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Autor Tópico: A Gata dos Telhados XXII  (Lida 3919 vezes)
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #15 em: Agosto 12, 2020, 22:44:27 »

Assim é que é bom, o narrador ser enganado pelas personagens...

Abraço
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #16 em: Agosto 19, 2020, 20:06:59 »

- Não consigo imaginar o Damião nesses assados. Por outro lado e ligando as pontas, agora começo a entender porque trazia cada vez mais dinheiro para casa. Dizia-me que se matava a trabalhar.
-Esque√ßamos , por agora o Dami√£o, est√° incontat√°vel. Se ficar na pris√£o, vamos fazer-lhe uma visita, e logo pensamos no assunto.  Ent√£o  o que diz esse relat√≥rio do marido desaparecido? Cheira-me que est√° tudo ligado.
- No percurso que seguimos da Idalina, não encontro nada fora do vulgar, disse Rosalinda. Depois de sair da sua casa apanhou o metro para a baixa da cidade, e dirigiu-se para o seu local de trabalho, a empresa Figueira & Laranjeira, export/import. À hora do almoço saiu e foi comer comida macrobiótica. Durante todo este percurso não contactou com ninguém. Voltou ao local de trabalho e quando saiu fez o trajecto de regresso a casa. Apenas notei numa foto, antes de entrar na estação do metro, uma ligeira paragem junto a uma mulher de etnia cigana, que parece entregar-lhe um objecto. Talvez seja importante ampliar essa foto.
-Irei  pedir ao fot√≥grafo para fazer a amplia√ß√£o. Tenho a sensa√ß√£o que souberam das nossas dilig√™ncias, e foi tudo encenado. Mas onde raio estar√£o as escutas? Bom, temos de nos alimentar. Vou preparar o jantar. Estou a pensar num bacalhau no forno com migas.
-Eu trato disso, Joaquim. Aliás, com toda a modéstia, migas é umas das minhas especialidades. Herança da minha mãe, que tinha uma costela alentejana, e que deliciava o Damião
A noite j√° ia velha e JCorreia esperava em v√£o pela vinda do sono. Rosalinda dormia a bom dormir. A pris√£o de Dami√£o parecia n√£o a ter afectado. O detective continuava a olhar para a foto de Idalina quando se cruzava com a cigana. Judite, a sua gata, dormitava aos seus p√©s, indiferente √†s preocupa√ß√Ķes do seu dono. Este olhou-a e invejou-lhe a vida simples e despreocupada. ‚ÄúSabes judite, acho que estou metido numa grande alhada, mas tamb√©m sei que n√£o me podes ajudar. Se ao menos me desses um sinalzinho, com o teu instinto de gata, sobre o local onde est√° colocada a ‚Äúescuta‚ÄĚ fazia-te uma est√°tua. Mas hei-de descobrir.
Aquele estranho contacto da sua cliente com a cigana, f√™-lo lembrar-se de uma outra cigana, Zaira que lhe previa o futuro, quando com o seu av√ī Baltazar Correia, ia √† feira anual da sede do concelho. ‚ÄúO menino vai ser um bom "homem‚ÄĚ. Ao seu av√ī e √† sua av√≥, Beatriz Cavaca, n√£o lia o futuro porque j√° n√£o o  tinham. Falava do seu passado, desde a mais tenra idade. ‚ÄúComo √© que raio a cigana sabe de coisas que nunca contei a ningu√©m‚ÄĚ.
Joaquim viu-se recuar no tempo at√© 5 de Outubro de 1910, onde o seu av√ī, um jovem de doze anos, estava com outros jovens do seu tempo, a ouvir o senhor Jo√£ozinho, propriet√°rio rural, comerciante e republicano, a falar-lhes de uma revolu√ß√£o em Lisboa ,que pusera fim √† monarquia, que agonizava depois do assassinato do rei D. Carlos e do pr√≠ncipe herdeiro Lu√≠s Filipe . Manuel que herdara o trono impreparado para a fun√ß√£o, tinha sido derrubado e partira para o ex√≠lio. O dirigente republicano Jos√© Relvas proclamou a Rep√ļblica, nos Pa√ßos do Concelho. ‚ÄúUm futuro melhor se abrir√° para voc√™s, e para o nosso povo ‚Äúdizia-lhes o senhor Jo√£ozinho
Comeram e beberam at√© √† saciedade e a seguir partiram pelas ruas da aldeia a gritar vivas √† Rep√ļblica, como pedira o senhor Jo√£ozinho. "Amanh√£ voltem para receber umas prendinhas e ver o que vamos fazer com a ‚Äúpadralhada‚ÄĚ que juntamente com a monarquia s√£o o mal deste pa√≠s".
-Entrem rapazes, disse o senhor Jo√£ozinho, estiveram muito bem, pela Rep√ļblica. Hoje vamos dar mais um passo. V√£o at√© junto da casa do padre Pinto, e dizer ‚Äúfora os padres‚ÄĚ. E n√£o digam que eu vos mandei, porque a minha mulher √© muito devota, mas acabar√° por se acostumar.
-Senhor Joãozinho disse Baltazar, não é preciso. O senhor padre Pinto já se foi embora, pois receava pela sua vida.
-Como soubestes?
-Esqueceu-se que o meu av√ī √© o sacrist√£o. Com a minha ajuda, enrolamos as patas de uma mula, para n√£o fazer barulho, e o senhor padre Pinto partiu ao in√≠cio da noite. J√° est√° longe. Eu tamb√©m n√£o gosto de padres, embora fosse criado na sacristia, onde comia as h√≥stias com o meu primo Serafim, √†s escondidas. Claro que n√£o estavam consagradas. E tamb√©m sou republicano.
-Muito bem Baltazar. O problema resolveu-se por si. Como representante da Rep√ļblica nesta terra tinha de tomar medidas.

