo da ac√°cia at√© onde h√° pouco tempo estivera Rodrigo a esconder-se do calor.
           -√Č a mais pura das mentiras!... Nunca fui ao acampamento na vida!... ‚Äď afirmava Telmo, comprometido √† medida que os olhares incidiam sobre si como um rastilho a que s√≥ faltava incendiar a ponta.
           E de novo se deitavam, na fogueira dos pensamentos mais √≠ntimos de uma comunidade, achas capazes de fundamentarem a decis√£o por um veredicto que coincidisse com ‚ÄúCulpado‚ÄĚ. Mas talvez n√£o bem pelas raz√Ķes invocadas por In√°cio:
           ‚ÄúEu acredito no mi√ļdo, Eu tamb√©m. Coitadinha da crian√ßa, v√™-se mesmo que est√° cheia de medo, Aquele ali √© capaz de tudo, Ainda hoje roubou a reforma √† vizinha, Deve ter ido l√° comprar droga, mas veio com certeza de m√£os a abanar, N√£o devia ter dinheiro, O rapazinho, o Litos, est√° banhado em l√°grimas, de medo e de √≥dio‚ÄĚ.-murmurava-se aqui e ali.





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Bom dia para todos!
Março 20, 2020, 15:06:31
Ol√° para todos!
Março 19, 2020, 22:59:05
Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
Janeiro 29, 2020, 20:06:36
Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
Janeiro 10, 2020, 14:03:15
Boa tarde a todos
Janeiro 06, 2020, 14:46:26
Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
Dezembro 02, 2019, 21:57:04
Boa noite feliz para todos.
Dezembro 01, 2019, 19:51:29
Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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