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Autor Tópico: A S√°tira do Livro Roubado  (Lida 5816 vezes)
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #15 em: Mar√ßo 21, 2022, 11:35:30 »

A terceira chegará na próxima ronda....

A televis√£o transmite uma opereta, O Elixir do Amor, e Gabriel, grande apreciador de m√ļsica cl√°ssica, vai buscar um CD com o intuito de explicar as partes da obra √† mana, uma verdadeira nulidade no assunto. Foi nesta opereta que o meu tio-av√ī se inspirou quando, depois de ter sido despedido do trabalho de m√©dico legista, mal enveredou por m√©todos de aut√≥psia de romances alheios pouco ortodoxos, desatou a pesquisar ervas com o fim √ļltimo de curar os males da humanidade em peso, e, quem sabe?, encontrar uma f√≥rmula capaz de lhe reverter a cara de figo seco para um verdadeiro p√™ssego carnudo, que apetecesse a qualquer mulher trincar.
Por fim, a opereta, ópera, ou lá o que era, acabou e César adormeceu, enquanto a Clara passava a noite em branco a tatear novos mapas de geografia no corpo de Gabriel, que dormia como um bebé. Por isso Gabriel não a ouviu ressonar…
E eu ali, diab√≥lica, acordada tamb√©m porque uma verdadeira Lilicas nunca dorme, e, por isso, nunca ressona, como disseram l√° no outro livro o meu tio-av√ī e o ex-inspetor aposentado, com quem, se Deus quiser, ainda hei-de ter um caso. √Č para ver se o homem se levanta de uma vez por todas da frustra√ß√£o em que mergulhou. Tenho de fazer jus √† minha voca√ß√£o. Preparem-se para os ahs do costume.
Eu e a Clara, mano a mano, estamos aqui na cama, cada uma a pensar em ser a outra. Eu quero dar umas dentadas de amor no Gabriel, e ela, que come√ßa a desconfiar do seu anjo por causa do bilhete manuscrito sobre a cama, e por tanto sil√™ncio √† mesa onde ela s√≥ tem direito a c√īdeas, prev√™ j√°, embora inconscientemente, iniciar a sua transfigura√ß√£o na minha luciferina pessoa.
Vou fazer-lhe a vontade. Vou colocar-me ao jeito dele, mesmo em posi√ß√£o de macaca. √Č dos macacos que descendem os homens e as mulheres, sobre quem Clara atirou o veredicto de n√£o terem evolu√≠do nada. Quando Gabriel acordar, e enquanto a Clara se fingir adormecida, h√° de ser comigo que o meu anjo subir√° de novo ao c√©u, como se se estivesse a evaporar inundado por vagas de prazer, brilhante como um vaga-lume. Vou deixar C√©sar dizer e sentir tudo quanto quiser: os palavr√Ķes alucinantes e vern√°culos que tanto gozo lhe d√£o, a minha roupa interior feita em rio, a barulheira infernal que fa√ßo quando me desfa√ßo em gemidos de arrancar os vizinhos de um pr√©dio inteiro do sono matinal. Sou um aut√™ntico despertador de quarteir√£o, um carrilh√£o de sinos iguais aos do Convento de Mafra a ecoar pelo mundo do faz-de-conta. Enfim, sou‚Ķ
‚ąí Bom dia, meu amor! Se n√£o me amares eu morro.
Mas, César e Clara têm de ir trabalhar. Ela tem de ir selecionar mais uns candidatos a torturados lá no mundo do trabalho, César tem de ir para a fundação contar as notas e as moedas. Além de que há por aí outra mulher a morrer de amores pelo meu anjo, aquela a quem foi concedida a graça de ser a legítima. Clara não passa de um biscate e eu não me apoquento com coisas terráqueas porque sou a super das mulheres do Olimpo, a pequena serpente do paraíso.

Continua

Leiam também o Estranho fascínio da Internet" que se vende pela net em Todo o mundo. Fisicamente é que é mais raro, só quando eu atingir o estatuto de escritora que vocês me irão atribuir. desde já com o meu muito obrigada.
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Goreti Dias
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« Responder #16 em: Mar√ßo 24, 2022, 11:29:44 »

Mas que imagens! Fortes e inusitadas! Isto promete!
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Goretidias

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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #17 em: Mar√ßo 25, 2022, 19:03:28 »

Espera para ver.....


