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Autor Tópico: A Gata dos Telhados XIII  (Lida 535 vezes)
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Nação Valente
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outono


« em: Julho 11, 2020, 19:05:16 »

VIII

-Porra, pensou JCorreia. Já não tenho idade para acções de risco elevado, e associadas  a cenas de romances. Não sou nenhum Pepe Carvalho, do Montalban.
JCorreia fez uma visita ao local, identificou o armazém, e preparou o plano de acção. Pediu o carro emprestado a um velho amigo dos tempos em que vivia na hospedaria, com quem mantinha contacto. Estacionou numa rua próxima e deslocou-se a pé até junto do armazém/dormitório. Às dezassete horas e trinta minutos aproximou-se  da porta de entrada e dirigiu-se ao vigilante, um homem de meia-idade, que o olhou de soslaio.
-Chamo-me Adelino, e aluguei uma cama a partir de hoje, como deve estar informado. Sei que a entrada é às vinte horas, mas queria guardar a minha mochila, que está muito pesada. Quem me fez o aluguer admitiu que assim fosse. Pode contatá-lo se quiser confirmar. Entro e saio de imediato.
-Isso contraria as regras, mas se tem autorização do chefe, vou acompanhá-lo até à sua cama, deixa a sua mochila e volta a sair.
Subiram um pequeno lanço de escadas. Dentro do dormitório o vigilante conduziu-o até junto da cama que lhe estava destinada. O detective pousou a mochlila e antes de a guardar no cacifo, pousou-a em cima da cama, dizendo que precisava da a abrir tirar a sua carteira. Meteu a mão e tirou uma pistola com silenciador que encostou à barriga do vigilante, bem mais encorpado.
-Sente-se, disse, se quer salvar a pele.
O vigilante, surpreendido não conseguiu reagir, e sentou-se na cama. JCorreia voltou a meter a mão na mochila de onde retirou um pano húmido com clorofórmio que colocou na cara do vigilante. Este fechou os olhos e esparramou-se na cama. O detective tirou-lhe as chaves que tinha no bolso e dirigiu-se para o escritório situado ao fundo da sala. Abriu a porta e viu Rosalinda sentada no catre onde dormia.
-Detective, como chegou aqui?
-Não há tempo para explicações. Vamos.
Quando se aproximava da saída, o vigilante acordou do sono forçado e procurou reagir. Correia que ainda não tinha esquecido técnicas de luta aprendidas na PJ deu-lhe uma joelhada entrepernas que o deixou a contar as tábuas do chão, o tempo necessário para saírem do edifício, e entrarem no carro. Durante a viagem até à sua casa, o detective explicou a Rosalinda como tinha conseguido chegar aquele local e libertá-la.
-Hoje por uma questão de segurança vai dormir aqui, disse ao entrarem no seu apartamento. Amanhã contacto o seu marido. Temos de elaborar um plano de segurança permanente. Não sei com quem estamos a lidar nem o que querem, mas parece-me gente perigosa. Já preparei umas ervilhas com ovos escalfados. Vai avaliar a minha competência de cozinheiro.
Dirigiram-se para uma pequena sala que desempenhava a função de cozinha e local de refeições. Com a comida preparada e a mesa posta sentaram-se. O detective serviu Rosalinda e encheu-lhe o copo com um vinho tinto sem coloração, uma especialidade da Ervideira.
-Rosalinda não precisa de me dizer que passou um mau bocado. Agora não é hora de pensar nisso. Beba deste néctar dos deuses e relaxe, que bem precisa. Depois voltamos a falar. Este resgate correu bem e fez-me renascer uns anos. Parece que voltei ao tempo da guerra com as devidas diferenças.
-Obrigado detective. Admiro a sua coragem e congratulo-me por não ceder a chantagens.
-A coragem, a coragem. Todos somos corajosos ou medrosos ao mesmo tempo, depende das circunstâncias. Olhe na guerra temos de ser corajosos para sobreviver. Mas o medo está sempre presente. Numa das primeiras missões em que participei na Guiné, ainda periquito como chamavam aos novatos,  o alferes que estava no comando mandou parar a viatura e chamou um soldado chamado Casado,  especialista no levantamento de minas e disse “nesta zona costuma haver minas anticarro. Vamos pela margem da picada para verificar”. Tu Correia vem também”. O alferes Matos ia na frente seguido do Casado e eu seguia na terceira posição. Um estrondo enorme. Uma nuvem de poeira. Um silêncio ensurdecedor. Pisaram duas minas antipessoais muito próximas. O soldado Casado perdeu uma perna, e gritava desesperado “já não posso casar”, o alferes Matos foi cortado ao meio e teve morte imediata. Dois jovens com uma vida para viver. Apanhei com uns estilhaços numa perna e fui enviado para o hospital de Bissau. Não costumo falar da guerra, é um assunto que quero esquecer, mas não consigo. O stress de combate agarra-nos como uma lapa. Ainda tenho pesadelos. Geralmente desabafo com a minha gata, a Judite. Mas quem passou por isto, não pode ter medo de enfrentar outras guerrinhas. Levantamo-nos em cada dia, e voltamos a refazer, o que foi desfeito. Mas agora precisa de descansar. O quarto de hóspedes, sempre solitário, vai gostar da sua presença.
-Pode contar comigo. Apesar dessa história triste comi muito bem. E o vinho foi um bom calmante. Está aprovado como cozinheiro.

