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Autor Tópico: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)  (Lida 9177 vezes)
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Goreti Dias
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« Responder #75 em: Julho 14, 2020, 17:59:50 »

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Goretidias

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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #76 em: Julho 14, 2020, 22:24:07 »

                                                                                                  53
         Com os √Ęnimos a subirem de tom, Marisa, depois da sesta profil√°ctica desencadeada pela pequena zanga com Nelson, acordou sobressaltada com as vozes alteradas do largo da igreja. O Zico ainda estava a seu lado, mas, depois de a ver saltar da cama, fez o mesmo e foi √† torneira da cozinha beber √°gua, como fazia desde que aprendera a levantar e baixar o mecanismo.
           Deixando o gato entregue a si pr√≥prio, a jovem saiu a seguir, e foi inteirar-se do que estava a acontecer pelas tr√™s horas da tarde de uma segunda-feira de Agosto, tudo menos normal.
          Quando chegou, perguntou a uma rapariga a raz√£o daquele tumulto. E, quando foi informada de que, contra Telmo, vinda de Litos, o rapazinho mudo dos ciganos, pendia a acusa√ß√£o de ter sido ele o causador do inc√™ndio no acampamento e das tr√™s mortes subsequentes, ficou ruborizada, como se uma parte da responsabilidade de tudo aquilo lhe dissesse respeito.
          -O cigano mais velho, o In√°cio, disse que o Telmo foi l√° ontem pedir-lhe para namorar com aquela cigana que est√° ali com aquele mi√ļdo ao colo ‚Äď informou a jovem interpelada, apontando discretamente Sameiro.
          ‚ÄúAo que o desgra√ßado chegou‚ÄĚ ‚Äď pensou Marisa ao olhar para aquele que fora o seu namorado durante a juventude, e que agora n√£o passava de um verme.



                                                                                              54

          Como as not√≠cias correm sempre velozes e esta tinha pernas de gazela, n√£o demorou grande tempo at√© chegar a Catarina, empolada num tom cuja raiva aumentava √† medida de cada novo relato. Da√≠ que, quando bateu √† porta da pobre mulher, fosse suficientemente grande para a tirar da prostra√ß√£o em que, nessa manh√£, a morte da m√£e e do filho a haviam deixado.
Finalmente havia um culpado, e ela queria enfrent√°-lo olhos nos olhos, fulmin√°-lo com eles, e, se os olhos n√£o fossem suficientes, deitaria m√£o a qualquer arma para o maldito rapaz n√£o ficar vivo nem mais um minuto.
          Ao chegar ao largo, acompanhada de Dulce, a cunhada, deparou-se, al√©m de outras pessoas, com o marido e o irm√£o, ainda mais ou menos incr√©dulos com a revela√ß√£o. No auge da indigna√ß√£o, uns de uma maneira mais ostensiva e outros mais veladamente, todos insultavam Telmo com nomes relegados para o gueto do cal√£o pelo dicion√°rio, quer com o rubor das palavras comuns, quer das cong√©neres ilustres. Enquanto isso, pressentia-se a sempre temida confronta√ß√£o f√≠sica masculina. Pelo que os tr√™s homens, In√°cio, Leandro e Vasco, eram disso dissuadido por alguns dos presentes. Sobretudo homens.
          Telmo, junto √† mota e como se esperasse ser protegido da ira de quase todos os vizinhos, n√£o deu conta da chegada das tr√™s mulheres. Catarina irrompia no meio da multid√£o, com o intuito de iniciar um bom rol de murros no peito do rapaz, tal como anteriormente C√°rmen havia feito. E, quando o alcan√ßou, come√ßou de imediato o ataque, obrigando-o a defender-se, de novo, de mais uma m√£e com o olhar carregado de √≥dio.
          -Maldito sejas, seu bandalho! Mataste-me o filho e a m√£e mas tamb√©m n√£o vais escapar! Seu cabr√£o, seu chulo! H√°s-de arder no inferno! Nem que leve a vida inteira at√© te entregar ao Diabo!
           C√°rmen, n√£o tanto por solidariedade pela paisana, mas porque sentia a rebentar no peito o mesmo n√≥, juntou-se a Catarina nos insultos, nos murros, nos pontap√©s, nas pragas e nas maldi√ß√Ķes, o √ļnico meio que, por agora, como o fio de terra de um p√°ra-raios, seria capaz de descarregar de ambas parte do seu desgosto.


                                                                                    XLIV

           -Ai, ai! ‚Äď gritava Domingos ao presenciar a cena, enquanto levava a m√£o √† boca, onde um dente parecia ter sofrido uma contus√£o ‚Äď. √Č como se as duas estivessem a bater em mim pr√≥prio‚Ķ Desculpa l√°, Fausto, mas que droga me deste tu h√° bocado? Estou h√° tempos a sentir-me esquisito e s√≥ pode ser do que abasteci pela veia...
           -Isso √© psicol√≥gico. A subst√Ęncia √© muito boa. N√£o te far√° mal nenhum. Foi importada de um lugar absolutamente desconhecido. N√£o o vou revelar. Quero que tudo continue a ser segredo‚Ķ
           -N√£o me digas que tem origem extraterrestre? ‚Äď perguntou o rapaz entre o surpreso e o assustado.
           -Vais saber tudo, mas n√£o ainda. Vamos continuar a assistir ao ‚ÄúRapaz do Isqueiro Assassino‚ÄĚ.

                                                                                      55

           Com Telmo a comportar-se como um cobarde, no meio de uma culpa que n√£o conseguia disfar√ßar, depois de toda a gente dar por suficientes os socos, os murros e os pontap√©s das mulheres, Dulce, Vasco, Leandro e In√°cio retiraram-nas para longe, onde nenhuma delas tivesse o rapaz na mira.
           A seguir, os cinco, no carro de Alberto, sa√≠ram em direc√ß√£o a casa, enquanto algu√©m ligava para a GNR a ‚Äúdar Telmo √† morte‚ÄĚ. Fora encontrado o autor do fogo no acampamento dos ciganos. E, com este contributo, o perfil do ateador de fogos j√° poder√° ser actualizado. O novo incendi√°rio at√© poderia ser um rapaz bonito como um actor de cinema. Pelo menos Telmo assim era, um verdadeiro rapaz de Hollywood.
           √Äquela hora, tr√™s da tarde, o calor atingira o seu pico num c√©u vestido de negro, onde o sol continuava morti√ßo como nos √ļltimos dias. A pra√ßa havia-se transformado numa concentra√ß√£o de homens e mulheres enfarruscados, a quem a revela√ß√£o de Litos retardara o merecido banho para se livrarem dos vest√≠gios do maldito fogo.
            Telmo, ap√≥s isso, preparava-se com mais afinco ainda para p√īr o capacete na cabe√ßa e montar a seguir a moto, disposto a fugir dali o mais depressa poss√≠vel como quem recua √† beira de um precip√≠cio. N√£o aguentaria por muito mais tempo os olhares acusadores de todos a lembrarem-lhe a morte de tr√™s pessoas. Muito menos aguentaria os olhos de Marisa, perante quem n√£o suportaria estar na m√≥ de baixo. Mas n√£o suportava, sobretudo, ter de experimentar de novo o mofo da pris√£o e a√≠ passar os pr√≥ximos oito anos rodeado de assassinos e traficantes, escolhidos a dedo na ral√© da sociedade para lhe fazerem companhia. Ao menos que fosse rico, porque, tanto quanto se dizia, os criminosos de colarinho branco tinham direito a instala√ß√Ķes de luxo e mordomias, como se estivessem num chal√© de montanha a gozar f√©rias divertidas e a escrever livros que, a seguir, lhes rendiam uma fortuna em direitos de autor.
            Marisa, sem vontade de assistir a mais nada que tivesse o ex-namorado como protagonista, regressou a casa, meteu-se sob o duche com vontade de se livrar do suor e de todas lembran√ßas que tivessem Telmo como protagonista.



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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #77 em: Julho 18, 2020, 17:45:48 »

O duche é sempre uma terapia relaxante, pelo menos enquanto dura.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #78 em: Julho 18, 2020, 22:05:03 »

√Č  verdade. E um duche em tempo de calor e inc√™ndios como os de agora √© uma b√™n√ß√£o...

                                                                                56
          -Vais fugir seu filho de uma puta? ‚Äď disse algu√©m com √≥dio a Telmo  e disposto a impedi-lo de qualquer jeito de sair dali.
          -N√£o deixem esse ordin√°rio escapar! ‚Äď acudiu algu√©m, por entre o tumulto das vozes alteradas de uma aldeia em peso.
          -Se depender de mim at√© lhe parto as pernas!- ouviu-se de novo um homem.
          Nessa altura, j√° Telmo tinha mais de uma d√ļzia de pessoas, homens e mulheres √† volta, ao mesmo tempo que os ciganos mais velhos, Rodrigo, Joaquim e Ramiro, entre os gritos e o pranto de crian√ßas assustadas a deambular esfomeadas por entre cobertores e colch√Ķes espalhados ao redor da igreja, se juntavam ao circo que In√°cio seguia de perto. Antes que Telmo se escapulisse, por entre os carcereiros naquela pris√£o a c√©u a aberto, tal como C√°rmen havia feito, o pai do pequeno Manolito procurava atingi-lo de novo com violentos socos no est√īmago, acompanhados das terr√≠veis maldi√ß√Ķes ciganas:
          -Seu desgra√ßado! O Inferno se abata sobre ti, assassino!
           O rapaz rugia a cada investida, mas, √† medida que as for√ßas f√≠sicas iam sendo subjugadas pela dor, recrudescia a sua cobardia.
          -Ai! Ai! Ai! N√£o fui eu que deitei fogo ao acampamento! Juro por Deus! ‚Äď gritava contorcendo-se como se estivesse a ser espica√ßado por mil e um punhais afiados.

                                                                                     XLV

          -Ai, ai, ai, Fausto!.. Estou a dar em doido‚Ķ ‚Äď urrou Domingos, contorcendo-se do mesmo modo que a personagem na tela, aparentemente com dores semelhantes e como se a droga injectada lhas tivesse feito coincidir com as do rapaz do cinema!
          -J√° te disse que √© psicol√≥gico. Uma coisa tenho a revelar-te: parte do filme foi rodada aqui no complexo hoteleiro. N√£o te apercebeste ainda de que o Largo da Igreja tem grandes semelhan√ßas com a clareira onde os h√≥spedes v√£o √†s vezes fazer rituais sat√Ęnicos?
          - Pois, tive essa impress√£o, mas‚Ķ