‚Č°
Sarita

Sou uma personagem feminina quase completamente feliz. Chamo-me Sara. Era totalmente feliz até há pouco, antes de aparecer cá em casa um velho agoirento, com uma sobrinha neta que vindos, não se sabe de onde, trouxeram com eles o azar na bagagem. A ponto de estarem a dar comigo em doida. Sobretudo por causa do meu querido Gabriel. O homem afirma convictamente que o meu marido está muito mal.
Conheci o meu amor num dia chuvoso de Maio. Foi no final do mesmo concerto em que, à beira de um maestro suado e depois dos aplausos finais, estavam, entre várias pessoas, uma mulher com um vestido vermelho, a Carolina, a Clara e o amigo desta, que depois veio a apresentar-me o César. O rapaz, o amigo da Clara, era pintor. Eu tinha-lhe adquirido um quadro quando andava a decorar o solar herdado dos meus pais na terra sem nome, por vontade da autora desta saga. Ela quer-nos, ao mesmo tempo, cidadãos de todo o lado e de lado nenhum.
Foi amor à primeira vista, e, entre o primeiro beijo e o sagrado nó, não decorreram mais de três meses, sensivelmente o mesmo tempo em que Clara andou entretida com o César. Este é, como já sabem, a personagem de um outro romance onde eu era apenas um embrião a querer ganhar vida, e cuja alma, um pouco penada, já andava em casa dele a vaguear. Estava apenas à espera de ser aprisionada num verdadeiro corpo para sentir as alegrias de me tornar mulher nos braços do meu anjo.
Quando estive pela primeira no ninho de C√©sar, estavam l√° a Clara, a Lilicas e o tio-av√ī desta ave-do-para√≠so, por quem, diga-se de passagem, nunca nutri grande simpatia. Nessa altura o velho bisbilhotava a biblioteca do meu anjo, a Clara via fotografias de quando Gabriel era crian√ßa, e eu, dada √† cozinha, e, al√©m disso, uma mulher muito prendada, prontifiquei-me a fazer o jantar para todos, enquanto Gabriel preparava um sumo de laranja para a Clara e um Vodka para a Lilicas. Nunca lhe passou pela cabe√ßa que tinha em casa uma v√≠bora. Refiro-me √† Lilicas, √© claro‚Ķ
Aproveito agora para esclarecer o seguinte: nesse dia n√£o havia nenhuma criada de touca para servir a refei√ß√£o, e as malaguetas s√£o uma perversa inven√ß√£o da rapariga. Ela julga que o leite vem directamente do supermercado sem passar pelas tetas de vaca ou ovelha. √Č desculp√°vel. L√° no para√≠so a comida √© toda liofilizada‚Ķ Al√©m de nem sequer saber distinguir uma batata de um nabo, nem uma nabi√ßa de um grelo‚Ķ
Nesse meio tempo, em tr√™s meses, o nosso amor, o meu e o de Gabriel, cimentou-se a ponto de, ainda n√£o tinha acabado o ver√£o, j√° √©ramos marido e mulher. Na altura tive de travar algumas batalhas com os amigos. O Gabriel, com vinte e oito anos, bonito at√© √†s alturas do c√©u, sob o ponto de vista deles n√£o era homem capaz de me fazer feliz, uma vez que eu j√° era entradota e at√© com idade para ser m√£e dele. Mas isso n√£o nos fez recuar um mil√≠metro. At√© porque nunca tive raz√Ķes para duvidar da fidelidade dele, e ele muito menos teve motivos para desconfiar da minha. N√£o temos segredos um com o outro. Al√©m disso, √© Gabriel na Terra e Deus aqui com ele para aben√ßoar o nosso amor, talhado no c√©u com fitas m√©tricas prateadas de luares de Agosto e tecidos de ouro, bruxuleantes como as estrelas. E, por isso mesmo, at√© sei que, no futuro dele, entre os vinte e oito e os quarenta e poucos anos, tinha sido casado com a Patr√≠cia, de quem teve dois filhos. Mas isso n√£o me interessa nada. Vim directamente da B√≠blia para este romance, tomei as atitudes de uma mulher terrena como a Clara, e, no lugar de onde vim, o tempo n√£o existe. Muito menos existem o passado e o futuro, que, para gente da nossa estirpe, al√©m de tudo personagens de romance, t√™m a mesma import√Ęncia. Ou seja, nenhuma. C√©sar, o meu anjo, acerca da Clara disse-me que teve um romance escaldante com ela enquanto namorava comigo, quando eu, casta e pudica, lhe arremessava inocentes beijos da janela da mans√£o, tal como se fosse uma crian√ßa a brincar com avi√Ķes de papel e a envi√°-los para o espa√ßo. S√≥ que o entretenimento deles passou-se noutra dimens√£o, numas outras linhas paralelas do tempo que n√£o se tocam com esta √©poca, nem quando me transformei em gente da literatura. Eu, b√≠blica e honrada, pairando acima das tricas terrenas, at√© gostei de saber como se tinha desenvolvido a rela√ß√£o deles, que tipo de mulher era ela e como poderia isso enriquecer o meu relacionamento com Gabriel. A Clara era um pouco distra√≠da. Sobretudo quando estava parada em sem√°foros a ver passar o tr√Ęnsito dos outros lados. Al√©m de ser completamente fascinada pelo vermelho, uma caracter√≠stica que a Lilicas tamb√©m possui. O vermelho √© a cor do fogo, e o fogo faz parte da ess√™ncia de uma e da outra.
N√£o sei se foi por ter arrancado muitas destas inconfid√™ncias a C√©sar ‚ĒÄ t√≠mido e calado, gozando a maior parte das vezes sozinho ‚ĒÄ eu pr√≥pria acabei por ter um fetiche com a cor vermelha. A ponto de, um dia, me ter enfaixado nas traseiras de um cami√£o de grelos parado √† minha frente, numa altura em que a Clara tinha ido a uma pastelaria comer uma barriga de freira. Nessa √©poca eu j√° andava preocupada com o meu amor. Mas n√£o era por causa da cor macilenta que Carolina, a Woman in red, lhe vislumbrava no rosto, a ponto de, por causa disso, a autora ter decidido que o meu anjo iria morrer de hepatite B. E j√° toda a gente j√° sabe que isso n√£o passou de um embuste liter√°rio. Gabriel estava reservado para fazer a minha felicidade num outro livro,  em que nasci para ser rainha e senhora. Embora, como a mam√£ j√° disse, muito ing√©nua e com uma grande propens√£o - n√£o se h√°-de cumprir, se Deus quiser‚Ķ - para ter uma testa enfeitada para l√° da minha franja.
A Clara, além de minha irmã, refeita no século XXI a partir de uma comum costela de Adão, é uma personagem curiosa. Contudo eu também devo ter os meus encantos. De outro modo Gabriel nunca teria levantado os olhos para mim. Ou não fossemos, eu e a Clara, gémeas. O César disse-me que tinha ido jantar a casa dela, comer bacalhau com batatas assadas quando ela andava a mudar de casa. E, poupado como é, não resistiu a apagar-lhe uma luz de presença numa escada interior. Essa atitude fê-la pensar, brincando com toda a certeza, que o meu anjo pudesse ser um vampiro com horror à claridade. Até pelo facto de, mesmo em casa dele, andar sempre a desligar os interruptores.
C√° para mim, se Gabriel pode apresentar ind√≠cios de forreta na poupan√ßa da energia, a mana deve ter no m√≠nimo medo de dormir no escuro e, no m√°ximo, deve morrer com receio de que haja por a√≠ fantasmas, incluindo vampiros famintos de sangue a atazanar o sossego dos vivos. De qualquer modo, medo ou n√£o, isso acabou por influenciar o modo como gosto de fazer amor com Gabriel: com muita luz, para os meus olhos de mulher apaixonada terem sempre a vis√£o bela e grandiosa do seu corpo divino onde gosto de morrer. √Č essa sensa√ß√£o que experimento: a de uma morte boa, todas as vezes em que ele faz desabar o c√©u sobre mim e quando me sinto a estrela mais brilhante do universo. Embora, como j√° referi, seja j√° um pouco madura e tenha de tentar sustar na cara, √† base de cremes, a for√ßa da gravidade que teima em montar tenda no meu pesco√ßo, ali debaixo do queixo, com uma assiduidade que √†s vezes me deixa um pouco apreensiva. E, √© verdade, com alguns ci√ļmes de mulheres mais novas. N√£o quero admitir isso, na maioria das vezes, mas √© a realidade. Quanto √† luz, na hora em que me entrego nos bra√ßos do meu amor, √© o meu fetiche, confesso, o √ļnico. N√£o bebo e n√£o fumo, n√£o tenho v√≠cios. A ilumina√ß√£o sim √© a minha festa.
A mam√£ diz-me para n√£o exagerar nas minhas prefer√™ncias. Pelo visto, ouviu uma queixa de Gabriel no outro romance, e, por sinal, at√© se riu bastante com ele. Foi quando o meu amor disse ter reclamado, uma √ļnica vez, da ilumina√ß√£o do nosso cen√°rio na cama. A ponto de, depois de algumas considera√ß√Ķes sobres candeeiros, lustres, l√Ęmpadas e mais l√Ęmpadas, de v√°rias cores, em trip√©, chamar ao meu ‚Äúest√ļdio‚ÄĚ ‚ÄĚo sem√°foro‚ÄĚ.
Respondo √† minha criadora que, se sou assim, deve ser mesmo por causa da idade. E no romance n√£o serei caso √ļnico a ter necessidade de fetiches. Tanto quando se diz por a√≠, o ex-inspector tamb√©m precisa dessas coisas, revelando at√© alguma compulsividade no assunto. De facto, o homem n√£o se co√≠be de mirar, mesmo dentro de uma igreja e √† socapa, as revistas pornogr√°ficas que traz escondidas dentro dos manuscritos sobre os quais se abateu uma febre de decifra√ß√£o. A ponto de se terem multiplicado por aqui ultimamente num universo deles. √Č como se este nosso tempo fosse o mesmo de Jesus quando Ele multiplicou p√£es e peixes para dar de comer a uma enorme multid√£o, t√£o esfomeada de comida como escritores famintos de boas personagens para os seus livros.
Foi apenas um desabafo de Gabriel, a quest√£o dos sem√°foros, aposto. Pensando bem, julgo dever-se isso √† doen√ßa que o tio-av√ī de Lilicas, l√° pelos seus m√©todos de ervan√°rio √† for√ßa, lhe diagnosticou. Meu pobre querido‚Ķ
A minha criadora diz-me que tenho de ser uma personagem d√≥cil e uma anfitri√£ perfeita para os meus convidados. Apesar de n√£o simpatizar minimamente com a Lilicas, antevendo no √≠ntimo dela um prazer s√°dico que ainda ir√° causar muitos dissabores neste livro, tenho at√© de lhe sorrir de vez em quando. E logo haviam de arranjar para meu professor o tio dela, um homem feio que, al√©m de ter sido expulso da ordem dos m√©dicos legistas por disseca√ß√Ķes pouco ortodoxas, ficou tamb√©m sem carta. Ter√° entrado numa auto-estrada em contram√£o‚Ķ O senhor, al√©m de vesgo, parece-me tamb√©m um bocado gag√°. Anda preocupado com ervas e subst√Ęncias alucinog√©nias para descer n√£o sei a que profundezas da mente e desvendar n√£o sei que mist√©rios. Foi aonde levou esta febre danada, quando toda a gente tenta descobrir coisas de Jesus, a quem eu chamo primo por afinidade. Nunca se esque√ßam que Ele √© primo do meu marido. Al√©m do mais, na B√≠blia, de onde eu venho, um lugar simples, todos s√£o primos e primas. Mas primos como irm√£os. Por isso este romance √© mais ou menos um incesto‚Ķ
Voltando √† mana Clarinha, nos tr√™s meses em que o meu amor por Gabriel se firmou, a ponto de nos levar ao altar, o dela ia perdendo import√Ęncia, levando-a, desde bem cedo, a desconfiar que as inten√ß√Ķes do santo dela conduziam ao inferno. Ent√£o come√ßou a entrar numa esquizofrenia galopante e o Gabriel, paulatinamente, foi-lhe encurtando as r√©deas. Ele n√£o podia sequer ir √† vizinha, moradora ao lado da pastelaria, pedir um vulgar ramo de salsa para as pataniscas de bacalhau e logo ela tinha pensamentos maldosos:
- Aquela n√£o √© a da Carolina, a Woman in red , ela mora para outro lado,  e assim e assado‚Ķ ‚Äď pensava,   envenenada pela d√ļvida. Aconteceu isso numa manh√£ depois de ela ter ficado em casa de Gabriel, no outro tempo paralelo, cujas coordenadas n√£o chegam at√© este, onde existo inocente como a pomba do Esp√≠rito Santo e por ordens desta criadora a quem agora tenho de obedecer. Nesse dia, por n√£o ter p√£o em casa, ao pequeno-almo√ßo Gabriel n√£o lhe deu - ali√°s, n√£o houve caf√© da manh√£ para ningu√©m - as c√īdeas de que ela tanto gostava. Ent√£o Clara, em vez de ir embora e agradecer a noite maravilhosa que, sem sombra de d√ļvida, passou com o meu anjo, p√īs-se a espi√°-lo como se fosse uma pol√≠cia de costumes, disposta a mand√°-lo para a fogueira da Inquisi√ß√£o. Na ideia dela, ao inv√©s de Gabriel ser um santo, ou um anjo, deve ter-lhe parecido mesmo que dormiu com uma bruxa de Salem, disfar√ßada at√© no pormenor do entre pernas.
Este romance √© um manancial de literatura. H√° livros para limpar o p√≥ que nunca mais acabam. Est√£o aqui, juntas ou perto umas das outras, no m√≠nimo tr√™s bibliotecas. A primeira √© a do meu anjo, quando este ainda se chamava C√©sar e em casa de quem, se bem se lembram os leitores, h√° uma colec√ß√£o de Jorge Lu√≠s Borges, a que eu e a criada, pese embora o nosso esfor√ßo, nunca conseguimos tirar aquele cheiro a amon√≠aco com que o velho Ren√©, o gato franc√™s da oficina, a impregnou. Al√©m da maravilha latino-americana, tamb√©m est√£o c√° os tesouros das estantes que uma amiga da Clara herdou do pai, um coleccionador de todas as coisas e mais algumas. No meio delas existe um velho baralho de cartas de Tar√īt com que a Clara e as amigas se divertiam a tentar a arte de adivinha√ß√£o exclusivamente para amigos. H√° tamb√©m umas runas, as mesmas onde se esconde ‚ąí √© melhor dizer mostra ‚ąí o alfabeto escandinavo com os seus c√≥digos de revela√ß√£o dos segredos ocultos do universo, e que √© usado pelos peritos da arte de desvendar mist√©rios. E isto para n√£o falar dos livros da Clara, porque a Lilicas √© uma doida. N√£o l√™ outra coisa sen√£o revistas cor-de-rosa para quem as pessoas escrevem a contar problemas t√£o √≠ntimos como o terem atrac√ß√£o sexual pelos namorados das filhas, ou porque o √≥rg√£o masculino do companheiro tem um tamanho desfasado relativamente ao ideal pretendido. Os meus pr√≥prios livros t√™m um cunho mais religioso. A B√≠blia ilustrada, comprada √† Planeta Agostini em fasc√≠culos, quando ainda andava a estudar Medicina, assume um local de destaque na minha estante, juntamente com a Hist√≥ria de Portugal. Desde que me conhe√ßo como gente, sempre intui que, quando sa√≠sse da Judeia para aterrar num romance qualquer, viveria nesse pa√≠s, ao lado do meu querido Gabriel. A excep√ß√£o √† minha literatura b√≠blica s√£o os livros t√©cnicos, exigidos pela minha profiss√£o de m√©dica e os tratados sob pandemias v√°rias que, ao longo dos tempos, se t√™m abatido sobre a Humanidade. A minha especialidade √© Doen√ßas Infecto-Contagiosas e v√≠rus.
Ainda existe a biblioteca da terra para toda a gente. H√° nela alguns livros raros, valiosos e m√≠sticos. A maioria deles veio de It√°lia, mais precisamente da Biblioteca do Vaticano,  e depois de ter atravessado duas vezes o Atl√Ęntico; uma aquando da emigra√ß√£o para o Brasil dos ‚Äúcapisce‚ÄĚ e outra quando o velho brasileiro mecenas da terra regressou cheio de dinheiro, no in√≠cio do s√©culo XX, ap√≥s uma vida √°rdua entre o garimpo e a borracha. Depois de se ter cultivado o suficiente na velha Manaus, naquela imensa Metr√≥pole onde n√£o faltavam bons teatros e muita gente ilustre, o mecenas regressou ao ber√ßo fazendo ent√£o doa√ß√Ķes valiosas √† terra,  de onde tinha abalado um dia pobre como Job e bruto, uma verdadeira inspira√ß√£o para anedotas da corte de D. Pedro.
Com tanto trabalho no hospital e aqui, n√£o sei a raz√£o pela qual a nova criadora de personagens me obriga a entrar num outro romance. Est√° a impingir-me outra vez o velho e a sobrinha-neta, exatamente com as mesmas obriga√ß√Ķes de antigamente, quando tive de os acolher no solar e de lhes dar de comer, sem contar com a grande possibilidade de perder o meu marido para a doidivanas da Lilicas. √Č isso que mais me aflige‚Ķ
A verdade √© que nem preciso de recorrer ao velho ditado de que mulher prevenida vale por duas. Com efeito, em mim concentram-se, n√£o uma, n√£o duas, mas tr√™s mulheres de papel ‚Äď talvez de cartolina, mais resistente‚Ķ ‚Äď e √© por isso que tenho de levar a cruz ao calv√°rio‚Ķ
Agora não sei quem irá seguir-se. A decisão é da mamã… Ela, parece-me, gosta menos deste eu do que dos outros dois. A Clara e a Lilicas são as queridas dela, sinto-o.
Quanto a mim, mais do que amor, inspiro-lhe provavelmente um sentimento mais pequenino. Talvez pena… Que surpresas me reservará o futuro?

Contínua.

