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Autor Tópico: A gata dos Telhados VII  (Lida 637 vezes)
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Nação Valente
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outono


« em: Junho 06, 2020, 20:41:20 »

IV
‚ÄúVai l√° comer a tua ra√ß√£o e bico calado‚ÄĚdisse  JCorreia √† sua gata. Mas que √© isto? Agora o personagem al√©m de se armar em narrador, gasta o seu latim a filosofar com gatos . Que se limite ao seu papel de investigador policial e n√£o assuma tarefas que n√£o lhe est√£o destinadas. Faz-me lembrar o sapateiro que se arrogou o direito de apontar defeitos no joelho da escultura  do grego Apeles.
-Come a tua ra√ß√£o Judite, e segue a resposta do escultor Apeles ao sapateiro que o criticou : ‚Äúque n√£o suba o sapateiro acima da chinela‚ÄĚ. Mas que estas fotos me est√£o a intrigar est√£o. Vou descansar a cachim√≥nia e amanh√£ penso nisso.
O detective JCorreia, foi acordado pelo toque da campainha da porta. Olhou para o rel√≥gio da mesa-de-cabeceira, que registava nove horas e trinta minutos. Levantou-se e  foi a abrir a porta enrolado num pijama de sono.
-Bom dia detective, disse a secretária Rosalinda. Ainda em traje de mergulho? Desculpe se o acordei, mas costuma ser mais madrugador. Que aconteceu? Andou às gatas?
- √ď Rosalinda n√£o sei o que me aconteceu, parece que ainda estou dentro de um sonho. V√° pondo o expediente em ordem, enquanto tomo um duche e como uma bucha.
Rosalinda desceu at√© ao √°trio para retirar a correspond√™ncia da caixa do correio. Encontrou entre diversas cartas, um envelope castanho e volumoso. Regressou ao escrit√≥rio e sentou-se na sua secret√°ria de uma forma descontra√≠da. Quando JCorreia estava presente gostava de o provocar, trocando e destrocando as pernas, esticando a saia para as tapar. Percebia que o detective parecia despercebido, mas n√£o conseguia afastar os olhos de olhares furtivos. Rosalinda casara com o namorado que conhecera ainda na inf√Ęncia, e que depois de ser preso por roubo, arrepiara caminho, inventando-se como trabalhador honesto. Mourejava nas docas como estivador. O seu porte f√≠sico adaptava-se bem aquela fun√ß√£o.
A  vida de Rosalinda, fora igual h√° de tantas outras mulheres. Tratar da casa e do seu homem. Nas horas restantes continuava a vender flores na rua, tal e qual como fazia quando menininha,  as ofereceu ao jovem Joaquim Correia. N√£o se podia dizer que o marido a tratava mal, nem que a tratava bem. A vida em comum n√£o fugia √† rotina de um casal remediado. Ap√≥s um dia de trabalho jantavam, ela ficava a lavar a lou√ßa, enquanto o companheiro ia at√© √† taberna conversar com os amigos. Quando regressava j√° Rosalinda estava deitada. E quando o estivador lhe apetecia, como ele pr√≥prio dizia ‚Äúsaltava-lhe para cima‚ÄĚ.
JCorreia entrou no escritório e sentou-se na sua secretária, onde Rosalinda depositara a correspondência. Chamou-lhe a atenção o envelope castanho. Abriu-o e verificou que continha fotos e vários papéis. Numa curta missiva estava escrito numa letra bem desenhada:

Senhor detective,
Falei consigo ontem pelo telefone. Hoje, como prometido, envio-lhe material relacionado com a investiga√ß√£o quer quero que fa√ßa. Veja-o. Se me resolver esta  caso, para al√©m dos seus honor√°rios, dou-lhe um brinde extra. Sei que fez parte da brigada que investigou o chamado caso do ‚Äúestripador de Lisboa‚ÄĚ no fim dos anos setenta. O caso j√° prescreveu, mas eu possuo informa√ß√Ķes que lhe podem interessar, apesar da prescri√ß√£o. Um bom pol√≠cia nunca fica satisfeito quando falha uma investiga√ß√£o. Voltarei a dar instru√ß√Ķes.
Sua servidora, Gata dos Telhados


