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Autor Tópico: A Gata dos Telhados XXXIV  (Lida 7633 vezes)
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Nação Valente
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outono


« Responder #75 em: Janeiro 10, 2021, 21:25:25 »

XXVII
- Não sei se deva confiar em quem me quis aldrabar, mas venha comigo. Está encharcado. Não tenho condições para o proteger. Veremos o que se pode fazer

JCorreia entregou roupas secas a Ernesto. Acordou com Rosalinda colocá-lo na sua casa que não estava habitada, até encontrar a melhor solução. Tentou convencê-lo a relatar a posição à polícia. Ele mesmo o poria, contacto, com seu camarada da PJ. Poderia negociar um perdão, no papel de colaborador arrependido. E teria protecção assegurada
- O que pudemos fazer neste momento é facultar um refúgio para se esconder, disse JCorreia. Se estiver de acordo, ficará na casa da Rosalinda. Mas é uma situação provisória.. Para merecer a nossa confiança, devia começar por nos contar o que se passa naquela vivenda.
- A minha intenção – respondeu Ernesto - era que me ajudasse a sair de Lisboa, talvez do país. E que tentasse descobrir o que se passa com a Idalina. Como lhe disse , percebi que perderam a confiança que tinham em mim. Vim pedir ajuda, porque estou muito assustado. perdido a confiança em mim.
 - Lamento, mas não posso apoiar o seu plano de fuga, senhor Ernesto. Seria assumir cumplicidade com alguém que tem estado ligado a práticas ilegais. Estou apenas a protegê-lo de uma eventual retaliação imediata, mas não dou cobertura a fugas à justiça. Se quiser colaborar com as autoridades tem o meu apoio. Se não, pode sair e ficar por sua conta e risco.
- O meu receio, detective JCorreia,  Ã© que não confio na protecção policial. Mas em troca do seu apoio concordo em dizer-lhe o que sei sobre o que se passa na casa cor-de-rosa.
-Muito bem, diga-me então o que se passa nessa casa, e qual é a sua função.
- Se não fosse a Idalina a chagar-me a cabeça, nunca me tinha metido nisto. Tinha o meu trabalho garantido na Seguradora. Mas ela com conversa melosa, deu-me a volta. Que assim que assado, que ia ganhar muito mais, que íamos sair da cepa torta, que era uma tarefa fácil. Nada fica a dever à sua homóloga Eva que bem lixou o Adão. Fez de mim gato sapato..,
- …pare lá com essa verborreia. Deixe-se de rodeios e vá directo ao assunto…

…para ir directo ao assunto, pode-se considerar aquele local, um bordel de luxo.  frequentado por pessoas de altos extractos sociais: gente da alta finança, da política, famosos mediáticos. Mas o que o caracteriza é que as mulheres que ali “trabalham” são de menor idade. “Petiscos” que não são para o meu, nem para o seu bico…
..,porra Ernesto, não me interessam as suas apreciações…
…geralmente eram meninas trazidas de países "pobres", através de processos pouco ortodoxos. Os encontros são organizados em determinadas datas, festas restritas, onde apenas se tem acesso por convite.
- E pode identificar esses participantes, ou alguns deles? – perguntou JCorreia, perante uma Rosalinda que denotava algum mal estar.
- Não sei quem são essas pessoas. – respondeu Ernesto – Nunca estive presente nesses encontros. Tenho conhecimento que existem regras e rituais. Que as meninas e os senhores usam máscaras, e que se faz uma espécie de jogos, para ter acesso ao acto sexual. Mas a minha função é fazer entrega de artefactos eróticos e filmes pornográficos, que são fornecidos por uma empresa.
- Figueira e Laranjeira?- perguntou JCorreia.
- Sim, - continuou Ernesto – essa empresa fornece os materiais que referi. E creio que também está ligada ao tráfico das menores, que ali são utilizadas. Sinceramente é o que sei. Sou apenas “um pombo correio”.
- E o que sabe sobre quem dirige?
- Quer acredite ou não, apenas conheço a pessoa de quem dependo. Arraia miúda tal como eu. A minha mulher, da empresa de importações, que me meteu nisto, e o indivíduo que me recebia na vivenda. Houve sempre muito cuidado em manter o máximo sigilo.
- Obrigado senhor Ernesto, acabou de confirmar, com pormenores, aquilo de que desconfiava. Como detective privado não posso intervir. Vou coligir toda a informação e entregá-la à polícia. Se quiser colaborar, será muito útil. Agora não o maço mais. Vou levá-lo ao apartamento da Rosalinda. Pode tirar essa roupa que lhe fica um pouco desajustada. Faz lembrar o palhaço pobre. Lá, pode utilizar roupa do Damião, marido da Rosalinda, que está preso. Acho que ela não se importa. Não saia. Nós visitamo-lo.

Rosalinda levantou o auscultador do telefone: estou a falar com a Rosalinda? – disse uma voz, que parecia já ter ouvido.” O JCorreia não está. Quer deixar recado?”, disse Rosalinda. “Fala Carlos Madeira, e é com a senhorita que quero falar”. “Carlos Madeira?” Silêncio. “Não se lembra de mim? Fico triste. Sou o advogado que com quem falou durante um lanche, aliás muito agradável, sobretudo pela companhia”. “Peço desculpa, senhor Madeira, mas a minha memória não é muito eficaz a fixar nomes. Lembro-me do encontro. Diga o que pretende.” “Pretendo convidá-la para um almoço, para falarmos sobre o senhor Damião. Soube que ele recusou os serviços da doutora Laura. Terei muito gosto em assumir a  defesa do seu marido, se concordar. “Podíamos  marcar esse encontro?” “Apanhou-me de surpresa. Vou precisar de pensar e de ouvir a opinião do Joaquim. Prometo que o contacto.”

Joaquim voltou a tirar o MG descapotável da garagem. O dia nascera solarengo depois do dilúvio do dia anterior. Tinha combinado com Rosalinda que iriam ao Estoril fazer uma visita à casa rosa. Saíram a meio da manhã. O detective queria encerrar de vez a sua participação, num caso em que não tinha competência para intervir. Pretendia apenas recolher algumas informações complementares, para passar entregar à PJ. Rosalinda estava indecisa sobre o que fazer com Ernesto. Considerava que lhe parecia uma boa pessoa, que se deixou arrastar para aquela situação. Insistiu com Joaquim.
- E se deixássemos o Ernesto decidir o que quer fazer, e nos afastássemos? Temos outro caso para investigar.
- Não sejas ingénua Rosalinda. Boas pessoas somos todos até deixarmos de o ser. Olhamos à nossa volta e o que vemos: aparências. Na realidade somos gente modelada por séculos de condicionamento. Pensamos e agimos condicionados por leis e convecções. Sem o primado da Lei, dizia Locke,  a convivência humana era impossível. Digamos que a Lei é o verniz que esconde a verdadeira natureza humana. Quando as condições se propiciam o verniz estala. O estudo da tortura de humanos contra humanos ao longo da história, é um retrato muito interessante do que somos, mesmo amenizado com doses e mais doses de civilização. O Ernesto pode fazer-se de vítima, mas não é. Ninguém o obrigou a fazer aquele trabalho. Não deixa de ser um filho da puta, que colabora com tráfico de menores.

Ao passar junto de Santa Apolónia JCorreia lembrou-se do seu pai. Era num dos restaurantes, da praça da estação de caminhos de ferro, que almoçavam sempre que este passava por Lisboa, para viajar no Sud Expresso para França. Era um almoço onde entre duas garfadas, calavam mais do que falavam. O seu pai não era pessoa de muitas palavras, nem havia entre eles, para além da relação familiar, muitas afinidades. Destes encontros, o detective não retivera recordações que fossem para além do trivial. O que tinha presente na memória, relacionava-se com a primeira vez que o seu pai tinha vindo a Portugal, cerca de um ano depois de ter ido para França a salto. Vinha gozar uns dias de férias, e tratar da legalização enquanto emigrante. Joaquim lembra-se de o ver chegar a casa, onde se encontrava a passar uns dias de licença antes de partir para a guerra colonial. Após ter chegado, o pai começar a tirar dos vários bolsos da roupa, notas de cem francos. Depois, pegou no chapéu que sempre usava, e tirou mais dinheiro Por fim, descalçou os sapatos e saltaram mais francos. Feito o câmbio, trazia no total dezasseis contos. A mãe primeiro emudeceu, acabando por comentar: “homem acertastes na lotaria. Isto é uma fortuna. Nunca vi a cor a tanto dinheiro. Ganhei-o”- respondeu o pai,-  e soube-me a boca a sangue. Na França trabalho no duro, mas compensa. É outro país.”