JCorreia abriu os olhos, encandeados por uma réstia de sol matinal que entrava pela janela. ou pelo ruído vindo da cozinha. Levantou-se, como saído de um sonho, e viu Rosalinda a colocar na mesa o pequeno almoço.
-√ď Rosalinda, √©s minha secret√°ria e n√£o cozinheira. Aquele bacalhau envolvido em presunto numa cama de cebola, acompanhado de migas com feij√£o preto, estava divino, mas n√£o √© essa a tua fun√ß√£o.
-Fiz com muito gosto. Gosto de cozinhar e é que faço todos os dias. Mas se fazes questão, na próxima é a tua vez.
-Combinado. Depois  do pequeno almo√ßo, vamos trabalhar no caso do marido desaparecido. Primeiro passamos pelo porto para falar com estivadores, e a seguir tentamos descobrir a cigana da fotografia.
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« Última modificação: Setembro 06, 2020, 20:42:15 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #17 em: Agosto 19, 2020, 21:36:49 »

"...Herança da minha mão, que tinha uma costela alentejana, e que deliciava o Damião....

Lapso,com certeza, uma pequena queda da m√£e para a m√£o... 
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outono


« Responder #18 em: Agosto 24, 2020, 21:07:19 »

XV
-Combinado. Depois  do pequeno almo√ßo, vamos trabalhar no caso do marido desaparecido. Primeiro passamos pelo porto para falar com estivadores, e a seguir tentamos descobrir a cigana da fotografia.

O porto tinha um aspecto estranho. A habitual azáfama de guindastes e contentores transformara-se numa quase total apatia, o que deixou surpresos JCorreia e Rosalinda. Dirigiram-se a um segurança a quem perguntaram o que estava a acontecer.
-Bom dia, disse o detective, transmutado com um chap√©u preto, e vestido de fato e gravata, um disfarce para a ocasi√£o. Sou o Ara√ļjo o advogado do estivador Dami√£o, que ontem foi preso, e pretendia falar com alguns dos seus companheiros. A minha acompanhante √© a sua esposa. Porque est√° o trabalho paralisado?
-Os trabalhadores est√£o reunidos com o seu sindicato. Creio que v√£o discutir quest√Ķes laborais, relacionados com pr√©mios de turno, e segundo consta, est√° na mesa, a convoca√ß√£o de uma greve. V√£o at√© aos armaz√©ns, perguntem pelo Ac√°cio, √© delegado sindical e conhece bem o Dami√£o.

No local da reunião perguntaram pelo Acácio. Algum tempo depois, apareceu um senhor de meia idade, com longa barba e boina basca, uma espécie de imitação de Che Guevara. Dirigiu-se-lhes com ar afável.
-Sou o Ac√°cio de Castro, em que posso ajud√°-los?
-Chamo-me Rosalinda, sou a companheira do Dami√£o, que ontem foi acusado de traficar droga e venho acompanhada por um advogado. Pretendemos recolher algumas informa√ß√Ķes sobre as raz√Ķes que levaram √† sua pris√£o.
-Muito prazer em conhec√™-la. O que lhe posso dizer? O Dami√£o √© muito reservado, e n√£o falava da sua vida privada. √Č um bom profissional e um bom camarada. Sempre disposto a entrar nas lutas contra os filhos da puta dos exploradores, que nos sugam como vampiros. Lembram-se da can√ß√£o do Zeca? Esses mesmos. Hoje estamos aqui reunidos para decidir o que fazer em rela√ß√£o ao incumprimento contrato de trabalho.
-Mas senhor Acácio, relativamente à acusação do tráfico de droga, notou da parte do Damião algum comportamento estranho? Perguntou JCOrreia.
-A resposta é não. Sempre o vi concentrado no trabalho. Sempre disponível para fazer horas extraordinárias. Sim, porque ao contrário do que dizem, todos nós precisamos de as fazer para conseguir um salário digno. Quanto ao tráfico de droga, também fui apanhado de surpresa. Para ser sincero não via o Damião metido nesses assados. Mas não ponho as mãos no fogo por ninguém. Temos que esperar pelas provas policiais. Os trabalhadores do porto são gente de trabalho. Há quem se deixe corromper? Neste mundo capitalista é possível. Não posso adiantar muito mais.

-Eureka, disse JCorreia quando saiam do porto. Não adiantamos nada sobre a questão do tráfico de droga, o que era previsível, no entanto, penso que dei um passo de gigante na descoberta do local das escutas. Verifiquei que hoje não fomos seguidos. Possivelmente os seguidores não ouviram a nossa conversa de ontem à noite, o que significa que não está num suporte fixo. Já tenho uma pista. Preciso de voltar ao escritório. Tu, Rosalinda, vai até junto da empresa Figueira & Laranjeira, para observar a Idalina: Encontramo-nos na pastelaria Suíça para almoçar. Não andes por locais com pouca gente, e mantem-te sempre em contacto.

