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Autor Tópico: O senhor professor, e o baile dos moços pequenos  (Lida 181 vezes)
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Nação Valente
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outono


« em: Julho 27, 2020, 20:02:54 »

Na aldeia onde nasci e onde passei a infância, a vida tinha uma cadência serena. Era um microcosmo com vida própria, capaz de se autossustentar, sem as interdependências que hoje existem. A população dedicava-se, maioritariamente, à produção agrícola de subsistência e autossuficiência. A ligação com o mundo exterior era reduzida, também devida aos meios de comunicação. Quando nasci, foi inaugurada a ponte que ligava as duas margens da ribeira na estrada que conduzia ao litoral e ao Alentejo. Ainda me lembro de ser alcatroada por processos muitos rudimentares.

A vida de trabalho pela sobrevivência ocupava a maior parte do tempo dos aldeões. À pobreza chamada de remediada, poucos escapavam. Os ditos ricos seriam hoje simplesmente pobres. Este modo de vida era aceite com naturalidade, e o trabalho como uma virtude. Mas na sua simplicidade as pessoas não prescindiam dos seus tempos lúdicos. A ida à taberna depois de jantar, e aos domingos, para conviver com os seus conterrâneos, para beber um ou mais copos de vinho, jogar às cartas, ou a outros jogos tradicionais, era um escape ao trabalho diário.

Os moços e as mulheres eram um mundo à parte. Estas arrumavam a casa depois do jantar e conviviam na ida ao poço para trazer água, ou na ribeira, nos locais de lavagem da roupa. Os moços pequenos jogavam  ao pião, ao berlinde (riol) ás escondidas, à apanhada, e à bola. A permanência na taberna era reservada aos homens adultos. Mas havia um divertimento onde toda a população se juntava. Os bailes, coincidente com festividades nacionais ou locais, eram o local predilecto de divertimento, para todas as idades.
As crianças sozinhas ou acompanhadas de familiares, também estavam presentes. Aí começavam a aprender a dar os primeiros passos de dança, ou a bailar como se dizia. E  eram o sítio onde os moços e as moças,  estavam  juntos. Até na escola primária havia separação de sexos. O baile para os jovens mais crescidos também servia para encontros que resultavam em namoricos.

Quando frequentava a escola, veio do Norte um professor beirão, com um linguajar que trocava vês pelos bês e os esses pelos xiz. Tinha alguma dificuldade em o entender. E a sua noção de moralidade muito rígida. Não nos queria ver a cirandar durante a noite, nomeadamente a frequentar locais de diversão como bailes.

O medo saia da sala de aula, de tal modo, que quando o avistava na rua, mudava de direcção. Uma noite atrevi-me a sair com um grupo de outros moços, e a horas um pouco tardias, enquanto subíamos a rua principal, a fazer as parvoíces próprias da idade, deparamo-nos com o senhor professor, a desce-la. Vindo de alguma farra gastronómica. Não o pudemos evitar: “então isto são horas de andar na rua? Voltem já para casa? Amanhã falamos. Mentalizei-me para as consequências, mas dessa vez, não aconteceu nada.
Mas o senhor professor, ainda jovem, integrou-se muito bem naquela comunidade sulista. Frequentava as tabernas, participava em actividades comuns, e festividades. Quando chegou, vivia uma paixão assolapada, por uma sua conterrânea. Todos os dias recebia uma carta dessa namorada que lia, enquanto cumpríamos as nossas tarefas. Recebeu até ao dia em que se começou a interessar pelas moças da terra, e se enamorou de uma delas. Um dia, ficou de cama e essa namorada começou a ir à casa onde morava, para o tratar. Logo começaram a línguas viperinas a dizer que lhe prestava tratamento completo. Fosse ou não fosse, o certo é que a noiva beirã, "bye, bye".
Num baile, o senhor professor, para nos mandar sair, sem autoritarismo, inventou um processo fora do habitual. Da mesa onde tocava o acordeonista , e entre duas músicas, anunciou que  na próxima dança todas as jovens/ adultas iam oferecer uma dança,  aos moços pequenos, que a seguir deviam abandonar o baile. Assim se fez, que palavra de professor era sentença.
As moças da nossa idade não gostavam de bailar com quem tinha os pés pesados, a não ser aquelas que tinham por nós alguma simpatia. Por isso o meu par era sempre o mesmo. Por sinal uma moça bem gira. Naquela dança especial, fui escolhido por uma prima dez anos mais velha, com as formas femininas já bem desenvolvidas. Para mim foi mais uma dança a levantar o pó do chão com pés de chumbo. Mas para aminha parceira, deve ter sido uma corveia, a puxar-me ao longo do salão de baile, na dança dos moços pequenos.

« Última modificação: Agosto 02, 2020, 23:21:28 por Nação Valente » Registado
Maria Gabriela de Sá
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« Responder #1 em: Julho 27, 2020, 21:25:54 »

Cada qual dança com os pés que tem... de chumbo ou ambos esquerdos...


Abraço
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Goreti Dias
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« Responder #2 em: Agosto 02, 2020, 19:29:11 »

As primas davam jeito, hem ? rsrsrs
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Goretidias

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Boa noite feliz para todos.
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Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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