                                                                               57
          -N√£o fui eu, acreditem!
          -Diz isso ao meu irm√£o seu estupor! Ele viu-te perfeitamente. Anda c√° Litos! ‚Äď Ramiro pedia √† m√£e que trouxesse o rapazinho.
          E este confirmava depois, atrav√©s de gestos, o que havia dito a C√°rmen, enquanto os ciganos adultos faziam o gosto ao p√© pontapeando Telmo num jogo l√ļdico, com tanto de libertador quanto de perverso.
          Da√≠ a nada, eram retirados dali √† for√ßa por uma ou outra pessoa mais dada √† compaix√£o, insatisfeitos por n√£o terem √† m√£o a efic√°cia de uma pistola, ou o gume decisivo de uma navalha para resolverem o assunto de uma vez. Ao mesmo tempo, com a mais pura descontrac√ß√£o e com um brilho de adrenalina a vidrar-lhe os olhos, um rapaz, o dono de uma das motas ali estacionada, principiava a gravar a cena com o telem√≥vel, como se tudo aquilo fizesse parte do cen√°rio de um filme e ele fosse o realizador.
          -D√° c√° essa merda! ‚Äď ordenou um dos presentes, um homem vindo do nada, quase mascarado por causa do fogo, que n√£o tirara os olhos do jovem e das suas manobras cinematogr√°ficas
          Como o mo√ßo recusasse, o homem arrebatou-lhe o telem√≥vel das m√£os. Atirou-o indignado ao ch√£o, pisando-o a seguir com viol√™ncia e olhando acusador para o rapaz. Enquanto isso, o jovem, surpreso, come√ßava a reflectir na perda que acabara de sofrer. N√£o podia chamar at√© si, da√≠, a nada, o estatuto de estrela da Internet, atrav√©s da sua obra mais recente e com os mais apreciados ingredientes de viol√™ncia. Uma obra com uma for√ßa brutal no mundo virtual, j√° que os protagonistas eram uma matilha de homens e mulheres a espancarem a sua presa como na Idade da Pedra. Filmar um espancamento e exibi-lo depois era cada vez menos in√©dito no mundo moderno. Sobretudo feito por mi√ļdos, produto de uma cultura de gueto alicer√ßada na degrada√ß√£o que alastrava por todo lado, como se o ADN dos tempos estivesse num processo regressivo √† barb√°rie. Cada vez mais os espancamentos eram di√°rios, entre os que ficavam conhecidos e os que eram mantidos no segredo dos deuses. Era mais f√°cil fazer um v√≠deo e coloc√°-lo na net do que descascar um ovo cozido deixando-o liso e sem mazelas. Poucas coisas no espa√ßo virtual davam tanto a falsa sensa√ß√£o de poder como milhares de visualiza√ß√Ķes e ‚Äúgostos‚ÄĚ de situa√ß√Ķes absurdas e ins√≥litas como aquela. Semelhantes emo√ß√Ķes eram a melhor hip√≥tese de alimentar egos, o que o rapaz da moto, ao ser despojado do telem√≥vel, acabava de perder quando vira um poss√≠vel share de grandes audi√™ncias ir por √°gua-abaixo. Al√©m de ter ficado reduzido ao valor da sua palavra, caso tivesse de testemunhar sobre os factos. E o seu testemunho, embora retratasse a verdade, depois daquilo, passaria a valer muito pouco em compara√ß√£o com o de uma aldeia sessenta por cento culpada do espancamento de Telmo e interessada, por isso, em boicotar o conhecimento geral do nefasto evento. Sobretudo em tribunal.
           Fora tudo isso que quem tirou o telem√≥vel ao realizador anteviu num golpe de lince astuto. E ent√£o resolvera cortar o mal pela raiz, destruindo a prova do corpo de delito. Embora ela de nada valesse na audi√™ncia de julgamento, sempre ajudaria a formar a convic√ß√£o do juiz sobre os factos da aldeia do Eito e sobre quem os praticara.
O jovem, depois de ponderar um pouco, n√£o fez grande alarido por causa dos danos sofridos. √Č certo que a perda de algo imprescind√≠vel nos dias de hoje, onde guardava coisas importantes ‚Äď contactos, programas e fotos, algumas das quais n√£o poderia refazer de forma nenhuma ‚Äď era grande. Mas, no meio de uma guerra ainda a decorrer ali na pra√ßa violenta e encarni√ßada, optou por calar-se estrategicamente.
          Apanhou entretanto os fragmentos do telem√≥vel estilha√ßado, at√© os √Ęnimos acalmarem e poder, a seguir, negociar o preju√≠zo com quem lho provocara.  
          E, de novo, com mais um acontecimento presenciado por dezenas de pessoas num √Ęngulo de trezentos e sessenta graus, ali √† roda da pra√ßa, se adivinhavam as emo√ß√Ķes do povo, que nunca teriam sido t√£o un√Ęnimes num √ļnico facto da Hist√≥ria e em lado nenhum. Nem em lado nenhum, nem em qualquer povo, por muito diferente que esse povo pudesse ser do que estava ali a assistir a um espancamento sem que este despoletasse praticamente uma centelha de adrenalina de defesa que pudessem tirar Telmo do olho de semelhante furac√£o.
           ‚ÄúSelvagens, V√£o matar o rapaz, Se bem que n√£o se perderia nada, Coitado, a ser espancado daquela maneira, Haviam de lhes fazer o mesmo aos filhos, Ra√ßa maldita, a dos ciganos, E aqueles gajos ali que n√£o os impediram de fazer o que j√° fizeram, Gente sem alma, capaz de ver um ser humano a ser morto sem mexer uma palha, √Č para nunca mais te esqueceres do que roubaste, seu ladr√£o, Sim, o dinheiro da caixa da oficina do Heitor, marido da Dona Celeste, que tu palmaste, meu sacana, Se fosse s√≥ esse, Como √© que ele sustentava o v√≠cio, Aquele ali, o Joel, ainda se deu ao desplante de gravar os acontecimentos para p√īr tudo a seguir na Internet, Foi-lhe bem feito, Acusa-cristos de merda, Sim porque ele fez isso para dar uma aldeia em peso √† morte, No fundo, estamos todos aqui mortos por fazer o mesmo que j√° lhe fizeram, dar uma sova monumental ao rapaz e deix√°-lo inv√°lido numa cadeira de rodas, Era o que deveria ser feito, justi√ßa pelas pr√≥prias m√£os, Ao menos n√£o fazia mais mal a ningu√©m, N√£o seria a primeira vez que se ouviria falar de um linchamento em Portugal, S√£o constantes, ali√°s, O primeiro de que me lembro foi o de um rapaz demente que era o terror de uma aldeia. At√© que a popula√ß√£o deu cabo dele numa situa√ß√£o semelhante, Nesse tempo n√£o havia nem telem√≥veis, nem Internet, No meio de trinta, quarenta pessoas, √© dif√≠cil provar quem deu o golpe de miseric√≥rdia, quem rebentou com o f√≠gado, com os rins, pulm√Ķes ou seja l√° o que for que tenha provocado a morte ao desgra√ßado, Mas, no fundo, d√° pena ver assim um farrapo aos p√©s de um grupo de homens a espanc√°-lo sem d√≥ nem piedade, Seja o que Deus quiser, Que venha depressa a GNR, Os guardas demoram talvez por n√£o terem pessoal, S√£o √© capazes de n√£o p√īr c√° os p√©s por dizerem que n√£o houve flagrante delito, Mas ent√£o o ciganito n√£o o apontou como o incendi√°rio? N√£o sei nada, os criminosos safam-se sempre, N√£o sei n√£o, com estes homens e mulheres, depois de todos terem perdido uma leira no inc√™ndio, palpita-me que isto ainda vai acabar mal‚ÄĚ.
-Deixem l√° o rapaz! N√£o lhe toquem mais! J√° chega e sobra o que levou! ‚Äď gritou a Dona Celeste, seguida por uma ou outra pessoa daquela assembleia amotinada sobre um rapaz como se este fosse um cad√°ver  prestes a ser servido a algu√©m num sacrif√≠cio merecido.
           -S√≥ se perderam as que ca√≠ram no ch√£o - ouviu-se a voz de um homem de cal√ßas de ganga encarvoadas, gorro na cabe√ßa e √≥culos escuros, vindo da mata ardida dos eucaliptos ‚Äď. Como a Celeste muito bem sabe ‚Äď continuou ‚Äď a √ļltima avaria deste tratante ter√° sido o furto da triste reforma √† velha Madalena. Al√©m de um cord√£o de ouro, presente do marido no dia do casamento
          A velhota estava ali perto, em frente ao caf√©, e, mal ouviu o seu nome e a situa√ß√£o em que se vira envolvida pela manh√£, replicou:
          -N√£o tenho a certeza de que tenha sido ele. Mas, embora isso possa ser verdade, n√£o gosto de ver o rapaz a√≠ espancado como um c√£o cheio de carra√ßas. J√° nem se consegue levantar. Tenho pena dos pais e dos irm√£os. Sobretudo tenho pena da Susete. Deixem-no, pelo amor de Deus!
           -N√£o fui, n√£o senhora! ‚Äď negou Telmo, a custo, numa d√©bil jura, motivada por uma posi√ß√£o de depend√™ncia dos seus guardas e com uma ponta de sangue a aflorar-lhe ao nariz.  
         -Tens sorte n√£o estar aqui o Norberto das vacas, as que se v√™em da linha do comboio. Ficou sem elas gra√ßas a ti. O fogo matou-as. Prometeu que se apanhasse o maldito incendi√°rio lhe faria o mesmo ‚Äď disse o homem, como se trouxesse na voz parte da raiva do referido Norberto. E n√£o sei n√£o, mas o Jo√£o do Avi√°rio era capaz de te fazer o mesmo. Ele fica com os pelos eri√ßados s√≥ de imaginar as pobres aves a morrer queimadas no meio de cacarejos lancinantes como gritos de pessoas que falem. Ou guinchem, igual ao rapazito surdo-mudo.
           E, como se o Diabo o tivesse trazido pela m√£o, instigado pelas vozes de uma povoa√ß√£o inteira dando como verdadeiras as acusa√ß√Ķes do ciganito, Norberto, depois de parar a carrinha no meio da pra√ßa, irrompeu at√© ao c√≠rculo onde Telmo jazia sentado no ch√£o com a cabe√ßa entre joelhos durante uma aparente acalmia do tumulto.
           -Maldito incendi√°rio! ‚Äď gritou de imediato sem querer ouvir nada nem ningu√©m, completamente perdido, pegando-lhe pelos colarinhos da jaqueta de ganga e obrigando-o a levantar-se do ch√£o como a um boneco desengon√ßado ‚Äď. Vou mandar-te para casa do Diabo mais velho como tu fizeste √†s minhas vacas seu filho de uma √©gua!
           E assim um novo interveniente come√ßou a pontape√°-lo violentamente, no corpo, na cabe√ßa e por todo o lado, aos berros, como se se tratasse de uma ac√ß√£o e de um grito de guerra destinados a incutir coragem a soldados incapazes de seguirem at√© ao confronto final.
           Ap√≥s isso, vencido j√° o √ļltimo resqu√≠cio de resist√™ncia, incluindo a dos ciganos amantes de facas e pistolas, a viol√™ncia abateu-se sobre Telmo em catadupa, deixando o rapaz de novo no ch√£o a uivar de dor e aparentemente moribundo.
          -Deixem-me por amor de Deus! ‚Äď pedia, √† medida que sentia a alcateia esfaimada sobre si, embora n√£o se vissem nele grandes vest√≠gios de sangue. A n√£o ser a pinta do nariz, e que parecia j√° ter coagulado. A gritaria era ensurdecedora, juntando-se ao sol amortalhado de negro que espiava tudo l√° do c√©u sem grande reac√ß√£o, depois de praticamente ter asfixiado com o fumo constante dos √ļltimos dias..  
          -Deixem-no, que o matam! ‚Äď gritou algu√©m, ro√≠do de compaix√£o.

[/i]

                                                                                 XLVI

           -Fausto, n√£o aguento mais! ‚Äď gemeu desesperado Domingos para o amigo, numa voz desfalecida e com as l√°grimas nos olhos, desencadeadas pela dor lancinante que o trespassava como o gume de uma espada em brasa ‚Äď N√£o pode ser s√≥ psicol√≥gico‚Ķ √Č como se me estivessem a matar a mim pr√≥prio‚Ķ Sinto dores infernais‚Ķ Se tiverem sido assim as de Telmo, ent√£o o rapaz sofreu um castigo √† medida das mortes que provocou‚Ķ Um castigo preparado no Inferno com requintes de sadismo ‚Ķ - Foi dizendo pausadamente, como se precisasse de recuperar o f√īlego a cada s√≠laba e estivesse prestes a soltar o √ļltimo suspiro‚Ķ
          -Vou buscar-te um copo de √°gua. Espera um pouco ‚Äď disse o amigo, deixando o rapaz sozinho.
          Entretanto deu uma gargalhada quase mal√©vola, a tro√ßar da fragilidade de um dos seus √ļltimos h√≥spedes.


                                                                              60
          -Pelo amor de Deus, parem com isso! ‚Äď E a GNR que n√£o vem! Liguem de novo para ela, por favor, antes que nesta aldeia aconte√ßa uma nova desgra√ßa! Se soubessem o que se est√° aqui a passar j√° tinham chegado! Ou estar√£o √† espera que algu√©m morra? Raios partam as autoridades! Parece que s√≥ reagem bem √† morte e que desprezam a vida!
          -N√£o se comportem como selvagens! Tenham um pingo de vergonha! Trata-se de um ser humano!
          -√Č o que ele merece! ‚Äď contestava aos berros um homem dos seus quarenta anos, que, at√© a√≠, n√£o fora ainda visto por ali e que parecia querer lambuzar-se simultaneamente de vingan√ßa e trag√©dia ‚Äď.Lembrem-se do Manolito, do Dioguinho e da pobre Ana Rosa! Eles n√£o pediram para morrer, e no entanto t√™m o funeral marcado para as onze horas de quarta-feira!
          Telmo jazia no ch√£o aparentemente morto, ou entre a morte e a vida. Respirava com bastante dificuldade, o que provocou uma certa acalmia na f√ļria dos presentes.
          Nesse momento Pepe, o cavalo dos ciganos, relinchou de novo, depois de j√° o ter feito uma primeira vez, dando a entender aos ciganos que, pelas tr√™s horas da tarde de um dia de calor como j√° n√£o havia mem√≥ria, estava de novo a morrer de sede.

    
                                                                      XLVII
           -Fausto, ajuda-me‚Ķ - gemeu Domingos.
          -Ent√£o, rapaz? Aguenta. J√° n√£o falta tudo para o filme acabar‚Ķ
          -Sinto-me como se estivesse a dar as √ļltimas‚Ķ
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« Responder #79 em: Julho 19, 2020, 17:43:04 »

E já é tarde para a continuação!
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« Responder #80 em: Julho 21, 2020, 21:39:39 »

                                                                           57

          Rodrigo foi buscar o balde onde o cavalo havia bebido, que, vazio h√° um bom tempo, havia rebolado como uma bola num pequeno declive. Dirigiu-se depois ao caf√© a fim de o encher.
          Quando saiu, cruzou-se com um homem desconhecido que trazia um balde semelhante na m√£o cheio at√© √†s bordas. O cigano voltou depois ao baldio para dar √°gua ao cavalo, enquanto ouvia de novo um urro de Telmo, como se este esteve estivesse a entregar a alma ao Diabo de acordo com a jura de Norberto, a que se haviam talvez juntado todas as outras.
          Quando Rodrigo regressou ao ajuntamento, Telmo estava encharcado e um forte cheiro a gasolina fazia-se sentir por todo o lado. O homem do balde, de c√≥coras sobre o rapaz, junto √† cabe√ßa deste, acendia um isqueiro aproximando-o dos seus cabelos ruivos, ao mesmo tempo que o sopapo do fogo a propagar-se fazia recuar todos os que, perto do jovem, o haviam espancado.
O filho de Abel e Susete estava a ser queimado vivo, perante a cobardia dos presentes que pouco ou nada fizeram para o evitar, n√£o havia qualquer d√ļvida disso.
          Entretanto uma mulher, aos gritos, no meio das coisas que haviam sido distribu√≠das aos ciganos para os mi√ļdos dormirem na noite anterior, procurava um cobertor a fim de apagar o fogo, que, alastrando-lhe por todo o corpo, consumia a roupa de Telmo, enquanto lhe afundava os bot√Ķes da jaqueta no peito como quem enterra as ra√≠zes de uma planta num canteiro.