Rosalinda tinha interrompido o silêncio de Joaquim. Este embrenhado nas suas recordações não a ouviu.
- O que disseste Rosalinda?

- Sei que fazes muitas viagens dentro de livros, e que tens a tua visão da realidade. A minha observação da mesma, é mais terra a terra. O meu mundo é o que vejo no dia-a-dia. Vejo pessoas boas e más, bem e mal intencionadas. Continuo a dizer que o Ernesto se deixou iludir pelo dinheiro, e se meteu numa actividade que merece ser condenada. Como ele há outros. Estou a lembrar-me do Damião. Não quer dizer que sejam bandidos.
- Compreendo o teu ponto de vista. Sendo iguais todos somos diferentes, A minha perspectiva da realidade também resulta das minhas vivências. Sei que para além do ADN comum, cada pessoa tem a sua especificidade. Umas mais resistentes às tentações que nos rodeiam, outras menos. Mas a pureza é um mito. Na vida profissional aprendi a conhecer melhor os nossos semelhantes. Deixemos isso e aproveitemos a viagem para apreciar a beleza da ligação do rio ao mar, como um abraço de uma relação bem-sucedida.

O MG estacionou junto à casa rosa. JCorreia saiu e tocou à campainha. A porta continuou fechada. Voltou a tocar. Silêncio. Rodeou a vivenda até às traseiras, onde havia um jardim murado. Pensou em entrar mas não conseguiu ultrapassá-lo. Espreitou por uma janela e pareceu-lhe que não havia ninguém. Voltou ao carro, com um ar desiludido.
- Então Joaquim, se bem te conheço, vejo-te com ar de derrotado.
- Acompanha o meu raciocínio, Rosalinda. Idalina procurou-nos para nos encarregar do desaparecimento do seu marido, chamado Ernesto. Nas nossas investigações descobrimos esse Ernesto a fazer transporte de embrulhos entre esta casa e uma empresa de import/export, onde trabalhava a Idalina, e que temos estado a investigar. Interroguei o Ernesto junto a esta vivenda, que disse ser a sua nova morada. Agora quando nos procurou deu outra versão que parece mais próxima do que aqui acontecia. Hoje fiquei com a convicção que está abandonada. Pelo que observei não vejo qualquer réstia de presença humana. Que achas?
- Acho que faz sentido. E que fazemos?
- Que fazemos? É quase hora de almoço. Como também sou terra a terra, vamos comer ao João Padeiro.

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« Última modificação: Janeiro 17, 2021, 20:13:17 por Nação Valente » Registado
Maria Gabriela de Sá
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« Responder #76 em: Janeiro 18, 2021, 00:20:04 »

E continuando...
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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« Responder #77 em: Janeiro 18, 2021, 20:06:07 »

XXVIII

Como homem previdente Joaquim tinha marcado mesa. Naquele famoso restaurante de Cascais, não era fácil conseguir lugar, em cima da hora.- Acho que faz sentido. E que fazemos?
- Que fazemos? É quase hora de almoço. Como também sou terra a terra, vamos comer ao João Padeiro


Um empregado  conduziu-os à mesa reservada. Joaquim, como “bom garfo” e mais animado, disse para Rosalinda:

-Se não estou enganado, nunca tinhas vindo a este sítio. Também não vinha cá desde os anos setenta. Mas já que viemos para esta zona, matamos dois coelhos com uma cajadada, isto é aproveitamos para dar vida ao pecado da gula. A ementa é variada, mas eu sugiro-te o cabrito ao padeiro, uma especialidade de comer e chorar por mais.
-Aceito a tua sugestão.- disse Rosalinda -A experiência diz-me que as tuas escolhas, em gastronomia, são acertadas.
- Creio que não te vais arrepender. Eu nunca me arrependi de cá vir, quando as instalações eram outras. No outro local onde vinha em 1973, era frequentado por políticos e empresários. Nessa altura, houve um dia em que vim com amigos, e em que me arrependi. De tal modo que nunca mais voltei. E se não fosse ser desagradável para os companheiros, teria saído. Imaginas quem estava sentado numa mesa próxima?
- Como posso imaginar Joaquim? Nesse ano, era uma jovem que vivia num bairro popular com a minha mãe. Não frequentávamos lugares como este.

- Também não o frequentava regularmente. Frequentava, uma vez por outra, devido a algum evento especial, como foi, nesse dia, o aniversário do Carlão, então companheiro de quarto. Voltando às presenças que me perturbaram, eram pessoas com quem muita gente não gostaria de se cruzar. Tratava-se de três esbirros da polícia política que tinham estado ligados ao assassinato do general Delgado: Rosa Casaco Casimiro Monteiro, Agostinho Tienza. Cruzei-me com Casaco, quando estive preso na António Maria Cardoso. no ultimo ano de existência do regime, e nunca esqueci aquela cara.
O assassinato do General com a sua secretária aconteceu em Fevereiro de 1965, na região de Olivença. O julgamento dos culpados, incluindo Silva Pais e Barbieri Cardoso, que dirigiam a Pide, foi feito depois de Abril de 1974, por um tribunal militar, concretamente em 1978. Lembras-te desse julgamento, Rosalinda?
- Sim. Foi falado na comunicação social, mas passou-me ao lado. Não me interessava muito pela política. A minha participação resumia-se a um voto quando havia eleições. A escolha tinha uma componente influenciada pela simpatia, por esta ou aquela figura.-  concluiu Rosalinda, mais interessada no cabrito, do que naquela história.
- Durante o julgamento,- continuou Joaquim- e com base nos depoimentos dos implicados, surgiram versões contraditórias. Assumido o assassinato, notou-se a intenção de que este não estava previsto no plano traçado pela Pide, que consistiria numa operação designada “Outono” e que visava prender Delgado e julgá-lo como inimigo do Estado, como implicado no ataque ao quartel de Beja anos antes. A Operação Outono, consistiria em atrair o General a um encontro com oposicionistas, utilizando agentes infiltrados no grupo de apoio do General. O assassinato terá sido perpetrado por Casimiro Monteiro, que atirou sobre eles, à revelia do  queestava programado, segundo a versão de Rosa Casaco
O corpos colocados numa vala, e tapados com pedras e ramos junto de Villa Nueva del Fresno, foram descobertos por crianças meses mais tarde, identificados e autopsiados pela polícia espanhola. No seu relatório lê-se que Delgado foi morto à pancada, e que a sua secretária foi estrangulada. O disparo de tiros terá partido da pistola do General, quando percebeu que tinha caído numa armadilha. O regime, na altura, sacudiu a água do capote, e acusou a oposição dos crimes, numa luta entre grupos oposicionistas rivais.
Aquelas figuras sinistras que executaram a operação Outono, e que naquela noite estavam a comer neste restaurante, foram promovidos a seguir, tendo alguns ido para África. Continuaram a manter a cumplicidade num assassinato encomendado. Dos testemunhos recolhidos apurou-se que Salazar estaria ao corrente da operação, uma vez que a PIDE não desencadeava acções dessa envergadura, sem o seu conhecimento. Ficou por saber de quem partiu a ideia.

Hoje, passados muitos anos, aqui estou novamente, em boa companhia, e sem esbirros a tirar-me o prazer da mesa. Aprecio a paciência que tens para me ouvir, com assuntos que já são história. Mas considero importante que não a esqueçamos, para podermos estar neste e noutro lugar, sem medo de ser vigiados e de ser limitados na nossa liberdade. E não te esqueças, continua a haver gente dessa à nossa volta, que se deixarmos, nos voltam a oprimir.

