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Autor Tópico: A Gata dos Telhados XXIX  (Lida 6269 vezes)
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Goreti Dias
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« Responder #60 em: Novembro 16, 2020, 16:01:24 »

Assisti e participei de muitas matanças de porco. Lá tinha que ser... Um dia correu-me mal!
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Goretidias

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outono


« Responder #61 em: Novembro 19, 2020, 20:54:42 »

XX
- Lamento, advogada, a situação que descreveu. Por acaso, a Rosalinda também passou por um processo idêntico, e ultrapassou. Ainda hoje foi numa missão algo complicada. amos ver como se sai. Depois falará consigo.

Laura de Castro saiu da Penitenci√°ria com a convic√ß√£o que Dami√£o era um filho da puta. Um indiv√≠duo que maltrata o seu semelhante, valendo-se do seu maior poder, n√£o merece outro ep√≠teto. Neste caso, era a sua pr√≥pria mulher, a v√≠tima,  mas se fosse outra pessoa indefesa merecia-lhe o mesmo rep√ļdio. A sua m√£e, hoje empres√°ria de sucesso, mas que vivera tempos muito dif√≠ceis, procurara dar-lhe uma educa√ß√£o, baseada na fraternidade e no respeito pelos semelhantes. O pai, de quem ostentava o apelido, e que com a m√£e continuara casado, mesmo depois da separa√ß√£o que ele for√ßara, pondo-a fora de casa, n√£o era o seu pai biol√≥gico. A m√£e, nunca lhe quis dizer quem era, limitando-se a informar que  resultara de um encontro fortuito, que queria esquecer.

Ainda tinha mem√≥rias de viver na casa de uma ama, onde recebia a visita da m√£e, que lhe ocultava a sua profiss√£o. Veio a saber mais tarde que vivia  da prostitui√ß√£o, de onde tirava proveitos para se sustentarem. J√° frequentava a escola quando passou a coabitar com a m√£e, num apartamento da outra margem da cidade. O pai, que n√£o era, morreu de doen√ßa incur√°vel, e nunca fez testamento. Deste modo Aida, a sua m√£e, casada com comunh√£o de bens, herdou todo o patrim√≥nio, o que lhe permitiu refazer a sua vida.
Apesar de as ter expulsado de casa, quando ainda vivia na barriga da m√£e, e de nunca o ter conhecido, compreendia as suas raz√Ķes, e tinha-lhe mais respeito, de que ao desconhecido pai biol√≥gico, que considerava t√£o filho da puta, quanto Dami√£o. Sabia pela experi√™ncia da pr√≥pria vida, que o amor e o √≥dio, eram extremos que se tocavam. Sentiu depois desse encontro com o marido de Rosalinda, uma vontade quase obsessiva de conhecer, desejo que sempre tivera, o seu verdadeiro pai, para lhe testar a consci√™ncia se a tivesse. Foi com este pensamento que chegou √† f√°brica, onde Aida, estava reunida com uma equipa de designers, tendo em vista o lan√ßamento de uma nova colec√ß√£o.

Aida quando a viu entrar, notou no seu semblante, um ar de preocupação, e interrompeu a reunião para a receber.
-Que cara Laura? ‚Äďdisse ‚Äď que se passou?
- Peço desculpa mãe, por te interromper. Estive reunida com o preso acusado de tráfico de estupefacientes, na Penitenciária. Não aceitou os meus serviços de advocacia, insultou a mulher, o detective, e acabou por me faltar ao respeito. Isso, em si, não me incomoda, mas fez despoletar no meu íntimo, um sentimento de vingança, em relação a muitas injustiças, incluindo as de que nós fomos vítimas. Quer gostes ou não, estou decidida a saber quem te engradivou e a seguir nos deixou.
- Laura ‚Äď respondeu Aida ‚Äď n√£o alimentes desejos de vingan√ßa. Remexer nesse passado, n√£o vai alterar nada. A responsabilidade do que aconteceu tamb√©m foi minha. Talvez um erro de juventude. Contratei JCorreia, porque quero fazer justi√ßa, n√£o em rela√ß√£o √† minha vida pessoal, mas a amigas que n√£o mereciam o que lhes aconteceu.
- Compreendo e apoio o teu objectivo, mas quer queiras quer não, estou determinada a avançar. JCorreia talvez me possa ajudar.
- √Čs teimosa Laura. JCorreia foi um investigador policial que, enquanto agente da PJ, esteve ligado a processos importantes, e que redundaram em fracassos investigat√≥rios. Hoje, n√£o passa de um pobre diabo, que quer continuar a brincar aos pol√≠cias. Apesar disso, considero que me pode ajudar no meu plano de fazer a justi√ßa que nunca foi feita, pelo conhecimento que tem desse passado. Foi uma promessa que fiz , em nome das v√≠timas de um assassino sem sentimentos. Sabias qual foi o primeiro grande processo a que esteve ligado. Foi ao caso que ficou conhecido como FP25.
- Pelo que vejo, a m√£e est√° bem informada sobre o percurso do detective.
- Sim, a partir do momento em que nos cruz√°mos, no processo das FP25. O movimento For√ßas Populares de 25 de Abril, formados por militantes da extrema-esquerda, foi fundado em 1980, para combater o sistema parlamentar e capitalista, designa√ß√£o que davam ao regime sa√≠do da revolu√ß√£o de Abril. Pretendiam instalar um sistema basista de democracia popular. Apresentaram-se com rebentamento de petardos em todo o pais, assassinatos selectivos, de policias e empres√°rios, assaltos a bancos, como forma de financiamento. Era ent√£o uma jovem empres√°ria, que procurava salvar a empresa que herdara do meu ex-marido. Sofri amea√ßas desse movimento, relacionadas com eventuais despedimentos de trabalhadores. Foi durante a chamada opera√ß√£o Orion, em 1984, que me cruzei com o ent√£o agente Correia da PJ. Esteve na empresa como elemento da brigada antiterrorista, para recolher informa√ß√Ķes sobre as amea√ßas que t√≠nhamos recebido. A opera√ß√£o Orion que come√ßou com pris√Ķes no Porto, alargou se a todo pa√≠s, o que permitiu, prender muitos operacionais, embora n√£o tivesse levado ao seu desmantelamento. Foi quando foi preso e acusado o coronel Otelo, estratega do 25 de Abril, que sempre recusou pertencer √†s FP25. Depois voltar√≠amos a cruzar-nos no caso das prostitutas assassinadas. Tem, como podes ver, conhecimento sobre esses processos.


JCorreia retirou da garagem o seu velho MG descapot√°vel, uma rel√≠quia que comprara nos anos setenta, e que considerava uma, a das suas joias da coroa. Desceu at√© ao porto e viajou ao longo da marginal. Pareceu-lhe que regressava ao passado, a um tempo em que a vida n√£o lhe pesava, e ia at√© ao casino do Estoril, derreter umas moedas, e procurar algum encontro ocasional. Percorreu a devagar a dist√Ęncia at√© ao Estoril, procurando fruir a paisagem, onde o rio e o mar se entrela√ßavam num casamento eterno. O seu destino, n√£o era o casino, mas uma casa rosa, disfar√ßada, numa rua discreta. Estacionou o MG, e esperou. Tinha a percep√ß√£o, quase a certeza, que seria um lugar ligado a abusos sexuais.

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« Responder #62 em: Novembro 22, 2020, 21:19:41 »

As FPs 25 de má memória, mas a direita reacionária de memória idêntica . E depois, os arrependidos... Enfim, coisas da História.
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #63 em: Novembro 26, 2020, 20:34:12 »

XXI
O seu destino, não era o casino, mas uma casa rosa, disfarçada, numa rua discreta. Estacionou o MG, e esperou. Tinha a percepção, quase a certeza, que seria um lugar de abusos sexuais.

