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Autor Tópico: A S√°tira do Livro Roubado  (Lida 4093 vezes)
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Maria Gabriela de S√°
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« em: Fevereiro 12, 2022, 23:07:56 »

A S√ĀTIRA DO LIVRO ROUBADO

¬Ī
César

Sou mera personagem de livro, bom ou mau não interessa. Todos podem fazer de mim gato-sapato, até ao limite da sua fantasia, sem eu poder dizer nem aí nem ui e, muito menos, acrescentar seja o que for a um destino que não é meu. A minha saga foi feita segundo desígnios de uma autora de meia-tijela, ao sabor da inspiração do momento. Rasca, na maioria das vezes. Mas, apesar disso, a fraca genialidade de quem me criou teve sequelas que ela nunca se atreveu sequer a imaginar.
J√° que a minha criadora me apresentou como um homem com quem o diabo fez um pacto, desengane-se mesmo ela se julga que irei ficar calado, a dormir no caixote do lixo como um caro√ßo de ma√ß√£ podre a intoxicar-se -se no pr√≥prio cheiro. Foi onde a editora lan√ßou o exemplar em que sou uma personagem, com nome de imperador romano conceituado pelas suas obras. E eu juro n√£o calar a minha revolta como um cobarde de voz abafada no cobertor de uma vida comum, onde vivo no anonimato. N√£o se nega assim a vida a ningu√©m! Uma vida amarfanhada logo no projeto, transformado √† partida num romance barato, e condenado a viver unicamente em rascunho. Houve r√©plicas, apesar disso! Como numa m√ļsica de que podem ser feitas v√°rias vers√Ķes e em diversos andamentos, houve uma segunda r√©plica e a terceira est√° a come√ßar, neste terramoto em que me sinto a ferver como se fosse uma ilha vulc√Ęnica a estrebuchar no meio do enxofre.
Resumindo, o que me aconteceu foi que morri antes de ter nascido, numa esp√©cie de aborto provocado. Talvez por raz√Ķes profil√°ticas e para impedirem que me tornasse numa coisa amorfa, uma vulgar acendalha para atear a fogueira das sardinhas em noite de S. Jo√£o. Mas eu, mesmo assim, sempre esperei outro tipo de tratamento.
A editora bem agradeceu √† mam√£ o facto de ter sido escolhida para a eventual publica√ß√£o da obra, onde sou rei e senhor, mas, embora sensibilizada, acabou por se negar a contribuir para a minha exist√™ncia. N√£o quis dar-me, nem a mim nem aos meus companheiros, o privil√©gio de nos tornarmos num best-seller com lugar nas livrarias do mundo inteiro e como uma obra de culto. √Č bem prov√°vel que tenha achado o livro uma alforreca prim√°ria e sem subst√Ęncia, mas a mim o que me pareceu foi que tudo n√£o passou de um golpe baixo, que me aniquilou em todas as partes, p√ļdicas ou n√£o. N√£o com pontap√©s, mas atrav√©s de golpes de esc√°rnio e maldizer disfar√ßados de coisa liter√°ria.
√Č verdade.
Depois da recusa de uma editora em dar-me vida, ratos da literatura serviram-se de mim como se eu fosse, mais do que umas banais sardinhas assadas, salvo o gosto e respeito que eu tenho por sardinhas assadas, um autêntico manjar de deuses habituados a comida gourmet. Tanto quanto me parece, satisfizeram-se até ao enfartamento num mar de gargalhadas, seguramente menos contagiantes do que as minhas e as da Clara juntas (hão de saber quem é Clara) no livro proscrito e em que todos ríamos como doidos.
Sou uma personagem com mais vidas do que um gato. Nas contas da minha mãe, há muito devia estar morto e enterrado, a fazer companhia às minhocas lá no cemitério da terra onde a minha criadora e a filha, a Clara, assistiram ao meu funeral. Uma delas estava, até, a fumar um cigarro bastante pensativa, enquanto ouvia conversas de velhas beatas acerca da minha vida, que foi sempre mais ou menos desatinada desde a minha vinda ao mundo.
Julgam-me o Demo em pessoa, mas sou uma criatura de Deus. Bem querida Dele, por sinal. Tanto que, segundo a minha mãe de ficção, fui feito por uma mulher jovem e por um trolha, no coreto de um pequeno santuário, entre umas pasadas de argamassa e o reboque de um sino para o sítio de onde ele tinha voado com o vento durante um temporal, desencadeado talvez pela ira divina como uma premonição do futuro. E, como sou uma personagem atreita a picardias, apesar de ter tido outro nome, agora chamo-me Gabriel, o anjo, e desci do céu para agradar a gregos e troianos. Já aterrei já em vários romances quase em voo picado, como uma gaivota a ciar ao fim da tarde numa concentração de estilo motoqueiro.
Da√≠ ser a estrela principal de duas tragicom√©dias. E, com tudo isto, vai agora a minha vida na terceira trajet√≥ria, uma vida que se tem revelado bem mais r√°pida do que um cometa a fazer sucessivas reentradas do mundo com intervalos de centenas de anos. Devo, por isso, ser uma bela personagem, um mito arrancado a uma caverna, que, desta vez, se parece com um caixote de lixo. Com tanta gente a querer-me para figurar nos seus livros, s√≥ posso ser mesmo uma personagem recheada como uma batata inchada de redund√Ęncias.
Sou Gabriel e nada mais h√° acrescentar. Nada de apelidos. Vou deixar o suspense no ar, e uma certa liberdade para cada um me chamar o que entender, como quem baptiza um c√£o rafeiro. Sou, no entanto, talvez a melhor personagem que poderia ter acontecido a um romance.
Quando nasci, tinha uns lábios finos semelhantes a riscos de tinta-da-china num papel de desenho. Contudo, numa vida de permeio, como se se tratasse de uma reencarnação em que só a alma pode ter algum interesse, alguém os tornou mais grossos. Por isso tenho agora um ar africanado à custa de silicone literário, além da possibilidade de nascer num continente esculpido a fogo.
Querendo ou n√£o, tenho de viver com este aspecto. Por falta de h√°bito, por vezes dou comigo a mordiscar os l√°bios como se eles fossem azeitonas sem caro√ßo. Tudo faz parte do disfarce, diz a mam√£ com ar de quem tal alguma fisgada na manga. Ao menos por agora, enquanto n√£o tenho autoriza√ß√£o para me abrir neste novo livro, onde sou for√ßado a representar um outro n√ļmero, tenho de fazer um esfor√ßo de conten√ß√£o dos atos que √†s vezes me apetece representar.
Gosto do meu novo nome e gosto ainda mais da alcunha. Tem tudo a ver comigo. Sou bonito como um anjo, uma verdadeira escultura ambulante de Miguel √āngelo, um David um tudo nada mais beneficiado onde deve ser. Tenho at√© a sensa√ß√£o de que o meu sangue foi, ao mesmo tempo, coado nas malhas da aristocracia e bafejado pelo esp√≠rito divino num sopro de bondade. √Č assim que o sinto correr, da cabe√ßa aos p√©s, enquanto reentra depois na terra como se eu fosse um imenso para-raios dos mais sofisticados depois de Franklin. Sou um anjo com um p√© na terra e outro no c√©u. Que grande ponte.
Continua

Leiam também "O Estranho Fascínio da Internet", mas este é a pagar....
« Última modificação: Fevereiro 28, 2022, 00:56:04 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #1 em: Fevereiro 15, 2022, 14:46:23 »

Imaginação e qualidade literária. Promete...
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #2 em: Fevereiro 15, 2022, 17:21:02 »