Uma travessa fumegante, trazia o cabrito saído do forno. Joaquim atendeu o telemóvel.
--Estou? -  disse o detective.- Quem fala?
- Já não me conheces a voz, maganão? Sou o Malange.
- Malange? Como estás velho amigo, velho no sentido carinhoso. Espera…
- Rosalinda, começa a servir-te…
- Não me digas, Correia, que já arranjaste pendura.
-Tens razão Malanje, mas não é como tu pensas. Rosalinda é a minha secretária, e agora também colaboradora. Estamos em trabalho. E por aí como vão as coisas, carago? E o Contreras, também está bem?. Não te vou dizer que estou surpreendido. Estava a pensar em ti. Às vezes acredito na transmissão de pensamentos. Só não consigo intuir porque ligastes.
- Indo directo ao assunto, telefonei para te convidar, para um almoço de despedida. Chegou o meu tempo e o do Contreras de deixar a PJ. Somos da mesma idade. O Contreras tem andado um bocado em baixo…
- É do stress da saída?
-Qual stress da saída, qual carapuça. É porque a Elvira, a mulher, o deixou. Agora que é quase sexagenário, começou a andar por casas de alterne e meteu-se com uma lambisgoia. Adiante. Conto contigo aqui na invicta. E podes trazer a tua secretária.
- Não faltarei grande amigo. Terei muito gosto. Precisamos de pôr a conversa em dia. Agora vou ferrar o dente num cabrito à padeiro. És servido?
- Quem dera, Correia…Depois dou-te mais pormenores, sobre o evento.
-  Ora Rosalinda, obrigado por me teres servido. – disse Correia depois de ter desligado a chamada – Estive a falar com um companheiro da polícia, que está no Porto, e que vai aposentar-se. Com ele e Contreras, com quem tem feito equipa, fiz várias formações. Estamos convidados para a festa de despedida. Além disso, Malanje e Contreras, investigaram um caso de esfaqueamento na Régua. Os principais implicados fugiram para Angola, e eles tiveram contactos com a polícia angolana. Podem ser-nos úteis no caso de tráfico de meninas.
- E os acusados foram presos? – perguntou  Rosalinda, enquanto servia Joaquim.
- Não. A versão oficial da polícia, foi de que se mataram um ao outro. Mas Malanje disse-me que nunca acreditou que isso tivesse acontecido. Para ele não passou de uma manobra de políticos, para os proteger. Malanje considera que estão vivos, e continuam ligados a actividades criminosas. Obrigado Rosalinda, mais uma vez, por me servires. És uma mulher para quase todo o serviço. Vamos lá ao cabrito.
- Concordo, acentuando o quase.


Laura encontrou-se com Otília, a filha de Clotilde, a prostituta assassinada pelo “estripador”, para preparem o dossiê com as informações que foram reunindo, em informações dispersas por várias publicações. Tinha chegado a vez de JCorreia entrar em acção. O conhecimento que ele tinha do processo de investigação era fundamental. Decidiram convidá-lo para um encontro para analisarem a situação.

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« Última modificação: Janeiro 18, 2021, 20:11:55 por Nação Valente » Registado
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« Responder #78 em: Janeiro 18, 2021, 20:08:02 »

Bora lá que eu depois venho ler! Não me apetece lidar com políticos (e polícias)a esta hora, ainda que bem escritos por ti!
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« Responder #79 em: Janeiro 22, 2021, 19:55:01 »

XXIX
Laura encontrou-se com Otília, a filha de Clotilde, a prostituta assassinada pelo “estripador”, para preparem o dossiê com as informações que foram reunindo, em informações dispersas por várias publicações. Tinha chegado a vez de JCorreia entrar em acção. O conhecimento que ele tinha do processo de investigação era fundamental. Decidiram convidá-lo para um encontro para analisarem a situação.

Aida informou Otília, que nas suas pesquisas sobre o assassinato da sua mãe, tinha encontrado vários nomes de suspeitos, presentes nas investigações da PJ. A Falta de indícios e levou ao abandono dessas linhas de investigação. Mas poderia ser um ponto de partida para o trabalho de JCorreia. Aida pediu a Otília que recorresse às suas memórias, recuperando as lembranças que tinha, na altura em que o crime aconteceu. Otília ficou em silêncio durante algum tempo. Acendeu um cigarro, deu umas baforadas, respirou fundo, e começou o seu relato:
-Tinha seis anos. Recordo-me de brincar num local onde havia um poço, e de ter caído lá dentro, enquanto brincava em cima de uma tampa de madeira que o tapava e que se partiu. Fui retirada, mas as minhas lembranças, parece que ficaram dentro desse poço.
Voltou a recorrer ao cigarro, como se este rompesse a névoa que lhe escondia  esse passado. Continuou:
- Vejo-me a viver com a minha mãe numa pensão. Ficava muito tempo sozinha. Andava em roda livre. Passava o tempo na rua a brincar com outras crianças. Um dia veio uma ambulância. Levou a minha mãe com uma grande barriga. Quando voltou, trazia um bebé. Fui ensinada a cuidar dele e dava-lhe o biberão…
Aspirou mais fumo, e mostrou uma ligeira emoção.
- Mais tarde, não consigo temporizar, o meu pai veio buscar-me e levou-me a um funeral. Julgo que era o da minha mãe. Fiquei um tempo, também indefinido, com o meu pai. Quando lhe perguntava  pela minha mãe dizia “ a tua mãe morreu” sem explicações. A seguir deixei de ver o bebé, e eu fui entregue para adopção. É do que me lembro.
Olhou para Aida que continuava em silêncio.
- Para a minha nova “mãe” fui uma filha problemática. Era indisciplinada. Nunca tinha frequentado a escola, e não me adaptei à situação. Quando atingi a maioridade saí de casa e fiz-me à vida. Enrolei-me com um tipo que era toxicodependente e passei um mau bocado. Dei um passo em falso, mas corrigi. Encontrei um outro companheiro e refiz a minha vida.
- Essa criança foi minha afilhada como já te disse – afirmou Aida – e creio que também foi dada para adopção. Nada mais sei. Quanto a ti estive sempre a par do teu percurso. E foi assim que te recebi na minha fábrica, quando começaste a trabalhar.
- Quando cheguei à idade adulta, - continuou Otília - intuí que a minha mãe era a Clotilde, a prostituta assassinada. Pedi a minha certidão de nascimento, e a certidão de falecimento de Clotilde. Batia certo. Era a minha mãe.


O almoço reconciliou Joaquim com o João Padeiro. A qualidade de sempre, temperada pela boa companhia, e por uma reserva especial Colares. Como acontecia em condições especiais , o detective improvisado, mandou para as urtigas as recomendações médicas, e deu de beber às dores. Quando saíram do Restaurante, Joaquim olhou para o céu e pediu à Divina Providência que o dispensasse de soprar no balão. Mas Rosalinda não tinha carta de condução e teve de arriscar. Demorou duas horas a fazer a viagem de regresso. Tinha ganho o hábito de reduzir a velocidade na razão inversa do aumento de álcool no sangue. Até a sua acompanhante lhe perguntou porque ia tão devagar. Joaquim usando a concentração disponível na condução, e nas recordações, que continuava a viver, manteve o silêncio, e deu protagonismo a acontecimentos do passado.

Sem ainda ter conhecido o descapotável que agora o transportava, foi ali que chegou, para passar à disponibilidade, depois de ter regressado da comissão militar na Guiné. Depois de se despir da condição de militar foi para a sua aldeia. O seu avô, enviuvara uns meses antes. Mas a sua condição de viúvo começara anos atrás. Embora viva de corpo, a avó, já não existia há muito. Primeiro começou a esquecer-se de pôr temperos na comida, depois esqueceu-se de apagar o fogão, a seguir descuidou-se com tarefas rotineiras. Começou a perder a noção de família, e por fim esqueceu-se de si. Chamam-lhe  alzheimer.  Encontrou o avô triste e resignado. Sendo ele, pareceu-lhe que já era outro. Estava-se no mês de Outubro. Um dia disse: “Joaquim, vai ser a feira da vila”. Lembras-te? Claro avô, como me podia esquecer”. Há tempo que lá não vou”. Avô, -  disse Joaquim, adivinhando  o seu pensamento. – porque  não vamos lá?”
Foram. A feira, acompanhando as mudanças constantes da modernização, mantinha  as velhas tradições. As tendas, as pistas de carrinhos, os carrocéis, o circo. Assistimos a uma sessão. Ao contrário do passado, tinham-se invertido os papéis. Baltazar parecia ser o menino. Até a cigana que mostrava estar imune ao passar dos anos, lhes leu o destino nas linhas das mãos. Para Joaquim previu uma vida acidentada, e uma grande história de amor. Para Baltazar um fim de jornada angustiante. Banalidades, disse Joaquim na altura. As histórias de amor são comuns nas relações humanas. Qual o romance que não tem paixões no seu enredo. Nem os leitores as dispensam. As jornadas são uma constante ao longo da vida. Umas com melhor, outras com pior fim. Para tentar antecipar o que tempo revelaria, existiam as “ciganas” deste mundo.