Ernesto Boavida viu o MG estacionado e estranhou. Tinha do seu lado duas raz√Ķes: naquela rua perif√©rica viviam sempre os mesmos carros; aquele MG antigo, al√©m de ser uma viatura que n√£o se via a circular, n√£o fazia parte do cen√°rio. Era um intruso. Quando se aproximou, viu sair do seu interior, uma personagem, para ele t√£o desconhecida como o ve√≠culo. Era um homem vestido com umas cal√ßas de ganga, bastante usadas, uma t-shirt amarela, e um blazer azul. Um rosto indefinido, de onde sobressaiam uns √≥culos escuros de tipo ‚Äúraiban‚ÄĚ. Uma boina basca disfar√ßava-lhe o couro cabeludo. √Ä primeira vista pareceu-lhe uma personagem, algo ex√≥tica, sa√≠da dos anos sessenta. Juntamente com o carro dava a ideia de ter regressado de outra realidade. Quando passava ao lado do MG, tentando mostrar descri√ß√£o, o desconhecido deu um passo em frente, soltou uma baforada de fumo, que lhe pareceu ser de charuto, e ouviu-o dizer, numa voz firme:

- Senhor Ernesto, d√°-me um minuto do seu tempo?
Ernesto paralisou, e interrogou-se se n√£o estaria a ter alucina√ß√Ķes.
- Sou JCorreia, detective privado, e precisava de lhe dar uma palavrinha.
- JCorreia, o detective, que costuma ter o an√ļncio no DN? Muito gosto. Acredite ou n√£o , sempre gostei de conhecer um detective de carne e osso. Conhe√ßo muitos detectives mas s√£o todos feitos de papel e tinta, e cuja a√ß√£o decorre em p√°ginas de livros. Gosto particularmente de um chamado Dennis McShade, (Mulher e Arma com Guitarra Espanhola) pseud√≥nimo do escritor portugu√™s Dinis Machado, que se tornou conhecido pelo romance, ‚ÄúO que diz Molero‚ÄĚ.  Abandonou a escrita, com muita pena de Lobo Antunes, seu amigo pessoal, que lhe reconhecia, grande talento. Mas voltemos √† realidade. A que devo a honra de me querer falar?
-  Obrigado  pela disponibilidade. Tamb√©m sou um detective de papel. Acabou de dizer que me conhece das p√°ginas de um jornal. Quero apenas fazer-lhe umas perguntas, relacionadas com o seu desaparecimento‚Ķ
- Desaparecimento? Interrompeu Ernesto, mostrando surpresa.
- Foi o que me disse a Idalina, sua mulher, que me encarregou de o procurar.
- A Idalina? Deve estar a gozar consigo, como gozou comigo. Julgava-o mais perspicaz. Essa grande cabra sabe que nunca desapareci. abandonei-a para n√£o fazer um disparate. Enrolou-se com o gerente da empresa onde trabalha, um tal Janu√°rio Brilhante. P√īs-me os chavelhos, percebeu. E desconfio que n√£o foi o primeiro. Culpa minha. Juntei-me com ela, apesar de todos os avisos ‚Äúessa gaja n√£o √© de confian√ßa, j√° tem historial‚ÄĚ. Estava cego e surdo. Sabe como √©, a carne √© fraca, a garina era jeitosa, bem, e na cama, uma louca.
- Chega ,senhor Ernesto, n√£o preciso de mais pormenores. Se estiver interessado h√° por a√≠ muita literatura er√≥tica. Se bem percebi, o senhor ‚Äúdeu de frosque‚ÄĚ e ela teve essa percep√ß√£o.
- Claro que soube. Disse-lhe na cara. Disse-lhe o que Maomé não disse do toucinho. Sou um cabrão, mas com a alma lavada. O que me apeteceu foi…enfim…não quis estragar a minha vida por causa de uma puta. Fiz o que tinha que fazer. Um homem tem a sua dignidade.
- Ent√£o tenho que concluir que a Idalina me mentiu. H√° uma coisa que n√£o percebo, porque raio me encarregou do encontrar. E h√° outra coisa que gostaria de saber: mora ou trabalha nesta vivenda rosa?
- Mudei-me para aqui. ‚Äď disse  Ernesto , ap√≥s uma breve reflex√£o. - Refiz a vida. A minha vontade era ter emigrado, para n√£o voltar a ver as fu√ßas dessa gald√©ria.
- Muito bem, vou fazer o relat√≥rio, entrega-lo √† Idalina, e encerrar o caso. Agrade√ßo  a sua colabora√ß√£o. As minhas desculpas pelo tempo, que lhe ocupei.

Laura, embora nos anos oitenta fosse uma crian√ßa, e a pol√≠tica n√£o fizesse parte do seu mundo, lembrava-se vagamente da exist√™ncia das FP25, devido √† sua mediatiza√ß√£o. Na sua mem√≥ria conservava registos de viol√™ncia, bombas, atentados, persegui√ß√Ķes pol√≠ticas, sem muita no√ß√£o de quem as praticava e quais as motiva√ß√Ķes. Mais tarde, percebeu que essa viol√™ncia esteve ligada √† extrema esquerda mas tamb√©m √† extrema direita. E como estudante de Direito conheceu em pormenor todo processo, incluindo a opera√ß√£o Orion de que a m√£e lhe falava. E que foi poss√≠vel √† PJ, entrar dentro da organiza√ß√£o, conhecer membros e ac√ß√Ķes programadas gra√ßas aos chamados ‚Äúarrependidos‚ÄĚ que passaram a informadores da pol√≠cia. Era uma adolescente quando aconteceu a morte das prostitutas, por um assassino que nunca foi descoberto. Seguiu o processo de perto por as v√≠timas serem conhecidas da sua m√£e, que na altura se interessou por ajudar a resolver o caso. Aida mantinha amizade com Maria Jos√© que conhecera no tempo em que vivera naquele meio. Foi uma das testemunhas ouvida pelo inspector coordenador, da equipa de seis elementos, designada para investigar os crimes, V√≠tor Campos. Ficou muito desiludida com o rumo das investiga√ß√Ķes. Nem pistas, nem ind√≠cios. Nada. Estava convicta que o assassino estava vivo. E faria tudo para o encontrar. A utiliza√ß√£o dos servi√ßos do detective privado, o √ļnico dessa equipa, o ent√£o subinspector Correia, que ainda continuava ligado √† actividade investigat√≥ria, era fundamental. Laura decidiu n√£o carregar na tecla, da descoberta de quem era o seu pai. Continuaria a ajudar a m√£e na sua inten√ß√£o de fazer justi√ßa. Como se diz, "uma m√£o leva a outra e as duas lavam o rosto"Quem sabe se n√£o se aplicariam ao seu desejo.

JCorreia despediu-se de Ernesto Boavida, com um ‚Äúfique bem‚ÄĚ. Estava convicto que lhe estava a mentir. Quis dar-lhe a ideia que acreditava no que lhe dissera.  N√£o podia espantar a ca√ßa. Meteu-se no velho MG com destino a Lisboa. Ao passar perto do casino lembrou-se da √ļltima vez que ali estivera como jogador. Foi numa noite chuvosa de Mar√ßo de 1975. Saiu da hospedaria onde vivia, depois de jantar, com destino a Pa√ßo de Arcos, onde vivia Irene, que alugara um apartamento com uma colega, numa nova urbaniza√ß√£o pensada para gente nova. Irene e a sua amiga n√£o lhe abriram a porta. Apercebeu-se que estavam acompanhadas. Foi ent√£o que decidiu ir para o Estoril, onde entrou no casino. A sala de slot machines estava quase cheia. V√°rias filas de m√°quinas ocupadas por viciados ou desesperados como era o seu caso. Quando saiu j√° noite velha, n√£o tinha um tost√£o no bolso. Azar no amor, sorte no jogo, uma ova. Uma chuva forte n√£o dava descanso ao limpa para brisas. Numa marginal quase deserta carregou a fundo, no acelerador do seu ‚Äúmini‚ÄĚ. Lembra-se de ultrapassar v√°rios carros numa correria louca, mas chegou inteiro a casa. Irene ficara, de vez, para tr√°s. No dia seguinte, o Processo Revolucion√°rio em Curso, daria mas um passo no caminho da radicaliza√ß√£o, depois do RALIS ser atacado por for√ßas spinolistas. Para Joaquim Correia, na fase pol√≠tica, funcionou como um antidepressivo para o seu desencanto.

O MG, uma raridade, atraía olhares de mirones à sua passagem, perante a indiferença de JCorreia, embrenhado nos seus pensamentos. Ao aproximar-se do seu apartamento, pensava no que Rosalinda descobrira, para poder ligar às pontas que resultaram do seu encontro com Ernesto.
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« Responder #64 em: Dezembro 01, 2020, 21:34:26 »

Vamos l√° prosseguir cm este romance t√£o diversificado...

Abraço
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outono


« Responder #65 em: Dezembro 02, 2020, 21:50:06 »

XXII
O MG, uma raridade, atraía olhares de mirones à sua passagem, perante a indiferença de JCorreia, embrenhado nos seus pensamentos. Ao aproximar-se do seu apartamento, pensava no que Rosalinda descobrira, para poder ligar às pontas que resultaram do seu encontro com Ernesto.