César

Tenho de agradecer a quem me fez assim t√£o belo: ao meu pai, √† minha m√£e verdadeira, a quem, se a outra deixar ‚Äď eu n√£o passo de uma marioneta nas m√£os de ilusionistas ‚Äď vou trocar tamb√©m os nomes do mundo do faz de conta. Passar√£o a chamar-se, ele In√°cio e ela Josefina. Um porque me faz lembrar padre de anedotas e outra porque a ligo, irremediavelmente, a um pa√≠s onde Napole√£o, quando estava prestes a chegar √† beira da mulher,  com o mesmo nome da minha progenitora, vindo das duras batalhas imperiais a cheirar a cavalo e a homem, lhe costumava mandar bilhetes er√≥ticos dizendo: Josephine, ne te laves pas. √Č o que dizem as m√°s-l√≠nguas. Eu n√£o sei, pois sou uma personagem dos s√©culos XX e XXI.
Quanto ao capel√£o do meu batismo, agora sou eu quem vai rebatiz√°-lo. J√° n√£o deve andar c√° neste mundo, coitado‚Ķ Mas h√° pequenas coisas a mudar. √Č para as personagens experimentarem outras sensa√ß√Ķes e uma nova import√Ęncia noutras com√©dias, neste mundo de Deus meu Pai.
O Padre Serafim vai passar a ser Ser√īdio, porque o nome anterior lembra-me o c√©u e todos os moradores. Incluindo a classe dos anjos a que agora perten√ßo, possa embora o bondoso do sacerdote estar j√° nos dom√≠nios celestiais, gra√ßas √† sua toler√Ęncia para com os paroquianos como eu,  enquanto foi vivo. √Č importante chamarmo-nos qualquer coisa. De qualquer modo, fiquem √† vontade e chamem-nos como bem entenderem. Enquanto a vossa imagina√ß√£o n√£o ficar esclerosada, a ponto de nem sequer saberem designar uma coisa t√£o vulgar como chupeta, apelidem-me como quiserem. N√≥s, as personagens, n√£o choramos por nada. Nem sequer pelas lambadas de que somos v√≠timas frequentes nas m√£os dos cr√≠ticos de literatura. Nem por enquanto, nem nunca, e jamais rangeremos os dentes por muitos apocalipses que possamos provocar.
Al√©m dos meus velhotes, e de uma ou outra pincelada em algumas pessoas da minha primeira hist√≥ria, s√≥ falo aqui no sacerdote porque ele tem algo a ver com o c√©u. O c√©u √© o meu ambiente, o s√≠tio onde me posso tornar vol√°til como uma nuvem e tomar a forma que quiser. Mas, mesmo assim, falo pouco dos meus paizinhos terrenos, os que melhor souberam dar forma √† ‚Äúnuvem celestial‚ÄĚ que n√£o deixo de ser. Falo pouco porque, quanto mais se diz, mais hip√≥teses h√° de sair asneira. Por outro lado, algumas das personagens ligadas ao meu primeiro nascimento parecem-me absolutamente insossas, sem ra√ßa de sabor para agradarem a pessoas com bom gosto. E, sendo apenas massa para encher buracos, n√£o vou atribuir a nenhuma dignidade suficiente para figurar aqui. Ao menos na √≠ntegra. Essas figurinhas de ret√≥rica s√≥ t√™m de estar completas no livreco inicial, o tal em que sou qualquer coisa sempre boa: p√£o com manteiga, brioches de queijo, enfim o rei da cozinha mundial. Um rei em que autores pouco escr√ļpulos beberam e comeram inspira√ß√£o √† farta, como se eu fosse um man√° ca√≠do do c√©u, e nos fizeram, a mim e ao resto das personagens, em peda√ßos. Tal como se estivessem a dissecar cad√°veres sobre uma mesa de aut√≥psias num necrot√©rio liter√°rio.
Contudo, apesar do tal gozo colectivo que proporcionámos aquando da escrita do livro intercalado, onde eu fui, como ninguém, carne para canhão, há na minha primeira vida umas criaturas interessantes e coisas bem escritas sobre a minha vida. Mas muito desarrumadas.
A minha criadora, quando decidiu p√īr-me nas bocas do mundo, para eu viver uma vida de papel, tinha acabado de ler um livro que sucumbira ao conceito do sexualmente apelativo‚ĶE, n√£o sendo ela escritora nem de fim-de-semana, acreditou ser capaz de produzir algo semelhante a uma coisa com tanto sucesso no mundo da literatura atual, em que ‚Äď e ainda bem - j√° n√£o h√° limites em coisa nenhuma. Depois de o homem ter pisado a Lua, depois de ter estudado os mares secos de Marte e observado os mil fogos do Sol e de J√ļpiter, ningu√©m se deve espantar com nada. Perdoem-me os outros planetas, mas vou ficar por aqui na enumera√ß√£o do sistema, uma vez que aqui a tem√°tica n√£o √©, nem a astronomia, nem, muito menos, a astrologia. Trata-se apenas da teoria da Evolu√ß√£o das Esp√©cies de Darwin adaptada ao fino recorte da literatura.
A mamã conseguiu o objectivo com o livro em que nasci com lábios finos desenhados a pincel. À exceção do sucesso, visto que continua anónima e pobre como sempre, uma verdadeira alma gémea de Job.
De resto, somos todos t√£o valiosos que o melhor era a mam√£ ter feito um seguro das nossas vidas como Marlene Dietrich fez das pernas, quando o infort√ļnio lhe esgadanhasse a porta. Ou, at√© antes disso, para n√£o nos roubarem t√£o descaradamente como fizeram ao tirar-nos do nosso verdadeiro livro, pondo-nos a viver numa terra de mo√ßas trigueiras, com campos pejados de ma√ßarocas de milho para broas, duras como pedras e utilizadas depois de uma forma que n√£o tem nada a ver com uma boa ortodoxia da fome.
Voltando √† desordem do meu primeiro nascimento, √© aqui que entro, p√īr ordem no caos. No livro de onde fui arrancado, quase tudo figura ao contr√°rio. √Č como se o Sol, de repente, come√ßasse a nascer onde se p√Ķe, numa invers√£o t√£o grande como a maior hip√©rbole liter√°ria quando Cam√Ķes ainda se dava ao trabalho de ir ao dicion√°rio escolher as palavras sublimes com que edificou os Lus√≠adas.
- Espera a√≠, Gabriel, refreia a imagina√ß√£o, n√£o te alongues em considerandos baratos! ‚Äď digo para os meus bot√Ķes de literato embrion√°rio.
Na mente da minha criadora comecei por morrer num hospital l√ļgubre, sem o m√≠nimo de arrependimento pelas minhas maldades. Bastantes por sinal. Uma coisa sinistra, esta de se morrer antes de nascer, sem haver pelo meio ao menos um aborto. Deve ter sido por causa disso que a editora me mandou para o caixote. Foi para dar algum sentido √† minha vida sem l√≥gica. Uma vida de lixo.
√Č contigo mam√£, critico-te por me teres engendrado daquela maneira t√£o perversa, quando, em vez de me prostrares de joelhos aos p√©s de um capel√£o habilitado a dar a extrema-un√ß√£o a um moribundo e a pedir perd√£o a Deus pelos seus pecados, me obrigaste a escrever umas mem√≥rias de cunho, mais do que er√≥tico, mais ou menos pornogr√°fico. Sobretudo se passassem a filme. E, tanto quanto julgo lembrar-me, escritas em folhas de papel pardo, como aquele em que antigamente embrulhavam a broa e as azeitonas nas mercearias, e onde se punham as sardinhas fritas a escorrer. Quem, digo eu, a cair aos peda√ßos numa cama com o n¬ļ 666, prestes a finar-se, teria for√ßas para escrever, sequer, um recado √† m√£e a pedir-lhe umas cuecas lavadas? Por muito escritor que um dia tivesse querido ser,  e por muitos ensaios que tivesse feito nos guardanapos de papel enquanto engatava as mulheres nas esplanadas das pastelarias onde passava grande parte do meu tempo, teria l√° tino para escrever tanto disparate?
Desculpa, mam√£, mas ningu√©m acreditou, muito menos os senhores da editora, no facto de as enfermeiras terem medo de ser hipnotizadas pelos meus olhos de Rasputine, de quem se dizia ter tamb√©m um pacto com o Demo. Sabiam l√° elas quem tinha sido Rasputine? E, habituadas a ver gente a ir-se sem nunca terem sido assombradas por nenhuma alma penada, jamais deviam ter colocado a hip√≥tese de algu√©m como o velho russo ter reencarnado, mais de meio s√©culo depois, num corpo lindo como o meu e com uns olhos verde-mar semelhante aos dele, para hipnotizar, sequer, um coelho na Mata Real! Muito menos acreditou no fat√≠dico evento da minha partida para o outro mundo um editor preocupado em ganhar dinheiro a rodos, depois de pagar uma bagatela pelos direitos de autor! E, mesmo que tudo fosse veros√≠mil, queria l√° ele saber de um borra-botas moribundo, completamente desconhecido no mundo das letras, a fazer o √ļltimo ensaio para figurar na Hist√≥ria da Literatura do Sexo? Ao pante√£o da escrita s√≥ chegam uns tantos. Muitos s√≥ entram l√°, ou por uma esp√©cie de compadrio, ou por frequentarem os mesmos lugares e as mesmas revistas chiques da moda. Nem por causa de certas cenas er√≥ticas entre mim e a Clara, normalmente uma boa fonte de receita, a editora caiu no engodo. Ningu√©m, com dois dedos de testa, acharia poss√≠vel a minha morte assim t√£o abrupta, quando a minha doen√ßa mais grave era apenas uma h√©rnia discal, contra√≠da um dia quando fui buscar uma bilha de g√°s √† mercearia da esquina para aquecer a magra sopa que a empregada me fazia √†s quintas-feiras. Era para n√£o morrer inanimado dentro da minha pr√≥pria casa, como uma formiga no seu estreito buraco. Ou, ent√£o, empanturrado com toneladas de miolo de p√£o que trazia da centen√°ria padaria da aldeia, onde a velhota que quase assistiu √† queda do campan√°rio nove meses antes de eu nascer, j√° um bocado caqu√©ctica, continuava no ramo da panifica√ß√£o. Quem, de mente s√£, julgaria ter sido poss√≠vel finar-me de Hepatite B, depois das altas orgias com a Clara, uma mo√ßa demasiado vol√ļvel para o gosto de certos escritores? J√° agora, informo que a Cara √© uma mulher colocada pelo destino √† minha frente no primeiro romance, e a quem certos psic√≥logos de bancada j√° chamaram a minha alma g√©mea, quando a meteram na pele de outra mulher que me arranjaram para concubina no livro do meio. Nem sequer tive o sarampo em pequeno. Se excetuarmos uma pequena bronquite asm√°tica, que se transferiu de mim para uma tal Lili como se a asma fosse uma doen√ßa contagiosa, a h√©rnia discal foi o meu √ļnico percal√ßo durante a vida que tive, a que tenho e aquela que ainda terei, se ela n√£o me trouxer complica√ß√Ķes fatais como diria o senhor La Palice.
Contudo, na condi√ß√£o de personagem, al√©m do mais ang√©lica e com conhecimentos de metaf√≠sica, acabo de receber inspira√ß√£o do c√©u: aquele livro, tal como estava escrito, seria um tremendo √™xito editorial. Tem tudo para isso: uma capa sugestiva, uma esp√©cie de Homem de Vitr√ļvio estendido ao comprido no ch√£o, nunca se soube se morto e a desdobrar-se em v√°rios, ou se apenas como um desenho a exemplificar perante leigos a propor√ß√£o divina do corpo humano. O livro, apesar de n√£o ter mais do que zero v√≠rgula, zero, zero, zero por cento de sexo relativamente aos quatrocentos e tantos mil caracteres que ilustram a vida da gente do primeiro romance, tinha um bom destino pela frente. Quisesse uma editora como a que nos renegou √† semelhan√ßa do Ap√≥stolo Pedro na noite em que o galo cantou tr√™s vezes, em vez de nos excomungar debru√ßar-se com carinho sobre mim e sobre a Clara! Os palavr√Ķes eram abundantes, havia toalhas vermelhas √†s riscas em todas as ocasi√Ķes. J√° para n√£o falar de uma morena encarni√ßada, qui√ß√° disfar√ßada de loura burra, a beber o ar que respiro e a morrer de amores por mim. Eu que desencadeio paix√Ķes t√£o fortes como furac√Ķes de grau sete, se √© que um furac√£o pode ser t√£o graduado no mundo da meteorologia.

Continua e é de graça

"Leiam tamb√©m "O Estranho fasc√≠nio da Internet" que  tamb√©m √© meu, mas este custa dinheiro e tem v√°rios pre√ßos a√≠ mas livrarias nacionais e estrangeiras, mas em portugu√™s, ainda
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« Responder #3 em: Fevereiro 20, 2022, 00:15:59 »

√Č de gra√ßa, e tem gra√ßa. Juro.
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« Responder #4 em: Fevereiro 20, 2022, 08:00:57 »

E eu vou acompanhar!
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« Responder #5 em: Fevereiro 20, 2022, 21:31:03 »

