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Autor Tópico: A Gata dos Telhados XLI  (Lida 9687 vezes)
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Maria Gabriela de Sá
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« Responder #90 em: Fevereiro 25, 2021, 20:51:22 »

É mesmo para continuar.

Abraço
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Nação Valente
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outono


« Responder #91 em: Março 04, 2021, 20:37:35 »

XXXV

Rosalinda sentiu o estômago às voltas. Foi à cada de banho e vomitou. Tomou um duche e procurou convencer-se que tinha abusado de imaginação delirante.

Quando chegou a casa, na manhã seguinte, Joaquim foi recebido pela gata Judite.  Verificou que Rosalinda ainda estava deitada. Em cima da secretária encontrou o dossiê aberto da investigação sobre o assassínio das prostitutas. Reparou na página aberta, onde descreve pormenores da investigação. Lembra-se de ter verificado que após o segundo crime, a equipa ter concluído, de forma unânime, estar perante um “serial killer”. O aspecto mais significativo na recolha de provas, era uma caixa de um maço de cigarros,  com vestígios da parte lateral de um dedo, restos de luvas, pontas de cigarros, que não eram suficientes para fazer qualquer acusação.
Nas reuniões para análise da situação havia algumas divergências sobre como desenvolver a investigação. O inspector-coordenador, Esteves,  discordava da tese do seu adjunto Galhardo que apontava para a constituição de arguidos. “so assim podemos pressioná-los para confessar, nem que se lhe dê uns sopapos”.  Considerava que um autor de livros policiais chamado Jacinto Neves, cujo último livro se chamava “O Estripador de Lisboa”, publicado  uns anos antes dos crimes, reproduzia o que tinha acontecido. Além disso, o seu perfil discreto e solitário, encaixava na perfeição no retrato modelo. Já o outro inspector-adjunto, concordava como a tese do coordenador: “não podemos prender sem provas”. O inspector Romã, por sua vez, insistia em infiltrar agentes no mundo dos proxenetas, pois é entre esses os exploradores do trabalho sexual- dizia - que tem que se procurar o criminoso. Os assassinatos devem ser um castigo-aviso aquelas que se revoltam contra exploração da "chulagem", desses rebotalhos do capitalismo. Joaquim Correia que investigara algumas testemunhas, concordava com a tese do inspector-chefe. Manter sobre vigilância todos os suspeitos de forma discreta. E confiava que Esteves chegaria ao criminoso, se não tivesse sido substituído na chefia das investigações. Politiquices. Passados tantos anos, com os crimes prescritos, JCorreia teria de reexaminar o processo, e voltar a investigar os eventuais suspeitos. Ia fazê-lo por Aida, e pelas vítimas. Depois enterraria o JCorreia, e ressuscitaria o velho Joaquim para uma vida nova.

Aida dissera-lhe que queria voltar aquele tempo breve em que se sentira verdadeiramente feliz, embora o passado não se possa recuperar tal como foi. Pensava reformar-se, entregar a empresa a Laura, e partir para a aventura, enquanto houvesse tempo. E que só com ele esse projecto faria sentido. Joaquim estava aberto a aceitar  partilhar a sua vida com uma mulher. Fora sempre um desejo do seu avô que lhe dizia que precisava de ter uma família. Embora o avô só estivesse presente na sua memória, iria sentir-se bem por ele. Recordava-se, com se tivesse acabado de acontecer, a última conversa que tiveram. Foi um mês depois de ter acontecido o golpe de 25 de Abril. Tinha ido visitá-lo já muito doente, e pensava encontrá-lo contente com a mudança. Disse-lhe:

- Avô, quarenta anos depois voltou a ser livre.

- Ser livre, Quim? A liberdade é um conceito subjectivo. Eu sempre me senti livre, independentemente dos regimes. Na situação em que me encontro não tenho ilusões.
. Festejei a implantação da República. Levou-me para uma guerra. Servia-a como militar até 1926. Assisti a golpes e contragolpes até ao golpe definitivo quando o general Gomes da Costa, herói da guerra, começou em Braga o movimento que daria a machadada final na débil democracia republicana. Pouco tempo depois saí da GNR, e voltei para a aldeia, onde à minha maneira me senti livre.

- A ditadura, que se gabava, na sua propaganda, de ter livrado os portugueses da Segunda Guerra Mundial, mandou-me para uma guerra evitável, com bom senso político. – disse Joaquim. Foram treze anos que ficaram colados à pele de milhares de portugueses. A mudança democrática irá acabar com essa guerra, em condições mais difíceis que teria sido evitá-la.
- Compreendo o teu entusiasmo com a mudança, Quim. Também o vivi mas já não acredito em promessas, porque não acredito nos homens. Vive a tua vida o melhor que puderes, partilha-a com alguém, e constrói a tua própria liberdade.

Laura de Castro entrou  na Penitenciária para se encontrar com Damião, na qualidade de advogada de Rosalinda . O prisioneiro  apresentou-se de má vontade
- O que deseja? Já lhe tinha dito que não a quero como advogada. Já tenho um advogado oficioso, o dr.º Pedro Galaz.
- Sei que ficou claro que não sou sua defensora. Venho na condição de advogada da Rosalinda…
- Da Rosalinda? O que é que quer essa puta?
- A minha cliente,- continuou Laura, mantendo a serenidade – vai iniciar um processo de divórcio…
- Processo de divórcio uma merda. Não vai ter divórcio nenhum.
- Senhor Damião, ou aceita um divórcio amigável, ou enfrenta um divórcio, litigioso.
- Uma cabra só podia ter como advogada outra cabra. Estão bem uma para a outra, --disse Damião, começando a perder o controle – quero que se foda o divórcio. De cabrão não passo.
- Acalme-se. Já esgotou a lista de palavrões? Vou esquecer os insultos, mas tenho de o informar, que Rosalinda tem provas de que a agredia física e psicologicamente. Se tivermos de chegar aí, irá trazer mais achas para a fogueira. Juntará mais crimes, aos que já enfrenta. A sua mulher, não quer mais viver consigo. Pense bem e aconselhe-se com o seu advogado.


