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Autor Tópico: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)  (Lida 8854 vezes)
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #90 em: Agosto 10, 2020, 21:49:49 »

                                                                                               LX

          Fausto n√£o voltara a aparecer desde o epis√≥dio das tra√ßas. Era como se, de repente, o rapaz, importante √† entrada a ponto de lhe ser emprestada roupa de marca e de lhe ser destinada a suite n√ļmero quatro, passasse a um reles escravo sem pedigree, no meio de ciganos como os do acampamento. Nem sabia qual seria agora a forma de Fausto, depois de sempre ouvir dizer que o Diabo seria pr√≥digo em disfarces. Se assim fosse, talvez um dia ainda lhe aparecesse como um lacrau, igual ao que, em determinada altura, lhe mordera a perna direita levando-o a experimentar uma dor lancinante. Quase trope√ßara na morte. Ou como uma v√≠bora, um traficante de droga a impingir-lhe meio quilo de hero√≠na fiada para o hipotecar e que, depois, numa hora de afli√ß√£o, lhe negasse um grama como In√°cio Maia fizera, levando ao resultado a que Fausto o obrigara a assistir com o maldito filme.

                                                                                             LXI

          Agora que ali estava, teria de arranjar uma forma de matar o tempo.
          O melhor era, desde j√°, enquanto estivesse no estado de gra√ßa concedido pela transi√ß√£o entre a vida e a morte, come√ßar a usar as suas prerrogativas de alma e visitar o que ficara para tr√°s, depois de um brutal espancamento a que se seguira uma incinera√ß√£o desnecess√°ria. A causa da morte n√£o fora, de todo, o fogo, como constava na certid√£o de √≥bito. Embora reconhecesse que, ap√≥s o seu feito vingativo e as suas consequ√™ncias, as inten√ß√Ķes de quem jogara sobre si um balde de gasolina e acendera depois um f√≥sforo tivessem sido as mais adequadas como castigo. Ouvira isso da sua pr√≥pria boca enquanto assistia ao desenrolar do filme.
          ‚ÄúEra reg√°-lo com gasolina e chegar-lhe tamb√©m o fogo‚ÄĚ ‚Äď ‚Äú Um bom cr√°pula, o rapaz! Se lhe chegassem um f√≥sforo n√£o se perdia nada!‚ÄĚ ‚Äď dissera pelo menos em duas ocasi√Ķes, sem ter consci√™ncia de que o rapaz era ele pr√≥prio, a ver, em retrospectiva, a parte final da sua vida. Pelo visto toda a gente teria direito a esse flashback. Era, ao fim e ao cabo, faz√™-lo provar do pr√≥prio veneno. Mas o espancamento antecipara-se.
          Como Fausto o ignorava agora, ao menos para j√°, sem grande no√ß√£o do tempo passado entretanto, decidiu visitar a m√£e. Decorriam ainda os cinco dias de nojo a que ela tinha direito pela morte do filho. A mais n√≠tida imagem que guardava dela, horrorizado, era a de Piet√°, quando os bot√Ķes met√°licos da jaqueta de ganga lhe estavam enterrados no peito como se a√≠ quisessem deixar uma marca perp√©tua capaz de o distinguir dos milh√Ķes de almas penadas existentes no universo como um escravo especial do Diabo.
          E subiu para a mota metaf√≠sica, a fim de iniciar a viagem de revisita√ß√£o, assomando ao beco pelo lado contr√°rio √† pra√ßa.
          Ao entrar em casa, teve uma estranha sensa√ß√£o de vazio.
          Encontrou a m√£e chorosa, no quarto, deitada sobre a cama, a responder por monoss√≠labos, de vez em quando, √†s perguntas de Paula. Tinham a ver com a roupa de Telmo e com a tarefa de separa√ß√£o para posterior d√°diva. Fora a m√£e quem a mandara fazer aquilo.
          Ficou chocado. Agora, depois de os irm√£os e o pai sempre o haverem tratado como a ovelha negra da fam√≠lia, at√© a m√£e se recusava a ter vest√≠gios da sua passagem por ali. Podia v√™-las √†s duas, mas elas, se o viram, fingiram que n√£o. E, em vez de ir fazer na cara da m√£e a festa de que tinha vontade, saiu porta fora como tantas vezes fizera no passado, dirigindo-se ao acampamento para remoer as cinzas das suas lembran√ßas.
          J√° nem se recordava de como aquilo ficara em carv√£o, os barracos de p√©, negros de fumo, os tocos das √°rvores mortas por todo o lado, a aus√™ncia do pio dos p√°ssaros, sem ninho nem guarida. Morte, s√≥ morte e desola√ß√£o. O esqueleto da carrinha dos p√≥los havia sido removido para an√°lise e recolha de provas. Ao lado estava a parte intacta onde o Ringo, sobre o cobertor, fora velado por dois mi√ļdos chorosos e inconsol√°veis. O c√£ozito, fora enterrado.
           A seguir, dentro do barraco de Rodrigo, tentou vasculhar sob a cama de ferros retorcidos e o colch√£o negro magma, a ver se encontrava algum dos objectos de ouro que ele pr√≥prio  l√° fora levar tantas vezes em troca da ‚Äúcena‚ÄĚ.
          N√£o encontrou nada de valioso, mas achou uma pistola. Tentou apanh√°-la, largando-a de imediato por ela estar incandescente e lhe ter queimado as m√£os.
          Frustrado, regressou depois √† pra√ßa que o vira morrer. Os ciganos, sem rei nem roque, deambulavam por ali, maltrapilhos mais do que nunca, entrando e saindo no caf√© da Dona Celeste onde lhe apetecia beber uma cerveja. Pediu-a, mas a mulher, olhando para ele, fingiu n√£o perceber, como se tivesse √† sua frente um renegado. Era o que se sentia, um renegado. Quis entrar na igreja, fora a√≠ baptizado e fizera l√° a primeira comunh√£o, mas uma m√£o invis√≠vel impediu-o com uma firmeza irredut√≠vel. Uma voz poderosa ecoava entretanto nos seus ouvidos:
           -Est√°s proibido de entrar! N√£o voltes a tentar! ‚Äď ordenou. N√£o sabia de quem se tratava. Afinal, ara ainda muito novo na morte.
            E, passando pelos dois desconhecidos que vira no funeral, voltou para donde viera, tentando adivinhar quem seriam os homens a falar com C√°rmen, na sua condi√ß√£o de int√©rprete do filho surdo-mudo.


                                                                                      LXII

           A semana decorria anormalmente quente. O fogo continuava, maquiav√©lico, a devorar montanhas e montanhas sem fim, enquanto os bombeiros morriam de exaust√£o nacional. O fumo incorporava o ar, impedido o pr√≥prio ar de respirar h√° mais de dez dias:
          ‚Äú Deflagrou um inc√™ndio em‚Ķ, Mais labaredas a lavrar no monte Y e Z por a√≠ adiante, e assim, e assim, num terr√≠vel cord√£o de not√≠cias tendo sempre o fogo como protagonista. Nos jornais e televis√£o, eram massivamente mostradas imagens dos soldados da paz prostrados, fatos negros, sujos pelo carv√£o e empastados de suor, homens e mulheres, quantas vezes a dormir um curto sono de minutos num lajedo, dias e dias sem ir √† cama. As partilhas de fotos nas redes sociais, entre amigos reais e virtuais, eram constantes, os pedidos de ajuda para os flagelados bombeiros eram consecutivos, destinados a corpora√ß√Ķes de norte a sul:
          -Os bombeiros de tal parte est√£o a precisar de‚Ķ, Os bombeiros de‚Ķ, indefinidamente os bombeiros careciam disto e daquilo. Sobretudo, precisavam de uma coisa que nenhum mortal lhes podia dar, chuva; chuva que apagasse todos os fogos. S√≥ assim os pobres soldados da paz poderiam ter uma noite de descanso. E l√° ia sempre algu√©m, um pequeno contributo aqui, outro ali, com o bolo a crescer com o fermento da solidariedade.
          -Os Bombeiros Novos necessitam de mantimentos de f√°cil transporte, barritas, sumos, leite de trinta e tr√™s centilitros‚Ķ


                                                                                      LXIII

          Foi dos primeiros pedidos que Sandra, ainda cheia de tosse depois da ida ao hospital na segunda-feira de manh√£ quando se cruzara com Leandro, vira no facebook. Quarta-feira, ao princ√≠pio da noite. Sendo j√° tarde, decidiu ir no dia seguinte comprar umas garrafas de √°gua, sumos, umas bolachas. Sentia-se obrigada a cumprir com a sua quota-parte de abnega√ß√£o aos  soldados da paz, que a protegiam o quanto podiam da maldita cat√°strofe. O facto de ser uma pessoa vulner√°vel ao fumo, levava-a a pensar na enorme exposi√ß√£o de cada bombeiro a esse veneno, uma coisa terr√≠vel que a levava a l√°grimas de como√ß√£o, choradas algumas vezes na solid√£o da casa, do carro, ou fosse onde fosse. Mais do que ningu√©m, n√£o podia ficar indiferente.
          Mal efectuou a compra, dirigiu-se √† cidade. Embora vivesse na regi√£o h√° um bom par de anos, n√£o a conhecia suficientemente bem para saber onde eram os Bombeiros Novos. Pelo que soubera depois, √† semelhan√ßa do sucedido entre as universidades inglesas de Oxford e Cambridge, eles eram o resultado de uma cis√£o dos Bombeiros Velhos. Haviam protagonizado, em suma, uma esp√©cie de cisma papal entre Avignon e Roma protagonizado pelos os Clementes por imposi√ß√£o do rei franc√™s Filipe IV no s√©culo XIV. Sabia onde se situavam os Bombeiros Velhos, mas do s√≠tio dos Novos tinha apenas uma vaga no√ß√£o.
           Quando chegou ao centro hist√≥rico, deparou-se com uma cidade esventrada, um retorcido de ruas de acesso dificultado pelas obras e pelas altera√ß√Ķes de sentido no tr√Ęnsito. O que, em enganos sucessivos, a levou a dar um bom par de voltas em n√≥ cego, at√© parar no s√≠tio devido.
           J√° na sede da Corpora√ß√£o, encontrou a grande porta, por onde sa√≠am e entravam as viaturas, fechada. Viu um bombeiro do lado de fora a preparar-se para entrar num carro de combate e dirigiu-se a ele:
          -Por favor, onde poderei deixar um pequeno contributo? ‚Äď perguntou, tosse em descanso at√© novo ataque.
          -Entre por aquela porta pequena ‚Äď apontou-a ‚Äď. Dentro, h√° colegas a receber as ofertas. Desculpe n√£o a ajudar, mas vou agora para mais um inc√™ndio.
           -Nesta altura era bem melhor que tivesse de ir para uma inunda√ß√£o!... ‚Äď brincou Sandra, entre a pressa do bombeiro em ir embora e a sua em cumprir a miss√£o e sair daquele labirinto de ruas  ca√≥ticas e t√£o pouco familiares.
          O homem sorriu, e, da√≠ a nada, o carro em que seguia desapareceu na esquina, deixando no ar o rasto do seu silvo de marcha priorit√°ria.
          Numa pequena saleta, repleta de mil e um bens alimentares, encontrou uma mulher jovem, vestida com o fato de bombeiro da cor vermelha adoptada pela corpora√ß√£o. Sem grandes palavras, sobre uma mesa j√° com bastantes coisas, depositou a seguir o que levava. A bombeira agradeceu e Sandra saiu.
          Quando chegou a casa, atrav√©s dos jornais on-line e das redes sociais, quis saber dos avan√ßos ou recuos do fogo nacional.
          Deparou-se, desde logo, com mais um pedido urgente: uma m√°quina de lavar em bom estado. As do quartel n√£o davam vaz√£o a tanta roupa suja.
          N√£o podia fazer nada por agora. A n√£o ser partilhar.
          Quando uma f√°brica de electrodom√©sticos fez a oferta de duas, a ajuda seguinte consistiria em detergente e toalhas, prontamente atendida pelo esp√≠rito solid√°rio nacional desencadeado pela grande calamidade de Agosto.
           At√© sexta-feira, Sandra foi aos Bombeiros Novos ainda uma outra vez. Levara p√≥ de talco e pomadas para queimaduras. Da sua iniciativa, juntou no saco um ma√ßo com meia-d√ļzia de pares de meias comprados na feira, a que o vendedor, mesmo sabendo a que se destinavam, n√£o fez qualquer desconto. Uma outra bombeira de servi√ßo aplaudiu a ideia das pe√ļgas, agradecendo-as juntamente com todo o pacote da oferta.
                                                              