César

A minha opini√£o sobre as hip√≥teses de o romance da mam√£ vir a tornar-se num √™xito de vendas √© corroborada por quem, de carne e osso, leu o manuscrito de computador, debru√ßado numa secret√°ria e cofiando o bigode com impaci√™ncia, enquanto se mexia ruborizado na cadeira ‚Äď foi o caso do meu primeiro leitor. Naqueles que tiveram a bondade de ler a minha malfadada hist√≥ria, nem sempre a libido esteve em pudico estado. √Äs vezes a leitura acabava por seguir em contram√£o. A ponto de, o meu primeiro leitor, √† medida que ia lendo os cap√≠tulos e se enfarinhava no espirito da quest√£o, ter de se levantar ami√ļde para ir beber um copo de √°gua. Era para se acalmar, confessava. Estava a ser dif√≠cil. Era o que me dizia em segredo, quando se debru√ßava sobre o ambiente do nosso trabalho, do meu e das outras personagens, e quando, em v√°rias ocasi√Ķes, senti que ambicionaria estar dentro da hist√≥ria como um participante ativo. Especialmente comigo, visto a minha beleza tamb√©m n√£o lhe ser indiferente, comparada com a dele pr√≥prio, um bocado sem inspira√ß√£o nenhuma da parte dos deuses. Este meu primeiro leitor privilegiado gostava, sobretudo, de vibrar com as nossas atua√ß√Ķes na cama, que deveriam servir para alegrar a vida sexual dos vizinhos de baixo. Ou at√© mesmo da solit√°ria velha coscuvilheira, a moradora no apartamento mesmo sobre o meu, uma intriguista que ainda me deitou mais uns palmos de terra em cima quando a Clara andava com investiga√ß√Ķes do tipo ‚Äú Sherlock Holmes‚ÄĚ por causa das minhas escapadelas no mundo feminino. Quem √© que n√£o se sentiu entusiasmado com um sexo t√£o esfusiante como o nosso? Apenas os frigor√≠ficos, digo eu, a sensualidade em pessoa, e com todo o direito de puxar as mulheres para mim como se puxa a brasa √† nossa sardinha.
√Č por essa principal raz√£o que fui parar outro livro e ando agora num terceiro: num, a comer broa com azeitonas e a viver novas tropelias, enquanto algu√©m se farta de ganhar dinheiro √† custa da minha intimidade e da dos meus companheiros; neste, sabe-se l√° o que terei ainda de fazer‚Ķ
A ‚Äúm√£ezinha‚ÄĚ distraiu-se hoje um bocado com as minhas insinua√ß√Ķes maldosas. Principalmente agora que estou a sugerir √† editora uma mudan√ßa de opini√£o em rela√ß√£o a todos n√≥s, quando eu me chamava C√©sar e morava no primeiro livro. Nessa altura, ainda a Clara n√£o se tinha desdobrado em tr√™s ou quatro, como lhe aconteceu depois. E se a editora quiser ter lucros chorudos, basta fazer um pacote em que inclua tr√™s publica√ß√Ķes: aquela onde sou C√©sar, uma outra cuja base de fabrico √© o milho, e esta agora em que renas√ßo como Gabriel. O t√≠tulo, sem sombra de d√ļvida, teria de ser ‚ÄúA s√°tira do livro roubado‚ÄĚ. Seria um tr√™s em um eficaz, um champ√ī ecl√©tico. Um champ√ī pode ser como o Sol, nascer para ser esfregado na cabe√ßa de todos com o mesmo efeito er√≥tico do an√ļncio da televis√£o e como a mosca de Ant√≥nio Aleixo. A mosca sim, √© que pousava com a mesma alegria tanto na cabe√ßa de um doutor como em qualquer porcaria.
A mam√£ est√° hoje como o era e n√£o era. Acha que fui longe de mais por ter dito o que disse e aconselhou-me a usar a borracha na escrita. Presentemente diz que n√£o admite sequer a possibilidade de eu principiar a circular por esse mundo como C√©sar, o de cujus, falecido num hospital depois de ter acenado com a biografia a um editor que lhe fez um ecl√©ctico manguito. Mas, digo eu, isso talvez n√£o corresponda √† verdade, dependendo do pre√ßo. Tudo se vende, sobretudo consci√™ncias. Ou reputa√ß√Ķes. √Č o que me parece aqui.
A mamã continua a achar o sítio onde existo com o meu antigo nome uma sala de banalidades.
- Calma l√° mamy! N√£o deve ser assim tanto! De contr√°rio estar√≠amos mesmo todos no lixo, ao inv√©s de andarmos para aqui a vender sa√ļde e sabe Deus mais o qu√™, enquanto escritores famosos se riem √† nossa custa!
Vive a minha criadora, presentemente, como se depreende, numa grande ambiguidade.
Eu, para a acalmar, afirmo-lhe, com a sabedoria de um anjo, que a radiografia da minha vida assim como ela a fez passaria pelo crivo da editora e ninguém teria soltado aqueles risinhos marotos, mas apenas com uma condição: para isso, ela teria de pertencer à elite dos príncipes e princesas das letras. Teria, em suma, de morar na capital. E, sobretudo, teria de ser uma espécie de dondoca que não dispensasse o chá das cinco numa pastelaria famosa da cidade, içando no ar o dedo mindinho da mão com que levasse a xícara à boca em sinal de finíssimo requinte. Mas, adiante…
Quando vimos que me tinham arrancado das páginas onde a mamã traçara o perfil da nossa família de ficção e nos tinham esfrangalhado, os dois sentimos um enorme espanto e indignação. Eu sou mais passivo, mas ela ficou cheia de raiva, uma raiva a que se seguiu um sentimento a divagar entre a serenidade e o desejo de vingança. E, a seguir-se à risca a receita da raiva, ela deve servir-se bem fria, mesmo que o prato seja de uma banalidade semelhante ao de batatas recheadas. Ou até mesmo de trouxas de batata.
Batatinhas recheadas, hum! Que cheirinho! Nem um anjo como eu resiste a crescer-lhe água na boca, carnuda e africana, agora assim por imposição de autores que devem ter alguma coisa contra lábios finos como os meus quando eu era simplesmente César.
À medida que a poeira baixava e a razão saía daquela penumbra onde se vê tudo baço, depois de se sacudir um pouco e após o auto beliscão, a mamã começou a ver as coisas por um prisma bem mais risonho.
Era, sim ‚Äď pensou ent√£o ‚Äď algu√©m a quem tinham roubado os monstruosos filhos, mas, apesar disso, ou mesmo at√© por isso, suficientemente gente para terem reparado naquelas crias todas e atribuir a algumas uma nova miss√£o. Al√©m do mais, com o objetivo de salvar o mundo, divido como ele anda entre os maus e os bons, j√° que, os assim, assim, ser√£o, com toda a certeza parodiadores de romances alheios. Nessa altura, deve ter-se sentido mesmo como um marinheiro no alto mar que, da proa, conseguindo vislumbrar palmeiras numa ilha, pode em seguida gritar sem ter medo de enganar os companheiros: escritora √† vista!
A raiva dela assumiu um nome, cuja leitura, por extenso, era id√™ntica ao nome de um perigoso gangue, designado como Recolectores Ambidestros de Infus√Ķes Venenos e Ant√≠dotos, RAIVA. E, embora ela nunca tivesse atinado com siglas, desta vez sabia que a sua raiva iria projetar-se inteirinha nessa associa√ß√£o criminosa.
‚ąí N√£o faz mal ‚Äď ouvia-a dizer.
Fui trocando umas palavritas com ela, numa íntima conversa de filho para mãe, enquanto lhe ia afagando a cabeça. Gosto das minhas mães todas, tanto como gosto de todas as minhas mulheres. Até que ela reagiu com uma graça e relaxou completamente, ao som da minha famosa gargalhada.
Depois, disse-lhe eu, os senhores da editora, afirmo com toda a certeza, tinham adorado o livro. Eu que os senti debruçados sobre mim e sobre a Clara nas alturas em que ela, numa voz glicodoce, dizia amar-me como se ama um Deus, ou um santo, apesar de me ter colocado depois num patamar intermédio… Na hierarquia do céu, um anjo aparece acima de um santo, da perspetiva de cá de baixo e, amando um anjo, ela, quando ambos morrêssemos, apanhava boleia comigo para a eternidade, sem ter de passar pelo purgatório e, muito menos, pelo inferno. A Clara era doida por mim e tinha grande sentido de oportunidade…
A √ļnica coisa que a aborrecia eram os meus palavr√Ķes enquanto durava a, a, aquilo‚ĶDe facto, eles devia entrar pelos ouvidos de toda a gente, sempre √† escuta dos sons da minha casa. Talvez at√© com um funil encostado ao teto, ou ao soalho, conforme os casos, como se aquele pobre objeto pudesse funcionar como um telefone antes da famosa inven√ß√£o de Bell. Enfim, devia ser uma esp√©cie de masturba√ß√£o psicol√≥gica coletiva pelo pr√©dio todo √† conta de todas as ‚ÄúClaras‚ÄĚ que l√° iam, sempre com a minha angelical figura a orientar os trabalhos.
Ela, a Clara, nunca percebeu que no céu quase tudo é dito em parábolas. Muitas delas sobre o pão, sobretudo de farinha de trigo, mas também de milho.
Eu, para n√£o parecer pretensioso ‚ĒÄ Jesus Cristo √© quem costuma utilizar o trigo para as suas par√°bolas ‚ĒÄ passei a usar o milho quando falava com a rapariga na intimidade. √Č muito dif√≠cil expressar de viva voz os sentimentos de um anjo diferente dos outros e com um p√©nis no s√≠tio onde n√£o devia haver sexo nenhum. E as palavras do dicion√°rio s√£o demasiado eruditas para definir uma coisa t√£o simples como uma rela√ß√£o intima. Da√≠ eu dizer-lhe tantas vezes: ‚Äú√©s boa como o milho‚ÄĚ.
Foi por o livro ter um cunho t√£o er√≥tico ‚ąí digo eu, um anjo, depois de os sentir deleitados e a soltarem ais como se fossem eles ali comigo‚Ķ ‚ąí que o devoraram com a mesma avidez de quem come broa com azeitonas, presunto e vinho tinto, √† beira-rio, num solar do s√©culo XIX, existente ou inventado para satisfazer as necessidades de um livro escrito por gente chique ao servi√ßo da sua editora. Presumo at√© que, enquanto liam o manuscrito, os escritores ter√£o sentido necessidade de se levantar amiudadas vezes para ir, ou apanhar ar, ou beber um refrescante copo de √°gua. Foi o que fez o meu primeiro leitor, enquanto eu e a Clara est√°vamos nas nuvens, aos pulos na cama e leves como algod√£o, a gozar a vida, indiferentes aos pudicos e falsos ahs! de exclama√ß√£o dos pudicos leitores seguintes, os senhores que nos levaram para casa com o mesmo √† vontade com que se leva uma broa dura para servir depois como arma de um crime. Mas, est√° bem. Hitchcock, num filme, usou uma perna de carneiro congelada. E como ela soube bem a quem a comeu a seguir, assada no forno com batatas, arroz e esparregado. A cozinha √© uma grande arte, enquanto deglutir a cozinha √©, apenas, contra todos os eufemismos hor√°rios e lingu√≠sticos, comer, da mesma maneira que eu e a Clara nos com√≠amos um ao outro.
A minha criadora, quando, nas primeiras p√°ginas do livro roubado reconheceu os seus filhos, a pobre teve um verdadeiro baque. N√£o foi nada f√°cil ver-nos por a√≠ √† solta, a fazer mais do que ela nos havia mandado. E, al√©m de tudo, coisas bem mais graves‚Ķ Por isso √© bom a mam√£ n√£o sofrer ‚Äď ainda ‚Äď do cora√ß√£o. De outra forma, julgo que teria necessidade de ir consultar de imediato uma m√©dica com quem tamb√©m passei a limpo grandes apontamentos de anatomia, dito assim s√≥ para n√£o dizer que a comia do mesmo modo que comia a Clara.
Valeu-lhe, isso sim, gozar de boa sa√ļde e ainda o alento que lhe dei, juntamente com o pessoal do romance onde ainda sou C√©sar, tamb√©m conhecido por ‚Äúcara de anjo‚ÄĚ ou ‚ÄúMontanha Russa
Num pequenos ‚Äúpr√≥s e contras‚ÄĚ, todos cheg√°mos √† seguinte conclus√£o: os editores n√£o passam de uma esp√©cie de ma√ßons e cada vez menos aceitam iniciados capazes de atingirem a fase do avental‚Ķ Apesar de aproveitarem depois, dos an√≥nimos, as receitas b√≠blicas dos manuscritos para fazerem grandes cozinhados. Sobretudo de farinha de milho e de batatas, quando o pre√ßo do arroz atinge pre√ßos exorbitantes no mercado dos cereais e a gasolina se torna proibitiva aos dep√≥sitos de uma classe m√©dia em peso, a come√ßar a morrer de fome.
Durante a reunião, sem ela me cortar a palavra, fui mais longe. Disse-lhe eu, a gente dos livros e das revistas, mesmo que o meu enterro fosse a farsa que foi, não passava de xenófoba, uns falsos deuses com pés de barro, capazes de caírem se o tiro for certeiro. Bastava, para tanto, haver por aí uma pistoleira como a Lilicas. Eles morreriam mais depressa do que os cisnes do solar à beira-rio, quando um perigoso veneno atingiu as aves da terra, mas principalmente as do céu onde continuo a ter a minha costela de anjo.
Dei, depois, à mamã, como exemplo de santidade defeituosa, o facto de alguém em concreto ter ido buscar-me a um livro dela, uma ilustre desconhecida, e de me mudarem o nome, de César para Gabriel, embora me tivessem mantido a alcunha de anjo. Valha-nos ao menos isso! Não me despromoveram! Pelo contrário! Tornaram-me íntimo do Menino Jesus, e até saboreei as mesmas batatas que Ele comia em dias de milagre, já com garfos de cabo em pau como aqueles que a Dona Josefina levava na cesta da comida quando o meu pai andava com o meu padrinho a reerguer o campanário da igreja de uma aldeia inventada e com sete cabecinhas no nome.
Depois, ainda durante a conversa com a mam√£, passando em revista as grandes obras da literatura, todos conclu√≠mos que os senhores andavam com uma grande falha, por um lado, na imagina√ß√£o e, por outro, com uma tremenda falta de gosto. Entre tantos jovens belos da fic√ß√£o, logo me haviam de escolher a mim, um portugu√™s atirado para o lixo numa editora! Embora, ao que parece, pelo ‚Äúfalso‚ÄĚ resgate, a mesma editora tivesse experimentado uns pingos de remorso pela exposi√ß√£o e abandono da crian√ßa que eu era ent√£o. De contr√°rio, n√£o me teriam retirado do caixote, em detrimento, por exemplo, do jovem polaco de Gustav Aschenbach, que, em Veneza, encontrou a morte em parte por Gustav se ter apaixonado ainda que platonicamente pelo efebo. Os autores de agora, os que me meteram na pele de uma nova vida, poderiam ter usado o belo rapaz!... Mas devem ter pensado bem e provavelmente temeram ser acusados de pedofilia liter√°ria dada a tenra idade do mo√ßo. √Ä semelhan√ßa do pobre Gustav, tenho a certeza, os senhores, ao inv√©s de detestarem as personagens da hist√≥ria onde me chamava C√©sar, como pode parecer do livro que escreveram, apaixonaram-se por mim e pela Clara. A ponto de nos roubarem e de nos disfar√ßarem numa outra trama, em tudo semelhante √†quela de onde fomos arrancados. Talvez para pior, porque, segundo os pr√≥prios autores, ningu√©m sabe que romance √© aquele. Mas, ainda um dia algu√©m vai descobrir!.. Um iniciado, porventura, digo eu! Talvez algu√©m que tenha aprendido aramaico com o velho tio da Lilicas, a minha amante inventada por quem gosta de tramar novos romances a partir romances velhos, achados no lixo de uma editora,  aparentemente sem merecimento.

Continua

Leiam tamb√©m "O  Estranho Fasc√≠nio da Internet", mas este √© a pagar...
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outono


« Responder #6 em: Fevereiro 27, 2022, 23:29:46 »

A personagem nasce e renasce das cinzas como uma marionete, que foge ao seu criador?
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« Responder #7 em: Fevereiro 28, 2022, 00:52:07 »