O detective olhou para Rosalinda e pareceu-lhe ver uma expressão de tristeza no rosto. Notou-lhe o corpo contraído, as pernas juntas, sem aquele movimento de abrir e fechar que fazia para se refrescar, mesmo quando não usava lingerie, o que era sempre. Numa segunda observação, ficou com a ideia que a secretária tinha a cara um pouco inchada.
-Que se passa Rosalinda? Acho-a um pouco estranha! Disse
-Impress√£o sua detective, estou bem.
Antes assim, mas continuo a ach√°-la esquisita, tal como esta carta que estive a ler de uma cliente n√£o identificada, que me traz √† mem√≥ria um caso em que participei e onde a PJ andou √† nora, sem encontrar provas, sobre o assass√≠nio de cinco prostitutas, em 1977 e 1978. Porque raio vem esta assunto √† baila trinta anos depois? A quem interessa desenterrar um crime prescrito? E porque quer meter ao barulho um pol√≠cia reformado, resignado a tratar de trai√ß√Ķes conjugais e div√≥rcios?
-Ainda bem que chegam casos novos. Nos √ļltimos tempos n√£o temos tido trabalho poa a√≠ al√©m. Decerto nada que escape ao seu faro policial que muito admiro. A prop√≥sito j√° observou as fotos que lhe trouxe ontem?
-J√° lhe dei uma vista de olhos, respondeu JCorreia, mas com mil dem√≥nios as fotos que acabei de tirar deste envelope parecem-me iguais, com um pormenor, a Rosalinda tamb√©m est√° dentro delas. Devo estar com alucina√ß√Ķes, ou ent√£o estou a ser v√≠tima do enredo de guionista perverso? Vou quebrar uma regra sagrada. Prepare-me um whisky com gelo.
(Continua)
« Última modificação: Junho 28, 2020, 19:04:08 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #1 em: Junho 08, 2020, 18:15:21 »

Vamos l√° ver como pode isso ser...
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« Responder #2 em: Junho 11, 2020, 17:46:43 »


V
Devo estar com alucina√ß√Ķes, ou ent√£o estou a ser v√≠tima do enredo de guionista perverso? Vou quebrar uma regra sagrada. Prepare-me um whisky com gelo.
-Às suas ordens detective, mas sinto-me na obrigação de o avisar que o seu fígado não vai ficar agradecido. Não se esqueça da cirrose.
-Agradeço a preocupação Rosalinda. A minha cirrose ficará grata. Será uma excepção. E sabe porque cheguei aqui? Foi por stress profissional. Quem está de fora não faz ideia do que é a vida de um investigador profissional. Muita pressão, muita dor de cabeça. Depois de um dia de trabalho, é preciso fazer uma pausa para esquecer. Ver um cadáver esventrado, por exemplo, não é fácil. Afinal somos humanos. Ou álcool ou xanax? Optei pelo primeiro. Qualquer deles dá cabo do fígado. Este caso da Gata dos Telhados está a deixar-me preocupado. Olhe, vou convidá-la para almoçar comigo, preciso desabafar. Há um restaurante simpático onde costumo ir. Alinha?
A taberna popular distinguia-se pelos grelhados com sabor a fumo. Existia desde 1970, quando o propriet√°rio deixou Mon√ß√£o e a profiss√£o de trolha, com a mulher, para se instalar em Lisboa como cozinheiro em constru√ß√£o. Tinha uma clientela de baixa condi√ß√£o social, atra√≠da pela razo√°vel qualidade da comida e pelos baixos pre√ßos. Os pr√≥prios clientes ajudavam no servi√ßo de mesas. D√©cadas passadas, a cidade tinha perdido a sua matriz desses tempos, refinara-se, tornara-se mais cosmopolita, mas a taberna popular manteve-se fiel √† sua originalidade.  JCorreia  e Rosalinda optaram por umas febras de porco preto grelhadas e acompanhadas do tradicional molho minhoto, segredo do cozinheiro improvisado. Um tinto de Mon√ß√£o acompanhou a refei√ß√£o e ajudou os dois comensais a animar-se, e a soltar a l√≠ngua para assuntos mais pessoais.

-Este novo caso est√° a causar-me alguma preocupa√ß√£o, mas o que me preocupa mais √© a Rosalinda. E quis vir aqui para falarmos fora do ambiente do trabalho, e porque me  ajuda a reencontrar-me com um lugar e um tempo em que fui feliz. Era jovem, despreocupado, vivia cada dia com a esperan√ßa ing√©nua que o seguinte seria melhor. Foi aqui que almocei no dia em que fui preso pela DGS, nome da  PIDE marcelista ,e  do salazarismo tardio.
 