                                                                                        LXIV

           Era j√° sexta-feira ao fim da tarde. S√°bado estava reservado ao primo de Sandra como um dia importante. Miguel, o bombeiro interessado, na segunda-feira anterior, em chegar a tempo ao seu pr√≥prio casamento, subiria ao altar com Ros√°rio na Igreja de Vera Cruz. Era ali paredes meias com os canais da ria e o quartel. O sonho da rapariga, desde sempre, fora casar no Convento de Arouca, forrado a mem√≥rias de freiras, rezas e sofrimento por amor a Cristo. Contudo, as coisas n√£o se haviam encaminhado dessa maneira. Ent√£o, sendo ambos naturais de Aveiro, ficaram-se pelo centro e por poucos convidados, que, entre familiares, colegas da f√°brica e da corpora√ß√£o, festejariam a boda numa apraz√≠vel quinta das redondezas.
          De duas cerim√≥nias agendadas para o mesmo dia, salvara-se uma. Telmo arruinara a outra com a morte de av√≥ e neto. S√≠lvia vivia agora o interl√ļdio de um casamento adiado sine die. E se Miguel e Ros√°rio casassem no Mosteiro de Arouca n√£o teriam grande sorte. Todo o concelho era um pasto de chamas, e todos os bombeiros e bombeiras andavam ensonados. Zombies ambulantes, era como todos se sentiam.
           Cerca da uma hora da tarde, Miguel vestia um fato de cerim√≥nia, no dia mais importante da sua vida. O padre indicava-lhe oralmente o rascunho da velha f√≥rmula sacramental para noivos, atrav√©s da qual ele deveria aceitar Ros√°rio como esposa:
           -Eu, Miguel, recebo-te por minha esposa‚Ķ
          Pairando num outro mundo, o jovem nem se apercebeu de que era o foco do olhar dos presentes, ansiosos pelas suas palavras, que culminariam, depois de o padre os declarar marido e mulher, com o beijo da praxe. A noiva vivia, sem surpresa para ningu√©m, a mesma expectativa.
           S√≥ alguns instantes passados, um sil√™ncio excessivamente longo desde a fala do padre, Ros√°rio, numa frac√ß√£o de segundo, pensou na horr√≠vel hip√≥tese de ser rejeitada no altar em frente aos convidados. O que a levou a abanar o noivo com bastante nervosismo:
          -Miguel?
          O jovem dormia, literalmente, em p√©, e a assist√™ncia, ao aperceber-se do hiato em que o rapaz mergulhara, aligeirou o assunto numa gargalhada, mais do que compreensiva para com o out do jovem.
           Sandra, a prima, ao lado do marido, pensava para com os seus bot√Ķes:
          -Quem mandou estes dois marcar o casamento para o m√™s de Agosto? Mas, tinha de ser, aproveitar as f√©rias dos parentes emigrados na Fran√ßa, na Alemanha, Su√≠√ßa e Luxemburgo. Desde os anos sessenta do s√©culo passado, n√£o havia uma √ļnica fam√≠lia que n√£o tivesse algu√©m no estrangeiro. Ainda assim, no agendamento da cerim√≥nia, um e outro deveriam ter presente a √ļltima vez em que Miguel sa√≠ra em servi√ßo por umas horas e s√≥ regressara a casa ao fim de quatro dias.

continua
« Última modificação: Setembro 29, 2020, 03:45:47 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Goreti Dias
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« Responder #91 em: Agosto 11, 2020, 18:00:43 »

Adormecer na cerimónia ... bem, menos mal...
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #92 em: Agosto 13, 2020, 21:55:26 »

Pois, Goreti Dias, acontece...

                                                                                  LXIV

          Telmo, agora um viajante entre e mundos, assistia, do lado de l√° da pel√≠cula, ao ins√≥lito em que Miguel fora apanhado. Ao ver outra igreja, insistira em entrar. Conseguira furar o bloqueio que a voz lhe impusera no Eito. N√£o sabia se isso se devera √† distrac√ß√£o de algu√©m ou √† sua persist√™ncia, temperada talvez j√° com algum arrependimento. Quanto ao rapaz, o Miguel, n√£o tinha nenhum motivo para lhe comprometer a boda. Muito menos a noite de n√ļpcias. N√£o pensaria da mesma maneira se tratasse do casamento da ex-namorada com Nelson, o veterin√°rio de Viseu. Marisa merecia mesmo o abandono. Gostava que ela fosse humilhada perante a aldeia inteira e que esta que passasse a v√™-la como o bobo da corte. Queria v√™-la experimentar um pouco do que fora ser espancado na pra√ßa, no meio de insultos, palavr√Ķes e maldi√ß√Ķes. Ela, a causa n√ļmero um da sua ru√≠na, o dem√≥nio que o levara √† morte e o lan√ßara no Inferno onde agora vivia, apesar do aparente livre passeio que lhe fora concedido, a ponto de estar dentro de um templo a assistir a um casamento, o de Miguel e Ros√°rio.
          Agora jamais poderia sair definitivamente de l√°, do chal√© de montanha, um para√≠so √† entrada, o Inferno sem sa√≠da e com um c√£o demon√≠aco a guard√°-la a caninos agu√ßados. Depois de retirarem as fitas e os cartazes da campanha eleitoral com que o haviam recebido para o humilharem atrav√©s de ‚Äú O rapaz do isqueiro assassino‚ÄĚ, o hotel transformar-se-ia certamente num verdadeiro Campo de Concentra√ß√£o, pior o que o de Auschwitz. E, como um Auschwitz moderno, renovado em todas as vertentes do mal pela nova psicologia da guerra entre mundos, seria palco de todos os horrores. Hoje, nos in√≠cios do s√©culo XXI, uma artimanha b√©lica desenvolvida pelas fileiras do Dem√≥nio era praticamente invenc√≠vel devido a processos tecnol√≥gicos de ponta: ex√©rcitos de c√£es raivosos armados at√© aos dentes, ataques terroristas com bombistas suicidas, armas qu√≠micas e biol√≥gicas lan√ßadas em qualquer parte e que deixariam toda a gente a sofrer de cancros, les√Ķes cr√≥nicas; extin√ß√£o de todos os seres vivos do planeta. Transformar-se num buraco negro, seria certamente o destino da Terra. E tudo come√ßaria talvez por eventos caseiros, lutas dom√©sticas alargadas √† escola, √† pra√ßa, ao mundo. Pais e filhos a matarem-se, mulheres e homens ainda mais activos, entre portas, facas e pistolas por d√° c√° aquela palha.
          Como se o chal√© fosse um grande espelho de onde imanassem todos os reflexos do mal, Telmo dava-se conta do efeito borboleta desencadeado pela igni√ß√£o do seu maldito isqueiro na segunda-feira,  ao in√≠cio da madrugada. Nunca seria capaz de fazer o levantamento completo de tudo, uma cadeia de acontecimentos intermin√°vel: a chama que levara √† morte de um mi√ļdo, o Manolito, que estivera a ser guardado pela GNR dentro da carrinha dos p√≥los contrafeitos e dos len√ß√≥is refugo, o delegado de sa√ļde que lhe declarara o √≥bito, o corpo calcinado que os m√©dicos na morgue haviam retalhado aos peda√ßos, o padre no funeral a respons√°-lo, a ele e aos outros dois mortos; um acampamento queimado e treze ciganos, com outro a caminho, sem s√≠tio para ficar, o presidente da junta a tentar arranjar-lhes tug√ļrio para os tirar da pra√ßa, mi√ļdos quase nus, esfomeados e a interferir com a vida da Dona Celeste no caf√© da pra√ßa; um casamento por realizar, um sonho desfeito; alguns donos de pinhais na pen√ļria com o preju√≠zo da madeira, os coelhos, as perdizes, e a fauna morta. N√£o haveria certamente uma barata sobrevivente em semelhante holocausto.
          A subjuga√ß√£o de Telmo ao Chefe Supremo da Legi√£o de Dem√≥nios seria pesada, uma escravatura em pleno s√©culo XXI. Fausto era o seu maldito patr√£o. Para todo o sempre. Ainda n√£o lhe vira a verdadeira face, mas o futuro adivinhava-se sombrio.

