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Autor Tópico: A Gata dos Telhados XXIX  (Lida 6266 vezes)
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Nação Valente
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outono


« Responder #75 em: Janeiro 10, 2021, 21:25:25 »

XXVII
- N√£o sei se deva confiar em quem me quis aldrabar, mas venha comigo. Est√° encharcado. N√£o tenho condi√ß√Ķes para o proteger. Veremos o que se pode fazer

JCorreia entregou roupas secas a Ernesto. Acordou com Rosalinda colocá-lo na sua casa que não estava habitada, até encontrar a melhor solução. Tentou convencê-lo a relatar a posição à polícia. Ele mesmo o poria, contacto, com seu camarada da PJ. Poderia negociar um perdão, no papel de colaborador arrependido. E teria protecção assegurada
- O que pudemos fazer neste momento √© facultar um ref√ļgio para se esconder, disse JCorreia. Se estiver de acordo, ficar√° na casa da Rosalinda. Mas √© uma situa√ß√£o provis√≥ria.. Para merecer a nossa confian√ßa, devia come√ßar por nos contar o que se passa naquela vivenda.
- A minha inten√ß√£o ‚Äď respondeu Ernesto - era que me ajudasse a sair de Lisboa, talvez do pa√≠s. E que tentasse descobrir o que se passa com a Idalina. Como lhe disse , percebi que perderam a confian√ßa que tinham em mim. Vim pedir ajuda, porque estou muito assustado. perdido a confian√ßa em mim.
 - Lamento, mas n√£o posso apoiar o seu plano de fuga, senhor Ernesto. Seria assumir cumplicidade com algu√©m que tem estado ligado a pr√°ticas ilegais. Estou apenas a proteg√™-lo de uma eventual retalia√ß√£o imediata, mas n√£o dou cobertura a fugas √† justi√ßa. Se quiser colaborar com as autoridades tem o meu apoio. Se n√£o, pode sair e ficar por sua conta e risco.
- O meu receio, detective JCorreia,  √© que n√£o confio na protec√ß√£o policial. Mas em troca do seu apoio concordo em dizer-lhe o que sei sobre o que se passa na casa cor-de-rosa.
-Muito bem, diga-me então o que se passa nessa casa, e qual é a sua função.
- Se não fosse a Idalina a chagar-me a cabeça, nunca me tinha metido nisto. Tinha o meu trabalho garantido na Seguradora. Mas ela com conversa melosa, deu-me a volta. Que assim que assado, que ia ganhar muito mais, que íamos sair da cepa torta, que era uma tarefa fácil. Nada fica a dever à sua homóloga Eva que bem lixou o Adão. Fez de mim gato sapato..,
- …pare lá com essa verborreia. Deixe-se de rodeios e vá directo ao assunto…