Leiam também o estranho fascínio da internete adquirido em livraria ou on line, onde é mais barato ( em papl custa 15,90, sem portes)
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outono


« Responder #18 em: Abril 02, 2022, 18:42:53 »

As cinquenta sombras de Grey, que se cuidem.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #19 em: Abril 03, 2022, 22:50:32 »

Bem, Nação Valente... Não sei


¬Ī
Gabriel

Quem havia de seguir-se senão Gabriel, regressado, não de férias como lhes disse, mas de um encontro com a minha mulher segredo, a minha reserva e a minha retaguarda para quando o dinheiro me escasseia nos bolsos e ela funciona como o meu Banco Ambrosiano?
Um homem como eu, com tantas mulheres, com dois empregos e, al√©m de tudo, com dois nomes, tem l√° tempo para veraneios!? N√£o podia deixar a Sarita sozinha em casa, com aquela gente toda, a preparar o jantar e os c√≥modos. Embora ela tenha a velha criada, eu tamb√©m gosto de p√īr a mesa e arranjar a jarra com as flores. E, apesar de, caro leitor, j√° saber que comi a Lilicas quando a Clara se fingia adormecida l√° na minha pequena casa, onde Jorge Lu√≠s Borges, em espanhol, continua a aguardar o Pr√©mio Nobel dos mortos, esque√ßa-se agora disso e finja que eu e ela n√£o nos conhecemos. √Č o que ambos iremos fazer quando estivermos perante Sarita. Confiando tanto ela no marido, n√£o quero dar-lhe nenhum desgosto‚Ķ Parte da minha vida paralela a Sara j√° a conhece, nomeadamente o meu romance com a Clara quando ainda me chamava C√©sar, e por causa do qual ela engendrou o cen√°rio semaf√≥rico para os nossos coitos. Um verdadeiro fetiche. Com a Lilicas √© diferente‚ĶA Lilicas √© uma mulher da vida, e, por ter chegado at√© aqui vinda do inferno, tem toda a eternidade pela frente. O inferno √© uma porta ao lado do c√©u. √Č por isso que nos conhecemos t√£o bem. At√© por causa da salsa para as pataniscas de bacalhau que um, quando o outro n√£o a tinha em casa, lhe ia pedir.
Quanto √† viagem de hoje, em primeiro lugar fui revisitar o primeiro romance, um livro feito por uma esp√©cie de tr√™s blocos de escrita. Fui quase ao princ√≠pio, quando ainda ningu√©m percebia o que iria dali sair, com um funeral, o meu, no in√≠cio. A seguir, ainda no mesmo livro, aparecia um homem soturno e sem nome, a pensar nos filhos, em chocolates e gravatas, bem como na ex-mulher, j√° para n√£o falar na m√£e, que, na altura e n√£o sei por que estranhas associa√ß√Ķes de ideias, comparei a Maria Madalena. Prontos, como diria a Lilicas! Foi o suficiente para algu√©m, na febre de descodifica√ß√Ķes dos mist√©rios de Cristo, chamar √† cola√ß√£o, por entre muitas outras a circularem por a√≠, a tese Madalenense, ligada √† descend√™ncia de Jesus. Segundo essa ideia, algures na velha Europa, correr√° sangue sagrado, associado, de uma forma ou outra, √† demanda do Santo Graal. E, no tal romance onde a receita das batatas recheadas √© falada, essa tese foi um bocado desvalorizada, por causa de Colombo e do tempo em que ele trouxe os tub√©rculos da Am√©rica. Assim √† primeira vista, havia ali uma incoer√™ncia temporal. Na verdade, nas traseiras de todo o manuscrito, tripartido como se o autor quisesse jogar √†s escondidas com a Hist√≥ria, estaria, supostamente escrita pelo pr√≥prio punho de Maria Madalena, uma receita de batatas recheadas, mas cujo falso papiro o carbono 14 acabou por datar como pertencendo ao s√©culo XV e como sendo papel rafeiro. Foi ent√£o que a data√ß√£o cient√≠fica do manuscrito colocou a receita e a sua era mais ou menos de parte, apesar de continuar a haver por a√≠ gente que ainda lhe d√° cr√©dito, nomeadamente os aficionados da descend√™ncia de Jesus via Maria Madalena, por quem, dizem, Ele se apaixonou perdidamente.
O poema que a minha criadora meteu no primeiro livro, assevera-me ela, foi a √ļnica coisa a atribuir √† c√≥pia daquela que √© a vida de C√©sar e de Clara cinco por cento de dignidade. E o mesmo poema foi tamb√©m a deixa para os autores inserirem poesia no livro do meio, o pontap√© de sa√≠da por assim dizer ‚Ķ, como se toda aquela l√≠rica de poetas famosos fosse uma poderosa lix√≠via capaz de branquear tantos disparates no tal livro entremeado, nascidos em cabecinhas ocas e empenhadas em expor obra de terceiros ao rid√≠culo, obra que, al√©m de tudo, por n√£o ter sido publicada, nunca poderia ser conhecida do p√ļblico. Muito menos deveria ter sido parodiada pelo livro do meio. A par√≥dia n√£o foi feita √† homofonia e ao conte√ļdo de t√≠tulo semelhante de um outro livro, mas sim √† escrita de outrem. Neste caso, da minha criadora‚Ķ Foi para isso que serviram as runas do velho professor caqu√©ctico; para revelar ao mundo o que o mundo nunca houvera visto, as cifras de um romance ca√≠do em desgra√ßa por a autora ser uma Z√©-Ningu√©m perdida numa terra de ilhotas e tamb√©m pelos concertos l√ļbricos que, tanto eu como a Clara na vers√£o Lilicas, d√°vamos na cama, onde romancistas curiosos gostavam de nos destapar os len√ß√≥is. A Clara e as amigas, com as cartas de Tar√īt numa farsa de adivinha√ß√£o, nunca foram t√£o longe, apesar de as banalidades ditas por uns e por outros serem id√™nticas.
Agora digam-me lá, mamã e senhores da editora que me atirou ao lixo e me resgatou a seguir, se sou o débil mental que Vossas Excelências apregoam por aí?
A m√£e diz, apesar de tudo, ter gostado de me ver no livro do meio. Refletindo, sim, mas despido de tantas coisas negativas como as que ela me p√īs √†s costas no dia do meu anivers√°rio, quando me recusei a estar com a Clara depois de ela j√° me ter chateado o bastante para eu inventar um jantar com os mi√ļdos. No ano anterior tinha engendrado uma reuni√£o de condom√≠nio, que nunca aconteceu‚ĶA mam√£ riu bastante com as minhas novas charadas. Al√©m disso, no livro do meio, entre outras coisas, de fot√≥grafo amador transformei-me em profissional, de C√©sar passei a Gabriel, o anjo, conquanto o trabalho, quase todo ele, seja uma tortura, √† excep√ß√£o da fotografia.
Depois, de máquina a tiracolo e ao serviço de um antiquário, o amante da Lilicas, tive de viajar de norte a sul do país para conseguir boas fotos. Devo, por obrigação, ter uma boa relação com o homem. Até por, na obra anterior, na primeiríssima, o antiquário ser meu primo e um ex-assaltante de casas devolutas, para além um excelso ladrão de obras de arte.
Tenho ent√£o de continuar neste romance. Daqui a pouco vou jantar com a Sarita, a minha velha esposa, bem como com a turba abancada l√° em casa. N√£o sem antes dizer o que andei a fazer na minha aus√™ncia: oficialmente fui a Coimbra a uma exposi√ß√£o de fotografia, no Alfa das 7h30, sozinho com os meus apetrechos de trabalho e com os pensamentos acerca de mim. Por ter j√° vivido tantas perip√©cias, sobretudo com mulheres a quem atraio como o mel atrai formigas, torno-me muitas vezes no objeto da minha pr√≥pria reflex√£o. Tenho l√° alguma culpa de ser bonito? Tenho l√° culpa de despertar tanto interesse √†s mulheres? Isto de se ser a encarna√ß√£o da beleza √© uma maldi√ß√£o. N√£o h√° feiticeiro no universo capaz de a esconjurar. S√≥ se me finar como queria a minha m√£e de fic√ß√£o, a primeira, a √ļnica, a que conhece tanto a cor do meu ranho em beb√©, quando fui para Angola ao colo da Dona Josefina, como aquela que sabe com quantas mulheres coitei ao longo, tanto dos meus vinte e oito anos de vida no livro do meio, como dos meus quarenta e cinco no primeiro. O tempo e a idade em livros n√£o interessam mesmo para nada. Ah! Coitei! Bela palavra, grande ato, no pret√©rito perfeito do indicativo! E como eu gostaria de, de hoje em diante, na hora em que em a√ß√£o entra a diferen√ßa de um homem sobre a mulher, em vez de se usarem eufemismos t√£o desajustados como ‚Äúfazer amor‚ÄĚ, ou dar uma ‚Äúqueca‚ÄĚ, se gritasse bem alto: √ď Br√≠gida, √≥ Maria Am√©lia, √ď Joaquim, vamos coitar?! Mas, aten√ß√£o!... √Č s√≥ um exemplo e nunca uma proposta de orgia, como o leitor, conhecendo-me t√£o bem e tendo-me como um grande amante de sexo, especialmente quando tinha o nome de C√©sar, poderia, desavisado e sem a antecedente explica√ß√£o, ser levado a pensar.
Antes de dizer com min√ļcia por onde andei, tenho um desejo a formular ao leitor, a quem, sobre esta coisa do coito, pe√ßo encarecidamente que passe a palavra a amigos e conhecidos. O meu maior sonho √© o seguinte: depois de tantas perip√©cias, inclusive no caixote do lixo de uma editora, desejo que o verbo coitar, o coito e todos os derivados fa√ßam escola por tudo o mundo, e que, quando algum estudioso da evolu√ß√£o sem√Ęntica da fornica√ß√£o em geral tratar do coito e dos coitados, fa√ßa alus√£o, com remiss√£o inclusive para este romance, √† Escola de C√©sar/Gabriel, um gram√°tico do sexo que viveu‚Ķ ‚ąí esperem um pouco que tenho de perguntar √† mam√£ o meu prazo de validade‚Ķ ‚ąí ela n√£o quer dizer, para a surpresa ser maior quando tra√ßar o resto do meu destino‚Ķ Fica, pois, assim.
Enquanto toda a gente me julgava em Coimbra, fui, como j√° revelei, pedir um ‚Äúempr√©stimo‚ÄĚ ao meu dinossauro maternal. Trata-se de uma mulher do outro livro, a quem os parodiantes passaram por cima. Talvez s√≥ lhe tivessem ido buscar o ar roli√ßo de mulher do campo‚Ķ A funda√ß√£o e a numism√°tica atravessam tempos de crise, depois dos pequenos rombos formigueiros que lhe tenho aplicado‚Ķ Por outro lado, o meu patr√£o antiqu√°rio desviou parte dos meus honor√°rios com as fotografias para um empreendimento secret√≠ssimo (convidou-me at√© para um cargo importante ‚Ķ) que, confidenciou-me, vai revolucionar o mundo. Mas prometi segredo. Por isso n√£o posso adiantar mais nada‚Ķ
√Č claro que o pre√ßo do meu financiamento no Banco Ambrosiano foi um coito r√°pido com a minha m√ļmia.
Depois, ainda tinha de passar em casa da Clara, envolvida na altura, e j√° como se tivesse tido a premoni√ß√£o do meu desejo quanto ao coitar, num tratado sobre a mat√©ria, particularmente sobre as nossas vidas enquanto exemplo vivo e ilustra√ß√£o da obra. Por causa das √ļltimas desconfian√ßas dela relativamente √†s minhas andan√ßas sexuais por a√≠, quis sussurrar-lhe tamb√©m umas palavrinhas‚Ķ
Mas, antes, hesitei um bocado…
Às vezes, quando me lembro da Clara, sinto-me perdido no dilema do ovo e da galinha. De facto, não sei quem começou primeiro. Mas acho que fui mesmo eu… Aliás, posso ter sido, e fui, muitas vezes, vítima de assédio, tanto feminino como masculino… Contudo, no caso dela, dei o pontapé de saída quando falei com o Y sobre o assunto. Só que ela levou demasiado a sério a minha cara de anjo, a ponto de ficar encandeada por mim como se eu fosse um semáforo. Na realidade a minha vida está condenada a cruzamentos…
Depois, foi o que todos j√° sabem.
Hoje, contudo, a rapariga mostrou-se já, pareceu-me, embora possa estar enganado, mais tolerante com o meu vocabulário erótico. Até porque eu, em uma ou outra ocasião, abrindo caminho para a Escola de César/Gabriel acerca do coito, em lugar de usar com tanta frequência as parábolas de antigamente, fui mais científico e usei com rigor o coito e seus derivados. Nunca disse frases como aquela: ó rapariga, és boa como o milho! Também, na altura, estava com um bocado de pressa, por causa do compromisso com a minha nova mulher, e por isso fui bastante mais incisivo na ação do que na gramática...
No fim, quando acab√°mos, est√°vamos ambos com cara de dois felizes coitados, pudesse eu, embora, n√£o ter conseguido desvanecer-lhe totalmente da cabe√ßa as desconfian√ßas que, sobretudo um certo bilhete de uma tal Lilicas Cl√°udia, lhe ‚Äú meteu‚ÄĚ l√°, para mal dos meus pecados.
Apesar de tudo, ela, a Clara, at√© j√° se preparava para passar o fim-de-semana comigo. Mas troquei-lhe as voltas. Disse-lhe que tinha de ir visitar os mi√ļdos na minha identidade de C√©sar, e que a minha m√£e tinha vindo de Paris. A verdade, por√©m, era outra, a tal nova mulher‚Ķ
Agora devo ir para casa, regressar aos vinte e oito anos do romance do meio em que sou casado com Sarita, a quem o velho professor assustou demasiado com a minha doen√ßa. O jarreta, como se devem lembrar, √© o homem da gabardina sebenta cor de rato, que, segundo a Lilicas, come√ßara por ser cinzento claro. Desta mesma cor era tamb√©m a gabardina de uma das minhas ex, a Carolina Woman in red, embora nunca tenha chegado ao ponto de ficar rata com o surro como aconteceu √† do velho. A do homem passou a ser um trapo cuja lavagem ele impedia a todo o custo. Recorria sempre a um estranho ardil,  dizendo que o farrapo tinha sido banhado numa subst√Ęncia que o tornava invulner√°vel a todos os perigos, e entrava at√© em p√Ęnico quando algu√©m tentava meter a gabardina na √°gua: era com medo de ficar com uns c√≥digos de decifra√ß√£o de charadas que guardava no forro do albornoz destru√≠dos. E tudo isso por causa de um elixir cuja descoberta andava a tentar h√° tempos sem atar nem desatar.
Quem for dado a supersti√ß√Ķes como o velho professor, s√≥ o facto de a cor da gabardina ser a mesma da gabardina de Carolina o deveria deixar como uma barata tonta tal como eu fico ao lembrar-me da Woman in red ‚Ķ. Esta √©, em todos os romances em que eu possa entrar, uma das pessoas capazes de deitar por terra o meu prest√≠gio de anjo ser√°fico. A Carolina seria um c√≥digo vivo de desmistifica√ß√£o dos segredos de Gabriel muito mais poderoso do que as milhentas chaves que o velho professor possa trazer √†s costas. Tamb√©m, transportar no forro do sebento farrapo os c√≥digos de decifra√ß√£o dessa caterva de manuscritos espalhados por a√≠ n√£o √© muito boa ideia! Imagine-se que, com as proezas dele, quando entra em del√≠rio e fica a falar aramaico √† custa de plantas arom√°ticas do g√©nero da Mimosa Hostillis, a Jurema do interior √°rido do Brasil, algu√©m se lembra de lhe deitar um balde de √°gua pela cabe√ßa abaixo julgando-o embriagado! A Humanidade perderia, decisivamente, a grande hip√≥tese de desvendar os segredos ainda ocultos do Universo. Que preju√≠zo incalcul√°vel!
Quanto a Clara, a rapariga, parece-me, esfor√ßa-se na escrita. Sobretudo nos bilhetes que me escreve quando me chama Montanha Russa, ou, para ser mais erudito e na senda do latim, Montan√ęa, ficando o ‚ÄúRussa‚ÄĚ para j√° assim,  at√© a minha criadora vasculhar l√° no dicion√°rio de casa um nomen  adjectivum que se lhe aproprie. E, com protagonistas iguais a n√≥s, com a Lilicas pelo meio de botas esporadas, cintos, cabedais e carrilh√Ķes id√™nticos aos do Convento de Mafra, n√£o me admiro que o novo tratado da Clara seja mesmo um renovado kama sutra, como aquele de uma tal Carla‚Ķ A Clara chegou ao ponto de criticar at√© o kama sutra original quando um dia fui a Lisboa sem ningu√©m saber consultar um m√©dico por causa da minha palidez, uma palidez, afinal, reativa e devida a nervos acumulados. Nessa altura fiquei ent√£o, diz-se, em casa da mulher, da Carla, que a minha criadora, a mam√£, afirma ser nada mais, nada menos do que a Clarinha. Os senhores do romance do meio √© que lhe modificaram (pouco, √© certo) o nome. Foi para gozarem ainda mais com a Clara por ela ser t√£o pudica na cama quando, dizem, n√£o passa de uma assediadora sexual de homens lindos como eu.
Conven√ßo a mam√£ de que n√£o posso ter ficado em casa de ningu√©m contra a minha vontade. N√£o gosto de dormir fora, longe dos Cristos do meu quarto que me protegem e t√£o bem sabem guardar os meus segredos de alcova. Naquela mudez pregada na cruz, um deles, um dia, serviu-me para guardar um pouquito de droga quando regressei de uma viagem √† Tail√Ęndia. O interior da imagem, obviamente, era oco. J√° o interior de Jesus √© o interior mais cheio que conhe√ßo na minha ignor√Ęncia de anjo‚Ķ E eu aproveitei a estatueta como se ela fosse um guarda-joias ou um pequeno ba√ļ onde se guardam coisas de elevado valor como o p√≥ branco.
Quanto à dormida longe do meu edredão, a mamã diz-me para ter paciência....