continua

Nota-Tive de iniciar um novo bloco. Ninguém me abriu a porta. Nem é preciso comentar. Basta pôr um letrinha, por exemplo o “a” que é a primeira. Se for possível. Gratidão imensa.
« Última modificação: Agosto 13, 2020, 14:02:03 por Nação Valente » Registado
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« Responder #1 em: Julho 11, 2020, 21:34:55 »

Pois, tenho andado bastante ocupada. Virei babá por uns tempos e tenho andado bastante ocupada e cansada. Abraço de porta aberta. E vou ver se abro também o outro...
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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« Responder #2 em: Julho 14, 2020, 18:04:20 »

Comer e beber sempre foram apaziguadores... venha a continuação.
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outono


« Responder #3 em: Julho 18, 2020, 20:53:38 »

IX

 Pode contar comigo. Apesar dessa história triste comi muito bem. E o vinho foi um bom calmante. Está aprovado como cozinheiro.
-Fico contente por admirar os meus dotes culinários, que vão muito para lá desta pequena amostra. Quando se opta por ser um solitário, temos que estar preparados para executar todas as tarefas domésticas.


- Não quero entrar na intimidade da sua vida, nem devo. Respeito as opções que cada pessoa faz. Repartir a vida com alguém, não é tarefa fácil, implica prescindirmos um pouco da nossa liberdade. A minha mãe, depois da má experiência com o homem que a emprenhou, nunca mais quis começar outro relacionamento. Dedicou-se toda a sua vida a procurar para mim um caminho melhor. Às vezes penso que o seu esforço foi em vão. Muito nova deixei-me ir na conversa fiada do Damião, parecia que vivia um conto de fadas. Até fomos noivos de Santo António, com casamento na Sé. Vestido de noiva, grinalda, ramos de flores, minutos de fama na televisão. Mas depois do deslumbramento veio a desilusão. A realidade mostrou-se bem diferente. Nem santo António me valeu. Deve ter outras preocupações.

-Sempre desconfiei que a Rosalinda não tem uma vida familiar fácil. Quando conversei com o seu marido fiquei com essa certeza. Percebi que não a trata como merece. E fiquei convencido que “lhe chega a roupa ao pelo”, como se diz em linguagem popular”.
- É verdade, mas não gosto de falar da minha vida de portas a dentro. Talvez o vinho hoje me tenha soltado a língua. De facto o Damião considera-me propriedade sua. É muito ciumento, talvez até obsessivo. Está sempre a acusar-me de o trair. Se vou às compras interroga-me porque demorei tanto. Se estamos num lugar público, inventa que estou a olhar para algum homem que esteja presente. Se o jantar se atrasa, conclui que estou a pensar num amante, em vez de me concentrar no que faço. Há poucos dias queria que lhe dissesse porque estava a falar com um vizinho com quem me cruzei na rua. Por mais que insistisse que apenas trocámos breves palavras de cumprimento, queria que lhe confirmasse que era meu amante. Perante a recusa passou-se dos carretos e deu-me uma chapada com a sua grande “manápula”. Apanhei eu e por tabela o fogão, concentrado no seu trabalho fogão. Por milagre não me queimei.
-Já tinha percebido. O que não percebo é porque se sujeita a essa tortura, e não faz queixa na polícia?  Ou porque não o abandona e corta o mal pela raiz!
-A situação não é assim tão fácil. Começamos por estranhar, depois habituamo-nos. Após a morte  da minha mãe, atacada por Alzheimer, fiquei só. O Damião era a minha família. Fui-me  adaptando com a esperança que ele mudasse. Faço de tudo para lhe agradar. Trato-o como um príncipe. Esmero-me na cozinha, esforço-me por lhe satisfazer os apetites sexuais, embora às vezes de tão cansada, me compare à Luísa do poema de Gedeão “sobe Luísa, sobe a calçada”. Queixas na polícia só iam piorar. Sei que nas esquadras não dão muito importância a esse tipo de queixas. Seguem um pouco o lema “entre marido e mulher não metas a colher”.
-Não quero intervir, Rosalinda, nas suas decisões, mas pode  contar com o meu apoio no que for necessário. Sei que a situação é melindrosa, mas penso que deve procurar libertar-se dessa escravatura. Comece por pensar que a nada é definitivo, e que a mudança está em cada esquina, à nossa espera
-Obrigado detective Correia pelo apoio. Vou conversar com o travesseiro e dormir sobre o assunto. Boa noite.