Rosalinda acordou com a cabeça pesada, já a manhã ia longa. Saiu do quarto e reparou em Joaquim sentado na secretária.
- Olá Joaquim, - disse num tom amedrontado .
- Bom dia Rosalinda. És mesmo tu ou teu fantasma?
- Dormi mal, tive pesadelos. Ontem foi um dia complicado.
- Vai tomar um banho, e relaxa. Não desanimes. Temos muito para fazer. Estou a rever o processo do estripador. Vou fazer um plano para investigarmos os suspeitos registados. Quanto ao caso da casa do Estoril, está fora do nosso radar. Mas vou estar atento, por curiosidade policial. Por agora esquece. Antes disso, vamos limpar a cabeça. Temos no fim-de semana uma viagem ao Porto para ir à festa de despedida da PJ, do inspector Malanje. E a Aida também nos acompanhará.

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« Última modificação: Março 07, 2021, 15:57:47 por Nação Valente » Registado
Maria Gabriela de Sá
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« Responder #92 em: Março 06, 2021, 17:26:55 »

Com que então livros cruzados!!! ahahahaha
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outono


« Responder #93 em: Março 11, 2021, 20:10:07 »

XXXVI

- Vai tomar um banho, e relaxa. Não desanimes. Temos muito para fazer. Estou a rever o processo do estripador. Vou fazer um plano para investigarmos os suspeitos registados. Quanto ao caso da casa do Estoril, está fora do nosso radar. Mas vou estar atento, por curiosidade policial. Por agora esquece. Antes disso, vamos limpar a cabeça. Temos no fim-de semana uma viagem ao Porto para ir à festa de despedida da PJ, do Inspector Malanje. E a Aida também nos acompanhará.

- E eu sou pessoa para desanimar, Joaquim? Fui criada por uma mãe solteira, com muitas dificuldades. Casei com um homem que me maltratou. Resisti com a esperança que um dia me ia libertar, e estou a conseguir. Fico preocupada, mas não amedrontada com a ameaça que recebi. E vou continuar nesse caso se assim desejares. O que me causou alguma náusea, foi ter tido uma espécie de visão da selvajaria que aconteceu a Otília.

Joaquim interrompeu o diálogo com Rosalinda para atender o telefone.
Está? – disse uma voz familiar – do outro lado.
- Claro que estou, - respondeu Joaquim, reconhecendo a voz – Malanje a que devo a honra?
- A honra é minha, quando falo com um companheiro de trabalho e de vida, e de quem tenho saudades, pelos velhos tempos. Hoje estou a ligar-te para te informar que cancelei o almoço deste fim de semana.
- Aconteceu algum problema, Malanje?
- Nada de grave, Joaquim. Ainda falta um mês para me reformar, e  vou fazer uma perninha numa investigação urgente. Tinha pensado em antecipar a saída utilizando as férias não gozadas, mas não posso deixar pendurado o Contreras.
- Sabes o que te digo, Malanje, vai-te lixar. O Contreras vai ter de viver sem ti. Agora que tinha projectado ir ao Porto, e comer uma dobrada à moda, fazes-me essa desfeita. Para mais levava uma companhia especial, para um fim de semana de sonho.
- Ó Correia, acho que já não te conheço. Sempre te vi como um gajo certinho, sem se meter em aventuras. Não me digas que destes em velho gaiteiro.
- Qual velho gaiteiro, qual quê? É um caso muito sério. Acho que chegou a minha vez de aderir a uma nova vida. E não me sinto nada velho.
- Tu é que e sabes. Desculpa lá estragar-te o plano, mas tenho de acompanhar o Contreras a Luanda. Tu lembras-te do caso de uns tipos do Douro, que se meteram em sarilhos pela posse de um laboratório farmacêutico no Porto?
- Se me lembro…fugiram para Angola
- Tal e qual. E depois veio a notícia que se mataram um ao outro, numa luta a bordo de um avião privado. Nunca acreditei nisso. Cheirou-me a esturro. Agora recebemos da polícia angolana, com a qual temos boa colaboração, um pedido de ajuda, num caso sobre tráfico de menores. Na conversa com o responsável pela investigação, este acabou por dizer que desconfiam de dois portugueses, e desconfiam que são os que tinham fugido para Angola. Quando lhes lembrei que haviam sido mortos, respondeu-me que essa foi a informação dada à polícia, por instância superiores, e que, na altura, não pôde comprovar. Adiantou que sempre pensou que alguém, ao mais alto nível, os protegia, e que houve a intenção de abafar a investigação. Vou dar apoio ao Contreras. Sempre trabalhamos juntos. E vou levar a minha companheira para conhecer Luanda. Com uma cajadada mato dois coelhos. Para mais como te disse, Contreras, está a passar um mau bocado. Andou metido com galdérias, e a mulher pô-lo fora de casa. Psicologicamente está em baixo.
- Espero que me dês notícias.- disse JCorreia -  Por acaso, andei a fazer uma investigação sobre um desaparecimento, que me conduziu a a um possível tráfico de menores. Fiquei num beco sem saída, mas quem sabe, se os casos se cruzam?
-Quem sabe, Joaquim. Portanto amigo, quando remarcar o nosso almoço, aviso-te. Tens de adiar a tua farra por mais uns dias.