‚Ķpara ir directo ao assunto, pode-se considerar aquele local, um bordel de luxo.  frequentado por pessoas de altos extractos sociais: gente da alta finan√ßa, da pol√≠tica, famosos medi√°ticos. Mas o que o caracteriza √© que as mulheres que ali ‚Äútrabalham‚ÄĚ s√£o de menor idade. ‚ÄúPetiscos‚ÄĚ que n√£o s√£o para o meu, nem para o seu bico‚Ķ
..,porra Ernesto, n√£o me interessam as suas aprecia√ß√Ķes‚Ķ
…geralmente eram meninas trazidas de países "pobres", através de processos pouco ortodoxos. Os encontros são organizados em determinadas datas, festas restritas, onde apenas se tem acesso por convite.
- E pode identificar esses participantes, ou alguns deles? ‚Äď perguntou JCorreia, perante uma Rosalinda que denotava algum mal estar.
- N√£o sei quem s√£o essas pessoas. ‚Äď respondeu Ernesto ‚Äď Nunca estive presente nesses encontros. Tenho conhecimento que existem regras e rituais. Que as meninas e os senhores usam m√°scaras, e que se faz uma esp√©cie de jogos, para ter acesso ao acto sexual. Mas a minha fun√ß√£o √© fazer entrega de artefactos er√≥ticos e filmes pornogr√°ficos, que s√£o fornecidos por uma empresa.
- Figueira e Laranjeira?- perguntou JCorreia.
- Sim, - continuou Ernesto ‚Äď essa empresa fornece os materiais que referi. E creio que tamb√©m est√° ligada ao tr√°fico das menores, que ali s√£o utilizadas. Sinceramente √© o que sei. Sou apenas ‚Äúum pombo correio‚ÄĚ.
- E o que sabe sobre quem dirige?
- Quer acredite ou n√£o, apenas conhe√ßo a pessoa de quem dependo. Arraia mi√ļda tal como eu. A minha mulher, da empresa de importa√ß√Ķes, que me meteu nisto, e o indiv√≠duo que me recebia na vivenda. Houve sempre muito cuidado em manter o m√°ximo sigilo.
- Obrigado senhor Ernesto, acabou de confirmar, com pormenores, aquilo de que desconfiava. Como detective privado n√£o posso intervir. Vou coligir toda a informa√ß√£o e entreg√°-la √† pol√≠cia. Se quiser colaborar, ser√° muito √ļtil. Agora n√£o o ma√ßo mais. Vou lev√°-lo ao apartamento da Rosalinda. Pode tirar essa roupa que lhe fica um pouco desajustada. Faz lembrar o palha√ßo pobre. L√°, pode utilizar roupa do Dami√£o, marido da Rosalinda, que est√° preso. Acho que ela n√£o se importa. N√£o saia. N√≥s visitamo-lo.

Rosalinda levantou o auscultador do telefone: estou a falar com a Rosalinda? ‚Äď disse uma voz, que parecia j√° ter ouvido.‚ÄĚ O JCorreia n√£o est√°. Quer deixar recado?‚ÄĚ, disse Rosalinda. ‚ÄúFala Carlos Madeira, e √© com a senhorita que quero falar‚ÄĚ. ‚ÄúCarlos Madeira?‚ÄĚ Sil√™ncio. ‚ÄúN√£o se lembra de mim? Fico triste. Sou o advogado que com quem falou durante um lanche, ali√°s muito agrad√°vel, sobretudo pela companhia‚ÄĚ. ‚ÄúPe√ßo desculpa, senhor Madeira, mas a minha mem√≥ria n√£o √© muito eficaz a fixar nomes. Lembro-me do encontro. Diga o que pretende.‚ÄĚ ‚ÄúPretendo convid√°-la para um almo√ßo, para falarmos sobre o senhor Dami√£o. Soube que ele recusou os servi√ßos da doutora Laura. Terei muito gosto em assumir a  defesa do seu marido, se concordar. ‚ÄúPod√≠amos  marcar esse encontro?‚ÄĚ ‚ÄúApanhou-me de surpresa. Vou precisar de pensar e de ouvir a opini√£o do Joaquim. Prometo que o contacto.‚ÄĚ

Joaquim voltou a tirar o MG descapot√°vel da garagem. O dia nascera solarengo depois do dil√ļvio do dia anterior. Tinha combinado com Rosalinda que iriam ao Estoril fazer uma visita √† casa rosa. Sa√≠ram a meio da manh√£. O detective queria encerrar de vez a sua participa√ß√£o, num caso em que n√£o tinha compet√™ncia para intervir. Pretendia apenas recolher algumas informa√ß√Ķes complementares, para passar entregar √† PJ. Rosalinda estava indecisa sobre o que fazer com Ernesto. Considerava que lhe parecia uma boa pessoa, que se deixou arrastar para aquela situa√ß√£o. Insistiu com Joaquim.
- E se deix√°ssemos o Ernesto decidir o que quer fazer, e nos afast√°ssemos? Temos outro caso para investigar.
- N√£o sejas ing√©nua Rosalinda. Boas pessoas somos todos at√© deixarmos de o ser. Olhamos √† nossa volta e o que vemos: apar√™ncias. Na realidade somos gente modelada por s√©culos de condicionamento. Pensamos e agimos condicionados por leis e convec√ß√Ķes. Sem o primado da Lei, dizia Locke,  a conviv√™ncia humana era imposs√≠vel. Digamos que a Lei √© o verniz que esconde a verdadeira natureza humana. Quando as condi√ß√Ķes se propiciam o verniz estala. O estudo da tortura de humanos contra humanos ao longo da hist√≥ria, √© um retrato muito interessante do que somos, mesmo amenizado com doses e mais doses de civiliza√ß√£o. O Ernesto pode fazer-se de v√≠tima, mas n√£o √©. Ningu√©m o obrigou a fazer aquele trabalho. N√£o deixa de ser um filho da puta, que colabora com tr√°fico de menores.