                                                                                           LXV

          Regressou acabrunhado √† montanha. A transforma√ß√£o do complexo era abismal e abissal. A come√ßar pelo s√≠tio onde se erguia, um peda√ßo de terra negra, sobre a qual n√£o havia c√©u por onde a luz do sol pudesse descer. Nada ali era n√≠tido. Muito menos luminoso. O Inferno vivia em eclipse total permanente, as sombras cruzavam o ar como morcegos gigantes numa noite que nunca conhecera o outro lado. Ru√≠dos, gritos, maldi√ß√Ķes rugidos e gemidos. Mesmo sem se ver vivalma, a sensa√ß√£o era de que os moradores se escondiam nas copas das √°rvores, p√°ssaros a improvisar constantemente um ninho. Ou encolhidos nos buracos das paredes; ou debaixo do ch√£o e das pedras como centopeias a fugir da pata de um gigante. Se n√£o tivesse vivido uns dias numa terra mergulhada na penumbra, n√£o suportaria aquela de exist√™ncia em met√°fora de morte. Ou vida eterna mas no pior s√≠tio e no pior sentido. At√© os abutres, circunscritos no seu habitat da clareira e ao penhasco, voavam agora por todo o lado num siar rasante, na prem√™ncia de abocanhar os seus cad√°veres, mais em baixo, numa fome nunca saciada.
          Sozinho, do lado de dentro, √† entrada do empreendimento, lembrara-se da conversa de Fausto sobre a sa√≠da dos clientes. Apeteceu-lhe testar a efici√™ncia do negro mastim e evadir-se o quanto antes. A sua querida companheira, a mota, estava do lado de fora, no portal sem porta, como sem porta era o Inferno da Divina Com√©dia. Seria s√≥ iludir Diabo, hipnotiz√°-lo com o olhar, seduzi-lo a seguir com um naco de carne suculento mas envenenado com 605 Forte como fizera ao pobre do Ringo. E depois era s√≥ voltar √† aldeia que o vira nascer e morrer no espa√ßo de vinte e seis anos, na flor de uma vida desperdi√ßada por uma ressaca e por uma rapariga simultaneamente.
          Antes de o tentar, adivinhando-lhe as inten√ß√Ķes, o mastim abocanhou-lhe a barriga da perna, deitando-lhe a tentativa por terra e obrigando-o a voltar para tr√°s, entre uma dor moderada e um chorrilho de palavr√Ķes desabridos. Acabara de experimentar, talvez, uma dor semelhante √† de Leandro e da sua queimadura.
          Abandonado por todos como um osso sem carne, decidiu ir conhecer a suite n√ļmero quatro que Orlanda lhe havia destinado ao chegar. Passou pela recep√ß√£o, completamente vazia. O sil√™ncio por todo o chal√© era confrangedor. A escurid√£o agigantara-se no interior, cujas paredes lhe pareciam agora l√ļgubres como as ru√≠nas de uma igreja medieval visitada por amantes de rituais sat√Ęnicos e conspurcada por desenhos demon√≠acos numa clara invoca√ß√£o do mal. O cemit√©rio de caveiras sem carne e ao l√©u a tentar os c√£es n√£o estaria, provavelmente, muito longe.
          Enquanto, em passos apressados, subia as escadas, a madeira rangia, dentes a morder raiva numa boca cheia de espuma e prestes a vomitar veneno. Galgou as que faltavam duas a duas. Quando estava em frente da porta do quarto, esta abriu-se sozinha num longo gemido, muito mais do que num convite a entrar, um √≠man para o qual se sentia atra√≠do e sem vontade para escapar.
           -Entra! - ordenou uma voz en√©rgica e com algo de mal√©fico.
          Transido de medo, deparou-se a seguir com tudo virado do avesso. Arm√°rios fora do s√≠tio, trapos velhos espalhados por todo o lado. Provavelmente, em resultado da devassa levada a cabo por algu√©m que ali procurava alguma coisa t√£o valiosa como fora um dia um grama de hero√≠na na gaveta de uma carrinha velha que In√°cio Maia lhe negara. Na cama, completamente desenquadrado de todo o restante cen√°rio e de qualquer a prop√≥sito, estavam Marisa e Nelson nus, qual quadro de Toulouse Lautrec sobe a mais velha profiss√£o do mundo, que, de √≥rbitas cavadas e sem olhos, o convidavam a juntar-se-lhes.
           Duvidando da sua vis√£o e de si, quis mirar-se no espelho, em frente √† c√≥moda. Deparou-se ent√£o com um rapaz que n√£o era ele. De um bonito ruivo, passara a um esqueleto com uma caveira sem olhos sobre o pesco√ßo, que via tudo sem saber por onde. Ao lado, Fausto de cabeleira ondulada, farta como a de Nero, vestia uma t√ļnica vermelha, cal√ßava sand√°lias de couro. A condizer com o cal√ßado, trazia no bra√ßo esquerdo uma pulseira de couro trabalhado com a cruz p√© de galinha, o seu s√≠mbolo com o significado de paz e amor, a inspira√ß√£o mais prov√°vel da marca alem√£ de autom√≥veis Mercedes. Olhava-o num sorriso c√≠nico.
          E ali tinha algu√©m que, de amigo prest√°vel, passara a esclavagista de almas num sopro, n√£o de vida, mas de morte.
          Olhando para a porta, ainda aberta depois da sua entrada em modo zombie, quis alcan√ß√°-la num passo. Mas Fausto, projectando nela os olhos e arrancando deles potentes feixes de luz vermelhos, fechou-a com um estrondo. Este ecoou por todo o lado, como se o Apocalipse estivesse a invadir o mundo de Sodoma e Gomorra de que Marisa e Nelson seriam agora os anfitri√Ķes.
           Ao olhar de novo, o quarto estava outra vez impecavelmente limpo e arrumado. O ar de ru√≠na medieval havia dado lugar a uma luxuosa suite sem rasto de Marisa ou de Nelson.
           -Senta-te! ‚Äď ordenou Fausto, apontando a cama!
           Telmo quis ignor√°-lo. Talvez conseguisse ainda sair dali, atrav√©s dos mesmos recursos que lhe haviam permitido entrar na igreja de Vera Cruz para assistir ao casamento do jovem Miguel e de Ros√°rio. Mas, ao lembrar-se do modo como a porta o enclausura, n√£o se atreveu a tentar. Aparentemente, chegara ao fim o seu estado de gra√ßa de viajante rec√©m-chegado. Talvez tivesse de trabalhar como um condenado √†s gal√©s, encher os cofres do patr√£o e lamber-lhe as botas a qualquer hora do dia ou da noite. Empanturr√°-lo, em suma, sobretudo de almas, de que Fausto gostava como de nenhuma outra coisa.
           Relembrando a velha familiaridade entre os dois, j√° menos encurralado no seu medo, sentado com as m√£os pousadas nos joelhos, questionou:
          -O que √© que queres de mim, Fausto?
          -O que √© que eu te posso dar? Pergunto eu‚Ķ
          -Nada! Quero ir embora daqui! Mais nada!
          -Entre o Inferno no Inferno e o Inferno na Terra, o que tu criaste, a diferen√ßa √© pouca, diz l√° a verdade‚Ķ
          O rapaz ficou em sil√™ncio.
          -E a rapariga? ‚Äď insistiu Fausto
          -Quem?
          -N√£o te fa√ßas de desentendido!
          -A Marisa?
          -Claro! Quem mais poderia ser? Quem mais te deixa possesso como ela?
          -A Marisa n√£o tem rabos-de-palha. Nunca a ter√°s. Mais depressa trazias para c√° o Padre Fernandes ou o presidente da junta.
          -N√£o desafies os poderes do teu amigo‚Ķdisse de novo Fausto, c√≠nico. A prop√≥sito: queres uma pitadinha daquilo?... ‚Äď perguntou zombeteiro.
          -N√£o, obrigado, estou limpo h√° alguns dias‚Ķ
         -E a rapariga, quere-la ou n√£o?
          -N√£o. J√° n√£o gosto dela‚Ķ
          -Mentiroso. Morres de ci√ļmes do rapaz com quem ela agora vai para a cama‚Ķ
          Telmo calou-se de novo.
          -Tenho um pacto a propor-te‚Ķ- insiste Fausto.
          -Outro? J√° fiz um pacto contigo h√° uns tempos e dei-me mal‚Ķ
           -Uma coisinha irris√≥ria, o tr√°fico e o consumo de droga, as baldas ao trabalho, o dinheiro f√°cil, o ouro da vizinha e de outras velhotas.
          -N√£o precisavas de ser t√£o minucioso‚ĶMas qual √© desta vez a proposta? ‚Äď perguntou Telmo desafiador e movido por uma curiosidade incontrol√°vel ‚Äď J√° agora, n√£o te esque√ßas do resto: o inc√™ndio no acampamento e a morte de tr√™s pessoas‚Ķ E isto aqui, o meu sepulcro prematuro‚Ķ
           -Quero a Marisa ‚Äď disse o outro, ignorando-o ‚Äď. Tanto ou mais do que tu! E vais trazer-ma! Desejo aqueles l√°bios carnudos, aqueles seios rijinhos, aquela pele macia e todo o resto. Resumindo, quero apagar a minha marca hist√≥rica de homossexual.  
           -Bem me parecia que n√£o eras o Fausto dos velhos tempos! Com esses carac√≥is e essa t√ļnica efeminada, s√≥ poderias ser uma personagem associada a alguma m√° fama. E deves estar a brincar comigo!
          -Escolhi-a por causa dos f√≥sforos atirados acesos √† cabe√ßa e ao corpo de Roma pelo seu del√≠rio. Apesar de tudo, mais l√ļcido do que o teu quando accionaste o isqueiro. Ele, ao menos, queria reconstruir a cidade, deixar uma mem√≥ria grandiosa ao futuro‚Ķ
          -Se assim √©‚Ķ Mas n√£o me compares a ele‚Ķ
          -A Marisa, em troca de tr√™s desejos √† tua escolha!...
          O rapaz reflectiu por alguns instantes. Precisava de analisar as contrapartidas, saber se o risco valeria a pena. Entre outras coisas, para a√ßaimar nos seus limites uma pinta de remorso que come√ßava propagar-se e a tornar-lhe a vida insuport√°vel.
           -Quero ver o Manolito, o Diogo e a av√≥‚Ķ - pediu.
          -Isso n√£o podes. N√£o est√£o na sombra. Pede outra coisa‚Ķ
          -Claro, agora s√£o m√°rtires‚Ķ Ainda h√£o-se ser santos‚Ķ Ent√£o quero ir embora daqui‚Ķ
          -Talvez seja poss√≠vel‚Ķ - Digo-te depois como podes transformar a Marisa numa Orlanda rapidamente e atra√≠-la para este mundo‚Ķ - Qual √© o outro desejo?
         -Ser rico.
         -Joga no Euromilh√Ķes. Falta um. Diz l√°.
         -Encontrar-me com Deus‚Ķe Telmo fez o sinal da cruz‚Ķ
          Acabara, com certeza, de ter um gesto, mais do que proibido, decisivamente intoler√°vel. Simultaneamente, Nero, ou o disfarce do Dem√≥nio, sumira no ar numa nuvem de fumo negro e no meio de um trov√£o demon√≠aco. Ao mesmo tempo, a porta, carcereira at√© h√° momentos, abria completamente a boca, prestes a vomit√°-lo como um cogumelo venenoso num mar de espuma. O quarto era outra vez o caos de antes. Os m√≥veis projectavam-se sozinhos contra as paredes, eram a seguir esmagados no seu c√īncavo como latas velhas e in√ļteis. Nesse meio tempo, o espelho, onde antes se mirara, desfazia-se em milh√Ķes de peda√ßos persecut√≥rios, que, numa nuvem em espiral, se levantavam do ch√£o para o atingirem na fuga desesperada que ent√£o empreendera, enquanto se sentia o pior espectro que o medo alguma vez vestira. Aos ouvidos, silvavam-lhe mil palavr√Ķes e revela√ß√Ķes bomb√°sticas, entrecortados uns e outras pelo rugido a portas velhas e enferrujadas das escadas, o que as fazia parecer agora ainda mais sinistras:
           -Abel n√£o √© o teu pai!
          -√Čs filho do Diabo!
          -Marisa √© e sempre foi uma gald√©ria.
          -Sempre te p√īs os cornos.