Quando entrou no seu apartamento JCorreia encontrou Rosalinda, junto ao fogão, bem disposta e a cantarolar uma canção em voga em ritmo de fado, enquanto preparava a refeição que compensava um dia de trabalho produtivo. Recebeu-o com um largo sorriso.
- Bons olhos te vejam Joaquim. Estava a ficar preocupada. Liguei-te várias vezes para o telemóvel, sempre desligado.
-  Agrade√ßo a preocupa√ß√£o, respondeu Joaquim, um pouco emocionado. Um solit√°rio assumido e com la√ßos familiares cada vez mais restritos, n√£o espera que  algu√©m se preocupe com a sua pessoa. Mas n√£o me queixo, foi esta a minha op√ß√£o de vida. √Č o pre√ßo a pagar quando se privilegia a liberdade pessoal. Eu sei que o ser humano √©, por natureza, um ser social, e n√£o fujo √† regra, mas por necessidade, ou por acaso, sacrifiquei a constitui√ß√£o de uma fam√≠lia, com mulher, filhos, netos, rotinas, a uma independ√™ncia, sem compromissos. Reflex√Ķes filos√≥fico/sentimentais √† parte, ficas avisada que em trabalho, estou ausente do que n√£o estou a fazer. Evito interrup√ß√Ķes. Telem√≥veis ligados s√≥ atrapalham. E afinal o que est√°s a cozinhar? O cheiro j√° me est√° a fazer subir a testosterona.

- Tem maneiras Joaquim. Depois da lenga lenga sobre a solid√£o, arriscas-te a n√£o p√īr o dente no meu petisco. E n√£o penses que √© uma po√ß√£o m√°gica que ressuscita o que est√° morto. √Č apenas um arroz de marisco, receita da minha m√£e, que j√° vinha de fam√≠lia.
- Acredito, a minha mãe, também o fazia. Quem sabe se não é a mesma receita? Foi o prato que a minha mãe cozinhou, no dia do regresso do meu pai após, uma longa ausência.
Ausência? Interrogou Rosalinda, mostrando surpresa.
- Aus√™ncia primeiro dolorosa, depois aceite. Est√° tudo registado numa carta que ainda guardo. Se tiveres um pouco de paci√™ncia, enquanto esperamos, pelo teu petisco, vou rel√™-la. Costumo faz√™-lo em sil√™ncio. Como todas as cartas familiares a principal via  de contacto na √©poca, come√ßa assim.

Ribeira de Mouros, 5 de Novembro, 1967

Estimado  filho,
Espero que esta carta te v√° encontrar de boa sa√ļde. N√≥s por c√° bem gra√ßas a Deus.


N√£o passava de uma frase feita, em desacordo com o conte√ļdo.

Tenho que te dar uma notícia que te vai surpreender. O teu pai emigrou para França. Foi contra minha vontade. Teimou que tinha que ir, porque a lavoura estava a morrer, o contrabando a desaparecer, e queria ir para um sítio onde se ganhasse dinheiro. Ainda lhe disse que no nosso país, podia também arranjar outro trabalho, e que com quase cinquenta anos era muito arriscado. Não me ouviu e ainda teve que se endividar, pedindo oito contos ao António da venda, a juros, para pagar ao passador. Partiu à aventura, e eu é que fiquei com o coração nas mãos. Já não me bastava tu estares na tropa, e puderes ir para a guerra, cai-me isto em cima. Tenho andado num enervamento que só Deus sabe.

Esta ida do meu pai para França não me causou qualquer surpresa. Sempre vi o meu pai com uma insatisfação, e uma irrequietude que o levava, a recomeçar tudo de novo.
Anos antes, ainda era crian√ßa, lembro-me de se ter inscrito no programa do Estado Novo para ir para Angola. Recebia uma fazenda e outros apoios. A m√£e disse ‚Äúse quiseres ir, vais sozinho‚ÄĚ. Acabou por ficar, mas porque o Estado n√£o pagava as viagens, e n√£o tinha possibilidade de o fazer. A seguir inscreveu-se no programa salazarista de coloniza√ß√£o interna. Iria receber terra e alfaias na regi√£o de Peg√Ķes. A concorr√™ncia era muita e n√£o foi selecionado.

Estive mais de duas semanas sem not√≠cias, mas s√≥ agora te conto, porque n√£o te quis preocupar, j√° chegam as minhas preocupa√ß√Ķes. Ontem recebi uma carta sua a dizer que j√° estava em Fran√ßa, um pouco abalado, mas bem. Diz assim:
Estou numa regi√£o que se chama val d`Oise, depois de uma longa viagem. Entrei em Espanha pela Beira Alta. Tivemos de passar a fronteira a salto, durante a madrugada, coisa que n√£o me era estranha, a n√£o ser o local. Depois fomos transportados por carro, viajando por estradas menos usadas, descansando em casas abandonadas ou palheiros. Em Hendaia passamos de novo a fronteira. Come√ßou a parte mais dura. Tivemos que atravessar serros ‚Äú√† pata‚ÄĚ. √Ä partida √©ramos um grupo de quarenta almas.
Levamos cinco dias e cinco noites. No primeiro dia caminhamos por uma zona com √°rvores. S√≥ par√°mos para comer. Quando anoiteceu dormimos numas casas abandonadas. No segundo dia, entr√°mos numa parte mais inclinada. √ćamos por um caminho muito estreito. Caia um chuva miudinha. O piso estava muito escorregadio. As botas com pregos ajudaram-me. O passador avisou,  ‚Äútenham muito cuidado, se algu√©m escorregar, nunca mais se v√™‚ÄĚ. Houve um mo√ßo √† minha frente que come√ßou a deslizar. Consegui agarr√°-lo com perigo para mim. Arranjei um amigo para sempre. No terceiro dia, o mais ruim, passamos pelos cimos mais altos, o nevoeiro cerrado era como se and√°ssemos no escuro. O cansa√ßo come√ßou a sentir-se. O passador dizia: ‚Äúningu√©m para‚ÄĚ. Na parte de tr√°s algu√©m come√ßou a atrasar-se ‚Äúesperem por mim‚ÄĚ. Ningu√©m para‚ÄĚ. Ao anoitecer paramos junto a uma cabana, onde dormiam ovelhas. O passador enxotou-as para fora, para nos proteger-nos. O frio quase nos paralisava  Fez-se a contagem. J√° faltavam dois. Os p√©s de gente muito mais nova estavam em sangue. No quarto dia escasseava a comida. Receb√≠amos chocolates para nos aguentarmos. No quinto dia cheg√°mos junto a uma estrada, onde estava um cami√£o. Dizia: Cami√£o ‚Äď Porcos. Entramos. Havia um bidon para fazer as necessidades.
O cami√£o deixou-nos junto a uma pequena aldeia. Houve quem apanhasse um carro de pra√ßa, porque j√° levava morada de conhecidos. Eu fui encaminhado para uma "ferme", ou seja fazenda, que cultivava beterraba. O patr√£o fez-me os pap√©is ‚Äúcarta de trabalho‚ÄĚ que tenho que levar ao consulado para me legalizar
.

O meu pai havia, mais tarde, deixar esse trabalho, ingressando na f√°brica onde se fazia o a√ß√ļcar.

O cheiro do cozinhado de Rosalinda, era cada vez mais intenso. JCorreia, respirou fundo.
- Vamos lá provar essa delícia. Recordar esta história fez-me fome.
A refeição foi feita em quase silêncio, acompanhada de um branco de Borba. JCorreia não se cansou de elogiar a cozinheira, mas faltava uma surpresa. Rosalinda tirou do forno um bolo de maçã. Correia ficou sem palavras, e pensou de si para si. Com uma mulher assim talvez tivesse hipotecado a sua vocação de solitário. Voltou a elogiar a cozinheira.

- Estou rendido Rosalinda. N√£o h√° d√ļvida, pela boca morre o peixe, mas diz-me: como correu a tua dilig√™ncia na empresa de import/export.