JCorreia apagou as luzes e sentou-se numa espreguiçadeira junto à vidraça, ainda partida, com vista para o Tejo. O espelho de água da rio, os barcos que deslizavam como patins sobre gelo, os guindastes que lhe pareciam adamastores a defender a cidade, serenavam-lhe o espírito. Esquecia as tarefas quotidianas, e embrenhava-se em recordações de que era feita a sua vida. Nessa noite de confidências, acordaram do sono da sua memória as suas relações com Aida, protagonista do primeiro romance que viveu, depois de chegar à cidade.
Passou pelo trabalho na indústria, e na procura de um caminho para a sua vida, começou a trabalhar como vendedor, numa empresa nórdica que fabricava e comercializava eletrodomésticos na venda directa. Foi integrado numa equipa onde para além do chefe e de duas senhoras que podiam ser suas mães, estava uma jovem que o acompanhou durante a fase de adaptação aquela função. Trabalhavam na zona da Lapa, onde a grande riqueza está paredes meias com a pobreza assumida como destino. Percorriam todas as ruas, todos os prédios, todos os andares. O objectivo era convencer as pessoas abordadas a aceitar uma demostração de um aspirador ou de uma enceradora, para as implicar na sua compra.
Aida acompanhada por Joaquim Correia, a fazer o seu tirocínio, bateu a uma porta, e a mulher que os atendeu, antes de se apresentarem perguntou:
-O que deseja este casalinho?
Quando se afastaram, Aida olhou para Joaquim com um ar ternurento, sorriu e disse, “um casalinho”.
-Pois, disse Joaquim, são pessoas modestas, que veem a vida de uma forma simples, ainda estão na fase da vassoura e longe da do aspirador. E vê-se que não têm condições para o comprar. Quanto à questão do “casalinho” até podia ser, mas vejo uma aliança instalada num dedo teu
-Não há como desmentir, sou casada. O meu homem tem o dobro da minha idade, e já nem me aquece, disse Aida a sorrir.
-É pena, assim só podemos ser um casalinho na aparência, mas também não há problema. Nesta fase da vida ando por atalhos à procura de um caminho que ainda não encontrei. Estou muito longe de pensar em constituir família.

Aida e Joaquim continuaram na sua tarefa diária e o assunto foi esquecido. Nos dias em que estavam cansados de subir e descer escadas e ouvir “não obrigado” resolviam ir até um cinema de bairro, ver um filme. Um dos que ficava próximo, na Estrela, chamava-se Paris. Uma vez, assistiram a um filme romântico, que se passava entre  Veneza e Paris, À saída Aida disse.
-Como gostava de ir à verdadeira Paris?
-E porque não? O problema é que com o que nos pagam, mesmo acima da média, não há dinheiro para esses luxos.
Concordo, respondeu Aida, mas para um passeio cá dentro sempre se arranjava.
-Então é fácil, convences o teu marido.
-Não percebestes? Não quero ir com o meu marido, quero ir contigo.
-Porra, pensou Joaquim, que corou até à raiz dos cabelos, a moça é atrevida. Ó Aida estás a brincar?
-Estou muito a sério.
-Não sei o que pretendes, mas olha que eu não estou em condições de passar à condição de marido.
-E depois? Vive-se um dia de cada vez. Até já tenho um plano. Um fim de semana em Aveiro. Tem algumas semelhanças com Veneza e é muito mais acessível.
-E o teu marido concorda?
-Não concorda, nem tem que concordar. Invento um curso de formação. Assim como assim, tem uma pequena fábrica de luvas e está sempre ocupado. O trabalho é a sua amante.
José e Aida instalaram-se num pequeno hotel com vista para a ria. Viajaram de comboio de forma discreta, procurando não dar nas vistas. Para haver algum romantismo naquele passeio começaram por fazer uma viagem na ria dentro de um barco moliceiro. O ambiente proporcionou a toca dos primeiros beijos . No quarto do hotel, Aida, mais desinibida, começou a libertar-se da armadura do pudor, apareceu despida de preconceitos, e sentou-se ao lado de Joaquim. Este sentiu a macieza da sua pele…

JCorreia acordou com a noite a deitar-se. Enroscada nas suas pernas estava a gata Judite, que ali se instalara sem ter dado por isso, e que o aquecia com a macieza do seu pelo. No seu horizonte , a mesma paisagem com que adormecera. Os guindastes agora não pareciam sentinelas, mas braços de gigantes que moviam contentores como se fossem peças de lego. Outro dia ia começar. Outro dia de labuta. O que fazer com Rosalinda? Como continuar a investigação do marido desaparecido? Como interpretar as misteriosas comunicações da “gata dos telhados?
 