                                                                                     XLVIII

          -Bem-vindo ao Inferno, Telmo! ‚Äď saudou Fausto ao afastar-se, devagar, do amigo.
          Domingos, depois do desmaio provocado pela visualiza√ß√£o dos √ļltimos momentos de vida de um incendi√°rio √†s m√£os do povo, acordou confuso como quando chegara.
          Sentia-se de novo um ti√ß√£o negro, algu√©m que passara pelo constrangimento de um inc√™ndio de grandes propor√ß√Ķes que o tivesse deixado reduzido a metade do seu metro e muitos de altura.
          Sozinho, chamou por Fausto, enquanto uma nuvem de tra√ßas esvoa√ßava sob a t√©nue luz da sala, esborrachando-se algumas contra si num voo sem rumo. Uma delas, gigante, provocando um som assustador, foi estatelar-se com viol√™ncia na cadeira ocupada por Fausto, depois de este se levantar para providenciar a √°gua.~

                                                                                     58
           -Est√° morto, Apagou-se, Morreu como matou. ‚Äď ouviu-se quando algu√©m, passados alguns segundos e j√° com o fogo extinto, levantou o cobertor deixando √† mostra o cad√°ver de Telmo, um Cristo a clamar por sepultura em pleno m√™s Agosto.
           E um sil√™ncio ensurdecedor abateu-se sobre o largo da igreja, quebrado a seguir pelos gritos dos pequenos ciganitos, horrorizados com o espect√°culo. Litos era agora um mi√ļdo zombie, a viver numa dimens√£o onde a morte era o prato do dia.
Em cadência aparentemente estudada, a praça começou a esvaziar-se. Quem mais directamente participara na execução escapulira-se, talvez também já com algum remorso pelo desfecho. Praticamente só os rapazes das motas permaneciam ali, vigiados por dois homens apostados em impedir novas filmagens e a divulgação na net em tempo real do evento.
           Antes de a GNR chegar, ap√≥s nova insist√™ncia e a brutal actualiza√ß√£o de dados, Ant√≥nio Pinto chegou esbaforido ao local onde o filho de Susete estava de novo tapado com o mesmo cobertor que havia servido para apagar o fogo.
           A not√≠cia da morte do rapaz, embora sem pormenores, chegara aos ouvidos do presidente vinda de cada esquina da aldeia, t√£o timidamente como o sussurro com que se habitualmente se envolvem os segredos. Era um espect√°culo macabro que o esperava, depois de, durante o tempo da sua aus√™ncia, ter batido a todas as portas de Ceca e Meca para tentar resolver, por qualquer meio, o alojamento de quem ficara sem um local para, ao menos, descansar o corpo ao fim do dia. Mas, agora que se defrontara com a morte de Telmo, denunciado por um surdo-mudo como o suposto incendi√°rio do acampamento, lamentava profundamente n√£o ter estado presente para ter, ao menos, tentado impedir um resultado do qual, supunha, ningu√©m estaria livre de culpas. Isso a avaliar pela timidez da revela√ß√£o que lhe fora chegando, quase aos solu√ßos, quando regressara. E, em semelhantes circunst√Ęncias, n√£o valeria a pena indagar fosse o que fosse junto de que quem quer que fosse. O muro de sil√™ncio a pairar agora sobre a aldeia do Eito, juntamente com o fumo dos inc√™ndios, n√£o seria talvez rompido por nenhuma picareta deste mundo. Nem sequer pela que as autoridades lhe pudessem vir a aplicar em sede de investiga√ß√£o criminal.
          A grande verdade √© que sa√≠ra com um problema √†s costas, e, quando voltara, tinha outro ainda mais pesado √† espera, sem o dos ciganos se ter movido um mil√≠metro da est√°tica de sempre, visto continuar sem resolu√ß√£o √† vista. Da√≠ terem eles de dormir, mais uma noite, de baixo do c√©u, que, infelizmente para a causa dos inc√™ndios, continuava seco como se tivesse firmada uma alian√ßa com os ‚ÄúConspiradores pro Fogo‚ÄĚ, se √© que os havia.
           Da fam√≠lia de Telmo nem sinal, ningu√©m avisara ningu√©m. E n√£o admirava. N√£o haveria certamente quem quisesse ser portador, junto de uma m√£e ou de um pai, por muitas assimetrias que houvesse no seio familiar, da not√≠cia de filho morto entre a paulada e a incinera√ß√£o no largo da aldeia, depois de ter sido acusado do ateamento do fogo ao acampamento dos ciganos. E, claro, acusado de igual modo das repercuss√Ķes desse mesmo fogo nos bens de uma s√©rie de pessoas e na vida de tr√™s delas. Apesar de nada do que Litos imputara ao rapaz estar ainda provado.
           J√° a si, presidente da junta, no seu papel de autoridade m√°xima da terra, competia-lhe o ingrato papel de fazer o comunicado a que todos legitimamente se esquivavam, e, desta vez, n√£o seria talvez pelo espinhoso da miss√£o em si. Ao que tudo indicava, seria porque uma grande parte dos seus conterr√Ęneos arderia tanto em culpa como Telmo ardera no meio da pra√ßa, consumido por uma chama alimentada a gasolina lan√ßada sobre ele por um desconhecido que completara o servi√ßo com a igni√ß√£o de um isqueiro.
De qualquer modo, n√£o podia adiar mais tempo. Tinha de informar um qualquer dos membros da fam√≠lia, se n√£o pudesse primeiro falar com o pai ou a m√£e. Nenhum dos dois irm√£os mais novos da v√≠tima estava em casa, e desde manh√£ que se sabia da ida de Susete para a f√°brica em virtude de n√£o ter conseguido f√©rias simultaneamente com o marido. Havia, com certeza, quem tivesse os n√ļmeros de telem√≥vel, tanto de Abel como de Susete. Contudo ningu√©m parecia disposto a assumi-lo, com receio de, mais tarde, ser tomado como suspeito pelas autoridades na barb√°rie, sem ao menos tentar avisar os pais do rapaz do que estava a acontecer.
           Agora, antes de tudo, era necess√°rio pensar numa forma amena de revelar a terr√≠vel verdade. Era preciso prevenir qualquer evento nefasto, um acidente na estrada por onde Abel e Susete regressariam a casa de carro. Al√©m de ser imprudente p√īr a verdade a nu atrav√©s de um telefonema, sem se poderem controlar e reduzir ao m√≠nimo as perturba√ß√Ķes emocionais do outro lado. Seria desumano permitir a chegada dos dois √† pra√ßa e faz√™-los deparar-se, no meio dela, com o cad√°ver do filho morto e tapado por um cobertor an√≥nimo j√° ensebado pelo contacto com o lixo do ch√£o. Sobretudo para Susete, a quem se reconhecia a predilec√ß√£o pelo filho mais velho, tamb√©m o mais tonto e problem√°tico. Mesmo o √ļnico filho tonto e problem√°tico de Susete e Abel.
          Foi assim que Ant√≥nio Pinto, quando eram sensivelmente quatro horas da tarde, ligou para a f√°brica de lactic√≠nios e pediu √† telefonista para o p√īr em contacto com a m√£e de Telmo. Tratava-se de uma emerg√™ncia. Como tivesse sido informado de que ela j√° sa√≠ra do turno, em nome da mesma emerg√™ncia solicitou-lhe o n√ļmero do telem√≥vel da mulher, para o qual ligou a seguir, munido de uma aparente frieza com que tentava banalizar informa√ß√Ķes t√£o dram√°ticas sobre o primog√©nito da mulher.
Abel conduzia o carro por uma das ex-sucts, mulher ao lado acabrunhada, já no regresso, quando o telemóvel dela tocou.
Susete procurou o aparelho na sua carteira feminina e saturada, atendendo  o interlocutor:
           -Fala Ant√≥nio Pinto, o presidente da junta. O Telmo meteu-se em sarilhos‚Ķ Por favor, venham para casa, mal possam. O Luciano, o S√©rgio e a Paula n√£o est√£o por aqui. √Č melhor contact√°-los tamb√©m.
           -Mas, o que √© que aconteceu? ‚Äď perguntou ela, aflita, quase a chorar ‚Äď e, virando-se para o marido -. Desde que acordei com os ciganos no largo tenho andado de cora√ß√£o apertado. Passou-se algo de muito grave com o infeliz do nosso filho mais velho!
           -Tem calma ‚Äď aconselhou Abel, sem se atrever, desta vez, a ser impiedoso com Telmo, como era seu h√°bito quase desde sempre.
           -N√£o posso adiantar pormenores. Falaremos quando chegarem ‚Äď acrescentou o mensageiro do telem√≥vel, decidido a n√£o contribuir para uma maior perturba√ß√£o dos dois, que, naquelas circunst√Ęncias, poderia at√© levar a um acidente de estrada. Isso se outros n√£o surgissem, desencadeados pela como√ß√£o de qualquer um deles perante uma not√≠cia t√£o violenta como a que, da√≠ a nada, teria de dar. De desgra√ßas j√° bastava por hoje, um dia fat√≠dico que presenteara uma aldeia com quatro mortes quase de enfiada. Al√©m da destrui√ß√£o de um acampamento, casas e uma mata recheada de eucaliptos, a bem dizer uma pequena parte da praga nacional de que faziam parte as malditas √°rvores.
           Mal Ant√≥nio Pinto desligou, Susete, dando desta vez largas ao pressentimento que tentara sufocar desde o in√≠cio, procurou algo atarantada o contacto do filho mais velho, ligando-lhe. O telefone deu ‚Äúfora de rede‚ÄĚ.
         Falou depois com Paula, perguntando-lhe se sabia o que se passava com o irm√£o. A voz da filha, ao dizer-lhe ‚Äún√£o sei nada do Telmo‚ÄĚ, pareceu-lhe, contudo, estranha. Ap√≥s isso, n√£o procurou falar com nenhum dos outros dois rapazes. Segundo o press√°gio que a oprimia desde cedo, o que sucedera com o filho era a pior coisa que j√° lhe acontecera. S√≥ n√£o sabia o qu√™.
           -Deve ter tido um acidente de mota ‚Äď disse depois, na maior ang√ļstia. E deve estar em estado grave no hospital. Se √© que n√£o morreu‚Ķ - adiantou com as l√°grimas a inundar-lhe os olhos.
           -N√£o √© nada disso, mulher. N√£o sejas t√£o pessimista. √Č s√≥ mais uma em que ele se meteu ‚Äď disse Abel apelando √† calma de Susete, sempre com tend√™ncia para o melodrama quando o assunto era Telmo ‚Äď. √Äs tantas foi apanhado pela pol√≠cia e preso. N√£o seria a primeira vez. Afinal anda sem documentos desde ontem!...
         -Mas, para o presidente da junta nos dizer que avis√°ssemos a Paula e os rapazes, √© porque o assunto √© grave ‚Äď chorava Susete, limpando os olhos a um len√ßo de papel, sem conseguir acalmar nem um pouco.
            E, antes de os dois chegarem √† pra√ßa, Ant√≥nio Pinto, seguido da dona do caf√©, da velha Madalena e do Padre Fernandes, entretanto informado de mais uma trag√©dia na aldeia do Eito, saiu-lhes ao caminho, obrigando Abel a parar. Atr√°s, al√©m do grupo do padre, entre homens e mulheres, vinham umas sete ou oito pessoas. Incluindo, Dulce, Luzia, Catarina e Vasco, que, desde o recente confronto de Catarina com o rapaz, n√£o largava a mulher.
           -O Telmo est√° morto‚Ķ - informou o autarca quase a medo e sem saber que mais, e como dizer, ap√≥s um avassalador sil√™ncio e uma troca de olhares entre todos, que espelhava impot√™ncia, culpa e remorso. Fora a isso que conduzira o impulso de fazer justi√ßa por conta pr√≥pria, um rapaz morto por espancamento no largo da igreja √†s m√£os de um bando de selvagens que, at√© esse dia, se diziam civilizados.
            Tanto Abel como Susete n√£o reagiram de imediato. Ficaram em transe e incapazes de experimentarem qualquer emo√ß√£o. Contudo, n√£o demorou muito at√© ele recuperar da surpresa inicial e come√ßar a digerir a informa√ß√£o validando-a ao ritmo de sentimentos contradit√≥rios que, aparentemente, o deixavam neutral em rela√ß√£o a tudo. Habituado a n√£o ter alegrias vindas daquele filho, n√£o lhe ocorreu logo perguntar o que sucedera para Telmo ter passado para o mundo dos mortos ao meio da tarde numa segunda-feira quente do in√≠cio de Agosto. N√£o perguntou o que acontecera. A n√£o ser da√≠ a um peda√ßo, quando, da surpresa, passara pela emo√ß√£o e saltara at√© √† l√≥gica das coisas.
           J√° Susete, ouviu as palavras do presidente como se se referissem a um acontecimento ocorrido noutra dimens√£o e incapaz de provocar altera√ß√Ķes naquela onde ela pr√≥pria vivia. Muito menos altera√ß√Ķes que tivessem o filho como objecto de trucul√™ncias.
Por isso, entre o catat√≥nico e o febril, pouco depois de Ant√≥nio Pinto lhes despejar nos ouvidos o nome de Telmo, geralmente associado a cicatrizes familiares e coisas m√°s, de olhos esgazeados, desatou a correr √† frente de todos como louca, derrubando na correria o mais novo dos ciganitos. Enquanto isso, a sua atitude provocava nos presentes um misto de receio pela sa√ļde mental da mulher e de compaix√£o pelo sofrimento que, quando ca√≠sse em si, iria sentir em presen√ßa daquela criatura carbonizada que talvez j√° n√£o reconhecesse como filho. Os ciganos mais pequenos andavam de um lado para o outro, na inquietude da inf√Ęncia e talvez cheios de fome, j√° que o p√£o e o leite achocolatado oferecido pela junta come√ßavam a tardar. Depois dos horr√≠veis acontecimentos, a pouca ordem estabelecida at√© ent√£o descontrolara-se completamente.
           O calor do alto continuava a esgalhar na terra, inclemente. Alguns homens que haviam combatido o fogo, reconhec√≠veis a seguir ao banho tomado em casa eu lhes dera um ar de normalidade aparente, j√° estavam ali de novo junto do morto √† espera das autoridades.
            Susete, no mesmo √≠mpeto que a obrigara a correr inicialmente, mal se viu perante o cobertor no meio da pra√ßa em que  ainda se fazia sentir um forte cheiro a gasolina, removeu-o do que ele cobria, deparando-se com o corpo do filho irreconhec√≠vel. Mas, ao inv√©s de soltar os gritos sufocados dentro de si pela dem√™ncia moment√Ęnea, sempre em sil√™ncio, ajoelhou-se junto de Telmo e puxou-o para si com impetuosidade, deixando-se cair a seguir sobre os joelhos sentada com ele ao colo. Ningu√©m se atreveu a dizer fosse o que fosse, enquanto algumas pessoas se viravam para as paredes da pra√ßa a fim de que ningu√©m lhes visse as l√°grimas nos olhos.
           Foi como uma Pi√©ta de Miguel √āngelo que a GNR e a Judici√°ria vieram encontrar Susete, um pouco antes da chegada dos primeiros jornalistas e das esta√ß√Ķes de televis√£o.
          Hoje, a aldeia do Eito era a estrela das not√≠cias nacionais. Abrira os telejornais da hora do almo√ßo com as malditas labaredas a devorar as matas circundantes e com tr√™s cad√°veres esculpidos por elas, indiferentes √† mat√©ria-prima das suas obras. Agora, a cereja no topo do bolo era a morte do rapaz do isqueiro assassino em circunst√Ęncias estranhas, a apurar mais tarde por quem de direito. Os dias seguintes iriam ser demasiado complicados para desentrela√ßar tantas culpas. At√© tudo entrar nos anais do esquecimento da√≠ a uns anos, quando o verde voltasse √†s matas pelas m√£os da chuva redentora.
           No dia seguinte, Abel, juntamente com S√©rgio e Luciano, teve de ir logo de manh√£ tirar uma certid√£o de nascimento do filho mais velho, na qual, da√≠ a um dia ou dois, seria averbado o respectivo √≥bito e a causa da morte: incinera√ß√£o pelo fogo ap√≥s espancamento, em princ√≠pio.