Nem o barulho da porta a abrir-se, nem os passos do detective acordaram a gata Judite que como boa noctívaga, prolongava a noite para dentro do dia num sono profundo. JCorreia sentou-se a olhar para o casario que parecia querer descer a encosta, para partir à aventura à procura de gentes que antes ali estiveram, e que deixaram parte da sua herança genética e cultural, que caldeou aquilo que é a idiossincrasia portuguesa. Lembrou-se de a ver bem representada, quando vivia na hospedaria, nos primeiros anos da década de setenta. Para além da proprietária, oriunda do alto Alentejo, quarentona divorciada, ali habitavam mais seis hópedes, e um seu filho solteiro. Eram jovens machos, com excepção da menina Olinda, vindos de vários recantos de Portugal, à procura de um futuro mais promissor.
A menina Olinda era transmontana, ou n√£o se sabia se era ou sequer se existia. Joaquim Correia chegou a pensar que fosse um holograma. Para al√©m da magreza quase transparente, ss √ļnicas palavras que lhe ouviu, em v√°rios anos, foi bom dia, boa tarde ou boa noite, quando se cruzavam no corredor. Durante as refei√ß√Ķes entrava muda e sa√≠a calada. A seguir, recolhia ao quarto que partilhava com a propriet√°ria, serena e discreta,
Havia ainda o Carlitos, da Beira Alta e o Carlão, da Beira Baixa, seu companheiro de quarto, um calmeirão que praticava atletismo, e arrastou Joaquim para empresa de vendas onde trabalhava. Os imãos Bicho Rato que trabalhavam na Cidla, eram o protótipo do verdadeiro alentejano.

-Est√°s a abrir os olhos Judite? Estava a recordar os tempos em que a cidade ainda era uma aldeia grande e eu vivia numa comunidade que representava quase todo o pa√≠s. A conviv√™ncia fazia-se nos muitos caf√©s, nos cinemas, nos teatros. A televis√£o tinha dois canais, os telem√≥veis e os computadores ainda eram fic√ß√£o. No andar que ficava por cima da hospedaria, vivia uma actriz, que nos arranja bilhetes para os espect√°culos em que participava. Num dessas pe√ßas, no  Teatro Experimental de Cascais, transportei a turma masculina, e o namorado da nossa hospedeira, que a dividia com a leg√≠tima Levou-a a ela e √† menina Olinda. Na pe√ßa havia uma cena em que as actrizes apareciam a dan√ßar em trajes menores, e vi pela primeira vez o corpo desnudo da nossa vizinha, chamada Irene. Havia de v√™-lo mais vezes. Noutras circunst√Ęncias. Tive sorte. Engra√ßou comigo. Dizia que me achava parecido com o Dustin Hofman, mas mais bonito.
Vê bem Judite? Achas-me parecido com o Dustin Hofman? Encolhes as orelhas? Ainda bem que não te percebo
Quando conheci a Irene, eu estava a passar um mau bocado profissionalmente. Trabalhava para uma empresa que vendia livros, ‚Äúporta a porta‚ÄĚ. Mas quem queria comprar livros num pa√≠s com muito analfabetismo e sem h√°bitos de leitura? Foi nessa altura que recebi um convite do Carlitos, para ir √† sua aldeia, l√° para os lados de Freixo-de-Espada √† Cinta, ao casamento do seu irm√£o. Que aventura! Se te portares bem, talvez te conte. Anda c√°. Deixa-me ver uma coisa. Tenho uma chamada para atender‚Ķ
-Estou…diz Rosalinda…já vou para aí. Tenho novidades. Descobri o microfone.

Tenho que sair. Depois vamos ter uma grande conversa, Judite.

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« Última modificação: Agosto 24, 2020, 22:39:44 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #19 em: Agosto 24, 2020, 21:15:27 »

Esta Judite est√° sempre no lugar certo...
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outono


« Responder #20 em: Agosto 24, 2020, 21:59:54 »