Continua...
« Última modificação: Julho 19, 2020, 18:21:19 por Nação Valente » Registado
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« Responder #4 em: Julho 18, 2020, 21:40:19 »

Esta gata dos telhados tem um excelente sentido de oportunidade. Está sempre onde é preciso...
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« Responder #5 em: Julho 19, 2020, 17:43:49 »

E não é assim que deve ser, Gabriela?
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outono


« Responder #6 em: Julho 24, 2020, 20:25:34 »

X
Caramba Judite, tu abusas da sorte. Agora usas-me como cama? Deixa lá também não tenho companhia para dormir. Não tenho nem nunca tive, a não ser ocasionalmente. Antes de dormir ou de acordar, estive na lembrança a Aida, uma outra gata, e que gata, quando tu ainda não o eras, nem sabias se o serias.

 Aquela primeira noite foi inesquecível, mas não te vou dar pormenores. Se tiveres imaginação, imagina. Outros dias e outras noites se seguiram, cada vez com mais paixão. E tive quase a cair na tentação de ficar preso na sua sedução, mas fui salvo pelo “gong”. Acorda Joaquim!
Como é que foi isso? Suponho que queres saber. Aconteceu com a mesma naturalidade com que começou. Aconteceu quando a empresa em que trabalhávamos começou a ter dificuldades  nas vendas. Uma crise a nível mundial causou perturbações nos mercados. Começaram os despedimentos. Antes que chegasse a minha vez certo dia fui ter com o chefe de zona e disse-lhe. “senhor Figueiredo, isto está a ficar difícil, venho apresentar a minha demissão. O chefe Figueiredo, que até simpatizava comigo perguntou? Já tem outro trabalho? Não. Então o que vai fazer? Tirar umas férias. Tirar uma férias? Caramba! Como é possível? Eu trabalho há mais de quinze e nunca tive férias”.

O que não tem que ser não é, e parti para outra, como se costuma dizer. Eu parti e a Aida ficou, com a sua vida, com o seu marido. Se percebesse língua de gata, imagino que me perguntasses se foi doloroso. Claro que foi. Longe da vista, longe do coração, pois somos viajantes de passagem, sempre a iniciar novas viagens.
De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre
a começar…
A certeza de que é preciso continuar…
A certeza de que podemos ser interrompidos.
antes de terminar.
Por isso devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo
Da queda um passo de dança…
Do medo uma escada…
Do sonho, uma ponte…
Da procura, um encontro.
Não penses Judite que este poema que reflecte o que estou a dizer é da minha lavra. Não tenho unhas para tocar tão bem guitarra. É de um tipo que se chama Fernando Pessoa. Um solitário com o qual me identifico, mas a quem nem chego aos calcanhares. Quase um desconhecido no seu tempo, e hoje e sempre, imortal.

JCorreia foi acordado das suas divagações para uma gata, pela voz de Rosalinda.
-Bom dia detective. Incomodo?
-Olá Rosalinda, nunca incomoda. Dormiu bem? Está pronta para sair? Já tenho um plano de trabalho para hoje. Vou pedir-lhe para seguir a Idalina, a mulher do marido desaparecido. As fotos que tirou têm pouca qualidade. Vai tirar outras e quem sabe avançar um pouco mais na investigação. Mas antes vamos tomar o pequeno almoço. Há aqui próximo uma pastelaria, a Sete Colinas. Continuaremos lá a nossa conversa.

Na pastelaria, ainda quase deserta, sentaram-se num local discreto ao fundo da sala.
-O habitual, detective?  perguntou uma jovem, com um largo sorriso.
-Para mim o habitual, para a minha secretária, uma tosta mista e um doce “especialidade da casa”. Ela não precisa de fazer dieta como eu. O colesterol ainda não a acompanha.
-Muito bem, a menina vai gostar do meu bolo “alfacinha”.
Desculpe Rosalinda por ter sido parco em palavras no escritório. Estou cada vez mais convicto que estou a ser escutado. Já dei volta ao apartamento e ainda não encontrei nada. De qualquer modo, tenho de tomar precauções. Por isso vou-lhe dar agora os pormenores. Vamos em táxis separados para junto da habitação da Idalina. A Rosalinda vai segui-la. Eu sigo-a a si. O principal objectivo é ver se apanho o merlo que a andou a seguir a si. Se eu estiver certo, desta vez só sabe metade da operação.
-Então menina Rosalinda que diz do meu doce?
-Só encontro uma palavra: divinal. Voltarei…