- Correu muito bem. Meti o gerente, um tal Brilhante, num chinelo. N√£o sei se √© m√©rito meu, se √© ele que √© choninhas. Tenho-o na palma da m√£o. Acreditou na patranha que somos empres√°rios de brinquedos e produtores de pornografia. E deu a entender que fazem esse neg√≥cio, com outras repercuss√Ķes. Agora tenho de descal√ßar outra bota. Est√° convencido que estou presa aos seus encantos. Se pensa que vai sentir a macieza da minha pele, ou p√īr as pernas em cima ou em baixo das minhas, pode tirar o cavalinho da chuva. N√£o sou nenhuma santa, e tenho os meus desejos, mas n√£o era com um gajo com cheiro a brilhantina, que trairia o ainda meu marido.
- Muito bem, disse Joaquim, continuas  a surpreender-me. Mas n√£o quero que te ponhas em risco. Hoje estive a falar com o Ernesto. Disse cobras e lagartos da Idalina, mulher ou suposta mulher. Acusou-a de ser amante do tal Brilhante, e de a ter abandonado. Essa empresa e a casa rosa, parecem-me ser duas faces da mesma moeda. Coisa feia. Tamb√©m tenho de te informar que o Dami√£o, n√£o aceitou os servi√ßos da Dr¬™ Laura, e ainda te descomp√īs. Vais ter de te reunir com ela, para resolver a tua rela√ß√£o com o Dami√£o.
- Amanh√£, se nos receber, falaremos com ela, disse Rosalinda.

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« Última modificação: Dezembro 03, 2020, 14:08:15 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #66 em: Dezembro 03, 2020, 20:02:24 »

De vento em popa! O romance e a Rosalinda!
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« Responder #67 em: Dezembro 09, 2020, 21:54:19 »

XXIII
Tamb√©m tenho de te informar que o Dami√£o, n√£o aceitou os servi√ßos da Dr¬™ Laura, e ainda te descomp√īs. Vais ter de te reunir com ela, para resolver a tua rela√ß√£o com o Dami√£o.
- Amanh√£, se nos receber, falaremos com ela
…

JCorreia e Rosalinda chegaram ao escrit√≥rio da advogada Laura Castro √† hora combinada. Tinham-se levantado cedo para tomar o pequeno-almo√ßo numa pastelaria que servia umas apetec√≠veis barrigas de freira. O detective que tivera de prescindir das bebidas alco√≥licas e do tabaco, em rela√ß√£o aos quais, apenas cometia uns deslizes, desforrava-se na boa do√ßaria. A sua secret√°ria, promovida a assistente com sucesso, sacrificava o sabor da do√ßaria √° manuten√ß√£o de um corpo sem adiposidades. Acompanhou Joaquim no pequeno almo√ßo, mas conteve-se na ingest√£o de hidratos de carbono. O apetite teve de se satisfazer com um ch√° verde e uma torrada sem manteiga. Como tinham tempo, pouparam energia ao elevador, e subiram a p√© as escadas at√© ao andar onde estava o escrit√≥rio da dr¬™ Laura. Esta , abriu-lhes a porta, pedindo que esperassem um pouco numa pequena sala, at√© acabar uma reuni√£o que estava a decorrer. Era uma sala com v√°rias cadeiras, e com uma pequena estante com  livros.
JCorreia n√£o conseguiu que o seu olhar se afastasse daquela estante,  onde se embrenhou nos t√≠tulos de livros que ali repousavam. Ao contr√°rio do que a sua mente esperava, n√£o havia livros dedicados a assuntos jur√≠dicos, mas romances, ensaios, poesia, com predomin√Ęncia de autores portugueses. Um dos t√≠tulos que o impressionou foi ‚ÄúO Labirinto da Saudade‚ÄĚ de Eduardo Louren√ßo, um pensador que admirava. O detective, que sempre teve como amante fiel a literatura, n√£o pode deixar de se admirar com os gostos de Laura, e com quem continuava a identificar-se. Se tivesse sido sua filha, n√£o esperava melhor.
Laura saiu do escritório com uma jovem, talvez da sua idade, que acompanhou até à saída. Pediu desculpa pelo atraso e mandou-os entrar para o seu gabinete. Sentou-se num sofá e pediu-lhes que se sentassem num outro, procurando criar um ambiente de proximidade.
- Estejam à vontade. Recebo-os com muito gosto. Para Aida não são apenas clientes mas amigos. Vou tirar um café. Querem acompanhar-me?
- Obrigado disse JCorreia, sondando com o olhar Rosalinda. Acab√°mos de tomar o pequeno-almo√ßo. N√£o faltar√£o ocasi√Ķes para esse tipo de partilhas. Antes de entrarmos no assunto que aqui nos traz, quero felicit√°-la pela rica biblioteca que tem na sala. Sempre pensei os advogados como pessoas fixadas nas leis, mas pelo que vi, concluo que os seus gostos se alargam √† boa literatura e at√© √† Filosofia. Refiro-me ao livro do grande pensador, Eduardo Louren√ßo.
 - O acaso e a necessidade levou-me para Direito, mas talvez n√£o seja essa a minha principal voca√ß√£o. Eduardo Louren√ßo √© um autor que me ajuda a pensar e a perceber o mundo, com simplicidade e sem qualquer pretensiosismo, como s√£o os grandes homens.
-Penso da mesma maneira - disse Joaquim Correia, afastando-se do papel de detective que assumira na pe√ßa da vida ‚Äď e ser√° assunto para falarmos, mas noutro contexto. Agora vamos ao que nos trouxe c√°. J√° sabemos que o Dami√£o a rejeitou como advogada. Nada a fazer. A Rosalinda vai continuar a precisar dos seus servi√ßos .
- J√° falamos do caso Dami√£o. Mas antes quero informar quem era a senhora que  eu estava a atender quando chegaram. At√© porque o assunto que est√°vamos a tratar, tamb√©m vos interessa. Trata-se da filha da prostituta que foi morta em 1993, por um assassino que nunca foi descoberto pela pol√≠cia. A Ot√≠lia Meireles, √© assim que se chama, veio dar-me algumas informa√ß√Ķes que recolheu sobre o eventual criminoso, considerado um Serial Killer. Quando m√£e de Ot√≠lia , Clotilde Barros, foi assassinada, ela era muito pequena, e as suas mem√≥rias s√£o muito difusas. Apenas anos mais tarde, tomou consci√™ncia desse facto pelo pai e pelos av√≥s. Teve uma inf√Ęncia muito complicada.
Uns anos depois da morte da m√£e foi dada para adop√ß√£o, mas como a sua natureza er rebelde e pouco disciplinada, fugiu dos adotantes: Andou um pouco ao ‚Äúdeus-dar√°‚ÄĚ. Na idade adulta constituiu uma fam√≠lia. Manteve e mantem, uma rela√ß√£o pr√≥xima com a empres√°ria Aida, amiga da sua m√£e. √Č sua madrinha, e  sempre a acompanhou. Hoje est√° empenhada em encontrar quem a privou da presen√ßa da sua m√£e. Est√° a fazer um dossi√™, onde constam os suspeitos desse crime, e est√° convicta que entre eles est√° o estripador. Esperamos entregar-vos esse material. Contamos convosco para ajudar. Quanto ao Dami√£o, aguardo a posi√ß√£o da Rosalinda.
- A minha posição é simples drª Laura. O acaso afastou-me desse homem. Vivi com ele durante cerca de duas décadas, um inferno do qual acabo de sair. Não pretendo voltar a esse tempo. Avance com o processo de divórcio.
- Assim farei ‚Äď disse Laura ‚Äď mas prevejo que Dami√£o n√£o aceitar√°. Teremos de avan√ßar para um div√≥rcio litigioso. Que motivo vai apresentar?
- Os motivos assentam em maus tratos. Pressão psicológica e violência física.
- E tem testemunhas, algumas provas, Rosalinda?
- Testemunhas, n√£o sei ‚Äď disse Rosalinda ‚Äď fazendo um esfor√ßo de mem√≥ria. Estas coisas passaram-se paredes adentro. √Č poss√≠vel que alguns vizinhos se tenham apercebido, mas n√£o sei se querer√£o testemunhar. Os hematomas desaparecem com o tempo. O que penso ter de concreto, s√£o grava√ß√Ķes, que a partir de determinada altura resolvi fazer.
-Entregue-me esse material quando puder. Ir√° ajudar.
- Irei procurar advogada, mas seja como for, a bem ou a mal, o Damião está fora da minha vida. Sobre este assunto, confio na sua competência. E agora, porque sei que o Joaquim quando vem para estes lados não prescinde de um almoço na Flor do Minho, onde se comem os melhores grelhados, tomo a iniciativa de a convidar para nos acompanhar nessa refeição.
- Teria muito gosto ‚Äď respondeu Laura, levantando-se para se despedir ‚Äď mas hoje tenho dia muito ocupado, e j√° combinei almo√ßar com a Aida, a nossa gata dos telhados. Certamente haver√° mais oportunidades.