                                                                                       XLIX

           -Coitada da pobre Susete. Nem quero imaginar se se tratasse da minha m√£e. Apesar de Telmo ter feito tudo para merecer o que lhe aconteceu. A come√ßar pelo envenenamento do ca√Ķzito ‚Äď disse Domingos.
           -Foi mesmo a Pena de Tali√£o em cheio. E, como referi, as coisas s√≥ poderiam ter aquele desfecho hoje, com as emo√ß√Ķes √† flor da pele. Amanh√£ soaria a premedita√ß√£o amadurecida ao longo de vinte e quatro horas, tempo mais do que suficiente para acrescentar umas migalhas substanciais √† condena√ß√£o.
          -Sem d√ļvida.
           -E tu, est√°s melhor?
           -Sim, obrigado. Raio do filme que nunca mais acaba. H√° bocado, houve aqui uma invas√£o de tra√ßas. Era como se uma praga semelhante √† dos gafanhotos eg√≠pcios estivesse a invadir o teu hotel.
          -√Č deste calor infernal. Ficam perdidas no meio da luz. A tra√ßa nasceu para viver nas sombras. Se o Inferno existisse, dar-se-ia bem por l√°‚Ķ Queres comer ou beber alguma coisa? Uma cerveja, um sumo, pipocas?
          -N√£o, obrigado. Tantas mortes no √©cran deixaram-me sem apetite.

continua

« Última modificação: Julho 30, 2020, 22:22:24 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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outono


« Responder #81 em: Julho 26, 2020, 21:02:46 »

Pena de Tali√£o?
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« Responder #82 em: Julho 26, 2020, 21:58:47 »

                                                                                  59

          Ter√ßa-feira amanheceu na mesma cor morti√ßa dos √ļltimos dias, depois de o fogo continuar a sua varredura por todo o lado sem o m√≠nimo respeito, sequer, pelas √°reas protegidas como reserva ecol√≥gica. Era o dia da chegada de S√≠lvia, de Pierre, dos pais deste, do Tio Alfredo, da Tia Am√°lia e dos dois primos. Viriam de qualquer maneira, embora o evento pensado para lhes tornar a estadia agrad√°vel nada tivesse a ver com os dois funerais em que desembocara um casamento desfeito pela chama de um isqueiro. Aterraram, cerca das dez horas da manh√£, no Aeroporto do Porto, onde Vasco e um amigo de inf√Ęncia de Alfredo e Leandro foram buscar as oito pessoas integrantes da comitiva, que, de nupcial, passara num bater de asas e pela chispa de um isqueiro a um cortejo familiar, f√ļnebre e funesto
          √Ä tarde, pouco depois das quatro horas, chegaram como o previsto, vindas da morgue, as urnas com os restos mortais de Ana Rosa e do pequeno Diogo, sendo depositadas no centro de uma capela mortu√°ria de razo√°vel dimens√£o, um ao lado do outro, no √ļltimo encontro entre av√≥ e neto. O espa√ßo comportava, at√©, dois caix√Ķes de adultos, caso, numa fatalidade raramente acontecida, a morte pudesse visitar no mesmo dia duas pessoas da mesma fam√≠lia ‚Äď ou de outra ‚Äď como agora acontecera. Ao lado, havia ainda uma esp√©cie de capela de segunda classe, utilizada felizmente pouqu√≠ssimas vezes. E n√£o demorou muito at√© come√ßarem a aparecer os primeiros ramos de flores e manifesta√ß√Ķes de pesar aos enlutados.
          Depois, iniciado o vel√≥rio, decorria tudo sem sobressaltos, apesar de se viver um ambiente de consterna√ß√£o geral pelas mortes, sem se saber se mitigado ou n√£o pela aplica√ß√£o da justi√ßa popular que levara ao espancamento de Telmo e √† sua morte.
          Catarina, Vasco, Leandro, Dulce, Joanne e todos os rec√©m-chegados estavam sentados no mesmo banco lateral, quando, do lado de fora da igreja, seriam sensivelmente cinco horas, se levantou um pequeno burburinho, obrigando a fam√≠lia a levantar-se para se inteirar do que se passava no exterior. Um novo carro funer√°rio, da mesma empresa mortu√°ria, havia chegado. E, mal estacionara, os ciganos, for√ßados a uma perman√™ncia na pra√ßa pelas circunst√Ęncias, acudiram em tropel, junto com irm√£os da comunidade ali chegados entretanto. Era agora a vez de descarregar a pequena urna branca com os restos mortais do pobre Manolito irreconhec√≠vel, na verdade um peda√ßo de carv√£o deformado pelo fogo. Sem ter sido poss√≠vel vestir-lhe qualquer roupa, isso obrigou os servi√ßos da morgue √† recomenda√ß√£o, uma esp√©cie de ordem profil√°ctica, de que o caix√£o fosse mantido fechado a todo o custo. O ciganito fora o mais sacrificado pelas chamas. Contudo, em virtude de estragos semelhantes no pequeno Diogo e em Ana Rosa, embora menores, a fim de n√£o tornar a como√ß√£o geral numa mem√≥ria de horrores, os mesmos servi√ßos haviam emitido id√™ntica recomenda√ß√£o para os caix√Ķes de ambos.  
          Assim se dava de in√≠cio a novas lamenta√ß√Ķes do povo cigano, agora num coro amplificado com novas vozes que acompanhavam, como abelhas a convergir para a colmeia, o encaminhamento da urna at√© o interior da capela onde, a seguir, seria depositada no s√≠tio residual dos defuntos. Contudo esta circunst√Ęncia adquiriu de imediato para todos os membros da comunidade cigana a dimens√£o de estigma. O enterro de Manolito parecia estar a ser catalogado como um funeral de saldo, com o mesmo valor dos len√ß√≥is e dos p√≥los contrafeitos que sempre haviam vendido na feira. Mas se uns e outros n√£o passavam de roupa que se poderia facilmente substituir por outra, o rapazinho era √ļnico no mundo, nem melhor nem pior do que Diogo ou a av√≥, e n√£o iria ser tratado de maneira diferente pela discrimina√ß√£o de que, ao longo de s√©culos de hist√≥ria, sempre se haviam sentido v√≠timas. A crian√ßa tinha direito a ficar num espa√ßo condigno. E iria t√™-lo.
           -O meu menino n√£o vai para esse cortelho! ‚Äď disse indignada , C√°rmen, em voz alta , apoiada por In√°cio, Rodrigo, Luzia e todos os outros num intervalo de l√°grimas.
          -Mas onde √© que o vamos colocar? ‚Äď perguntou o agente funer√°rio.
          -√Ä beira do outro anjinho ‚Äď respondeu a mulher, enquanto Catarina e a restante fam√≠lia sa√≠a da sua contrista√ß√£o para tomar posi√ß√£o num caso com fortes probabilidades de descambar para o arroxo ‚Äď. Afinal nem vai ser poss√≠vel abrir as urnas para o √ļltimo beijo de despedidas em nenhum deles! ‚Äď continuou a matriarca cigana.
          -Quer p√īr o seu filho em cima do meu? N√£o v√™ que n√£o h√° espa√ßo? ‚Äď remoqueou Catarina de rosto agora endurecido e que s√≥ um acontecimento carregado de m√° vontade como aquele poderia ter desencadeado.
          -Pois, isto s√£o urnas com pessoas dentro e n√£o caixas de sapatos que se possam empilhar umas sobre as outras! ‚Äď acrescentou Vasco defendendo a mulher.
           -E por que √© que o meu sobrinho ter√° de ser tratado como o filho de um deus mais pequeno e mandado para as catacumbas como se fosse parente do diabo? ‚Äď interrogou Rodrigo, com Luzia a fazer-lhe eco das palavras.
          -√ď homem, n√£o √© nada disso! √Č mesmo porque n√£o h√° espa√ßo ‚Äď acrescentou Leandro -. Ningu√©m tem culpa de ter acontecido aqui o que aconteceu!
          -N√£o sei por que marcaram o funeral para o mesmo dia!... ‚Äď opinou Dulce com alguma ironia -. S√≥ se for por n√£o terem dinheiro para pagar ao padre.
          -Queriam o qu√™? Que guard√°ssemos o Manolito no frigor√≠fico como se fosse um torresmo? ‚Äď ironizou tamb√©m In√°cio, com m√°goa e raiva.
          -N√£o! Quer√≠amos que fosse para onde devia, para a capela ao lado. Voc√™s est√£o a complicar o caso sem raz√£o nenhuma ‚Äď disse Vasco zangado.
           Providencial foi, da√≠ a nada, a presen√ßa do Padre Fernandes e de Ant√≥nio Pinto, que, numa conversa recheada de contrapartidas e em que simultaneamente se exclu√≠a qualquer ideia de preconceito sobre a ra√ßa, convenceram a fam√≠lia cigana a aceitar a situa√ß√£o.
          -Aqui todos est√£o solid√°rios convosco ‚Äď sublinhou o presidente ‚Äď. Enquanto n√£o resolverem a vossa vida, continuaremos a apoi√°-los com comida e outros bens de primeira necessidade ‚Äď continuou o homem algo incomodado com o cheiro a suor exalado por todos os ciganos ‚Äď. O alojamento est√° a ser tratado‚Ķ Apesar de hoje terem ainda de dormir ao ar livre. J√° h√° mais cobertores e colch√Ķes.
          -No que depender da par√≥quia, treze pessoas, mais a que vem a√≠ a caminho ‚Äď continuou o padre apontando a barriga de Luzia ‚Äďn√£o morrer√£o √† fome.
          E assim o caix√£o da pobre crian√ßa, uma modesta urna branca com dourados simples a enfeit√°-la, era colocado na capela mortu√°ria de segunda classe e t√£o modesta quanto a caixa de madeira onde Manolito dormia o sono eterno.
          Parte do caos gerado por Telmo parecia ter entrado na rota da ordem, se n√£o da forma ideal, pelo menos da forma poss√≠vel. Contudo, quer uma, quer outra das duas fam√≠lias, estava visivelmente contrariada pela conviv√™ncia for√ßada e pela partilha de um local da igreja onde jaziam os seus entes queridos. Era como se, no fundo, cada uma se visse privada do protagonismo das l√°grimas e invejasse cada ramo de rosas que pudesse ser depositado na capela nobre, aos p√©s dos dois paisanos, ou na mais humilde, junto do pequeno Manolito. Embora fosse de prever a avalanche de flores homenageando Diogo e a av√≥, em compara√ß√£o com aquelas a que teria direito o ciganinho, se um gitano endinheirado n√£o resolvesse comprar uma florista em peso para honrar a crian√ßa cigana e ‚Äúfazer ver‚ÄĚ ao povo.
          Antes do fim da tarde, contudo, um novo quiproqu√≥ teve lugar, j√° que todos os pedregulhos de v√©spera tinham feito descarrilar do seu trilho a pondera√ß√£o de algumas pessoas para gerir, sem conflitos, a morte que se instalara na aldeia do Eito. Incluindo o padre e o presidente da junta. Se a morgue havia conseguido m√©dicos legistas suficientes para realizar quatro aut√≥psias, uma pequena aldeia do centro n√£o lograra edificar, de um dia para o outro, qual Ponte da Misarela constru√≠da pelo Diabo numa noite, capelas mortu√°rias suficientes para quatro defuntos, sendo um deles o carrasco dos outros tr√™s. E nem sequer a ag√™ncia funer√°ria, com a sua preocupa√ß√£o principal a girar √† volta do velho princ√≠pio ‚Äúeu n√£o quero que ningu√©m morra, s√≥ quero que a vida me corra‚ÄĚ, pensou nas implica√ß√Ķes que uma tal mistura poderia provocar em cada uma das tr√™s fam√≠lias, levando-as a pensar, pelo menos a duas delas, em discrimina√ß√£o mesmo na morte. Logo numa circunst√Ęncia em que as pessoas, mais do que nunca, deveriam ser iguais como no nascer, apesar do lugar-comum do ‚Äúber√ßo de ouro‚ÄĚ.
          Da√≠ que, quando o carro funer√°rio parou na pra√ßa com o cad√°ver de Telmo, uma hora depois de chegada de Manolito, al√©m de n√£o ter no largo da igreja ningu√©m da fam√≠lia para o receber, se deparasse com a inexist√™ncia de um local apropriado para depositar o caix√£o:
          -‚ÄúComo √© que ningu√©m pensou nisto A morgue o que queria era ver-se livre de pessoas indigestas como esta, Ao menos que o levem para uma das freguesias vizinhas, enquanto as duas capelas n√£o vagarem, Quem √© que quer prestar homenagem a um bandido destes, N√£o me digam que os funerais v√£o ser todos √† mesma hora, Claro, Embora o cemit√©rio n√£o seja longe, se houver para l√° uma corrida √†s pinguinhas, ter√° talvez a ver com o carro da funer√°ria e n√£o por causa da missa, O senhor Padre Fernandes n√£o estar√° disposto a repeti-la quatro vezes, Assim, em ex√©quias colectivas, s√≥ se preocupar√° em nomear as pessoas por ordem de chegada ao reino dos mortos: Manolo Maia, Ana Rosa, Diogo e, finalmente, Telmo Cerveira, o rapaz do isqueiro assassino‚ÄĚ.
          -S√≥ se o colocarmos na igreja‚Ķ O que √© que o senhor padre acha da ideia? ‚Äď perguntou o funer√°rio ao p√°roco, quando, a aproximar-se, estava Susete, menos catat√≥nica do que na v√©spera ao deparar-se com o cad√°ver do filho e protagonizou uma cena b√≠blica semelhante √† que fora imortalizada por Miguel √āngelo. Um pouco mais atr√°s, vinham o marido e os outros tr√™s filhos, os filhos bons, j√° que a ma√ß√£ podre iria, finalmente, a enterrar numa hora presumida, a dos outros tr√™s. Na confus√£o desencadeada por tantas mortes, ningu√©m se havia referido ao hor√°rio do funeral do rapaz que acabara com tr√™s pessoas e mais um c√£o. Sem contar, ainda, com o avi√°rio do Jo√£o e as vacas do Norberto, para al√©m do preju√≠zo em matas, vinhas e pomares de macieiras carregadas de frutos
           -N√£o me parece boa ideia‚ĶSe colocar o ciganito na capela pobre j√° foi um problema, permitir-se que quem, alegadamente, esteve na origem de tanta desgra√ßa fosse para a igreja iria talvez provocar um motim!... ‚Äď respondeu o padre, obrigado pelas circunst√Ęncias a pensar na sua par√≥quia como um pol√≠tico igual ao presidente da junta, ali a seu lado disposto a intervir em conflitos da respectiva al√ßada. ‚Äď. A fam√≠lia dos outros tr√™s iria sentir-se indignada. ‚ÄúAh, ele, o assassino, vai para a igreja como se fosse um rei e os desgra√ßados mortos por causa dele t√™m de ficar espremidos nos anexos‚ÄĚ . Deveriam ter pensado nisso antes!
          -Pois. Mas agora n√£o podemos devolver o corpo √† morgue. Temos de dar solu√ß√£o ao contratempo.
           -Vou falar com cada uma as duas fam√≠lias. Coitadas, est√£o exaustas e depois de sanado o primeiro aborrecimento, verem-se envolvidos noutro passado uma hora s√≥ os vai deixar ainda mais perturbados.
           E o padre come√ßou a abordagem:
           -Nem pensar! ‚Äď recusaram simultaneamente Catarina, os irm√£os, C√°rmen e In√°cio, informados do recurso em vista ‚Äď. Era s√≥ o que faltava! Esse assassino que v√° para o inferno! ‚Äď praguejou C√°rmen.