Ao passar junto de Santa Apol√≥nia JCorreia lembrou-se do seu pai. Era num dos restaurantes, da pra√ßa da esta√ß√£o de caminhos de ferro, que almo√ßavam sempre que este passava por Lisboa, para viajar no Sud Expresso para Fran√ßa. Era um almo√ßo onde entre duas garfadas, calavam mais do que falavam. O seu pai n√£o era pessoa de muitas palavras, nem havia entre eles, para al√©m da rela√ß√£o familiar, muitas afinidades. Destes encontros, o detective n√£o retivera recorda√ß√Ķes que fossem para al√©m do trivial. O que tinha presente na mem√≥ria, relacionava-se com a primeira vez que o seu pai tinha vindo a Portugal, cerca de um ano depois de ter ido para Fran√ßa a salto. Vinha gozar uns dias de f√©rias, e tratar da legaliza√ß√£o enquanto emigrante. Joaquim lembra-se de o ver chegar a casa, onde se encontrava a passar uns dias de licen√ßa antes de partir para a guerra colonial. Ap√≥s ter chegado, o pai come√ßar a tirar dos v√°rios bolsos da roupa, notas de cem francos. Depois, pegou no chap√©u que sempre usava, e tirou mais dinheiro Por fim, descal√ßou os sapatos e saltaram mais francos. Feito o c√Ęmbio, trazia no total dezasseis contos. A m√£e primeiro emudeceu, acabando por comentar: ‚Äúhomem acertastes na lotaria. Isto √© uma fortuna. Nunca vi a cor a tanto dinheiro. Ganhei-o‚ÄĚ- respondeu o pai,-  e soube-me a boca a sangue. Na Fran√ßa trabalho no duro, mas compensa. √Č outro pa√≠s.‚ÄĚ

Rosalinda tinha interrompido o sil√™ncio de Joaquim. Este embrenhado nas suas recorda√ß√Ķes n√£o a ouviu.
- O que disseste Rosalinda?

- Sei que fazes muitas viagens dentro de livros, e que tens a tua visão da realidade. A minha observação da mesma, é mais terra a terra. O meu mundo é o que vejo no dia-a-dia. Vejo pessoas boas e más, bem e mal intencionadas. Continuo a dizer que o Ernesto se deixou iludir pelo dinheiro, e se meteu numa actividade que merece ser condenada. Como ele há outros. Estou a lembrar-me do Damião. Não quer dizer que sejam bandidos.
- Compreendo o teu ponto de vista. Sendo iguais todos somos diferentes, A minha perspectiva da realidade tamb√©m resulta das minhas viv√™ncias. Sei que para al√©m do ADN comum, cada pessoa tem a sua especificidade. Umas mais resistentes √†s tenta√ß√Ķes que nos rodeiam, outras menos. Mas a pureza √© um mito. Na vida profissional aprendi a conhecer melhor os nossos semelhantes. Deixemos isso e aproveitemos a viagem para apreciar a beleza da liga√ß√£o do rio ao mar, como um abra√ßo de uma rela√ß√£o bem-sucedida.