Na Flor do Minho, pediram bifes com molho secreto, acompanhados de verde tinto, de produtor independente. Enquanto esperavam e degustavam uma orelha de porco em vinagreta, Rosalinda notou em Joaquim o semblante carregado: Percebeu que a insistência no caso do estripador, que já escondera num recanto obscuro da memória, o perturbava. Procurou trazê-lo para o que sempre o entusiasmava quando estava naquele lugar. As memórias da juventude. Começou por lhe dar uma canelada, que fez Joaquim reagir.
- Porra Rosalinda ‚Äď disse, subindo o tom de voz, a ponto de chamar a aten√ß√£o de outros clientes, - tens a pata grande!
- Desculpa Joaquim, mas queria tirar-te  desse cisma. J√° te conhe√ßo. Afinal, que mem√≥rias recuperas hoje, ligadas a este s√≠tio?
- Ligadas a este restaurante tenho um manancial recorda√ß√Ķes, que nas m√£os de um escritor prolixo dava para escrever, no m√≠nimo, uma trilogia. Imagino Irene sentada numa destas mesas, discreta, espalhando charme. E lembro-me da cena que fez certo dia quando almo√ß√°vamos, com o Carl√£o, o meu companheiro de quarto. Ele disse que t√≠nhamos estado no hotel Roma, a catrapiscar mo√ßas, com o perfume das ex-col√≥nias, e que estavam instaladas nesse hotel. Chamavam-se ent√£o retornadas. Com essa provoca√ß√£o, pensei que o Carl√£o me queria roubar a mo√ßa. Mas tudo se comp√īs, naquele dia.

O que estava difícil de compor era a vida dessa multidão de gente que veio das nossas colónias, de um dia para o outro, após uma descolonização descontrolada. Os nossos militares, cansados de treze anos de guerra, não queriam meter-se mais nesse assunto. Os políticos que o resolvessem. Um processo longo, pacífico e controlado, que salvaguardasse todos os interesses, teria sido possível nos anos sessenta (e já era tarde), mas era impossível na situação em que as coisas estavam. O poder político do Estado Novo, orgulhosamente só, não percebeu, ou não quis perceber que a solução era política, e quanto mais se adiasse, mais dolorosa seria.
Quem n√£o percebia isso, eram os ditos retornados, express√£o algo desajustada, porque muitos tinham nascido e vivido apenas nas col√≥nias. De um momento para o outro, perderam tudo. Vieram com uma m√£o √† frente e outra atr√°s. Foram arrumados em hot√©is e pens√Ķes pagas pelo Estado. No hotel Roma e noutros locais, eram um mundo. Lembro-me da pra√ßa do Rossio onde ocupavam v√°rias pens√Ķes. Em Angola, MPLA e UNITA disputavam o poder com armas. Savimbi dizia que se ganhasse a guerra, todos os colonos voltariam. Aqueles cidad√£os portugueses acreditavam nisso, agarravam-se a essa esperan√ßa como um n√°ufrago a uma fr√°gil t√°bua. O que podiam fazer? Fora disso, os seus horizontes, n√£o tinham horizonte. Foi um dos lados escuros da revolu√ß√£o, mas ao ponto em que as coisas tinham chegado, o que havia a fazer? Minimizar preju√≠zos e integr√°-los. No hotel Roma, ouvi uma dessas mo√ßas dizer que ia para Inglaterra. √Č a sina de um pa√≠s pequeno, que perdeu de supet√£o grande parte do territ√≥rio que administrava. A pouco e pouco a situa√ß√£o foi-se resolvendo e diluindo. √Č assim o portugu√™s, com grande capacidade de adapta√ß√£o. Vi nessa gente muita determina√ß√£o. E se a bela mo√ßa que apreciei me tivesse levado consigo, n√£o teria de me sujeitar aos caprichos de Irene, concluiu Joaquim, recuperando a boa disposi√ß√£o.
- Grande li√ß√£o ‚Äď disse Rosalinda, satisfeita por ter de volta o velho Joaquim.- Agora vamos ao bife com molho secreto.

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« Responder #68 em: Dezembro 13, 2020, 18:22:22 »

Temas ainda bem presentes na nossa memória. Conheci alguns "retornados". Tempos difíceis!
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« Responder #69 em: Dezembro 17, 2020, 20:13:11 »

XXIV
- Grande li√ß√£o me deste  ‚Äď disse Rosalinda, satisfeita por ter de volta o velho Joaquim. Agora vamos ao bife com molho secreto.

- Ora Rosalinda a descoloniza√ß√£o das col√≥nias, foi sentida por quem a sentiu na pele, mas todos n√≥s a vivemos, com mais ou menos, aten√ß√£o ‚Äďdisse Joaquim enquanto degustava a sobremesa de arroz doce -Refugio-me  no passado, para fugir aos bloqueios que me paralisam a mente. Nessa altura, para esquecer desilus√Ķes amorosas empenhei-me na pol√≠tica. Aderi a um pequeno partido de esquerda, que era dirigido, por um revolucion√°rio rom√Ęntico, de nome Serra, que estivera ligado √† resist√™ncia clandestina. Participara no falhado golpe do quartel de Beja que seria o in√≠cio de uma revolu√ß√£o que  levaria o general Humberto Delgado ao poder, que lhe fora esbulhado por Salazar nas elei√ß√Ķes de 1958, de acordo com a oposi√ß√£o. Depois Serra integrou-se no PS, com o intuito de o tomar por dentro. Foi derrotado no Congresso, e desapareceu de cena. Come√ßou e terminou a√≠ a minha incurs√£o na pol√≠tica activa, porque n√£o se encaixava a minha maneira de ser e estar.

-E ent√£o o que te bloqueia agora a mente? Outro desgosto amoroso? Perguntou Rosalinda
- Desse tipo de desgostos j√° me reformei. At√© posso dizer que n√£o me sinto um velho, pelo menos em pensamento. A verdade √© que envelhecemos, mas talvez por um mecanismo de autodefesa, n√£o nos focamos nessa eventualidade. Olhamos para o espelho e vemos mudan√ßas que assumimos com naturalidade. E sentimos, pelo menos eu sinto, que somos o que vemos, esquecendo o que j√° fomos. A porra √© que por mais novo que esteja o esp√≠rito, o corpo come√ßa a n√£o o acompanhar. Ainda me encanto com a beleza feminina, mas n√£o passa de aprecia√ß√£o est√©tica. N√£o d√° para mais. Agora o que me bloqueia √© o caso da ‚Äúgata dos telhados‚ÄĚ.
- Percebi na conversa com a drª Laura, que ficaste embaraçado com a investigação para que te querem arrastar. Para mim é fácil resolver. Compreendes onde quero chegar?
- Diz-se no senso comum, Rosalinda, que os ratos s√£o os primeiros a abandonar o barco. Como embarquei nisto, talvez por ingenuidade, n√£o vou saltar fora. Vou entrar no jogo da ‚Äúgata dos telhados‚ÄĚ, e vou ainda mais al√©m. Paralelamente quero descobrir quem √© essa gata , para al√©m das apar√™ncias. Sinto que h√° qualquer coisa que me atrai para essa tarefa, e que n√£o consigo racionalizar. Mas para j√° vamos concentrar-nos no caso do marido desaparecido. Tentei contactar a Idalina para lhe entregar o relat√≥rio. N√£o me atendeu. Telefonei para empresa Laranjeira e Figueira, onde trabalha, e informaram-me que l√° n√£o trabalha nenhuma Idalina. Tudo se conjuga, cada vez mais, para estarmos perante um assunto de contornos sexuais.
- Foi o que me pareceu na conversa com o Januário Brilhante, confirmou Rosalinda. A propósito tenho amanhã um almoço com o sujeito. Já temos material preparado?.
- Pedi a um amigo ligado à produção de vídeos, para me fazer um pequeno filme para apresentarmos. No entanto, a estratégia passa por tentar que nos cedam uma amostra do material que possuem. Vais ter de ser convincente.

O dia amanheceu pregui√ßoso. Nuvens escuras e pesadas de √°gua concentrada, que amea√ßavam romper-se, esconderam os raios de sol, o grande candeeiro que iluminava os campos e as cidades. Rosalinda, tinha o encontro marcado com Janu√°rio Brilhante, num restaurante da zona do Chiado. A miss√£o que levava a cabo come√ßava a preocup√°-la. E se correra bem no primeiro encontro, n√£o podia cometer qualquer deslize. Sabia que encantara o gerente  Brilhante, com os seus dotes de sedu√ß√£o, mas que tinha que o refrear. Vestiu-se de forma mais discreta, com cal√ßas e uma camisola de gola alta. Este esperava-a no hall de entrada. Um empregado  conduziu-os a uma mesa num local discreto da sala. Enquanto tomavam um aperitivo, Janu√°rio, com o cabelo ainda mais brilhante, iniciou a conversa.