Est√°vamos em 1973, ano que houve elei√ß√Ķes legislativas para a Assembleia Nacional, e em que num simulacro de democracia foi permitido que os opositores ao regime concorrerem. Comunistas, socialistas, democratas sem filia√ß√£o, juntaram-se na CDE. Quis dar a minha contribui√ß√£o, e comecei a aparecer na sede de campanha na avenida Almirante Reis. Davam-me pequenas tarefas como distribuir propaganda. Um dia fomos entregar panfletos para a pra√ßa da Figueira, um grupo onde estava o poeta Ari dos Santos . A√≠ apareceu a pol√≠cia pol√≠tica e levou-nos para a sua sede com o poeta a gritar ‚Äúlevam-me preso, fascistas‚ÄĚ
Fui interrogado pelo agente Cruz Carrasco que queria √† viva for√ßa que lhe desse informa√ß√Ķes sobre dirigentes comunistas. E por mais que lhe dissesse que n√£o tinha qualquer liga√ß√£o a esse partido n√£o desarmava. Chegou ao ponto em que perdi as estribeiras e disse ao agente,

“sou apenas um democrata que quer o seu país livre de uma opressão, que tem que terminar"

Digamos que esta afirmação obrigou o agente Carrasco a perder a compostura, e a dar-me um tabefe que me fechou um olho por uns dias. Olhou-me com ar raivoso e disse-me,

‚ÄúCala a boca Che Guevara de pacotilha,(talvez por eu usar barba crescida) quem livrou a p√°tria da bagun√ßa em que vivia foi o senhor doutor Oliveira Salazar, grande estadista e patriota‚ÄĚ

Depois disse-me que ia passar a noite naquele lugar para aclarar as ideias. Mandou-me levantar e colocar-me de p√© √† sua frente. Tive assim algumas horas. Quando o cansa√ßo me vencia e procurava fechar os olhos era de novo agredido. Chamava-se tortura do sono. 
A meio da noite o agente Carrasco foi substituído por outro polícia. Quando entrou ,reconheci-o.
‚ÄúPorra o mundo sendo grande √© pequeno‚ÄĚ foi o que pensei.
Era o √ďscar, meu conterr√Ęneo e companheiro de escola, embora fosse um pouco mais novo. H√° muitos anos que n√£o o via. Era na altura agente estagi√°rio. Tamb√©m me reconheceu, apesar do olho negro, porque me olhou, enquanto dizia:

‚Äú√ď Quim porque raio √© que est√°s aqui? Em que merda te meteste. Nunca te imaginei nestes assados. Sempre t√£o choninhas, t√£o bem comportado‚ÄĚ

Virou-se para o seu companheiro e explicou que punha por mim as m√£os no fogo, que me conhecia e √† minha fam√≠lia desde a inf√Ęncia, e que √©ramos pessoas de confian√ßa, fi√©is aos interesses da Na√ß√£o. Acrescentou que os meus pais eram pequenos propriet√°rios rurais, e que como todos os outros receavam que o comunismo lhe tirasse as poucas terras. E lembrou que fui combatente contra os turras na Guin√©.
 
‚Äúpode deixar sair o rapaz, n√£o faz mal a uma mosca e garanto que n√£o tem nada a ver com comunas‚ÄĚ

-E foi gra√ßas ao √ďscar, sobre quem constava na aldeia, que j√° havia feito den√ļncias locais,  que sa√≠ dali sem mais mazelas. A campanha continuou at√© ao acto eleitoral, mas a oposi√ß√£o desistiu de ir a votos, porque sabia que seria manipulado. Apenas usou esse per√≠odo para denunciar a natureza do regime que cairia no ano seguinte.

-Nunca me interessei por política detective. A minha vida sempre foi o trabalho. Nem me lembro de ter feito mais nada. Desde pequena que vivi com a minha mãe na Madragoa. Não sei quem é o meu pai. Fui registada com pai incógnito.
A minha hist√≥ria √© daquelas que dava uma novela a puxar ao choradinho. Olhe come√ßou pela minha av√≥, abandonado pelo marido por estar amancebada com o √°lcool. O meu av√ī que era Guarda Republicano juntou-se com outra mulher para refazer a vida e mais tarde voltou  √† sua aldeia na serra algarvia. A minha av√≥ morreu cedo e a minha m√£e ficou sozinha, come√ßando a trabalhar como criada de servir, muito jovem. Teve um namorado que se serviu dela e quando soube que estava prenha, deixou-a √† sua sorte. Nunca me disse, mas n√£o me custa acreditar que tivesse tamb√©m sido abusada pelo patr√£o, que vivia na zona da Lapa.

