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Autor Tópico: Há muitas Marias na Terra  (Lida 198 vezes)
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Maria Gabriela de Sá
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« em: Junho 13, 2020, 02:15:44 »


          No tempo em que nasci, mal as crianças do sexo feminino saíam do útero da mãe, tinham à partida à aguardá-las, a maioria delas, um nome composto por duas palavras cuja primeira era invariavelmente “ Maria”. Maria Antónia, Maria Armanda, Maria Adelina, Berta, Clara, Dolores…e por aí adiante.

          Desde que o mundo é mundo, precisamos todos de um nome por que possamos ser chamados e a quem imputar direitos e deveres diversos.

          No livro das nomenclaturas permitidas cá pelo burgo, ontem como hoje, há mil e um nomes possíveis para ninguém ficar inominado, imune a responsabilidades e suas contrapartidas. Muitos nomes, mesmo. A começar por qualquer uma das vinte e três letras do abecedário – agora vinte e seis, embora as últimas acrescentadas não tenham grande utilidade – Tanto para meninos como para meninas.

          Nem todos nomes são de bom gosto. Mas, essas questões, os pais serão com certeza capazes de as matar logo à nascença a golpes de bom senso. Nenhuma pessoa do sexo feminino, feia que seja, gostaria, logo na infância, de ser interpelada na rua pelo nome se este for Capitolina ou Gumercinda.
          Capitolina e Gumercinda, dois bons exemplos na onomástica nacional que os pais não deviam seguir. Sob pena de, mais dia, menos dia, serem odiados pelas filhas e filhos, quando uns e outros compreenderem a dimensão do estrago nas suas vidas só por causa de um nome.

          Não sei de onde surgiu a tendência, moda, sei lá, da atribuição de nomes às raparigas compostos por duas palavras como aquela de que estou falar. Não faço ideia se, a meio do século XX, o hábito de chamar Maria Qualquer Coisa às miúdas era uma cópia vaidosa da graça das nossas rainhas Marias, ou se não passava de uma tentativa de apelar à sorte para as filhas alcançarem um estatuto semelhante ao das monarcas e terem os mesmos privilégios de riqueza. Talvez não fosse nem uma coisa em outra. Até por a memória das duas mulheres ter chegado ao comum dos mortais sem as suas múltiplas designações. Raras são as pessoas conhecedoras dos nomes próprios que as duas tinham atrás (ou à frente) de Maria, como se fosse um séquito de súbditos. Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança é lembrada, simplesmente, como Dona Maria I. Sem mais, só para exemplificar com uma rainha e economizar, ao mesmo tempo, fôlego e saliva. O que toda a gente saberá é que se trata de “A Rainha Louca”. A desgraça e os podres de alguém são sempre a melhor forma de a posteridade não se esquecer de nós.

          Fazendo eu parte de um sem número de mulheres a quem calhou ter dois nomes próprios, sendo um deles Maria, já demasiadas vezes me interroguei se Nossa Senhora de Fátima, com o culto consolidado junto do povo no ano do meu nascimento, teve ou não alguma influência no caso.
          Bem vistas as coisas, não acredito. Afinal, os meus progenitores não eram devotos dos santos, dos anjos ou de Deus. Muito menos de padres, e raramente iam à igreja. A não ser em baptizados e bodas, quando eram convidados. Ou em dias de funeral, já que nestas circunstâncias não é preciso convite. O meu pai, no dia do casamento, por uma questão de coerência consigo próprio nas questões religiosas, teve a honestidade de recusar a confissão e a hóstia na hora do sim. A justificação que deu ao padre  foi a de que não acreditava na transcendência, e que estava ali a cuidar de um pró-forma destinado a calar as bocas do mundo, geralmente muito pouco meigas com mulheres como a sua Amélia, grávida de alguns meses do primeiro filho de ambos. Curiosamente, talvez num golpe de rebelião da minha avó, a minha mãe não se chamava Maria. E se alguém, as beatas dali ou dacolá – sempre as houve em todo o lado – teve alguma vez a fanática esperança de que o sacerdote se recusasse a celebrar a cerimónia, engoliu a desilusão em silêncio, sem se atrever a questionar a decisão da autoridade sacerdotal.
          Depois de tudo, o meu pai saiu reforçado nas suas convicções:
         -Gosto do seu ideal – dissera-lhe então o padre.