- A senhorita n√£o para de me surpreender. Consegue ainda estar mais bela que quando a conheci.
- Ora, Janu√°rio, - disse Rosalinda for√ßando-se a mostrar alguma intimidade ‚Äď j√° n√£o sou uma jovem, mas procuro manter-me apresent√°vel. Quando me olho ao espelho gosto de gostar da minha imagem. Penso que somos todos um pouco assim. Pelo menos desde que na Gr√©cia um cidad√£o chamado Dion√≠sio, se apaixonou pela sua imagem reflectida na √°gua.

Januário mexeu-se na cadeira, com algum incómodo, surpreso com aquela Rosalinda, algo distante da do primeiro encontro.

- Deixa-me um pouco engasgado. N√£o a imaginava nessa faceta de senhora t√£o culta.  Isso contribui para aumentar a admira√ß√£o que tenho por si. Vejo-a a olhar para a ementa. J√° escolheu? Se me permite dou-lhe uma sugest√£o: aqui a a√ßorda de marisco √© uma especialidade.
- Aceito a sua sugest√£o. Se vamos ser parceiros de neg√≥cios, temos de ter confian√ßa. Quanto ao elogio que me fez deixe-me dizer-lhe que sou uma pessoa simples. Mas por detr√°s das apar√™ncias todos somos uma caixinha de surpresas. Sei como me comportar, em cada situa√ß√£o. Noutra contexto haver√° outra Rosalinda, - afirmou gastando algum charme para activar a chama.-  Passemos √† frente, este √© um almo√ßo de trabalho e temos de continuar. Hoje trago um v√≠deo para lhe entregar com uma amostra do que produzimos. Pretendemos que o vejam e depois digam se est√£o interessados. Tamb√©m nos interessa  adquirir material, do mesmo tipo, que voc√™s importem.
O cheiro da acorda de mariscos já tinha chegada à mesa antes de ser servida a Rosalinda e Januário, por esta ordem. A sua degustação interrompeu a conversa entre os dois comensais.

Um pouco mais tarde JCorreia entrou na empresa de confec√ß√Ķes de Aida, a autodenominada ‚Äúgata dos telhados‚ÄĚ, e apresentou-se com detective JCorreia. Disse que precisava de falar com a directora. O funcion√°rio da portaria perguntou se tinha marca√ß√£o. Perante a negativa e a sua insist√™ncia que era urgente falar com Aida, este, depois de fazer um telefonema, informou o detective que ia ser conduzido ao gabinete da direc√ß√£o.
Aida levantou-se para o receber, cumprimentando-o com um aperto de mão. O gabinete era pequeno e simples. Além da secretária de trabalho, havia dois sofás. Nas paredes como decoração estavam umas fotos antigas. Joaquim reparou no olhar calmo, no ar sereno, e no porte discreto de Aida. Continuava a sentir que havia algo que o intrigava.
- Que surpresa detective JCorreia, ou cidad√£o Joaquim Correia, como preferir - disse Aida, mostrando alguma satisfa√ß√£o, pelo aparecimento do detective. ‚Äď A que se deve esta visita inesperada?
- As minhas desculpas por aparecer sem marcação, senhora Aida.
- Esteja √† vontade , -interrompeu Aida ‚Äď e deixe-se de formalismos. Trate-me por Aida. Vamos fazer uma caminhada juntos.
-Como quiser ‚Äďrespondeu JCorreia.-  Vim sem avisar por causa de informa√ß√Ķes que ontem recebi da advogada Laura de Castro, sobre o caso dos assassinatos de prostitutas, no in√≠cio dos anos noventa. Achei oportuno falarmos. Embora fosse um assunto, para mim ultrapassado, estou dispon√≠vel para ajudar.
- Fico satisfeita, Joaquim, por se envolver. Não esperava outra coisa. De facto, desde que o caso foi oficialmente encerrado que pesquisamos por conta própria. Temos uma lista de suspeitos, que foram sendo descartados por falta de provas. Como o Joaquim participou nessa investigação, penso que terá memórias que serão uma mais-valia para a nossa investigação. Iremos entregar um relatório, com todos os dados.
- Ficarei √† espera. Antes disso tinha algumas quest√Ķes para lhe colocar, relacionadas com esse tempo, se n√£o se importar. Gostaria de saber em que ano entrou para a prostitui√ß√£o, como conheceu a m√£e da  Ot√≠lia e se saiu dessa vida antes ou depois da  morte de Clotilde.
- Comecei a prostituir-me depois do meu marido me ter expulso de casa, por ter descoberto que me envolvera com outro homem. Foi uma rela√ß√£o passageira mas muito intensa. Nem sempre controlamos os nossos sentimentos. Podia ter tido continuidade, mas n√£o teve. Apesar das consequ√™ncias, n√£o me arrependo. Entrei para essa vida  em 1976. Quando se deram os assassinatos, j√° me tinha afastado. Comecei na rua, onde conheci a Ot√≠lia, e mais tarde mudei para acompanhante de luxo. Tudo fiz para deixar esse mundo e consegui.
- E desse homem? Voltou a ter notícias?
- Sim. Por mero acaso.
- E sabe se ele acompanhou a sua vida, depois do fim da relação?
- Perdemos o contacto, - referiu Aida, come√ßando a mostrar algum nervosismo, - mas n√£o percebo que import√Ęncia isso tem para o que estamos a tratar?
- Se houve norma que sempre segui foi a de que n√£o se deve menosprezar nenhuma pista. Estou aposentado da PJ, por limite de idade, mas ainda estou l√ļcido. Confie em mim. J√° a desiludi?

Silencio

- Bem‚Ķadiante. Confio no seu trabalho e por isso o contratei. E estou a empenhar-me neste assunto para ajudar a minha afilhada, filha da Clotilde, que tamb√©m √© v√≠tima indirecta. Como disse, quando esses assass√≠nios aconteceram, j√° tinha me tinha conseguido afastar, mas mantive os contactos com pessoas que conheci nesse meio, e que procurei ajudar. E tenho um conhecimento desse mundo e do que lhe est√° associado. Convivi at√© com uma prostituta que teve a sua inicia√ß√£o na ‚Äúescola‚ÄĚ for√ßada  dos ‚Äúballet rose‚ÄĚ. Decerto que sabe do que se trata?
-  Soube mais tarde, confirmou Joaquim. Quando isso veio a p√ļblico estava na Guin√© a cumprir servi√ßo militar. Na altura o Presidente do Conselho, Salazar abafou o caso, que implicava altas figuras da pol√≠tica. Depois da queda do regime, circulou informa√ß√£o sobre o assunto, e passou na RTP uma s√©rie, do escritor/argumentista Moita Flores. Estou a fazer uma investiga√ß√£o que aponta para pr√°ticas id√™nticas. Essas coisas est√£o sempre a acontecer.de uma ou de outra forma.

Das nuvens que obscureciam o dia começaram a cair grossos fios de água. Era como se o céu se desfizesse em lágrimas, num choro pelos desmandos da humanidade. Aida retomou a conversa.

Acredito Joaquim. A lux√ļria sexual n√£o tem limites, e √© transversal a classes sociais profiss√Ķes, religi√Ķes‚Ķ
- Se a Aida n√£o esgotou a sua paci√™ncia comigo, fazia-lhe s√≥ mais uma pergunta,  de mera curiosidade.
- Responderei se souber…
- Porque se autodenomina ‚Äúgata dos telhados‚ÄĚ?
Um sorriso misterioso aflorou no rosto de Aida.
- √Č uma longa hist√≥ria: Um dia talvez lha conte. Apenas digo que quando era muito jovem tive um namorado  que  me tratava, com carinho, dessa maneira. O telhado veio depois.

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« Última modificação: Dezembro 19, 2020, 23:49:23 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #70 em: Dezembro 19, 2020, 20:39:37 »

"Creio para essa vida  "
"começaram cair grossos fios de água"

Falta ali alguma coisa. Percebe-se perfeitamente, mas pode editar.
Vamos continuar sem saber porque se chama assim...


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« Responder #71 em: Dezembro 23, 2020, 19:07:46 »

XXV
- √Č uma longa hist√≥ria: Um dia talvez lha conte. Apenas digo que quando era muito jovem tive um namorado que me tratava, com carinho, dessa maneira. O telhado veio depois."