- Não consigo imaginar o Damião nesses assados. Por outro lado e ligando as pontas, agora começo a entender porque trazia cada vez mais dinheiro para casa. Dizia-me que se matava a trabalhar.
-Esque√ßamos , por agora o Dami√£o, est√° incontat√°vel. Se ficar na pris√£o, vamos fazer-lhe uma visita, e logo pensamos no assunto.  Ent√£o  o que diz esse relat√≥rio do marido desaparecido? Cheira-me que est√° tudo ligado.
- No percurso que seguimos da Idalina, não encontro nada fora do vulgar, disse Rosalinda. Depois de sair da sua casa apanhou o metro para a baixa da cidade, e dirigiu-se para o seu local de trabalho, a empresa Figueira & Laranjeira, export/import. À hora do almoço saiu e foi comer comida macrobiótica. Durante todo este percurso não contactou com ninguém. Voltou ao local de trabalho e quando saiu fez o trajecto de regresso a casa. Apenas notei numa foto, antes de entrar na estação do metro, uma ligeira paragem junto a uma mulher de etnia cigana, que parece entregar-lhe um objecto. Talvez seja importante ampliar essa foto.
-Irei  pedir ao fot√≥grafo para fazer a amplia√ß√£o. Tenho a sensa√ß√£o que souberam das nossas dilig√™ncias, e foi tudo encenado. Mas onde raio estar√£o as escutas? Bom, temos de nos alimentar. Vou preparar o jantar. Estou a pensar num bacalhau no forno com migas.
-Eu trato disso, Joaquim. Aliás, com toda a modéstia, migas é umas das minhas especialidades. Herança da minha mãe, que tinha uma costela alentejana, e que deliciava o Damião
A noite j√° ia velha e JCorreia esperava em v√£o pela vinda do sono. Rosalinda dormia a bom dormir. A pris√£o de Dami√£o parecia n√£o a ter afectado. O detective continuava a olhar para a foto de Idalina quando se cruzava com a cigana. Judite, a sua gata, dormitava aos seus p√©s, indiferente √†s preocupa√ß√Ķes do seu dono. Este olhou-a e invejou-lhe a vida simples e despreocupada. ‚ÄúSabes judite, acho que estou metido numa grande alhada, mas tamb√©m sei que n√£o me podes ajudar. Se ao menos me desses um sinalzinho, com o teu instinto de gata, sobre o local onde est√° colocada a ‚Äúescuta‚ÄĚ fazia-te uma est√°tua. Mas hei-de descobrir.
Aquele estranho contacto da sua cliente com a cigana, f√™-lo lembrar-se de uma outra cigana, Zaira que lhe previa o futuro, quando com o seu av√ī Baltazar Correia, ia √† feira anual da sede do concelho. ‚ÄúO menino vai ser um bom "homem‚ÄĚ. Ao seu av√ī e √† sua av√≥, Beatriz Cavaca, n√£o lia o futuro porque j√° n√£o o  tinham. Falava do seu passado, desde a mais tenra idade. ‚ÄúComo √© que raio a cigana sabe de coisas que nunca contei a ningu√©m‚ÄĚ.
Joaquim viu-se recuar no tempo at√© 5 de Outubro de 1910, onde o seu av√ī, um jovem de doze anos, estava com outros jovens do seu tempo, a ouvir o senhor Jo√£ozinho, propriet√°rio rural, comerciante e republicano, a falar-lhes de uma revolu√ß√£o em Lisboa ,que pusera fim √† monarquia, que agonizava depois do assassinato do rei D. Carlos e do pr√≠ncipe herdeiro Lu√≠s Filipe . Manuel que herdara o trono impreparado para a fun√ß√£o, tinha sido derrubado e partira para o ex√≠lio. O dirigente republicano Jos√© Relvas proclamou a Rep√ļblica, nos Pa√ßos do Concelho. ‚ÄúUm futuro melhor se abrir√° para voc√™s, e para o nosso povo ‚Äúdizia-lhes o senhor Jo√£ozinho
Comeram e beberam at√© √† saciedade e a seguir partiram pelas ruas da aldeia a gritar vivas √† Rep√ļblica, como pedira o senhor Jo√£ozinho. "Amanh√£ voltem para receber umas prendinhas e ver o que vamos fazer com a ‚Äúpadralhada‚ÄĚ que juntamente com a monarquia s√£o o mal deste pa√≠s".
-Entrem rapazes, disse o senhor Jo√£ozinho, estiveram muito bem, pela Rep√ļblica. Hoje vamos dar mais um passo. V√£o at√© junto da casa do padre Pinto, e dizer ‚Äúfora os padres‚ÄĚ. E n√£o digam que eu vos mandei, porque a minha mulher √© muito devota, mas acabar√° por se acostumar.
-Senhor Joãozinho disse Baltazar, não é preciso. O senhor padre Pinto já se foi embora, pois receava pela sua vida.
-Como soubestes?
-Esqueceu-se que o meu av√ī √© o sacrist√£o. Com a minha ajuda, enrolamos as patas de uma mula, para n√£o fazer barulho, e o senhor padre Pinto partiu ao in√≠cio da noite. J√° est√° longe. Eu tamb√©m n√£o gosto de padres, embora fosse criado na sacristia, onde comia as h√≥stias com o meu primo Serafim, √†s escondidas. Claro que n√£o estavam consagradas. E tamb√©m sou republicano.
-Muito bem Baltazar. O problema resolveu-se por si. Como representante da Rep√ļblica nesta terra tinha de tomar medidas.

JCorreia abriu os olhos, encandeados por uma réstia de sol matinal que entrava pela janela. ou pelo ruído vindo da cozinha. Levantou-se, como saído de um sonho, e viu Rosalinda a colocar na mesa o pequeno almoço.
-√ď Rosalinda, √©s minha secret√°ria e n√£o cozinheira. Aquele bacalhau envolvido em presunto numa cama de cebola, acompanhado de migas com feij√£o preto, estava divino, mas n√£o √© essa a tua fun√ß√£o.
-Fiz com muito gosto. Gosto de cozinhar e é que faço todos os dias. Mas se fazes questão, na próxima é a tua vez.
-Combinado. Depois  do pequeno almo√ßo, vamos trabalhar no caso do marido desaparecido. Primeiro passamos pelo porto para falar com estivadores, e a seguir tentamos descobrir a cigana da fotografia.
Continua

« Última modificação: Agosto 30, 2020, 21:39:22 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #21 em: Agosto 25, 2020, 08:24:06 »

Adiante...
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outono


« Responder #22 em: Agosto 30, 2020, 19:17:01 »

 XVI

Estou…diz Rosalinda…já vou para aí. Tenho novidades. Descobri o microfone.
Tenho que sair. Depois vamos ter uma grande conversa, Judite.