- A nossa ida ao Porto foi adiada. Percebi que Malanje está com dificuldade de se separar do trabalho. A pareceu uma oportunidade de investigar e não a rejeitou. Mas voltando ao assunto de que falávamos, Rosalinda, compreendo a tua agonia. Tu imaginaste o que se passou e eu assisti ao vivo à situação em que se encontrava a infeliz criatura. Também tive de sair do barracão, enjoado. Mas a tua descrição não deve andar longe da verdade .
- Quem lida com essas situações, penso que acaba por ganhar uma certa carapaça, -disse Rosalinda – e habitua-se. Cria alguma insensibilidade. Alguém tem que o fazer.
-Quando fui para a polícia Rosalinda, estava preparado para lidar com crimes, mas nunca pensei assistir a uma coisa daquelas. Lia histórias policiais e pensava que aquilo só acontecia nos livros. Uns tempos antes tinha lido um policial chamado o Estripador de Lisboa. Descrevia oito ou nove crimes de mulheres jovens em cerca de duas semanas. Os corpos apareciam retalhados como os que vi. Por sugestão minha, o autor foi interrogado. Esclareceu que escrevia policiais com base em casos que tinham acontecido e inspirado em livros do mesmo género. Foi o que aconteceu no caso do “estripador”. A minha tese era a de que o criminoso podia ter-se inspirado naquele livro. Ninguém deu me deu muito crédito. Na nossa investigação, à posteriori, não poria de fora essa hipótese. Como também recuperaria dois assassinatos de prostitutas, na margem sul, uns tempos antes, e que na altura se considerou que não tinham, nem na forma, nem no modo, relação com os crimes de Lisboa. Costumo encontrar uma maneira de limpar a cabeça, refugiando-me no passado.

- Do meu passado, - disse Rosalinda – não tenho boas recordações. Espero que o passado do presente e do futuro tenha melhores lembranças.

- Antes de tu acordares, estava a lembrar-me do último encontro com o meu avô Baltazar, que também era teu tio-avô. Foi mau porque não voltei a vê-lo, mas foi bom por esse momento. Foi no casamento da sua primeira neta que vivia com a mãe no Ribatejo, para onde tinham ido depois dela nascer. Fez mais de trezentos quilómetros para estar presente, apesar da sua fragilidade. Lembro-me de ter dito à Beatriz, a sua neta, “tive de vir, porque me disseste que se não viesse, nunca mais me falavas”. E não falou mesmo. Quando regressou, o avô que usava uma algália, teve uma infecção que agravou o seu estado de saúde. Uma noite, trocou a cama por um esquife que ele próprio construíra, e tomou cianeto, que tirara a um oficial alemão que tivera que matar para sobreviver, na carnificina da batalha de La Lis. Quando nos despedimos na festa de casamento, vi-o afastar-se e fiquei a olhar até me sair do ângulo da visão. Na mente as últimas palavras que lhe ouvi, “a vida é uma ilusão”.

- Desses familiares tenho apenas, vagamente, as memórias associadas à minha mãe, - comentou Rosalinda.

- As memórias do passado acompanham-nos para sempre, mas ganham vida quando a nossa começa a perder-se. – disse Joaquim, com alguma nostalgia –  Temos de as ver como um filme, que podemos rever, mas que chegou ao fim. Saímos da sala de projecção, e enfrentamos o dia a dia, que é o que verdadeiramente vivemos. E a propósito, como já não vamos ao Porto, vou telefonar a Aida para antecipar, uma viagem que ela queria fazer a Aveiro. E decerto que nos pode acompanhar.

Laura de Castro foi visitar a mãe na empresa. Achou-a muito animada. Parecia que tinha ganho anos de vida. Não conseguia esconder a sua alegria, com se fosse uma adolescente, que encontrou um grande amor. Disse à filha que a sua relação com Joaquim Correia entrara numa fase de aproximação e partilha, que imaginara nos seus melhores sonhos.  Laura estava a mostrar agrado, por ver a mãe libertar-se e assumir uma vida pessoal depois de anos apenas concentrada no trabalho, quando o telemóvel tocou.
- Estou a falar com a drª Laura de Castro, - disse uma voz desconhecida.
- Sim. – respondeu.
- Fala Pedro Galaz, advogado de defesa do seu marido. Precisava de falar com a colega sobre o processo de divórcio que lhe disse que ia apresentar.
- Hoje tenho o dia ocupado, mas amanhã podemos encontrar-nos. Se não se importar recebo-o no meu escritório.

Continua
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« Última modificação: Março 12, 2021, 14:06:39 por Nação Valente » Registado
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« Responder #94 em: Março 13, 2021, 09:17:07 »

Muito profissional! Boa! :fixe:
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outono


« Responder #95 em: Março 18, 2021, 20:28:39 »

XXXVIII

- Estou a falar com a drª Laura de Castro, - disse uma voz desconhecida.
- Sim. – respondeu.
- Fala pedro Galaz,  advogado de defesa do seu marido. Precisava de falar com a colega sobre o processo de divórcio, que lhe disse, que ia apresentar.
- Hoje tenho o dia ocupado, mas amanhã podemos encontrar-nos. Se não se importar recebo-o no meu escritório.
- Pode ser amanhã?