Continua
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« Responder #20 em: Abril 10, 2022, 22:57:45 »

E a saga continua...
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #21 em: Abril 11, 2022, 22:23:45 »

Impar√°vel, na verdade....


No mundo n√£o h√° vida mais atribulada do que a vida de personagem. Ent√£o a minha e a da Lilicas nem se fala, cada qual com as suas raz√Ķes para  se ser um verdadeiro Cristo das letras. E, percebendo embora os meus queixumes, diz a mam√£ que daqui a pouco tenho de dormir mesmo em casa da Sarita. Remata, entretanto, afirmando ser o ‚Äúpouco‚ÄĚ aqui muito mais relativo de que em todos os outros lados. A minha criadora disse-me, numa conversa repleta de sigilo, que j√° sabe o meu destino. Contudo, n√£o o pode ainda revelar porque, de outro modo, sem prepara√ß√£o pr√©via, seria um aut√™ntico apocalipse. N√£o para mim que, de papel e vulner√°vel a golpes baixos, j√° me habituei a encarar a hip√≥tese de me esfarelar na √°gua, morrer no fogo ou ficar engelhado como uma rodilha. Talvez isso aconte√ßa quando as papudas m√£os de algu√©m amarfanharem as p√°ginas onde me encontro, sabendo embora que, no borr√£o de tinta criado pela mam√£, estar√° um anjo de grande valor no para√≠so‚Ķ Portanto, para n√£o assustar com desgra√ßas futuras quem quer que seja, ponto final‚Ķ Era s√≥ ponto final e n√£o retic√™ncias, mas o leitor tamb√©m j√° tinha percebido.
Respondo-lhe que está bem. Contudo, também acho, já vai sendo tempo de deixarem de me pisar os calos. E ela, para me contentar, diz-me que por nada deste mundo vai deixar que me façam mal ou me matem, como ela própria fez no primeiro romance só para fazer valer a tese da Clara. Mulheres, é o que é… Quando o assunto é homem, mancomunam-se umas com as outras e são umas chatas.
N√£o √© o caso da minha Sarinha. Ao tirar-lhe pela primeira vez uma foto, captei uma aura luminosa de um lil√°s vivo e com aroma a santidade. Essa foi a principal raz√£o da minha escolha, quando decidi que aquela mulher seria minha, juntamente com o solar da beira-rio e as amostras gratuitas de rem√©dios para atenuar as dores provocadas pela minha h√©rnia a ponto de me deixarem imprest√°vel para participar com Sarita no fetiche do sem√°foro, que t√£o feliz a deixa. A minha mulher, toda ela √© luz, uma luz refratada em todas as cores,  como um imenso arco-√≠ris no c√©u onde a minha e a vida dela foram talhadas para, aqui na terra, se conhecerem e completarem uma √† outra. Mal comparado, √© claro, entre mim e a Sarita h√° uma similitude id√™ntica √† de Jesus, o meu primo, e √† de Maria Madalena, a minha prima por afinidade, embora a grandeza desta seja maior do que a da minha mulher. A santidade √© tanto mais grandiosa quanto maior for o pecado. E, apesar de o livro onde nos meteram pela segunda vez dizer que ela tinha vindo de uma s√©rie de romances falhados, isso √© a pior das mentiras. A Sarita caiu-me nos bra√ßos num estado t√£o virginal como se tivesse acabado de nascer. Eu, nessa medida, assemelho-me a um enfermeiro parteiro. Foi como se a segurasse nos meus bra√ßos nesse nascimento, com a firmeza que mostrei quando decidi casar com ela, uma mulher j√° um bocadito velho, como diziam os meus amigos. Isso dos amores mal-amados era com a Clara. A Clara √© que tinha sido casada com um gay. E, pelos vistos, como ela pr√≥pria me contou, quanto a homens era cada cavadela sua minhoca. Um pior do que o outro. At√© a sua vida desembocar na minha. Pudessem os nossos tempos em comum n√£o ter sido um o√°sis, pelo menos flores, tanto eu como ela, tivemos bastantes. Sobretudo eu. Sem falar nas que eu trazia da aldeia, rosas, senhor!, para enfeitar a jarra da cozinha,  antes disso, ou depois disso, tive um ramo √† porta de casa quando a Clara, na vers√£o mais moderada de Lilicas, me quis enviar simbolicamente para o reino dos mortos,   na altura em que me p√īs les fleurs du mal na caixa do correio com uma cruz desenhada num papel‚Ķ J√° para n√£o falar da mam√£, que, para fazer o jogo dela, enviou para o meu funeral, o tal embuste liter√°rio, uma colec√ß√£o de mulheres enfeitadas com outros tantos ramos, quando todas as minhas amantes se foram inteirar in loco da veracidade da minha descida √† tumba.
N√£o sei se ter√° sido oportuno falar nisso agora, tendo, como tenho, um problema entre m√£os para resolver,  se n√£o forem mais‚Ķ Mas a mam√£ diz-me, entre v√°rias coisas, que n√£o posso apresentar-me em casa dizendo simplesmente, ‚Äúol√° querida, cheguei, boa noite aos presentes e ausentes, os que conhe√ßo e os que ainda me h√£o-de ser apresentados no decorrer do romance!‚ÄĚ Depois de ter andado fora todo o dia, com a minha m√°quina especial comprada com o primordial intuito de fotografar auras, tenho de ter uma justifica√ß√£o qualquer. Tenho, diz ela, de regressar de Coimbra, nem que seja com a foto de uma barata fossilizada no miolo do aparelho para o livro do grande chefe antiqu√°rio. Mas, de momento, n√£o me ocorre nenhuma desculpa razo√°vel para dar √† Sarita se chegar de m√£os vazias‚Ķ
A mamã diz que me vai ajudar e manda-me a casa de uma amiga fotografar um piano. O instrumento, não sendo nenhum objeto religioso do tempo das cruzadas, é no mínimo uma raridade. O fabricante foi a Casa IBACH de Berlim e, daquele modelo, onde também existe a inscrição BARMEN, só há três exemplares no mundo. Um deles encontra-se num museu em Lisboa, e o outro, vejam só, era de onde saíam os acordes das sonatas de Wagner, com que Hitler se deliciava entre os intervalos dos coitos com Eva Braun e o tratado de destruição massiva dos judeus ao longo do período negro do anti-semitismo alemão.
Além do problema das fotos, a mamã diz-me o seguinte: quer eu, quer a Sarita, estamos fartos de cometer inconfidências pelo muito do que impensadamente dizemos. Tendo ficado mais ou menos pré-estabelecido que as personagens seriam de todo o lado e de lado nenhum, já falei demais quando referi a aldeia das Sete Cabecinhas. A Sarita já fez o mesmo ao mencionar Portugal como o sítio onde sempre sonhou viver um dia com um anjo como eu, Gabriel para uns, César para outros e, além do mais, um mulherengo sem remédio.
Remédio, remédio é o que agora a nossa criadora não tem para sanar os nossos deslizes. Já toda a gente sabe onde a nossa história tríplice de queridas e requeridas personagens decorreu, e ninguém vai tentar apagar quanto de inconfidente já dissemos. Além do mais, este país também merece por cá coisas grandiosas: o nascimento de uma criança índigo, uma sátira em tribunal com a acusação de escravatura, um lavar de roupa suja tão encardida!
Mas, talvez seja tempo de ir andando e dar vez à personagem seguinte. Pelos meus cálculos e utilizando o mesmo critério do princípio, deve ser a Clara. Primeiro porque tem de se dar primazia à antiguidade. Figuras do paraíso e do céu como Gabriel, Lilicas e Sarita, também são capazes de ceder a passagem a uma terráquea vingativa quando se irrita. Errat human est… E, como já atrás disse a propósito de Maria Madalena, quanto maior for o erro mais sublime será o arrependimento, sob o qual, ao longo dos séculos, têm nascido as maiores santidades.
Contudo, antes de ver que aves de arriba√ß√£o chegaram l√° a casa para jantar e dormir, vou esconder-me junto com o meu todo terreno, recorrendo aqui e pela primeira vez ao sobrenatural. Pois se at√© um professor miser√°vel, com uma gabardina a tresandar a sebo, √© capaz de aceder a conhecimentos t√£o profundos de l√≠ngua aramaica, como os que tem revelado nas suas viagens ao passado, n√£o poderei eu, um anjo de alta hierarquia, ter o dom da invisibilidade para melhor conhecer a Humanidade e as suas aselhices? √Č s√≥ mais um prod√≠gio dos muitos que me foram concedidos por Deus. N√£o se esque√ßam, se fui concebido no coro de uma igreja, com a b√™n√ß√£o de anjos e santos,  √© porque havia nisso um prop√≥sito. Isso, na altura pr√≥pria, ser√° revelado‚Ķ N√£o poder√£o restar d√ļvidas de que o mundo liter√°rio ficaria definitivamente mais pobre se personagens como C√©sar/Gabriel!... e Clara/Lilicas/Sarita nunca tivessem existido.
Agora fico na minha invisibilidade, a ver todas as movimenta√ß√Ķes da terra, do ar e at√© do rio, n√£o v√° andar por l√° o meu bom amigo Santo Ant√≥nio a pregar aos peixinhos que √© feio parodiar o que pessoas desconhecidas como a mam√£ escrevem para as expor ao rid√≠culo.

