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Autor Tópico: A Gata dos Telhados XXVI  (Lida 2762 vezes)
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #30 em: Setembro 06, 2020, 20:51:55 »

As memórias são como as cerejas. Pena que às vezes só nos sem dos bolsos memórias podres...


Boa continuação
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #31 em: Setembro 12, 2020, 18:50:00 »

XX
Rosalinda regressou com as compras. Estava a anoitecer. Abriu a porta e apenas escuridão e silêncio. JCorreia, dormia a bom dormir, com um charuto apagado na boca. Rosalinda preparou uma refeição frugal à base de saladas. Tinha entrado na casa dos cinquenta. Começava a preocupar-se com a linha.
Acordou cedo. JCorreia continuava a dormir. Parecia estar a recuperar de ins√≥nias acumuladas. Resolveu sair para continuar as investiga√ß√Ķes em curso. N√£o lhe fora atribu√≠da essa tarefa, mas desde que Dami√£o, o marido, fora preso, que parecia ter renascido. Liberta dos deveres dom√©sticos e da clausura marital, estava a ganhar asas para novos voos. Come√ßara a ganhar gosto pela investiga√ß√£o policial e queria deixar de ser uma rotineira secret√°ria.
Dirigiu-se para a seguradora onde trabalhava o marido de Idalina. Perguntou se Ernesto tinha regressado ao trabalho, pois era o seu agente se seguros. A resposta foi taxativa. ‚ÄúDesapareceu sem ter dado qualquer justifica√ß√£o. A sua companheira informou que tamb√©m n√£o sabia qual era o seu paradeiro‚ÄĚ. Para a empresa era caso encerrado. N√£o fazia parte dos seus quadros por abandono de posto de trabalho. Rosalinda tinha-o avistado, junto √† esta√ß√£o do metropolitano de Avalade, no dia em que seguia a sua mulher. Que papel desempenharia neste caso? Decerto que n√£o seria um joker!
Rosalinda subiu at√© ao largo de Cam√Ķes e desceu at√© meio da rua do Alecrim. Procurou um local onde pudesse observar entradas e sa√≠das da empresa Figueira & Laranjeira, impor/export. Ao fim de cerca de uma hora viu sair Idalina com um embrulho na m√£o. Desceu a rua at√© √† esta√ß√£o do Cais Sodr√©, onde entrou. Cruzou-se com um homem a quem entregou o embrulho que transportava e seguiu o seu caminho. Este dirigiu-se para o cais e entrou num comboio que ia partir. Durante uns fugazes segundos viu-lhe a cara. N√£o havia d√ļvida, tratava-se do dito marido desaparecido. Rosalinda sentiu-se confortada. A investiga√ß√£o estava a fazer progressos. Uma facto estava comprovado, Idalina tinha programado o seu desaparecimento, como para negar a sua exist√™ncia. Pensou que Joaquim Correia iria ficar satisfeito.
JCorreia adormeceu com o dia e com ele acordou. Durante as longas horas de sono perdeu um pouco a noção da realidade e achou estranho o ambiente envolvente. Ainda continuava nos anos setenta, na sequência da viagem a Freixo-de Espada-à-Cinta, com o Carlitos. Na sua mente persistia o dia do regresso. A sua vida dera um novo passo. Abamdonara o trabalho precário de vendedor de livros e estava a tirar o curso para ingressar no metropolitano como maquinista. Iria fazer parte dos quadros da empresa, com uma situação mais estável, o que também teve reflexos no seu estado de espírito.
Ao entrar no restaurante onde costumava jantar, viu a actriz Irene, sua vizinha, sentada snuma mesa, sem acompanhante. Com o restaurante cheio, perdeu a vergonha, e perguntou-lhe se se podia sentar. Irene sorriu e disse que sim. Foi o início de uma relação amorosa, livre e sem compromissos. Irene era liberal na política e nos costumes. Tirava o melhor que podia de cada momento. Não lhe interessava qualquer compromisso sério, queria manter a sua independência e a sua liberdade. Para Joaquim Correia foi um período de aprendizagem sobre o mundo do espectáculo. Para além das aparências, apenas uma grande devoção à profissão mantinha muitos deles nessas actividades. Trabalho sempre precário, geralmente mal remunerado. Com excepção de alguns nomes mais famosos, a maioria dos artistas, vivia no limiar da sobrevivência. Joaquim que, em tempos, fora atraído pelas luzes da ribalta, e até fizera um perninha no teatro amador, percebeu essa realidade que estava para além da fantasia. Mas a relação com Irene foi um momento importante que apesar dos altos e baixos, deixou marcas na sua vida. Boa recordação de um tempo ao qual não se importava de voltar.
A campainha do telem√≥vel, trouxe-o de volta √† realidade, como despertador que nos acorda para um novo dia, que de novo apenas tem um n√ļmero no calend√°rio.
-Al√ī, fala Rosalinda.
-Rosalinda? Mas por onde andas? Parece que não te ouço há uma eternidade. E muito menos te reconheço, nesse linguajar abrasileirado. Andas a ver muitas novelas?
-Nem por isso. Enquanto dormes eu trabalho, como me compete,-disse -procurando introduzir na conversa alguma ironia.
-Devo estar dentro de um sonho √Čs mesmo a Rosalinda? Na investiga√ß√£o? N√£o me lembro de te dar nenhuma tarefa.
-Sou a mesma, sendo outra. Acordei cedo, estavas a dormir, e resolvi avançar. Tenho novidades. E vê lá se regressas à real. Toma um banho gelado.
-Caramba Rosalinda, mas que se passa. Deu-te para filosofar? E queres ocupar o meu lugar? Isto parece um golpe de ‚Äúestado‚ÄĚ
-Ora,ora, nunca quis o que não me pertence. . Mas a sério, temos que falar. Porque não vens até ao cais Sodré. Há por aqui sítios simpáticos para almoçar.
-Combinado. Vou tomar um banho para ver se saio do estado catatónico.
JCorreia levantou-se. Sentia a cabe√ßa pesada, e custou-lhe arrastar-se para a banheira. O est√īmago clamava por um anti√°cido. Quando a √°gua quente come√ßou a acariciar-lhe a pele, percebeu porque raz√£o nunca tinha casado. Uma das raz√Ķes era n√£o ter de andar a toque de caixa de uma mulher, que era o que lhe estava a acontecer. Saiu do banho mais aliviado. Dirigia-se para a cozinha quando o telem√≥vel voltou a tocar. Atendeu. Uma voz que parecia vir do fundo de um po√ßo disse-lhe. ‚ÄúTome aten√ß√£o e registe. Tenho informa√ß√Ķes sobre a Idalina que o ir√£o surpreender. Se n√£o quiser ouvir, desligue. Se estiver interessado, ou√ßa sem interrup√ß√Ķes‚ÄĚ.