- Sim, da parte da manhã, estarei disponível.
Pedro Galaz madrugou. Quando Laura chegou ao escritório já Pedro Galaz estava à sua espera. Laura viu um jovem sentado na sala de espera, a folhear um jornal desportivo. Cumprimentou-o e convidou-o a entrar no seu gabinete. Pedro Galaz dobrou o jornal levantou-se e seguiu-a- Reparou que era alto , e magro. Numa primeira apreciação, pareceu-lhe ser mais "modelito" do que advogado. Sentou-se na sua secretária, e disse-lhe para se sentar, numa poltrona. Tirou da estante um dossiê, e abriu-o.

- Estou na presença do drº Pedro Galaz. Certo? Perguntou Laura de forma retórica.

Reparou que Pedro Galaz, parecia bastante jovem. Chamou-lhe a atenção, os olhos azuis e o cabelo louro. Não muito comuns no nosso país.
- Sou sim, ilustre colega, mas pode tratar-me apenas pelo nome. Afinal somos mestres do mesmo ofício. Em primeiro lugar peço desculpa. levanto-me cedo, e começo por ler um jornal desportivo. Para os outos, já não tenho paciência. Muito gosto em conhecê-la pessoalmente, porque já a conhecia da pela competência no mundo da advocacia, embora a considerasse com outra idade.

- Também me apraz conhecê-lo, mas como deve imaginar, não se pode conhecer todos os colegas, numa actividade onde trabalha tanta gente.

Pedro Galaz que admirava Laura pela sua posição no meio judicial, admirou-a ainda mais pela sua beleza serena. Apeteceu-lhe dizer-lho, mas conteve-se, para não ser mal interpretado.
- Bem colega Laura, vamos então ao assunto que aqui me traz. Como já sabe, fui nomeada advogado de Damião, pelo Ministério Público, para fazer a sua defesa, na acusação de tráfico de droga. Mas como está agora a enfrentar um processo de divórcio, pediu-me para o representar no caso.
- -É verdade colega – disse Laura – a Rosalinda, ainda sua mulher – encarregou-me de entrar com um processo de divórcio, que pretende que seja amigável. Quando informei o senhor Damião, reagiu de forma muita agressiva e recusou aceitar a separação. Acontece que a minha cliente quer avançar com o processo. Não pretende voltar a viver com ele.
- Quando falou comigo, Damião, mostrou-se um pouco assustado, - disse Galaz - porque a Laura lhe terá dito que possuía provas de maus tratos, sobre a Rosalinda…
- Temos provas gravadas que mostram agressões verbais, e imagens de hematomas físicos. Além disso, há uma vizinha que se ofereceu para testemunhar. Portanto, penso que que deverá convencer o senhor Damião, a aceitar o divórcio. Será melhor para ele. Já basta a encrenca em que se meteu.
- Não posso decidir pelo Damião - disse Pedro Galaz – mas compreendo as razões da sua esposa. Concordo que será de evitar um processo litigioso. Tentarei fazer o possível para convencer o Damião. Depois entrarei em contacto consigo. Quero-me concentrar-me na defesa da acusação de tráfico. Estamos a ponderar a colaboração, do acusado, indicando contactos, para aliviar a sua pena de prisão.
- Muito bem, colega Pedro Galaz. Estarei disponível para continuarmos a falar.
- Gostei muito de a conhecer.- disse Galaz, pondo-se de pé, e dobrando o jornal -  Penso que iremos entender-nos.
Laura levantou-se e acompanhou Pedro Galaz até à saída. Deram um aperto de mão, e Laura sentiu uma estranha sensação naquele contacto.

Rosalinda recuperada do transtorno do dia anterior, ganhou coragem para voltar ao assunto. Olhou para Joaquim, que lhe parecia refugiado nas suas recordações, e procurou trazê-lo para os assuntos que a preocupavam.
- Ainda estou a pensar no telefonema que recebi, ontem,  por duas razões: Como é que quem me telefonou, a ameaçar-me, sabia que eu estava na minha casa naquele momento. Tudo aponta para a hipótese de estarmos a ser vigiados; a segunda foi a afirmação que januário Brilhante deu a alma ao criador. A verdade é que desde aquele almoço, em que ma foste buscar debaixo de um dilúvio, nunca mais deu sinal de vida. E até me sinto culpada por o ter usado no domínio da investigação sobre a casa do Estoril. Pareceu-me ser boa pessoa, que trabalhava para uma organização de malfeitores. Um pobre diabo. Até começava a simpatizar com ele. O Ernesto e a Susana também estão desaparecidos. Devíamos continuar a seguir este caso.
- Compreendo, Rosalinda, as tuas preocupações. Vamos continuar atentos. Mas penso que a melhor estratégia é fazermo-nos de peixe morto, para se esquecerem de nós. Devemos concentrar-nos na investigação do assassínio da mãe de Otília. Estou a pensar em contactar o Esteves, o primeiro inspector-coordenador da investigação. Está reformado há muitos anos, ao que sei, sem qualquer ocupação, e talvez queira ajudar-nos. Tem conhecimentos que podem ser úteis. Teve alguma dificuldade a adaptar-se à reforma. Depois arranjou um passatempo, entrou para um clube onde pratica pesca desportiva, uma actividade que já praticava nos tempos livres. Enquanto dirigiu a investigação tinha na mira um suspeito, que correspondia que nem uma luva a quem tinha cometido os crimes. Resta saber o que  aconteceu, a esse ou a outros suspeitos. É por aí que devemos recomeçar.