Uma Fénix na verdade... Nação Valente

"César"
A Clara acaba de concordar comigo. Ou n√£o tenhamos, eu e ela, uma vis√£o perversa das coisas. As criaturas, diz a minha primeira amante, devem ter gozado fartissimamente, usando, entretanto, uns risos for√ßados para disfar√ßarem a excita√ß√£o. √Č sempre t√£o direta, a minha Clarinha‚Ķ
Acabei de me lembrar de um outro homem belo da literatura, o jovem Dorian Gray‚Ķ Para embelezar as paredes do velho solar que comprei quando ainda me chamava C√©sar, ou o outro da beira-rio, talvez o mesmo, j√° nem sei, bem poderiam ter ido buscar o retrato do rapaz. Depois da morte dele, do Dorian, e do pai, um Nobel, como toda a gente sabe, a pintura recuperou, com toda a certeza ‚ąí n√£o me lembro, tamb√©m tenho falhas de mem√≥ria‚Ķ‚ąí a juventude do retratado. Devia ficar bem pendurada na mans√£o, a eternizar a beleza perversa do mo√ßo enquanto este repousa no inferno, onde, espero, nunca me cruzar com ele. Mas, n√£o senhor! Preferiram usar a nossa paix√£o, a minha e a da Clara, igual a muitas que andam por a√≠ disfar√ßadas debaixo dos len√ß√≥is e na cama de cada um por esse mundo de Cristo. S√≥ para achincalhar uma escritora em embri√£o!
For falar Nele, foi num cristo que me tornei, ao longo de duzentas e tantas páginas de um livro. Um livro é sempre um bom lugar para personagens e para o verdadeiro Cristo também. Apesar de a bíblia ser o Seu livro por excelência. Além de tudo, o lugar das personagens é também no teatro e no cinema, onde, espero, e à dimensão que o meu caso tomou, ir lá parar também. Só a minha beleza enche o ecrã… Por isso foi bom ter sido escolhido para figurar num enredo de terceiros em que não faltam nem azeitonas, nem broa de milho, nem outros condimentos. Deixo assim de ser um português anónimo no mundo, juntamente com a Clara quando ela ainda se chamava assim. Embora, depois, para contrastar com o anjo, o seu Gabriel recente, o livro do pão de milho a tenha mascarado de Lilicas, a serpente, e de Sarinha, dois bíblicos seres e um deles, ao que se sabe agora, mais ou menos assexuado. Tudo por causa do ditado quanto ao sexo dos anjos. Ou então em virtude da loucura dos novos tempos, em que já quase nada deve espantar. Nem o facto de veteranos se debruçarem sobre a escrita de gente desconhecida no mundo do faz de conta e de lhe beberem o sumo.
Ainda bem que fui escolhido ‚Äď insisto, perdoem-me a vaidade ‚Äď. Esta distin√ß√£o pode ter sido mesmo o sal que faltava para a minha criadora engendrar uma nova receita de batatas recheadas √† Maria Madalena da B√≠blia em virtude da minha ascend√™ncia no c√©u. O c√©u √© a minha morada de elei√ß√£o.
Às vezes peço à mamã perna de carneiro à Hitchcock, mas ela diz-me que só vai fazer esse cozinhado no tempo de Gabriel a tempo inteiro. Tenho, por isso, de esperar…
Por agora, ando aqui a saltar de um nome para o outro, como se estivesse a jogar a macaca, enquanto aguardo a fogueira em que alguém se há de abrasar. Nessa altura será o fim do mundo para várias pessoas, o apocalipse prometido por Jesus para o final dos tempos. Não digam a ninguém para não haver chiliques, mas a minha fonte é fidedigna.
A ‚Äúm√£e‚ÄĚ - devia tirar-lhes as asmas mas agora fica assim - acaba de dizer que todo o homem √© perverso. Mesmo os feios. Os escritores tamb√©m n√£o escapam √† regra. S√£o, qui√ß√°, de entre todos os perversos, as criaturas mais perversas da humanidade, se ressalvarmos a realidade. Ela, a minha criadora, n√£o conhece pervers√£o maior do que os escritores, quando fazem gato-sapato das suas personagens. Foi o que ela me disse, e √© tamb√©m o que sinto. Eu que tanto sou gato como a seguir j√° sou sapato e tanto posso ser de salto alto como raso dependendo de quem me cal√ßar, mulher ou homem.
Indo um pouco lá atrás, ao três em um e à publicação da minha vida enquanto era César, seria um golpe editorial fantástico. De uma cajadada matavam-se, não um, não dois, mas três coelhos, cada um maior do que o outro. A César o que é de César como diz o ditado ou, simplesmente, suum cuique.
Apesar de continuar com a pertin√™ncia dos meus reparos: a coisa, como a minha criadora a colocou, de facto n√£o tinha grande l√≥gica. E √© por isso que ela agora me permite esta ajuda prestimosa, para ver se tudo entra nos eixos. Talvez a mam√£ venha a passar, com um √ļnico livro, directamente do anonimato para a antec√Ęmara de um Nobel, coisa que ningu√©m da RAIVA conseguiu.
J√° agora, sujeitando-me a levar um corte e soltando a minha gargalhada √ļnica, aquela ideia de a Clara meter um fato de Pr√≠ncipe de Gales num saco e de o jogar na campa do seu querido morto √© uma cena surrealista do melhor! S√≥ da cabe√ßa de um cineasta m√≥rbido podia sair tal coisa. E da tola da mam√£ tamb√©m, claro, a quem a imagina√ß√£o nunca faltou. Oportunidade de a mostrar √© que ela n√£o teve ainda. Mas, l√° h√°-de vir o tempo‚ĶA hist√≥ria do fato na sepultura de um falso morto √© mesmo de ir √†s l√°grimas. Sem falar no dinheiro que a rapariga, se tudo fosse verdade, gastaria. A chafarica onde seleccionava candidatos a emprego n√£o devia render-lhe assim tanto para ela desperdi√ßar com cen√°rios a pender para o melodrama. Al√©m de ter ainda de repartir os lucros com o s√≥cio e pagar, nos √ļltimos tempos, √† Isabel, uma vez que a tonta da S√≥nia foi, segundo ela veio a saber mais tarde, trabalhar para o Minist√©rio da Agricultura, onde, poucos anos depois, havia gente excedent√°ria.
Tenho sido uma personagem atreita a muitas bolandas: fui para √Āfrica mal nasci, quando ainda me chamava C√©sar, embora um dia tenha dito √† Lilicas, √† minha pequena cascavel e um desdobramento de Clara, que os meus velhos tinham esperado pela minha quarta classe para irem para Angola j√° com um rapaz letrado na bagagem. D√°-me um certo gozo pregar umas mentiras. √Č como espetar paus cegos de plantas num canteiro e esperar o nascimento das flores, rosas de prefer√™ncia, de que gosto especialmente. Sempre fiz isso com as mulheres, embora a minha t√°ctica favorita seja a reserva mental. O sil√™ncio √© o melhor conselheiro. Sobretudo para um homem cuja vida foi sempre um embuste. Eu Gabriel me confesso.
Regress√°mos de √Āfrica passados dois anos. A Dona Josefina, nessa altura, j√° trazia mais uma crian√ßa a quem limpar o ranho do nariz e mudar as fraldas. A minha irm√£ nasceu em Angola, igualmente de l√°bios finos como eu, os mesmos com que, espero, venha a morrer, j√° que os meus verdadeiros l√°bios foram depois objecto de implanta√ß√£o de silicone por fetiche n√£o sei de que pessoa, certamente desejosa de beijar uma boca carnuda como √© agora a minha.
Para n√£o ter de meter mais uma vez a m√£o neste ramo da fam√≠lia, aproveito para dizer o seguinte: a minha irm√£ a seguir a mim vive nos Estados Unidos com um senhor muito mais velho mas cheio de d√≥lares‚Ķ E, ela sim, √© t√£o parecida comigo que mais parece a minha fotoc√≥pia. A Lilicas ‚Äď h√£o de conhecer a Lilicas - comparada com ela, √© uma aprendiza de ninfoman√≠aca. Se eu sou anjo, a minha mana √©, no m√≠nimo, uma Deusa e o nome de Afrodite assentar-lhe-ia bem. Nunca apareceu muito na outra literatura onde eu era C√©sar, e, por isso, nesta fico por aqui, sem me dar ao trabalho de lhe dar um nome.
Quanto aos lugares onde a minha vida de personagem decorre, tamb√©m n√£o me vou preocupar com esses detalhes. Ser gente assim, gente de livro, de romance, implica ter o dom da ubiquidade. Tanto se pode ser ou estar em Gesta de Oviedo, como em Madrid, como na Brandoa, ou at√© em Macleeldfids. Os s√≠tios, as paisagens, s√£o, sobretudo, importantes para filmes, onde eu, se calhar, nunca serei personagem. Mas, j√° n√£o digo nada! ‚Ķ Ao que me tem acontecido, sou bem capaz, no m√≠nimo, de aparecer num an√ļncio de televis√£o com uma pequena deixa assim do g√©nero, ‚Äúgosto de dinheiro, tenho 33 anos, sou anjo, ressono e cozinho‚Ķ‚ÄĚ,  e por a√≠ adiante. E, ainda a prop√≥sito do anonimato do s√≠tio onde, em caso eventual fic√ß√£o cinematogr√°fica, a placa da entrada para a aldeia das filmagens diria tudo, sem serem necess√°rias grandes palavras. Se na tela aparecesse ‚Äú Aldeia as Sete Cabecinhas‚ÄĚ toda agente saberia onde tinha nascido e haveria de querer, certamente, ir ver o campan√°rio da igreja que o meu pai ajudou a restaurar com o mestre-de-obras, o meu padrinho. Os visitantes deveriam imaginar logo a cestinha de verga em que a minha m√£e biol√≥gica levava as favas com chouri√ßo ao meu pai, sem esquecer o acto carnal entre ambos de que resultou este anjo, agora com o nome de Gabriel. Todos gostariam de me situar in loco. √Ä fic√ß√£o tudo √© permitido. At√© arranjar um ciclone para derrubar sinos de uma aldeia inventada, tal como engendrar o n√ļmero 204 dos Campos El√≠sios onde Jacinto morria de t√©dio antes de conhecer Tormes e a sua querida Joana.
√Č por tudo isto que vou omitir o lugar onde vim ao mundo. Mas, para j√°, como tudo me est√° a dar um certo gozo, permito-me continuar a pensar como um cin√©filo. Se o filme da minha vida focasse muito a montra de uma pastelaria e uns papos de anjo, ou umas barrigas de freira, era quase certo que por ali haveria um convento, provavelmente em desuso. Ainda, s√≥ para acabar esta incurs√£o por cen√°rios poss√≠veis para o meu drama, se resolvessem retrat√°-lo √† beira de um grande lago em que se visse dentro uma massa volumosa a mexer-se astutamente, nesse caso seria √≥bvio que a ac√ß√£o decorrera em Loch Ness e ter-se-ia ent√£o desvendado um mist√©rio que h√° s√©culos alimenta no m√≠nimo a√≠ umas sete ou oito cabecinhas fascinadas por monstros e serpentes b√≠blicas mas tamb√©m com um gosto especial por broa.