- Pois Aida continua a manter o mistério, e continuamos sem saber.
- A seu tempo saberá, Joaquim. O mistério é uma forma de aguçar a curiosidade. Já viu o que era o autor de um romance policial, desvendar o nome do assassino a meio da história?
- Tem razão, faz parte da estrutura da escrita ficcionada, em qualquer género, manter o leitor preso até ao fim, se, em primeiro lugar, o agarrar desde o início. Será o que chamo de clássico, mas também há variantes. Estou a lembrar-me da Crónica de Uma Morte Anunciada, Garcia Marquez. Os assassinos e o assassinado são conhecidos desde a primeira página. Mas mantém o leitor interessado, com a sua maestria narrativa.

A luz de um rel√Ęmpago entrou, sem convite, no gabinete de Aida. A chuva, primeiro t√≠mida, como dois amantes que procuram conhecer-se, foi aumentando de volume e de intensidade, tornando-se atrevida, forte, como uma paix√£o sem barreiras. Aida levantou-se e dirigiu-se at√© junto da janela, de onde se avistava a entrada da empresa. Joaquim seguiu-a e colocou-se a seu lado. Sentiu uma sensa√ß√£o ao mesmo tempo estranha e agrad√°vel, acompanhada de um odor feminino que lhe parecia familiar. Mantiveram-se se em sil√™ncio a observar a chuva que continuava a cair, transmutada em bocados de √°gua congelada, que cobria o ch√£o de um manto branco. Joaquim lembrou-se da primeira vez que assistira a um ‚Äúdil√ļvio‚ÄĚ parecido, e que lhe provocou um ataque de p√Ęnico. Agora esses fen√≥menos n√£o o assustavam tanto. Para mais, desta vez, estava acompanhado, por algu√©m que lhe transmitia serenidade.

Devia ter seis ou sete anos. Saiu de casa do seu av√ī Baltazar, para a casa dos seus pais. Nuvens escuras, vindas do litoral come√ßavam a cobrir o c√©u. A meio do seu percurso chegaram fortes pingos que depressa se transformaram numa b√°tega de chuva constante. Teve a sensa√ß√£o que lhe despejavam, na cabe√ßa, um balde de √°gua  Na casa para onde ia, n√£o havia ningu√©m. Encharcado dirigiu.se para a morada da sua av√≥ materna. Deparou-se com a mesma situa√ß√£o. Acolheu-se num alpendre que dava entrada para os palheiros e esperou. Foi a√≠ que se apercebeu que aquela n√£o era uma chuva habitual. Saberia depois que era chuva de pedra, como era ali conhecida. Naquele momento assustou-se e relacionou o facto com o apocalipse, com que o assustavam nas aulas de catequese.
Quando o esgarr√£o parou, quase t√£o repentinamente como tinha chegado, deslocou-se para a casa dos seus pais. A roupa tinha aumentado de peso. O seu pai chegara da lavoura, protegido por uma capa de oleado. Era por natureza reservado e indiferente. Limitou-se a dizer: ‚Äúpor onde raio andaste Quim? Est√°s molhado que nem um pinto‚ÄĚ. O granizo que Joaquim via da janela com Aida, j√° n√£o o perturbava, mas nunca deixara de estar presente, como um trauma, na sua vida. Aida quebrou o sil√™ncio.

-Joaquim, vou pedir ao meu motorista que o leve a casa. Est√° um grande temporal.
Joaquim acordou de uma espécie de encantamento, e lembrou-se de Rosalinda, que podia estar no almoço com o gerente da empresa de import/export, ou quem sabe, no meio daquele vendaval. Como teria corrido o encontro? Rosalinda estaria bem?


.- Obrigado Aida. Não é necessário. Estava a lembrar-me de uma tempestade parecida que me assustou quando era muito pequeno. Estava sozinho. Parecia que naquele local toda a gente tinha desaparecido. Hoje, pelo contrário estou bem acompanhado. Não se preocupe. Apanho um táxi e de caminho vou buscar a Rosalinda ao Chiado.
- Ainda bem que aprecia a minha companhia, e não o apresso, mas faço questão de lhe fornecer transporte.

O almoço que juntara Rosalinda e Januário, chegara à sobremesa. A conversa sobre negócios fora interrompida. Januário parecia mais interessado em Rosalinda, enquanto parceira de refeição, do que em parceira de negócios. Pediu a conta, pegou na mão de Rosalinda e disse:
- Espero que tenha gostado do almoço. Eu gostei como sempre, mas este ainda foi mais saboroso, pela agradável companhia.
- Agrade√ßo o almo√ßo, - respondeu Rosalinda, libertando a m√£o ‚Äď e congratulo-me tamb√©m pelo avan√ßo na nossa parceria, nos neg√≥cios. Ser√° √ļtil para as duas empresas.
- N√£o duvido,- disse Janu√°rio ‚Äď mas a brevidade da exist√™ncia, deve levar-nos a pensar que devemos tirar partido das coisas boas da vida, e n√£o pensarmos apenas no trabalho.
- Com certeza, - concordou Rosalinda ‚Äď Penso da mesma maneira. Mas h√° um tempo para tudo, e este √© de trabalho. Outros poder√£o vir. Vou-lhe fazer uma confid√™ncia: tive uma m√° experi√™ncia sentimental, e estou numa esp√©cie de ressaca.
- Confidência por confidência também lhe faço a minha. Posso parecer um sedutor barato. Pelo contrário. Sou um homem muito só. A minha companhia é um gato. Habituei-me a viver assim, mas desde que a conheci, que não me sai do pensamento.
Compreendo, e ninguém sabe o dia de amanhã.- disse Rosalinda fazendo um esforço para inverter o assunto.- Ainda estou mais só, pois nem gato tenho, ou melhor tenho um de louça. Represento uma empresa e é nessa condição que aqui estou. Não posso misturar as coisas. Peço que analise o nosso vídeo, e nos mostre o que tem. Acrescento que as meninas que estão no filme também se disponibilizam para outras tarefas. Voltaremos a falar. Agora tenho de ir. Ainda vou para outra reunião.

Rosalinda saiu para apanhar um t√°xi. A chuva forte tinha parado Os t√°xis passavam todos ocupados. Ao fim de meia hora, parou um carro com motorista. Joaquim abriu o vidro e disse:
- Rosalinda, aceitas uma boleia?
- Que se passa Joaquim. Recebeste uma herança? Tens carro com motorista?
- Foi uma oferta do Pai Natal. Entra depressa. Quem apanha chuva molha-se

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« Responder #72 em: Dezembro 30, 2020, 23:21:36 »

Vamos l√° para a frente com isto. Boas festas...
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« Responder #73 em: Dezembro 31, 2020, 19:45:25 »

- Que se passa Joaquim. Recebeste uma herança? Tens carro com motorista?
- Foi uma oferta do Pai Natal. Entra depressa. Quem apanha chuva molha-se


Rosalinda dirigiu-se para o carro que a esperava. O motorista saiu, atrapalhando o tr√Ęnsito, e abriu-lhe a porta. Depois de se instalar, e agradecer, Rosalinda olhou para Joaquim e disse:
- Parece que estou a subir na vida. Saio de um almo√ßo com o gerente de uma empresa, que quase me prop√Ķe casamento, quando ainda nem descasei., e sou recebida por um carro com motorista. Vamos l√° para a frente com isto. At√© parece que adivinhaste que eu precisava de apoio.
- Se est√°s a subir ou a descer, n√£o sei ‚Äď disse Joaquim, n√£o escondendo uma boa disposi√ß√£o.- O que sei √© que tu mereces ser feliz. Hoje tamb√©m tive um bom dia, na presen√ßa da Aida, uma verdadeira gata dos telhados. E cedeu-me este transporte. Mostra que se preocupa comigo. Quem n√£o gosta de ser mimado? Pelo que ouvi da tua boca, depreendo que a reuni√£o com Janu√°rio, voltou a correr bem. Ou estou enganado?