O telefone de JCorreia voltou a tocar. Olhou para o número e viu que era Aida. Nem de propósito, pensou.

-Olá Aida, estava a pensar ligar-te. Parece que houve transmissão de pensamento.
- É possível, - respondeu Aida – porque estás sempre na minha mente. A saudade não me larga. Até pareço uma colegial.
- Sinto o mesmo. Ia telefonar-te – disse Joaquim – para te informar que a nossa viagem ao Porto tem de ser adiada. Malanje vai acompanhar Contreras a Angola, numa investigação que será a sua despedida como polícia. Entretanto lembrei-me de uma vontade que manifestaste: um passeio a Aveiro. Se estiveres de acordo, vamos já neste fim de semana. E gostaria que fosse a Rosalinda.
- De acordo, - respondeu Aida, não escondendo satisfação na voz – Eu vou então marcar o hotel, para nós, para Rosalinda e para a Laura, que costuma acompanhar-me nos passeios.
- Fico à espera. Depois combinamos os pormenores.
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« Última modificação: Março 18, 2021, 20:51:27 por Nação Valente » Registado
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« Responder #96 em: Março 18, 2021, 22:14:11 »

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« Responder #97 em: Março 25, 2021, 20:06:19 »


XXXVIII
- De acordo, - respondeu Aida, não escondendo satisfação na voz – Eu vou então marcar o hotel, para nós, para Rosalinda e para a Laura, que costuma acompanhar-me nos passeios.
- Fico à espera. Depois combinamos os pormenores.

Aida insistiu que fizessem a viagem para Aveiro de comboio, Justificando-se com razões ambientais. Informou que tinha comprado quatro bilhetes e alugado um carro para se deslocarem na região. Quando chegaram ao hotel, Joaquim pareceu-lhe ter estado naquele alojamento, com vista para a ria. Puxou pelas lembranças, e num recôndito escondido num nevoeiro memorial, viu-se naquele lugar quando era muito jovem. Apesar da neblina que o separava desse passado longínquo, sentia que não estivera sozinho. A sua confusão era perturbada por ter estado várias vezes em Aveiro, com companhias ocasionais.
Ele e Aida ocuparam um quarto duplo, e Rosalinda e Laura tinham concordado ficar no mesmo quarto. Joaquim, notou no rosto de Aida uma estranha emoção. A ele também lhe pareceu o local familiar. Depois de se instalarem, Aida disse que já tinha marcado o jantar, e uma viagem nocturna de barco pela ria.
Entraram no Pescado no Cais e foram recebidos com champanhe. A seguir, veio uma tempura de Polvo,  bacalhau ao cais, e como sobremesa, uma delícia da casa, que dava jus ao nome. Rosalinda teve dificuldade em tirar todo o prazer da degustação, porque tinha a mente ocupado com o custo daquele manjar para deuses. Aida apercebeu-se da sua preocupação, e aproveitou para dizer:
- Quero informar os meus amigos para darem primazia às papilas gustativas. O resto é comigo, isto é, todas as despesas desta viagem são por minha conta. Faço-o porque posso, e porque tenho muito gosto em o fazer, em honra da excelente companhia. A Laura já conhece este restaurante de outras viagens que fizemos. A primeira vez que tive em Aveiro, também em excelente companhia, era muito jovem e não tinha dinheiro para estes luxos, mas foi, na mesma, uma viagem inesquecível.
- Ó Aida – disse Joaquim – estás sempre a surpreender-me. Não sei se mereço tanta honra. O que mais irá acontecer? Não tenho palavras.
- Prepara-te Joaquim, porque ainda te vou surpreender mais. Agora é tirar prazer de cada momento. É essa a minha filosofia de vida, e sempre foi, nos bons e nos maus momentos.
No passeio pela ria Aida fez papel de cicerone. Conhecia cada recanto, contava estórias ligadas a determinados locais. Os seus acompanhantes ouviam-na com atenção, denotando algum espanto.
- Quem a ouvir, pensa que foi guia profissional,- comentou Rosalinda.
- Poderia bem ser, mas não é o caso. O meu conhecimento resulta de muitas visitas a Aveiro. Sempre que cá vinha, aprendia mais um bocadinho. Foi aqui, na primeira visita, que a minha vida começou a mudar. Primeiro, para pior, e depois para melhor. E às vezes interrogo-me: será que se conhece a felicidade, sem conhecer a dor?