Quando regress√°mos l√° de longe, de √Āfrica, j√° os velhos andavam de candeias √†s avessas, sem hip√≥teses de se alumiarem um ao outro de novo. Foi nessa altura que a minha m√£e come√ßou com desvarios matrimoniais. A ponto de a minha irm√£ mais nova n√£o saber quem √© o pai, embora no BI l√° conste um nome que ela n√£o tem muita vontade de saber se √© ou n√£o o que devia l√° estar. Por tudo isso, quando a Clara, ainda muito Clarinha, me perguntou se tinha irm√£s, lhe disse que tinha duas, mais velhas. J√° devem estar a imaginar porqu√™: tendo elas nascido antes de mim, a minha m√£e n√£o teria, sequer, ido para Fran√ßa nem abandonado o meu pai, e, muito menos, teria cometido aquele sacril√©gio voluptuoso de que resultou a minha segunda irm√£. Com o meu embuste, tudo se tornava leg√≠timo e eu seria o pr√≠ncipe aristocr√°tico dono de um castelo em Paris, como a Clara, logo no in√≠cio dos nossos encontros, idealizou e a minha cabe√ßa loura e linda se instalou, ao menos imaginariamente.
Ai, ai, como me lembro ainda do dia em que a minha mãe foi para Paris…
Mas, cavando mais um pouco na minha vida, muito l√° atr√°s, ainda rapazito de chupeta e com cara de Menino Jesus, tive, n√£o um, mas dois desgostos:
Por um lado, o meu pai regressou à terra dele e às obras, e a minha mãe, passado pouco tempo, resolveu de facto ir para França. Foi a salto, trabalhar para a casa de uma francesa, como outrora tinha feito com os ricaços da terra no solar do alpendre com ameias, onde ela e o meu progenitor se encontravam às escondidas nos bons velhos tempos. O meu segundo desgosto foi o facto de a Dona Josefina ter levado a filha deixando-me a mim aos cuidados dos meus tios maternos a engolir as lágrimas da saudade. Deixei de chorar, provavelmente, nessa altura. Se é que algum dia chorei!… Dizem que sou frio como um icebergue. A excepção à minha frieza é a cama, o meu e o inferno dos outros. Lá tudo é calor. E quem quiser experimentar o meu fogo é apresentar-se em minha casa. Não vale a pena morrer de curiosidade por uma coisa tão simples como um coito comigo. Sobretudo alguém que se sinta em dias de muito coitado. Ou coitadinho, que vai dar no mesmo…Durante muito tempo não perdoei à minha mãe não me ter levado com ela. Mas, depois, amoleci. Gabriel e anjo, por um lado, por outro não passo de um homem, e, para complicar mais as coisas, sou uma personagem de ficção.
Chegou tamb√©m o momento de enfrentar o Senhor Freud mais o Complexo de √Čdipo, o filho dele, ao lado da filha j√° crescida, a Dona Psican√°lise. O rapaz, o √Čdipo, queria, ent√£o, como toda a gente sabe, matar o pai para casar com a m√£e, por quem nutria um amor profundo, fosse ou n√£o ela um traste. Isso n√£o sei. N√£o gosto de aprofundar as coisas. Sobretudo se meterem sexo. O sexo √© para ser exercitado, a vivo e a cores, vermelho e garrido, com serpentes como a Clara e a Lilicas, porque a Sarita ‚Äď h√£o-de conhec√™-las melhor a todas ‚Äď √†s vezes aparenta ser um pouco assexuada -. √Č o que dizem dela cr√≠ticos famosos do mundo da fantasia e da palha√ßada. Mas, talvez nem tanto ao mar nem tanto √† terra. Vamos ver o que nos reservar√° o futuro‚Ķ J√° pensar ‚Äď acho eu - agilizar a mente com coisas filos√≥ficas, al√©m de ser uma ma√ßada, pode engordar-nos e deixar-nos redondos como ton√©is para quem nenhuma mulher, ainda que b√™beda olhar√°. E eu, C√©sar ou Gabriel, n√£o quero perder este corpo esbelto com que fui aben√ßoado de maneira nenhuma. Se Deus,  e o L√ļcifer, com quem a minha criadora, em meu nome, estabeleceu um pacto que me tem simultaneamente como v√≠tima e algoz,  quiser, ainda hei-de provocar por a√≠ muitos gemidos de prazer.
Um dia, depois de estar bem de vida, comprei um grande solar. E uma das raz√Ķes porque o adquiri foi para instalar l√° a minha m√£e quando regressasse de Fran√ßa reformada. A outra prendeu-se com o facto de pretender, no quarto que d√° para o alpendre, o dela antigamente, montar um laborat√≥rio fotogr√°fico onde pudesse sobretudo dedicar-me √† fotografia de auras. O mundo da transcend√™ncia sempre me fascinou. Nisso sou verdadeiramente a alma g√©mea de Clara‚Ķ Era uma ideia de quando a fotografia era para mim um hobby, e que, por exig√™ncias editoriais, se acentuou quando me tornaram fot√≥grafo profissional com a incumb√™ncia personalizada de fotografar tesouros antigos para clientes finos de Cascais.
Freud tem mesmo razão: um homem, ainda que personagem de livro, nunca sai das saias da mãe e, mesmo aqui, quando deveria ser uma personagem autónoma, tenho de a trazer atrás como o meu atrelado perpétuo.
A seguir à ida dela para França, fui, mais os meus caracóis louros caídos sobre os ombros, viver com os meus tios maternos, cheio de vergonha por quase ter sido abandonado pela Dona Josefina.
Ela, coitada, mandava francos suficientes para eu, já crescido, estudar na cidade mais próxima. E isso foi coisa que a minha mana ninfomaníaca americana nunca me perdoou. Sempre que pode, atira-me à cara o facto de ter sido obrigada, desde a saída da escola, aos onze anos, em França, a lavar escadas e coisas assim, enquanto eu andava aqui no bem bom a passear os livros de comércio. As contas deviam ser o meu futuro.
Costumo responder-lhe que, sobre mim, ela tem pelo menos uma vantagem: para além de ter podido mamar até quando lhe apeteceu sem precisar de chupeta, fala melhor o francês. Apesar de eu também lhe dar um jeito… Em qualquer revista nessa língua que me chegue à mão, não há palavra, por mais calão que seja, da qual não saiba o significado. Aprendi o léxico menos ortodoxo através de banda desenhada pornográfica francesa. Tenho, até, alguns exemplares em casa. Além do mais, a mana vive lá nas Américas com um homem rico, e eu, por muitos golpes que tenha dado, não enriqueci coisa nenhuma.
Depois, como consta nas minhas mem√≥rias de papel pardo, quando tentava agarrar a √ļltima hip√≥tese de me tornar num escritor famoso, apesar de morto ou em vias disso, mal acabei o curso de com√©rcio fui para uma outra cidade, onde me hospedei, segundo a minha inventora, na casa de uma mulher gorda e ruiva. Tamb√©m ela n√£o resistiu aos meus encantos de Ad√≥nis, tendo os dois protagonizado entretanto verdadeiras cenas pornogr√°ficas na minha primeira trilha liter√°ria.
N√£o sei se foi bem assim!... Mas, como n√£o passo de personagem de romance, tenho de assumir todas as orgias em que ela me queira meter. Embora, desta vez, a mam√£ esteja um bocado condescendente aceitando at√© algumas contraditas da minha parte. Como, por exemplo, a hist√≥ria da criada dos Sequeiras, quando, por causa das rendas e do tric√ī, alegadamente a rapariga me chamava para o quarto a fim de a ajudar a dobar as meadas e fazer mais umas quantas coisas proibidas entre uma mulher feita e um rapazito expedito. Essa hist√≥ria, juro, sobre a B√≠blia se for preciso, √© de outra pessoa. Ela colocou-a √†s minhas costas porque era a √ļnica possibilidade de tudo ser desmistificada. Nem s√≥ os homens s√£o ped√≥filos. As mulheres tamb√©m. E ent√£o entre criadas e filhos de patr√Ķes, no s√©culo passado, era o prato do dia. Todavia as coisas n√£o eram t√£o valorizadas como hoje. Dava-se uma boa reprimenda √† f√™mea, ainda sem par e, quando ela, da√≠ a pouco, arranjasse namorado, ficava tudo sanado no dia do casamento. O resto era com Deus e com a habilidade do marido, ou de terceiros quisesse o acaso‚Ķ√Č √≥bvio que coisas assim n√£o faziam parte da literatura da √©poca, permanecendo at√© h√° bem pouco tempo na categoria do tabu, um tabu que s√≥ foi quebrado a partir da inven√ß√£o dos jornalistas e de escritores como a nossa m√£e.
Ela, a mam√£, f√£ de um realismo que nenhum E√ßa de Queiroz suplantaria, p√īs tudo √†s claras no outro livro onde me chamo C√©sar e a minha parceira d√° pelo nome de Clara.
Devo confessar, às vezes sinto-me perdido… Não sei se sou César, se Gabriel, anjo num caso e noutro, mas, por outro lado, um demónio, quiçá inspiração do próprio Dan Brown no livro em que entidades das duas espécies aparecem lado a lado, provavelmente para atazanar a alma de alguém. Por aqui não sabemos. Não nos demos ao trabalho de ler o livro. Não gostamos dessa literatura, é demasiado fórmica. Já passámos essa fase. Apesar de nos terem emprestado uma outra codificação do escritor para lermos alguns artigos. Sobretudo eu, enquanto César, que, como é sabido, até pelas mais altas figuras da política, andei a cursar direito na capital e fui mesmo chamado de doutor.
Depois, como vi que era um livro sem sexo ‚Äď nem um beijo na testa, sequer, havia‚Ķ ‚Äď rapidamente o pus de lado, aguardando calmamente at√© surgir uma obra do mesmo g√©nero escrita ao jeito de m√ļsica, como sete notas harmoniosas nas m√£os de outros tantos tocadores. O sete √©, de facto, um n√ļmero m√°gico: a semana tem sete dias, sete √© a conta dos mentirosos e sete cabecinhas √© o nome de uma Nossa Senhora que todos os anos tem direito a uma festa em Agosto numa aldeia perdida junto com as botas de Judas, o traidor, mas, mesmo assim, amado por Jesus como todos os outros ap√≥stolos.
Mas agora, como est√° bastante calor, vou de f√©rias e deixo a prosa entregue √† Clara, Lilicas se preferirem, ou Sarita. Elas que decidam em que livros querem ser personagens, n√£o sei qu√™, n√£o sei que mais. Prontos! Vou veranear com a toalha de praia em que um dia se sentou uma rapariga distra√≠da com prefer√™ncia pelo encarnado. Confundiu a dela com a minha, uma toalha vermelha e uma cor de que eu gosto muito. √Č a cor do pecado.