O MG estacionou junto à casa rosa. JCorreia saiu e tocou à campainha. A porta continuou fechada. Voltou a tocar. Silêncio. Rodeou a vivenda até às traseiras, onde havia um jardim murado. Pensou em entrar mas não conseguiu ultrapassá-lo. Espreitou por uma janela e pareceu-lhe que não havia ninguém. Voltou ao carro, com um ar desiludido.
- Então Joaquim, se bem te conheço, vejo-te com ar de derrotado.
- Acompanha o meu racioc√≠nio, Rosalinda. Idalina procurou-nos para nos encarregar do desaparecimento do seu marido, chamado Ernesto. Nas nossas investiga√ß√Ķes descobrimos esse Ernesto a fazer transporte de embrulhos entre esta casa e uma empresa de import/export, onde trabalhava a Idalina, e que temos estado a investigar. Interroguei o Ernesto junto a esta vivenda, que disse ser a sua nova morada. Agora quando nos procurou deu outra vers√£o que parece mais pr√≥xima do que aqui acontecia. Hoje fiquei com a convic√ß√£o que est√° abandonada. Pelo que observei n√£o vejo qualquer r√©stia de presen√ßa humana. Que achas?
- Acho que faz sentido. E que fazemos?
- Que fazemos? √Č quase hora de almo√ßo. Como tamb√©m sou terra a terra, vamos comer ao Jo√£o Padeiro.

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« Última modificação: Janeiro 17, 2021, 20:13:17 por Na√ß√£o Valente » Registado
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« Responder #76 em: Janeiro 18, 2021, 00:20:04 »

E continuando...
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #77 em: Janeiro 18, 2021, 20:06:07 »

XXVIII

Como homem previdente Joaquim tinha marcado mesa. Naquele famoso restaurante de Cascais, n√£o era f√°cil conseguir lugar, em cima da hora.- Acho que faz sentido. E que fazemos?
- Que fazemos? √Č quase hora de almo√ßo. Como tamb√©m sou terra a terra, vamos comer ao Jo√£o Padeiro


Um empregado  conduziu-os √† mesa reservada. Joaquim, como ‚Äúbom garfo‚ÄĚ e mais animado, disse para Rosalinda:

-Se não estou enganado, nunca tinhas vindo a este sítio. Também não vinha cá desde os anos setenta. Mas já que viemos para esta zona, matamos dois coelhos com uma cajadada, isto é aproveitamos para dar vida ao pecado da gula. A ementa é variada, mas eu sugiro-te o cabrito ao padeiro, uma especialidade de comer e chorar por mais.
-Aceito a tua sugestão.- disse Rosalinda -A experiência diz-me que as tuas escolhas, em gastronomia, são acertadas.
- Creio que n√£o te vais arrepender. Eu nunca me arrependi de c√° vir, quando as instala√ß√Ķes eram outras. No outro local onde vinha em 1973, era frequentado por pol√≠ticos e empres√°rios. Nessa altura, houve um dia em que vim com amigos, e em que me arrependi. De tal modo que nunca mais voltei. E se n√£o fosse ser desagrad√°vel para os companheiros, teria sa√≠do. Imaginas quem estava sentado numa mesa pr√≥xima?
- Como posso imaginar Joaquim? Nesse ano, era uma jovem que vivia num bairro popular com a minha m√£e. N√£o frequent√°vamos lugares como este.