Quando entraram no quarto do hotel Joaquim voltou a ter a sensação de conhecer aquele local, pelo decoração, e pela paisagem exterior. Um espaço mobilado de uma forma simples, com mobiliário tradicional, de acordo com o edifício. E começou a lembrar-se da viagem que fez com a mulher que mais o marcou, em toda a sua vida. Parecia estar a repeti-la. A viagem de comboio, o mesmo hotel, o mesmo passeio na ria, o mesmo nome. Coincidências. Possivelmente.
Aida pareceu ler-lhe o pensamento. Perguntou:
-Joaquim, parece que  estás com alguma nostalgia?
- Estou. Para quê negar. Estive aqui com uma mulher, que nunca esqueci. Depois a vida separou-nos.
- E como era ela? Lembras-te?
Joaquim abriu uma carteira, tirou uma foto amarelecida pelo tempo, e mostrou-a a Aida. Dois jovens de mão dada a passear pela zona histórica. Aida olhou para a foto, emocionou-se.
- Andas sempre com essa foto?
- A nossa vida é cada momento que vivemos. Às vezes fica impresso em nós, como uma tatuagem que não sai, outras, vai-se apagando como uma imagem esborratada. Esta recusou abandonar-me. Está para lá da pele.
- Aida enrubesceu e não conseguiu segurar uma lágrima teimosa.
- Também tenho uma igual – disse Aida – sem esconder a emoção. Porque essa jovem que está a teu lado sou eu. E fico muito feliz por verificar que nunca me esqueceste, depois de uma separação algo abrupta.
- Joaquim ficou sem saber o que dizer. É certo que sentiu uma sensação inexplicável, quando se reuniram pela primeira vez, no âmbito do processo dos crimes ligados às prostitutas, Mas nunca reconheceu Aida, a não ser no nome, como a jovem com quem tivera uma relação marcante, mas ao mesmo tempo, inviável naquela altura. Afinal tinham passado mais de trinta anos.
- Tu és a mesma Aida que, depois de um filme passado em Veneza, que vimos juntos, me convidou para um fim de semana em Aveiro, como uma espécie de sucedâneo de Veneza, onde não tínhamos dinheiro para ir???
- E duvidas?
- Nunca te reconheceria do ponto de vista físico. Se te comparares com a foto, mudaste muito. Apesar das marcas que o tempo vai deixando, não perdeste beleza. Acho que até melhoraste No entanto, talvez te tenha reconhecido pela força da mesma paixão, que não conseguia entender.
- Ao contrário, eu reconheci-te no momento em que te voltei a ver, num processo de investigação, em que visitaste a minha fábrica. Fiquei triste por não me reconheceres, e fiquei feliz por te ter reencontrado. A partir daí procurei seguir os teus passos. O caso que estamos a investigar foi a oportunidade para me aproximar de ti. E fui-te dando pistas, a começar pela gata dos telhados.
- Pois…agora percebo. Afinal era como eu te chamava, por teres saído do conforto da tua casa, e arriscares andar, com um pé rapado, em aventuras juvenis. Uma gata que trocava o seu conforto, pela liberdade dos telhados.
- Desse ponto vista continuo a ser a mesma gata. E toda esta viagem foi feita nessa perspectiva. Regressar a esse passado, repetindo-o passo a passo. E vamos ao passo seguinte, porque já perdemos muito tempo.

Laura e Rosalinda, aproveitaram o passeio para se conhecerem melhor. Laura perguntou-lhe se depois do divórcio, estava a pensar arranjar outra companhia. Rosalinda respondeu que não pensava nisso. A experiência fora tão dolorosa que tinha algum receio. Estava, pela primeira vez, a sentir-se livre. Pretendentes não lhe faltavam. O último, era o advogado Carlos Madeira. Não a entusiasmava e fazia-se de desentendida. Na troca de confidências, e com base numa relação de amizade que se estava a desenvolver, Rosalinda procurou levar a conversa para aspectos mais íntimos.
- Desculpa se estou a ser abelhuda. E não pensas em arranjar um companheiro. Ou já tens algum em vista? – disse Rosalinda com um tom algo jocoso.
- Já tive uma relação quando andava na faculdade, mas foi uma grande desilusão. A partir daí concentrei-me na carreira, e não voltei a dar confiança a nenhum homem. E não foi por não tentarem. Ainda recentemente conheci o advogado do Damião, Pedro Galaz, e logo no primeiro encontro começou com jogos de sedução. Pode tirar o cavalinho da chuva. Não está escrito, nem comprovado, que a nossa vida íntima tenha de passar por uma relação masculina, embora seja a regra. Mas não há regra sem excepções.

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« Responder #98 em: Março 27, 2021, 19:55:38 »

Continuando, com a gata dos telhados...

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outono


« Responder #99 em: Abril 01, 2021, 19:10:05 »

XL
- Não está escrito, nem comprovado, que a nossa vida íntima tenha de passar por uma relação masculina, embora seja a regra. Mas não há regra sem excepção- Já tive uma relação quando andava na faculdade, mas foi uma grande desilusão. A partir daí concentrei-me na carreira, e não voltei a dar confiança a nenhum homem. E não foi por não tentarem. Ainda recentemente conheci o advogado do Damião, Pedro Galaz, e logo no primeiro encontro começou com jogos de sedução. Pode tirar o cavalinho da chuva.

O dia nasceu bem disposto. Uma primavera que pisava os pés ao verão. Uma temperatura convidativa, para aproveitar o ar despoluído que ainda predominava na Costa Nova. Aida mostrou o roteiro do dia durante o pequeno almoço.
- Hoje vamos passar o dia na Costa Nova. Damos um passeio à beira mar, e vamos assistir na praia da Vagueira à Arte Xáfega.
Arte Xáfega? –interrogou Rosalinda.
Trata-se de uma arte de pesca muito antiga, em que as redes são puxadas por bois. Já assisti, numa viagem anterior, em que vim com a Laura.
- Também não conheço. - reconheceu Joaquim – Seguindo um pouco a afirmação “ não voltes aonde foste feliz”, evitei voltar a Aveiro. As recordação única que guardei num recanto escondido da memória, como se fosse um sacrário, ia vir à superfície e seria doloroso. Pode parecer um pouco lamechas, mas é como reajo.
- Pois eu Joaquim vim cá vários vezes, porque reajo, ao contrário. Cada vez que aqui venha, essas memórias, fazem-me renascer, e ter esperança de reaver esse passado. Pode na mesma ser lamechas, mas num sentido positivo.
- Continuando o nosso passeio, vamos almoçar no Cesto do Fidalgo. E terminamos no Museu de Ilhavo para ver barcos, nomeadamente o Vouga. Toca a andar porque o dia vai ser longo.