                                                                                     L

           -Era de prever que, sobretudo na morte, quer Catarina e os irm√£os, quer os ciganos, quisessem ver v√≠timas e agressor bem longe uns dos outros. Temos, assim, uma das poucas criaturas humanas sobre cujos pecados a morte n√£o lhe passa nenhuma esponja logo ali no vel√≥rio, como acontece habitualmente. ‚Äď ‚ÄúAh tinha l√° os seus defeitos como toda a gente, mas n√£o deixava de ser boa pessoa A mim nunca me fez mal, foi sempre respeitador, S√≥ se tivesse umas cervejas a mais no bucho ou droga na veia‚ÄĚ.
          -Tens raz√£o, Fausto. Se os responsos do padre n√£o o ajudarem, ent√£o Telmo tem o Inferno garantido. Al√©m de que eu tamb√©m teria medo da possibilidade de o rapaz come√ßar, de imediato, a assombrar o descanso eterno dos tr√™s, como lhes ensombrara a vida durante uma noite a ponto de os mandar para o outro mundo.  
           -O padre de pol√≠tico tem pouco ‚Äď observou Fausto ‚Äď. Deveria ter feito √†s outras duas fam√≠lias uma sugest√£o diferente. Sendo que iria sempre confrontar-se com a oposi√ß√£o dos parentes do malfeitor. Sobretudo de Susete. Uma que desse mais jeito ao Diabo, para onde C√°rmen o mandou.
          -Qual?
          -Que tal confinar o culpado nos anexos e mandar as v√≠timas para a igreja, a casa grande?
                                                          
                                                                             60

          -E se fosse ao contr√°rio? ‚Äď perguntou Ant√≥nio Pinto como se tivesse ouvido a sugest√£o de Fausto ue assistia a tudo no √©cran.
           -Tem raz√£o, senhor presidente...- observou o padre ‚Äď bem visto‚Ķ
           -Ao contr√°rio como? ‚Äď quis saber Alfredo, irm√£o de Leandro, esperan√ßoso de, finalmente poder velar a m√£e e o sobrinho longe do manifesto mau-cheiro de qualquer um dos ciganos, a quem ainda ningu√©m se lembrara de oferecer, no m√≠nimo, um quintal e uma mangueira de √°gua fria para poderem a seguir vestir a roupa limpa que a irm√£ come√ßara por lhes dar na v√©spera.
          -A vossa m√£e e o Dioguito v√£o para a Igreja, o Manolito vai para a capela melhor e o rapaz ir√° para a outra ‚Äď adiantou o Padre Fernandes.  
          -Nem pensar! ‚Äď disse C√°rmen energicamente, vislumbrando de novo na solu√ß√£o uma forma de racismo a que n√£o iria de maneira alguma submeter o filho.
          -Ou, ent√£o, iriam para a igreja. Ainda que tiv√©ssemos de arredar alguns bancos para caberem os tr√™s ‚Äď continuou o padre como se C√°rmen, com a sua recusa intempestiva, lhe tivesse obstru√≠do a formula√ß√£o correcta da oferta.
          -Assim est√° melhor ‚Äď concordou In√°cio, enquanto Catarina e o resto da fam√≠lia, desiludidos, enrolavam a cara num n√≥ de desagrado, sem poderem usar de novo o argumento do espa√ßo para se livrarem da proximidade dos ciganos e das suas irritantes lamenta√ß√Ķes.
          Depois de Ant√≥nio Pinto e o Padre Fernandes lhes lembrarem as circunst√Ęncias em que Telmo morrera, tanto Susete como Abel e os tr√™s filhos aceitaram como boa a solu√ß√£o profil√°ctica encontrada. Afinal, seria conveniente n√£o exacerbar de novo a ira do povo, sabendo-se agora do que ele era capaz. Talvez nem depois de morto Telmo se livrasse dela. E, se fizessem grandes ondas, estariam a complicar a possibilidade de um vel√≥rio com o m√≠nimo de dignidade. Ainda que numa capela havida como um mero refugo para mortos qualificados da mesma maneira. Por isso, era melhor deixarem-na sozinha com o filho, enquanto este n√£o baixasse √† terra para entregar finalmente a alma a Deus no dia do julgamento final.


                                                                            LI

           -Com o curr√≠culo dele, aposto que vai para o outro lado ‚Äď brincou Domingos ‚Äď. Fez bem por merecer o inferno.
           -Se tu o dizes, at√© um tribunal de j√ļri poderia confirm√°-lo.


          continua

« Última modificação: Julho 30, 2020, 22:23:38 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #83 em: Julho 30, 2020, 18:29:48 »

Telmo deve ser caso √ļnico. Nem depois de se ir, √© considerado boa pessoa.
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« Responder #84 em: Julho 30, 2020, 21:19:07 »

Deve ser mesmo, Na√ß√£o Valente. O √ļnico morto a quem a morte n√£o est√° a branquear grande coisa...




                                                                           61
          Na v√©spera, enquanto Telmo era confrontado com as terr√≠veis acusa√ß√Ķes de pirot√©cnico, Marisa regressara a casa bastante perturbada. Ainda assim, atrav√©s de um bom duche, tinha esperan√ßa de se ver livre da terr√≠vel sensa√ß√£o de haver mergulhado numa tina de √°gua choca, onde parte das suas recorda√ß√Ķes com o mesmo protagonista da pra√ßa lhe pareciam agora girinos nojentos a chafurdar cegos no lodo. Contudo, n√£o conseguiu abstrair-se delas. Nem enquanto sentia a √°gua t√©pida escorrer-lhe pelo corpo como uma car√≠cia, ao longo do tempo em que prolongou o banho como se quisesse fugir √† realidade, nem depois de voltar ao quarto enrolada na toalha onde Zico dormira de novo na paz dos gatos felizes com os seus amores. Apesar de n√£o ter havido ainda nenhum tribunal a confirmar as afirma√ß√Ķes do surdo-mudo, acreditava nelas. O rapazinho n√£o iria inventar tudo aquilo, por muito marginal que fosse a vida de todos no acampamento. Era demasiado macabro algu√©m, privado de um sentido como a audi√ß√£o, ser capaz de efabular, atrav√©s de outro, semelhante acusa√ß√£o. Por muito que os olhos ajudassem na sedimenta√ß√£o da maldade, o contributo dos ouvidos seria sempre decisivo. Por eles entrava a maior parte das componentes ruins do mundo. E Telmo, depois da emblem√°tica bofetada com que a marcara no rosto por algumas horas, ilustrou para sempre, como num mostru√°rio de tecidos, as nuances de que o seu grande potencial de viol√™ncia seria capaz. At√© o Zico sabia isso.
          Sozinha em casa, sem se decidir ligar a N√©lson para selar a paz entre ambos, mal soube da morte de Telmo, o horror invadira-a a ela e a toda a casa. Era como se o fantasma do rapaz se tivesse colado √†s paredes e ao tecto em qualquer s√≠tio onde ela estivesse, deixando-a tonta de medo. Falou, entretanto, com os pais, para Viana do Castelo. Tudo aquilo era demasiado horr√≠vel. Telmo estava morto. E se n√£o fosse a sua alma penada pelos cantos a atormentar-lhe a vida, como parecia estar j√° a acontecer, o corpo n√£o seria de certeza, quando uma aldeia inteira o vira a ser espancado na pra√ßa, seguindo-se a sinistra incinera√ß√£o. √Äquela hora estava na morgue, num g√©lido frigor√≠fico para ser autopsiado no dia seguinte, esquartejado de cima a baixo, por dentro e por fora, a fim de ser determinada a exacta causa da morte. Talvez, por esse meio, lhe fossem encontrados tamb√©m, em qualquer lado, sentimentos onde andasse perdida alguma sensatez √† espera de ser reconduzida ao lugar devido. E, analisadas as coisas friamente, quem o incendiara, se n√£o padecesse de dem√™ncia, teria certamente o mesmo potencial maquiav√©lico do morto, sendo igualmente de temer. Talvez a aldeia estivesse infestada de assassinos. Al√©m de tudo, os pais s√≥ regressariam no dia seguinte.
           Foi no meio de um medo avassalador que decidiu ligar ao namorado, quando o ar macilento da tarde principiava a precipitar-se na escurid√£o de uma noite que sofria da mesma doen√ßa. Viseu era a dois passos. Nelson, agora sem o seu mais tenebroso Calcanhar de Aquiles, Telmo, numa hora estaria com ela. E ent√£o livrar-se-ia daquela opress√£o gigantesca que a derrotava mesmo at√© perante o pobre do seu gato.
           Mal, ap√≥s a mensagem a avis√°-la da chegada, Marisa abriu a porta da rua, antes de proferir uma √ļnica palavra, lan√ßou-se lavada em l√°grimas nos bra√ßos do rapaz, enquanto este a afagava em sil√™ncio contendo-se para n√£o fazer o mesmo.
Sem qualquer dos dois, por mais que isso estivesse presente entre ambos, querer falar do que acontecera na praça, mal conseguiu acalmar, pegando entre as mãos no rosto de Nelson, desculpou-se ainda de olhos marejados.
           -Fui muito parva hoje‚ĶDesculpa
           -A culpa foi minha, reconhe√ßo‚Ķ
          -Amo-te, seu tonto! Seu rapaz de beijos com sabor a sabonete ‚Äď brincou, j√° com um sorriso nos l√°bios.
           Nelson sorriu igualmente.
           -Tamb√©m te amo Marisa. Muito. Desde o tempo dos teus primeiros desabafos sobre‚Ķ
           -N√£o digas nada‚Ķ- acrescentou antes de uma pausa ‚Äď. Sabes que, no fundo, tenho pena dele? Foi horr√≠vel saber que morreu e como morreu. N√£o lhe desejava a morte, por muitos inc√≥modos que ele me causasse ainda‚Ķ
           -Imagino. Nunca pensei que lhe pudesses desejar semelhante coisa. Apesar de ele ter ido longe demais‚Ķ
           -Sim, √© verdade‚Ķ Incendiar o acampamento com os ciganos l√°‚ĶE ainda me magoa pensar que, desde a inf√Ęncia, estive durante tanto tempo apaixonada por algu√©m como ele, capaz de fazer o que fez.