           Quando chegou ao exterior, esbaforido, mesmo antes de tomar um pouco de f√īlego e de sacudir alguns estilha√ßos, levou as m√£os aos ouvidos, a fim de se proteger dos cacos e do coro de vozes que o xingavam. Onde deveriam estar Orlanda, Paulo, Mateus Rosa e os outros h√≥spedes, parecia n√£o haver ningu√©m. Era como se o chal√© tivesse sido sempre uma casa assombrada, sangue a escorrer pelas paredes, um alimento t√£o preferido dos dem√≥nios como o leite o era das crian√ßas, almas mal√©ficas a acoitar-se por ali, prontas a envolv√™-lo no pior dos terrores. Tudo lhe parecia o mais terr√≠vel dos pesadelos. A ponto de duvidar de que tudo aquilo alguma vez tivesse acontecido. Possivelmente, aquele chal√© havia feito parte de um cen√°rio criado para dar consigo em doido.
          Deambulou por li algum tempo, sentindo aquele negro chap√©u de sombra sobre si e, sobre tudo, sem saber o que fazer. Regressar aos bra√ßos da m√£e era imposs√≠vel. E talvez tamb√©m nem valesse a pena, depois de um dos vidros da cacofonia lhe atribuir uma origem masculina diferente do pai que sempre conhecera.
          Ao ver, junto a uma das esplanadas da mans√£o, quatro gatos pretos a debicar empenhadamente umas espinhas,  pensou na possibilidade de Fausto estar a armar-lhe mais uma cilada a fim de o levar a ajud√°-lo no desejo de violar Marisa. Percebera que, antes disso, pretendia transform√°-la numa assassina, que, a seguir, se decidiria por um suic√≠dio profil√°ctico para se furtar √† pris√£o.
Haveria, com certeza, gente no chal√©. Possivelmente √†s escuras. Os olhos vermelhos das almas do Inferno, mais do que dispensar a luz, gostavam de se inundar de sombras e de mortos com passados violentos. Bem longe das ideias de ressocializa√ß√£o que Fausto lhe impingira √† chegada, na sua demagogia de Dem√≥nio comprometido com o mal, disfar√ßado embora a magia de fadas benfazejas. E ele, Telmo Domingos da Silva Cerqueira, um rapaz que um dia tivera inf√Ęncia, m√£e e beijos, podia ter sido depois um cr√°pula, um ladr√£o, um assassino a dar mau uso √† chama de um isqueiro, mas nunca seria um Belzebu alcoviteiro, capaz de, para servir na bandeja do crime a cabe√ßa de mais um algoz ‚Äď que um dia amara ‚Äď induzir Marisa, o criminoso na berlinda, a matar Nelson e fazer do rapaz mais uma v√≠tima, com quem, √† semelhan√ßa dos tr√™s que ele pr√≥prio conduzira √† morte, nunca podia trocar a mais leve conversa. Ou at√© um pedido de desculpa. O c√©u era num lugar paralelo para onde n√£o iam avi√Ķes, nem barcos, nem autom√≥veis, nem motas, nem bicicletas, nem estradas. Muito menos havia facebook que o ligasse √† Terra e telem√≥veis encurtadores de dist√Ęncias.
          Adivinhando-lhe os pensamentos, os gatos, abandonando o prato de sardinhas, como se este n√£o passe de um pretexto para alguma coisa mal√©fica, avan√ßaram sobre si, olhos esbugalhados, quais panteras negras agigantadas pelos artif√≠cios de um mundo de trevas. E, de novo tomado por um p√Ęnico dinamizador, como se fosse um prisioneiro evadido dos calabou√ßos aflito por encontrar um esconderijo, embrenhou-se num caminho onde antes n√£o passara, em virtude de Fausto o ter retirado da visita inicial ao Inferno, enfeitado ent√£o de adere√ßos cor-de-rosa e azul-beb√© para o adornar de inoc√™ncia a fim de o cativar.
          Passando a uma velocidade rel√Ęmpago por Auschwitz ‚Äď esperava atingir a liberdade, fintando as almas m√°s que o habitavam .
         N√£o demorou at√© ter a sensa√ß√£o de inimigos a boicotar-lhe a corrida. Com certeza, espi√Ķes disfar√ßados de formas improv√°veis, mas imaginativos o suficiente para o entregarem a Fausto como a mais doce das sobremesas.
          O vento leste chegara agressivo, de repente. Bombardeava, como canh√£o no alto de uma fortaleza, cada √°rvore, de umas quantas que ladeavam um caminho de terra batida que conduzia a um local desconhecido, sombrio como todo o resto. Ao passar sob a copa  desgrenhada de todas elas, velhas e desdentadas quais bruxas ancestrais, enormes ramos desprendiam-se, indo, como setas envenenadas, √† procura de um √ļnico alvo. Ele pr√≥prio, Telmo, em quem se arremessavam violentamente, enquanto ele fazia a sua desesperada tentativa de fuga.
          Quando pensava ter-se livrado dos ramos tenazes, chegou, numa esp√©cie de turbilh√£o, a uma cidade em ru√≠nas, que os mil√©nios haviam transferido para debaixo da terra.
         Petrificado pelo terror, pareceu-lhe ver ali uma esp√©cie de nascente de todos os vulc√Ķes, que, numa numa intermin√°vel cadeia de veias, se distribu√≠a por todo o planeta, uma esp√©cie de rede de Internet chegando a todos os lados. Fora sugado para l√° por um buraco camuflado no ch√£o, alinhado com outros como se se tratasse de uma flauta gigante. Seres das trevas, refeitos a partir de humanos mas j√° sem nada destes, jogavam, com quem tentava fugir, uma esp√©cie de roleta russa. O fugitivo era propulsionado at√© o c√īncavo da flauta. Se calhasse viajar no alinhamento de um buraco, seria de novo cuspido para fora por uma boca de lume e numa din√Ęmica semelhante √† enunciada pelo Princ√≠pio de Arquimedes, mas agora de fogo. O que significaria, talvez, que a flauta n√£o passaria de uma linha de montagem destinada a reciclar almas renitentes. Saindo uma, outra estaria a ser sugada. Tratava-se, em resumo, de uma nova oportunidade concedida ao desertor para assimilar as regras do Inferno e obedecer ao Senhor das Trevas. Em caso de reincid√™ncia, seria transformado em magma logo na tentativa seguinte, passando ent√£o a fazer parte da alma imprevis√≠vel e destruidora dos vulc√Ķes.
          Felizmente, tivera a sorte de ser propulsionado para fora da cidade maldita.
          Quando, a transpirar de calor e de medo, se viu de novo no exterior, resolveu que seguiria o √ļnico percurso que conhecia, o que conduzia ao penhasco.

Continua
« Última modificação: Agosto 15, 2020, 17:15:27 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #93 em: Agosto 14, 2020, 15:08:29 »

t`arrenego mafarrico.
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« Responder #94 em: Agosto 17, 2020, 18:56:47 »

                                                                                            LXVI

           Regressou pelo mesmo caminho das √°rvores. Desta vez, as feiticeiras limitaram-se a v√™-lo passar numa quietude duvidosa. Depois da guerra de ramos anterior, Telmo esperava que elas o enrolassem agora nos seus tent√°culos, como fariam um polvo gigante, ou uma cobra piton antes de o devorar. Contudo, permaneceram estranhamente quietas, como se algo lhe estivesse a preparar uma surpresa ainda mais assustadora.
          Por isso acelerou a corrida, arregalando olhos e espica√ßando os ouvidos para tudo o que mexesse. Como nada acontecesse, passou de novo pelos pavilh√Ķes. Cheias de medo e famintas, dezenas de criaturas esfarrapadas e sem olhos, como ele se vira no espelho por alturas do confronto com Fausto mascarado de Nero, rastejavam agora por l√° como pap√©is velhos arrastados pelo vento. E, de novo, seres fantasmag√≥ricos come√ßavam a persegui-lo aos gritos, enquanto esbracejavam em desespero. Desta vez, ao inv√©s de quererem fazer-lhe mal, sentiu que tudo aquilo era apenas um pedido de ajuda, que ele n√£o estava em condi√ß√Ķes de prestar.
Já um pouco mais habituado à marca de horror característica de todo o Inferno, ignorou-os a ponto de os levar a desistir de lhe tropeçarem nos calcanhares.
          Depois da fonte onde vira a leitora de ‚ÄúA Divina Com√©dia‚ÄĚ, embrenhou-se no caminho que levava, primeiro √† clareira dos rituais sat√Ęnicos, e depois ao penhasco.
           N√£o demorou muito at√© sentir atr√°s de si um tropel de passos, de segundo a segundo mais pr√≥ximos e assustadores.
           O primeiro impulso foi ignorar o tumulto. Mas, √† medida que a poeira se elevava no ar e o barulho o ensurdecia, n√£o resistiu a olhar para tr√°s pelo canto do olho, receando ver de novo os fantasmas de h√° pouco com as mesmas inten√ß√Ķes de liberdade que o impulsionaram a ele para o penhasco.
           Em vez de se deparar com as pobres almas, ou at√© com Marisa e Nelson transformados em monstros, viu milhares de bichos gigantes em passo firme, cara de poucos amigos, adivinhando-se neles uma inten√ß√£o de ajuste de contas. No l√≠der de t√£o heterog√©nea matilha, reconheceu, logo ao primeiro golpe de vista, um Ringo enorme, o pequeno c√£o dos ciganos agigantado, a espumar por uma boca escancarada, dentes caninos agora verdadeiras tenazes a prepararem-se para o abocanhar. O mesmo se passava como todos os outros.
           Da estranha comitiva, faziam ainda parte centopeias com quil√≥metros de pernas, aranhas de tent√°culos grossos, verdadeiras amarras de navios, lagartixas e lagartos, aut√™nticos dinossauros do per√≠odo jur√°ssico, formigas monstruosas, coelhos, perdizes, pardais, estorninhos, quatro vacas, outrora mansas, transformadas em monstros a rugirem como feras numa savana enraivecida. Todos enormes como na Era dos Tiranossauros.
           Nos olhos daquelas criaturas que compunham o cortejo era clara a express√£o de terem ido ao Inferno expressamente √† procura de vingan√ßa. Tal o √≥dio que deles faiscava, sem excep√ß√£o. Talvez o lugar de todos n√£o fosse ali, dado pertencerem agora, como Manolito, Ana Rosa e Diogo, √† categoria dos m√°rtires. Mas, o que era certo √© que estavam. Sabia-se l√° para qu√™.
           E, de novo, Telmo se via encurralado pelos pecados terrenos, num beco com menos sa√≠das do que aquele onde sempre morara enquanto pertencera ao mundo dos vivos. Os p√°ssaros mortos n√£o voltariam a pipilar nos seus ninhos. Nem m√£es, nem beb√©s haviam sobrevivido ao fogo que ele ateara num golpe de raiva.
           Ao virar-se, disposto a enfrentar o tropel e a defender-se de poss√≠veis ataques, as patadas estacavam por instantes, sem contudo se desvanecer o olhar maquiav√©lico de cada um.
           Vendo Ringo, aquele sobre quem mais directamente agira, emprestado ao Inferno como todos os outros com algum prop√≥sito, encenou um pedido de desculpas, suficientemente frouxo para ser aceite pelo c√£ozito envenenado numa vida terrena que todos j√° haviam deixado para tr√°s.
           Sem conseguir aplacar o √≥dio daquela biodiversidade animal, o rem√©dio era continuar a fugir, usando de todos os artif√≠cios de que fosse capaz. At√© algu√©m, ou alguma coisa, dissuadir os seus perseguidores da revanche.
           Depois de esgotadas todas as vias, o port√£o de entrada e o trilho da cidade subterr√Ęnea, s√≥ lhe restava mesmo o penhasco e o rio, mais ao fundo. Podia at√© haver outras hip√≥teses, mas n√£o sabia quais.
           Assim prosseguiu at√© √† clareira, entre o medo do que tinha atr√°s a ro√ßar-lhe os calcanhares e o que tinha pela frente, a imponderabilidade do desconhecido.
           Antes de chegar ao sop√© do rochedo, viu por perto quatro encapuzados sinistros √† roda de uma enorme fogueira. De imediato lhe pareceu um cerimonial de invoca√ß√£o de dem√≥nios, a quem fariam, certamente, oferendas em litanias sat√Ęnicas. De relance, ainda teve o vislumbre de, sobre um pedregulho, ver uma galinha preta a ser degolada com um machado. A seguir pareceu-lhe tamb√©m ver a ave, j√° no estertor da morte e sem cabe√ßa, a fazer um voo alucinado batendo as asas em agonia, antes de cair para o lado morta.
Passando pelos ritualistas, no √ļnico caminho para o destino escolhido, entre o timorato e o corajoso, fez a sauda√ß√£o corriqueira da hora, que lhe pareceu j√° de noite, apesar de, ali, perder por completo a no√ß√£o do tempo. J√° n√£o se lembrava de ver sol, nem as variantes  de penumbra e sombra.
N√£o obteve resposta.
           Progrediu entretanto para cima, esfor√ßo desmedido, como um moribundo sem ac√ß√£o, olhando a cada passo em redor em busca de inimigos. Enquanto se desviava das pedras, ia tacteando o caminho, √≠ngreme e irregular, como a bengala de um cego a detectar obst√°culos.
           Depois de um bocado a correr mais do que caminhar, embrenhou-se pelo carreiro indicado por Fausto no √ļnico passeio que efectuara ao precip√≠cio, um aut√™ntico caminho de cabras onde s√≥ animais de quatro patas conseguiriam equilibrar-se. Nessa altura, era ainda um jovem confiante na bondade do amigo, um ressocializador de homens e mulheres ca√≠dos em desgra√ßa pela rasteira do crime e passos mal calculados. Agora, o embuste estava desvendado, tornara-se maior e ele vivia, mais do que em sucessivos apuros, os percal√ßos de uma fuga cujo grau de sucesso era m√≠nimo.
          O sil√™ncio do rochedo, √† medida que avan√ßava, ia-se tornando suspeito. Em cada reentr√Ęncia da escarpa, imaginava rostos fantasmag√≥ricos a sair-lhe ao caminho da√≠ a nada, antes de o aniquilarem com os seus poderes maquiav√©licos. N√£o dava muito, nem pela sua seguran√ßa, nem pela vida que ainda lhe restasse, depois de, ao que julgava, lhe ter sido j√° roubada metade. As criaturas das trevas tinham sempre um truque qualquer na manga, um estilete assassino pronto a ser usado ao mais leve descuido num ponto vulner√°vel do pesco√ßo, no s√≠tio da jugular. A todo o momento poderia ser v√≠tima de uma armadilha. Talvez os dem√≥nios, ou os seus escravos, estivessem a estender no caminho linhas invis√≠veis que o fizessem rolar escarpa abaixo de regresso ao ponto de partida, transformando-o no roberto de um teatro amador vazio de espectadores. Mas, o mais certo era estarem a a prepar√°-lo para servir de jantar aos abutres, que, antes de se banquetearem com a galinha preta dos encapuzados, iriam arrancar-lhe os olhos √† dentada. Embora lhe parecesse que j√° nem sequer olhos tinha.
           J√° quase no topo da montanha, dois corvos negros, num bater de asas sinistro que atroou os ares, toldaram-lhe a vis√£o, deixando-o aturdido e sem f√īlego no meio da escarpa. E, pelo negro bando que, da√≠ a nada, o rodeava em c√≠rculos rasantes, numa esp√©cie de dan√ßa de bruxas, de nariz decepado pelo gume das asas gigantes dos p√°ssaros e cego igualmente pela sua terr√≠vel faca de penas, concluiu que lhe seria imposs√≠vel fugir do Inferno enquanto se sentia a desfalecer.
          E deixou-se cair numa lura escura, Fausto vencera. Tinha mais um escravo nas suas hostes, Telmo, ‚ÄúO rapaz do isqueiro assassino‚ÄĚ.
          Apesar de tudo, numa aberta do cerrado ataque, recuperou o √Ęnimo, levantou-se como a mola de uma ratoeira destravada pelos dentes de um rato e recome√ßou a subir.
          √Ä medida que progredia no caminho, tentava ocultar-se dos atacantes no meio de arbustos solit√°rios nascidos em pequenos canteiros de terra, trazida para a escarpa enrolada nas l√≠nguas do vento.
           J√° no cimo, de novo acuado pelos corvos, rio em baixo, pensou nos suicidas em busca da liberdade. Todo o rio levava ao mar. Poderia n√£o ser o mar de Aveiro e da Costa Nova, onde tantas vezes estivera na praia com a Marisa, mas em todo o caso a um mar.
Tinha de descer at√© ao curso de √°gua, enfrentar a gigantesca cascata e procurar a liberdade. Se o conseguisse seria uma vit√≥ria. De contr√°rio, tudo seria prefer√≠vel a enfrentar Fausto e ter de lhe devolver as bermudas, a t-shirt e as sapatilhas de marca que lhe haviam sido emprestadas no primeiro engodo do Diabo. Tudo era melhor do que confrontar-se outra vez com os poderes de Fausto, que o reduziam a um dos seus mais recentes servidores. Mais um da legi√£o de dem√≥nios a que o Padre Fernandes tantas vezes se referira na missa da igreja da sua aldeia. Sobretudo durante os baptizados. Era de arriscar. Qualquer coisa, menos a ter como dono um ‚Äúamigo‚ÄĚ daquela envergadura. Mesmo servir de repasto aos abutres!
       Um grito de desespero inundou a montanha, como o eco de um morteiro atraindo a aten√ß√£o de um milhafre.
       Foi Orlanda quem encontrou Telmo na escarpa, na margem esquerda  do rio e numa papa de sangue.