Quando chegaram à Costa Nova, Aida continuou a fazer de cicerone, dizendo que quando na primeira década do século XIX foi, aberta a barra de Aveiro, fechada cerca de cem anos pelas dunas, este foi o lugar escolhido pelos pescadores para apesca, por ser um lugar seguro para entrarem no mar. Assim, construíram estas casas com tábuas verticais, de várias cores, que usavam, como palheiros, para guardar artefactos de pesca, e para a salga da sardinha. Mais para o fim do século, este local, tornou-se num local de banhos, muito frequentado, nomeadamente por grandes figuras, como Eça de Queiroz, entre outros, continuando a ser uma importante zona balnear.
Aida e os seus convidados passaram a manhã na orla marítima, apreciando a diferença entre a função de oferta balnear, com desportos ligados ao mar e a actividade piscatória onde se mantêm práticas antigas.
Depois caminharam entre as casas típicas, hoje usadas para comércio e turismo. Eram 12 horas quando entraram no restaurante Cesto do Fidalgo, na marginal, com vista para a ria, com uma ementa à base de peixes. Aida aconselhou a cataplana de mariscos, como prato principal. No fim da refeição enquanto comiam uma panacota à fidalgo, para fechar com com chave de ouro, Aida pediu a palavra para fazer mais uma inconfidência.
- Após este almoço, que espero recordarão e terão vontade de repetir, vou falar de mais uma razão que me levou a fazer esta viagem. Está relacionada com Laura. Foi em Aveiro que ela iniciou o que seria a sua existência. Pela data do seu nascimento, foi aqui que engravidei. Já falei com ela, e lhe contei o que vou dizer. E o pai, que ela sempre pretendeu  conhecer e já conhece, está aqui presente, e ao meu lado. Só podia ser o homem com quem fiz essa escapadinha a Aveiro há mais de trinta anos, e que viemos comemorar.
- Porra Aida, - disse Joaquim muito emocionado, e sentindo o sangue fugir-lhe para o chão, - após o reencontro parece que queres matar-me de ataque do coração. Estou habituado a lidar com situações, duras e difíceis, mas são emoções muito fortes, para a minha idade. Para além da surpresa, fico contente por verificar que sou pai, coisa que nunca me passou pela cabeça. E logo de uma pessoa como Laura. Até penso que estou dentro de um sonho.
-  Ora Joaquim, principalmente após me ter dado a conhecer como a mulher por quem te enamoraste, e com quem passaste um fim de semana em Aveiro, não era de prever? Era só fazer as contas. Ou ainda duvidas. E digo-te mais, a Laura chegou por si a essa conclusão, depois do nosso reencontro. Não foi?
- É verdade, - disse Laura – com uma emoção contida – quando a mãe decidiu revelar quem fora o homem da sua juventude, percebi quem era o meu pai, e fiquei muito contente. Desde que o conheci que senti uma atracção especial. Não podia desejar melhor pai.
- Isto pode parecer tema de romance cor-de-rosa, - continuou Joaquim procurando recuperar a serenidade – mas a verdade é que acontece. Até porque os romances não podiam existir, sem o que lhes dá a razão de ser, as peripécias da própria vida. Nunca pensei foi que acontecesse comigo. De um dia para o outro, deixei de ser o polícia solitário, para ter uma família. E irei assumir esta partida do destino.
- Eu posso garantir,- disse Rosalinda – que tu não és o personagem que inventaste. Sempre te considerei um homem de família pela forma carinhosa como me recebeste, quando descobrimos que éramos primos.
- E como uma família que somos – disse Laura – vamos aproveitar este dia de primavera, para continuar a viver este momento, neste local tão agradável. Damos uma volta pelos jardins da ria. Ah… e não podemos deixar de comprar Tripa, um doce que se diz criado por aqui, isto é uma bolacha americana, recheada com vários sabores.

- Na viagem de regresso, Aida e Joaquim foram falando sobre projectos de vida futura e em comum. Aida voltou a referir que pretendia reformar-se, e entregar a gestão da fábrica a Laura, embora continuasse a prestar o seu apoio. Esta, já tinha planos para a sua gestão, e aproveitou para convidar Rosalinda para a sua equipa. Joaquim protestou, mostrando desagrado por lhe roubarem a sua secretária. Aida respondeu que Joaquim não precisava de Rosalinda. Já tinha uma nova secretária a tempo inteiro, e não queria concorrência. Joaquim insistia que deviam continuar separados, até se resolverem os casos que estavam em investigação. Aproveitou para informar que já tinha um plano para a investigação do “estripador”. Iria contactar os investigadores da sua equipa da PJ, todos reformados, para o ajudarem nessa investigação. Será uma espécie de “brigada do reumático”, concluiu com alguma ironia.