A demorada viagem no MG, e a brisa marítima, absorveram o álcool  que povoava o corpo e a mente de Joaquim, que recuperou as condições para continuar o seu trabalho. Alimentou a gata Judite, o que o fez lembrar-se da gata dos telhados. Esperava ansioso pelo seu contacto. Telefonou para a empresa Figueira & Laranjeira. A resposta foi : “este número não está atribuído”
. A conclusão que Joaquim tirou resumiu-se a uma frase: “espantámos a caça”.
Dirigiu-se com Rosalinda para o seu apartamento, para informarem Ernesto que podia sair. As empresas a que estava ligado pareciam ter-se esfumado. Aperceberam-se de que as empresas que investigavam tinham desaparecido, talvez para renascer noutras circunstâncias. As provas estavam nas mãos de quem tinha colaborado com elas. . Para além disso não tinha nenhuma prova. Estava nas mãos de Ernesto, fazer a denúncia ou não, e seguir a sua vida, como entendesse.
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« Responder #80 em: Janeiro 23, 2021, 16:00:53 »

Quanta coisa se esfuma... convenientemente... Na ficção e na realidade.
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« Responder #81 em: Janeiro 28, 2021, 20:12:38 »

XXX

Dirigiu-se com Rosalinda para o seu apartamento, para informarem Ernesto que podia sair. As empresas a que estava ligado pareciam ter-se esfumado. Aperceberam-se  que investigavam tinham desaparecido, talvez para renascer noutras circunstâncias. As provas estavam nas mãos de quem tinha colaborado com elas. Para além disso, não tinha nenhuma prova. Estava nas mãos de Ernesto, fazer a denúncia ou não, e seguir a sua vida, como entendesse.

Senhor Ernesto, - disse JCorreia – acabámos de regressar do Estoril. A casa onde, nas suas palavras aconteciam “bacanais” com meninas de menor idade, uma espécie de reedição “democrática” dos ballet rose da ditadura, pareceu-me fechada e abandonada. O senhor sabe se poderão ter instalações alternativas?
- Detective, - respondeu Ernesto – não sei. Com a sua perspicácia e experiência de polícia já devia ter percebido que nessa “missa”, salvo seja, eu não passo de um sacristão.
- Mas senhor Ernesto, - ironizou Rosalinda, puxando a sua veia detectivesca, - o sacristão conhece  a missa toda, apesar de não a dirigir. Fico com a sensação que sabe mais do que mostra saber.
- Acredite ou não, menina, o que sei está dito.
- Então, - continuou JCorreia, retomando o interrogatório, - perante o seu assumido desconhecimento, tenho de dar esta conversa por acabada. Aproveito ainda para o informar que os telefone empresa de import/export, onde trabalha ou trabalhava a Idalina,  estão desactivados. As duas coisas devem estar ligadas. Como diz o ditado “uma mão lava a outra, e as duas lavam o rosto”. Neste ponto, não o empato mais. Pode seguir o seu caminho.
- Não me faça isso, - disse, com algum desespero na voz,  Ernesto – eu depois de abandonar o meu serviço, estou em risco. Não sei para onde  ir. Não pode ficar neste local. Tem de pensar numa alternativa. Já lhe indiquei algumas. Dou-lhe mais uns dias e a seguir tem que sair. Em relação ao assunto em causa, pouco mais posso fazer. Vou escrever um relatório com os dados que possuo para entregar a um amigo da PJ. Na condição de investigador privado não posso ir mais além. Se a PJ quiser investigar que o faça. Se não quiser, não sou eu que o posso fazer.

Aida, telefonou a Joaquim para marcar um encontro, no escritório da advogada Laura de Castro. Informou-o que tinha reunido algum material relacionado com o caso das prostitutas assassinadas. Precisava de lho mostrar, e de o confrontar com o que a PJ tinha reunido nas suas investigações. Combinaram que se encontrariam no dia seguinte. Joaquim tinha tido um dia intenso e precisava do seu momento “zen”. Rosalinda começara a interessar-se por literatura policial e estava, no seu quarto, a ler um livro de Donna Leon. A gata Judite, um pouco abandonada, pelo frenesim dos acontecimentos, aproveitou para se refastelar ao fundo da poltrona onde Joaquim se instalara, frente à janela, com vista sobre a cidade, que se libertava do bulício diurno, para mergulhar no silêncio da noite. O pensamento do detective concentrou-se em Aida, e na sua obsessão pelo caso das prostitutas. Só ela o arrastaria para tal tarefa. Não conseguia dizer-lhe não. Sentia uma forte atracção, quem sabe fatal, por aquela mulher. E não conseguia encontrar uma razão clara e objectiva. Tinha a noção que remexer no assunto das prostitutas, mesmo de forma marginal, era como chafurdar num lamaçal. Por associação de ideias, veio-lhe à mente, a viagem que fizera a França para visitar o seu pai. Foi pouco depois de chegar da guerra, numas miniférias, durante o inverno. Olhou para a Judite enroscada a seus pés, e disse:

Tu tens vida de princesa, judite. Gata mas princesa. Não sei as tuas origens, mas bateste-me à porta e acolhi-te. Tornaste-te coproprietária desta casa, na zona história, e nem pagas renda. Há outras ou outros da tua espécie, que vivem na rua. Mas há pior. Viver num bairro de lata. Vi muitas como tu em, em França, a viver num “bidonville” no início dos anos setenta.

A gata parecia procurar perceber o que Joaquim dizia, mexendo as orelhas.

Fui visitar o meu pai a França. Vivia no Val d`Oise na região de Paris. Trabalhava numa fábrica e vivia na casa de um companheiro de trabalho, português de Trás-os-Montes, que lhe alugara um quarto. Durante alguns dias, dormi nesse quarto, na cama do meu pai, enquanto ele insistiu em dormir no chão. A família que o acolhera era numerosa e ocupava todas as divisões. O meu pai não tinha razão de queixa. Tinha um trabalho certo e bem remunerado, ao contrário de outros emigrantes. Um deles, que era nosso conterrâneo, vivia no maior “bidonville”  Champgny, no Val de Marne, da região de Paris, considerado a capital dos portugueses. Sabes o que é um bidonville Judite?

Judite,espreguiçou-se, esfregou-lhe a cabeça nas pernas, e voltou a enroscar-se.

Eu digo-te – continuou Joaquim. – Era o bairro de lata onde vivia o Américo, e a sua família. Tinha um filho da minha idade, que se chamava Desidério. Fomos visitá-los. Américo quando chegou a França ocupou uma barraca de madeira. Mais tarde construiu uma casa maior com tijolos, e um pouco mais cómoda. Naquela altura “Champagny”  estava a começar a ser demolido. Já havia abastecimento de água e electricidade, graças à boa vontade do autarca de Paris, mas durante muitos anos os portugueses viveram ali sem água, luz e saneamento básico. Despejavam os dejetos no rio próximo. No dia em que lá estivemos, tinha chovido, e as ruas eram rios de lama, nos quais tínhamos de caminhar com mil cuidados. Américo trabalhava na construção civil. Os salários não eram por aí além, e o objectivo era poupar para voltar às origens, com um pé-de-meia. Os filhos com profissões mais bem remuneradas estavam a mudar-se para apartamentos . Américo contava os dias para voltar. Na terra seria um novo “rico”. Para quem não viu, nem sentiu, é difícil imaginar como viveram ali milhares de seres humanos. Por isso te digo Judite, és mesmo uma princesa.

Rosalinda adormeceu dentro das páginas de um livro. Quando acordou com o sol a beijar-lhe o rosto, o romance que estava a ler, adormecera ao seu lado. Levantou-se e dirigiu-se à sala. A cidade também acordara com o seu bulício ruidoso. Verificou que Joaquim continuava onde o tinha deixado e dormia um sono pesado, na companhia da sua gata. Abanou-o suavemente.
- Acorda preguiçoso. – disse Rosalinda- Temos um encontro marcado com Aida e Laura. Esqueceste-te?
- .Joaquim abriu os olhos espantado, como se tivesse chegado a um sítio estranho. O porto debruçado no rio, trouxe-o à realidade.
- Ora, ora, Rosalinda, agora também me tiras o sono. Não bastava a gata dos telhados?  Vamos lá honrar os nossos compromissos.

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« Responder #82 em: Janeiro 29, 2021, 15:40:26 »

Adormecer dentro das páginas de um livro é algo que nunca me acontece. A leitura nunca me dá sono...