                                                            



                                                                                    


           - A pr√≥xima sess√£o ter√° lugar de hoje a oito dias
           Mas, onde estou eu, interroguei-me ao vir sabe-se l√° de onde, antes de conseguir pronunciar palavra. Deitado na marquesa, pensava se n√£o estaria talvez num hospital acabado de regressar de um coma profundo, na sequ√™ncia de um acidente de mota. Em todo o caso, de onde quer que tivesse vindo, se o Inferno existir mesmo, eu tinha estado l√°.


continua


« Última modificação: Agosto 17, 2020, 19:54:48 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #95 em: Agosto 20, 2020, 21:06:53 »

Ir ao inferno e voltar? √Č obra.

Obrigado pelo aviso de gaffe.
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« Responder #96 em: Agosto 20, 2020, 22:22:25 »

continuação

         A minha cabe√ßa era uma am√°lgama de imagens de terror para amantes do fant√°stico. Nunca havia assistido a uma coisa t√£o sinistra. E talvez nunca mais tivesse vontade de assistir. Por muito diab√≥licos que pudessem ser os filmes de terror que eu pudesse ver no futuro, Iriam certamente parecer-me uma c√≥pia rudimentar e demasiado falsa, comparada com a minha descida ao Inferno.
          Aos poucos e como um morto-vivo, fui abrindo os olhos ao meu redor sem saber aonde pertencia: as paredes brancas do consult√≥rio, vazias, sem um quadro para, nas intermit√™ncias da espera, um olhar se demorar na arte de um pintor humano, n√£o eram muito inspiradoras. Eram apenas um cen√°rio prop√≠cio a induzir no paciente o que a imagina√ß√£o privilegiada de um hipnotizador como o Dr. Fausto quisesse.
          Belisquei-me tr√™s ou quatro vezes para saber se estava vivo, ou morto, se aquele homem e aquela mulher, √† minha frente, seriam deste mundo ou se permaneciam o Dr. Fausto e a recepcionista Orlanda do chal√©, que eu trazia ainda t√£o frescos na mem√≥ria. Tinham a mesma cara, os mesmos olhos, a mesma voz, mas a forma de a usarem era agora diferente, mais familiar. Quando me encontrara com eles noutra dimens√£o, sempre haviam tido um qu√™ de secreto que estranhei. Pelo menos a partir de dada altura. Havia neles algo de tenebrosos quando nos cruz√°ramos na minha ‚Äúvida‚ÄĚ num plano inventado pelo Dr. Fausto para me castigar por auto-sugest√£o. Sobretudo no √ļltimo confronto do quarto, quando, nessa outra terr√≠vel realidade al√©m t√ļmulo, seja l√° o que isso for, Marisa me foi pedida como um objecto para satisfazer os desejos sexuais de Fausto.
          Agora, quer um, quer o outro, o dr, Fausto e a dr¬™ Orlanda pareciam-me mais humanos. Mas, mesmo assim, ainda duvidei por mais alguns segundos da minha exist√™ncia em carne e osso, ali sobre a marquesa e num lugar qualquer do Planeta Terra.
           -Est√° a ouvir-me Telmo? ‚Äď perguntou o hipnoterapeuta, com um sorriso, insistindo ‚Äď. Sabe quem sou?
           -E eu? ‚Äď quis saber por sua vez a dra. Orlanda.
           Claro, a senten√ßa, que, al√©m da pena, determinava a minha reinser√ß√£o social atrav√©s de meios adequados que o m√©dico tamb√©m aplicara no recluso em que miseravelmente me tornara.
           Como uma crian√ßa que ainda mal balbucia uma frase com duas palavras, fui-me lembrando aos poucos do que acontecera h√° quase um ano: a droga, o fogo no acampamento, tr√™s mortes, centenas de hectares de floresta incendiada, animam dizimados. A investiga√ß√£o, o olhar mudo e acusador do pobre Litos, a m√£e a servir de int√©rprete de uma linguagem de gestos com origem numa escola √ļnica no meio familiar. E dezasseis anos de pris√£o, tr√™s homic√≠dios consumados, catorze tentados ‚Äď a pequena Sabrina, filha dos ciganos Rodrigo e Luzia, nascida passado um m√™s, tamb√©m contara para os anos da minha reclus√£o.
           Passado um bom peda√ßo, respondi que sim que sabia. Que me lembrava ainda da pena acess√≥ria: sess√Ķes de hipnose, destinadas a combater a toxicodepend√™ncia e o maldito apetite por comer labaredas com os olhos. Um fasc√≠nio. Tratava-se de uma reincid√™ncia. Desta vez de resultados devastadores. E uma reincid√™ncia agrava sempre qualquer coisa. At√© uma viagem fict√≠cia pelo Inferno. Por isso, o meu discernimento de rec√©m-chegado da morte, s√°dica o suficiente para algum dia esquecer o que vivera atrav√©s dela, era ainda muito lento. As lembran√ßas eram ainda muito vivas. Sobretudo o meu espancamento seguido de uma imagin√°ria incinera√ß√£o. Induzida por um homem deste mundo, dou os meus parab√©ns ao dr. Fausto, que, s√≥ por ter sido capaz de ma servir com t√£o  atroz realismo, parecia nora dez.
           Por tantas coisas, enquanto o tinha √† frente na vers√£o original de homem, n√£o conseguia ainda desvincular-me do meu contacto com o  outro, o Dem√≥nio, o Fausto anormalmente generoso que me emprestou umas bermudas e umas sapatilhas e me oferecera depois um jantar delicioso no meu primeiro dia de Inferno, um verdadeiro  terror na √ļltima parte da estadia. E era por isso que, apesar de me saber do lado de c√°, com o Dr. Fausto e com a Dra. Orlanda, a psic√≥loga da cadeia, √†s primeiras impress√Ķes e depois do meu despertar dos mortos, ainda me parecia que um e outro seriam realmente capazes do reverso mal√©fico que eu lhes vira fazer no Inferno. Fausto, o Dr. Fausto, o hipnotizador, fora o meu cicerone. Uma viagem, feita segundo uma arte milenar de ilus√£o, e um e outro confundiam-se. Uma ilus√£o terrivelmente cruel para mim que a vivi. S√≥ que  o Dr. Fausto sempre a pensou  como uma pena bem mais eficaz para mim do que dezasseis anos a apodrecer numa pris√£o, a partilhar a vida com outros detidos numa esp√©cie de marinada de carne em sal, alho e vinho que s√≥ me faria refinar mais os v√≠cios. Dezasseis anos de vida est√©ril, sem nada onde Deus pusesse a sua virtude. Demasiado tempo com poucas coisas v√°lidas para ocupar a cabe√ßa. A n√£o ser convencer-me de que fora muito bem feito ter incendiado o acampamento dos ciganos, por In√°cio Maia, depois de um cliente habitual ter perdido, ou de lhe terem furtado a carteira, n√£o se ter condo√≠do de algu√©m prestes a entrar no mart√≠rio de uma ressaca de hero√≠na. E se, por momentos, nas minhas reflex√Ķes prisionais, duvidasse da culpa do homem, antes dele haveria sempre os ladr√Ķes que me haviam levado o dinheiro para culpar durante o resto da vida, na intermin√°vel lengalenga da formiga e da neve. Nunca deixariam de encontrar um falso culpado para ser o primeiro elo da cadeia que conduzira ao que acontecera. A morte de Manolito, de av√≥ e neto, diria sempre eu, n√£o os provocara eu directamente. Eles que apagassem o fogo quando deram conta, tinham √°gua suficiente nos bidons de pl√°stico que iam buscar ao fontan√°rio da aldeia. E haveria igualmente de cultivar o √≥dio aos ciganos por venderem droga em maior quantidade talvez do que venderiam os p√≥los contrafeitos e os len√ß√≥is de refugo. Que se tivessem limitado a ser um bando de semi-sedent√°rios a viver num acampamento, ou serem como no passado, quando eram criaturas m√≠sticas e parentes dos feiticeiros. N√£o sendo suficientes os bodes expiat√≥rios, continuaria, ainda assim, a atirar culpas contra quem investigara o fogo e n√£o olhara para o outro lado da hist√≥ria, um pobre rapaz a quem o pai nunca tratara realmente como filho. Bem os vi, aos dois desconhecidos, os investigadores, no ‚Äúfilme‚ÄĚ ‚ÄúO Rapaz do Isqueiro Assassino‚ÄĚ, durante os tr√™s funerais que haviam precedido o meu e que chegaram a mim com a ajuda do Litos, o pobre surdo-mudo. Mais do que qualquer outra coisa, odiaria os guardas-prisionais e a pris√£o, sem o m√≠nimo arrependimento do que fizera. √Č mais f√°cil a um criminoso viver na cadeia com o √≥dio do que com o remorso. A pris√£o n√£o passa de uma colmeia em que as abelhas, em vez de destilarem mel, s√£o uma f√°brica de veneno de que elas pr√≥prias se alimentam, continuando a faz√™-lo mal ponham o p√© na rua. Logo no primeiro dia de liberdade. √Č imposs√≠vel n√£o odiar uma cela onde n√£o h√° um espelho para um recluso mirar o peda√ßo de gente que sobrou de si, um cinto para apertar umas cal√ßas que entretanto lhe tenham ficado largas, ou os cord√Ķes de uns sapatos que possa pendurar numa trave, para, a seguir, enforcar o remorso. E sempre odiaria o juiz que me encarcerara, numa decis√£o nua e crua, em dezasseis anos de priva√ß√£o da liberdade a juntar a um passado carente de afecto. Sobretudo paterno.
Desta vez, a senten√ßa sa√≠ra das m√£os de um juiz progressista, crente em mais coisas do que habitualmente os ju√≠zes cr√™em. A cadeia, cada vez mais, √© menos assustadora. Um homem que seja o sustento de cinco filhos e que se veja privado de emprego n√£o se ensaia muito at√© decidir assaltar um banco. Antes disso, tem a certeza de que o Estado, a seguir, mal as portas da pris√£o se fechem sobre si, lhe ampara os filhos. E, quanto a mim, quando a hipnose n√£o sabia ainda quem era, e quando poucos a levavam a s√©rio, um homem da justi√ßa dera-lhe cr√©dito. Elegera-a como a terapia n√ļmero um, para, ao menos no futuro, impedir para sempre a entrada na cadeia de um rapaz que acabara de completar vinte e sete anos, e em quem talvez valesse a pena apostar algumas fichas.
          E ali estava eu a ser, se n√£o um seu paciente a beneficiar dos seus m√©todos e de rem√©dios, ao menos uma cobaia dela, da Hipnose, de quem quase ningu√©m ouvira falar.
           Entrei da√≠ a pouco no carro celular. A cabe√ßa fervia-me. Estava vivo. Voltava para a pris√£o. A minha morte n√£o acontecera no prato de uma realidade que o Dr. Fausto me obrigara a ingerir no meio de dores imagin√°rias. A minha m√£e tamb√©m n√£o se deparara com o filho espancado na pra√ßa naquela segunda-feira quente de Agosto. Experimentou outras dores que n√£o essa, com certeza, quando a GNR me levou algemado como um criminoso da pior esp√©cie. Que eu n√£o deixava de ser! Pela segunda vez, fez a terr√≠vel constata√ß√£o, agora sem quaisquer d√ļvidas, de ter um filho marginal a contas com a lei. E, o pior de tudo, com tr√™s mortes √†s costas, que s√≥ poderiam ressuscitar talvez da√≠ a muito tempo: no Ju√≠zo Final, a que ela n√£o iria assistir em tempo √ļtil de os ver a fazer o que se esperava de dois rapazinhos de quatro e cinco anos viessem a fazer aos vinte e cinco.