O detective e a secretária dirigiram-se para junto da residência de Idalina. Esta saiu de casa às nove e trinta, e caminhou pela avenida da Igreja, em Alvalade, até à estação do metro. JCorreia que as seguia a uma distância segura, não notou nada de anormal. Porém quando Rosalinda  descia as escada do metropolitano, viu sair debaixo das arcadas de um prédio próximo, um indivíduo vestido informalmente, com calças de ganga e blusão de pele. Quando este se dirigia para o metro, jCorreia disparou a sua Polaroid. Na sua observação e na imagem que saiu da máquina fotográfica, pôde ver o rosto do desconhecido, um pouco desfocado.
-Diabos me levem, pensou JCorreia, esta cara não me é estranha.

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« Responder #7 em: Julho 27, 2020, 21:04:35 »

...da queda um passo de dança.... Muito bem, esta dança de gatas...
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« Responder #8 em: Julho 30, 2020, 20:32:05 »

XI
Diabos me levem, pensou JCorreia, esta cara não me é estranha.

JCorreia contactou Rosalinda por telefone. Pediu-lhe para sair na estação seguinte, apanhar um táxi e dirigir-se para o escritório, onde iriam fazer o ponto da situação. Na missão que tinham iniciado estava concretizado o principal objectivo.
Quando Rosalinda chegou, JCorreia analisava o dossiê do caso do marido desaparecido. Comparava a foto que tirara com a que lhe foi fornecida, pela sua cliente. Apesar da má qualidade da imagem instantânea, não havia dúvida, o homem fotografado era o marido desaparecido de Idalina. Na verdade um falso desaparecido. Preferiu, por precaução, não informar Rosalinda. Continuava convencido que tinha a casa sob escuta. Dirigiu a conversa para assuntos pessoais.

-Sobre a operação que hoje executou, disse JCorreia, falaremos mais tarde. Ainda estou a rever a informação. Para já é prioritário resolvermos a sua situação familiar. Em primeiro lugar considero que lhe devo uma explicação. Decerto que se lembra do nosso almoço, na taberna…onde me falou do seu passado e das suas origens.
-Como me podia esquecer, foi um dia especial para mim. Para além do bom momento gastronómico, pude desabafar, fazer um pouco de catarse, sem pagar consulta.
-De psicólogo e louco todos temos um pouco, e foi muito importante também para mim conhecer o seu passado, que afinal já se tinha cruzado com o meu.
-Eu sei, detective. Já me contou o divertido encontro no Rossio, quando eu vendia flores.

-Não se trata disso Rosalinda. Do que lhe quero falar, aconteceu muito antes. Aconteceu quando a Rosalinda era uma criança com pouco mais de um ano, e esteve na aldeia serrana dos seus avós maternos. Hesitei em dizer-lhe até hoje, mas a pessoa que a recebeu, Amélia era a minha mãe. Eu tinha cerca de dez anos e lembro-me de estarem na nossa casa, durante uma semana, até fazer a sua recuperação. O que lhe estou a dizer significa que ainda somos parentes. E resolvi dizer-lhe para reafirmar que para lá de razões humanitárias, a minha preocupação com a sua vida familiar tem motivos acrescidos.

-Nem por sonhos estava à espera de uma notícia dessas, mas é uma boa notícia. Eu era muito pequena e não tenho memórias desse período. Sei da situação, porque a minha mãe me a lembrava frequentemente.

-Nesse ano, talvez, 1956 , o meu pai estava ausente. Nós vivíamos do cultivo da terra, mas nos tempos de menos trabalho nos campos, José, o meu pai, dedicava-se ao contrabando para conseguir melhorar a nossa situação. Entre a sementeira e a monda, entre esta e a ceifa, e entre a ceifa, e a nova sementeira, ausentava-se por cerca de duas semanas. Com o seu companheiro atravessavam a fronteira com um carregamento de café, cedido por um comerciante/ contrabandista. Partiam, altas horas da noite, para não serem vistos pelos guardas da fronteira de um e do outro lado.
Atravessavam o Guadiana a nado, rebocando a carga num saco de lona flutuante. Ao chegaram a Espanha, caminhavam com a carga até chegar à terra de destino, De dia dormiam em sítios isolados, em palheiros, e de noite caminhavam. Ao chegar ao destino entregavam o produto, e recebiam o pagamento. Com a sua parte do dinheiro e para o rentabilizar compravam alguns produtos mais baratos e mais raros que em Portugal, como tecidos, cosméticos, e calçado de baixo preço. Era um trabalho duro e arriscado, mas correu sempre bem, excepto numa viagem, na qual foram abordados quando atravessavam o rio a nadar, no regresso. Primeiro, sentiram o barulho de uma lancha a remos, depois uma voz que lhes era familiar a mandá-los parar. Como instinto de sobrevivência largaram os sacos que rebocavam com os produtos adquiridos. Todo o seu lucro ia nele, assim como a própria roupa. O guarda que os abordou e que nem estava de serviço, parou para recolher os sacos, e deixou-os seguir. Chegaram a casa apenas vestidos com o chapéu na cabeça, onde guardavam o dinheiro do comerciante.
O meu pai precisava dos rendimentos que tirava do contrabando, mas sempre me pareceu que exercia aquela actividade com muito gosto. Podia como outros agricultores encontrar outros trabalhos complementares, como a ida para as ceifas no Alentejo, que eram feitas manualmente. Mau grado o risco, nunca desistiu.
A minha mãe recebeu a prima, renegada pelo pai, que poucas vezes vira e fez o melhor que pôde para vos ajudar. E sei que mantiveram contactos por correspondência, durante muito tempo, e que a sua se mostrou disponível para me receber quando vim viver para Lisboa. Mas preferi manter a minha independência. Agora que por acaso nos reencontramos, podemos restabelecer esses laços familiares, começando por dispensar o tratamento formal. E indo a coisas mais recentes, já pensastes na relação com o teu marido?