Abraço
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outono


« Responder #83 em: Fevereiro 04, 2021, 21:33:25 »

- Ora, ora, Rosalinda, agora também me tiras o sono. Não bastava a gata dos telhados?  Vamos lá honrar os nossos compromissos.
Joaquim convenceu Rosalinda a fazerem o caminho a pé até à praça Restauradores


- Caminhar faz bem à saúde física e mental.- argumentou Joaquim -  Agora ganhámos o vício de andar  sempre dentro de latas motorizadas. Quando andava na Faculdade de Direito, no ensino nocturno, saímos da aulas às vinte e duas e trinta. Com o Hermínio, um amigo de ocasião, fazíamos muitas vezes o trajecto a pé até aos Restauradores, embalados por conversas da treta, que ia desde as incongruências da política e dos políticos, até à natureza gelatinosa das leis, passando pelas peripécias do futebol, ou pela filosofia da vida. Com o corpo cansado e com o espírito liberto, bebíamos uma ginjinha. Confortados, apanhávamos um transporte e rumávamos a casa para umas horas de sono. No dia seguinte voltava tudo ao início, como num eterno retorno. Com outro roteiro é o que vamos fazer hoje. Aconselho-te a usar calçado confortável.
Rosalinda, que tinha natureza de camaleão e se adaptava a várias situações, calçou uns ténis, o que lhe amenizava o ar de quarentona.
Desceram as íngremes ruas de Alfama até ao terreiro do Trigo, passaram pelo terreiro do Paço, subiram a rua do Ouro, até aos Restauradores. Joaquim transfigurou-se em guia turístico e foi descrevendo uma Lisboa escondida nas aparências. “Por debaixo deste chão que agora pisamos existiu outra cidade, Felicitas julia OLisipo, com as termas, a necrópole, o circo. As cidades morrem e renascem: Indirectamente  pisamos séculos de civilização.
Antes de apanharem o metro para o Saldanha, Joaquim convenceu Rosalinda a beber uma ginjinha, para ganhar coragem. Este percurso que Joaquim fizera muitas vezes, encontrava sempre um ou outro pormenor que lhe parecia novo, e que o emocionava. A relação com a cidade que o adoptara, era a única paixão que assumira para a vida.

Laura abriu a porta do andar onde exercia a sua actividade. Joaquim cumprimentou-a efusivamente.
- Muito gosto em vê-la drª Laura. É uma bênção para os olhos. Os seus pais esmeraram-se. Estão de parabéns. Não me leve a mal, mas a apreciação da beleza, .rompe-me  os filtros.
- Não me incomodam os seus elogios. Já estou habituada a piropos, e até me agradam, desde que sejam respeitosos. Façam o favor de entrar.
No gabinete de trabalho, esperavam Aida e o bastonário Carlos Madeira. Rosalinda que não contava com a sua presença sentiu-se arrepiada. Joaquim apercebeu-se e quando se sentaram no mesmo sofá, disse em surdina “sentes-te bem”? Nem por isso. Depois falamos”. Aida sentada num sofá individual, vestida de uma forma informal, concentrou-se em Joaquim, com afabilidade.
- Vejo que o meu amigo sobreviveu ao último dilúvio, e está são e salvo. Muito me agrada.
- Graças a si que me forneceu uma “arca” para navegar, o que volto a agradecer. Não sei é se não salvou, um pecador?
- Todos somos filhos do pecado, Joaquim. Vive dentro de cada um de nós. Era preciso eliminar toda a humanidade. É uma discussão filosófica que poderemos ter. Mas hoje vamos ao assunto desta reunião. Vou passar a palavra à drª Laura.
- Antes de mais vou justificar a presença do  bastonário drº Carlos Madeira. Ofereceu-se para nos ajudar. E considero que nesta tarefa todas as ajudas são necessárias, para voltarmos a investigar o assassinato de Clotilde. Elaborámos um dossiê com a ajuda da filha e das suas memórias, e que vos vamos entregar. Agora gostaríamos de ouvir o Joaquim em relação às investigações em que participou, enquanto membro da equipa da PJ.
- Ouviremos… mas antes vou ser servir-vos um café, - disse Aida levantando-se e dirigindo-se para um pequeno bar. – para tornar esta reunião mais informal, já que é isso que se pretende.
Joaquim reparou que Aida não parecia ir a caminho dos sessenta anos. Vestida de calças de ganga e de blusa, justas, que lhe acentuavam a feminilidade, tirou o primeiro café e deslocou-se com elegância para o entregar ao detective. Este, agradeceu com a sensação que regredia no tempo. O odor natural que recebia de Aida parecia-lhe, vagamente familiar. Bebeu o café em pequenos goles, procurando prolongar o sabor, como se saboreasse o corpo de Aida. Quando terminou, Laura acordou-o do transe em que caíra. Então Joaquim, pronto para continuar?

- Revigorado, senhorita Laura. Aida tem o condão de me levantar o astral. O que posso dizer sobre o caso é conhecido. Eu fiz, de facto, parte da primeira brigada de Homicídios que se constituiu para investigar o crime de uma prostituta assassinada num barracão de obras, na zona do Lumiar. O que aconteceu, e viria a repetir-se meses depois, é bastante conhecido. Foi seguido pela comunicação social com pormenores.
- Certo. - interrompeu Laura – Mas o que pretendemos é a versão de um protagonista directo, que pode , quem sabe, ir além da oficial.
-Tratava-se de uma mulher de vinte anos. – continuou Joaquim - Encontramo-la deitada, com um corte horizontal entre o peito e o ventre. Faltavam alguns órgãos internos, assim como o cabelo e os seios. Aquele trabalho pareceu-nos ser feito com bisturi, por alguém que o sabia usar. Recolhemos provas, que levamos para o laboratório. Passamos tudo a pente fino. É preciso ter em conta, que os meios que existiam eram muito diferentes dos que existem hoje.
- Mas pelo que consta, - perguntou Laura – a causa da morte não foi devida ao esfaqueamento.
 Posteriormente, - confirmou Joaquim - a autópsia esclareceu que a causa da morte foi por estrangulamento e que não tinha havido relações sexuais. Nos indícios recolhidos, não existiam impressões digitais. Quem executou este assassinato, e os que se  lhes seguiram, teve a preocupação de não deixar pistas e cometer o crime perfeito. Da investigação sobre as vítimas, das suas rotinas e dos seus contactos, selecionamos um grupo de suspeitos.
- Ainda se lembra de quem eram?
- Não me lembro dos nomes, senhorita. - respondeu Joaquim, fazendo um esforço de memória – O que retenho é que no primeiro grupo de suspeitos, havia -um professor, um escritor de policiais, um forense com gosto por órgãos internos, técnicos ligados à informática e um mecânico de automóveis.
- E lembra-se de quem fazia parte dessa brigada?
- Como me podia esquecer doutora? Até acredito que mesmo que o alzheimer me coma a memória não conseguirá pôr o dente nesta fase – disse Joaquim, procurando desanuviar o dramatismo.
- Não duvido que era uma equipa competente. – disse Laura
Não éramos super-homens, e tínhamos as nossas fraquezas, e os nossos vícios, mas …bem ou mal…fizemos o possível. A equipa era liderada pelo inspector Jacinto Esteves, que depois foi substituído. Não o esqueço: meticuloso, às vezes um pouco impulsivo, e sempre bem-humorado. Era um homem da velha guarda. Confessava um pecado venial, o da gula. Não admira. Vivia com uma professora universitária, especializada em gastronomia, que lhe preparava uns bons petiscos. Dizia-me nas nossas incursões pelo reino de bem comer: “Correia, podes não acreditar, mas não troco uma “queca”, (desculpem o termo) por uma feijoada de bacalhau”. Para mais já fiz dois filhos e contribuí para a máxima “crescei e multiplicai-vos. Por isso, missão cumprida.”

Laura baixou a cabeça para esconder um ligeiro rubor. Carlos Madeira, olhou para Rosalinda com um largo sorriso. Rosalinda deu uma cotovelada em Joaquim. Aida sorriu discretamente, e disse:
- Essa opção não espanta, Joaquim…quer dizer…imagino.

 Quando veio o FBI para nos ajudar,- continuou joaquim -  porque andávamos às voltas, como cão atrás do rabo, Esteves comentou: “ o que é que vêm cá fazer estes gringos? Lá porque são das “américas” acham que são melhores que nós? São uma porra. Nem comer sabem. Hambúrguer para cá, hambúrguer para lá. Podem trazer novas tecnologias ,mas duvido que acrescentem alguma coisa” E não é que tinha razão? Foram embora com o rabo entre as pernas. Ficaram tão ou mais perdidos que a nossa equipa.
- Falar em comida abriu-me o apetite. – disse Aida – E se fizéssemos uma pausa para almoço?
- Concordo. - respondeu Joaquim – com uma condição, durante o repasto, esta assunto é tabu. Também me considero um bom garfo, como o meu ex-chefe, com uma diferença. Troco (ou trocava) um prato de bacalhau, ou outro qualquer, por uma refeição, entre lençóis. Feitios!
Laura baixou a cabeça para esconder um ligeiro rubor. Carlos Madeira, olhou para Rosalinda com um largo sorriso. Rosalinda deu uma cotovelada em Joaquim. Aida sorriu discretamente, e disse:
- Essa opção não me  espanta Joaquim…quer dizer…imagino
- De acordo. – disse Carlos Madeira, que tinha estado silencioso, focando o olhar em Rosalinda -Também não dispenso a boa comida, especialmente a portuguesa. E quanto a outros vícios, não sou nenhum santo. Vamos lá.