Na minha morte ficcionada, ver o corpo de Telmo a ser consumido por chamas, enquanto os bot√Ķes da jaqueta se lhe enterravam na carne, foi o que mais me custou: uma imagem da qual nunca irei esquecer-me. E, sabendo agora que o rapaz era eu, ao longo do que vai ser a minha vida,  irei fazer-me a eterna pergunta:
            -E se tudo tivesse sido realmente como eu o vi, e n√£o uma fic√ß√£o para me levar a comer do pr√≥prio veneno? Quantas vezes, antes de tudo o que me tivera por protagonista, numa situa√ß√£o id√™ntica, por exemplo o espancamento pelo companheiro de uma mulher at√© √† morte, inflamado de indigna√ß√£o e √≥dio, n√£o terei dito: ‚Äú haviam de lhe fazer o mesmo. Seria a √ļnica maneira de garantir que n√£o repetiria semelhante barbaridade‚ÄĚ.
           Na altura da incinera√ß√£o, lembro-me de me ter sentido um animal a ser marcado numa ganadaria, como uma coisa sem nada dentro sen√£o uma carca√ßa em que a cabe√ßa ruiva, o meu orgulho entre morenos, foi consumida pelo fogo em primeiro lugar. Ou ent√£o um escravo portador, durante toda a vida, do sinete do amo esclavagista ainda que pudesse ter sido um dia alforriado. Tratou-se de um embuste hipn√≥tico, mas poderia ter acontecido na vida real. Por todo o lado, em todo o mundo, tem havido in√ļmeras pessoas queimadas com gasolina, √°cido sulf√ļrico ou produtos com o mesmo poder corrosivo. Espancamentos h√°-os bastantes. Mais vezes do que seria desej√°vel. Grande parte deles, filmados e partilhados nas redes sociais como se se tratasse do acontecimento do ano e o realizador fosse, a seguir, ganhar um √ďscar.
           Nas circunst√Ęncias de ent√£o, a minha morte n√£o seria de admirar. E esteve muito perto de se tornar numa realidade semelhante √† que contemplei do Inferno. O povo, unido numa causa qualquer, mesmo injusta, pode tornar-se num animal irracional invenc√≠vel. N√£o sabe a for√ßa que tem. Bem lho dizem em tempo de elei√ß√Ķes, mas as elei√ß√Ķes s√£o um caso √† parte, n√£o devem servir de exemplo. A vontade do povo morre quando o voto entra na boca da urna. Depois, √© a vontade dos outros que vinga. O povo que estava na pra√ßa esteve realmente  perto de ser o grande assassino de Telmo. Tive a vida por um fio, ali num ajuntamento de homens e mulheres indignadas com tr√™s v√≠timas mortais num √ļnico dia, mal Litos, junto da m√£e, soltou a muda acusa√ß√£o, posta em palavras pela boca de C√°rmen:
           -Foi ele que incendiou o acampamento. O Litos viu-o.
           Nessa altura, os primeiros socos da mulher foram o mesmo que a chama do meu isqueiro para os ramos secos do acampamento. O rastilho de uma ira colectiva, que s√≥ n√£o desabou sobre mim porque a m√£o do presidente interveio, com mais autoridade do que provavelmente intervir√° nas sua lides aut√°rquicas. Quem, de verdade, livrou a minha m√£e de se ver transformada na Piet√° da aldeia do Eito foi ele. O Dr. Fausto s√≥ o tirou de cena para n√£o o deixar ficar mal perante os eleitores, quando o bom senso regressasse e todos o acusassem de n√£o ter impedido mais uma trag√©dia. E n√£o eram s√≥ os tr√™s mortos. Um pol√≠tico serve para tudo, principalmente para bode expiat√≥rio. Se as coisas corressem ainda pior, ele seria o primeiro saco de pancada, um homem morto √† boca da urna nas pr√≥ximas elei√ß√Ķes. Mas Ant√≥nio Pinto estava no largo da igreja, a ver cair-lhe nos bra√ßos mais um problema para juntar aos anteriores, ainda sem solu√ß√£o √† vista alguns deles, o alojamento dos ciganos. Andara, grande parte do dia, como uma barata tonta no meio de cad√°veres, a contactar os bombeiros, a protec√ß√£o civil, a prestar solidariedade e apoio. Sobretudo √†s fam√≠lias dos mortos. E, com as duas corpora√ß√Ķes a levantarem ferros para mais um braseiro nacional, no meio de um calor demon√≠aco, fora ao caf√© da Dona Celeste, ali mesmo em frente √† igreja, beber um merecido gole de √°gua. Na pra√ßa, muito mais do que treze ciganos, perdidos entre colch√Ķes e farrapos como p√°ssaros sem ninho no meio de pessoas que n√£o morriam de amores por eles, foi encontrar meia povoa√ß√£o no rescaldo do inc√™ndio do acampamento da aldeia do Eito. Tornei-me intoc√°vel mal Ant√≥nio Pinto ligou para a GNR a comunicar que, muito provavelmente, estaria ali, quase a ser morto por uma popula√ß√£o enraivecida, o causador do fogo.
           Da√≠ a pouco, estava a ser detido para as primeiras averigua√ß√Ķes, antes de o meu delito passar para outra al√ßada.
           Por isso, se algum sofrimento causei √† minha m√£e, n√£o foi com a minha morte. Mas, hoje, mais de um ano depois, penso na grande probabilidade de ela poder ter ocorrido. Talvez nunca deixe de pensar. Se aquele grupo de homens e mulheres me tivesse incinerado, como do Dr. Fausto me levou acreditar, t√™-lo-ia merecido. Ditei por v√°rias vezes a senten√ßa: ‚Äúfoi-lhe muito bem feito‚ÄĚ, ‚Äú pobre de quem morreu‚ÄĚ, dizia quando ‚ÄúDomingos‚ÄĚ n√£o se encaixava no nome do incendi√°rio Telmo, sendo apenas o ‚Äúoutro‚ÄĚ na velha filosofia de que o mal nunca nos acontece a n√≥s. E talvez tivesse at√© sido prefer√≠vel. Se assim fosse, n√£o estaria agora nesta cadeia a gastar dinheiro ao estado com alimenta√ß√£o, roupa, tratamentos para a desintoxica√ß√£o e sess√Ķes de hipnose. Al√©m de que a minha fam√≠lia n√£o viveria no sofrimento de quem tem um parente na pris√£o. Que tem algu√©m preso passa a ter uma condena√ß√£o id√™ntica √† do detido. Talvez at√© maior. Quem est√° aqui, embora longe dos seus, tem encarcerado consigo pais, irm√£os, av√≥s. Em cada pensamento, em cada gesto reprimido, em cada ac√ß√£o que n√£o pode levar a cabo, nem um abra√ßo ou um beijo para matar saudades. Fora, no local onde o condenado fez por merecer a cadeia, toda a fam√≠lia passa a sofrer do seu estigma num est√ļpido c√≠rculo vicioso:
           -L√° vem fulano, o pai do assassino do fogo, a irm√£ do incendi√°rio. E por a√≠.
           A minha m√£e passeou a vir visitar-me quinze dias ap√≥s a preventiva. A cadeia era mais perto do que da primeira vez, em Viana do Castelo. Vinha sozinha e come√ßava a chorar mal que me via. Dava sempre a desculpa de que o meu pai n√£o ia com ela por n√£o suportar o ambiente da visita, nem imaginar um filho encarcerado, um assassino capaz de fazer o que fez, o que eu fiz. Mas que me mandava saudades.
           Os meus irm√£os apareciam de vez em quando. Sobretudo a Paula. Os rapazes n√£o deixavam de ir ter com as namoradas ao domingo, dia da visita mais institucionalizada, quando as pessoas est√£o livres das obriga√ß√Ķes laborais e estudantis como no caso deles. Os dois achavam que um irm√£o incendi√°rio era bem menos merecedor de uma visita, de um abra√ßo, do que uma namorada que os amava apesar do r√≥tulo que, a partir de mim, se lhes estendera √† testa como se tivessem sido eles a cometer os meus crimes.
           O meu pai n√£o arranjou nenhum advogado para me defender e a minha m√£e n√£o se atreveu a enfrent√°-lo. Por isso fiquei entregue aos oficiosos pagos pelo estado. Ele dizia que n√£o iria empenhar-se para facilitar a vida a um criminoso. Se havia advogados pagos, tanto melhor. Embora n√£o percebesse isso muito bem. Se o estado metia os criminosos na cadeia, n√£o tinha de ir por tr√°s, com a capa do Diabo, arranjar quem os defendesse e gastar dinheiro com eles, que pouco adiantaria. Que sempre ouvira dizer que ‚Äúpedir justi√ßa‚ÄĚ, como os advogados oficiosos habitualmente se limitavam a fazer, era a defesa mais honesta. Tanto para o criminoso como para a v√≠tima. Para ele, para o meu pai,  tratava-se de uma contradi√ß√£o demasiado cara para o bolso dos contribuintes. Al√©m de confundir. Era pagar o mal com bem. E, talvez por isso, hoje andasse tudo confuso. A ponto de haver criaturas √† face da terra a n√£o distinguir o mal do bem. N√£o havia fronteiras definidas entre uma coisa e outra como antigamente. E o mal arrecadava uma boa fatia de pr√©mios. Quase muito mais do que o bem. Se trabalhar fazia parte do exerc√≠cio do bem, n√£o era pr√©mio nenhum o que se ganhava por ele. Mas se quem n√£o fazia a ponta de um corno tinha direito a um rendimento m√≠nimo, isso era um pr√©mio para os madra√ßos. Entre outras coisas, dizia o meu pai, real√ßava a injusti√ßa praticada por um estado a fingir-se de Deus e promovia a indigna√ß√£o dos seguidores do bem. Al√©m de fomentar v√≠cios.
            Pela minha m√£e ficava a saber das not√≠cias da terra, Que Leandro, Catarina e os irm√£os exigiam uma indemniza√ß√£o que nem eles nem eu conseguir√≠amos pagar, Que S√≠lvia jurara nunca mais p√īr os p√©s naquela terra, Que os ciganos viviam, n√£o no corpo principal da casa assombrada, mas nuns anexos onde havia uma cozinha exterior, acrescentada pelos √ļltimos donos, os que haviam sido escorra√ßados de l√° pelos fantasmas depois da √ļltima remodela√ß√£o. Para o cavalo fora uma b√™n√ß√£o aquele imenso lameiro de ervas. Isso enquanto n√£o fosse encontrada outra solu√ß√£o. N√£o demorara grande tempo at√© voltarem de novo √†s feiras, com a carrinha de caixa aberta e os p√≥los, que, muito provavelmente, o fornecedor lhe fiara nas primeiras vezes depois do inc√™ndio. Talvez tamb√©m tivessem voltado ao tr√°fico, prosseguindo com a conta corrente iniciada logo no in√≠cio e que jamais saldariam. Quem trafica uma vez fica condenado a traficar toda a vida, nunca paga a hipoteca. Nem a pessoal nem a econ√≥mica, contra√≠das uma e outra ao p√īr, pela primeira vez, o p√© no mundo do crime. H√° certos r√≥tulos que nunca debotam completamente, por muito sol que apanhem.
           -Morreu fulano, e sicrano.
           A minha m√£e passou a ser o jornal regional que me trazia not√≠cias de um local aonde eu n√£o voltaria t√£o cedo. Estava ainda a cumprir preventiva e a rever, ainda pouco acomodado, os h√°bitos da pris√£o, meus velhos conhecidos por um epis√≥dio de fogo posto que, nem de perto, nem de longe, me rendera anos de pris√£o como os que me esperavam desta vez.