Continua.
Leiam também "O EStranho Fascínio da Internet, mas este terão de o comprar, porque de borla só mesmo este....

« Última modificação: Abril 12, 2022, 22:52:04 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #22 em: Abril 19, 2022, 23:07:13 »

Não é fácil ser personagem.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #23 em: Abril 20, 2022, 22:25:42 »

Ent√£o estas, coitadas!

‚ą©

César

Ent√£o quem sou eu? Pois sou um homem vers√°til que serve todos os interesses.
Este breve lapso, enquanto tive de assistir à verborreia dos outros, deve ter sido por causa de ser um bocado sisudo, apesar de bonito como o Gabriel. A nossa geminação não é falsa. Fui concebido no mesmo ato de onde resultou Gabriel, embora, depois, ao longo dos romances da nossa vida, eu tivesse sido adoptado por uma escritora de meia tigela e o Gabriel tivesse ido parar a uma oficina de livros onde umas senhoras e uns senhores lhe deram um destino literário bem diferente do meu. O Gabriel nasceu para ir longe… Já a mim, Deus reservou-me a dita de ser apenas um homem com cara de anjo, enquanto ao mano lhe concedeu esse atributo por inteiro… Critérios, que não se devem discutir, como diz, a propósito de Deus, José Saramago num dos muitos romances que o levaram ao Nobel.
Bom, mas, como j√° sabem, n√£o sou de muitas falas. Por isso vou cingir-me ao essencial.
Posso até estar enganado, mas o Gabriel ainda é capaz de surpreender muita gente… Como sou o seu espelho, conheço-lhe parte do íntimo, apesar de haver qualquer coisa nele que me escapa completamente…Razão tem a Clara quando diz que não me consegue fixar os contornos do rosto, e que tem medo de não me reconhecer se me encontrar na rua fora de contexto… Pois como não lhe haveria de acontecer isso se, nessas alturas é o Gabriel que finge ser César enquanto eu ando longe, em pensamento, a vaguear pela memória de todas as mulheres da minha vida, a coitar com elas, ao menos inspirando-me em cada uma delas, já que a Clara, na cama, em vez de ser a boazona que toda a gente anda por aí a apregoar, é uma desenxabida que me obriga a recorrer à imaginação para conseguir com ela um coito com alguma dignidade.
Verdade, verdade, n√£o ressona, como a irm√£ dela, a Lilicas, que veio parar √† minha alcova por via de um romance a que agora a minha criadora chama o ‚Äúromance do meio‚ÄĚ. Essa ronca como um escritor feio, barrigudo e, al√©m do mais, com maus f√≠gados, eventualmente por n√£o ter nas letras o sucesso que julgava merecer, nem vender milh√Ķes de livros como a senhora do Harri Potter.
Quanto à Clara, não temos lá grande afinidade de gostos. Enquanto ela adora o preto e fica ofuscada com o amarelo, eu gosto do vermelho, cor que ela só usa para me agradar, apesar de já me ter dito uma vez que, metida num vestido dessa cor, se sente como uma mulher da vida a atrair os clientes à beira da estrada.
Ela poderia, simplesmente, ter dito, ‚Äúputa‚ÄĚ, mas, como √© doida por eufemismos, inventa frases bonitas para me impressionar, j√° que, quando n√£o √© o Gabriel a fazer-se passar por mim, eu, terr√°queo dos quatro costados, solto a l√≠ngua at√© ao mais graduado dos palavr√Ķes, enquanto ela se limita a inventar literatura de cama para almas pudicas se deleitarem. A minha linguagem √© um bocado mais forte‚ĶGosto assim. Tanto como gosto do vermelho. Al√©m de que tudo quanto digo √† Clara na cama, durante o, o‚Ķ, como aquelas tiradas do milho, √© puramente enf√°tico. Trata-se de um gongorismo barroco de quem acha n√£o haver nada para dizer nessas alturas. O amor, aquele das musas e dos poetas, toda a vida foi uma grande treta. O dito amor n√£o me deixa nem mais nem menos erudito do que aquilo que sou ou deixo de ser em todo o lado. Inclusive debaixo do meu edred√£o.
N√£o sei se isto j√° foi dito aqui por mais algu√©m, mas, como j√° viram, este romance √© uma enorme balb√ļrdia, em que a l√≥gica √© id√™ntica √† da banda desenhada: um c√£o pode ficar esmigalhado no ch√£o como um tapete sob os rodados de um cami√£o, para, logo a seguir, emergir para a vida com todas as gotas de sangue no lugar devido. Portanto se n√£o lhe perceberem a inten√ß√£o n√£o faz mal, √© porque deve ser mesmo assim‚Ķ
Quanto ao amor, apesar da paix√£o freudiana pela minha m√£e, n√£o sei o que isso √©, como, pelos vistos, ela n√£o sabe. At√© pela forma ligeira como se livrou do meu pai e pela alcunha de Maria Madalena que eu pr√≥prio, baseado em factos reais, lhe pus, com muita pena minha agora que nem eu, nem ela, nem o resto das personagens temos sossego. Mesmo o meu padrinho, aquele que esteve na origem do meu nascimento, quando rasgou a traseira das cal√ßas nas obras do campan√°rio, foi chamado n√£o sei quantas vezes √† cola√ß√£o no livro do meio por causa da in√≥cua ‚Äúporra‚ÄĚ que proferiu na altura de um malfadado rasg√£o nas cal√ßas. S√≥ para chatear, mais nada! E pode a minha criadora ser uma escritora de um escal√£o inferior das letras, mas v√™-se claramente que era mesmo s√≥ para gozarem com todos n√≥s, incluindo com ela. Tantas vezes escreveram a palavra ‚Äúporra‚ÄĚ que n√£o me atrevo a mencion√°-la sen√£o aspada. Os senhores do romance entremeado disseram n√£o ser grande voc√°bulo para obras liter√°rias, e, por isso, n√£o quero manchar esta par√≥dia do romance roubado. Mas l√° que o tal cal√£o mal-educado lhes encheu a boca ao longo do primoroso livro da broa √© verdade! Foi como se estivessem todos a deliciar-se, como eu me deliciei com o pudim franc√™s em casa da Clara, quando tentei entros√°-la na economia da luz el√©ctrica desligando-lhe as l√Ęmpadas acesas superfluamente. Isso tudo acontecia no tempo em que eu e a rapariga coit√°vamos esporadicamente. Era quando ela ainda desconfiava pouco de mim e enfeitava a jarra da minha cozinha com rosas, nos meus momentos de encarna√ß√£o masculina da Rainha Santa Isabel. Era tamb√©m quando eu trazia aqueles p√£es enormes da aldeia, cujas c√īdeas a deliciavam na mesa da cozinha, onde com√≠amos a sopa fresca das quintas-feiras feita pela mulher-a-dias e ela apanhava um frio de morte nas costas nuas por causa do metal das cadeiras. Nessa altura andava eu na recolha de apontamentos para um livro que sempre quis escrever. Compilava as minhas recorda√ß√Ķes, tentando contactar as pessoas da minha vida at√© √† idade real que tenho, aquela que s√≥ assumo quando estou distra√≠do. N√£o sei porqu√™, tiro sempre no m√≠nimo um ano aos meus Invernos, porque quem tira grandes nacos de tempo √†s Primaveras costumam ser as mulheres‚ĶE eu gosto de estabelecer diferen√ßas‚Ķ
Tamb√©m a Lilicas, mais um dos meus flirts, desta vez com algo simultaneamente de para√≠so e de inferno, al√©m de aldrabar no nome, diz quem a conhece desde o tempo das fraldas que j√° lhe viu tr√™s certid√Ķes de nascimento. E fiquemos por aqui‚Ķ Quero, sem perda de tempo, falar do manuscrito que acabou por ir parar ao caixote do lixo de uma editora:
Nesse Ver√£o, convidei a Clara para ir comigo desenterrar, numa aldeia remota,  a minha viva professora prim√°ria reformada,  por quem tive uma paixoneta adolescentina. Era a festa da aldeia das Sete Cabecinhas. Ela tinha ensinado l√° as letras a raparigas e rapazes da minha idade, mas nenhum t√£o lindo como eu. Foi ela pr√≥pria a confirm√°-lo perante a Clara. Eu continuava bonito como sempre ‚Äď disse ent√£o ‚Äď apesar de inicialmente n√£o me ter reconhecido, quando me fez engolir em seco ao pensar na Clara como a minha nova companheira depois de me ter divorciado da Patr√≠cia. Na verdade, embora a Clara n√£o estivesse tuberculosa, sempre a vi mais como uma esp√©cie de dama das cam√©lias, a quem, uma vez por outra, levava aos concertos da funda√ß√£o, onde ela nunca tossia por muito frio que o ar condicionado lan√ßasse na sala. T√£o pouco batia palmas quando n√£o devia entre os andamentos da m√ļsica. Por isso, tive de informar a minha antiga mestra da real situa√ß√£o da Clara, s√≥ uma amiga, respondendo-lhe de rajada √†s perguntas que ela me fazia do mesmo modo sobre tudo e mais alguma coisa: onde trabalhava, a idade, filhos, porque √© que a minha m√£e n√£o tinha ido comigo e por a√≠ adiante. Nesse momento desca√≠-me e pus em cima da mesa, metaforicamente falando, o meu bilhete de identidade. A Clara, um dia, igualmente enquanto figura de estilo, com as manias dela de √Āgatha Christie, tamb√©m tentou ‚Äúfurtar‚ÄĚ o meu BI com o fim ind√≥mito de decifrar pelo menos um dos meus mist√©rios, a idade. Os outros subterf√ļgios, sobretudo quantos se relacionavam com o feminino e que me referenciavam como um grande mulherengo, s√≥ muito mais tarde os descobriria, e, ainda assim, com a ajuda de terceiros.
Encontr√°mos a velha professora numa casa cheia de franjinhas de pl√°stico √† porta como se fosse um talho de carne fresca. Devia ser por causa das moscas dos burros e das moscas de Ver√£o. E foi tamb√©m a√≠, dentro da casinha, a coberto da investida dos velhacos insectos, a p√°ginas tantas, que a minha querida professora nos presenteou com um mel√£o fresco e com um vinho delicioso, que alegraram a alma de quem a tinha. Eu, pelos vistos, sou pouco almado‚Ķ Contudo, ao meu corpo em geral e √†s minhas papilas gustativas em especial a merenda soube maravilhosamente. A receita da mestra, o vinho e afins, depois, num outro livro, foi usada para dar de beber a um professor amalucado, a uma luciferina Lilicas e a um ex-inspector reformado, convocado √† revelia do sistema para solucionar um crime de morte. De facto, embebedaram mesmo a rapariga com tanto licor. J√° os outros comparsas ficaram mais ou menos s√≥brios, por estarem habituados a emborcar doses superiores √†quelas na maior parte das vezes. No livro do meio, numa reuni√£o com uma mulher, a bruxa (sessenta por cento a minha professora) levada a cabo com o firme prop√≥sito de o professor regredir √† condi√ß√£o de homem apto a conhecer coisas sobre o per√≠odo aramaico, uns e outros evocaram ainda as sequelas que tinham ficado na curandeira por causa do inspector. Tudo por, um pouco antes da reforma dele, a bruxa se ter prestado a um papel na arte de entretenimento. Tinha tirado a roupa ao som de m√ļsica e por causa disso tinha sido muito maltratada.
Vejam s√≥, a minha professorinha a morar numa casa com franjas √† porta e uma curandeira a viver numa semelhante, embora t√©rrea. A arquitectura j√° teve melhores dias em Portugal. √Č dif√≠cil entender o facto de as personagens do romance interm√©dio terem ido desembocar na casa da senhora. A menos que ela fosse dotada de personalidade dupla, ou tripla, e se dedicasse, de dia a ensinar criancinhas como eu,  e de noite a entreter homens a bra√ßos com graves problemas de erec√ß√£o, eventualmente suscet√≠veis de cura por via de umas ervas milagrosas ou de bruxedos tirados do Livro de S. Cipriano. Deve ter sido por isso que a minha querida mestra nunca se casou. N√£o se entende bem a coincid√™ncia entre as duas mulheres, ao menos na quest√£o das bebidas. Mas, haver√° coincid√™ncias por a√≠, nesse mundo de Deus, o excelso padrinho do meu irm√£o Gabriel? E como se pode entender que a C√©sar, ou seja, a mim pr√≥prio, apenas tenha calhado para padrinho um homem com um problema entre m√£os no dia em que rasgou as cal√ßas no traseiro sendo n√≥s g√©meos? Foi, por certo, descrimina√ß√£o do Alt√≠ssimo. Sempre ouvi dizer que os irm√£os g√©meos nunca deviam ser separados‚ĶDeve ter sido mesmo para o Gabriel, na sua delicada condi√ß√£o de anjo divino, ter acesso a conhecimentos imposs√≠veis de adquirir de uma maneira mais humana‚Ķ
Mas eu, embora terreno, calado e sereno, n√£o venho para aqui p√īr ao l√©u os podres da minha vida. Sobretudo se as enzimas e os fungos salpicarem terceiros com os resqu√≠cios de mim pr√≥prio, que, como toda a gente sabe, comecei por ser um feio cad√°ver bem diferente do tempo em que a vida me pulsava atrav√©s dos poros com a for√ßa de um vulc√£o em fren√©tica atividade.