Com uma crian√ßa nos bra√ßos alugou um quarto, e come√ßou a trabalhar como costureira numa pequena f√°brica de camisas, e ainda costurava em casa para as pessoas da vizinhan√ßa, quando os bairros eram como aldeias. Como v√™ n√£o √© na cidade que est√£o as minhas origens. A minha m√£e contou-me que quando era crian√ßa de ber√ßo tive tosse convulsa e que o m√©dico a aconselhou a levar-me para um s√≠tio com ares campestres. Lembrou-se da aldeia dos seus pais e escreveu a uma prima com quem mantinha contacto, que se disp√īs a receber-nos. Durante essa estada ainda ousou ir visitar o pai, com nova fam√≠lia, apresentando-se como a filha Deolinda, mas que a escorra√ßou com as palavras ‚Äún√£o tenho nenhuma filha Deolinda‚ÄĚ.

O detective JCorreia ouviu em sil√™ncio aquela hist√≥ria, e no fim veio-lhe √† lembran√ßa  que a conhecia. Recordou-se de a sua m√£e ter recebido uma prima com um beb√©, e de os ter alojado durante um tempo. Nessa altura teria talvez dez a doze anos. Tinha ainda num recanto da mem√≥ria a m√£e, e a filha deitada numa alcofa,  a deslocarem-se para uma zona onde havia uns pinheiros bravos, para combater a doen√ßa da crian√ßa. Afinal a  secret√°ria ainda era sua parente.
‚Äúo mundo √© mesmo pequeno‚ÄĚ, pensou JCorreia com os seus bot√Ķes. (continua)

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« Responder #3 em: Junho 12, 2020, 12:22:33 »

Pequeno? Pequenissimo! O mundo é mesmo um grão de ervilha...

Abraço
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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« Responder #4 em: Junho 12, 2020, 15:42:01 »

T√£o pequeno como um bot√£o e redondo...
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outono


« Responder #5 em: Junho 16, 2020, 20:48:23 »

Gata dos telhados VI,
-O mundo √© mesmo pequeno. O mundo √© mesmo um gr√£o de ervilha‚Ķt√£o pequeno como um bot√£o redondo, em express√Ķes de sabedoria popular. Decerto que para ti Judite, √© tamanho dos teus desejos. N√£o sei de onde vieste, nem porque me procuraste. Uma coisa te digo, sem saber se entendes, cheiras-me a pol√≠cia. Acredito que n√£o est√°s aqui apenas por acaso. Um dia hei-de descobrir, n√£o me chame Joaquim Correia. Tal como descobri ontem que a nossa secret√°ria pertence ao meu tronco familiar. Como soube? O que tem que se saber acabar√° por se saber. Como por exemplo, porque raio Rosalinda, tamb√©m uma gata, n√£o desfazendo, tem andado com ar acabrunhado. Desconfio do Arm√©nio, o marido, estivador ou pedreiro, tanto faz. Parece-me que a rela√ß√£o deles n√£o prima pela harmonia. Estranho hoje ainda n√£o ter aparecido. √Č muito pontual. Ainda est√°s a ouvir-me? Bah, desconfio que est√°s nas asas de Morfeu. Tens raz√£o. Conversa mole serve para adormecer gato. Quando acordares voltas a levar comigo. N√£o tenho muita gente com que falar.

Trriiiim…
JCorreia, detective. Em que posso ajudar?
-Pode ajudar Rosalinda.
-O que lhe aconteceu?
-At√© ver nada, mas depende de si. Ou√ßa sem fazer perguntas. A sua secret√°ria est√° em boas m√£os, como as armas desaparecidas no PREC. Lembra-se? N√£o quer que a sua secret√°ria desapare√ßa, certo? Siga as instru√ß√Ķes que lhe vamos dar por telem√≥vel.