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« Última modificação: Outubro 03, 2020, 19:11:22 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #32 em: Setembro 12, 2020, 19:52:20 »

E  ouviu ou desligou? rsrsrs
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« Responder #33 em: Setembro 12, 2020, 20:21:04 »

Saudades destas estórias Wink
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outono


« Responder #34 em: Setembro 12, 2020, 20:59:51 »

Goreti, não sei. Quem sabe é o JCorreia, se é que sabe. M
Margarida, também pode ler o "O rapaz do isqueiro assassino" de Gabriela de Sá.
« Última modificação: Setembro 19, 2020, 19:51:59 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #35 em: Setembro 18, 2020, 14:07:54 »

Sem cansaços de maior (teus, não da personagem), siga! Mais de 1300 leituras valem isso!
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outono


« Responder #36 em: Setembro 19, 2020, 19:50:12 »

XXI

JCorreia dirigia-se para a cozinha quando o telem√≥vel voltou a tocar. Atendeu. Uma voz que parecia vir do fundo de um po√ßo, disse: ‚ÄúTome aten√ß√£o e registe. Tenho informa√ß√Ķes sobre a Idalina que o ir√£o surpreender. Se n√£o quiser ouvir desligue. Se estiver interessado, ou√ßa sem interrup√ß√Ķes‚ÄĚ.

Jcorreia clicou no bot√£o desligar. Viera de outro tempo. O que mais o assustava era ser comandado pela tecnologia. E enquanto tivesse poder sobre ela, iria exerc√™-lo. Decerto que a utilizaria para falar com o Doutor Carlos Madeira, da Ordem dos Advogados. Conheceu-o quando frequentou a Faculdade de Direito, que abandonou precocemente. Seguiram caminhos diferentes, mas mantiveram a amizade cimentada nesses tempos. Precisava de informa√ß√Ķes sobre a doutora Laura, e Madeira era a pessoa indicada. Com o telem√≥vel amorda√ßado, entrou na cozinha. Preparou e bebeu um ch√° digestivo para acalmar a ressaca. A luz do sol matinal que lhe entrara portas adentro, como sempre fazia, causava-lhe tonturas. Fechou cortinas e sentou-se. A cria√ß√£o do detective  JCorreia para ocupar a disponibilidade  depois da aposenta√ß√£o, estava a arrast√°-lo para um pesadelo. Pensou que mais valia ter ocupado o tempo a escrever as suas mem√≥rias, ou qui√ß√°, romances policiais. Material n√£o lhe faltava. Mas lia poetas e prosadores e chegava √† conclus√£o que n√£o tinha unhas para tal guitarra. Escasseavam-lhe as met√°foras, n√£o era bem recebido por figuras de estilo. Por isso, quis continuar a ser pol√≠cia.
 O mais curioso √© que ser pol√≠cia nunca fora um sonho. Como em muitas outras coisas do seu percurso, aconteceu por acaso. Apareceu a oportunidade, sentiu que era mais uma rua que se abria e que n√£o se importava de percorrer. Concorreu, foi admitido, fez a forma√ß√£o, e viu-se pol√≠cia. √Äs vezes, pensava que estava no seu ADN. O seu pai fora transitoriamente Guarda Fiscal e o seu av√ī Guarda Republicano. Parecia estar no destino da fam√≠lia.
O seu av√ī, Baltazar Correia, entrara para a GNR depois de ter terminado a Primeira Guerra Mundial. Mobilizado em 1916, para fazer parte do Corpo Expedicion√°rio Portugu√™s, que ia combater para a Flandres, ainda pensou desertar. Para tal contribuiu um oficial antiguerrista da sua unidade militar. Quando foi √† terra, de licen√ßa, com o seu amigo de inf√Ęncia, Baltazar ponderou essa possibilidade. Tinham nascido no mesmo dia, eram companheiros insepar√°veis , quase irm√£os, e at√© namoravam duas irm√£s g√©meas. Na v√©spera do regresso ao quatel o seu amigo foi perent√≥rio.
-Baltazar, já decidiste se voltas? Eu não vou voltar até terminar a maldita guerra.
-Até aquele dia sempre tinham chegado a acordo sobre o que fazer. Baltazar, olhou-o nos olhos com tristeza e disse:
-Amigo, sou republicano desde que me conhe√ßo. Se o governo da Rep√ļblica decidiu ir para a guerra para defender os nossos interesses, estarei presente. Amanh√£ sozinho ou acompanhado regresso ao quartel.
 