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« Última modificação: Fevereiro 05, 2021, 13:39:50 por Nação Valente » Registado
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« Responder #84 em: Fevereiro 05, 2021, 08:10:20 »

Imagina... pois claro! Isto vai de vento em popa!
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outono


« Responder #85 em: Fevereiro 11, 2021, 19:57:18 »

XXXII
- De acordo. – disse Carlos Madeira,-  que tinha estado silencioso, focando o olhar em Rosalinda -Também não dispenso a boa comida, especialmente a portuguesa. E quanto a outros vícios, não sou nenhum santo. Vamos lá então.

Laura marcara almoço no restaurante O Guarda, onde era cliente habitual. Ficava perto do seu escritório. Podia-se ir a pé, atravessando-se a avenida da República . Joaquim e Rosalinda atrasaram-se um pouco. Esta mostrava-se um pouco nervosa. Enquanto esperavam a abertura do semáforo, disse:
- O advogado Madeira está-me a pisar os calcanhares. Há dias telefonou-me para me convidar para um almoço, com a desculpa que queria defender o Damião. Ora eu não nasci ontem. Já conheço a cantilena. Ainda não me livrei de um e já tenho outro à perna. Porquê eu?
- Deixa lá Rosalinda, é sinal que és desejada. Se não te interessa, dá-lhe um chuto no rabo, com diplomacia - respondeu Joaquim – procurando deitar água na fervura, sem levar o assunto a sério. Além disso, há paixões que nascem de situações inicialmente adversas.

No restaurante a mesa  estava preparada. Bolinhos de bacalhau e pastéis de camarão, seguido de um creme de abóboras com hortelã da Ribeira. Como prato principal bacalhau em cama de espinafres ou lombo de porco no forno. Durante a refeição ignorou-se o tema de trabalho e as conversas giraram à volta de assuntos variados. O prazer dos sabores sobrepôs-se a outras questões . O bom vinho alentejano, libertou as mentes de preconceitos e as conversas fluíram como vinho que desliza pelas gargantas. Carlos Madeira fez questão de servir Rosalinda, perante o seu sorriso laranja, e enquanto o fazia aproveitou para entabular conversa.
- A senhorita já pensou na minha proposta?
- Que proposta,- perguntou Rosalinda – fazendo-se desentendida.
- A única que lhe fiz para já, a da defesa do Damião, e a que não me respondeu.
- Há, sim, advogado. Peço desculpa. Tenho andado tão ocupada, que me esqueci, talvez porque é assunto que não me tira o sono. Já lhe arranjamos advogada e recusou. Nem sei se tem advogado oficioso.
- Fico triste Rosalinda. Trate-me pelo nome. Antes do profissional está a pessoa. E nesse aspecto muito a admiro.
- Pronto senhor Madeira, não seja por isso. E está a gostar do bacalhau? Não é para me gabar, mas também o faço muito bem. Cozinhar é um dos meus atributos, além de outros. –  disse Rosalinda desviando a conversa, e usando um tom provocatório.
- Acredito e aprecio, mas também sou dos que troco um prato de bacalhau por outras coisas. –  disse Madeira usando o mesmo tom
- Temos a Rosalinda de volta, - disse Joaquim - e ainda bem. Não gosto da Rosalinda taciturna. Hossanas ao bom antidepressivo português. E confirmo o bom dedo que ela tem para a boa mesa. E se convidássemos esta gente para um repasto na minha casa?
- Eu teria muito gosto. – avançou Aida – Podíamos fazer aí a próxima reunião. Pensem nisso. Este é por minha conta, e não quero reclamações.

No regresso ao escritório, Joaquim retomou a sua exposição sobre a sua experiência no caso dos crimes em série, falando sobre a equipa de que fez parte.
-  Como estava a dizer, retomando o fio da meada, tínhamos uma equipa competente e esforçada. Para além do inspector-chefe Esteves, tínhamos mais dois inspectores escolhidos a dedo. O Galhardo, com um historial de sucesso na investigação de homicídios. Mas era um homem um pouco intratável. Não convinha ficar sozinho nos interrogatórios. Perdia facilmente as estribeira. Talvez fosse influenciado por frustrações na vida privada. Tinha sete filhas. Alguns comentavam (faz parte da nossa natureza bisbilheteira) que a mulher era muito religiosa, e que não que usava  a contracepção. Outros, juravam que vivia obcecado em ter um filho, e persistia de decepção em decepção.

- Pelos vistos – interrompeu Aida – não percebia o poder da natureza.

- Isso não sei, - continuou Joaquim – o que sei é que na sua função era aplicado, e tinha espírito de equipa. Um homem à “antiga”. E quando se tornava necessário ser mais ortodoxo, contávamos com ele. O outro inspector da equipa, Vitorino, estava nas suas antípodas. Calmo, perseverante, cerebral. Na reflexão e na intuição ganhava de goleada. Nesse aspecto ainda estávamos a partir, já ele estava na meta. Ao contrário do Galhardo, tinha uma vida pacata. Casado com uma amiga de infância, era um expoente da monogamia. Não tinha filhos, mas isso não influía na sua felicidade.

- Eu também não tenho filhos – interrompeu Carlos Madeira, um pouco alheado da descrição de JCorreia – e já estou conformado, mas gostava de ter uma companheira, enquanto deixava fugir o olhar para Rosalinda. Estou esperançado de ter encontrado a pessoa certa
.
Foi ele que discutiu com a equipa do FBI a relação entre os crimes de Lisboa, e os semelhantes, acontecidos nos Estados Unidos.- continuou JCorreia -  E contrariou desde o inicio a teoria dos policias americanos que defendiam que o assassino português  pertencia à comunidade lusa de Nova Bedford, e que continuara a sua acção. em Portugal.  Num momento de alguma tensão, com a sua paciência disse “essa teoria não faz sentido. Se não resolverem o caso no vosso pais, como querem resolver este?”

- Enquanto jurista, considero que estava certo. – afirmou Laura

- Outro membro da equipa chamava-se Batalha Romã, subinspetor ,vermelho por fora e por dentro.- continuou Joaquim - Militante da extrema esquerda, vivia num mundo paralelo. Defensor do amor livre estava sempre a trocar de mulher. Havia quem dissesse, não sei se por inveja, que eram elas que não tinham pachorra para o aturar. Debitava a teoria que o crime era filho dilecto do capitalismo. Tinha de se cortar o mal pela raiz. Quando acabasse a exploração do homem pelo homem, acabava a exploração da mulher. As putas perdiam a razão de existir. Amor livre e liberdade no acesso ao sexo. Nas reuniões com os americanos, estando presente, estava ausente. Quando lhe pediam opinião debitava sempre o mesmo discurso. “Estes imperialistas de merda têm que ser derrotados, pelas massas populares unidas. Quero-os fora de Portugal”. Claro que o tradutor inventava outra coisa.

- Os dois restantes polícias da brigada, eu e o Canavarro, éramos os mais novos, e fazíamos o trabalho mais rotineiro. Ouvíamos as testemunhas e fazíamos investigação sobre as ligações das prostitutas assassinadas. Como aprendizes de feiticeiro, não tínhamos muito peso nas decisões.

Em conclusão não foi pelo empenho e competência da equipa que não se encontrou o criminoso. Foi porque ele programou o que fez em pormenor, com precisão. E não deixou nada a que nos pudéssemos agarrar. Os suspeitos andam por aí assim como o criminoso.
- Obrigado Joaquim – disse Aida – sempre soube que podia confiar em ti, e que não me desiludirias…bem talvez já me tenhas desiludido…com atenuantes. Agora é preciso voltar ao início, com os dados que temos, e retomar a investigação pelos suspeitos. Não os podemos levar à justiça, mas trazer paz de espírito à família das vítimas. Depois telefono-te para uma reunião privada, comigo e com a gata dos telhados.

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« Última modificação: Fevereiro 12, 2021, 00:35:36 por Nação Valente » Registado
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« Responder #86 em: Fevereiro 11, 2021, 20:17:35 »

Muito adiantado... temos o crime do Estripador de Lisboa a cruzar-se com uma gata em telhado de zinco quente.

Abraço
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« Responder #87 em: Fevereiro 18, 2021, 21:35:32 »

XXXIII

- Obrigado Joaquim – disse Aida – sempre soube que podia confiar em ti, e que não me desiludirias…bem talvez já me tenhas desiludido…com atenuantes. Agora é preciso voltar ao início, com os dados que temos, e retomar a investigação pelos suspeitos. Não os podemos levar à justiça, mas trazer paz de espírito à família das vítimas. Depois telefono-te para uma reunião privada, comigo e com a gata dos telhados.