Ao descer para o Rossio para onde o mandaram dirigir-se JCorreia teve a sensa√ß√£o que estava a ser seguido. Cumpriu √† risca as instru√ß√Ķes recebidas. N√£o podia estar armado, n√£o podia dar conhecimento a mais ningu√©m, e devia seguir o roteiro que lhe tra√ßaram sem desvios. Nos Restauradores recebeu ordem para apanhar o metro e sair na esta√ß√£o dos Anjos. Na plataforma da esta√ß√£o soube que tinha que entrar na igreja e dirigir-se ao confession√°rio para confessar os seus pecados, dos quais dependia ou n√£o a absolvi√ß√£o. Na sua vida de pol√≠cia nunca tinha estado numa situa√ß√£o semelhante. Sentia-se num jogo de gato e de rato, no qual desempenhava o papel do rato.  Junto √† porta um pedinte estendeu-lhe a m√£o ‚Äútenho fome‚ÄĚ.  Desviou o olhar para a fachada neo-cl√°ssica. A igreja de 1908, substituiu a que existia desde o s√©culo XVII, demolida para construir a actual avenida da Rep√ļblica. No interior onde se manteve o estilo barroco da igreja anterior o sil√™ncio era ensurdecedor.  Na semiobscuridade  Correia dirigiu-se ao confession√°rio. Ajoelhou como determinada. Na semiobscuridade dirigiu-se ao confession√°rio. Ajoelhou como determinado.
-Que se passa filho? Nesta fase da vida deste em pecador?
-Deixe-se de ironias e diga o que pretende? Onde est√° Rosalinda?
-Saber√°s ou n√£o na altura pr√≥pria avozinho. Depende de ti. N√£o est√°s em condi√ß√£o de exigir, mas de obedecer. Queres salvar a Rosalinda ou n√£o? √Č f√°cil. Deita para o lixo esse caso da Gata dos Telhados. Dedica-te √† tua gata Judite. J√° n√£o tens idade para estas cavalgadas. Vou p√īr-te em contacto com a secret√°ria, at√© ver.
“está Rosalinda, que diabo se passa? Fui atacada ao sair de casa metida num carro e vendada. Não sei onde estou, nem o que querem? Agrediram-na? Não. Ouça, eles querem que abandone o caso da gata dos telhados. Se fizer isso, desilude-me. Tem que ser, é a sua vida que está em perigo. “
-Vai ficar connosco até cumprires o que exigimos.
-O que posso fazer? Ainda não investiguei nada, nem podia. Não sei quem pede a investigação, nem o que quer que investigue. Apenas me coloca enigmas. Como quer que abandone o que não comecei?
Ir√°s receber mais instru√ß√Ķes. Quando isso acontecer, d√° um rotundo n√£o, ou voltas a ver a Rosalinda por um canudo. Percebeste velhinho? Dedica-te aos casos passionais j√° que n√£o queres cal√ßar as pantufas, nem ir para o jardim jogar √† sueca.
Cal√ßar as pantufas Judite, v√™ bem. Esses filhos da puta n√£o sabem com quem se metem. Nunca fui tipo de viol√™ncias. Na minha vida de pol√≠cia, posso ter dado um ou outro safan√£o me nalgum acusado, mas nunca arranquei confiss√Ķes pela for√ßa. Enganam-se se pensam que me amedrontam. Estive na guerra colonial, dois anos no mato, ouviste, dois anos. Calor, mosquitos, mal√°ria turras como diz√≠amos, tiros, minas, e sobrevivi. Fui um her√≥i? N√£o. Tive sorte, ao contr√°rio de outros. Tantas vidas ceifadas pela gadanha da morte para qu√™?
 O que ser√° agora? Quem estar√° a bater √† porta? J√° vou. Porra Judite, nem para porteira serves?
O homem que estava do lado de fora, parecia n√£o poder entrar, pelas suas dimens√Ķes. Alto, herc√ļleo, com barba mal aparada, um bigode farfalhudo, um ar de mal-encarado.
-Boa noite. Sou o Arménio o homem da Rosalinda. Desde de manhã que não aparece..
-Entre e sente-se, que j√° lhe explico.
-Diga o que tem a dizer sem floreados.
-Não entrou hoje ao serviço, e fui informado que foi raptada. Acalme-se, estou a tratar do assunto, vai tudo correr bem.
-Mas onde é que essa galdéria se meteu. Estou farto de lhe dizer que esteja sossegada e que trate da casa, ainda ganho para a sustentar. Não me ouve. Quer andar a brincar aos polícias. Tenho que lhe partir os cornos a sério.
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« Responder #6 em: Junho 20, 2020, 15:01:48 »