Na esplanada da pastelaria Su√≠√ßa enquanto debicavam um bitoque com  molho de caf√©. JCorreia e Rosalinda observavam a entrada do metropolitano para ver se  havia rasto da cigana. Rasto talvez houvesse, o que n√£o havia era cigana. Mas havia um saboroso bitoque com molho de caf√©. Entre uma e outra garfada, e um e outro gole de imperial, o detective que parecia ter renascido, pelos √ļltimos acontecimentos, elogiava Rosalinda pela sua colabora√ß√£o, nos casos, nada f√°ceis , que tinham em m√£os.
-Estou contente pelo teu empenho, disse, e mais que por isso, por te ver com uma alegria que não era habitual. Ao contrário dos que dizem que mudamos a realidade, acredito que muitas vezes é ela que nos muda a nós. Nunca imaginei que estaríamos aqui a degustar um tradicional bitoque à pala de uma misteriosa cigana.

-Tenho a mesma sensa√ß√£o. Trabalhar, voltar a casa para a rotina das tarefas dom√©sticas, sujeita aos humores do Dami√£o, dormir √† espera de mais do mesmo, era o meu dia a dia. Hoje, tenho esperan√ßa, que esteja a chegar, o meu 25 de Abril. Sei que n√£o sou investigadora policial, mas senti-me  confort√°vel a seguir a Idalina, e a descobrir que esta, se encontrou discretamente com o suposto desaparecido marido.
-Não te menorizes Rosalinda, estás a fazer um bom trabalho. Acho que, neste momento, somos uma equipa, cada vez mais unida pelo misterioso caso da Gata dos Telhados, que me parece, relacionada, com o caso do marido desaparecido. Pelo primeira vez desde a minha aposentação, parece-me que voltei a ser polícia. Quando descobri que o sistema de escuta estava na coleira da Judite percebi que esta não se cruzou comigo por acaso. Alguém me anda a espiar, de tal modo, que nem sei se sou investigador ou vítima.
-E agora o que fazemos?
-Vamos manter tudo como está. Não desligo o sistema, e faço de conta que nada sei, o que nos vai ajudar a dar mais uns passos na investigação.
Parece-me correcto Joaquim. Já despachamos o almoço, e da nossa cigana, nem sombra.

√Č verdade. Quando se fala em cigana, lembro-me da Zaira, que todos os anos encontrava  na feira da minha inf√Ęncia. ‚ÄúCigana sabe tudo, senhor‚ÄĚ. O meu av√ī franzia o sobrolho, mas achava gra√ßa √† Zaira e deixava-a fazer as sua previs√Ķes. Embora n√£o acreditasse nessas coisas, tinha a ideia, que fazia parte do pacote da feira. E sem a cigana a feira n√£o ficava completa. Numa dessas adivinha√ß√Ķes, lembro-me de ter dito, ‚Äúesta fam√≠lia vai est√° ligada a tr√™s guerras. O senhor Baltazar foi o primeiro, o seu filho o segundo, e o seu neto ser√° o terceiro, numa guerra muito mais distante. Mas n√£o se assuste menino, porque vai voltar s√£o e salvo. A Zaira n√£o mente. Por acaso ou n√£o, acertou. E se o meu av√ī tinha estado na Primeira Grande Guerra, e o meu pai na Guerra C√≠vil de Espanha na fase final, eu s√≥ viria a cumprir esse des√≠gnio na Guerra Colonial.
Eu sei ‚Äďdisse Rosalinda, que saboreava um bolo de bolacha-que desde 1961 e at√© 1974, esse era destino dos jovens deste pa√≠s, mesmo que n√£o estivesse tra√ßado nas linhas da m√£o. O irm√£o da minha m√£e, tamb√©m abandonado pelo meu av√ī, e o familiar com quem mais convivia, emigrou para Fran√ßa para que o seu filho n√£o fosse para essa guerra. Foi e nunca mais voltou, como uma √°rvore a quem tinham cortado as ra√≠zes.

Tal e qual Rosalinda, muitos portugueses partiram para o exílio para fugirem a um conflito que não devia ter acontecido. Treze anos de uma inutilidade, até porque a solução só podia ser política. O meu pai também emigrou, mas eu fiquei, e cumpri o serviço militar obrigatório. Na Guiné consumiram-se dinheiro e vidas. Enquanto lá estive vi, muitas vezes, a morte perto. Perdi camaradas, fui ferido sem gravidade e estive hospitalizado. Aí conheci a outra dimensão da guerra: a loucura.