-Sei que tenho de voltar a casa. Sou casada com o Damião, e falaremos sobre o nosso futuro, com a certeza que não estarei sozinha.
-Muito bem. Vou então telefonar-lhe para o informar que fostes  libertada, e que pode vir buscar-te. Entretanto vamos analisar as fotos do caso do marido desaparecido.
JCorreia aproximou-se da janela com vista para o rio. No porto havia um movimento desabitual. Carros de polícia. Uma zona fechada.

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« Responder #9 em: Julho 30, 2020, 20:40:11 »

A vida de outros tempos e o contrabando.... Parece uma realidade de outro planeta....Faz-me lembrar outras vivências de que eu desde sempre ouvi contar... a caça ao volfrâmio no tempo da guerra...E pobreza, muita pobreza. Mas agora trata-se de gatas detectives...
« Última modificação: Julho 31, 2020, 11:27:05 por Maria Gabriela de Sá » Registado
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« Responder #10 em: Agosto 02, 2020, 19:27:41 »

As gatas evoluíram, pois claro!
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outono


« Responder #11 em: Agosto 05, 2020, 21:10:19 »



XII

JCorreia aproximou-se da janela com vista para o rio. No porto havia um movimento desabitual. Carros de polícia. Uma zona fechada. Pegou no telefone e ligou para um camarada na PJ.
-Leandro, fala Correia, como vão as coisas'
.-Vão-se  aguentando à bronca…e tu velhote? E a Judite? Quem diria que as gatas já são detectives?
-Pois, tudo evolui, até as gatas! Quero-te pedir uma informação, se for possível. Estou qui no meu buraco a olhar para o rio e vejo grande confusão no porto. Sabes o que se passa?

-Ó Correia não dás ponto sem nó. E eu a pensar, “queres ver que o gajo me vai ligar para tomar uns drinks”…mas tudo bem. Não é assunto para o meu departamento. O que consta é que  é assunto que mete droga. Foi para lá a brigada dos estupefacientes.
-Obrigado Leandro. Sabes que me divorciei do álcool, do tabaco e… Foi duro após um longo casamento. Agora só mamo da teta da vaca. Deixa lá, mas ainda nos podemos encontrar à volta de um bom prato de febras, como nos velhos tempos. Palavra de escuteiro que nunca foi. Até lá não te metas sarilhos.

JCorreia disse a Rosalinda que precisava de sair, e entregou-lhe o dossiê com as fotos do caso do marido desaparecido, para fazer um relatório. Ao sair, pediu-lhe para ter cuidado e não abrir a porta a ninguém. Começou  a descer a rua em direcção ao porto. Pensou em Rosalinda dentro de uma alcofa a snifar seiva de pinheiro, nas margens da ribeira da aldeia. Na ´época passava-lhe um bocado ao lado. Às três da tarde saía da escola, e quando o tempo se libertava das garras do inverno, ia com o seu primo Eliseu, nadar para um pego em forma de piscina, e com pouco profundidade. Foi aí que deu as primeiras braçadas em boa harmonia com a água, apesar de nessa zona, sob a “jurisdição do senhor Palma” pago pelos agricultores, os jovens não serem bem vistos. Depois de despir a farpela e ficar em pelo, estavam sempre de olho no guarda da fruta, que por ali existia. Até que um dia, quando na água mudavam de posição viram um gigante, magro como um cão vadio, com um varapau nas mão. Era o senhor Palma. Fugiu-lhes o sangue para os pés-
-Mas que merda é esta, disse o gigante, não sabem que não se podem banhar-se aqui? Querem levar uma paulada no lombo?
-Nós só viemos nadar, disse Eliseu, não roubamos nada.
-Sei que são bons moços e não vos faço mal, mas ponham-se daqui para fora.