                                                                LII
           -N√£o digas! Devem estar os dois todos contentes. Apesar de teres trocado um pr√≠ncipe por um sapo!
           -S√≥ porque Nelson tem ascend√™ncia africana, n√£o quer dizer que n√£o seja um rapaz interessante ‚Äď defendeu Fausto.
          -S√≥ se for para ti. Entre um rapaz com a muta√ß√£o de uma carapinha na cabe√ßa e um ruivo, se estivesse no lugar dela preferia o pr√≠ncipe dinamarqu√™s.


                                                                            62

          -Agora percebo-te. Fui um idiota ao pensar tantas vezes que ainda sentias alguma coisa por ele. Tudo n√£o deve passar de uma m√°goa que, n√£o se colando √† pele, cola-se contudo ao cora√ß√£o como uma pel√≠cula imposs√≠vel de remover.
          -√Č coisa que, por muito que nos doa, far√° parte da nossa vida. N√£o podemos despir mem√≥rias como se elas se transformassem em camadas de roupa, tornada fora de moda de repente por um novo amor. Obrigada por teres vindo.
          -Eu j√° n√£o queria ter ido embora, mas pronto‚Ķ N√£o falemos mais no assunto. E √© bom saber que que me tornei no rapaz dos beijos com sabor a sabonete ‚Äď mimavam-se um ao outro, enquanto entravam num processo de levita√ß√£o ao mesmo tempo que, abra√ßados pela cintura, subiam as escadas como se fossem um s√≥.
          Agora tinham a certeza de, a partir desse dia, poderem falar sem reservas sobre qualquer assunto. Mesmo tratando-se do morto que tanto ensombrara em vida o pobre Nelson, com os seus genes modificados que lhe haviam atribu√≠do a cor ruiva ao cabelo e semeado no rosto e nos bra√ßos aquela areia castanha de sardas.
          -Ficas comigo esta noite?
          -Claro, querida. N√£o vou voltar, pela segunda vez no mesmo dia, para Viseu.- sussurrou Nelson renovado pela reconcilia√ß√£o na sua auto-estima.
          -Preciso muito que fiques, mesmo, amor. Se soubesses o pavor que j√° experimentei sozinha nesta casa! Foi como se os fantasmas das hist√≥rias da minha inf√Ęncia voltassem hoje pela m√£o de Telmo para me amedrontarem.
          -Ficarei at√© os teus pais regressarem, se quiseres. Quando √© que eles v√™m?
          -Amanh√£. E claro que quero que fiques, amor! Nem se pergunta!
          -N√£o iria deixar-te sozinha. N√£o hoje, numa terra cheia de mortos e vivos confusos, a respirar em simult√Ęneo √≥dio e amor da mesma part√≠cula de ar. Isto aqui est√° explosivo, como um paiol de pirotecnia ao lado de uma loja de f√≥sforos.
          -Quero √© que fiques para sempre! ‚Äď murmurou Marisa, cada vez mais doce, naquele renovar de harmonia entre os dois.
           -Para sempre n√£o me parece muito tempo‚Ķ Tens de lhe acrescentar mais qualquer coisinha‚Ķ ‚Äď brincou o rapaz, beijando-a ao entrarem no quarto onde Zico, espregui√ßando-se sobre a cama de Marisa, acabava de acordar de mais uma sesta.
          -Est√° bem at√© ao infinito? - perguntou no mesmo tom teatral do namorado, enquanto iludia por instantes a onda de horrores a que havia assistido durante o dia.
          -Muito melhor!... Para j√°, n√£o conhe√ßo nenhuma palavra com um significado mais longo‚Ķ ‚Äď continuou Nelson, sorrindo de aprova√ß√£o.
          Ao aproximar-se do animal, este deixou-se agarrar pelo jovem, que o afagou por alguns instantes antes de o pousar no ch√£o. Depois de um alongamento no tapete transformado em gin√°sio, Zico sumiu pela porta, fechada entretanto pela urg√™ncia do amor que os impulsionou para a cama, disponibilizada integralmente aos dois por um gato discreto e cheio de boas inten√ß√Ķes.
           -Tive tantas saudades de ti, do teu corpo‚Ķ - sussurrou o rapaz, da√≠ a nada, enquanto a despia lentamente, agora que a ex√≠gua roupa de um sufocante dia de calor se tornava in√ļtil. Um estorvo para as caricias com que ambos iam construindo o seu desejo, tecido, beijo a beijo, sobre um rasto de l√°grimas a que um fantasma n√£o era alheio mas que acabara igualmente por ajudar a sec√°-las uma a uma.
          -Tamb√©m eu, seu louco... ‚Äď disse a rapariga numa voz doce como um prazer  merecido ‚Äď. Contigo tudo √© t√£o bonito‚Ķ Fazes-me sentir sempre especial‚Ķ- acrescentou, ajudando-o a despir com a mesma subtileza com que, como uma flor fresca acabada de colher, ele a deixara nua sobre a coberta azul florida.
          -√Čs t√£o linda‚Ķ Adoro o teu cabelo, a tua pele, os teus l√°bios, os teus seios - sussurrava entre uma car√≠cia e a outra, contemplando o corpo da rapariga que se oferecia ainda com a timidez da recente reconcilia√ß√£o.
E assim, numa uma noite de plena embriaguez, os desconsertos do mundo lá fora se haviam diluído quase completamente pela magia do amor e do prazer que ele trouxera consigo.
 
                                                                                        63
          Acordaram abra√ßados, j√° a manh√£ ia longa na vida de uma aldeia coberta pelo mesmo capacete dos √ļltimos dias. O sol mostrava-se de novo taciturno, quase sem esperan√ßa de alguma vez voltar a ter o brilho de outrora. Enquanto isso, o cheiro a fumo suspendia-se no ar por todo o lado, mais um fantasma macabro em busca de pessoas a quem se agarrar. At√© lhes provocar a n√°usea disfar√ßada de alergias da Primavera e acompanhada de tosse, os sinais exteriores de bloqueio das vias respirat√≥rias de que ningu√©m conseguia fugir. O pa√≠s era um paiol, nenhuma estrada oferecia garantias de nela se poder circular sem nos depararmos com um corte da protec√ß√£o civil fosse onde fosse por causa do fogo.
          Quando receberam o telefonema da m√£e de Marisa a adiar o regresso, decidiram n√£o ficar a ver o rescaldo das trag√©dias da aldeia do Eito, piores do que a pior das maldi√ß√Ķes. A terra parecia, definitivamente, assombrada por fantasmas de √°rvores, pessoas e animais, do mais complexo como o homem at√© √† mais nojenta barata que, como os outros, contribu√≠a para um equil√≠brio ecol√≥gico cada vez mais amea√ßado.
          -Vamos para minha casa ‚Äď disse N√©lson, sem admitir recusa.
          Fora a maneira mais simples de se esquivaram √† confrangedora dan√ßa de caix√Ķes entre capelas imperfeitas e uma igreja decorada no interior a talha dourada e j√° com alguns s√©culos de hist√≥ria.




continua....
« Última modificação: Julho 30, 2020, 22:24:32 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #85 em: Agosto 02, 2020, 19:22:01 »

Nada como uma reconciliação... dizem. Se puder dar opinião, não concordo rsrsrs
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« Responder #86 em: Agosto 04, 2020, 17:55:03 »

                                                                                 LI
          -Finalmente uma cena de amor entre mortos!... ‚Äď observou Fausto com ironia, desde o in√≠cio apostado em provocar o amigo por causa das suas semelhan√ßas f√≠sicas com o protagonista.
          -T√©pida, por sinal. Marisa √© uma mosca morta. Uma rom√Ęntica fora de moda, uma rapariga sem sal nem azeite.
          -Al√©m de te fazer lembrar algu√©m que conheces bem e de que n√£o te lembras‚Ķ
          -√Č verdade. √Äs vezes temos destes bloqueios. Talvez isso seja por causa da mistela que me deste no teu quarto‚Ķ
          -Ages como se tivesses ci√ļmes do pobre Nelson‚Ķ Mas ele n√£o passa de um int√©rprete da trama a vestir a pele de uma personagem secund√°ria.
          -Baseada em factos reais, lembra-te disso. Mas n√£o √© por essa raz√£o. Embora n√£o te saiba dizer por que raio sinto tanta antipatia pelos dois‚Ķ
          -Espero que te lembres at√© ao final.