Quando estive internado no Hospital Militar de Bissau, para ser operado a uma perna atingida por estilha√ßos de minas, conheci o Alfredo, um farrapo humano, protagonista de uma hist√≥ria tr√°gico-c√≥mica. O Alfredo foi internado com uma depress√£o profunda. Era um jovem do Alentejo, que apenas queria que o tempo passasse depressa, para voltar para a sua aldeia, onde juntaria os trapinhos com a Ludovina, cujo nome ostentava orgulhoso, gravado a tinta, no bra√ßo direito. Mantinha com Ludovina correspond√™ncia regular atrav√©s de aerogramas. Como n√£o sabia ler quem lhe lia e escrevia as cartas, era um alferes da sua Companhia. As cartas foram diminuindo at√© que deixaram de chegar. O alferes notara que aquela rela√ß√£o iria terminar, mas ocultava a verdade para n√£o angustiar o Alfredo. Um dia, chegou uma carta da sua m√£e a dizer-lhe para esquecer Ludovina, pois n√£o o merecia. Juntara-se com outro. O alferes n√£o p√īde esconder o sucedido. Alfredo ficou descompensado, e tentou matar o alferes. Teve de ser imobilizado e internado. Procurou, por v√°rios processos, apagar o nome da namorada do seu bra√ßo, mas n√£o resultou. Tinha de estar sedado. Num per√≠odo de maior lucidez disse-me ‚Äúeu n√£o consigo viver com o nome de uma puta gravado no meu bra√ßo‚ÄĚ. E n√£o viveu. Numa fase em que parecia ter melhorado, conseguiu enforcar-se. Desculpa Rosalinda. S√£o assuntos de que evito falar. Costumo abord√°-los com a Judite, que ouve, mas que decerto que n√£o entende portugu√™s. As palavras s√£o como as cerejas. O que a lembran√ßa da cigana me fez recordar. E afinal parece que  da cigana que procuramos, nem sombra. Recebi uma mensagem. Ser√° ela?
    

 Bom dia,
Chamo-me Laura de Castro, sou advogada. Soube da pris√£o do senhor Dami√£o, no porto de Lisboa. Precisava de falar consigo. Quando me pode receber?

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« Última modificação: Agosto 30, 2020, 22:46:08 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #23 em: Agosto 30, 2020, 20:40:56 »

....A conversa √© mesmo como as cerejas. E, com que ent√£o,  Joaquim passou de ca√ßador a ca√ßa...
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« Responder #24 em: Agosto 30, 2020, 22:04:35 »

Daqui a uns anos, o valor destes textos será incomensurável. Parabéns! Continue. Isto é obra.
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« Responder #25 em: Agosto 30, 2020, 23:05:12 »

....A conversa √© mesmo como as cerejas. E, com que ent√£o,  Joaquim passou de ca√ßador a ca√ßa...
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« Responder #26 em: Agosto 31, 2020, 21:45:25 »

Pois...
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outono


« Responder #27 em: Setembro 03, 2020, 20:37:00 »

XVIII
     Bom dia,
Chamo-me Laura de Castro, sou advogada. Soube da pris√£o do senhor Dami√£o. Precisava de falar consigo. Quando me pode receber?

Laura de Castro deixou o detective de boca aberta. Nem alta, nem baixa, na medida certa, na sua perspectiva, j√° que nesse conceito, como em muitos outros, n√£o existe bitola √ļnica. Viu-a   mais como uma daquelas belezas que fazem capa de revista, do que como advogada, sem desprimor para a beleza das mesmas, que tamb√©m as h√°. Mas o que mais o atraiu, foram  os olhos, de um castanho claro e de um brilho, que hipnotizava. Uma sensa√ß√£o estranha, mas ao mesmo tempo reconfortante, deixou-o quase sem reac√ß√£o. Pensou que se tivesse tido uma filha, era assim que a imaginava. Procurou retomar a naturalidade, e disse-lhe para entrar e para se sentar. Chamou Rosalinda que apresentou como sua secret√°ria.
-Ent√£o a que devemos a honra da sua visita, senhora doutora Laura?

-Muito obrigado por me ter recebido senhor detective. Venho em representação de uma cliente que partilhamos, e que o senhor conhece como Gata dos Telhados.
Gata dos Telhados? Nem sei se lhe posso chamar cliente. Não sei quem é, nem o que pretende. Até agora, parece-me mais fantasma, que gente deste mundo. O certo é que desde que aceite o caso, ou não caso, parece que ando rodeado de almas penadas, salvo seja.
-Garanto-lhe que essa cliente existe e a prova é que aqui estou a seu pedido. Será que me considera um fantasma detective Correia?
-Claro que n√£o doutora Laura, mais que n√£o seja porque mostra sentido de humor‚Ķmas podemos fazer a prova. Aceita um caf√©? Confirma que tem subst√Ęncia f√≠sica.
-Um café é uma bebida que não consigo recusar.
-Eu trato disso, disse Rosalinda, deslocando-se para a cozinha, de onde apareceu, pouco depois, com três chávenas de café.

-Ora bem, ent√£o vou-lhe transmitir a proposta que trago da minha cliente. Ela disponibilizou-me para fazer a defesa do senhor Dami√£o, marido da sua secret√°ria, sem quaisquer honor√°rios, se estiverem de acordo.
-Doutora, h√° uma coisa que me intriga. A nossa cliente, mostra estar bem informada, dos √ļltimos acontecimentos a que a Rosalinda est√° ligada. Tem poderes "advinhat√≥rios" ou anda a espiar-nos?
Nem uma coisa nem outra. A Gata dos Telhados, por enquanto chamemos-lhe assim, antes de contratar os seus servi√ßos, procurou informar-se  da compet√™ncia de quem precisava de contratar, o que √© normal, n√£o acha?  A prop√≥sito ainda n√£o vi o outro membro da fam√≠lia, a Judite.
-A Judite? Bem …não sei a que família pertence…talvez uma infiltrada…Rosalinda o que acha da proposta da senhora advogada?