Continua.

Leiam também "O Estranho Fascínio da Internet", mas este tem de ser comparado. Que diabo, preciso de ganhar um dinheirito para tomar café de vez em quando.
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outono


« Responder #24 em: Abril 30, 2022, 18:16:05 »

C√©sar p√īe os pontos nos is, sem papas na l√≠ngua.
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« Responder #25 em: Maio 01, 2022, 23:54:00 »

N√£o deixa nada em branco.....

continuação

César


Diz-se por a√≠ que a Clara, depois de eu lhe come√ßar a cortar as r√©deas, se fartou de me chamar amoral, por causa de eu ter uma cole√ß√£o de n√ļmeros de telefone, e de presentes simb√≥licos oferecidos pelas minhas amantes quando n√£o tinham dinheiro para me dar nos per√≠odos de fal√™ncia absoluta. Igualmente ter√° afirmado que me √© indiferente a mulher com quem possa coitar. Dizia tamb√©m que me pare√ßo com um c√£o, apesar de eu presumir, com fortes probabilidades de n√£o me enganar, que essa mal√©vola suposi√ß√£o tem o nome de Carolina woman in red. Essa √© forte! Mas, apesar de tudo, um c√£o √© o mais fiel de todos os animais da cria√ß√£o, e eu, no fundo, tenho de entender isso como um elogio, uma esp√©cie de hino √† fidelidade, porque, perante uma mulher em cada momento, comporto-me sempre como um fidelis rafeiro, que nem sequer se d√° ao trabalho de atender os telefones quando eles entram em histeria colectiva. N√£o penso em nada mais.
A excep√ß√£o era a Clara‚Ķ De facto, com ela era obrigado a dar largas √† imagina√ß√£o sobre outras raparigas, para n√£o arriscar um coito desprovido de condimentos e impeditivos daqueles ahs! de prazer,  como quando se est√° a beber uma refrescante bebida numa noite de calor.
N√£o sei o que √© que o Gabriel tem andado por a√≠ a dizer da Clara. Mas √© bom n√£o se alongar muito porque a Clara √© um problema meu, conquanto o problema dele seja mais a Lilicas e Sarita‚ĶApesar de eu tamb√©m j√° ter tomado o lugar dele em v√°rias ocasi√Ķes, como fazem os verdadeiros g√©meos... Este romance √© uma orgia pegada, uma esp√©cie de cama para toda a gente. Aqui todos se podem divertir √† grande e √† portuguesa, sobretudo os leitores mais dados √†s coisas er√≥ticas, e que n√£o fiquem indignados por eu estar, num livro para toda a gente ler, a tratar de uma mat√©ria t√£o b√≠blica e com tantos adeptos em todos o mundo, possam embora os livros sagrados de uns e de outros ser diferentes.
Com a Lilicas j√° tive um petit dejeneur delicioso,  e com a Sarita fora aquela hist√≥ria do sem√°foro,  a que √†s vezes acho alguma gra√ßa nesta minha vida sempre em tr√Ęnsito, mas  √© bom ela n√£o se entusiasmar muito quando est√° comigo. Tem de se deixar de dizer que quer morrer em mim, ou frases do g√©nero na emin√™ncia do ou durante o orgasmo. De outro modo, um dia arrisco-me a v√™-la acordar derretida como chocolate mole, e eu s√≥ poderei sair da beira dela de escafandro. Mas o pior nem √© isso: a grande dificuldade seria como explicar ao Gabriel por que √© que ela tinha morrido nos bra√ßos, al√©m do mais em roupa interior, ou mesmo sem roupa nenhuma, como √© mais habitual. Ele que fique com ela! Mulheres j√° me chegam e sobram! Irra! Basta de ass√©dio! Por outro lado, Gabriel √© o marido da Sarita, um homem jovem a quem os donos do romance do meio fizeram uma pl√°stica ao bilhete de identidade, tirando-lhe anos suficientes para perfazerem quase outra maioridade. Mas nem por ter apenas vinte e oito anos Gabriel √© mais bonito do que eu nem mais competente. Ele, at√© por ser casado com uma mulher vinda directamente da B√≠blia, com a lagartixa da Lilicas a tiracolo como ele traz a m√°quina fotogr√°fica, devia ser comedido nas palavras. Isto se √© ele quem anda a alimentar este cochicho sobre o outro eu dele pr√≥prio. Ele um anjo por inteiro, e n√£o apenas um homem que, de anjo, s√≥ teve direito √† cara! Mas n√£o‚Ķ Tudo n√£o deve passar de conversa de mulheres‚Ķ Principalmente da tonta da Clara. Como todas as outras, a Clara sempre bebeu o ar que eu respirava. Por mim seria capaz de passar uma tarde inteira com senhoras aborrecidas numa reuni√£o da Tuppwrere,  s√≥ para me comprar uns pl√°sticos onde eu pudesse guardar a sopa feita pela mulher-a-dias √†s quintas-feiras,  e que um dia azedou como a Clara azedou comigo. As saias s√£o mais dadas a falat√≥rios do g√©nero dizendo o que √© e o que n√£o √©. Incluindo a mam√£‚Ķ Mas, agora a mam√£ j√° aceitou v√°rias vezes ser desmentida por esta mistura de C√©sar/Gabriel quanto ao facto de, um e outro (podia dizer a trindade mas falta c√° um‚Ķ) serem acusados de muitas coisas que nunca fizeram, nem sequer em sonhos coloridos.
A Clarinha, depois, como j√° devem ter percebido, transformou-se num dem√≥nio. E eu, para n√£o chamar aqui mais entidades maquiav√©licas, vou chamar-lhe simplesmente Lilicas. √Č um bocado ao jeito dos senhores que a querem ver continuamente nos bra√ßos do ex-inspector,  a manejar os cintos e a fazer ranger os cabedais para ver se o homem sai, definitivamente, daquela er√©til apatia em que mergulhou no estrangeiro, nos manuais de hist√≥ria universal e ap√≥s uma aposenta√ß√£o prematura. A ser verdade quanto dizem do homem, aqui j√° n√£o se sabe o que √© verdade e o que n√£o passa de embuste puro, at√© eu, confesso, chame-me C√©sar ou Gabriel e imbu√≠do de uma profunda solidariedade s√≥ pass√≠vel de encontrar entre os homens, n√£o me importarei se a Lilicas vier a dar umas ‚Äúcoitadas‚ÄĚ com a criatura. N√£o sou invejoso, e gostava de o ver deixar definitivamente aquela atitude compulsiva de estar sempre a lamber os dedos quando tem de virar a p√°gina das revistas pornogr√°ficas, sobretudo porque elas, em princ√≠pio, meio e fim, s√£o de minha propriedade exclusiva. N√£o √© assim, mam√£?
Gabriel comungará certamente dos meus ideais terapêuticos para com o ex-inspector, e, mesmo a Sara, com o seu ar assexuado e jeito de rapaz, poderá, com tácita autorização do marido, contribuir para o milagre, depois se se levantar, como um Cristo ressuscitado, o morto que o homem tem no meio das pernas. A Sarita, a ser assim, transformar-se-ia numa espécie de realizadora de filmes ao jeito de Spielberg quando ordena peremtoriamente:
- Acção!
N√£o sei se j√° me estou a repetir por, eventualmente, todas as outras personagens terem referido quest√Ķes com as quais esteja a massacr√°-los de novo. Mas, quando h√° desordem em sua casa, leitor, √© capaz de encontrar, no meio da balb√ļrdia, por entre a mistura de pe√ļgas sujas e lavadas, copos para um lado, pratos para outro, um parzinho de coturnos certinho e, al√©m de tudo, sem estar roto? √Č claro que n√£o. Por isso, desculpe. Isso acontece-me a mim presetemente. N√£o sei de nada. A hist√≥ria de C√©sar resvalou para uma loucura desenfreada. Todos acorrem √† procura de coisas, manuscritos, roupas, lou√ßas e ba√ļs que tenham a ver com Cristo. √Č como se estiv√©ssemos em √©poca permanente de saldos, sobretudo quando se trata de rel√≠quias semelhantes √† t√ļnica Dele ou ao c√°lice da √ļltima ceia. V√™-se, por detr√°s desta procura fren√©tica, que os esquartejadores de romances mergulharam afanosamente na √©poca queirosiana. Deve ter sido para ver como o escritor tratava as suas m√ļmias. Tinham de extrair para o romance do meio um significado que fosse assemelh√°vel √†s andan√ßas de Cristo. Como o livro do meio n√£o passa de uma reciclagem feita por um batalh√£o de escritores sem imagina√ß√£o, todos precisavam de escrever com muita consist√™ncia e de deixar, o menos poss√≠vel, semelhan√ßas com o livro parodiado. Nenhumas, de prefer√™ncia. N√£o conviria muito deixar o livrito como uma esp√©cie de gato escondido com o rabo de fora. Mas aconteceu isso, apesar de tantos cuidados. H√° no livro do meio tantas coisas id√™nticas √† minha primeira vida!... A come√ßar na gabardina sebenta de um velho, a que uns misteriosos banhos qu√≠micos confeririam prote√ß√£o contra maus-olhados. Ela √©, na verdade, em tudo semelhante √† gabardina da Carolina, ao at√© √† da Clara‚Ķ E se num livro a pe√ßa de vestu√°rio era de bom gosto, no outro n√£o passa de um farrapo escanzelado como um c√£o. Tudo para chatear a mam√£! Acreditar√°, caro leitor em coisas t√£o estapaf√ļrdias como num banho de impermeabiliza√ß√£o contra maus fluidos? Se sim, ent√£o deve estar a necessitar urgentemente de uma boa terapia cerebral! Ou, ent√£o, deve precisar das mezinhas de uma curandeira inscrita no sistema fiscal para o curarem de uma doen√ßa semelhante √† da ‚Äúmorada aberta‚ÄĚ.