                                                                                           64

          Por volta das oito horas da noite, os ciganos comiam de novo uma sandes de queijo e fiambre. Desta vez, precedida de uma sopa de couve cora√ß√£o que a Dona Celeste preparara entre a cozinha da sua casa e a copa do caf√© onde tratava dos pedidos dos clientes. Ant√≥nio Pinto desdobrava-se em dilig√™ncias para matar a fome a uma fam√≠lia de treze pessoas sem uma c√īdea no bolso para tentar um rato que tivesse escapado ao holocausto provocado pelo fogo. Era na realidade deprimente ver tantos mi√ļdos a deambular por ali, no meio de cobertores, sacos cama e colch√Ķes de praia, entre o adro da igreja e o largo, desgarrados no meio de pessoas que, apesar de tudo, lhes pareceriam hostis. A culpa disso talvez fosse das hist√≥rias ouvidas dos pais contra esta gente de outro mundo na Terra. Entre as in√ļmeras pessoas que se haviam deslocado √† igreja, estavam algumas da comunidade gitana que viera especificamente para velar Manolito, deparando-se constrangidas com a estranha mistura a que as circunst√Ęncias haviam obrigado. O rapazinho, dentro do caix√£o aos p√©s de Ana Rosa e ao lado de Diogo, parecia mais um neto da pobre mulher, que se colocara ali para ouvir a √ļltima hist√≥ria contada pela av√≥.
          De resto, a maioria dos homens e mulheres, entrando e saindo de um lado e o outro, era constitu√≠da pelas mesmas pessoas que, de v√©spera, entre assist√™ncia e participantes, haviam feito parte do b√°rbaro espancamento de Telmo. E, hoje, num vel√≥rio colectivo, repartido entre uma capela para defuntos e uma igreja para missas e casamentos, todos eles apresentavam alternadamente os p√™sames √†s diversas fam√≠lias, oscilando certamente entre sentimentos de genu√≠na consterna√ß√£o e de remorso. Susete, Abel e os outros tr√™s filhos, impedidos pelo muro de sil√™ncio que se abatera sobre a aldeia de saber os contornos da morte de Telmo, recebiam as manifesta√ß√Ķes de pesar com alguma desconfian√ßa. N√£o seria descabido imaginar que algumas daquelas l√°grimas, em vez de solid√°rias, fossem de cebola. Ou, ent√£o, de algu√©m que tivesse pontapeado o filho como se este fosse o filho do diabo e que, atrav√©s de um ramo de flores, quisesse manifestar arrependimento numa esp√©cie de exorcismo florido.
          Cerca da meia-noite, a igreja e a capela fecharam, obrigando os √ļltimos veladores de defuntos a sair. Parte dos ciganitos havia sucumbido ao sono. Dormiam por ali onde podiam, enfiados nos sacos-cama e tapados pelos cobertores, transformados em farrapos velhos pelo cen√°rio miser√°vel que se destinavam a adornar, a pra√ßa em frente √† igreja, onde da√≠ a pouco mais de uma semana iria decorrer a festa da Padroeira Santa Margarida. Enquanto isso, quase toda a gente regressavam a casa, deixando a pra√ßa entregue aos desalojados e a alguns curiosos.
          Tiago, o rapazinho mais velho de Catarina, n√£o estivera presente. Para o poupar, mal se percebeu que Ana Rosa e Diogo os haviam deixado sozinho neste mundo de doidos incendi√°rios, fora enviado para casa dos av√≥s paternos. Embora no fundo o garoto soubesse que o irm√£ozito j√° n√£o pertencia ao mundo dos vivos e que nunca mais lhe poderia fazer as pirra√ßas a que um irm√£o mais velho tem sempre direito.
          Vasco e Catarina, apesar da insist√™ncia dos irm√£os dela em n√£o os deixar sozinhos naquela primeira noite, insistiram em dormir em casa. Antes do funeral, marcado para as onze horas do dia seguinte, precisavam ainda de imaginar os dois filhos no quarto a dormir tranquilamente, como se o futuro do pequeno Diogo continuasse inabal√°vel √† sua espera. Ou, ent√£o, queriam estar presentes, como se ele pudesse vir a acordar a meio da noite com um pesadelo e quisesse meter-se junto com eles na cama para adormecer de novo protegido dos monstros que o haviam despertado durante o pesadelo. Alfredo bem insistira em que ficassem com eles, na vivenda constru√≠da e argamassada com o suor de Fran√ßa ao longo de anos de muitas priva√ß√Ķes, mas os dois foram inabal√°veis. Leandro fez o mesmo, nada os demoveu. No s√°bado anterior, quando parecia n√£o haver nada a amea√ßar o casamento de S√≠lvia nem a vida de ningu√©m, ter-se-iam divertido todos a falar dos sucessos uns dos outros e a sublimar os fracassos, mas, hoje, estavam t√£o mortos por dentro como a velha Ana Rosa e o filho. Diogo ficaria sempre pequenino nos seus cora√ß√Ķes como uma flor por abrir. Agora, a casa estaria para sempre vazia. Logo √† entrada, at√© a chave da porta da rua, a ranger na fechadura como um lamento, fizera quest√£o de lhe lembrar que parte dela j√° n√£o existia. Colapsara quando o fogo lhe arrebatara a m√£e, mas, sobretudo, quando lhe arrancara o filho dos bra√ßos num acto de selvajaria pura. Era como se o mesmo fogo que os matara aos dois tivesse entrado ali e, ironicamente, tivesse deixado tudo de p√© como os cotos negros das √°rvores mortas. De hoje em diante a sua vivenda branca, se n√£o fosse para sempre a ‚ÄúVivenda da Morte‚ÄĚ, pelo menos passaria a chamar-se definitivamente ‚ÄúVivenda da Saudade.
          Catarina havia prometido a si pr√≥pria n√£o voltar t√£o cedo ao quarto dos filhos, onde o pequenito passaria a ser apenas uma mem√≥ria imaterial que ela n√£o poderia jamais apertar nos seus bra√ßos e cobri-la de beijos sempre que lhe apetecesse. Contudo, ao passar junto a ele, fechado anteriormente por Vasco para a poupar a recorda√ß√Ķes dolorosas, n√£o resistiu a abrir a porta. Escancarou-a num impulso, acendendo a luz num √≠mpeto nada condizente com a apatia com que entrara em casa. Foi como se ouvisse, ao lado de Tiago, a dormir profundamente na cama, o choro de Diogo a sair de baixo da sua, depois de ter ca√≠do de dentro dos len√ß√≥is estampados com os pinguins de Madag√°scar no meio de um pesadelo e tivesse de o ir levantar depressa para, a seguir, falando-lhe com, ver se lhe encontrava algum papo na cabe√ßa.
          -Sai daqui querida! N√£o dev√≠amos ter vindo‚Ķ ‚Äď pediu Vasco, pegando na m√£o da mulher e tentando tir√°-la dali sem ela opor resist√™ncia ‚Äď. Desta casa escorrem l√°grimas por todo o lado como humidade numa mansarda durante o inverno. Vamos embora. T√£o cedo n√£o entrarei aqui.
          -N√£o quero ‚Äď gemeu Catarina -. N√£o quero sair daqui nunca mais.
-N√£o podes. Por favor, anda.
          Vasco conseguiu, aos poucos, lev√°-la para o quarto do casal, onde ela se atirou sobre a cama como uma fardo de si pr√≥pria, num sofrimento sem o conforto das l√°grimas, secas entretanto por exaust√£o. Ajudou-a a despir-se e a meter-se na cama. Deitou-se a seguir ao lado dela, enquanto a abra√ßava pelas costas a ouvir-lhe o sil√™ncio e o desespero. Tamb√©m se sentia um caco, vazio e sem alma, mas Catarina era m√£e h√° mais tempo do que ele havia sido pai. Leva-lhe um m√™s de avan√ßo. Al√©m dos oito de gravidez em que esta j√° n√£o era segredo para ningu√©m.
          -Vasco, por favor, faz qualquer coisa a ver se isto passa‚Ķ D√≥i tanto‚Ķ Parece-me que vou rebentar por dentro. Talvez morra de desgosto ainda esta noite‚Ķ
           O homem, sem saber o que dizer, come√ßou a afagar-lhe a nuca, a beijar-lhe os cabelos, tocando-a a seguir com ternura, nas costas nos seios, beijando-lhe depois o corpo, poro a poro, cent√≠metro a cent√≠metro com suavidade, como se quisesse arrancar-lhe de dentro todo o sofrimento por essa via, enquanto ela se entregava como um animal desvalido e sem nada que pusesse fazer da√≠ para a frente sen√£o usufruir do corpo do marido e libertar-se por essa via da sensa√ß√£o de morte que a aniquilava.
          A seguir, antes de adormecer exangue, lembrando-se da igreja onde estavam av√≥ e neto, sentiu algum remorso pelo prazer de h√° instantes. O filho e a m√£e jaziam dentro de uma urna para a √ļltima viagem e depois do √™xtase animal de h√° instantes a dor voltara mais aguda do que nunca.
          Vasco levantou-se da√≠ a pouco, e, para n√£o acordar Catarina, foi chorar como um louco para o quarto dos rapazes.
-Oh, Deus, ajuda-me! Traz-me o meu filho de volta! Quero morrer!


                                                                                             LII

          -Outra cena de amor... ‚Äď observou Domingos algo incr√©dulo.
          -√Č. E triste. Poucos pensar√£o em aliviar um sentimento de perda como aquele atrav√©s do sexo. Mas, neste caso parece ter resultado. Posso jurar que se amam de verdade. O casamento deles vai resistir. De contr√°rio, n√£o demoraria grande tempo at√© um come√ßar a acusar o outro da morte da crian√ßa. ‚Äú Tu √© que o deixaste ir dormir a casa da tua m√£e, Por acaso a tua mora aqui para os deixamos com ela quando temos de ir trabalhar?‚ÄĚ -Muita lama arremessaria um ao outro na v√£ tentativa de sujar um culpado diferente do que todos conhecem, o rapaz que d√° pelo nome de Telmo.
          -Tens raz√£o. Conhe√ßo um mi√ļdo que, depois de um acidente numa piscina na casa dos av√≥s, ficando em estado vegetativo, esteve ainda muitos anos assim a seguir ao div√≥rcio dos pais por esse mesmo processo acusat√≥rio. At√© que Deus, fazendo-lhe a ele a todos uma esmola, o levou.
          -N√£o ser√° o caso. Mas, a partir daqui, vai haver uma grande volta na trama‚Ķ Demasiadas surpresas‚ĶAt√© para ti‚Ķ
          -Para mim?
          -Sim.
          -Por que √© que dizes isso?
-Porque sim! ‚Äď E Fausto calou-se, enigm√°tico.
                                                                                    65

          As onze horas de quarta-feira, hora da missa e dos funerais, chegaram depressa, com a maioria das pessoas a convergir para o local bastante cedo. Um pouco antes de se iniciarem as cerim√≥nias f√ļnebres, chegaram ao local dois desconhecidos, homens ambos, que nunca ningu√©m havia visto at√© a√≠. Alto um e outro, misturaram-se discretamente com os presentes, aparentando, mais do que prestar homenagem aos mortos e condol√™ncias aos vivos, tirar nabos da p√ļcara do ambiente. Pelo ar, que j√° n√£o sabia estar de outra maneira sen√£o pesado e triste, circulava o temor de que se levantasse algum sururu maior do que o de v√©spera. Evit√°-lo, ou reduzi-lo ao m√≠nimo, estaria no bom senso do Padre Fernandes, j√° que a cat√°strofe temida tinha a ver com as ex√©quias em conjunto ou separado de quem ia ser sepultado. N√£o por causa dos mortos, mas por interfer√™ncia dos vivos. Bem poderia acontecer que, num √ļnico of√≠cio, pago a quadruplicar, com o mesmo chap√©u se tapassem quatro cabe√ßas. D√≠spares al√©m de tudo, como d√≠spar havia sido a vida de cada uma delas, com umas a merecer mais do que outras a derradeira homenagem e uma boa encomenda. Talvez isso, a op√ß√£o por um funeral colectivo, ainda que se mencionasse, sempre que preciso, os nomes dos encomendados, fosse motivo suficiente para uma rebeli√£o. Todavia, o exemplo de v√©spera servira-lhe de aviso, e o p√°roco resolvera respeitar a ordem de chegada de cada um √† capela, ainda que a preced√™ncia de chegada ao outro mundo coubesse por inteiro ao pobre Manolito. Embora o seu tempo fosse escasso, decidiu assim fazer as ex√©quias a Ana Rosa, Diogo e Manolito em primeiro lugar, visto j√° estarem todos na igreja. A seguir, depois das primeiras pasadas de terra no cemit√©rio e do √ļltimo adeus, ent√£o prosseguiria com a santa obriga√ß√£o de entregar Telmo Cerveira ao Criador, talvez com o rol de responsos aumentado por ele ser o mais pecador. Era, contudo, grande a possibilidade de a cerim√≥nia do rapaz ficar deserta devido ao cansa√ßo de uma aldeia inteira, mas n√£o poderia ser de outra maneira. A ordem fora pr√©-estabelecida por duas capelas que, para o efeito, lhe pareciam agora mais do que perfeitas.
          Vindos de v√°rios s√≠tios das redondezas, misturados com os pares e com os outros cidad√£os, havia bastantes homens, mulheres e crian√ßas ciganas, algumas ao colo das m√£es que, como carpideiras de um passado long√≠nquo, vinham chorar o pequeno, fazendo-o com aparente relut√Ęncia. Talvez por temerem que as l√°grimas derramadas fossem tomadas como suas por qualquer um daqueles tr√™s mortos, uma mulher e duas crian√ßas, incapazes de se distinguirem, entre eles, como os verdadeiros destinat√°rios das lamenta√ß√Ķes. Tanto dos ciganos como de quaisquer outras pessoas.
          No decorrer da missa, um pouco antes da altura de passar o cesto das esmolas para a colecta, o padre, referindo-se ao ciganito, lembrou aos presentes as condi√ß√Ķes em que a fam√≠lia se encontrava. E, ali perante Deus, anjos e santos, disponibilizou em seguida o conte√ļdo do cesto das esmolas para ajudar ao pagamento do caix√£o da crian√ßa, enquanto apelava √† generosidade de todos e a uma boa contribui√ß√£o. At√© o agente funer√°rio se prontificara a pagar metade, levando a concluir que estaria provavelmente a abdicar do seu lucro. Olhando para alguns escuteiros presentes, o p√°roco pensava na conversa com Ant√≥nio Pinto e na sua recusa das instala√ß√Ķes para abrigar os ciganos por algum tempo. Agora, com o gesto que acabara de esbo√ßar, entendia que, mais do que nunca, uma m√£o lava a outra e as duas lavam a cara. Menos um problema para a junta de freguesia. Em √ļltima an√°lise, para c√Ęmara da vila, o pagamento do enterro, que ele fazia de gra√ßa. Continuava, apesar de tudo, com a mesma opini√£o sobre os novos vizinhos da pra√ßa: cheiravam demasiado mal para irem conspurcar as instala√ß√Ķes dos escuteiros ali na aldeia:
          -Contribuam com o que poderem, sem esquecer que quem d√° aos pobres empresta a Deus.
          E a colecta fora generosa, o cesto foi depois recolhido forrado a bastantes notas de euro.



continua
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« Responder #87 em: Agosto 05, 2020, 20:16:14 »

E quando temos um casamento?
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #88 em: Agosto 09, 2020, 00:15:40 »

Calma, Nação Valente! Vamos ver no que isto dá...

                                                                                        66


            O cemit√©rio n√£o era longe. Depois de os tr√™s descerem √† tumba, no meio de um mar de pranto colorido pelo negro da roupa dos ciganos mais velhos e as ramagens dos mais novos, sobretudo das mulheres, Catarina e os irm√£os regressaram a casa num recolhimento em que se faziam sentir, al√©m de profundas marcas de desgosto, um √≥dio profundo pelo √ļltimo morto do dia. Agora era hora de o maldito incendi√°rio ser responsado nas derradeiras cerim√≥nias a que teria direito na terra, que ele transformara num inferno.
Para isso foi removido, ele e meia d√ļzia de ramos de flores, da capela de defuntos para a nave da igreja, onde santos e anjos poderiam ajudar na sua transi√ß√£o para o c√©u guiada pelos rituais f√ļnebres do Padre Fernandes no ajuste de contas final. A morte fora a √ļltima casa encontrada para Telmo habitar. Afora ela s√≥ a pris√£o, que, bem vistas as coisas, se assemelharia mais ao Inferno. Inferno que talvez o rapaz tamb√©m tivesse pela frente, se n√£o pudesse contar com a interven√ß√£o divina para se livrar dele o quanto antes. De qualquer modo, entre o Inferno do lado de l√° e o que ele ateara na terra n√£o haveria, talvez, grande diferen√ßa.
          A missa come√ßou entretanto. Apesar de tudo com uma assist√™ncia razo√°vel. Os parentes do rapaz e os vizinhos tinham comparecido todos. Afinal, haviam assistido ao seu nascimento, √†s primeiras fraldas, palavras e ida √† escola, sem nunca imaginarem os caminhos tortuosos por onde depois ele se embrenharia. Por isso n√£o lhe negaram uma √ļltima r√©stia de compaix√£o.
J√° da fam√≠lia das v√≠timas n√£o havia ningu√©m junto do corpo de Telmo. Era a sua √ļltima manifesta√ß√£o de √≥dio, n√£o pelos pais e irm√£os mas defunto em si mesmo, desprezado tanto na vida como na morte. Tamb√©m os ciganos, incluindo os desalojados, se haviam metido nos respectivos carros, deixando o largo e o estenderete dos colch√Ķes e cobertores, enquanto meio mundo pensava na possibilidade de a quest√£o do alojamento ter, finalmente solu√ß√£o. O problema seria, com certeza, o cavalo, mais um membro de fam√≠lia de que nenhum gostaria de se ver livre.
           Susete jazia prostrada e j√° sem l√°grimas num banco da igreja, amparada por Paula e Luciano. O facto de a urna n√£o poder ser aberta, dava-lhe a remota sensa√ß√£o de que n√£o era o filho quem estava dentro dela, e que tudo n√£o passava de um teatro m√≥rbido a que fora convidada a assistir por pura maldade do encenador de uma pe√ßa maldita.
Enquanto isso, o Padre Fernandes prosseguia com os responsos.
Quando terminou, todos os parentes do rapaz, sobretudo Suzete, vendo a hora de se despedirem dele, foram de novo tomados pela emoção.
           Chegada a hora da ida para o cemit√©rio, a m√£e de Telmo inundava a igreja de gritos como ele inundara de chamas as matas da aldeia. Pedia ainda perd√£o para o filho e a condena√ß√£o de quem o espancara t√£o barbaramente.
          -Descansa em paz ‚Äď disse o padre, depois da habitual ladainha aos mortos.