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« Responder #8 em: Mar√ßo 03, 2022, 15:04:17 »

Este personagem com heterónimos como Fernando Pessoa, parece obcecado por sexo. Nem uma uma luzinha de amor platónico.
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« Responder #9 em: Mar√ßo 03, 2022, 23:05:55 »

Esta personagem vai descansar um momento depois da  sua primeira grande estopada liter√°ria...

Continuação

‚Čą
Clara

Agora é a minha vez e não sei por onde hei-de começar.
Sinto-me uma loura-burra, ou uma morena est√ļpida e t√£o confusa como o C√©sar, ou Gabriel, o meu querido anjo.
Quase nem sei quem sou. Talvez uma depravada sem vergonha, que sei eu? O juízo, como dizem de mim, não é o meu forte. Chamam-me a bíblica doidivanas
Acho, contudo, que devo continuar como o mesmo estilo na escrita: primeira pessoa, isso imprime uma maior veracidade à história. Meter um terceiro na nossa vida, intimíssima como é a minha e a do César, além de nos poder colocar em maus lençóis se esse terceiro for linguarudo, está completamente demodé.
Na minha outra existência de personagem, a mamã deu-me pais, já falecidos ao tempo, irmãos, um tio e uma tia idosos a viveram numa aldeia e a tratar da hortaliça. Era de onde trazia castanhas, nuns cestos de verga devolvidos cheios de nada como a verdadeira forreta que sou…
Desculpem-me a mania das grandezas e o décor para me desfazer num cemitério de um fato Príncipe de Gales comprado para o meu anjo num dia de loucura. Mas teve um bom efeito cénico, não teve?! Coitados dos pobrezinhos! Não me lembrei deles… Que figurão não faria um deles se vestisse o fato num dia em que a sopa dos pobres fosse rancho melhorado! E como pude ser tão peçonhenta com o meu anjo! Nem um fato inventado para decoração de uma história quis ter lá em casa para recordação!
Pois, nesta minha nova reencarnação literária, vou continuar a viver a mesma agitação de sempre! Ou não me chame Clara e tenha sido arrancada à força das páginas do livro onde fui gerada para me transformar, a seguir, numa diabólica Lilicas e trazer para este paraíso terrestre a inovação do sadomasoquismo! Não se espantem. Sou a mesma víbora da tentação, a que se escondeu na maçã ou se enrolou na macieira, tanto faz, para dar cabo da existência do pobre Gabriel. Em cada Gabriel, ou César, dos muitos que há por aí, há sempre um Adão escondido, não duvidem.
A m√£e, desta vez, confirma-me que me vai transformar numa serpentezinha surgida debaixo de uma pedra, juntamente com uma lagartixa com quem ainda hei-de andar em bolandas.
Nasci já crescida, esbelta e airosa, ou melhor, nem nasci. Sou apenas fruto de imaginação delirante e talhada para cometer diabruras, depois de me derreter nos braços do Gabriel, arrebatando-me em sucessivas mortes de prazer. Ainda hei-de dar muito que falar…
Por esta hora, deviam ser seis da tarde de uma segunda-feira e eu deveria estar algures num sem√°foro, a olh√°-lo como se ele fosse um fetiche e a ser hipnotizada pelo vermelho, no meio de um tr√Ęnsito infernal e ao som de impacientes buzinadelas.
Confesso a minha distrac√ß√£o. Foi por causa da automobilista do lado, que acabou por espatifar o carro nas traseiras de uma camioneta de grelos por andar ainda mais distra√≠da do que eu. Pelos vistos o marido, por quem a senhora √© profundamente apaixonada e que √© um mulherengo, embora ela n√£o saiba, est√° muito mal por causa de uma palidez cuja origem, segundo as √ļltimas opini√Ķes cl√≠nicas, √© uma h√©rnia discal. O vermelho provoca-me sempre grande excita√ß√£o. Ainda h√£o-de saber porqu√™, embora o meu anjo j√° tenha dado umas pinceladas na trama que nos envolve. A ponto de toda a gente nos conhecer j√° pelos loucos do sexo, mentiras e livros. No dia do acidente com a camioneta dos grelos, eu andava um bocado sem sal nem azeite‚Ķ E, para acalmar esse esp√≠rito insosso da altura, tinha ido √† pastelaria da esquina tomar uma bica e comer um papo de anjo. Sempre tive alguns cuidados com a linha‚Ķ, mas, nesse dia, o corpo estava-me a pedi-las‚Ķ E eu, miseravelmente, entreguei-me inteira ao a√ß√ļcar. Era para compensar uma √©poca de algum jejum. Estava a chegar o fim das f√©rias e lambuzei-me com o bolo. Nessa altura, vivia uma verdadeira crise de abstin√™ncia em todos os sentidos e tinha de me autocompensar de qualquer maneira. 
Depois, como sou doida por peixe, iria grelhar uma dourada com batatas a murro ‚ąí prefiro estas porque as recheadas, √†s vezes, t√™m dentro carne milenar, talvez s√≥ centen√°ria por causa de Colombo ‚ąí com molho de alho e uns grelos que a minha tia me dera na v√©spera quando a fui visitar na aldeia onde vive, que agora vai ficar sem nome. A minha criadora, tal como fez com C√©sar, desta vez quer-nos a todos cidad√£os do mundo, qui√ß√° do espa√ßo sideral, da Lua, sobretudo. Por isso, nada de nomes, nada de s√≠tios onde algu√©m possa esgaravatar para conhecer a perversa Clara (era melhor confirmar se ainda o sou mas n√£o tenho tempo de ir l√° atr√°s‚Ķ) e o anjinho do Gabriel antes de nos transformarmos em carne para canh√£o ou s√≥ para batatas recheadas.
Depois de comer, iria ler, na cama, um livro sobre Deus. Nesse tempo andava com o misticismo à flor da pele, e juro que fiquei admirada por a escritora, num livro daqueles, ter escrito, com todas as letras, a palavra pénis. Ou se calhar já sou eu a misturar as personagens… Mas ninguém deve sentir-se aborrecido com isso. Pois se nem nós, mais amassados do que broa em masseira gigante, nos aborrecemos, por que haveria alguém de se sentir incomodado com esta pequena confusão entre gente de papel? Eram os meus planos para a noite. Comer peixe, cama e dormir ressonando toda a noite. Só muito recentemente soube disso, que passara de arpa a trombone de um dia para o outro… Mas quis o acaso que o raio do telefone desatasse a tocar insistentemente, às mãos da Carolina, a primeira Woman in red que conheci a Gabriel, vindo ela com a novidade de o César ter morrido, para meu espanto, depois de tantas vezes eu o ter achado, primeiro um anjo e depois um demónio, e que, pela respectiva natureza de um e de outro, ambos seriam absolutamente imortais.
A m√£e est√° a dizer-me para n√£o ir por aqui. O C√©sar, o Gabriel, ou seja qual for o nome dele agora depois de se escapulir √† for√ßa do primeiro livro, j√° p√īs as cartas na mesa. A ponto de toda a gente me julgar uma embusteira com voca√ß√£o de assassina por ter dado sumi√ßo numa criatura t√£o angelical.
Se é assim, respondo-lhe, foi por ela me meter naquelas andanças, a fazer figuras tristes no cemitério juntamente com as ex todas do César, a servir de alcoviteira com papéis de um lado para o outro a fim de os entregar à Patrícia, a legítima, embora também já ex quando a nossa criadora se propunha contribuir para o nascimento de um escritor póstumo.
Se j√° fui desmascarada, n√£o me resta outra alternativa sen√£o contar toda a verdade, ou n√£o tivesse vindo aterrar num outro livro, com um p√© na b√≠blia e outro no Cor√£o, ou at√© mesmo no Talmude‚Ķ Nesta √ļltima hip√≥tese, deve ter sido por ter andado durante um tempo em Oxford ‚Äď era Cambridge, n√£o era Oxford ‚Äď com uma rapariga a quem, depois, arranjei um emprego numa empresa. Foi quando fiquei a arranhar a l√≠ngua de Maom√©, em Cambridge. J√° a l√≠ngua de Jesus Cristo era especialidade do meu tio-av√ī, que nasceu depois de mim no outro livro onde passei a motorista dele, por, alegadamente, o velho ter ficado sem carta ap√≥s ter entrado numa auto-estrada em contram√£o.
Ainda eu era Clarinha, um Jo√£o Semana meu amigo, sabendo das minhas atrocidades matrimoniais ‚Äď tinha sido casada com um gay encapuzado ‚Äď queria, √† fina for√ßa, consorciar-me de novo. Mas, dessa vez - dizia ele - com um verdadeiro garanh√£o, capaz de satisfazer os meus l√ļbricos apetites de ninfoman√≠aca desvairada e sempre √† procura de aventuras.
Nessa altura, confesso, ainda n√£o sonhava vir a ter nenhuns conhecimentos da cultura ar√°bica. S√≥ conhecia a goma de engomar as rendas das senhoras e os colarinhos das camisas dos homens, que, a mim, em boa verdade, n√£o me competia passar. A minha voca√ß√£o nunca foi, nem o ferro nem a cozinha. A cama √© o meu destino. √Č tudo para n√£o quebrar o bico das unhas, √†s vezes parecidas com garras.
Um dia, o rapaz, o meu amigo ‚Äď mais outro sem nome ‚Äď convidou-me para um concerto numa funda√ß√£o de numism√°tica e apresentou-me o C√©sar. Era o senhor doutor e, ao mesmo tempo, o director da funda√ß√£o, ali de abra√ßo com um maestro suado de esfor√ßo e que acabara de nos dar, aos ouvidos e aos m√ļsculos, numa fant√°stica orquestra√ß√£o, aquelas m√ļsicas maravilhosas de Haydn, Carl Stamitz e Antonin Dvorak.
Nesse dia nem sequer fixei o nome da personagem que mais tarde haveria de contracenar comigo nos lupanares da literatura, visto que nasci com vocação de rapariga erótica…