Baltazar fez pela primeira vez a viagem at√© ao aquartelamento sem a companhia de Gaspar. Uma viagem a p√© subindo e descendo montes, que lhe pareceu mais longa que o habitual, talvez por a fazer  sozinho. Durante o trajecto assaltava-o uma d√ļvida: quem estava a ser mais corajoso? Ele que ia para uma guerra, ou Gaspar que se assumira como desertor? A solid√£o que se lhe colava √† pele  iria acompanh√°-lo nos anos seguintes.

 O seu regimento ter partido para Tancos a fim de fazer a prepara√ß√£o militar adequada aquele conflito. A viagem para Fran√ßa iniciou-se com o embarque no cais de Alc√Ęntara em 23 de Abril, de 1917,e terminou com a chegada √† frente de combate, ap√≥s uma nova forma√ß√£o militar na Flandres, para adapta√ß√£o √† guerra de trincheiras. Foi um per√≠odo muito complicado. A longa viagem, a falta de organiza√ß√£o do ex√©rcito, a adapta√ß√£o a um clima chuvoso e muito frio.
Para quem vinha de um pa√≠s de clima ameno, aquele frio que gelava corpo e alma, levava-o a pensar que talvez o inferno fosse melhor. Com o tempo, iria perceber, que o inferno s√≥ podia ser ali. A primeira experi√™ncia na linha da frente foi dif√≠cil. As trincheiras do sector entregue aos portugueses n√£o podiam ter mais de um metro de profundidade, por se situarem num terreno pantanoso, tendo de ser completadas com sacos de terra na superf√≠cie. O espa√ßo era ex√≠guo, lamacento, silencioso. Era preciso estar sempre atento ao inimigo. A press√£o f√≠sica e psicol√≥gica era constante. Baltazar que nascera e vivera numa aldeia, e estava habituado a condi√ß√Ķes de vida duras, teve momentos de des√Ęnimo. Ir √† terra de ningu√©m e ver restos de corpos, agoniava-o. Piolhos, pulgas, ratos, estavam sempre presentes. Baltazar nunca se esqueceu do poema musicado, ‚ÄúO piolho do soldado‚ÄĚ que se cantava na frente. Joaquim lembra-se de o ouvir repeti-lo, de vez em quando, cantarolando uma ou outra estrofe:

O piolho l√° na frente
Acompanha toda a gente,
√Č deveras um guerreiro
Quando sente o alem√£o
Ferra logo o seu ferr√£o
E p√Ķe alerta o seu dono.

JCorreia sentia-se um pouco perdido. Interrogou-se se teria seguido o caminho certo, tal como o seu av√ī o seguira, quando decidiu ir combater contra os alem√£es em 1916. A gata Judite apareceu como vinda do nada, e distraiu-o das suas reflex√Ķes.
-Por aqui Judite? Apareces e desapareces quando te apetece, e decerto que n√£o te angustias. Andas a espiar-me? Uma coisa te digo, n√£o vais conseguir captar os meus pensamentos. Que sabes tu das guerras dos humanos? Escaramu√ßas entre gatos comparadas com isso, s√£o brincadeiras. Adiante. Tenho de ir ter com a Rosalinda. J√° estou atrasado. Mas antes de ir vou dar de beber √† dor. Apenas dois goles de ‚Äúvisque‚ÄĚ para ganhar coragem. Tu n√£o viste nada.