JCorreia riu-se, para dentro, com esta lembrança, por pouco tempo, porque preso no recanto de más memórias, soltou-se das amarras,  a porrada que levava na escola primária. O senhor professor usava a pedagogia do “não sabes levas”. Quando era chamado ao quadro para fazer problemas de matemática, as pernas tremiam-lhe  como varas verdes. Era certo que não se livrava de umas ponteiradas, puxões de orelhas, e voltava como tinha ido, sem perceber patavina. O pior aconteceu no dia em que substituiu a sua sacola de pano, por uma pasta de napa, que o pai lhe trouxe de Espanha, nas suas viagens de contrabandista. Logo a levou todo ufano para a escola. O senhor professor, curioso, quis verificar, abriu-a espreitou  par o interior e disse “bem me parecia”. A seguir Joaquim virou-se para trás para mostrar a pasta, e o professor virou-lhe a cabeça para a frente com linguagem gestual. Resultado: teve de se adaptar a ver só com um olho durante uma semana.
Foi embrenhado nestes pensamentos que o detective JCorreia chegou ao porto. Mostrou o seu cartão de sub-chefe de brigada da PJ, ao polícia que controlava a entrada para a zona reservada. Entrou e logo reconheceu o sub-chefe Carvalho que dirigia as operações.
-O que fazes por aqui Correia. Voltaste ao serviço?
-Gabo-te o humor, pois sabes que não me querem cá. Assim que fiz sessenta anos puseram-me na alheta. Estava ali no meu poiso, na encosta e vi este movimento todo e pensei “Correia vai lá matar saudades”. E então,  afinal que se passa?
-É pá, mais uma apreensão de droga. Há tempo que andávamos a investigar. Veio num cargueiro que estava a descarregar. Já prendemos para interrogatório quatro mânfios. Dois embarcados e dois estivadores. “Pombos correios” que levavam informação aos mandantes. Vamos interroga-los para ver se chegamos aos traficantes.
-F*da-se…., desculpa o palavrão, saiu-me, não reparei que tens aí uma estagiária.
-Não te preocupes agora já nascem licenciadas em palavrão.
-É que conheço um dos merlos que engavetastes. É o marido da minha secretária. Chama-se Damião.

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Maria Gabriela de Sá
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« Responder #12 em: Agosto 09, 2020, 00:33:45 »

E o mistério adensa-se...
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Goreti Dias
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« Responder #13 em: Agosto 10, 2020, 09:22:41 »

Sem dúvida!
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outono


« Responder #14 em: Agosto 12, 2020, 19:48:34 »

 
XIII
É que conheço um dos merlos que engavetastes. É o marido da minha secretária. Chama-se Damião.

JCorreia saíu do porto preocupado. Como daria a notícia a Rosalinda, como reagiria ela? Enquanto se afastava da zona intervencionada pela polícia, avistou no seu horizonte uma figura, que pelo aspecto parecia um sem-abrigo. O seu instinto e a sua experiência alertou-o para uma situação imprevista. O estranho caminhava na sua direcção de forma num andar titubeante. . Ao aproximar-se refreou o passo, parou e abordou-o.
-Senhor, pode dar-me uma ajuda?
Uma enorme barba branca escondia-lhe o rosto, mas o detective reparou que os seus olhos pertenciam a uma pessoa jovem
-Pode ajudar-me…
JCorreia levou a mão ao bolso, sem desviar o olhar dos movimentos do seu interlocutor. Apesar da idade, deu um salto rápido para o lado direito. De imediato, sentiu a camisa a romper-se e a suavidade fria do aço a afagar a sua pele. Fazendo  uso das técnicas de defesa e ataque, que aprendeu quando na juventude praticou boxe amador no atlético Clube da Estefânia, com uma mão paralisou o braço direito do agressor, e com a outra mão cerrada, colou-lhe o estômago às costas. Este largou a faca e dobrou-me com um esgar de sofrimento, misto de dor e falta de ar. O detective tirou um lenço do bolso e baixou-se para apanhar a faca. O atacante procurou recompor-se e afastou-se o mais depressa que conseguiu, ganindo comoum cão assustado. Quando JCorreia acabou de recolher a arma do ataque, já o falso sem-abrigo tinha desaparecido entre os contentores. Ainda pensou se o seguiria, mas abandonou a ideia.. Nessa altura, já a sua mente recuava no tempo, até ao primeira vez que foi ao circo, com os seus avós, onde a cena do homem que atirava facas com os olhos vendados,  a uma mulher presa a um painel,  estava bem nítida.