- Também não o frequentava regularmente. Frequentava, uma vez por outra, devido a algum evento especial, como foi, nesse dia, o aniversário do Carlão, então companheiro de quarto. Voltando às presenças que me perturbaram, eram pessoas com quem muita gente não gostaria de se cruzar. Tratava-se de três esbirros da polícia política que tinham estado ligados ao assassinato do general Delgado: Rosa Casaco Casimiro Monteiro, Agostinho Tienza. Cruzei-me com Casaco, quando estive preso na António Maria Cardoso. no ultimo ano de existência do regime, e nunca esqueci aquela cara.
O assassinato do General com a sua secretária aconteceu em Fevereiro de 1965, na região de Olivença. O julgamento dos culpados, incluindo Silva Pais e Barbieri Cardoso, que dirigiam a Pide, foi feito depois de Abril de 1974, por um tribunal militar, concretamente em 1978. Lembras-te desse julgamento, Rosalinda?
- Sim. Foi falado na comunica√ß√£o social, mas passou-me ao lado. N√£o me interessava muito pela pol√≠tica. A minha participa√ß√£o resumia-se a um voto quando havia elei√ß√Ķes. A escolha tinha uma componente influenciada pela simpatia, por esta ou aquela figura.-  concluiu Rosalinda, mais interessada no cabrito, do que naquela hist√≥ria.
- Durante o julgamento,- continuou Joaquim- e com base nos depoimentos dos implicados, surgiram vers√Ķes contradit√≥rias. Assumido o assassinato, notou-se a inten√ß√£o de que este n√£o estava previsto no plano tra√ßado pela Pide, que consistiria numa opera√ß√£o designada ‚ÄúOutono‚ÄĚ e que visava prender Delgado e julg√°-lo como inimigo do Estado, como implicado no ataque ao quartel de Beja anos antes. A Opera√ß√£o Outono, consistiria em atrair o General a um encontro com oposicionistas, utilizando agentes infiltrados no grupo de apoio do General. O assassinato ter√° sido perpetrado por Casimiro Monteiro, que atirou sobre eles, √† revelia do  queestava programado, segundo a vers√£o de Rosa Casaco
O corpos colocados numa vala, e tapados com pedras e ramos junto de Villa Nueva del Fresno, foram descobertos por crianças meses mais tarde, identificados e autopsiados pela polícia espanhola. No seu relatório lê-se que Delgado foi morto à pancada, e que a sua secretária foi estrangulada. O disparo de tiros terá partido da pistola do General, quando percebeu que tinha caído numa armadilha. O regime, na altura, sacudiu a água do capote, e acusou a oposição dos crimes, numa luta entre grupos oposicionistas rivais.
Aquelas figuras sinistras que executaram a opera√ß√£o Outono, e que naquela noite estavam a comer neste restaurante, foram promovidos a seguir, tendo alguns ido para √Āfrica. Continuaram a manter a cumplicidade num assassinato encomendado. Dos testemunhos recolhidos apurou-se que Salazar estaria ao corrente da opera√ß√£o, uma vez que a PIDE n√£o desencadeava ac√ß√Ķes dessa envergadura, sem o seu conhecimento. Ficou por saber de quem partiu a ideia.

Hoje, passados muitos anos, aqui estou novamente, em boa companhia, e sem esbirros a tirar-me o prazer da mesa. Aprecio a paciência que tens para me ouvir, com assuntos que já são história. Mas considero importante que não a esqueçamos, para podermos estar neste e noutro lugar, sem medo de ser vigiados e de ser limitados na nossa liberdade. E não te esqueças, continua a haver gente dessa à nossa volta, que se deixarmos, nos voltam a oprimir.