          Seja como for, acabei por me transformar em Maria Qualquer Coisa, como muitas outras Marias minhas colegas de escola, cujos pais tiveram, apesar de tudo, sempre o cuidado de evitar nomes repetidos, para não provocar confusões junto da mestra. E, assim, Maria é o meu primeiro nome. Na verdade um apêndice que, à semelhança do apêndice do corpo humano, não serve para nada, ou talvez só para se inflamar de vez em quando. É o que dizem os médicos. No fim de contas, o Maria nunca me serviu mesmo de muito, e penso que à maioria das Marias Qualquer Coisa terá sucedido algo semelhante. Ao longo da vida, raramente fui interpelada por Maria Gabriela fosse para o que fosse. Quando muito, à entrada na escola, em dias mais pomposos em que era necessário fazer a chamada, num exame, numa escritura antes da identificação, quando tanto eu como o meu nome completo éramos imprescindíveis.
          De resto, o Maria era como se não existisse, uma coisa inútil de que até os meus pais se esqueciam, questionando-se talvez por que mo haviam posto. Pode ser que fosse pela madrinha, mais uma Maria da geração anterior, mas não tenho a certeza de nada.

          Já "Maria Gabriela" era eu, sempre que fazia asneiras e precisava de ser repreendida com algum ênfase. Em boa verdade, toda a gente me fazia o mesmo. À excepção da repreensão, exclusiva do lar paterno: ignorava o Maria e chamava-me simplesmente Gabriela.

          Ã€s vezes havia um desvio à regra, e, quando alguém me interpelava por Maria Gabriela, era por uma questão de respeito, quase o reconhecimento de um certo estatuto, ou de um estilo próprio. Eu que nunca fui uma Maria-vai-com-as-outras… No lugar onde desenrolou a minha infância, havia, como em qualquer outro lado, algumas “Simplesmente Marias”. Contudo, quando alguém se referia a uma ou a outra, tinha invariavelmente de chamar à colação o sobrenome familiar. Ou a bendita alcunha: Maria Puxa, Maria Bulela, Maria Lima, Maria do Eugénio, sendo “Eugénio “o marido da Maria em questão. Ou, finalmente, fazia-se sucinta referência ao lugar onde a tal Maria morasse, como seja o caso de uma Maria da Fonte anónima que morasse à beira de um fontanário, ou da que empreendeu a revolta popular na Póvoa de Lanhoso no século XIX .

          Por causa de tanta indistinção a que, à partida, se prestavam todas as Marias, talvez, numa espécie de premonição, dei comigo a embirrar demasiadas vezes com o nome que constava no meu acento de nascimento. Numa certa ocasião, “ameacei” até a minha mãe de arrancar de mim o Maria e acabar com mais uma na Terra. Ou, então, no mínimo, inverter a ordem da minha graça para Gabriela Maria, dar maior ênfase ao Gabriela e alguma importância ao Maria. Além de matar a tentação de alguém, numa ridícula economia de palavras, me tratar só pelo primeiro e último nome, como se o meu nome inteiro fosse do tamanho do das nossas rainhas. Já agora, a segunda chamava-se Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança.

          Foi, pois, num contexto favorável à implantação do meu segundo nome, que uma aldeia em peso ajudou a consolidar-me como gente na pele de Gabriela. Gabriela é, sempre foi, a minha pele mais verdadeira, a única por que me reconheço em qualquer parte. O que, bem vistas as coisas, foi ao contrário das nossas rainhas, de quem só o Maria se tornou verdadeiramente relevante para a História.

          E por que me lembrei hoje de tudo isto? Porque, se rainhas de Portugal só houve duas, além de tudo a quem bastava individualizar por uma curta ordem entre a primeira e a segunda, as outras Marias da Terra são aos milhares. Razão pela qual sempre necessitaram, ao longo da sua história, de qualquer coisa que as distinguisse melhor, antes do apelido de família. E esse quê de distintivo só pode ser o segundo nome, sendo que eu sou GABRIELA. Ou, então, que me chamem os dois nomes na mesma assentada!