Violência doméstica em todo o lado. Até em investigador(a)es. Que raio.
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« Responder #7 em: Junho 28, 2020, 15:38:49 »

Como diz o "outro": caramba!
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« Responder #8 em: Junho 28, 2020, 19:19:47 »

VII

Mas onde é que essa galdéria se meteu. Estou farto de lhe dizer que esteja sossegada e que trate da casa, ainda ganho para a sustentar. Não me ouve. Quer andar a brincar aos polícias. Tenho que lhe partir os cornos a sério.

O detective JCorreia percebeu que Rosalinda era v√≠tima de viol√™ncia dom√©stica, como desconfiava. A maior parte das v√≠timas por raz√Ķes diversas, acomodam-se √† situa√ß√£o. No intimo sentiu vontade de desancar aquele gigante com cheiro a docas, mas manteve-se, aparentemente sereno.
-Senhor Arménio, estou em contacto com os raptores. Cedi às suas exigências, mas não posso dizer mais nada. Volte para casa. Logo que tenha notícias aviso-o.

O estivador saiu a resmungar. JCorreia respirou fundo. Olhou para Judite que esperava pela refei√ß√£o. Deixou-se invadir por uma ang√ļstia inexplic√°vel. N√£o a sentia h√° mais de quarenta anos, quando cumpria servi√ßo militar obrigat√≥rio na Guin√© portuguesa.
-Judite, estamos metidos numa alhada. Um caso que antes de ser caso, j√° tem uma v√≠tima. Um estranho caso de um marido desaparecido. O caso do ‚Äúesfaqueador‚ÄĚ para baralhar. Nem no tempo do activo estive numa situa√ß√£o parecida. Como vamos sair disto? N√£o sei. Estou convencido que sairemos, como sa√≠ de situa√ß√Ķes bem complicadas na guerra colonial.

O Furriel miliciano Joaquim Correia embarcou para a Guin√©, em comiss√£o de servi√ßo em 1969. Desembarcou em Bissau com a sua companhia de Ca√ßadores e a primeira sensa√ß√£o que teve ao pisar o cais foi de claustrofobia. O calor h√ļmido roubava-lhe o ar que precisava para respirar. A ele a todos os ‚Äúbravos‚ÄĚ que durante cerca de seis meses tinham sido mentalizados para defender a p√°tria, dos malvados ‚Äúturras‚ÄĚ, ao servi√ßo do comunismo. A p√°tria tem de se defender, est√° acima de tudo, at√© da pr√≥pria vida. Assim o exigia a nossa hist√≥ria gloriosa. Quem n√£o o fizesse n√£o a merecia.
-Sobrevivi ao clima e √† guerra, Judite. Um dia atr√°s de outro dia. Uma hora atr√°s de outra hora. A morte dormia √† nossa cabeceira. Depois de desembarcar em Bissau meteram-nos numa lancha com destino a Lime, no interior. Quando sub√≠amos um rio chamado Gaba pude ver a vida que me esperava durante dois anos, se os cumprisse.. Ao passarmos por s√≠tios onde a mata era t√£o densa que parecia engolir o rio, armas vomitavam fogo para o arvoredo para prevenir eventuais ataques do inimigo. Aquela melodia dantesca n√£o tinha nenhuma compara√ß√£o com o ru√≠do suave das ‚Äúguitarras‚ÄĚ que aprendemos a tocar na instru√ß√£o. Depressa percebi que a verdadeira instru√ß√£o ainda n√£o come√ßara.

Do local do desembarque desloc√°mo-nos a p√© at√© ao aquartelamento. Foi a amostra do que ia ser o nosso dia a dia, ou noite a noite. Estava quase a escurecer. Num espa√ßo curto vi o que era uma picada, e senti na pele a quentura da √°gua de um campo alagado que nos cobriu at√© √° cintura. O ambiente tornou-se mais irrespir√°vel. Por fim avist√°mos uns barrac√Ķes degradados. Pareceu-me que ia para um hotel de cinco estrelas. Tal era o cansa√ßo provocado por aquela viagem. S√≥ queria um lugar para descansar o esqueleto.
 -Consegues imaginar Judite? Nem tu, nem quem nunca l√° esteve. Para mais √©s gato. Que sabes de guerras. As guerras  da tua esp√©cie n√£o passam de escaramu√ßas. N√£o fabricas instrumentos para matar e conseguir mais, sempre mais. Essa √© uma caracter√≠stica dos humanos chamados racionais. Vou dar-te a tua refei√ß√£o. Merece-la pela paci√™ncia em me ouvires. Quem quer saber da brutalidade da guerra? Por mais realistas que sejam as descri√ß√Ķes nunca s√£o o que vemos nos nos filmes.