Uma travessa fumegante, trazia o cabrito saído do forno. Joaquim atendeu o telemóvel.
--Estou? -  disse o detective.- Quem fala?
- J√° n√£o me conheces a voz, magan√£o? Sou o Malange.
- Malange? Como estás velho amigo, velho no sentido carinhoso. Espera…
- Rosalinda, começa a servir-te…
- N√£o me digas, Correia, que j√° arranjaste pendura.
-Tens razão Malanje, mas não é como tu pensas. Rosalinda é a minha secretária, e agora também colaboradora. Estamos em trabalho. E por aí como vão as coisas, carago? E o Contreras, também está bem?. Não te vou dizer que estou surpreendido. Estava a pensar em ti. Às vezes acredito na transmissão de pensamentos. Só não consigo intuir porque ligastes.
- Indo directo ao assunto, telefonei para te convidar, para um almoço de despedida. Chegou o meu tempo e o do Contreras de deixar a PJ. Somos da mesma idade. O Contreras tem andado um bocado em baixo…
- √Č do stress da sa√≠da?
-Qual stress da sa√≠da, qual carapu√ßa. √Č porque a Elvira, a mulher, o deixou. Agora que √© quase sexagen√°rio, come√ßou a andar por casas de alterne e meteu-se com uma lambisgoia. Adiante. Conto contigo aqui na invicta. E podes trazer a tua secret√°ria.
- N√£o faltarei grande amigo. Terei muito gosto. Precisamos de p√īr a conversa em dia. Agora vou ferrar o dente num cabrito √† padeiro. √Čs servido?
- Quem dera, Correia…Depois dou-te mais pormenores, sobre o evento.
-  Ora Rosalinda, obrigado por me teres servido. ‚Äď disse Correia depois de ter desligado a chamada ‚Äď Estive a falar com um companheiro da pol√≠cia, que est√° no Porto, e que vai aposentar-se. Com ele e Contreras, com quem tem feito equipa, fiz v√°rias forma√ß√Ķes. Estamos convidados para a festa de despedida. Al√©m disso, Malanje e Contreras, investigaram um caso de esfaqueamento na R√©gua. Os principais implicados fugiram para Angola, e eles tiveram contactos com a pol√≠cia angolana. Podem ser-nos √ļteis no caso de tr√°fico de meninas.
- E os acusados foram presos? ‚Äď perguntou  Rosalinda, enquanto servia Joaquim.
- N√£o. A vers√£o oficial da pol√≠cia, foi de que se mataram um ao outro. Mas Malanje disse-me que nunca acreditou que isso tivesse acontecido. Para ele n√£o passou de uma manobra de pol√≠ticos, para os proteger. Malanje considera que est√£o vivos, e continuam ligados a actividades criminosas. Obrigado Rosalinda, mais uma vez, por me servires. √Čs uma mulher para quase todo o servi√ßo. Vamos l√° ao cabrito.
- Concordo, acentuando o quase.


Laura encontrou-se com Ot√≠lia, a filha de Clotilde, a prostituta assassinada pelo ‚Äúestripador‚ÄĚ, para preparem o dossi√™ com as informa√ß√Ķes que foram reunindo, em informa√ß√Ķes dispersas por v√°rias publica√ß√Ķes. Tinha chegado a vez de JCorreia entrar em ac√ß√£o. O conhecimento que ele tinha do processo de investiga√ß√£o era fundamental. Decidiram convid√°-lo para um encontro para analisarem a situa√ß√£o.

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« Responder #78 em: Janeiro 18, 2021, 20:08:02 »

Bora lá que eu depois venho ler! Não me apetece lidar com políticos (e polícias)a esta hora, ainda que bem escritos por ti!
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outono


« Responder #79 em: Janeiro 22, 2021, 19:55:01 »

XXIX
Laura encontrou-se com Ot√≠lia, a filha de Clotilde, a prostituta assassinada pelo ‚Äúestripador‚ÄĚ, para preparem o dossi√™ com as informa√ß√Ķes que foram reunindo, em informa√ß√Ķes dispersas por v√°rias publica√ß√Ķes. Tinha chegado a vez de JCorreia entrar em ac√ß√£o. O conhecimento que ele tinha do processo de investiga√ß√£o era fundamental. Decidiram convid√°-lo para um encontro para analisarem a situa√ß√£o.