Rosalinda estava à sua espera numa pastelaria com vista para o rio. Enquanto aguardava por JCorreia, apreciava o movimento dos barcos a subir e a descer. Este avisara-a que chegaria depois do almoço. Entrou e viu-a a folhear um jornal enquanto bebia o café. Sentou-se. Uma menina com um ar muito jovem perguntou:
-O que vai pedir
-Quero uma meiga de leite, respondeu.
-Não devo ter ouvido bem...é uma meia de leite?
-N√£o. Uma meiga de leite, insistiu.
-Não sei o que é?
-N√£o sabe? Est√° mesmo √† minha frente, novinha e meiga. H√° l√° coisa mais saborosa que uma meiga de leite, para levantar o √Ęnimo, a um quase anci√£o. Com respeito e boas inten√ß√Ķes.
A jovem corou ligeiramente, sorriu e disse:
-Estou a trabalhar, e não costumo brincar em serviço. Só depois de sair.
-N√£o ligue-disse Rosalinda-traga a meia de leite.
A moça afastou-se. Rosalinda falou:
-Que se passa Joaquim? Não te reconheço. Não te conhecia esta faceta. A galantear jovenzinhas? Ainda te acusam de assédio.
-Espantas-me Rosalinda. At√© parece que tens ci√ļmes. Ser√° por o trambolho do teu marido estar engavetado?
-Voltastes a beber, Joaquim? Só pode,
-Admito, e n√£o posso. Mas a barra est√° a ser pesada. Deixa-me disparatar. Se me encontrares com um copo de liquido amarelo, tens campo livre para me dares uma chapada. Mas afinal, quais s√£o as novidades?
Rosalinda, contou-lhe o que tinha descoberto quando seguiu Idalina, a cliente do caso do marido desaparecido. JCorreia, ouviu-a com toda a atenção, e respondeu.
-Fizeste um bom trabalho. No entanto, considero que estamos a seguir uma pista falsa. Esse caso parece-me uma manobra de diversão. Vamos concentrar-nos na doutora Laura. Já marquei um encontro com um amigo da Ordem dos Advogados. Depois, se for o caso, voltamos à Idalina.

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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #37 em: Setembro 19, 2020, 23:02:55 »

Até parece que anda a ver telenovelas onde há maridos desaparecidos, quiçá, mortos...
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« Responder #38 em: Setembro 23, 2020, 19:21:27 »

Pode não ter andado a ver novelas, mas a história dava uma. Bem melhor do que as que tenho visto. São poucas, mas tão más que nem sei se tenho azar ou se é tudo assim.
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outono


« Responder #39 em: Setembro 25, 2020, 19:06:35 »

XXII
-Fizeste um bom trabalho. No entanto, considero que estamos a seguir uma pista falsa. Esse caso parece-me uma manobra de diversão. Vamos concentrar-nos na doutora Laura. Já marquei um encontro com um amigo da Ordem dos Advogados. Depois, se for o caso, voltamos à Idalina. O Carlos Madeira ficou de se encontrar connosco, mais ou menos daqui a meia hora. Vamos esperar.

JCorreia saboreou a meia de leite, trazida pela meiga de leite. Fez silêncio. Concentrou-se no rio e nos barcos, pequenos, grandes, médios, que sulcavam as suas águas. Rosalinda percebeu que o seu primo detective se refugiara na nostalgia que aquele curso de água lhe causava.
-Ol√° Joaquim, ainda c√° est√°s? -  disse Rosalinda
-Estou e n√£o estou. Quando olho para o Tejo, tenho a sensa√ß√£o que estou a viajar, por desvairados espa√ßos e tempos. J√° pensaste, Rosalinda, que segredos  esconde nas suas mem√≥rias milenares. Por este rio navegaram povos mediterr√Ęnicos, povos vindo do Norte, gentes de muitas religi√Ķes e culturas. O Tejo criou esta cidade, acarinhou-a, rejeitou-a, mas nunca a abandonou. Pelas suas √°guas chegaram comerciantes, guerreiros, invasores. Romanos moldaram Lisboa na f√© crist√£. √Ārabes e Berberes adaptaram-na aos ensinamentos do Cor√£o. Cruzados resgataram-na para o cristianismo, no apoio ao fundador da na√ß√£o. Mas por detr√°s destas linhas da grande hist√≥ria, quantas est√≥rias da pequena hist√≥ria, dormem neste belo rio. Felizes, dram√°ticas, tr√°gicas‚Ķ

-Também me vejo nessa história, qual moura encantada, pelo seu amor a um cristão, disse Rosalinda, procurando seguir o raciocínio de Joaquim, o homem despido das vestes de policial.

-Todos nós, com mais ou menos encantamento, fazemos parte dessa pequena história, que se apagará com o nosso desaparecimento. O que se torna perene são grandes feitos. A partida das caravelas para navegar por mares desconhecidos. O seu regresso com riquezas e gentes de outras latitudes. Mas quem deu corpo a essa gesta foram cidadãos anónimos como nós. Pequenos contributos individuais, num esforço colectivo. Um povo que desde a fundação da nacionalidade esteve ligado ao mar.

-√Äs tantas o rio tamb√©m nos observa, - interrompeu Rosalinda, comum  ligeiro sorriso ‚Äď eu e Dami√£o conhecemo-nos num barco que ia de Bel√©m para a Trafaria, de onde segu√≠amos para a praia da Costa. Foi uma atrac√ß√£o instant√Ęnea.
  