-Não precisam de responder já. A nossa cliente interessou-se pelo Damião. E ironia das ironias, ela também teve um passado de consumo e de pequeno tráfico. Desceu aos infernos da loucura. Tudo começou quando o marido a deixou com uma criança para nascer. Acusou-a de adultério e de não ser o pai, porque sabia que era infértil. Resquícios de papeira na juventude. Procurou sobreviver sozinha mas não foi fácil. Para conseguir pagar as despesas, começou a vender o corpo. Uma mão lava a outra e da prostituição ao consumo de drogas, ou vice-versa ,há um pequeno passo. Começou por consumir marijuana e acabou em produtos mais pesados, com haxixe.

Em 1983 assistiu ao assassinato de uma amiga que a ajudou na fase mais dif√≠cil da sua vida. Foi uma das v√≠timas no processo que ficou conhecido como o ‚Äúestripador de Lisboa‚ÄĚ. Nunca superou essa situa√ß√£o, ainda hoje tem pesadelos, e √© muito cr√≠tica em rela√ß√£o  √† investiga√ß√£o deste processo, at√© porque n√£o existem crimes perfeitos. Algo falhou. A Gata dos Telhados, depois desses crimes, teve for√ßa para se superar. Fez tratamentos de recupera√ß√£o e reorganizou a sua vida. Mas tem contas a ajustar com o passado. O processo prescreveu em 2008, mas tem a convic√ß√£o que o assassino est√° vivo. E que por falta de meios que n√£o existiam e por incapacidades diversas, e decis√Ķes incompreens√≠veis, como a substitui√ß√£o do primeiro coordenador do caso, j√° n√£o pode ser acusado. No entanto, ainda n√£o desistiu de esclarecer a situa√ß√£o em nome das v√≠timas e dos seus descendentes.

JCorreia ouviu-a atentamente. Também esteve na equipa que iniciou a investigação, e sempre sentiu alguma frustração por não ter continuado. Olhou para Laura e desabafou:
-O caso do ‚Äúestripador‚ÄĚ, n√£o foi resolvido pela PJ, como n√£o foram outros id√™nticos, noutros pa√≠ses. Foi uma investiga√ß√£o complexa onde o criminoso n√£o deixou provas evidentes. Mas tamb√©m penso que se podia ter ido mais al√©m. Portanto, pode contar com a minha colabora√ß√£o. Quanto √† defesa do Dami√£o se a Rosalinda concordar, pode assumi-la.

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« Última modificação: Setembro 06, 2020, 20:44:53 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #28 em: Setembro 03, 2020, 22:31:26 »

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outono


« Responder #29 em: Setembro 06, 2020, 20:41:02 »

XIX
-O caso do ‚Äúestripador‚ÄĚ n√£o foi resolvido pela PJ, como n√£o foram outros id√™nticos, noutros pa√≠ses. Foi uma investiga√ß√£o complexa onde o criminoso n√£o deixou provas evidentes. Mas tamb√©m penso que se podia ter ido mais al√©m. Portanto, pode contar com a minha colabora√ß√£o. Quanto √† defesa do Dami√£o se a Rosalinda concordar, pode assumir a sua defesa.

Laura Castro despediu-se reforçando a sua disponibilidade para defender Damião. JCorreia olhou para Rosalinda, à espera de uma opinião.
-Ainda estou na fase da surpresa, disse, para j√° penso que dev√≠amos   recolher mais informa√ß√Ķes sobre a senhora advogada.
-Tens raz√£o. Vou falar com um amigo da Ordem dos Advogados, para comprovar se a dita advogada faz parte da mesma, e se merece confian√ßa. Nas primeiras impress√Ķes parece-me que est√° de boa f√©, embora n√£o consiga perceber, o que pretende a dita Gata dos Telhados, e ainda menos no que nos est√° a envolver. Um caso bicudo, com muitos bicos. At√© parece que vivemos dentro de um romance, e somos marionetas de um autor alucinado.

Rosalinda saiu para fazer compras. JCorreia sentou-se na sua chaise longue. Precisava daquele isolamento. A catadupa de acontecimentos tinham mudado a sua vida rotineira de detective privado de casos passionais. O sil√™ncio funcionava como uma droga para um dependente. O reavivar da hist√≥ria das prostitutas esventradas, que escondera num recanto escuso da mem√≥ria e fechara a sete chaves, entrara de rompante na sua vida como uma tempestade inesperada. Como pol√≠cia habituara-se a lidar com o lado obscuro da vida, homic√≠dios, mortes por overdose, e tanto quanto poss√≠vel habituara-se a viver com isso, com naturalidade. Mas a imagem daquelas mulheres, expurgadas dos seus √≥rg√£os internos, sempre lhe causara uma sensa√ß√£o e enjoo. Interrogara-se e interrogava-se como era poss√≠vel haver um ser humano capaz de cometer tal atrocidade. Na altura quebrou psiquicamente, e a imagem  perseguiu-o durante meses, tirando-lhe o sono ou causando-lhe pesadelos. O reacendimento dessas mem√≥rias, f√™-lo infringir os conselhos m√©dicos de toler√Ęncia zero √† bebida e ao tabaco. Bebeu um copo de wisque e acendeu um charuto. Entre uma outra fumarada, conseguiu relaxar, e refugiar-se num tempo em que fora feliz e n√£o sabia. A gata Judite aproximou-se a ronronar, mas JCorreia ignorou-a. J√° estava noutra dimens√£o.