Continua

(leiam também O Estranho Fascínio da Internet) mas este é para comprar...Será que valho a pena? Vá lá...
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outono


« Responder #10 em: Mar√ßo 07, 2022, 21:39:01 »

Ser√° mesmo Clara ou ser√° escura?
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« Responder #11 em: Mar√ßo 07, 2022, 23:39:22 »

√Č mesmo Clara, Clarinha....
continuação

Nesse dia nem sequer fixei o nome da personagem que, mais tarde, haveria de contracenar comigo nos lupanares da literatura, visto que nasci com vocação de rapariga erótica…
Quando vi Gabriel, ainda ele era César, não posso dizer que tenha ficado aparvalhada. Aliás, não fosse o caso de a minha natureza erótica me pregar uma partida e fazer-me cair logo ali aos pés dele, tratei de o "casar" com uma estrela de telenovela, e de lhe arranjar um ninho de pintos lindos como ele. Meti, antes de mais, um bom travão no andamento, sem sequer ter metido a primeira, como convém a uma boa motorista perante um tão portentoso precipício.
Por isso, só depois, durante os 4230 minutos de vida em comum no total, mais ou menos, é que ele passou, primeiro pela hierarquia da santidade sendo a seguir promovido a anjo.
Posteriormente fiz-lhe a vida num inferno…
Mas ainda é cedo para estender aqui a folha de serviços que a Lilicas, a venosa serpente, veio a prestar a eito no romance onde a meteram à pressão e a catorze mãos, quando ela já estava farta de todas as aventuras com o seu anjinho, na pele de Clara e na primeira aventura literária.
O meu amigo Y, passados uns dias do concerto, ligou-me numa altura em que eu n√£o estava e deixou, √† tonta da S√≥nia, a rapariga que foi trabalhar para o Minist√©rio da Agricultura ‚Äď ou teria sido √† Isabel? - um recado e um n√ļmero de telefone para eu ligar. Era da parte de Y ‚Äď disse ela ‚Äď √Č para falar com X, neste caso, o doutor C√©sar Augusto, o senhor do n√ļmero.
Fiquei na mesma. Não me soava a nada. O nome, se alguma coisa deixou no meu ouvido, foi apenas curiosidade e a leve suspeita, depois de alguns segundos de reflexão, de que, em vez de estar perante a figura de um imperador romano, poderia dentro em breve ter de enfrentar uma criatura celestial e com grande influência no paraíso.
Obtive a confirmação do que pensara através do mesmo Y, a quem liguei na primeira oportunidade.
Era, de facto, o rapaz da funda√ß√£o, livre como uma gaivota, depois de ter sido casado e de j√° ter feito parte da obriga√ß√£o de um homem no que diz respeito a ter pelo menos um filho. Tinha dois, um rapaz e uma rapariga. A √°rvore veria depois se j√° a tinha plantado, embora em breve chegasse √† conclus√£o que nem uma simples t√ļlipa ele tinha lan√ßado num canteiro de flores‚Ķ
Quanto ao livro, toda a gente sabe que foi um embuste da autora, e que o meu anjo se havia limitado a uns pequenos rabiscos nos guardanapos de papel nas esplanadas quando passava tardes inteiras no engate.
‚ąí Est√° bem, est√°! ‚Äď pensei com os meus bot√Ķes. Era, ent√£o, a Clara t√≠mida e burra, n√£o sei se loura ou morena, e pensei que talvez me fosse meter no meio de um tsunami. Mas, que diabo! E chamei por ele, pelo diabo do meu anjo.
Mais tarde, noutro romance, viemos a saber, eu e ele, que o meu anjo se chamava Gabriel e que ambos padecíamos de uma doença chamada Doença das Almas Gémeas.
N√£o demorei muito a encontrar um pretexto para lhe cair nos bra√ßos e na cama, embora aqui esteja a fingir a Lilicas,  que ainda n√£o era,  e a Clara que nunca pus a hip√≥tese de deixar de ser. Prostrei-me ent√£o em frente dele, cheia de charme. Tinha um pretexto na manga, ou melhor, tr√™s: a missa do s√©timo dia de um amigo e o curr√≠culo de uma rapariga que n√£o conseguia arranjar emprego. A √ļltima desculpa era o facto de, a seguir √† visita, ter de lhe pedir mesmo uma falsa desculpa pela falsa ousadia de o incomodar.
E ele disse ‚Äď n√£o hesite ‚Äď venha sempre. Vamos ao cinema.
E eu, uns dias depois, mandei-lhe o curriculum da rapariga que não conseguia arranjar emprego. Se nessa altura soubesse o quanto ia amar o meu anjo tinha levado de imediato as credenciais da moça ao ministério para onde a Sónia foi depois trabalhar.
Ligou-me de seguida, atencioso como um aristocrata franc√™s, apesar de o sotaque dele n√£o lhe atribuir muito essa origem. Fal√°mos de coisas interessantes pela primeira e √ļltima vez, e todo o falso que depois foi nessa altura era verdadeiro. Foi fulminante, t√≠pico de uma morena disfar√ßada de loura para fingir que √© burra e representar bem o seu papel. Amei-o com todas as letras dos abeced√°rios de todo o mundo. Incluindo o √°rabe e o gestual.
A mam√£ est√° a dizer que gostou destes √ļltimos trocadilhos e deixa-me prosseguir. Sou a Clara mas at√© ela pr√≥pria j√° vislumbra em mim a serpente que, daqui a nada, vai estar na casa de C√©sar, enroscada num sof√° individual, a mirar umas fotografias colocadas sobre uma mesa perto de umas estantes, que eu, Clara e personagem de romance, vou admirar dizendo a C√©sar que os filhos s√£o lindos, enquanto o tio de Lilicas vai exclamar, entre outras coisas da exclama√ß√£o: que maravilha!, mirando os livros nas prateleiras.
A mam√£ n√£o gosta muito da arruma√ß√£o desta casa. Al√©m de ter sof√°s e fotografias a mais, tem uma mesa particularmente mal colocada e diz tamb√©m que, ou √© da vista dela ou ainda algu√©m vai aqui esmurrar ali as pernas. Queira Deus que as les√Ķes n√£o se fiquem por aqui‚Ķ
O tio do meu outro eu, quer dizer, da Lilicas,  continua a espiar a soberba biblioteca de C√©sar, o meu anjo, dando de frente com Jorge Lu√≠s Borges em espanhol. O velho fica t√£o deslumbrado quanto Clara, eu pr√≥pria, e pensa intimamente na cultura de Gabriel. ‚ÄúAt√© l√™ em espanhol‚ÄĚ.
Quer eu, quer ele, de momento ainda n√£o sabemos que o escritor e a sua colec√ß√£o vieram de uma editora em Fran√ßa, onde a irm√£ mais nova de C√©sar, aquela que n√£o sabe quem √© o pai, trabalhou, oferecendo-lhe depois toda a obra. E o que igualmente nenhum de n√≥s sabe √© que a colec√ß√£o tem um particular√≠ssimo defeito: o gato da editora, o Ren√©, um puro-sangue persa de p√™lo longo, costumava ir para a oficina dos livros encarrapitar-se neles quando estavam empilhados. √Äs vezes n√£o conseguia descer e tinham de o ir buscar, depois de pungentes miadelas no topo de toda aquela literatura condensada em milhares de p√°ginas. Um dia passou demasiado tempo em cima da rima de Borges fazendo nela uma monumental urinadela, que a inundou de cima a baixo. E nunca dela saiu aquele cheiro a amon√≠aco que, junto com outro composto qu√≠mico, era usado por Gabriel para hipnotizar todas as personagens dos romances em que entrava. (Esqueci-me de declarar: eu, Clara, quando falei ao raio do Y, o meu amigo, este ati√ßou-me a curiosidade e a fome quando me disse que C√©sar, al√©m de ter uma cara de artista de cinema, vivia, al√©m do mais, com a m√£e. Uma m√£e que √© sempre uma boa desculpa para um homem em momentos dif√≠ceis. Mas, mais tarde, vim a confirmar tratar-se de uma informa√ß√£o perfeitamente adulterada pela amizade entre ambos): Y, muito distra√≠do, deve-me ter achado com cara de m√£ezinha, a mesma m√£ezinha por quem o seu amigo parecia chamar sempre com aquela cara de anjo que Deus lhe tinha dado com tanta generosidade e toda a discrimina√ß√£o perante os feios como o tio da Lilicas. Dessa vez, o raio do Y lan√ßou-me uma verdadeira casca de banana. Acabei por cair nela. Em breve, al√©m de me transformar numa cruel e b√≠blica Lilicas, iria entrar nas garras de uma deliciosa trai√ß√£o, como foi dito na outra trama em que o meu querido C√©sar se tornou num verdadeiro Cristo. S√≥ depois de falar com Y me plantei perante o meu anjo, de voz mais ou menos afectada, mas a parecer o c√ļmulo da seguran√ßa.
Tenho de colocar um ponto de ordem nos trabalhos. Isto tem de ficar mais arrumado: primeiro o concerto, depois o telefonema de Y para Clara, seguido do telefonema de Clara para Y, prostrando-se a Clara ‚Äď eu pr√≥pria ‚Äď a seguir, em frente a C√©sar, com o pretexto do curr√≠culo da rapariga e, mais tarde, j√° depois de ter enviado o bendito papel, que nunca deveria ter ido para l√°, √© que falei demoradamente com C√©sar ao telefone, quando ele me parecia um aristocrata franc√™s.
Agora, neste faz de conta, enfrento pela primeira vez Gabriel, cara a cara, quando ele diz:
‚ąí Venha sempre.
Logo desde o in√≠cio, durante o ‚Äúvenha sempre‚ÄĚ, C√©sar pareceu-me bastante calado. Tive, at√©, de ser eu a encarreirar uma conversa que nos levasse a algum lado. Ainda que fosse √† minha sa√≠da daquele local o quanto antes, se n√£o quisesse um dia, passados alguns anos, adquirir o r√≥tulo de ninfoman√≠aca insaci√°vel.
Afinal ele não era economista como Y dissera. Licenciara-se em Direito, antes de obter uma pós graduação na francesa Sorbonne, em Artes.
Eu disse-lhe que seleccionava gente para trabalhar em empresas e que era psicóloga, às vezes a pender um pouco para o lamechas quando tinha de dizer não a uma pessoa que, via-se mesmo, estava a precisar desesperadamente daquele emprego.
Confesso que fiquei fascinada com aquele ser esbelto, lindo como um anjo. E lembrei-me entretanto daquelas pinturas de rua, feitas na calçada, de cores brilhantes e debotadas com os primeiros passos dos transeuntes sem respeito algum pelo Altíssimo. O César pareceu-me assim: brilhante como o céu, santo como os santos, anjo como os anjos e não consegui imaginar que raio de coisa lhe passou pela cabeça quando perguntou ao nosso amigo comum, o Y, quem eu era.
Já não era muito novo. Tinha, contudo, um viço de fazer inveja a muito menino de vinte e oito anos, a idade dele quando passou a chamar-se Gabriel para servir os interesses de um outro romance e de uma editora ávida de lucros à custa de Claras e Césares desprevenidos.
‚ąí Venha! N√£o hesite ‚Äď continuavam a suar-me as suas palavras na cabe√ßa quando vim embora, dizendo que sim senhor, que lhe enviaria o curr√≠culo da jovem.
Saí aparvalhada, hipnotizada com aquele tratado de angiologia com quem acabara de travar uma conversa tímida, não conseguindo vislumbrar até onde ela me levaria.
‚ąí Venha sempre! ‚ąí ecoava na minha cabe√ßa.
Meu Deus, que cara angelical! ‚Äď pensava ‚Äď J√° n√£o via um rosto assim desde o tempo da primeira comunh√£o,  quando me deram um santinho t√£o perfeito como aquele homem. Na altura, pequena ainda, pensava que s√≥ os anjos e os santos poderiam atingir uma beleza t√£o imaculada. Devia ter morrido. Tinha estado no para√≠so‚Ķ Eu era, de certeza, uma pessoa muito boazinha para Deus me ter concedido a gra√ßa de ter estado, ainda que por alguns instantes, no c√©u √† beira de um anjo. C√©sar era de morrer e eu n√£o conseguia guardar na mem√≥ria os seus tra√ßos di√°fanos. N√£o sabia como defini-lo. Fiquei logo enfeiti√ßada, ali na funda√ß√£o, quando havia moedas por todo o lado e me senti uma felizarda por ter despertado o interesse daquela celestial criatura.
A mamã está a chamar-me burra. Ou, nem tanto, digo eu, que ainda tenho muito para explicar nas histórias da minha vida em triplicado.
Nessa altura, tamb√©m pensei que nenhum homem assim, se fosse bom em tudo, devia andar por a√≠ solto. C√©sar tinha certamente uma mulher que lhe tivesse la√ßado um bom n√≥ de marinheiro imposs√≠vel de desatar. Mas, estava disposta a correr o risco de saber a verdade. Era, com todas as letras, se n√£o o dolo directo, pelo menos o dolo eventual do ‚Äúcrime‚ÄĚ de, mal o vi, ter ficado perdidamente apaixonada pelo anjo da minha vida. Mas, por outro lado, como ele se movimentava num outro infinito, admiti a hip√≥tese de nunca mais ouvir, nem a sua voz doce e muito menos ver de novo os seus olhos verde-mar onde eu desde logo comecei por ir ao fundo.
Assim, pensei:
-Vai tudo ficar, em √°guas de bacalhau...O n√≥ de marinheiro do seu pesco√ßo, junto √† gravata, deve ser bem forte, imposs√≠vel de desatar. Embora boa como o milho, n√£o sou sereia capaz de enfeiti√ßar aquele lindo embarcadi√ßo. C√©sar ‚Äď continuava a pensar ‚Äď j√° devia ter por a√≠ uma imperatriz escondida em qualquer lado, imperando juntos, ele que, pelas minhas estimativas, aliadas √†s informa√ß√Ķes de Y, era um po√ßo de fidelidade. Ningu√©m lhe conhecia a faceta, nem de mulherengo nem de menino da mam√£ como inicialmente imaginei, s√≥ para imaginar alguma coisa de tanta beleza concentrada numa √ļnica pessoa.
- N√£o vai telefonar mais ‚Äď pensei.
Adeus meu anjo! Encontrar-nos-emos na eternidade. Ainda aguentei as lágrimas, confesso…
Foi quando surgiu o telefonema do meu aristocrata francês, já a querer enfiar-me a galope no seu castelo.
N√£o demorou mais de uma semana at√© aparecer de novo na funda√ß√£o, eu, Clara, que era uma rapariga habituada a por trav√Ķes nos avan√ßos da humanidade que h√° em todos os homens ‚Äď e mulheres ‚Äď para ser honesta comigo pr√≥pria. S√≥ que, daquela cara de anjo, al√©m de tudo, recomendada por Y, o meu amigo, n√£o havia nada a temer. Para tr√°s iria ficar o tempo do ass√©dio de um bivalve viscoso e de um marido cuja inclina√ß√£o era para outro lado. A minha vida estava a transformar-se num grande mar de rosas. Mal sabia eu nessa altura que j√° tinha um p√© numa outra hist√≥ria, na pele de uma outra personagem decidida a granjear-me a fama de ninfoman√≠aca boazona mas burra e t√£o esfomeada por cal√ßas como gato por bofes.
No meio de tudo havia uma coisa boa: era C√©sar, o meu imperador e, passando da terra para o c√©u, o meu querido anjo Gabriel. Eu, Clara, ou Lilicas, fora seleccionada por Deus para o tentar, pondo-o √† prova com o sentido √ļnico de ele poder atingir uma outra hierarquia no Olimpo. Sentia-me escolhida
A minha criadora est√° a fazer-me sinais para deixar essa parte para C√©sar. Diz-me que gostou da defesa dele, feita por um ‚Äúadvogado‚ÄĚ, homem com toda a certeza, na outra hist√≥ria, quando veio √† cola√ß√£o uma nova vers√£o do kama Sutra escrita por uma tal Carla. Assim √† primeira vista e lido por um candidato a cego at√© poderia ser o anagrama de Clara: ou seja, eu.
Tenho de obedecer prontamente e vou então prosseguir desde o meu segundo encontro com César, quando fui de novo à fundação. Nessa altura tornei-me num ser tripartido como se tivesse sido concebida por inseminação artificial de que tivessem resultado três gémeas completamente falsas, tanto na forma como no feitio.
Mas, é preciso, talvez, recapitular: César prometera-me uma ida ao cinema e eu pensei que o dia da fita seria aquele. Primeiro fomos a uma esplanada tomar uma bica, à tarde e, depois do jantar, num sítio aprazível, iríamos então ver um filme. Era o que eu pensava, já prestes a tornar-me na venenosa serpente bíblica e na doce Sarita do mesmo livro sagrado sem saber. Um três em um comme il faut.
Pelo caminho, César falou-me das irmãs mais velhas, quando o imaginei um aristocrata dono de uma bela mansão em Paris, embora a vida dele me parecesse, quase desde o início, um grande filme, e que o nosso próprio filme iria provavelmente decorrer numa sala desconhecida. Ao menos para mim.
Coisa imaginada, coisa acontecida. O cinema acabou por ser na casa de C√©sar e a protagonista feminina acabou por ser obviamente Lilicas logo a partir dos document√°rios, em que serpentes se exibiam na televis√£o como raparigas delgadas ondeando em pau de cabaret. O meu anjo era agora Gabriel, t√≠nhamos entrado decisivamente em dom√≠nios b√≠blicos. Quanto mais n√£o fosse, por causa do cen√°rio na TV. E agora seria aqui que tudo iria decorrer, para o bem e para o mal. C√©sar disse-me, sem medo de me escandalizar, que adorava serpentes. Sem saber porqu√™, achava-as muito sensuais. √Ä revelia dos seus conhecimentos, era Deus a p√īr-lhe a prova a voca√ß√£o de anjo com o fim √ļltimo de o fazer progredir na carreira. Ou, se ele fraquejasse, de o manter eternamente no mesmo grau, atingido muito antes de Cristo vir √† terra ver o estado das coisas.
Eu disse-lhe que n√£o gostava de tais bichos. Rastejavam. Mas disse tal coisa ainda sem grande consci√™ncia de que j√° era igualmente outra criatura com um parentesco demasiado √≠ntimo com L√ļcifer. Estava, ainda e ent√£o, naquele limbo onde j√° n√£o era Clara mas em que tamb√©m n√£o era verdadeiramente a Lilicas das tenta√ß√Ķes. Para a Sarita estava reservado todo o luxo do novo romance, em que ela iria atingir a plenitude de se tornar uma verdadeira mulher nos bra√ßos do nosso querido anjo Gabriel.
A casa de César, de repente, começou a ficar pequena para albergar toda a gente que, daí a nada, iria entrar no romance, e a mamã diz que, por causa disto, vai transferir toda a acção para o solar recebido em herança pela Sarita, mas que fora, na realidade, comprado por César para acolher a mãe após a reforma depois de passada a sua fase de Maria Madalena, ninguém sabe se arrependida ou não.
Agora, de uma s√≥ vez, Gabriel, o personagem do novo livro, tinha numa mesma casa tr√™s mulheres que o amavam loucamente. A ponto de cometerem por ele qualquer loucura. Foi, como se viu, um tr√™s em um, como num an√ļncio de TV, champ√ī, amaciador e restaurador na mesma mulher: eu, Clara, a original, pessoa do mundo terreno, Lilicas e Sarita b√≠blicas, e que, naquele dia, um criador colectivo deste mundo resolveu inventar como se fosse o pr√≥prio Deus a refazer-nos a todas da mesma costela de Ad√£o. Era preciso reescrever a hist√≥ria, incluindo a do Menino Jesus que tanta gente influenciou na terra da par√≥dia. Ou n√£o fosse a boa nova do seu nascimento dada pelo anjo de servi√ßo, o nosso querido Gabriel.