Os serrenhos desciam em massa ao litoral, como bandos de pássaros, durante a feira anual. Mas como não tinham asas precisavam utilizar os transportes públicos. Joaquim Correia lembrava-se bem dessa aventura, porque duma aventura se tratava para ir, ficar e voltar. Como a carreira normal não chegava para tanto movimento a empresa rodoviária fazia desdobramentos. Os passageiros esperavam com uma paciência de santo que aparecesse uma camioneta para os levar. Com cada autocarro que nascia da curva da estrada exultavam. “É agora”. Mas não era. O veículo passava indiferente ao desespero dos passageiros da feira. Por norma e interesse, primeiro estavam os passageiros de terras mais longínquas. Passava um e outro e outro. Joaquim lembra-se bem.  Os desesperados passageiros decidiam “não passa mais nenhum. Fazemos uma barreira humana”. Decidido e feito, mas tarde de mais. A camioneta bloqueada era a que vinha buscar aqueles passageiros. No regresso.  a mesma canseira. Esperavam e esperavam, até cansar a paciência. Joaquim não se esqueceu. O avô virou-se para o seu grupo e disse para que todos ouvissem “vamos alugar uma camioneta à empresa Pilar” da concorrência, e que não tinha a concessão daquele percurso. Designou-se uma equipa para tratar do assunto. Ainda esta não se tinha afastado cem metros, já estava no local a almejada camioneta da empresa oficial. Parece que as pedras da calçada tinham ouvidos.

Joaquim  lembra-se de tudo. O que ficou sempre mais vivo nas suas lembranças foi o espectáculo do circo com os trapezistas, os contorcionista, os ciclistas, os ilusionistas, os palhaços,  a orquestra a dar suporte e suspense a cada número. O que mais o divertia era a actuação dos "faz tudo” Apareciam entre cada actuação, vestidos com roupas largas e coloridas, e ao mesmo tempo que mudavam os artefactos da pista, divertiam o público com as suas pantominas. Só mais tarde Joaquim percebeu porque se chamavam “faz tudo”. Não faziam parte do elenco artístico. Eram contratados para montar, desmontar as tendas, e dar toda a assistência, a troco de um prato de comida, mas para Joaquim eram verdadeiros artistas. Não é fácil provocar o riso.
 
Após o espectáculo e de um dia cheio de emoções, Joaquim e os avós iam pernoitar a casa de uma parente ou de uma conterrânea, sempre de portas abertas para os receber. Portas abertas para  eles, e a muitos outros em idêntica situação. Joaquim recorda-se  de dormir numa sala, em que a cama era o chão de ladrilhos, escondido por umas mantas.  Não havia um centímetro livre. Encaixado ente a sua avó, e uma moça já mulher, de que ainda sente o calor, dormiu como se estivesse num colchão de penas.

Quando entrou no seu apartamento JCorreia viu Rosalinda sentada na sua mesa de trabalho, a escrever o relatório do caso do marido desaparecido. Tinha sido um dia cansativo, no presente e no passado, e só lhe apetecia estender-se nem que fosse num chão de ladrilhos. Rosalinda, sem levantar os olhos do seu trabalho disse:
-Estou a concluir o relatório que pediste. Depois posso voltar para casa. Tentei ligar ao meu marido, mas não atende.
-Não atende, nem vai atender. Tenho uma notícia desagradável para te dar. Acabei de chegar do porto, onde decorre uma operação da PJ sobre tráfico de droga, e…não sei como dizer…vou ser directo: o Damião foi preso, como suspeito de fazer parte da rede de tráfico de droga. O mais certo é ficar em prisão preventiva. Nesta área os juízes, não dão tolerância-
-Rosalinda perdeu a cor do rosto e levou tempo a reagir:
-Não posso crer? Mas agora reparo tens a camisa cortada, e com sangue, o que se passou?
-Coisa pouca. Vinha a caminhar distraído, e não me apercebi de um fulano com um canivete de ponta e mola aberto. Ainda me consegui desviar. É só um arranhão. Bate chapas e tinta, disse procurando esboçar um sorriso. Quanto ao teu marido irá ser interrogado. Podemos contratar um advogado. E não te aconselho a ir para casa sozinha, enquanto este novelo não for desenrolado. Tenho receio que ainda falte muito. Aqui estás como em casa. Afinal temos laços familiares.
-Não consigo imaginar o Damião nesses assados. Por outro lado e ligando as pontas, agora começo a entender porque trazia cada vez mais dinheiro para casa. Dizia-me que se matava a trabalhar.
-O mistério adensa-se, disse JCorreia. Adensa-se ao ponto de nem o narrador o conhecer.
-Sem dúvida...

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Olá Margarida. Seja bem aparecida.
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Boa tarde a todos
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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