No meio de tanta loucura, deixem-me ao menos as imagens de Cristo intactas na c√≥moda do quarto, que o professor velhote andou tamb√©m a admirar quando se espantou com Jorge Lu√≠s Borges, em espanhol, antes de saber do defeito da obra. Tal como a Sarita tem fetiche por sem√°foros, eu sou louco por Cristos, que aqui talvez devessem levar letra min√ļscula por n√£o ter l√° em casa, como gostaria, um Cristo verdadeiro, se me excetuar a mim pr√≥prio. De facto h√° uns tempos a esta parte tenho vindo a sentir-me um aut√™ntico Cristo‚Ķ E deve passar-se o mesmo com Gabriel, ou n√£o fossemos n√≥s sangue do mesmo sangue e carne da mesma carne.
Continuo, todavia, sem perceber a raz√£o pela qual tanto se tem especulado sobre a inf√Ęncia de Jesus, s√≥ porque Clara, j√° transformada na serpente Lilicas, andou a dizer que a minha meninice deve ter sido a g√©nese da minha personalidade hipersexuada e distorcida, doida por todos os g√©neros de √≥peras l√ļbricas. N√£o era isso que ela comentava com o colega do escrit√≥rio, ao fim da tarde, depois de ter selecionado empregados e enquanto ambos tomavam a bica do dia? Mas, nessa altura, ela j√° estava totalmente azeda comigo. Por isso n√£o admira‚ĶN√£o sei o que quer tanta gente saber mais de Jesus e de mim pr√≥prio, quer me chame C√©sar ou Gabriel. A minha inf√Ęncia teve, como a Dele, m√£e e leitinho em vasilhas frescas. E se quanto a mim ningu√©m duvida de que tenha tido tamb√©m uma chupeta de borracha, ao fim de uns meses de chupadelas preta como breu e cheia de cot√£o, j√° quanto ao Menino Jesus, quem esteja no seu ju√≠zo perfeito nunca tentaria a decifra√ß√£o da Sua meninice atrav√©s de uma mama t√£o falaciosa como uma chupeta. Um Jesus que se preze, conhecedor de tudo e mais alguma coisa, nunca aceitaria ser enganado por uma mama t√£o seca.
Depois a vida do professor √© uma vida de doido. O homem est√° completamente maluco. Regressar ao passado e ver uma chupeta como o pontap√© de sa√≠da para descobertas in√©ditas sobre Jesus, s√≥ mesmo de algu√©m em estado adiantado de regresso ao passado. S√≥ uma deslavada meninice seria capaz de considerar a sua pr√≥pria chupeta como a mama artificial do Menino Jesus. E numa altura destas j√° poucas coisas que esse viajante do tempo diga devem ser levadas a s√©rio. O resultado de todas essas patranhas est√° √† vista: tudo culminou numa abomin√°vel trag√©dia, com sangue e fogo a sair pela boca de n√£o sei quantas metralhadoras e num livro que, num concurso de rid√≠culo, onde a S√°tira do Livro Roubado tamb√©m pudesse ter participado, o ganharia por unanimidade, mesmo se o j√ļri fosse constitu√≠do por um ex√©rcito inteiro de um pa√≠s como Portugal.
N√£o sei se fui eu ou o Gabriel (irra!, isto aqui √© uma confus√£o dos dem√≥nios e j√° ningu√©m sabe √†s quantas anda!) a dizer que a nossa m√£e biol√≥gica abandonou o marido, o meu pai,  quando eu tinha uma idade quase ainda de meses depois de virmos de Angola. Urge, contudo, repor a verdade: ela s√≥ deu com os p√©s ao velhote quando eu tinha uns tenros seis anos e uma beleza muito prometedora, apesar de nessa altura parecer um bezerro desmamado. S√≥ passados mais tantos anos como os meus de ent√£o √© que a m√£e biol√≥gica deste Cristo foi para Fran√ßa. Nessa √©poca n√£o precisou de ir a salto porque a emigra√ß√£o j√° era legal. Se levou algum salto foi nos sapatos, embora toda a gente, depois de a conhecer e de falar dois minutos com ela, diga que lhe foge sempre o p√© para o chinelo. Segundo v√°rias opini√Ķes, √© um bocado bruta. Mas eu gosto dela mesmo assim. At√© por ter herdado especialmente da Dona Josefina este corpo que me confere o estatuto de Ad√≥nis. √Č como se tivesse vindo nas asas do tempo e da mitologia grega para me desfazer em fluidos no corpo de todas as mulheres terrenas, possam elas n√£o passar √†s vezes de sacas de batatas mal atadas ou de velhas com a cara a precisar de goma-ar√°bica. Tenho de prosseguir na minha miss√£o de mulherengo. √Č para um dia ter uma alma que n√£o seja apenas a alma de um c√£o, indiferente √† f√™mea com quem copule, ou, segundo a Escola de C√©sar/Gabriel, simplesmente, coite. √Č um verdadeiro karma e n√£o o posso alijar das costas, tal como faria com um sobretudo num dia de muito calor. Tenho de aguentar. Misturar personagens d√° nisto tudo. Toda a gente fica confundida, at√© n√≥s pr√≥prios. Se a mam√£ escritora me tivesse posto s√≥ a mim, C√©sar Augusto, a falar sem opini√Ķes de ningu√©m, nem mesmo do Gabriel, pelo menos nos assuntos familiares n√£o haveria por aqui tantas incoer√™ncias. Mas como tem de manejar os cordelinhos de uns e de outros, como se fossemos pequenas marionetas, n√£o admira a balb√ļrdia.
E agora, mudando de assunto:
Eu posso ser um bocado mentiroso, mas √† woman in red, com quem o meu affaire foi um pouco mais estreito, contei toda a verdade sobre a minha vida. √Č f√°cil conferir isso com ela, apesar de, quando convers√°vamos os dois, tudo ter um car√°cter bastante mais trivial e muito menos solene do que aparece por aqui. Se h√° na narrativa muitos enganos, o culpado deve ser o Gabriel: por ter menos dezassete anos do eu, fez confus√Ķes temporais suscet√≠veis at√© de enlouquecer o leitor. A ponto de podermos um dia vir a ser processados por falsos testemunhos, danos materiais e danos morais em grande parte dos leitores.
Depois, muitas coisas acerca da mana ninfoman√≠aca t√™m de ser lidas com esta pequena adenda, sen√£o n√£o fariam sentido! Embora ela, mesmo assim, tivesse podido mamar at√© quando lhe apeteceu, enquanto a mim, antes do seu nascimento e por raz√Ķes √≥bvias, me ter sido retirado esse privil√©gio! E n√£o foi em Fran√ßa que ela andou na escola foi na aldeia de onde a minha m√£e abalou com a filha pela m√£o. Nesse tempo, se a universidade de algu√©m tivessem de ser sacrificada era a das raparigas. Desde o para√≠so, de onde agora apareceu esta Lilicas igualmente ninfoman√≠aca, tinham, todas elas, a miss√£o √ļnica e exclusiva de andar de vassoura em punho, cozinhar e remendar os coturnos rotos do marido e dos filhos.
Resqu√≠cios dessa √©poca encontram-se ainda bem vivos na Clara e por isso ela me convidava para comer as receitas que engendrava numa casa iluminada sempre de alto abaixo como se vivesse todo o ano enfeitada por in√ļmeras √°rvores de natal. √Č boa dona de casa, a rapariga, embora possa cometer, de vez em quando, como qualquer cozinheira, pequenos deslizes na cozinha, o que aconteceu no primeiro dia em que fui jantar √† casa nova dela e o assado ficou pouco apurado, por defici√™ncias do fog√£o novo ou por aselhice dela, enquanto eu aproveitava para lhe apagar as l√Ęmpadas e fui, depois, tomado por um Dr√°cula disfar√ßado e com horror √† claridade. Boa cozinheira √© tamb√©m a Sara, a quem os pais deram uma educa√ß√£o tradicional, apesar de j√° temperada com os ventos do s√©culo XX. Adotaram-na de uma fam√≠lia pobre da B√≠blia para ela poder estar na linha da frente contra as pandemias do novo mil√©nio, num pa√≠s pequenino como Portugal mas onde os escritores, incluindo os que se dedicam √† par√≥dia de romances alheios, ombreiam com os autores de todo o mundo. E n√£o sei qual a raz√£o por que o g√©meo Gabriel contou √† esposa coisas acerca da Clara, nomeadamente a hist√≥ria da ilumina√ß√£o, para eu, depois, quando estou a trair o meu irm√£o, ter de levar com aquelas luzes a piscar‚Ķ A ponto de, recentemente, ter optado por s√≥ coitar com a Sara com os √≥culos de sol na minha ‚Äúcara de anjo‚ÄĚ. Esta foi uma alcunha posta pela Clara quando a nossa rela√ß√£o j√° cheirava pior do que um cad√°ver com alguns dias de sepultura. Antes disso, eu era Montanha Russa, obviamente por lhe deixar a cabe√ßa a andar √† roda.  
Estou sempre falar, ora, na Lilicas, ora na Sara, ora na Clara e n√£o h√° maneira de me dedicar por inteiro √† ‚ÄúClarinha‚ÄĚ. √Č por causa dela que andamos todos a penar como condenados em tr√™s romances. E sendo assim tenho de aproveitar para a desmascarar o mais poss√≠vel.

Continua...