O rio assistiu e continua a assistir ‚Äď continuou Joaquim sem se se parecer interessar, pelas viagens da Rosalinda. -  Viveu o cerco dos Castelhanos no s√©culo XIV, viu partir a corte para o Brasil, assistiu √† ida da revoada de jovens para a guerra colonial. Tamb√©m embarquei em Alc√Ęntara para defender os p√Ęntanos da Guin√©. Ainda vejo os len√ßos a acenar no cais, enquanto o barco avan√ßava rio abaixo. Tal como o meu av√ī quando partiu para a Flandres, mas sem len√ßos na despedida, porque estavam proibidas despedidas. Com o meu av√ī, antes de ir para a Guin√©, tivemos uma longa conversa, onde tentou transmitir-me confian√ßa e √Ęnimo.

‚ÄúN√£o costumo falar do assunto, mas como vais para guerra, vou falar da minha experi√™ncia. Quando embarquei para Fran√ßa tinha vinte anos. N√£o sabia se faria a viagem de regresso, se voltaria a ver a fam√≠lia ou a tua av√ī, com quem namorava e com quem esperava casar. Fomos transportados em barcos ingleses at√© Fran√ßa. Depois foram v√°rios dias de comboio at√© √† regi√£o do rio Lys, onde √≠amos combater os "boches". Mal preparados e com mau armamento, fomos colocados na frente, encaixados, entre Divis√Ķes inglesas. Desde a nossa chegada at√© ao in√≠cio do ano de 1918, estivemos nas primeiras linhas, sem substitui√ß√£o. Est√°vamos seis dias na frente, e seis dias na retaguarda, chamada linha da aldeias para descansar. Na ‚Äúfront‚ÄĚ ,como se dizia, o descanso era m√≠nimo. Havia constantes escaramu√ßas.‚ÄĚ

-E calculo que a moral, estaria a ser afectada, ou n√£o, av√ī?

‚ÄúSim, as condi√ß√Ķes que referi, n√£o davam √Ęnimo. Os nossos oficiais tentavam manter a disciplina, o General Tamagnini, comandante do C.E.P. e o General Gomes da Costa, comandante da 2¬™ Divis√£o, visitavam a frente e conheciam as condi√ß√Ķes. Passavam pelas passadeiras de madeira que constru√≠mos para n√£o desaparecermos na lama, e sentiram a dificuldade em equilibrar-se naquele piso molhado e escorregadio. Mas a sua capacidade de ac√ß√£o era limitada pela vontade dos pol√≠ticos que estavam em Lisboa.‚ÄĚ

-Os pol√≠ticos av√ī, decidem as guerras, mas n√£o as combatem. Um te√≥rico militar alem√£o, que escreveu um tratado sobre a guerra, sintetizou o seu pensamento numa frase: a guerra √© a continua√ß√£o da pol√≠tica por outros meios. Porra, eu diria que se existe guerra √© porque a pol√≠tica falhou, e √© incompetente. N√≥s, a arraia-mi√ļda, √© que damos o coiro.

‚Äú√Č verdade Joaquim. Resta-nos tentar sobreviver. Para que servem her√≥is mortos? Em Janeiro de 1918, os ataques dos boches come√ßaram a aumentar. Os bombardeamentos eram constantes, no nosso sector, talvez por saberem  ser o que estava mais fr√°gil. Foram pedidos refor√ßos, prometidos, que nunca chegaram. Al√©m disso, aguent√°mos durante meses sem ceder um mil√≠metro. Na dia 8 de Abril, os alem√£es refor√ßaram as suas tropas em frente ao nosso sector. No dia 9 de Abril, acord√°mos com mais um bombardeamento. A pouco e pouco percebemos que era mais violento.‚ÄĚ

-Os ingleses sempre desvalorizaram essa batalha. Para eles, av√ī, a batalha de La Lys, foi apenas um epis√≥dio de uma invas√£o mais ampla. Mas estudos recentes mostram, que que o ataque ao sector portugu√™s, foi uma estrat√©gia preparada durante meses, com a inten√ß√£o de ultrapassar o rio Lys. O comando ingl√™s tamb√©m foi surpreendido.

"O que sei foi o que vivi. Ao nascer do dia, o bombardeamento  continuava. A nossa linha da frente tinha sido destru√≠da. Eu estava l√° e sobrevivi. Tivemos de recuar para o que se chamava linha B. Come√ßou ent√£o a invas√£o da infantaria inimiga, em pequenos grupos. Penetraram primeiro pelas nossas laterais, onde os ingleses come√ßaram a recuar. N√£o se via um palmo √† frente do nariz devido ao fumo dos disparos, e a um nevoeiro cerrado. O tempo tinha-se aliado aos "boches". Com o recuo ingl√™s, come√ß√°mos a ser atacados pela frente e pela retaguarda. As comunica√ß√Ķes foram cortadas. N√£o havia linha de comando. Era cada um por si.  A √ļnica informa√ß√£o que chegou √† frente, vinda do comando ingl√™s foi: ‚Äúmorrer na linha B‚ÄĚ. Depois  de varridos a metralhadora, lutava-se corpo a corpo. O meu pelot√£o foi passado a baioneta. Sobrevivi com tr√™s companheiros. No meio daquela bagun√ßa, devem ter-nos confundido com alem√£es, at√© pela cor dos nosso fardamento. Conseguimos recuar at√© √† linha da aldeias, exaustos e sem muni√ß√Ķes. Senti que a morte andava por ali, mas ignorou-me. E aqui estou. Espero que aconte√ßa o mesmo contigo, mas faz por isso.‚ÄĚ