JCorreia olhava insistentemente para o telefone. Esperava o mais desejado telefonema da sua vida. Esperava a chamada de uma outra gata que se apresentava como a gata dos telhados. Procurou libertar-se do que se estava a tornar uma obsessão. Concentrou-se nas fotos tiradas pela Rosalinda, e nas enviadas pela misteriosa cliente. Eram muito idênticas. Mostravam as mesmas cenas, o percurso da cliente do marido desaparecido. O enquadramento marcava as diferenças. A conclusão estava ao alcance de qualquer investigador principiante. Rosalinda fora seguida e fotografada. O caçador também estava a ser caçado.

Um barulho interrompeu o sil√™ncio da madrugada e o sono tardio do detective Correia. Um metralhar repentino interrompeu o sono pesado e inicial do furriel Correia. O aquartelamento onde tinha chegado √† cerca de uma semana, estava a ser atacado pelo inimigo. Numa opera√ß√£o surpresa, feita na passagem de testemunho entre a Companhia que acabara a comiss√£o e a que a ia render, os atacantes conseguiram ultrapassar a rede de arame farpado e entrar no quartel. Saiu da caserna e aproximou-se do soldado que com uma metralhadora procurava parar o ataque. Quando chegou ao local, esse militar foi atingido e morto. Correia tomou o seu lugar e come√ßou a disparar em direc√ß√£o aos invasores. Foi o seu baptismo de fogo. Para o companheiro abatido, era a sua √ļltima noite na guerra, antes de regresso.
Para o detective este acontecimento era um pesadelo recorrente. Foi interrompido pelo som de um objecto que entrara pela vidraça da janela. Levantou-se e dirigiu-se à sala que lhe servia de gabinete. No chão estava um pequeno tubo de metal. Por entre os vidros partidos, apanhou-o. Do seu interior tirou um rolo de papel. Desdobrou-o e leu a mensagem.

N√£o ceda √† chantagem. O caso que lhe entreguei √© muito importante. Vou ajud√°-lo a salvar a sua secret√°ria. Encontra-se num velho armaz√©m em Alc√Ęntara, transformado em dormit√≥rio de gente sem casa. √Č gerido por um propriet√°rio de uma pens√£o em Santa Apol√≥nia, mas que √© apenas um testa de ferro. Os utilizadores s√≥ podem entrar a partir das 20 horas. At√© l√° tem um vigilante na entrada. Vista roupas apropriadas e apresente-se como um novo inquilino, chamado Sebasti√£o, antes da hora de abertura e conven√ßa o seguran√ßa que precisa de entrar mais cedo. N√£o se desloque no seu carro. Rosalinda est√° fechada no antigo escrit√≥rio. Fa√ßa o plano para a resgatar.
         Gata dos telhados

-Caramba, pensou JCorreia. J√° n√£o tenho idade para ac√ß√Ķes de risco elevado, e associadas  a cenas que acontecem nos romances. N√£o sou nenhum Pepe Carvalho das hist√≥rias do Montalb√°n.

Continua
« Última modificação: Junho 29, 2020, 17:59:28 por Na√ß√£o Valente » Registado
Maria Gabriela de S√°
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« Responder #9 em: Julho 11, 2020, 21:37:07 »

E afinal já tinha lido... Não sei por que não abri a porta... Abraço
« Última modificação: Julho 12, 2020, 18:07:19 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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Bom dia para todos!
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Ol√° para todos!
Março 19, 2020, 22:59:05
Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
Janeiro 29, 2020, 20:06:36
Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
Janeiro 10, 2020, 14:03:15
Boa tarde a todos
Janeiro 06, 2020, 14:46:26
Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
Dezembro 02, 2019, 21:57:04
Boa noite feliz para todos.
Dezembro 01, 2019, 19:51:29
Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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