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« Última modificação: Abril 01, 2021, 19:18:30 por Nação Valente » Registado
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« Responder #100 em: Abril 08, 2021, 21:25:01 »

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« Responder #101 em: Abril 09, 2021, 20:39:13 »

XLI


Joaquim insistia que deviam continuar separados, até se resolverem os casos que estavam em investigação. Aproveitou para informar que já tinha um plano para a investigação do “estripador”. Iria contactar os investigadores da sua equipa da PJ, todos reformados, para o ajudarem nessa investigação. Será uma espécie de “brigada do reumático”, concluiu com alguma ironia
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Aida aceitou a sugestão de Joaquim em viverem separados até á conclusão do caso do estripador. A seguir, Aida, concordou em mudar-se para Alfama, lugar a que Joaquim se sente uma ligação profunda. O casario o rio, são prolongamentos da sua vida. Deixará a fábrica entregue a Laura, assim como a vivenda onde habita. Entretanto, continuarão as últimas investigações da fase detectivesca de JCorreia. Para o efeito, o primeiro acto desta fase JCorreia, já previsto, será a reunião com os investigadores do processo do “estripador” que se encontram aposentados. A reunião foi marcada durante um almoço a decorrer na cervejaria Trindade.
Esteves, Galhardo, Vitorino e Batalha Romã aceitaram o convite de Correia, que alegou um encontro convívio, para recordar velhos tempos. Entre uns bitoques e uma cervejas, o inspector Esteves que tinha coordenado a investigação do caso do “estripador”, numa primeira fase, depois de uma troca de palavras ocasionais, perguntou:
- Afinal Correia, pelo que te conheço, e porque sei que não dás ponto sem nó, diz-me qual é a razão da reunião de toda a velha equipa que dirigi. Para mais, és o único que ainda teima em brincar aos polícias. Vai directo ao assunto.
- Tens razão Esteves. Sempre pragmático, e também é por isso, que te admiro. Pode parecer um absurdo mas fui abordado por uma amiga que passou pela prostituição, para voltar a investigar o caso do "estripador".
- Ó Joaquim, eu fui afastado desse caso, e agora estou reformado. Aproveito o tempo que me resta de vida para fazer o que antes não foi feito: pescar, respirar a brisa marítima, apreciar a boa mesa. Fumar um bom charuto. É para o que dá.
- Mas há uma coisa Correia, - disse Galhardo, que depois de ter sete filhas, desistira de ter um rapaz – que eu não percebo: que interesse tem essa tua amiga, num caso que já prescreveu? Eu, por acaso gostava de ter um varão, e não consegui. Paciência. Até já tenho netos, mas continua a ser tudo fêmea. Há coisas que são como são, e com as quais não vale a pena perder tempo.
-Ora Galhardo, ouvi-te dizer muitas vezes, que se te dessem carta branca para aplicar os teus métodos, tinhas chegado ao criminoso. Porra, estou a dar-te uma oportunidade. A minha amiga, mais que simples amiga, quer tentar chegar ao criminoso, a pedido de uma afilhada, filha de uma das vítimas. Que mas não seja para fechar o assunto na sua cabeça.
- Percebo Correia – disse Vitorino, o mais ponderado.- Isso mete rabo de saia. E queres agradar à tua dama. Sabes que sempre fui solidário, e me disponibilizei para ajudar os amigos. Mas tenho a mesma dúvida do Galhardo. O que é que isso adianta?
- Meus amigos- respondeu Joaquim – fiz-vos um convite, e são livres de aceitar ou não. Com ou sem a vossa colaboração, vou continuar. Mas vocês não têm nada a perder. Fazem uma pausa nessa vida de monotonia, e fazem o que melhor sabem fazer. Até acredito que se divirtam. A propósito estou a lembrar-me do meu pai.

Desde que comecei a conhecê-lo sempre o vi com uma pessoa activa. Foi contrabandista, esteve na guerra civil de Espanha, foi Guarda Fiscal, agricultor, e por fim emigrante. Quando passou á “retrete” como ele dizia, com sessenta e cinco anos, caíu de repente num vazio. Tinha alguma tendência depressiva. Percebeu que não podia ser e depressa deu a volta. Com as economias que trouxe da França investiu na recuperação da casa deixada pelos pais, e comprou algumas terras junto da ribeira que ladeava a aldeia, ou seja reinventou-se como agricultor, aliás como muitos outros companheiros de emigração que regressaram. Comprou umas alfaias modernas, e ainda o dia não estava bem acordado já ele ia no seu pequeno tractor para o campo, semear ou colher, conforme a época. Plantou uma vinha, e fazia o seu próprio vinho. Quando o visitava falava com entusiasmo da sua nova vida. Penso que nunca foi tão feliz. Qual teria sido a alternativa? Passar os dias nas vendas a jogar à sueca, ou a matar o frio do inverno, sentado ao soalheiro. Acho que ganhou anos de vida. E como ele muitos outros que partiram, despovoando as aldeias, mas que voltaram com as suas economias para ainda lhe dar alguma vida.

- Ao fim e ao cabo estou a dar-vos uma oportunidade para rejuvenescerem, e por uma causa justa. E também é verdade que o faço por amor. Ao contrário de vocês, que têm família, eu assumi-me como um solitário, e agora percebi porquê. Reencontrei a mulher que me marcou na juventude. Há quem lhe chame destino.
- Caramba Correia, - disse Batalha Romã, que não envelhecera no esquerdismo e já estava bem bebido – eu nunca fui piegas, mas que história tão bonita. Até estou um pouco comovido. Sempre fui pelo amor livre e por isso passaram por mim várias mulheres, ou passei eu por elas, mas compreendo
 Deu um murro na mesa que fez faltar as canecas de cerveja, e continuou:
- Por questões de justiça, e para defender os oprimidos contra os cabrões dos exploradores, conta comigo.

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« Responder #102 em: Abril 11, 2021, 20:55:34 »

Um copto toda a gente bebe de vez em quando, agora até ficar esquerdo é coisa nova!!!1  :yahoo:
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