Aida recebeu Joaquim na vivenda onde habitava na zona da Caparica. Era uma casa com um único piso com uma planta de tipo romana, com um pátio interior, situada num ponto elevado, de onde se podia ver o oceano. No horizonte  o sol parecia mergulhar lentamente na água. Joaquim extasiado não despegava os olhos daquela paisagem pardisiaca. Talvez a o primeiro dia do paraíso fosse semelhante, pensou Joaquim. Aida interrompeu o silêncio.
- Foi aqui que encontrei o meu Shangri-Lá . – disse Aida , recordando-se do filme Horizontes Perdidos. É aqui que repouso depois de um dia de canseiras.
- Muito bonito e relaxante, - disse Joaquim, cujo pensamento continuava bloqueado.
- Continua aqui. Eu vou buscar o jantar. Hoje dispensei a empregada para estarmos à vontade.
Aida dirigiu-se ao interior da habitação. Joaquim reparou na sua elegância. Tinha mais de cinquenta anos, mas mantinha no porte muita jovialidade. Vestia uns calções curtos e uma blusa cintada, que lhe acentuava as formas femininas. Deslocava-se com a leveza de uma gata. Joaquim esqueceu-se por momentos da sua idade, e sentiu que recuava no tempo, aquela idade em que esteve seriamente apaixonado por uma colega de trabalho. A vida separou-os. Teve outras namoradas, mas nunca sentiu as mesmas sensações. Aida voltou com uma travessa de comida que colocou numa mesa já preparada. Convidou-o a sentar-se, e serviu-o de arroz de tamboril.
- Espero que gostes. – Fui eu que o cozinhei. Uma comida pouco pesada para o jantar e para a nossa idade , disse,- usando um tom de grande familiaridade. O Sol discreto escondeu-se nas águas distantes.
- A vida é um saquinho de surpresas. Podia imaginar tudo, mas nunca que estaria a ver um pôr-do-sol, na companhia de uma mulher tão charmosa, e muito menos sentir-me como um rapazinho, a viver um sonho.


Rosalinda encarregou-se de fazer vários telefonemas para a empresa Figueira e Laranjeira. Os telefones continuavam a aparecer como não atribuídos. Ligou também para o telefone de  Januário Brilhante, com quem negociara, como representante da firma de import/export. Estava sempre desligado.
Sentou-se na sua secretária e começou a ler uns relatórios que Joaquim elaborara sobre os suspeitos da morte de Clotilde. Começava por descrever o perfil das vítimas. Para além de prostitutas e toxicodependentes que trabalhavam na rua, tinham características físicas similares. Eram de estatura mediana, morenas e de cabelo escuro. Não se descobriram relações pessoais entre elas. Outra coincidência prendia-se com o facto de os crimes terem começado pela mais nova e de terem terminado na mais velha.
O perfil do criminoso encaixava-se num indivíduo do sexo masculino, solitário, pouco sociável. Mais difícil era traçar o móbil dos crimes. Não tinha havido relações sexuais, nem roubo. Nos contactos das vítimas não foi encontradas relações que de conflitos latentes. As motivações do assassino apontavam para práticas de ritualismo. Possivelmente tratava-se de um psicopata, que tirava prazer pelo domínio do corpo da vítima, associado a utilização de órgãos extraídos como trofeus.
Rosalinda sentiu necessidade de fazer uma pausa. Lembrou-se de Ernesto. Ainda estaria na sua casa? Dirigiu-se para lá e tocou à campainha. Ninguém respondeu. Abriu a porta e entrou. Chamou por Ernesto, sem resposta. Percorreu o corredor e entrou em todas as divisões. Na bancada da cozinha estava escrita com um marcador a frase “Roma não paga a traidores”. Voltou a observar todas as divisões e não viu nenhuma alteração. Quando se preparava para sair o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma voz disfarçada disse “ Januário Brilhante já deu a alma ao criador. Esqueça-o e afaste-se” se quiser continuar viva . Rosalinda emudeceu e desligou o telefone. Ligou, de imediato para Joaquim, mas este tinha o telemóvel desligado.


O jantar na casa de Aida  tinha terminado com uma salada de frutas. A noite chegara de mansinho, perante a indiferença de Aida e joaquim. Os dias de Abril estavam agradáveis mas as noites ainda eram frias. Aida disse:
-Vamos entrar. Sei que não podes beber, mas hoje é um dia especial. Abres essa excepção?
- Abro todas as excepções, - disse Joaquim – Sinto-me tão bem, que faço loucuras improváveis. Nem que fossem as últimas? Mas tenho uma curiosidade? Como sabes que não posso beber?
- É fácil Joaquim. Sou uma gata dos telhados. Sou ao mesmo tempo sociável com uma componente selvagem, que me permite ter um instinto muito desenvolvido. E sempre ouvi dizer que os gatos não são escolhidos, mas são eles que escolhem. Foste escolhido.
Aida foi busca dois copos e serviu dois “wisques”. Joaquim bebeu um pequeno gole e perguntou:
- Diz-me então o que querias falar comigo. É sobre a nossa investigação?
- Não. – respondeu Aida – Para isso não precisava de te convidar para minha casa. Queria sobretudo ter o gosto da tua presença. Sabes que tive um percurso de vida difícil. Tive uma filha quando tinha vinte anos, e o meu marido expulsou-me de casa antes de ela nascer. Fiquei sozinha. Os meus pais ajudaram-me, na medida do possível. O meu pai era operário na Siderurgia e vivia em Paio Pires. Vieram da Mina de S, Domingos, onde era mineiro no concelho de Mértola depois de os ingleses descativarem a mina em 1966, e deixarem muitas famílias em dificuldades
- E a tua filha que lhe aconteceu. Não a conheço. – interrompeu Joaquim.
- Conheces sim, – continuou Aida depois de um breve silêncio– é a Laura. Decidi que só te diria na altura certa, e esta chegou. As gatas gostam de mandar no jogo. Mas como dizia, os meus pais ajudaram-me a criar Laura. Eu libertei-me para ganhar a vida, e caí na prostituição. O objectivo era juntar dinheiro e depressa, para garantir o futuro de Laura. Foi um período curto mas muito duro.
- E o teu marido não a ajudou?
- Quando casei com ele, era viúvo e tinha o dobro da minha idade. Não podia ter filhos e quando engravidei soube que não era o pai. Como disse, pôs-me fora de casa, mas não pediu o divórcio. Quando morreu, de forma repentina, herdei tudo o que ele tinha, incluindo a fábrica de confecções. Estava ultrapassada, com uma produção artesanal. Com o dinheiro que poupei, modernizei-a e diversifiquei a produção. Hoje fornece lojas que vendem alta costura.
- E o verdadeiro pai sabe da sua existência?
- Não. A Laura pressiona-me para lhe dizer. É uma das nossas divergências. Mas mudando de assunto, estou muito feliz, por estares aqui, -  disse Aida voltando a encher os copos. Não tive qualquer relacionamento, depois do nascimento de Laura. A vida são momentos, mas para mim têm de ser construídos, e sentidos.
- Estou aqui como se vivesse dentro de um sonho. Ainda não percebi porque fui escolhido para viver este momento.
- Para já não precisas de saber. Aproveita-o, como eu o quero aproveitar. Acho que chegou a hora em que as palavras só atrapalham, -disse Laura- calando a boca de Joaquim com um prolongado beijo.
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« Responder #88 em: Fevereiro 18, 2021, 22:21:11 »

E vamos à acção, que se faz tarde...
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« Responder #89 em: Fevereiro 25, 2021, 20:35:20 »

XXXIV

- Para já não precisas de saber. Aproveita-o, como eu o quero aproveitar. Acho que chegou a hora em que as palavras só atrapalham, -disse Laura- calando a boca de Joaquim com um prolongado beijo.