Corria o ano de 1973, quando um dos seu companheiros de hospedaria, o Carlitos, o convidou para o transportar √† sua terra de nascimento, onde ia realizar-se o casamento do seu irm√£o. Joaquim Correia era o √ļnico que tinha autom√≥vel, entre os seus amigos, e percebeu que o Carlitos o queria contratar como motorista e transportador privado. N√£o lhe desagradou a ideia. N√£o tinha nada de especial para fazer e iria conhecer uma regi√£o do pa√≠s, l√° para os lados de Freixo de Espada √† Cinta. Olhou para o Carlitos e disse-lhe:
-Vou ser sincero. Teria muito gosto  em ir, mas n√£o posso. Como sabes mudei de trabalho, e estou a passar um mau bocado. Indo directamente ao assunto, depois de pagar a mensalidade do alojamento, fiquei com vinte e cinco tost√Ķes no bolso.
-Não há problema Quim. Eu pago-te o combustível, e pago-te a alimentação durante as viagens. Na aldeia vivemos à conta dos velhotes.

Partiram numa sexta-feira de manhã em direcção a Coimbra. Almoçaram numa cervejaria e continuaram subindo e descendo serras, por estradas de um país pobre e subdesenvolvido. Estava o dia a despedir-se quando chegaram à aldeia do Carlitos.
Na pacatez daquele lugar descrito nos romances de Camilo, de E√ßa, ou de J√ļlio Dinis, Joaquim viu um reflexo da sua terra. A pequena agricultura como modo de vida. A sa√≠da dos mais jovens para zonas mais industrializadas e para a emigra√ß√£o. A popula√ß√£o rural que come√ßava a envelhecer, como o pai do Carlitos. Joaquim apenas notou uma diferen√ßa em rela√ß√£o √† sua regi√£o. A habita√ß√£o, em granito, tinha dois pisos. No piso inferior acomodavam-se os animais, e no piso superior viviam as pessoas.
Os pais do Carlitos, pessoas simples, e cujo primeiro filho com vinte e dois anos ia casar, acharam estranho que Joaquim quase trint√£o, ainda estivesse solteiro, a caminho de ser solteir√£o, pelos padr√Ķes daquela comunidade. E como gente solid√°ria procuraram logo ali arranjar-lhe casamento.
-Senhor Joaquim, disse a m√£e do Carlitos, o meu compadre, sapateiro e comerciante, um dos homens mais importantes da terra, tem duas filhas casadoiras, que andam a estudar para professoras prim√°rias. V√° l√° ver de uma delas.

Joaquim, com ou sem vontade, teve de ir quando o Carlitos foi visitar o sapateiro que era seu padrinho. E lá estavam as ditas moças casadoiras, mas falaram sobretudo com o pai, um bom vivente, que duas vezes por semana transportava produtos agrícolas para Lisboa. Bom conversador, entre duas marteladas na sola, falou das suas viagens, dos locais que visitava, e como bom macho latino, até de algumas aventuras, quando a mulher e as filhas, que iam ser professoras, não estavam presentes.
-Ent√£o senhor Joaquim j√° viu da filha do meu compadre?
Joaquim, balbuciava, desviava o assunto, e pensava ‚Äúmas como raio √© que um pelintra perdido nas azinhagas da vida, sem rumo definido, e com vinte e cinco tost√Ķes no bolso, que nem d√£o para comprar uma rosa para lhe abrir a porta do cora√ß√£o, pode interessar-se pelas filhas do sapateiro andante‚ÄĚ.

No dia da boda, juntaram-se os convidados na igreja para a cerimónia religiosa, que foi breve, seguindo depois para o repasto servido pelos padrinhos, numa sala da sociedade recreativa. Quando os noivos partiram para a sua lua-de-mel, Joaquim, sentado ao lado de Carlitos, notou que outras mocinhas, naturalmente casadoiras, cochichavam e riam, enquanto lhe dirigiam olhares furtivos. Foi nessa altura que Joaquim lhe pareceu ter os bolsos do seu casaco creme e apropriado à estação. Meteu a mão no bolso, sentiu uma coisa pegajosa, e tirou restos de frango. Risada geral. Veio-lhe à memória o rei D. João VI, que andava com os bolsos da casaca de seda cheios de pedaços de frango, e que comia mesmo durante encontros diplomáticos.
-Ent√£o Joaquim, est√°s a guardar mantimentos, para a viagem, observou Carlitos
Joaquim fez um sorriso sem cor, ao mesmo tempo que pensava. Esta mocidade feminina deve saber que s√≥ tenho vinte e cinco tost√Ķes no bolso, e quer alimentar-me‚ÄĚ.

Antes de regressarem, e na despedida, a m√£e do Carlitos, voltou a dizer:
-Senhor Joaquim , n√£o viu da filha do sapateiro, mas veja l√° de uma mulher.
Haveria de ver, mas não era assim tão moça, e muito menos casadoira.
Rosalinda regressou com as compras. Estava a anoitecer. Abriu a porta e apenas escuridão e silêncio. JCorreia, dormia a bom dormir, com um charuto apagado na boca.

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Boa tarde a todos
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Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
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Bom dia!
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