                                                                                 LVIII

          -Dr. Fausto, chegou mais um cliente. Sugeria-lhe que fosse dar-lhe uma palavrinha ‚Äď pediu Orlanda, assomando √† porta da sala.
           ‚Äď Al√©m de que j√° tenho aquele documento de que est√°vamos √† espera‚Ķ Est√° aqui comigo, disse abanando o papel que trazia nas m√£os.  
          -N√£o pode aguardar uns segundos? Isto est√° quase a acabar‚Ķ
          -Eu n√£o o aconselharia. Talvez seja melhor suspend√™-lo por uns minutos. Ou ent√£o rebobin√°-lo quando regressar‚Ķ
          -Bom, sendo assim,  tenho de ir, Domingos. Volto logo que poss√≠vel.
           -Est√° bem, respondeu o rapaz. Se n√£o for precisa, a Orlanda bem podia ficar aqui um bocado. O filme √© tenebroso. Mas ela n√£o se deve assustar com a morte. Afinal j√° mandou um homem para o outro mundo na ponta de uma navalha‚Ķ
           -Sim, pode ficar. Orlanda, tome aqui o meu lugar ‚Äď ordenou Fausto √† rapariga como patr√£o que n√£o admite r√©plicas..
           As tra√ßas voltaram entretanto, refor√ßadas por um bom n√ļmero de novos insectos, grandes como Domingos nunca havia visto.
           -Que bichos agoirentos! ‚Äď observou para a mulher.
           -H√° muitos por aqui. Ali√°s, bichos √© o que n√£o falta. E bem maiores do que esses‚Ķ
          Os insectos esvoa√ßavam doidos por toda a sala, onde a luz, embora com a intensidade reduzida, estivera sempre acesa.
          -Este documento diz-lhe respeito. √Č a sua certid√£o de nascimento actualizada. Depois mostro-lha. Como n√£o trazia nenhum, nem sequer a carta de condu√ß√£o, o Dr. Fausto, como o seu melhor amigo e para lhe evitar problemas caso fosse encontrado por a√≠ sem eles, requisitou-a.
           Muita efici√™ncia neste hotel ‚Äď disse Domingos para os seus bot√Ķes.
           Agora compreendia melhor os intuitos de ressocializa√ß√£o e reinser√ß√£o social de Fausto para com os colaboradores. Se todos fossem como a rapariga, ent√£o estava plenamente justificado o pouco dinheiro que talvez recebessem do patr√£o. N√£o acreditava que ele lhes pagasse nenhuma fortuna, quando √© sabido que a maioria do patronato s√≥ n√£o escravizava os empregados a cem por cento por n√£o poder.
           -Aqui n√£o brincam em servi√ßo!... ‚Äď acrescentou, depois da reflex√£o.
           -Claro que n√£o. Temos de ter a certeza de que quem vem para c√° est√° no s√≠tio certo e √† hora certa‚Ķ N√£o h√° como atrasar o rel√≥gio. Embora √†s vezes o adiantemos‚Ķ Quanto mais efici√™ncia e efic√°cia melhor, como diria o Elias na sua actividade de angariador de clientela.
            -Tem raz√£o. Tempo √© dinheiro. Sempre ouvi dizer isto (como esta rapariga mudou desde que cheguei at√© agora. Se for sincera, ainda terei alguma hip√≥tese‚Ķ).
           -E ent√£o, em que parte vai o filme?
           -Telmo est√° prestes a descer √† tumba. A m√£e parece t√£o morta quanto ele. Estou com imensa pena dela.
           -√Č s√≥ para ver o que √†s vezes fazemos aos pais. E aos outros. Um c√£o envenenado, tr√™s pessoas mortas, um avi√°rio esturricado, quatro vacas com a mesma sorte. J√° para n√£o falar nas perdizes, coelhos, lagartixas, centopeias minhocas, pardais. Quando nos d√£o umas boas chapadas, s√£o poucas as que caem no ch√£o. Eu tamb√©m fui uma rebelde inconsequente. Andei por onde n√£o devia e depois vim parar aqui, de onde s√≥ n√£o saio por n√£o poder ‚Äď disse algo enigm√°tica ‚Äď. Antes de lhe mostrar a certid√£o, vamos ent√£o acabar de ver ‚ÄúO rapaz do Isqueiro assassino‚ÄĚ.
           E Domingos pareceu vislumbrar nas palavras da mulher, que esta, veladamente, estaria a falar mal do patr√£o, acusando-o de escravatura como ele j√° havia suspeitado. O que n√£o era de admirar em nenhuma parte do mundo. Era a regra, a excep√ß√£o seria fazer dele um anjo, inimigo de pol√≠ticos e banqueiros e incapaz de sonegar os impostos ao estado ou ter um lucro exorbitante nos neg√≥cios.

                                                                          67
           -Descansa em paz, meu filho, dizia Susete, enquanto, no cemit√©rio, deitava uma m√£o cheia de terra sobre a urna de Telmo.




                                                                                         LVIX

          De repente, vindas da porta por onde Orlanda chegara, as feiticeiras eram aos milhares, e Domingos, tomado de p√Ęnico, gritava horrorizado, enquanto os insectos arremetiam contra o ecr√£ estilha√ßando-o em mil peda√ßos, que ca√≠ram no ch√£o numa chuva miudinha acompanhada pelo silvo agudo dos vidros.
           Orlanda deu uma gargalhada sinistra e, estendendo a certid√£o de nascimento ao rapaz exclamou:
           -Bem-vindo ao Inferno, Telmo Cerqueira!
           O rapaz, se j√° ficara sem discernimento com a invas√£o das tra√ßas e quebra do televisor, agora perdera completamente a no√ß√£o da realidade. Contudo, aos poucos foi recuperando da surpresa, At√©, dai a nada, perguntar √† rapariga:
           -Telmo!...  Que Telmo?...
            E lembrou-se da uma ou duas vezes em que Fausto se lhe dirigira do mesmo modo, aludindo igualmente ao Inferno ao mesmo tempo que ele, zonzo, abria a tal certid√£o de nascimento dobrada ao meio, em que  leu:
           Telmo Domingos Silva Cerqueira, filho de Abel Ant√≥nio Cerqueira e de Susete Fernanda da Silva, nascido a vinte e quatro de Agosto de mil novecentos e oitenta e nove na freguesia de Eito, distrito de Aveiro. No canto superior direito pode ler ainda:
√ďbito ocorrido em nove do oito de dois mil e dezasseis, sendo a causa da morte traumatismo interno generalizado e queimaduras diversas.
           -Que horror! ‚Äď gritou o rapaz, levantando-se num salto da cadeira e dirigindo-se √† porta, fechada entretanto com um estrondo aterrador.
           -Quero sair daqui depressa! Voc√™s querem dar comigo em doido! Deixem-me ir embora! ‚Äď suplicou.
           -Imposs√≠vel. Ningu√©m que tenha entrado no Inferno consegue sair dele - disse a rapariga fazendo tro√ßa ‚Äď. Agora √©s um prisioneiro do Diabo, o teu querido amigo Fausto‚Ķ ‚Äď continuou no mesmo tom, que, de trocista, passara a maquiav√©lico.
           -N√£o acredito! Abre a porta, por favor! ‚Äď gritava o rapaz.
           -Nada disso! Entretanto, podes continuar a ver o filme da tua vida‚Ķ - sugeriu ela no mesmo tom.
           -Com o televisor em cacos?
           -Vais ver que n√£o precisas dele para nada. O Inferno √© em qualquer lado. Embora este aqui seja numa outra dimens√£o. E absolutamente acess√≠vel a um homem morto. √Č o que √©s agora, um morto, que a morte transformou em alma penada. De maneira que podes andar por todo o lado. Apesar de teres de ficar eternamente subjugado ao excelso do Dr. Fausto‚Ķ E ele manda que fiques devidamente inteirado dos estragos provocados por ti e das vidas que t√£o negativamente influenciaste.
           -Como √© que poderei fazer isso?
           -A pel√≠cula que divide o Inferno do s√≠tio onde tu moraste ‚Äď e ‚Äúainda moras‚ÄĚ, diga-se de passagem ‚Äď podes muito bem transp√ī-la s√≥ com um dedo. Como naquela cena de que o teu amigo Fausto falou, quando sugeriu que poderias induzir certos acontecimentos s√≥ com os olhos‚Ķ
           O rapaz lembrou-se de ter dito a Fausto que costumava acordar s√≥ com a m√£e a olhar para ele. Por isso, o que Orlanda dizia devia ter um fundo de verdade. E a rapariga parecia ter na verdade um curso superior sobre o Inferno. Tamb√©m j√° se dera conta de que Orlanda, do tom cerimonioso de h√° pouco, passara a usar com ele de toda a familiaridade, como se, de repente, ele passasse a fazer parte da escumalha a que ela pertencera e continuava a pertencer.
           -N√£o te irrites. N√£o √©s melhor do que quem est√° c√°. ‚Äď disse a mulher, como se lhe ouvisse as reflex√Ķes. ‚Äď Al√©m de incendi√°rio, √©s um assassino como eu.  
Era ent√£o verdade, fizera a passagem para o outro lado, espancado por vizinhos no meio de uma pra√ßa em frente √† igreja da aldeia do Eito. Por isso, quando chegara, se sentira um peda√ßo preto de carv√£o, um ‚Äúvomitado‚ÄĚ por um vulc√£o em actividade h√° anos. E, em vez de ter √† sua espera a Av√≥ Martinha, aquela que aprendera a ler pelas letras do jornal quando tinha j√° mais de sessenta anos, tivera, na comiss√£o de recep√ß√£o, um Mastim brasileiro, o Diabo, que Fausto lhe apresentara como um anjo bonito no corpo de um c√£o com um nome feio. Al√©m de uma prostituta pouco simp√°tica, ida possivelmente para ali de uma forma t√£o pouco ortodoxa quanto a sua. Elias, o traficante de droga, era outro, assim como Paulo, o homem da noite que talvez n√£o olhasse a meios para atingir fins, e o ped√≥filo Ernesto. Quem sabe se este n√£o fora igualmente morto por espancamento na pris√£o √†s m√£os dos outros detidos amigos das crian√ßas? O tratamento ‚Äúespecial‚ÄĚ dado aos ped√≥filos! Fausto, o patr√£o do Inferno, n√£o passara de uma farsa, alimentada a roupa de marca, comida gourmet e um passeio higi√©nico pelo hotel, a fim de acolher, √† custa de mordomias provis√≥rias, mais um h√≥spede na sua vida eterna e definitivamente infernizada. Tudo fora como se Fausto, em pessoa, estivesse a participar activamente numa campanha eleitoral, destinada a atrair votantes atrav√©s de cartazes t√£o sedutores como umas sapatilhas Nike, bermudas Calvin Klein ou um perfume Givenchy.
           Telmo Domingos da Silva Cerqueira era agora um servidor da legi√£o de dem√≥nios tantas vezes citada na B√≠blia, de que Fausto fora sempre o grande mestre. Era, pois, igual a Orlanda, Elias, Paulo, Ernesto e outros como o banqueiro Mateus Rosa, a amante Rita, o deputado Mac√°rio ou o ex- politico Alcino. Como ele, rec√©m ingressado, estavam todos ali, ap√≥s o Diabo os ter levado no fim de vidas tecidas a fraude, inf√Ęmia, lux√ļria e morte, depois de lhe terem vendido a alma √†s vezes por uma bagatela. T√£o activos e eficientes, do tal lado da pel√≠cula de que Orlanda lhe falara, como haviam estado na Terra a induzir a maldade em vivos perme√°veis a mordomias, v√≠cios e prazeres compr√°veis sobretudo a dinheiro. A avaliar pelos Pavilh√Ķes ‚ÄúAuschwitz‚ÄĚ e pelos que Fausto teria certamente por todo o lado, haveria no Inferno milh√Ķes de criaturas. Umas a servi-lo fielmente, e outras contrariadas como se estivessem numa pris√£o cujas grades nunca poderiam quebrar. Nem sequer √† for√ßa de arrependimento. Talvez fosse o caso da amante de leitura, que, no dia da sua chegada, durante a visita ao complexo, lia, por entre suspiros e olhar distante, a Divina Com√©dia, sonhando certamente com o c√©u, como Fausto ent√£o sugerira.

  Continua                                                                                          

« Última modificação: Agosto 09, 2020, 22:24:27 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Goreti Dias
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« Responder #89 em: Agosto 10, 2020, 09:22:19 »

Calma até temos, mas vamos também "torcer" pelo livro em papel.
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Bom dia para todos!
Março 20, 2020, 15:06:31
Ol√° para todos!
Março 19, 2020, 22:59:05
Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
Janeiro 29, 2020, 20:06:36
Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
Janeiro 10, 2020, 14:03:15
Boa tarde a todos
Janeiro 06, 2020, 14:46:26
Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
Dezembro 02, 2019, 21:57:04
Boa noite feliz para todos.
Dezembro 01, 2019, 19:51:29
Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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