-O av√ī sobreviveu, mas houve centenas de mortos, e de milhares de prisioneiros. Do lado alem√£o as baixas ainda foram  maiores. Ao contr√°rio do que conta a hist√≥ria inglesa, a resist√™ncia do sector portugu√™s foi fundamental para que os alem√£es n√£o chegassem onde pretendiam. E deu tempo aos ingleses para refor√ßarem a retaguarda.

‚ÄúEu sei Jos√©. No fim do dia 9 ainda se combatia naquele sector. Os alem√£es tinham sido treinados, como n√≥s, como m√°quinas de guerra, e como n√≥s, matavam para n√£o morrer. Fui feito prisioneiro ao anoitecer, mas a batalha continuou nos dias seguintes.‚ÄĚ

 Rosalinda reparou num homem que entrou na pastelaria, e estava a olhar para a mesa onde se encontravam. Parecia ter, mais ou menos, a sua idade. Alto e magro, cabelo encaracolado, com a cara semiescondida nuns √≥culos escuros, podia ser um agente secreto vindo do Norte da Europa. Aproximou-se.

-Boa tarde. Bons olhos te vejam Joaquim. Depreendo que a tua acompanhante seja a Rosalinda.
-Viva-respondeu JCorreia-obrigado por vires. Apresento-te a Rosalinda, ao vivo.
-Muito gosto ‚Äúsenhorita‚ÄĚ. O Joaquim j√° me tinha falado de si, mas excedeu as minhas expectativas. √Č muito bonita.

Perante o embaraço de Rosalinda, JCorreia interferiu.
-Rosalinda, o meu amigo Carlos, sempre foi um sedutor. Na faculdade nem te conto. E é mais homem de galão bem escuro, que de meiga de leite, mas é um cavalheiro.
-Obrigado, pelo galanteio - respondeu Rosalinda - j√° recuperada do impacto. E obrigada por se ter interessado pelo assunto do meu marido, fez quest√£o de frisar.
-Quem se interessa por esse caso,-disse Carlos-√© a doutora Laura Castro. O meu papel, a pedido do Joaquim, √© confirmar que ela √© nossa associada, e que exerce  advocacia.

-E que mais podes acrescentar?-perguntou JCorreia
-O que sei √© que √© uma boa profissional. Foi uma das melhores do seu curso - enfatizou Carlos. Consta que teve uma inf√Ęncia dif√≠cil. Foi criada apenas pela m√£e, que parece que esteve ligada √† prostitui√ß√£o e consumo de drogas, acabando por se reabilitar. A entrada para Direito est√° relacionada com um desejo da sua m√£e. N√£o sei muito mais. Ela evita falar do passado.
-Obrigado mais uma vez doutor Carlos. Irei aceitar a oferta da doutora Laura para assumir a defesa do Dami√£o.
-Posso fazer-lhe um pedido, Rosalinda? Trate-me apenas por Carlos. Para mais é familiar do Joaquim. Somos amigos há muitos anos. E a propósito quando é que fazemos uma patuscada, extensiva à Rosalinda?
-Havemos de combinar.

Quando Carlos saiu, Joaquim olhou para Rosalinda, e deu uma gargalhada.
Qual √© a gra√ßa? ‚Äď disse Rosalinda procurando manter-se calma.
-A gra√ßa, Rosalinda , √© que parece que arranjaste um pretendente. Se calhar o Dami√£o tem raz√Ķes para ser ciumento.
-Pretendente ou não, acho-o atrevido e pretensioso. Sou casada, e mesmo que não fosse, não estou em saldo - disse Rosalinda -denotando alguma irritação.

-Claro. Viramos a p√°gina.-- conclu√≠u JCorreia, para encerrar o assunto -  Acabei de receber uma mensagem. Diz assim.

J√° telefonei e desligou-me a chamada, mas vou dar-lhe a informa√ß√£o. √Č do seu interesse. Idalina e Ernesto n√£o s√£o casados, nem podem. S√£o irm√£os. Viviam juntos e faziam-se  passar por um casal. Agora se era a s√©rio ou a fingir n√£o sei. Talvez lhe interesse descobrir, se n√£o for detective de faz-de-conta.

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« Responder #40 em: Setembro 25, 2020, 20:35:14 »

Não há aqui um erro histórico?

"Em Janeiro de 2018, os ataques dos boches come√ßaram a aumentar. Os bombardeamentos eram constantes, no nosso sector, talvez por saberem  ser o que estava mais fr√°gil."