-Só o tempo dirá. Januário pareceu-me mais interessado na minha pessoa, do que no eventual negócio. Hoje ao contrário do que tinha acontecido no primeiro encontro, mostrei-me mais recatada, e talvez o tenha baralhado. Quanto ao negócio pouco se avançou. Acho que ficou um pouco desiludido, e não sei se desconfiado.
- N√£o te preocupes Rosalinda. O caso do marido desaparecido, que t√≠nhamos para resolver, est√° encerrado. O que est√° para al√©m disso n√£o nos diz respeito. Apenas tenho continuado, por curiosidade policial. Ser√°, quando muito, assunto para a PJ e n√£o para a investiga√ß√£o privada. Mas vamos continuar atentos, pois ainda n√£o percebi, e quero perceber, porque me foi pedido que resolvesse um falso desaparecimento. √Č uma motiva√ß√£o para continuar. O que me entusiasma √© a investiga√ß√£o. Sou um pouco como os escritores que escrevem por prazer. Gostam que os leiam e at√© que o livro se venda bastante, mas n√£o √© esse o principal objectivo num pa√≠s que padece de iliteracia. Leitores em n√ļmero reduzido e muito focados nos escritores com imagem medi√°tica. Se a literatura fosse um modo de vida, estaria condenada. Ainda bem que h√° quem escreva, e bem, por amor √† escrita. √Č como uma v√≠cio, uma esp√©cie de coca√≠na que n√£o se pode dispensar. √Č esse esp√≠rito que me move. Portanto, a estrat√©gia, neste caso,  √©: fazer-nos de peixe morto, e deixar assentar a poeira. E continuo a contar contigo e com a tua perspic√°cia, para levar a tarefa a bom porto. Ainda hoje a Aida me lembrou o esc√Ęndalo conhecido com ‚ÄúBallet Rose‚ÄĚ, nos finais dos anos sessenta. Estes casos com contornos diversos, s√£o recorrentes, e transversais a todos os regimes, mas agora aproveitemos o momento para admirarmos esta cidade √ļnica.

O carro, com mordomia. deslizava por um cidade quase deserta. A chuva torrencial tinha afastado muitos transeuntes das ruas, transformadas em pequenos riachos. O ve√≠culo deslocava-se com mil cuidados. A paisagem envolvia-se numa marcha lenta, que permitia apreci√°-la. Passara pelo largo Cam√Ķes e aproximava-se do Chiado. Joaquim despido das vestes de JCorreia, come√ßou a falar da cidade que o recebera de bra√ßos abertos, e o encantara para sempre.

Esta cidade, por mais que a veja, não deixa de me espantar. Sendo a mesma, descubro sempre coisas diferentes. Todas as capitais europeias que conheço, têm a sua beleza, e a sua história. Paris, Londres, Berlim, Madrid, Roma, para citar algumas, merecem relevo. Mas não troco Lisboa, por todas elas. Tem uma história impar, tem uma vivência especial, uma luz inspiradora.
Segundo a lenda, ter√° sido fundada por Ulisses, esse grande viajante no regresso das suas deambula√ß√Ķes mar√≠timas para o seio da sua Pen√©lope. Mas para al√©m da lenda, os vest√≠gios hist√≥ricos, mostram uma cidade que se foi construindo com uma mescla de povos, com diferentes culturas e religi√Ķes. Vieram do Mediterr√Ęneo, do mar do Norte, do norte de √Āfrica, das "am√©ricas", das "√≠ndias". Umas vezes de forma pac√≠fica, outras mais violentas, formaram um caldo, um ADN, uma miscigena√ß√£o singular. Lisboa foi romana, foi crist√£, foi mu√ßulmana. Foi o primeiro grande ‚Äúsupermercado do mundo‚ÄĚ. Uma babel onde se cruzavam desvairadas gentes, no dizer do cronista Fern√£o Lopes. Que outro lugar tem esta riqueza? Passa um ano, passa outro, e Lisboa √© sempre nova. Um poeta desconhecido escreveu um poema que a retrata de forma simples. Chamou-lhe, ‚ÄúLisboa √©‚ÄĚ.

Lisboa é barco, é batel,
cidade de sombra e luz;
é água, Babel,
 adaga,
Lisboa é espada e cruz

Lisboa é guerra ,
é vingança,
amor, ódio e traição;
é justiça e é esperança,
é 1383,
 mudan√ßa e revolu√ß√£o

Lisboa é sol,
e pimenta,
caravela sem idade
é vela, mar
e tormenta,
 √© sonho e realidade

Lisboa é ouro
é Brasil
passarola intemporal;

√© a√ß√ļcar e anil,
cheiro, preg√£o,
 luz e cal

Lisboa é grito,
tristeza,
fado menor e vadio;
é realidade e mito,
donzela,
 amor e cio

Lisboa é desejo,
e saudade,
Lisboa é canela fina;
é mentira e é verdade
menina,
 mo√ßa e menina.

- Agora que passamos no Chiado renovado de acordo com as novas tendências, não consigo esquecer o incêndio de 1988, (lembras-te Rosalinda?) que destruiu a memória de um tempo. Como noutras catástrofes renasceu das cinzas, modernizada e mantendo as pontes com esse passado.

- Lembro-me muito bem Joaquim. Era uma jovem, alfacinha de gema, criada na rua da Oliveira. Vendi flores no Rossio, vesti-me no Grandela, namorei nas margens do Tejo. O Damião pescava no cais das colunas, e eu acompanhava-o. Quando acordei com o fogo a devorar uma rua próxima, a minha reacção foi do espanto, a uma grande tristeza.

- Mas como se v√™, Rosalinda, o Chiado levantou-se do ch√£o, com uma nova pujan√ßa, tal como toda a "baixa", por onde passamos, depois de destru√≠da por um terramoto em 1755. √Āgua e fogo √† solta, invadindo ruas, ru√≠nas, num galopar desenfreado. Pessoas presas, afogadas queimadas. Um castigo divino nos serm√Ķes do padre Malagrida. Uma cat√°strofe que levou patrim√≥nio e vidas. "Enterrar os mortos e cuidar dos vivos", foi a decis√£o do l√ļcido governante Sebasti√£o Jos√© de Melo e do rei D.Jos√©.
Dos escombros de uma cidade medieval, ergueu-se uma cidade moderna, a apontar para um futuro imaginado. Este país, teve nessa altura, homens capazes de um difícil desafio. Políticos, arquitectos, engenheiros, com visão acima da média. Quando passo no Terreiro do Paço, não vejo apenas uma estátua de bronze , mas a alma de um rei, inteligente, sensato, equilibrado, cuja marca perdurará.
 
- Eu sou mais terra a terra Joaquim, adoro esta cidade, não me vejo a viver noutro sitio. À parte da grande história, vejo a dureza da vida que vivi, as alegrias breves das pessoas que conheci, as dificuldades do dia a dia, os dramas pessoais. As vivências que assumem com toda a simplicidade. Enfim, as ditas coisas comezinhas da vida.

- Tens razão Rosalinda, e tens a virtude de me acordar dos meus devaneios. Não se desse o acaso de termos descoberto laços familiares, acho que terias mais um pretendente.
-E olha que não seria um pretendente desprezível. E ainda, com um aspecto que não corresponde à idade. Tens-te cuidado...
 
O motorista conduziu o autom√≥vel at√© a casa de JCorreia,  percorrendo as ruas de Alfama com o desembara√ßo de quem parecia conhecer de olhos fechados aquele itiner√°rio. Enquanto agradecia e se despedia do motorista, o detective reparou num vulto discreto junto √† entrada do pr√©dio. Quando saiu da semiobscuridade Joaquim reconheceu-o. Ernesto abordou-o.
- Ainda se recorda de mim, detective?  Sou o Ernesto, falamos no Estoril. Pe√ßo desculpa por o incomodar, mas preciso de ajuda urgente. A minha mulher deixou de me contactar. N√£o sei o que aconteceu, e estou muito preocupado.
-  A- sua mulher desapareceu? Qual delas? Se percebi bem, durante a nossa conversa tinha duas.
- A minha mulher é a Idalina. Nessa conversa menti-lhe para o afastar da casa rosa. Não vivo lá como disse, nem tenho outra companheira. Acontece que colaboramos com gente que não brinca em serviço. Viram-me falar consigo, e perceberam que o detective está a ir longe de mais, e encarregaram-me de lhe dar sumiço. Cometo ilegalidades para ganhar mais dinheiro, mas daí a ser um criminoso …Preciso de desaparecer mesmo a sério.
- N√£o sei se deva confiar em quem me quis aldrabar, mas venha comigo. Est√° encharcado. N√£o tenho condi√ß√Ķes para o proteger. Veremos o que se pode fazer.

Continua

Bom ano









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« Responder #74 em: Janeiro 09, 2021, 18:28:34 »

E vamos continuar. Eu j√° me perdi um bocado. Depois venho inteirar-me de seguida.
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Bom dia feliz para todos
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Bom dia para todos!
Março 20, 2020, 15:06:31
Ol√° para todos!
Março 19, 2020, 22:59:05
Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
Janeiro 29, 2020, 20:06:36
Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
Janeiro 10, 2020, 14:03:15
Boa tarde a todos
Janeiro 06, 2020, 14:46:26
Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
Dezembro 02, 2019, 21:57:04
Boa noite feliz para todos.
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Boa noite feliz para todos
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Boa noite!
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Boa noite feliz para todos.
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Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
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