continua
« Última modificação: Setembro 08, 2020, 20:56:28 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #97 em: Agosto 23, 2020, 16:30:38 »

Nunca tinha pensado nessa questão da família encarcerada. Mas é mesmo isso!
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« Responder #98 em: Agosto 23, 2020, 22:32:38 »

√Č mesmo...

          Quando regressei dos mortos, j√° depois da senten√ßa definitiva, trazia bem viva na mem√≥ria o epis√≥dio dos estilha√ßos de vidro a correr atr√°s de mim e as vozes que vinham com eles a ati√ßar-me como se eu fosse um c√£o. N√£o me sa√≠a da cabe√ßa uma afirma√ß√£o:
           -Abel n√£o √© teu pai.
          Talvez fosse verdade, pensei quando recuperei da surpresa. Nunca ele me havia tratado como aos outros tr√™s. E n√£o era pela responsabilidade de eu ter nascido primeiro e ter tido o trabalho de desbravar o terreno desajeitado afectos e da sua demonstra√ß√£o, cerrado at√© a√≠ de mato virgem e com h√°bitos ancestrais de poucas manifesta√ß√Ķes. Era mesmo porque talvez se passasse qualquer coisa de sombrio com o meu nascimento, ocultado provavelmente de uma aldeia inteira. De contr√°rio, cruel como os dem√≥nios do Inferno, haveria sempre uma l√≠ngua de criancinha inconsequente a dizer-mo no meio de uma briga de rapazes:
           -O teu pai n√£o √© teu pai.
           Nenhum dos meus tr√™s irm√£os era ruivo, podia ser essa a minha pista.
           Um dia ouvira falar de uma bisav√≥ materna, ruiva como eu. Por isso sempre pensara na diferen√ßa entre os tr√™s como um desvio da gen√©tica, que resolvera cortar logo a seguir com a heran√ßa. Mas, ap√≥s a estranha viagem, num dos seus √ļltimos epis√≥dios, essa informa√ß√£o ganhou relevo sugerindo-me novas interroga√ß√Ķes.
          Foi por isso que, na vez seguinte, perante a surpresa dela, perguntei √† minha m√£e se a pessoa a quem sempre chamara pai o era mesmo. Nessa altura, j√° ele me visitara duas ou tr√™s vezes timidamente, suficientemente evasivo para eu ter uma brecha por onde entrar e levando logo um assunto t√£o melindroso entre m√£os. De qualquer modo, tamb√©m achava que, se havia algu√©m a ter de explicar alguma coisa, n√£o seria ele.
           Era verdade, afinal. Eu resultara de um curso per√≠odo de emigra√ß√£o em Espanha, Valladolid, quando n√£o havia trabalho no pa√≠s.
           Depois da revela√ß√£o, meio entalada nas l√°grimas, n√£o sabia se havia de agradecer a quem me perfilhara ou se o deveria odiar por n√£o me ter amado como aos outros tr√™s, ap√≥s o ‚Äúverdadeiro artista‚ÄĚ ter desertado da minha vida e da vida da minha m√£e ainda ela estava gr√°vida. Mas, agora, no meu estado actual, conhec√™-lo era algo fora das minhas mais imediatas inten√ß√Ķes.
           Em todo o caso, estava tudo justificado, sa√≠ra irrespons√°vel e da m√° ra√ßa do meu pai espanhol, o verdadeiro, afinal. J√° tinha com quem dividir culpas. Assim eu pudesse fazer com a pena.
           √Äs vezes penso se n√£o teria sido prefer√≠vel ter sido mesmo a v√≠tima da incinera√ß√£o encenada pelo Dr. Fausto para me tornar consciente dos meus actos. Morria o bicho, acabava-se a pe√ßonha. Dessa forma, teria evitado a condena√ß√£o de uma fam√≠lia inteira junto comigo, em cada pensamento, em cada jantar de festa, em cada Natal e P√°scoa, nos dias de anos em que eu n√£o irei estar presente quando ningu√©m, muito menos eu, pode sonhar com um futuro aceit√°vel para mim. Oito anos, no m√≠nimo, se o meu comportamento for exemplar, longe de tudo e dos lugares onde um dia fui feliz, apesar de tudo. N√£o sei se algo, ou algu√©m, vai poder fazer de mim alguma coisa de jeito. Talvez as sess√Ķes de hipnose do Dr. Fausto resultem e eu possa livrar os ossos de metade da pena. Mas e at√© l√°? O dia-a-dia passado entre uma comunidade de presos √© tudo menos risonho. H√° aqui de tudo. Homens que roubaram, mataram, violaram, uns que se identificam mais com outros pela afinidade dos crimes respons√°veis pela sua estadia na cela de uma penitenci√°ria. H√° c√≥digos de honra entre os presos, fazem-se, contudo, amigos que n√£o se ‚Äúchibar√£o‚ÄĚ uns aos outros em nenhuma circunst√Ęncia. A dureza da pris√£o fomenta a capacidade de guardar os mais terr√≠veis segredos. Fora as excep√ß√Ķes, claro. Mas de azul e risonho este mundo tem pouco. Cada um fala do que sabe e do que viveu. E, inevitavelmente, embora tamb√©m falem das namoradas que ficaram para tr√°s, √© o crime, os m√©todos, resultados e consequ√™ncias que acodem permanentemente √† nossa boca. A cadeia √©, sempre foi, a melhor escola para aperfei√ßoar antigos m√©todos e descobrir novos numa troca de experi√™ncias empobrecedora. Quem sai daqui sai geralmente vazio do que nos deveria preencher.
           Quando estou sozinho e me imagino l√° fora, frequentemente me lembro dos ideais de integra√ß√£o social de Fausto no Inferno da minha odisseia. E penso que s√≥ mesmo l√°, nesse mundo paralelo inventado por um hipnotizador, a reintegra√ß√£o √© vi√°vel. Pelo que talvez tenhamos mesmo de morrer para fazermos alguma coisa de socialmente √ļtil.
           A dra. Orlanda bem se esfor√ßa para nos mostrar um naco de ‚ÄúAlice no Pa√≠s das Maravilhas‚ÄĚ. Mas para a maioria de n√≥s n√£o adiantar√° muito. E nem sei mesmo se ela acredita mesmo na possibilidade de reintegra√ß√£o. A Orlanda e o Fausto do outro lado bem diziam que entre o Inferno de l√° e o de c√° a diferen√ßa n√£o era nenhuma. Ou melhor, que o verdadeiro √© aqui, entre homens e mulheres comuns, cheios de feridas a arreganhar de frustra√ß√£o, um dos grandes pilares das trevas.
           Quando, aos trinta e cinco anos, se sair a meio da pena por bom comportamento, puser o p√© extramuros com um saco de nada √†s costas, algu√©m ir√° dar trabalho a um ex recluso? N√£o, evidentemente. Condenado uma vez, condenado para sempre. N√£o h√° salva√ß√£o. A opini√£o p√ļblica √© a pior e mais cruel ju√≠za √† face da terra, o pior de todos os carrascos. Linchados por ela uma vez, n√£o h√° volta a dar. Ent√£o, se depois o linchamento for ratificado pela justi√ßa de um tribunal, tanto pior. Mas, n√£o tenho de me queixar. Tracei o meu mapa astral no dia da igni√ß√£o de um isqueiro no acampamento. N√£o foi nenhum astr√≥logo a desenhar, em papel A/4, a tinta-da-china, r√©gua e esquadro, a vontade das estrelas e dos planetas. Fui eu pr√≥prio. Ou talvez tenha sido somente a droga, ou os meus genes ruins. N√£o sei, e tamb√©m isso agora √© irrelevante.
          Da primeira vez que tive coragem de perguntar √† minha m√£e pela Marisa, a resposta foi conclusiva:
         -√Č melhor esquec√™-la.
          Fiz o mesmo √† Paula. As raparigas t√™m, de uma maneira geral, conhecimento sobre os assuntos amorosos das outras raparigas, recolhido no meio de desabafos comuns, quase sempre com a mesma causa: rapazes, ilus√Ķes e frustra√ß√Ķes. E, mesmo sendo irm√£s, as raparigas s√£o menos contidas a dar not√≠cias dolorosas do que as m√£es. Apesar de, depois de termos acabado, Paula e Marisa terem deixado de se dar por eu estar sempre de permeio. Mas talvez pudesse haver um cano furado por onde pudessem fugir alguns pingos do que me interessava saber. Talvez pudesse ter ainda alguma esperan√ßa. Quanto mais n√£o fosse, v√™-la sozinha a alimentar a minha ilus√£o de cavaleiro salvador para a tirar do seu castelo de solid√£o. Haviam sido mais de oito anos juntos, e eram as recorda√ß√Ķes de Marisa que mais infernais me tornavam a vida da pris√£o:
          Que j√° acabara o curso, Que estava a pensar em casar na Primavera, Que iria viver para Viseu. O Nelson tamb√©m j√° era veterin√°rio.
         -Pensa em arranjar outra pessoa ‚Äď disse a Paula.
         -Aqui?
         Tamb√©m na pris√£o se vivia de amor, que, fiel e obstinado, florescia intra e extra grades em suspiros, ais e saudades, que se matariam um dia num reencontro pleno da√≠ a alguns anos, se o sentimento resistisse. Sobretudo do lado de fora, onde todos os dias nasciam mil e um horizontes banhados pelo sol magn√Ęnimo, mas em permanente ex√≠lio no interior de qualquer cadeia.
          -Por que n√£o?
          -Se nem sequer podemos ter telem√≥vel, nem computador!...
          -Ainda h√° namoros em papel de carta. Quando a m√£e c√° voltar, mando-te uma revista onde poder√°s p√īr um an√ļncio para te corresponderes com uma rapariga. Faz de conta que √©s um soldado de outro tempo retido em √Āfrica e a precisar de uma madrinha de guerra.
          Assim fiz, j√° estava a cumprir a definitiva, a que me mandava submeter a sess√Ķes de hipnose para me resgatar ao mundo do crime, levando-me a sonhar com a reinser√ß√£o social t√£o apregoada pela dra. Orlanda.
          Obtive uma √ļnica resposta. √Ä descri√ß√£o de mim pr√≥prio como um rapaz ruivo, bonito de vinte e sete anos feitos, respondeu uma rapariga morena, que eu imaginei logo igual √† Marisa, embora o mais prov√°vel √© que fosse feia. Trabalhava numa f√°brica. O an√ļncio identificava-me como recluso. E quando vi a carta fiquei contente. Mas s√≥ vi na realidade uma. A Sara, se √© que era mesmo Sara, como aquelas pessoas que compram um c√£ozinho pequeno aos filhos e depois o abandonam na primeira ida de f√©rias, ou quando ele cresce, seguiu o primeiro impulso, arrependendo-se no segundo. N√£o voltou a escrever. E assim a tentativa para esquecer Marisa de vez, atrav√©s do p√™lo de outro c√£o, se desfez como fumo. O papel de carta ca√≠ra, definitivamente, em desuso.
          Muitas vezes dou comigo a lembrar-me de excertos do meu filme e da cadeia de acontecimentos de que estive na origem: o modo de vida do Jo√£o do Avi√°rio, que, a caminhar para velho, j√° n√£o tem coragem de recome√ßar, tanta madeira destru√≠da e tanto dinheiro incinerado com ela deixando montanhas e donos empobrecidos. Montes negros, desolados, sem esperan√ßa de se vestirem do verde de outrora nas pr√≥ximas d√©cadas. Paisagens tristes como se eu lhes tivesse roubado a alma. Talvez s√≥ se atrevam a sonhar com uma penugem rasteira que as vista durante um inverno chuvoso e uma primavera amena. O que durante um ano, at√© hoje, n√£o aconteceu. O ano foi seco, sobretudo at√© Fevereiro.
           At√© Fevereiro tamb√©m vi morrer her√≥is como os da √°gua da auto-estrada, o casal que, solid√°rio durante um grande inc√™ndio no mesmo dia do que ateei, deu de beber a milhares de automobilistas retidos no asfalto. Por essa altura, j√° estava transformado em vil√£o. Dizia-se √† boa pequena, ent√£o, por terem comprado a √°gua com dinheiro sujo e obtido atrav√©s de fraudes diversas. Sandra, a mulher com problemas de tir√≥ide, deve ter sofrido, com certeza, os ataques primaveris do p√≥len, sem nenhum incendi√°rio, desta vez, ter nada a ver com isso. E tamb√©m me lembro do primo, o Miguel quase a provocar um ataque de p√Ęnico na Ros√°rio quando, como uma galinha ensonada, o rapaz dormia de p√© em plena cerim√≥nia do casamento, antes do sim e ap√≥s a exaust√£o de dias a combater labaredas.
           Agora percebia bem o significado do ‚ÄúEfeito Borboleta‚ÄĚ, tantos acontecimentos ruins eu havia provocado. Tornara-me famoso, fizera parte das not√≠cias dos jornais e da televis√£o pelos piores motivos e com o r√≥tulo de ‚ÄúIncendi√°rio da aldeia do Eito‚ÄĚ.
√Č nestas alturas que me lembro do meu pai, quando ele falava em confus√£o entre o bem e o mal. O mal, geralmente, usa um disfarce bonito, apetitoso como a perdiz do meu primeiro jantar em casa do Diabo, ou as viagens descontra√≠das proporcionada por uma pitada da maldita farinha. Fausto apresentou-me o Inferno como um Para√≠so e depois cobrou-me pela insensatez. Pago por isso at√© hoje.
          A √ļltima not√≠cia da minha m√£e foi sobre a nossa vizinha Madalena. Depois de anos e anos sozinha, os filhos acabaram por p√ī-la num lar. Agora v√£o v√™-la tantas vezes como iam quando ela morava paredes meias connosco, poucas. E pensar nela provoca-me sempre um crescente remorso. Sempre me viu como um neto, mais uma coisa que n√£o soube ser, nem para ela, nem para a Av√≥ Martinha, sequer.
          Os ciganos, um ano depois, deixaram a casa assombrada para passarem a morar nuns contentores que haviam servido de extens√£o ao hospital da vila durante uma remodela√ß√£o do mesmo. Vivem entre a vila e a aldeia para ningu√©m se sentir incomodado.
           Agora t√™m √°gua e luz que a autarquia se encarregou de meter no contentor. Assim j√° podem ter um frigor√≠fico, um plasma e coisas do g√©nero. Talvez ainda vendam droga, mas est√£o em liberdade.
           Na segunda sess√£o, o Dr. Fausto utilizou a sua crueldade ao contr√°rio. Retirou todo o absurdo da realidade, que t√£o prodigamente introduziu na primeira, transformando-a numa coisa bonita. Inverteu-me o passado, p√īs-ma a vida a andar para tr√°s num novo filme, at√© ao dia em que me apaixonei por Marisa e ouvi as trombetas dos anjos no nosso primeiro beijo. Mas n√£o sei ainda se este contraste entre uma vida e a outra ser√° ben√©fico, agora que, em muitas ocasi√Ķes, com um livro entre m√£os que me habituei a ir buscar √† biblioteca da pris√£o, onde j√° tentei, sem sucesso encontrar ‚ÄúA Divina Com√©dia‚ÄĚ, dou comigo ausente a rever esta impossibilidade e a sentir uma infinita raiva de mim pr√≥prio por n√£o ter abra√ßado esta variante da hist√≥ria.
           Ent√£o, apetece-me morrer. E, de cada vez que, sess√£o ap√≥s sess√£o, regresso √† cadeia, se calha deparar-me com um novo detido, chegado durante a minha aus√™ncia, olho-o sempre como se ele fosse o homem que me regou com gasolina e me pegou fogo, na morte que tive antes da que um dia h√°-de vir.
            At√© l√°, oxal√° acabem de vez e de forma natural os incendi√°rios ‚Ķ