Abraço
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« Responder #41 em: Setembro 25, 2020, 21:31:49 »

Existe um erro, e bastante evidente. S√≥ podia ser 1918. Li e reli o texto, e escapou-me. Obrigado pela leitura e pelo aviso. Est√° contratada para revisora.  :fixe:
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« Responder #42 em: Setembro 25, 2020, 21:58:25 »

Abraço...
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« Responder #43 em: Setembro 26, 2020, 16:37:53 »

Faz de conta que é detetive? esperemos que não. A menos que mude o rumo à história de forma importante ou necessária.
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outono


« Responder #44 em: Outubro 03, 2020, 19:10:09 »

XXIII
J√° lhe telefonei e desligou-me a chamada, mas vou dar-lhe a informa√ß√£o. √Č do seu interesse. Idalina e Ernesto n√£o s√£o casados, nem podem. S√£o irm√£os. Viviam juntos e faziam-se  passar por um casal. Agora se era a s√©rio ou a fingir n√£o sei. Talvez lhe interesse descobrir, se n√£o for detective de faz de conta.

Rosalinda e JCorreia ficaram em sil√™ncio, n√£o tanto pelo conte√ļdo da mensagem, mas por estranhar a insist√™ncia de algu√©m que teimava em interferir nas suas investiga√ß√Ķes. JCorreia sentiu-se um pouco perdido, com a sensa√ß√£o que andava √†s voltas dentro de um labirinto. Olhou para Rosalinda e disse:
-Vamos sair daqui. Precisamos de reexaminar todos os dados e fazer uma reflex√£o.
-Concordo, respondeu Rosalinda, mas antes precisava de passar pela minha casa, para ir buscar mais alguma roupa.

Anoitecia quando chegaram o apartamento de Rosalinda. Um céu cinzento prometia chuva depois de um prolongado estio. Ao entrar no quarto, Rosalinda, emudeceu e ficou paralisada. jCorreia apercebeu-se e perguntou com alguma preocupação.
-Que se passa?
-Não acredito, respondeu Rosalinda, mal conseguindo articular as palavras. Vem ver. Está tudo virado do avesso. Alguém entrou e deu volta a tudo.
-Não há sinal de arrombamento- comentou JCorreia- portanto quem veio, tem a chave da porta ou é especialista em abrir fechaduras. De qualquer modo, não deve voltar, quer tenha ou não encontrado o que procurava. Vê se falta alguma coisa.
Depois  de terem observado todas as divis√Ķes, encontraram a mesma situa√ß√£o. Numa primeira observa√ß√£o Rosalinda pareceu-lhe que n√£o faltava nada.  Portanto o motivo n√£o fora o roubo. Tudo apontava, √† primeira vista, para assunto relacionado com o Dami√£o e o seu envolvimento no que est√° a ser acusado.
- N√£o mexas em nada - disse JCorreia -  lembrando-se da sua experi√™ncia de investigador policial.

Enquanto Rosalinda preparava um bacalhau no forno com migas alentejanas, JCorreia sentou-se na sua secret√°ria e consultou os dossi√™s das investiga√ß√Ķes que estava a fazer, acrescentando os √ļltimos dados. Ao mesmo tempo, tentou encontrar algum sentido para os casos que tinha em carteira, procurando estabelecer pontos de contacto. O caso do marido desaparecido, que n√£o desaparecera, a estranha empresa de import/export, onde trabalhava a sua esposa que n√£o o era, a misteriosa e esquiva Gata dos Telhados, (que soubera do rapto de Rosalinda e ajudara no seu resgate), a pris√£o de Dami√£o, a generosidade da advogada Laura.  Parecia ser um puzzle de dif√≠cil resolu√ß√£o. Sentia-se bloqueado, como num beco sem sa√≠da. Seria um detective de faz de conta, como o desafiara o autor da mensagem an√≥nima?  Da sua experi√™ncia de vida, da sua actividade profissional sabia que n√£o existia perfei√ß√£o. Como costumava dizer um inspector da sua sec√ß√£o da PJ que gostava  de filosofar, quando as investiga√ß√Ķes andavam √†s voltas, como c√£o atr√°s do rabo, justificava-se:  ‚Äúperfeito √© Deus, mas n√£o faz investiga√ß√Ķes‚ÄĚ. Mais,  naquele momento sentia que n√£o passava de uma personagem de um romance, manipulada por um autor delirante, tamb√©m perdido no labirinto que constru√≠ra.

Rosalinda aproximou-se para informar que o bacalhau no forno estava quase pronto, e concentrou-se na estante onde JCorreia guardava os livros que fora comprando durante a sua vida. Predominavam edi√ß√Ķes j√° bastante antigas.  O detective despertou das suas divaga√ß√Ķes e perguntou, com alguma ironia.
-Então Rosalinda que te atrai na estante? A desarrumação ou o interesse por algum livro? Desculpa a minha curiosidade, mas nunca te vi com esse interesse.
-N√£o √© bem assim Joaquim, tenho observado a tua estante, n√£o tanto por causa dos livros, com os quais nunca tive muita proximidade, pelas circunst√Ęncias da vida, mas pelas fotos que a√≠ est√£o expostas. Chama-me a aten√ß√£o especialmente a foto desse senhor idoso, vestido de militar. Nunca tive coragem de perguntar quem era, por receio de invadir a tua privacidade.
-Os livros-respondeu Correia-são os meus amores. Amores sinceros. Nunca me traíram e muito me têm ensinado. Tenho aqui todos os clássicos da nossa literatura, e muitos da literatura estrangeira. Dos autores mais recentes, Saramago, Lobo Antunes, Erico Veríssimo, Jorge Amado, Modiano, Vargas Llosa, Garcia Marquez, entre muitos outros sem desprimor.
Tirou um livro da estante, mostrou-o a Rosalinda, e comentou.