          Não é isso que acontece hoje em dia. Sobretudo nas empresas, entidades que nos devem mais respeito e de quem o devemos exigir por sermos delas clientes. Que Maria da Terra não se confrontou, ainda, com um telefonema em que alguém lhe pergunta “Boa tarde, daqui fala de X, da empresa Y. estou a falar com a Dona Maria Sá?… Maria Santos, Maria Ataíde…”

          Esta forma de contactar com as Marias portuguesas não passa, a meu ver, de uma moda irracional e sem atender às características da onomástica nacional. Foi, com certeza, importada de um país onde o ditado “Há Muitas Marias na Terra” não fará qualquer sentido. Aí, provavelmente, as Marias serão apenas Marias, que se reconhecem bem por esse nome, não tendo talvez outro atrelado a ele. Além de serem, certamente, bem menos do que em Portugal, que se deixou invadir por elas ao registar milhares de Marias Qualquer Coisa durante pelo menos um século. Até chegarem as telenovelas brasileiras, libertando as raparigas da epidemia a que estariam provavelmente condenadas pela tradição.

          Ã‰ por tudo isto que um dia destes, num dos meus extremismos de espírito, ao ser de novo interpelada por alguém como Maria Sá, dei comigo a corrigir a criatura, obrigando-a a reformular o tratamento para Gabriela Sá. Fui, até, mais longe. Chamei estúpida à moda de amputarem, às mulheres portuguesas Marias Qualquer Coisa, o nome pelo qual, como é o meu caso, elas se “sentem” gente, o mais importante e o que melhor as caracteriza. Claro que se eu fosse apenas Maria não me queixaria, por razões óbvias…

          Haverá Marias Qualquer Coisa que não se importam de ser tratadas como “Simplesmente Maria”, mas eu não gosto. E, então, dizia eu, em mais um dos extremismos a que me referi, questionei-me se não seria caso de a Assembleia da República legislar sobre o assunto, obstando a que as Marias Qualquer coisa como eu sejam vítimas de tanta economia de palavras, e às vezes algum prejuízo.

Nota: Inspirado num episódio passado com Maria Leonor Santos, que praticamente perdia o avião no Aeroporto Humberto Delgado em virtude de ter sido chamada ao balcão apenas por MARIA SANTOS.
Há de facto Há muitas Marias na Terra... E Santos também…, digo eu,
que não faço milagres e sou

Maria Gabriela de Sá…
« Última modificação: Junho 13, 2020, 02:36:14 por Maria Gabriela de Sá » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Nação Valente
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outono


« Responder #1 em: Junho 13, 2020, 16:30:54 »

Marias , Marias, Marias. Há muitas. Mas tenho a percepção que essa moda já passou. Agora são mais Vanessas, Gerússias, Sandras. ...Qualquer dia não há Marias. Fazer o quê? Nós não escolhemos o nome, mas habituamo-nos. Os pais escolhem-no de acordo com o seu gosto, sendo este influenciado por vários factores. Maria, como outros nomes, poderá ser influenciado pela tradição Judaico-cristã, tal como José. Curiosamente conheço um caso de uma jovem chamada Maria José, que quer ser chamada apenas por Maria simplesmente. Outras são Zés ou Zezinhas. Cada gosto seu paladar

Seja como for, termino esta contribuição "onomástica", dizendo que, se a albarda não define o burro, o nome não caracteriza a pessoa.

Abraço, sem nome
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Goreti Dias
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« Responder #2 em: Junho 13, 2020, 21:15:56 »

Eu também tenho alguma dificuldade com essa coisa das Marias...
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Goretidias

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Maria Gabriela de Sá
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« Responder #3 em: Junho 13, 2020, 22:15:31 »

Nação Valente e Goreti, pos eu cá sou, ou Maria Gabriela, ou Gabriela. Maria simplesmente  Ã© que detesto que me chamem.

Abraços e beijos distanciados... E quem me abre a porta, aqui ao lado?
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Boa tarde a todos
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
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Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
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Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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