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outono


« Responder #12 em: Mar√ßo 13, 2022, 18:40:48 »

Nem santo, nem demónio, a minha alma está parva. Mas para onde vai esta "estória"?

E essa outra a que só se acede, pelo vil metal, desgraça do mundo, por onde para, e como se está a sair?
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« Responder #13 em: Mar√ßo 14, 2022, 23:33:47 »

Nem lhe digo nem lhe conto...
Para já, vêm aí a Lilicas....


ÔĽą
Lilicas
Chamo-me Lilicas e j√° entrei na casa de C√©sar, juntamente com uma quantidade de serpentes. Estou na televis√£o. Esta √© a primeira casa, aquela onde a Clara, cheia de fome e a rir-se quando C√©sar lhe quis ver a cor do soutien, se armou em esquisita, lambendo, apesar de tudo, os beijos dele como quem se lambuza com a√ß√ļcar e canela de farturas numa feira. J√° sei que a casa ficou pequena para tanta gente, com o meu tio velho a ratear nos livros da biblioteca, C√©sar a desfazer-se em sumos para a Clara, e Sara, a benigna, toda atarefada com o jantar, que ter√° de mandar servir a todas estas pessoas pela criada de touca. A mulher perguntou-lhe quantas malaguetas deveria p√īr na comida dos h√≥spedes.
‚ąí Quatro, respondeu com um sorriso maroto a bondosa Sarita ‚Äď vamos apimentar as coisas por aqui. Os senhores gostam de comida bem apaladada.
Ainda h√£o-de surgir mais personagens. Mas, a grandeza de umas e de outras mede-se pela quantidade de vezes em que umas se h√£o-de eclipsar e outras aparecer, desgarradas pelo desespero de algu√©m que as elegeu como bobos da corte, em abundantes desprop√≥sitos. Contudo, como a casa de C√©sar se tornou num beco sem sa√≠da, desculpem a repeti√ß√£o, vamos a correr para o solar. E, se quiserem saber qual deles, n√£o me perguntem, n√£o sei. Ignoro se √© o que C√©sar comprou para a m√£e reformada e para l√° instaurar um est√ļdio de fotografia, onde se iria dedicar a captar as auras, ou se para o outro que, supostamente, os pais de Sarita lhe deixaram em testamento. Posso at√© afirmar que, neste caso, o documento original foi manuscrito pelo Senhor Abra√£o em mata-borr√£o, e  em que a Dona Isabel, distraidamente, escreveu nas costas do documento a receita de uma afamada broa.
Estou a precisar de mais personagens para me divertir como uma mulher de opereta l√ļbrica. Sinto-me algo sozinha. Gabriel, depois da recusa de Clara em ir para a cama com ele, ainda a levou a jantar fora, dando-lhe inclusive uma li√ß√£o sobre leite e enchidos.
Sinto-me muito s√≥, loura, morena e burra, apesar de sermos tr√™s mulheres c√° em casa e mais uns gatos-pingados, umas conjun√ß√Ķes e uns pronomes. Tudo para fazer a liga√ß√£o entre a hist√≥ria. De outra forma ficaria inintelig√≠vel. Por tudo isto a nossa autora nos obrigou a mudar de casa. Vai fazer connosco o que muito bem lhe apetecer. N√≥s, enquanto personagens de livros, n√£o podemos reclamar nada. S√≥ se ela deixar.
Recapitulando, como fez a Clarinha, j√° sabem que a Lilicas √© ao mesmo tempo Clara e Sarita e que esta √ļltima √© uma mulher virtuosa, um tudo nada mais velha do que o nosso anjo, inicialmente C√©sar e agora Gabriel.
Sara casou-se com Gabriel, um jovem de vinte e oito anos, quando tinha idade suficiente para ser mãe dele. Deviam, por isso, ter uma vida descansada, até voltarem de novo para as páginas da Bíblia. Todavia tiraram-nos de lá tal como a mim e ao Gabriel. Só a Clara e o César é que são gente deste mundo. Contudo, andamos todos juntos aqui, neste bric-á-brac literário, a divertir divas e divinos escritores. Somos gente de papel com quem algumas pessoas gostariam de tirar umas cascas literárias. Vamos a isso.
O meu tio-av√ī continua a rondar os livros nas estantes onde Borges dorme, j√° morto, sem ter recebido o Nobel da Literatura; Clara est√° a ver fotografias na sala, com l√°grimas de arrependimento nos olhos por n√£o ter deixado que as coisas passassem de uns beijitos‚Ķ √Č mentira! ‚Äď N√£o se lembram de eu ter dito que ela tinha ido jantar fora com o C√©sar?! Era s√≥ para ver se estavam atentos‚Ķ
J√° eu, de botas negras esporadas, enfiadas numas pernas de deusa, estou pronta para viver a minha primeira aventura l√ļbrica no romance onde enfiaram a Clara a catorze m√£os e num puro acto de viola√ß√£o. Mas, que querem?! Quando h√° for√ßa n√£o h√° resist√™ncia. Agora tenho de prosseguir nesta minha saga de agente, mais do que duplo, triplo agente, no meio de tanta insanidade.
Nasci para ser sadomasoquista, e, por entre outros apan√°gios de Lilicas ninfoman√≠acas, √© como me h√£o-de ter aqui. Tamb√©m conhe√ßo os prazeres mission√°rios, mas esses guard√°-los-ei inteirinhos para o meu anjo, que h√°-de amar-me tanto quanto eu o amo. Porque eu morro se ele n√£o me amar. Ainda n√£o o conhe√ßo. Ainda n√£o chegou √† mans√£o com a sua m√°quina fotogr√°fica a tiracolo, desde que eu e o meu tio c√° estamos, o que, sendo verdade, √© tamb√©m mentira. Uma alma g√©mea nunca se aparca do seu outro eu. E nem precisava de lhe ver a cara para reconhecer o seu cheiro a quil√≥metros. J√° vivemos juntos noutra dimens√£o, e √© por isso que seguimos sempre o rasto um do outro. Mesmo por entre um campo plantado de milho destinado a fazer deliciosas broas. Os nossos caminhos s√£o indel√©veis. J√° para os outros homens ‚ĒÄ aqui n√£o h√° mais anjos sen√£o o meu Gabriel ‚ĒÄ hei-de ser uma verdadeira serpente. A minha primeira v√≠tima morrer√° √†s minhas m√£os a toque de cintos e cabedais pretos. Uivar√° de dor e de prazer. A √ļnica condi√ß√£o √© que eu n√£o parta nenhuma unha. √Č nelas, longas e pintadas de vermelho na maioria das vezes, que reside a minha for√ßa, tal como a de San√ß√£o residia no cabelo dele, um verdadeiro Rapunzel antes de Dalila lho rapar √† escovilha √† conta de interesses escusos.
Anda por aí um ex-inspector da polícia atrás de mim como um cão. Mas não sei muito bem muito bem o que faz aqui um reformado, quando o lugar dos homens aposentados, mesmo o dos polícias, é num banco de jardim a jogar à malha ou às cartas. Enfim. Daqui a pouco, ou muito tempo, iremos saber por que veio à mansão de César o ex-inspector. Uma coisa dizem dele: tornou-se num impotente na cama. Fala-se à boca cheia de já nem com comprimidos conseguir uma erecção e que, sempre que pode, mira com tremenda avidez todas as revistas pornográficas que lhe apareçam pela frente a ver se tudo se ajeita. Mas sem resultados...
A mam√£ afirma o seguinte: as revistas est√£o sempre no local errado. S√£o dedicadas a um falso alvo. O C√©sar √© quem gosta de pornografia. Inclusive em banda desenhada. De prefer√™ncia em franc√™s, l√≠ngua que treinou bastante durante o tempo das f√©rias grandes passadas com a m√£e e as irm√£s em terras de Maria Antonieta. Tamb√©m lhe parece que os escritores do livro do meio andaram a vasculhar a vida dela e que o ex-inspector √© uma personagem com in√ļmeras parecen√ßas com algu√©m das rela√ß√Ķes dela. O que √© de p√©ssimo gosto. S√≥ por essa raz√£o me puseram a saltar no trap√©zio com ele como dois macacos de circo. Vai mais longe, a nossa m√£ezinha: ela julga que os pantomineiros de romances ter√£o feito tudo para saber com que C√©sares, Gabrieis e outras santidades a nossa criadora se deitou. Mas a isso ela vai responder como faria um bom Z√© portugu√™s das Caldas. Que se contentem com a especula√ß√£o acerca do C√©sar e da Clara. O ex-inspector iria ser o meu primeiro banquete, depois de ter tomado o meu banho de sais e de me ter embrulhado no meu famoso roup√£o vermelho. O vermelho do roup√£o da velha Lilicas √© ainda mais vermelho do que o vermelho das riscas da toalha de C√©sar, aquela que estava sempre pendurada na casa de banho do nosso anjo colectivo quando a Clara a ela se limpava depois de tomar um frondoso banho.
Mas, esta casa está insuportável com tanta gente a entrar e a sair. O confronto íntimo com o ex-inspector irá ficar para outras calendas.
A Clara, depois de tanta esquisitice, l√° acabou por ir jantar com o C√©sar a um restaurante chin√™s. A rapariga terrena gosta de tudo. Em comida n√£o √© esquisita. A esquisitice guardou-a toda para os palavr√Ķes que C√©sar profere na cama enquanto "fazem amor", √≥ frasezinha ins√≠pida, sem sal nem azeite, com que baptizaram o b√≠blico acto da fornica√ß√£o! Tamb√©m n√£o gosta de leite ‚ąí a Clara ‚ąí e o C√©sar gosta de todas as mulheres: brancas, pretas, baixas, gordas e magras, nacionais e estrangeiras. Gabriel √© o universo feito homem, e, neste caso, com um grande acrescento pelo facto de ser tamb√©m anjo.
Já o rapaz não vai muito com enchidos. Sabe, no entanto, fazer uma distinção minuciosíssima do salame e de outros chouriços, embora já noutra pele e com outro nome.
Depois, uma das minhas metades, a Clara, quando regressou a casa, ia completamente aturdida com a beleza de C√©sar, dizendo com os seus bot√Ķes: ‚ąí que rosto, Meu Deus, vai ser uma inquieta√ß√£o... Sou capaz de me transformar numa Alzira baixo-n√≠vel, ou mesmo numa Lilicas como a do para√≠so, se Gabriel puser o p√© fora do ninho de amor onde j√° estou mais choca do que galinha sobre ovos. Mas, por causa da cria, uma galinha √© sempre desconfiada, e Clara n√£o tardaria muito a experimentar esse veneno.
Voltou a casa de C√©sar passado pouco tempo, com uma pequena sensa√ß√£o de serpente enfeiti√ßada por um tocador de flautas. Foi no final de uma certa tarde, depois de deixar o colega do escrit√≥rio e na sequ√™ncia de um telefonema entre ambos, que Clara se meteu no Golf preto e rumou √† casa de C√©sar. Ele dizia que ambos encaixavam bem. Sobretudo na cama. Era como se fossem duas colheres de sopa, a descansar na gaveta de um arm√°rio, uma dentro da outra, encolhendo a volumetria e deixando o resto do espa√ßo livre para mim, que, Clara e Lilicas simultaneamente, estive sempre ali com o meu veneno e com a minha lux√ļria pronta a explodir. Nessa altura, Clara descobriu um pequeno bilhete sobre a cama, do lado onde ele dormia. Quem o p√īs l√° fui eu, de prop√≥sito, para armar confus√£o e com o claro objectivo de arredar a minha mana da hist√≥ria e entrar a seguir na opereta l√ļbrica que, da√≠ a pouco, iria come√ßar, depois da constata√ß√£o de que aquele mundo de sof√°s existente na sala onde haviam come√ßado os ensaios n√£o dava jeito nenhum para o espect√°culo.
Ficou furiosa. N√£o esperava que o seu anjo tivesse outra mulher. Tinha-lhe garantido, junto √† biblioteca, perante a argentina testemunha de Jorge Lu√≠s Borges, que depois de j√° ter sido casado, quando era mais velho ‚ąí nessa altura estava a meio dos quarentas ‚ąí, embora n√£o fosse propriamente um valdevinos, tamb√©m n√£o era nenhuma santidade. Negou, apesar de tudo, a origem concub√≠nica do bilhete, inventando um teatro em que punha a empregada de limpeza como actriz e como sendo a autora do mesmo. Admitiu at√©, com ironia, que a criatura lhe estava a pedir as contas e amaciador para as camisas‚Ķ
N√£o se admire, leitor, que C√©sar tenha, numa outra vida de personagem, passado dos vinte e oito nos anos, a sua idade aquando do casamento com Sarita, para os quarenta e tal. Um anjo como Gabriel pode ter a idade que desejar e a que lhe quiserem atribuir, estar em todos os lados ao mesmo tempo e ser personagem em mil e um romances. Os anjos est√£o em toda a parte, na terra e no c√©u, e Clara, embora cheia de retic√™ncias, loura, morena, burra e esperta em doses muito equilibradas, apesar das muitas d√ļvidas, n√£o ia prescindir daquele peda√ßo que falta aos anjos tradicionais e que Gabriel, ali t√£o especial, tinha de um tamanho ideal√≠ssimo. Vingou, ent√£o, o sentido da oportunidade, ou, para sermos mais populares, prevaleceu o ditado, ‚Äúmais vale um p√°ssaro na m√£o do que dois a voar‚ÄĚ. E a Clara h√° muito que andava com cara de coitada. Havia s√©culos, ningu√©m coitava com ela. Isto sou eu, Lilicas, a dizer‚Ķ A Clara √© mais do g√©nero ‚Äúfazer amor‚Ä̂Ķ Como se se pudesse fazer amor a partir de uma receita pr√©via sobre o amor! Por exemplo, a de trouxas de batata, misturando os ingredientes de acordo com o estabelecido!... O amor que eu sinto pelo meu anjo est√° mais do que pronto. N√£o precisa de mais nenhuma pitada, nem de sal, nem de azeite, nem de pimenta, e eu, tendo muito amor e rivalizando com ele, que gosta de todas as mulheres do mundo, √© s√≥ abrir-me aos seus fluidos, que ainda h√£o-de ser vistos pela Humanidade como uma rel√≠quia sagrada, se, entretanto, o nosso anjo Gabriel for, antes de mais, o Menino Jesus em tamanho maior, qui√ß√° influenciado pelo filme protagonizado por Tom Hunks, ‚ÄúQuero ser Grande‚ÄĚ.
Depois do banho e daquela toalha com riscas vermelhas, C√©sar convidou Clara a comer o queijo e a marmelada do frigor√≠fico, mais a sopa que a empregada, a mesma do bilhete, tinha feito. Ela aceitou, toda mel e a√ß√ļcar, quando os telefones come√ßaram a tocar, ora o fixo ora o telem√≥vel, a que Gabriel fazia orelhas moucas.
Enquanto comiam, a cabe√ßa da mana era uma roda desdentada. As coisas n√£o encaixavam muito bem. N√£o sabia se tinha √† frente um anjo ou um dem√≥nio, com quem, no caso de C√©sar ser de facto um parente de L√ļcifer, gostara de ter estado na cama, apesar de continuar a desagradar-lhe a linguagem desabrida dele durante o confronto.
J√° √† mesa, apetecia-lhe fazer uma festa na cara do seu anjo. Mas ele estava ali, mais frio do que as cadeiras de metal onde ambos se tinham sentado para comer a sopa e o p√£o, ali sobre a mesa igualmente de metal duro e frio. Tudo era puro gelo do √Ārctico. O calor tinha ficado na cama debaixo do edred√£o, sobre o qual antes tinha visto o bilhete que eu l√° colocara e que tantas interroga√ß√Ķes tinha originado.
Se at√© a√≠ Clara via defeitos no pobre do meu anjo, a partir da√≠ redobrou. E, mesmo ali, a comerem os dois, ele calado como uma m√ļmia eg√≠pcia e ela a matraque√°-lo com afirma√ß√Ķes do g√©nero ‚Äúvoc√™ √© muito racional‚ÄĚ e a obter respostas de id√™ntico calibre, ocorria-lhe que aquele jantar de sopa e marmelada n√£o passaria do pre√ßo barato de uma encontro fortuito presenciado por meia d√ļzia de Cristos a partir da c√≥moda, silenciosos como cruzeiros, no quarto de Gabriel onde se tinham desenrolado os trabalhos.
Quando C√©sar lhe perguntou se gostava mais do miolo de p√£o ou da c√īdea e ela lhe respondeu preferir a c√īdea, nessa altura Clara teve a percep√ß√£o de que, tal como dissera ao amigo X, ele, al√©m de ser um mulherengo como o bilhete insinuava, n√£o passaria igualmente de um menino da mam√£, a berrar como um danado se algu√©m a brincar lhe tirasse por momentos a chupeta.
Perante a resposta da Clara sobre as c√īdeas, deu-lhe a conhecer as semelhan√ßas dela com a m√£e e, da√≠ para a frente, nos poucos dias em que Clara ia a casa de C√©sar, passou a dar-lhas quando comiam juntos. A ponto de ela as enjoar e de come√ßar a sentir v√≥mitos mal as via, como se estivesse no in√≠cio de uma gravidez problem√°tica.
A mamã está a dizer-me que estou a ser demasiado má-língua com a mana, desvendando-lhe tão nua e cruelmente a intimidade. Diz também que só ela tem poderes para fazer e desfazer connosco, por ser a nossa dona de pleno direito. Ameaça cortar-me a língua
Respondo-lhe que já vai sendo tempo de nos admitir assim como nos criou: personagens desavergonhadas, justificando plenamente a cena seguinte, um mènage à trois, embora este trio não seja o trio convencional da orgia mínima como é o mènage. Nunca se esqueçam de que uma de nós só pode entrar em cena se a outra sair.
Para já, vou limitar-me a ser espectadora e ao mesmo tempo crítica da irmãzinha. O Gabriel quero-o inteiro para mim, com todas as virtudes e defeitos, mais umas do que outros. Até porque ele é um ser celestial.
Daqui a pouco C√©sar vai convidar a Clara para dormir c√° e eu, como os dois ocupam pouco espa√ßo na cama encaixados na posi√ß√£o de colher, vou ficar ao lado, a apreciar o panorama e a ver televis√£o, aguardando com paci√™ncia a minha oportunidade. Deixei as botas e as esporas, os cintos e as correias no carro do meu tio-av√ī, de quem sou motorista, e que, segundo os donos de outro romance, ir√£o servir para vergastar um ex-inspector impotente, fantasioso e consumidor compulsivo de revistas pornogr√°ficas com que tenta erguer uma catedral h√° tempos em derrocada irrevers√≠vel. Mas, para j√°, n√£o preciso dessas coisas.
Clara anui ao convite, é verdade, mas, antes, directa como sempre, esta minha irmã, pergunta a César se ressona. Não suporta trombones na cama a intercalarem o ronco com apitos de comboios da Idade da Pedra, mudando de ritmo ao sabor da respiração.
Ele diz que não sabe. Anjo, Gabriel dorme sozinho e pudico todas as noites com as cuecas enfiadas, porque dormir nu não é do seu agrado. Nisso é efectivamente a alma gémea de Clara. Clara também gosta de um pedaço de civilização a tapar-lhe as virtudes.
C√©sar devolve √† minha outra metade a pergunta e obt√©m um perempt√≥rio ‚Äún√£o‚ÄĚ acerca do ressonar. Clara diz que n√£o ronca, mas eu, vendo chegar a minha vez de meter o bedelho, desato a rir √† gargalhada com o engano da minha irm√£. A Clara √© uma verdadeira locomotiva da era industrial.

Continua

Leiam também "O Estranho Fascínio da Internet" que se compra em todo o mundo, na Almedina, Fnac, etc
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« Responder #14 em: Mar√ßo 20, 2022, 19:27:03 »

Três pessoas numa só, anjos diabos e ninfomaníacas. Mas onde é que eu já li isto?
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Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Ol√°! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Ol√° para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Ol√° para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
Março 05, 2021, 20:17:07
Bom fim de semana para todos
Março 04, 2021, 20:58:41
Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Fevereiro 22, 2021, 16:41:57
Boa tarde a todos.
Fevereiro 18, 2021, 20:52:07
Boa noite a todos.
Fevereiro 17, 2021, 19:09:25
Boa quarta para todos.
Fevereiro 16, 2021, 19:10:20
Boa noite a todos os presentes.
Fevereiro 15, 2021, 14:54:45
Boa semana para todos.
Fevereiro 14, 2021, 15:29:30
Bom domingo para todos.
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