-Este livro chama-se ‚ÄúCem Anos de Solid√£o‚ÄĚ. Foi-me oferecido em meados dos anos setenta, como prenda de anivers√°rio, por colegas da faculdade de Direito. Tem uma dedicat√≥ria muito sentida. Marcou-me muito. Uma hist√≥ria que li e reli, e que foi a base  de um trabalho na Universidade. Tive ao longo da minha exist√™ncia v√°rios v√≠cios, mas o da leitura √© o v√≠cio supremo. E ao contr√°rio de outros, liberta e n√£o faz mal √† sa√ļde. Dev√≠amos experiment√°-lo  Rosalinda, acredito que ias gostar. Quanto √† foto do senhor vestido de militar, e com um bigode farfalhudo, √© o meu av√ī Baltazar, depois de voltar da guerra.

Durante a refeição, JCorreia retomou a conversa sobre a fotografia que despertara a curiosidade de Rosalinda.
-Quando nos sentamos para comer n√£o nos lembramos dos que n√£o t√™m comida, e ainda s√£o muitos. O meu av√ī, viveu paredes meias com a fome, durante os meses em que viveu no campo de concentra√ß√£o  de Duelmen,  depois  de ter sido feito prisioneiro pelos alem√£es. Os prisioneiros portugueses , no sequ√™ncia da batalha de La Lys,  viviam  em p√©ssimas condi√ß√Ķes. O meu av√ī, costumava comentar que a falta de alimentos de que algumas pessoas carecem, √© uma brincadeira comparada com o que se passou nesse campo.

‚ÄúVi morrer muita gente, Joaquim, depois de terem passado por entre as balas, e de terem resistido ao ataque dos gazes.  No campo onde estive, os portugueses eram os √ļnicos que n√£o recebiam alimento do exterior.
Os franceses e os ingleses, recebiam todos os dias ra√ß√£o, proveniente do seu pa√≠s, com base num acordo ente os pa√≠ses em guerra. N√≥s √©ramos alimentados com o escasso p√£o fornecido no campo, e que os franceses utilizavam como combust√≠vel para se aquecer. Eu tive sorte porque utilizei a minha profiss√£o de sapateiro para conseguir enganar a fome. Arranjava o cal√ßado de prisioneiros de outros pa√≠ses, e recebia como pagamento comida par me manter vivo, e para ajudar outros  prisioneiros. O mesmo n√£o aconteceu com um n√ļmero elevado de camaradas, que acabaram por sucumbir. Mal alimentados n√£o resistiam a um simples constipado.
Os que viveram para contar, como eu, tiveram a sorte de ser ajudados, por soldados de outros pa√≠ses. A temperatura era outro inimigo, em instala√ß√Ķes de madeira sem nenhum conforto. A roupa era a que t√≠nhamos no corpo, e se a tir√°ssemos para lavar, acab√°vamos  por a vestir ainda h√ļmida. Os alem√£es tamb√©m nos utilizavam em diversos trabalhos. A vida no campo era muito dura. O risco de vida imediato n√£o estava presente como na frente de combate, mas o perigo de uma morte lenta, dependia do tempo que ali estiv√©ssemos.
Depois da guerra terminar ainda fic√°mos algum tempo √† espera de negocia√ß√Ķes do nosso governo com os alem√£es e da disposi√ß√£o dos ingleses para fornecerem o transporte para o regresso.  Quando cheguei √† aldeia, a minha m√£e n√£o me reconheceu de imediato.

Nem estava à minha espera. Não fora informada da minha prisão, fazia parte do rol dos desaparecidos, o que queria dizer que tinha ido desta para melhor. Mas a tua avó continuava a esperar-me, apesar da tentativa dos seus pais para a casarem com outro. Não queriam que casasse comigo
.

-A minha m√£e tamb√©m passou muitas dificuldades, como sabes, mas nunca nos deixou passar fome - disse Rosalinda -  e mudando de assunto perguntou: ent√£o o que achas do meu bacalhau?
JCorreia esbo√ßou um sorriso de aprova√ß√£o e n√£o respondeu porque  foi interrompido pela campainha do telefone. Levantou-se para atender:
-Est√°?
-Fala Laura de Castro. Podem vir amanhã às dez horas, ao meu escritório, para continuarmos a nossa conversa?
-Est√° bem doutora. L√° estaremos, disse JCorreia depois de olhar para Rosalinda.

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margarida, plenamente de acordo.
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Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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