A roupa foi deslizando para fora dos corpos até se encontrarem desnudos, num contacto de pele com pele. A linguagem das palavras deu lugar à linguagem corporal: Os sentidos sobrepuseram-se ao pensamento. Sentiram-se como dois adolescentes que descobrissem o mundo do erotismo, e ao mesmo tempo se entregassem como se fosse a última vez. Saciados, acordaram desta viagem, deitados na macieza da alcatifa. Mantiveram-se em silêncio como se receassem acordar para a realidade. Joaquim foi o primeiro a falar.
- Agora percebo Aida. És uma verdadeira gata. Desde a juventude que não tinha vivido as mesmas sensações. Nem imaginava que isto me voltasse a acontecer. E estava reformado de relações com mulheres, há tanto tempo, que nem me lembro.
- Ainda bem que apreciaste a sensualidade de um corpo que não prima pela juventude. – disse Aida, espreguiçando-se. Há muito que ansiava por este encontro. Faço minhas as tuas palavras. Estas sensações apenas as tive quando era uma menina,  e para onde, hoje, me senti transportada. Houve uma altura em que perdi a esperança que isso voltasse a acontecer. Mas quando te descobri, como JCorreia, detective, essa esperança renasceu.
- Estamos sempre a aprender, - confessou Joaquim - e hoje aprendi que a paixão e o amor não têm idade. E desde que te encontrei que senti uma atração especial, embora tivesse a ideia que eras tu comandavas as operações.
-Tens razão. – disse Aida abrindo o jogo – No ponto a que chegamos, não justifica mais esconder. Com outros pretextos, o que pretendia era chegar a este momento, sem pôr de parte a procura de fazer a justiça, que prometi à minha afilhada em relação à sua mãe. Posso até dizer-te que, por exemplo, o aparecimento da gata Judite na tua vida, como uma patrulha avançada, uma espécie de espia, não foi um acaso. Fui eu que lá a mandei colocar, com uma coleira especial.
- Mas isso, Aida, não é devassa da vida privada?
- Pode interpretar-se assim,  e peço desculpa, mas foi com boa intenção: saber de ti, das tuas rotinas…e tu,  como investigador, nunca usaste esses métodos? – perguntou Aida.
- Se foi para chegar a este ponto, aceito e até agradeço. Está a mudar a minha vida para melhor. Longe de mim estava a ideia viver um romance nesta idade. Mas ainda bem que aconteceu, não há romance que se preze sem história de amor. – disse Joaquim com alguma ironia. E faz todo o sentido. Retrata a realidade. Toda a nossa vida desde o nascimento à morte se pauta pelo acasalamento, com a sobrevivência como suporte. Penso que o destino é instável como um ioiô.
- Acho que não haverá nenhum ioiô que te permita escapar.
 Tenho de escapar agora. Esqueci-me das horas. Tenho de regressar à base, senão a Rosalinda fica preocupada.
- Nem penses. Não te esqueças que eu dirijo as operações, - disse Aida – hoje ficas aqui. Penso que também o desejas. Telefona à Rosalinda e diz-lhe onde estás. Amanhã levo-te a casa.

Joaquim que se sentia bem, no torpor em que caíra, não contrariou Aida. Ligou o telemóvel e telefonou a Rosalinda.
- Está?
- Joaquim, que te aconteceu.- respondeu Rosalinda  -Estou farta de te ligar, e não me atendes.
- Desculpa, mas tinha o telemóvel desligado. Estou como sabes, na casa da Aida.
- Eu sei , mas tenho novidades. Fui a minha casa para saber do Ernesto, e já lá não estava. Encontrei uma mensagem anónima, que me deixou assustada. “Roma não paga a traidores". É, a seguir, recebi um telefonema onde uma voz distante disse “Januário Brilhante já deu a alma ao criador…afaste-se”, e desligou.
- Porra! Já estás na minha casa Rosalinda? - Perguntou Joaquim.
- Estou, a ler o dossiê…
- Ouve…já é muito tarde. Mantem tudo fechado. Não abras a porta a ninguém. Liga o alarme, e vai dormir. Eu fico aqui. O jantar prolongou-se, as palavras são como as cerejas, e não demos por as horas passarem. De manhã estarei aí.
- Está bem. Aproveita. – Não vos quero perturbar –disse Rosalinda  evitando o tom irónico – apenas estava preocupada.
- Não te preocupes, já sou crescidinho, e tu é minha prima, não és minha mãe.

Rosalinda seguiu as instruções de Joaquim, com excepção a de ir dormir. Depois do que aconteceu, não tinha sono. Continuou a ler o dossiê sobre os assassinatos das prostitutas. Pelas semelhanças dos crimes, tudo apontava para terem sido cometidos pelo mesmo indivíduo, mas havia algumas nuances entre o primeiro e o último crime, notando-se uma maior precisão, na forma como fora executado. Isto permitia concluir estar-se perante  um assassino em série. O perfil que os investigadores traçaram apontava para um homem, entre os vinte e cinco e os trinta e cinco anos, solitário e reservado. Não havia porém quanto a isto total unanimidade na equipa. E tendo em conta a forma precisa como foram extraídos os órgãos, parecia ser alguém conhecedor do esventramentos. Podia ser alguém habituado a esventrar animais. No processo alude-se a uma testemunha  que teria ouvido Olívia falar dentro do barracão : “Adérito não me faças mal”, o que levou Rosalinda a pensar que esta o conheceria. Rosalinda parou para reflectir e tentou fazer uma reconstituição mental do crime:

 â€œAdérito não me faças mal”.
Adérito olhou para Otília semidespida, e olhou para o relógio. Eram quatro horas da noite. Otília chegara, ao local, depois de mais uma noite de jogo, como viciada. . Precisava de ganhar mais dinheiro. Adérito convidou-a a ir para o barracão onde  ela recebia os clientes.
“Adérito não me faças mal”. 
Adérito tinha agarrado num barrote de madeira, levantou-o e disse:
- Chegou a hora de pagar o que fizeste, como já pagou a tua amiga Dina.
- Tem calma Adérito, que mal te fiz?
- Estou calmo, e seguro do que vou fazer. Lembras-te do meu pai? Era teu cliente. Sabes como morreu? Com Sida. Não te sentes culpada?
- Estás louco Adérito? Ou estás a assustar-me? Conheces-me e sabes que tenho dois filhos para criar.
- Também fiquei sem mãe quando era muito novo e sobrevivi. Faço isto pelo meu pai e por todos os pais . Lá onde está vai receber partes do corpo que o mataram. Tenho o plano de vingança preparado até ao pormenor. Sou juiz e carrasco. A polícia nunca me apanhará. Mas concedo-te um último desejo.
Adérito meteu o pau debaixo do braço, retirou do bolso um maço de tabaco, tirou um cigarro e acendeu-o. Entretanto, Otília, aproveitou para tentar fugir do barracão. Adérito agarrou-a e atirou-a ao chão. Aspirou o fumo do cigarro e disse “queres dar uma passa?”. “Adérito não me faças mal”, - respondeu Otília, tentando levantar-se.- Sentiu uma forte pancada na cabeça, e perdeu os sentidos. Adérito calcou umas luvas, apagou todos os vestígios, e continuou a fumar. Apagou o cigarro no peito de Otília, e atirou o que restava para o chão. Tirou do bolso um bisturi, e depois de um corte vertical, retirou os órgãos internos. Guardou-os num saco já preparado, e saiu para a rua deserta, de uma madrugada fria. Sem remorsos caminhou…

Rosalinda sentiu o estômago às voltas. Foi à cada de banho e vomitou. Tomou um duche e procurou convencer-se que tinha abusado de imaginação delirante.
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Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Fevereiro 22, 2021, 16:41:57
Boa tarde a todos.
Fevereiro 18, 2021, 20:52:07
Boa noite a todos.
Fevereiro 17, 2021, 19:09:25
Boa quarta para todos.
Fevereiro 16, 2021, 19:10:20
Boa noite a todos os presentes.
Fevereiro 15, 2021, 14:54:45
Boa semana para todos.
Fevereiro 14, 2021, 15:29:30
Bom domingo para todos.
Fevereiro 13, 2021, 18:43:03
Boa noite  e boas escritas.
Fevereiro 13, 2021, 16:07:55
Bom sábado para todos.
Fevereiro 12, 2021, 15:10:54
Boa sexta para todos.
Fevereiro 11, 2021, 18:15:43
Boa noite a todos os presentes e aos outros também.
Fevereiro 10, 2021, 17:37:17
Boa tarde a todos.
Fevereiro 09, 2021, 20:11:23
Boa noite para todos.
Fevereiro 08, 2021, 17:06:00
Boa tarde para todos.
Fevereiro 06, 2021, 16:34:50
Boa tarde feliz para todos
Fevereiro 01, 2021, 15:26:42
Bom Fevereiro de boas memórias.
Janeiro 31, 2021, 17:07:34
Boa tarde feliz para todos.
Janeiro 30, 2021, 16:48:55
Boa tarde feliz para todos
Janeiro 23, 2021, 14:51:16
Boa tarde para todos.
Janeiro 21, 2021, 11:44:25
Bom dia feliz para todos
Abril 04, 2020, 09:57:10
Bom dia para todos!
Março 20, 2020, 15:06:31
Olá para todos!
Março 19, 2020, 22:59:05
Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Olá Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
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