Aida informou Ot√≠lia, que nas suas pesquisas sobre o assassinato da sua m√£e, tinha encontrado v√°rios nomes de suspeitos, presentes nas investiga√ß√Ķes da PJ. A Falta de ind√≠cios e levou ao abandono dessas linhas de investiga√ß√£o. Mas poderia ser um ponto de partida para o trabalho de JCorreia. Aida pediu a Ot√≠lia que recorresse √†s suas mem√≥rias, recuperando as lembran√ßas que tinha, na altura em que o crime aconteceu. Ot√≠lia ficou em sil√™ncio durante algum tempo. Acendeu um cigarro, deu umas baforadas, respirou fundo, e come√ßou o seu relato:
-Tinha seis anos. Recordo-me de brincar num local onde havia um poço, e de ter caído lá dentro, enquanto brincava em cima de uma tampa de madeira que o tapava e que se partiu. Fui retirada, mas as minhas lembranças, parece que ficaram dentro desse poço.
Voltou a recorrer ao cigarro, como se este rompesse a n√©voa que lhe escondia  esse passado. Continuou:
- Vejo-me a viver com a minha m√£e numa pens√£o. Ficava muito tempo sozinha. Andava em roda livre. Passava o tempo na rua a brincar com outras crian√ßas. Um dia veio uma ambul√Ęncia. Levou a minha m√£e com uma grande barriga. Quando voltou, trazia um beb√©. Fui ensinada a cuidar dele e dava-lhe o biber√£o‚Ķ
Aspirou mais fumo, e mostrou uma ligeira emoção.
- Mais tarde, n√£o consigo temporizar, o meu pai veio buscar-me e levou-me a um funeral. Julgo que era o da minha m√£e. Fiquei um tempo, tamb√©m indefinido, com o meu pai. Quando lhe perguntava  pela minha m√£e dizia ‚Äú a tua m√£e morreu‚ÄĚ sem explica√ß√Ķes. A seguir deixei de ver o beb√©, e eu fui entregue para adop√ß√£o. √Č do que me lembro.
Olhou para Aida que continuava em silêncio.
- Para a minha nova ‚Äúm√£e‚ÄĚ fui uma filha problem√°tica. Era indisciplinada. Nunca tinha frequentado a escola, e n√£o me adaptei √† situa√ß√£o. Quando atingi a maioridade sa√≠ de casa e fiz-me √† vida. Enrolei-me com um tipo que era toxicodependente e passei um mau bocado. Dei um passo em falso, mas corrigi. Encontrei um outro companheiro e refiz a minha vida.
- Essa crian√ßa foi minha afilhada como j√° te disse ‚Äď afirmou Aida ‚Äď e creio que tamb√©m foi dada para adop√ß√£o. Nada mais sei. Quanto a ti estive sempre a par do teu percurso. E foi assim que te recebi na minha f√°brica, quando come√ßaste a trabalhar.
- Quando cheguei à idade adulta, - continuou Otília - intuí que a minha mãe era a Clotilde, a prostituta assassinada. Pedi a minha certidão de nascimento, e a certidão de falecimento de Clotilde. Batia certo. Era a minha mãe.


O almo√ßo reconciliou Joaquim com o Jo√£o Padeiro. A qualidade de sempre, temperada pela boa companhia, e por uma reserva especial Colares. Como acontecia em condi√ß√Ķes especiais , o detective improvisado, mandou para as urtigas as recomenda√ß√Ķes m√©dicas, e deu de beber √†s dores. Quando sa√≠ram do Restaurante, Joaquim olhou para o c√©u e pediu √† Divina Provid√™ncia que o dispensasse de soprar no bal√£o. Mas Rosalinda n√£o tinha carta de condu√ß√£o e teve de arriscar. Demorou duas horas a fazer a viagem de regresso. Tinha ganho o h√°bito de reduzir a velocidade na raz√£o inversa do aumento de √°lcool no sangue. At√© a sua acompanhante lhe perguntou porque ia t√£o devagar. Joaquim usando a concentra√ß√£o dispon√≠vel na condu√ß√£o, e nas recorda√ß√Ķes, que continuava a viver, manteve o sil√™ncio, e deu protagonismo a acontecimentos do passado.