                                                                               FIM

« Última modificação: Outubro 16, 2020, 15:46:27 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #99 em: Setembro 05, 2020, 14:42:50 »

Os coment√°rios andam muito arredados, ultimamente, deste espa√ßo. Comentei algumas vezes este romance, mas merece um coment√°rio geral. At√© j√° era para o ter feito, n√£o fosse a maldita "preguicite". Ler uma hist√≥rias em "fasc√≠culos" neste tipo de suporte, n√£o √© a mesma coisa que a ler na totalidade e em papel. √Äs vezes, perde-se um pouco o fio √† meada. No entanto, sem um ou outro pormenor, e numa vis√£o de conjunto, concluo que estamos perante uma hist√≥ria bem contada e bem escrita, como √® apan√°gio da autora. O tema pode ou n√£o agradar, depende de gostos pessoais, mas aborda quest√Ķes pertinentes, como as depend√™ncias, a pobreza, as diferen√ßas sociais, os inc√™ndios/incendi√°rios, numa reflex√£o ao mesmo tempo realista e algo m√°gica.

√Č uma obra perfeita? Claro que n√£o. Parafraseando e adaptando um coment√°rio de um professor universit√°rio, a prop√≥sito da avalia√ß√£o de uma determinada tese de mestrado, "perfeito √© Deus, mas n√£o escreve romances".

Se n√£o tivesse outro valor, e tem, o facto de contribuir para a "anima√ß√£o" deste site, onde j√° muita pouca gente escreve, merece enc√≥mios. Basta ver o n√ļmero de leituras que atingiu, de acordo com a informa√ß√£o estat√≠stica. E merece uma leitura de quem goste de boas hist√≥rias, e que ainda n√£o o tenha lido. Com a vantagem de agora o poder ler de fio a pavio.

Por tudo o que fica escrito, e não só, os meus parabéns à Gabriela de Sá. Esperamos por mais.
beijinhos

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« Responder #100 em: Setembro 05, 2020, 20:13:52 »

Muito obrigada, Nação Valente. Eu não diria melhor. E essa de Deus não escrever romances é muito bom. De contrário, que seria de Lobo Antunes e Eça de Queiroz? :fixe:

Abraço
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« Responder #101 em: Setembro 12, 2020, 19:31:16 »

Respondo mais ao amigo Nação Valente do que a Gabriela. A ela já disse o que penso sobre isto.
Cada vez se comenta menos - sim, as pessoas preferem os gostos do facebook. N√£o l√™em, mas deixam um "gosto" que envaidece o autor. Este site √© s√©rio. N√£o deixa fazer isso. Se o leitor n√£o estiver tempo suficiente na p√°gina de leitura, n√£o conta sequer para o n√ļmero de leituras. Todos gostam de ser aqui comentados, mas de comentar n√£o. H√° quem "despeje" os seus textos e ignore os dos outros. Eu vou tentando comentar dentro da minha disponibilidade. Por quest√Ķes de sa√ļde, durante uns bons tempos tive que ficar arredada do ecr√£. Voltei, mas o meu tempo n√£o tem sido agora muito. Portanto, vou lendo o que posso e, muitas vezes, depois j√° n√£o d√° tempo para escrever um coment√°rio.
Quanto a escrever, as coisas andam como se vê. Os autores preferem escrever no facebook porque lhes dá maior visibilidade. Não sei se é verdade, mas até pode ser...
Por mim, a falta de tempo e disposição tem-me afastado da criação literária. São fases. Mas aquilo que escrevo também não suscita grandes comentários. Estamos iguais rsrsr. Vou pagando as despesas deste site pelo respeito que tenho por quem vem cá, ainda que raramente, e por mim que continuo a preferir os poucos leitores daqui.
Quanto ao romance em apreço, considero que valia uma publicação em livro. Mas isso já disse à Gabriela.


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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #102 em: Setembro 12, 2020, 20:58:03 »

Vou pensar no assunto...

Abraço
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« Responder #103 em: Setembro 14, 2020, 23:00:12 »

Resposta para a Goreti, uma vez que já me pronunciei sobre o romance da Gabriela. Escrevo neste site há muitos anos. Para mim foi muito importante, Se não existisse, possivelmente, não teria escrito o que escrevi. Só posso estar grato. Continuarei a escrever enquanto puder e me deixarem. Tive e ainda tenho um blog, mas nunca teve a mesma visibilidade. Este espaço tem sido pela sua diversidade de temas e autores, uma referência.

Embora também publique no facebook, prefiro publicar aqui. Estamos perante tipos de leitores diferentes, e mesmo que tenham diminuído, continuam a ser especiais. E tenho tentado trazer leitores que me seguem no facebook. Compreendo os que não comentam. Eu também podia comentar mais. Por outro lado, produzi textos que foram muito comentados, outros que não. Decerto todos gostamos de ser comentados, mas se não for, não me incomoda. O mais importante é ser lido. E se agora insisto nisso, é mais para poder publicar a "novela"de forma sequencial, já que no funcionamento do site isso não é permitido.

Gostaria de ver mais gente a escrever como j√° aconteceu. Mas alguns dos que escreviam t√™m-se afastado, e l√° ter√£o as suas raz√Ķes. O problema √© que n√£o t√™m entrado novos. Penso que o que aqui se escreve, n√£o √© valorizado no facebook.
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« Responder #104 em: Setembro 18, 2020, 14:05:13 »

Nação Valente: Tens razão. Este local é diferente, dá "trabalho". Como sabemos, as pessoas estão pouco leitoras, mas ainda menos comentadoras. Paciência. Quanto a isso, não posso fazer nada. Enquanto por cá andares, vou lendo e comentando, na medida do possível. Fica bem.
Gabriela: pensa l√° no assunto com carinho.
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Boa tarde!
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