Sem ainda ter conhecido o descapot√°vel que agora o transportava, foi ali que chegou, para passar √† disponibilidade, depois de ter regressado da comiss√£o militar na Guin√©. Depois de se despir da condi√ß√£o de militar foi para a sua aldeia. O seu av√ī, enviuvara uns meses antes. Mas a sua condi√ß√£o de vi√ļvo come√ßara anos atr√°s. Embora viva de corpo, a av√≥, j√° n√£o existia h√° muito. Primeiro come√ßou a esquecer-se de p√īr temperos na comida, depois esqueceu-se de apagar o fog√£o, a seguir descuidou-se com tarefas rotineiras. Come√ßou a perder a no√ß√£o de fam√≠lia, e por fim esqueceu-se de si. Chamam-lhe  alzheimer.  Encontrou o av√ī triste e resignado. Sendo ele, pareceu-lhe que j√° era outro. Estava-se no m√™s de Outubro. Um dia disse: ‚ÄúJoaquim, vai ser a feira da vila‚ÄĚ. Lembras-te? Claro av√ī, como me podia esquecer‚ÄĚ. H√° tempo que l√° n√£o vou‚ÄĚ. Av√ī, -  disse Joaquim, adivinhando  o seu pensamento. ‚Äď porque  n√£o vamos l√°?‚ÄĚ
Foram. A feira, acompanhando as mudan√ßas constantes da moderniza√ß√£o, mantinha  as velhas tradi√ß√Ķes. As tendas, as pistas de carrinhos, os carroc√©is, o circo. Assistimos a uma sess√£o. Ao contr√°rio do passado, tinham-se invertido os pap√©is. Baltazar parecia ser o menino. At√© a cigana que mostrava estar imune ao passar dos anos, lhes leu o destino nas linhas das m√£os. Para Joaquim previu uma vida acidentada, e uma grande hist√≥ria de amor. Para Baltazar um fim de jornada angustiante. Banalidades, disse Joaquim na altura. As hist√≥rias de amor s√£o comuns nas rela√ß√Ķes humanas. Qual o romance que n√£o tem paix√Ķes no seu enredo. Nem os leitores as dispensam. As jornadas s√£o uma constante ao longo da vida. Umas com melhor, outras com pior fim. Para tentar antecipar o que tempo revelaria, existiam as ‚Äúciganas‚ÄĚ deste mundo.

A demorada viagem no MG, e a brisa mar√≠tima, absorveram o √°lcool  que povoava o corpo e a mente de Joaquim, que recuperou as condi√ß√Ķes para continuar o seu trabalho. Alimentou a gata Judite, o que o fez lembrar-se da gata dos telhados. Esperava ansioso pelo seu contacto. Telefonou para a empresa Figueira & Laranjeira. A resposta foi : ‚Äúeste n√ļmero n√£o est√° atribu√≠do‚ÄĚ
. A conclus√£o que Joaquim tirou resumiu-se a uma frase: ‚Äúespant√°mos a ca√ßa‚ÄĚ.
Dirigiu-se com Rosalinda para o seu apartamento, para informarem Ernesto que podia sair. As empresas a que estava ligado pareciam ter-se esfumado. Aperceberam-se de que as empresas que investigavam tinham desaparecido, talvez para renascer noutras circunst√Ęncias. As provas estavam nas m√£os de quem tinha colaborado com elas. . Para al√©m disso n√£o tinha nenhuma prova. Estava nas m√£os de Ernesto, fazer a den√ļncia ou n√£o, e seguir a sua vida, como entendesse.
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Goreti Dias
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« Responder #80 em: Janeiro 23, 2021, 16:00:53 »

Quanta coisa se esfuma... convenientemente... Na ficção e na realidade.
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Janeiro 23, 2021, 14:51:16
Boa tarde para todos.
Janeiro 21, 2021, 11:44:25
Bom dia feliz para todos
Abril 04, 2020, 09:57:10
Bom dia para todos!
Março 20, 2020, 15:06:31
Ol√° para todos!
Março 19, 2020, 22:59:05
Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
Janeiro 29, 2020, 20:06:36
Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
Janeiro 10, 2020, 14:03:15
Boa tarde a todos
Janeiro 06, 2020, 14:46:26
Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
Dezembro 02, 2019, 21:57:04
Boa noite feliz para todos.
Dezembro 01, 2019, 19:51:29
Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
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