Leiam tamb√©m, por favor,  " O Estranho Fasc√≠nio da Internet" mas este tem de ser comprado
« Última modificação: Maio 02, 2022, 00:26:12 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #26 em: Maio 11, 2022, 15:14:33 »

  (Irra!, isto aqui √© uma confus√£o dos dem√≥nios e j√° ningu√©m sabe √†s quantas anda!) C√©sar dixit!
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« Responder #27 em: Maio 16, 2022, 13:05:14 »

A saga continua, Nação valente

César

A mam√£ diz-me para ser breve no meu direito de resposta porque, dentro de pouco tempo, a Clara estar√° aqui a dizer de novo as raz√Ķes dela, como num tribunal de comarca, l√° quando eu era o santo da funda√ß√£o de numism√°tica e fot√≥grafo apenas em part-time. (A prop√≥sito, nunca tirei nenhuma fotografia √† Clara‚Ķ Nem mesmo quando ela me brindou com aquela teoria de que se houvesse la√ßos fortes entre o modelo e o fot√≥grafo as pel√≠culas captariam isso‚Ķ).
Enfrento de novo a minha criadora com coragem e digo-lhe que, se as outras personagens já tiveram oportunidade de falar duas vezes cada uma, ela terá de me compensar com igual tempo de antena. Não sou, quero demonstrá-lo, nem o cobarde nem o mentecapto apregoado, quer pela minha criadora, quer pela Misse Clara, quando ainda não tinha de encarnar papéis duplos e triplos nas segunda e terceira réplicas.
Logo no in√≠cio do romance parodiado, a mam√£ p√īs-me com ar sorumb√°tico, em frente a uma mesa de vidro, onde a biografia de uma mulher infeliz como Maria Calas me fazia companhia no dia do meu anivers√°rio‚Ķ E s√≥ agora penso na minha sorte!‚Ķ N√£o sei por que n√£o se ter√° lembrado a minha criadora de acrescentar a todos os itens negativos com que me descreveu mais um. Neste caso o de necr√≥filo, quando deixou o cad√°ver de uma mulher morta h√° tantos anos √† minha merc√™, ali sobre a mesa dentro das p√°ginas de um livro. Ainda bem!.. Ao menos escapei dessa ignom√≠nia. De contr√°rio, passaria a n√£o haver sobre a terra uma √ļnica pessoa capaz de gostar de um homem que, para al√©m de qualquer mulher lhe servir, n√£o se escusava ao contacto com uma morta, em cima de uma mesa transparente e, al√©m de tudo, com estatuto de diva.
Mas, agora sou eu a desafiar a mam√£: porque n√£o, atrav√©s da arte de engendrar situa√ß√Ķes em que os escritores s√£o ex√≠mios, trazer at√© mim, viva e sem doen√ßas de amor, a divina, para, juntos, encetarmos uma hist√≥ria de amor, sem a trai√ß√£o de que ela acabou por ser v√≠tima com o grego? Eu, embora n√£o seja rico como ele, nem pouco mais ou menos, sempre sou mais bonito, e tenho, inclusive, ascendentes na mitologia hel√©nica, de que o divino Apolo e o belo Ad√≥nis s√£o expoentes m√°ximos. Talvez ela n√£o viesse a finar-se com a alma mirrada pela solid√£o, depois de o homem a ter trocado por outra mulher, igualmente infeliz, calando-se para sempre uma voz de deusa vinda directamente do c√©u para encantar terr√°queos como eu. Para a ver feliz de novo, mas, desta vez, a meu lado, seria at√© capaz de fazer intervir sempre o Gabriel nos momentos de intimidade. N√£o s√≥ por ele ser anjo como ela, mas, sobretudo, porque sempre tem, apenas e s√≥, vinte e oito anos. Para uma mulher ser cortejada por um jovem tem uma import√Ęncia decisiva, levanta-lhe o ego, f√°-la sentir-se especial. Oh!, como a Humanidade teria a lucrar com isso! Era bom poder acontecer uma coisa assim. Se um regresso destes fosse poss√≠vel, eu, C√©sar Augusto, contentava-me em ouvir Calas a todas as horas do dia e da noite, e desta maneira teria impedido um velho rabugento de tentar apropriar-se do t√≠tulo de uma √≥pera l√≠rica para dar o nome a um elixir que tentava a todo o custo descobrir, o tal elixir que era a √ļltima esperan√ßa de o homem poder transformar a sua cara encarquilhada de figo seco num delicioso p√™ssego e quase sem caro√ßo. Falo, √© claro, no tio-av√ī da minha ninfoman√≠aca Lilicas.
Agora, em maré de confidências, tenho de admitir, como aliás já fiz, que desde bem cedo a Clara me passou a aborrecer.
Ela, apesar de ser direta a maioria das vezes, julgando-me t√≠mido, nunca se referiu ao meu vocabul√°rio er√≥tico. Mas eu percebi rapidamente que n√£o lhe agradava muito. Sempre teve aquelas maneiras po√©ticas de encarar o coito e todos os coitados, que, por causa de meras quest√Ķes lingu√≠sticas, andam anos e anos a jejuar. Seria o caso dela se eu n√£o tivesse tido a ideia de comentar com o pintor acerca da rapariga sem homem no concerto. O go√™s, o cigano, com quem a Clara tinha a chafarica do Gabinete de Psicologia, tenho a certeza, nunca foi para a cama com ela, como insinuaram os senhores do romance do meio, quando a mascararam da Lilicas Solas e Cabedais, a rapariga sadomasoquista com quem pretendem que o ex-inspector se cure, definitivamente, do problema de falo desca√≠do.
Julgo eu, a Clara j√° se encarregou de narrar a hist√≥ria do nosso primeiro encontro, e de como nos relacion√°mos ao longo dos quatro mil e trezentos e vinte minutos da vida de casal nascido para o fracasso. Cedo come√ßou ela a tresler comigo, quando eu, naquelas f√©rias, com a vida toda revolteada, n√£o lhe atendia o telem√≥vel. Nessa altura, estava com um amigo no solar da aldeia, que comprei expressamente para l√° instalar a minha m√£e e para captar auras num est√ļdio de fotografia avan√ßada. A minha disponibilidade era, por isso, reduzida. N√£o sei que minhocas entraram na cabe√ßa de Clara, al√©m das que j√° l√° havia, num dia que o nosso coito, contrariamente ao habitual, foi mais r√°pido. Mas isso foi porque a mana mais nova, a francesa, vinha de Paris. Embora a ‚Äúvinda‚ÄĚ da irm√£ fosse mais uma desculpa para me desalinhar do conv√≠vio com a Clarinha. Eu tinha conhecido uma nova fulana, e, sem saber ainda se teria sucesso na conquista, aproveitei a ‚Äúcomida‚ÄĚ da Clara, sempre mel e a√ß√ļcar enquanto me pedia, eufemisticamente, julgo eu, que n√£o morresse sem lhe dizer adeus‚Ķ
Nunca percebi o significado daquilo. Talvez ela, por artes estranhas, qui√ß√° semelhantes √†s do velho professor tio-av√ī da Lilicas quando regressa ao passado, soubesse antecipadamente que, al√©m de uma h√©rnia discal, eu trazia tamb√©m o destino de me finar como um bacalhau, seco por causa da maldita hepatite. Felizmente tudo se revelou uma grande fraude‚Ķ
Certo, certo, dois dias depois do nosso t√™te √† t√™te, a Clara utilizou o velho truque do telefone, ligando-me sem falar para o fixo na suposi√ß√£o de que eu n√£o conseguia descodificar o n√ļmero. Estava convencida de que o meu telefone tinha sa√≠do como brinde num pacote de detergente, dentro de um saco pl√°stico, quando, afinal, eu tinha uma central telef√≥nica avan√ßad√≠ssima em casa. E, al√©m de ver num ecr√£ o n√ļmero de quem ligava, ainda podia gravar mensagens. Depois de ela telefonar e desligar, ora para um ora para outro telefone, descobri de imediato o truque. Era a Clara detetive e, tal como Agatha Christie esmiu√ßava a vida das personagens suspeitas nos seus romances, ela andava √† cata dos meus er√≥ticos calcanhares, geralmente de grande envergadura.
Nesse dia, nunca mais atendi o telefone.
Isso deixou-a uma verdadeira leoa enraivecida. A ponto de, na manhã seguinte, provavelmente depois de uma noite inteira sem pregar olho e a mancomunar que maldade iria fazer-me, me colocar umas flores na caixa do correio, à entrada, tornando-me depois e mais uma vez no bobo de um quarteirão inteiro.
Nada a que n√£o estivesse habituado. Uma coralista, a Alzira, fez-me coisas bem piores....
Nada a que não estivesse habituado. Uma coralista, a Alzira, fez-me coisas bem piores. Após ter furtado as minhas chaves de casa, um dia apareceu-me lá dentro, disposta a dar-me uma monumental sova. E isso só não aconteceu porque a Carolina woman in red chamou a polícia, salvando-me das garras daquela outra doida.
De facto, só tenho encontrado malucas…
E √© por coisas assim que me acham cobarde? Quero ver se voc√™s estivessem no meu lugar, com um furac√£o a assolar-vos por todos os lados, da cabe√ßa aos p√©s, sem contempla√ß√Ķes por nenhuma parte especial do corpo, se n√£o recorriam a todos os meios como eu fiz! E fiz a primeira coisa de que me lembrei, ligar √† Carolina‚Ķ
No dia imediato, providenciei a mudan√ßa da fechadura. Troquei-a por uma forte o suficiente para at√© a Clara dizer que aquela porta parecia o ferrolho de uma cadeia. Era quando eu, de pijama, tinha de a levar, no elevador, √† sa√≠da, para ela ir dormir a casa. Os vizinhos eram todos muito medrosos, especialmente a velha coscuvilheira para quem um dia a Clarinha me chamou a aten√ß√£o. O pr√©dio, depois das nove e meia da noite, transformava-se num verdadeiro bunker, inacess√≠vel a Alziras e a Claras que n√£o fossem devidamente convocadas por um morador. Ao menos na minha casa era assim. N√£o sei se algum dos outros cond√≥minos tinha uma vida t√£o movimentada como a minha. Mas julgo que era tipo √ļnico‚Ķ A beleza n√£o andou por a√≠ a desperdi√ßar encantos. Sou encantador mesmo e at√© tenho cara de anjo.
Agora, enquanto Gabriel, o meu querido irm√£o e anjo inteiro, est√° invis√≠vel,  a espiar os movimentos suspeitos perto da casa da sua querida Sara, prestando tamb√©m aten√ß√£o ao velho rio,  n√£o v√° dar-se o caso de andar por l√° Santo Ant√≥nio a pregar aos peixinhos, vou entreter-me um pouco. Disponho de cinco ou seis minutos de sossego. N√£o tenho nenhuma mulher a assediar-me, e por isso vou reler a biografia da divina Calas. N√£o h√° como embrenharmo-nos na vida de algu√©m famoso para, ao menos imaginariamente, fazermos parte durante alguns instantes de uma exist√™ncia cujo talento apreciamos. A ponto de quase extrairmos dele o nosso pr√≥prio talento. Embora eu n√£o possua aquela voz de rouxinol que sempre e ainda hoje me fascina‚Ķ Os meus talentos s√£o outros, sou ex√≠mio nas artes de alcova, no desvio de dinheiro e, j√° agora, sou um fot√≥grafo competente. A ponto de ter sido escolhido por um colecionador de obras arte para fotografar os tesouros antigos existentes por esse Portugal fora, que, al√©m do mais, no anterior romance, era meu primo e uma ave de rapina de coisas valiosas. √Č para n√£o dizer ladr√£o...
Já quanto aos poemas, vou deixá-los por conta de Sara, cuja sensibilidade levou o meu querido irmão Gabriel, o anjo de corpo inteiro, a consorciar-se com a bíblica mulher, não sendo todavia de esperar do matrimónio, devido à avançada idade dela, sequer um filho para amostra. Só se Deus interferir no assunto e recorrer ao sobrenatural, em que eu ainda não acredito nem sei se algum dia vou acreditar.
A Clara deve estar a assomar por a√≠. Tenho de entrar na c√Ęmara do meu recolhimento tempor√°rio e tentar entretanto elaborar o rascunho da minha pr√≥xima interven√ß√£o no romance.
 
Continua

Leiam também O Estranho Fascínio da Internet, mas desta vez tem se ser a pagar

« Última modificação: Maio 18, 2022, 13:14:05 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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outono


« Responder #28 em: Maio 21, 2022, 21:13:47 »

Este César iá teve muito tempo de antena. Que venha o contraditório.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #29 em: Maio 21, 2022, 22:26:28 »

√Č verdade....

‚Čą

Clara
Meu Deus, tanta escrita! Ter√£o as outras personagens deixado alguma coisa para eu dizer?
Pegando nos mais recentes rabiscos da hist√≥ria, vejo que o √ļltimo a falar foi C√©sar, o √ļnico, o verdadeiro, aquele para quem eu era boa como o milho, mas que, neste novo romance, deu o dito por n√£o dito. Pelo visto n√£o passo de uma rapariga insossa, com quem s√≥ √† custa de muita fantasia conseguia um coito ‚Äúcom alguma dignidade‚ÄĚ. Palavras dele. O seu aparente ‚Äútravo‚ÄĚ na l√≠ngua, julgo agora, n√£o passou de uma t√©cnica de conquista semelhante √† que usou no primeiro romance, quando se referiu a duas portuguesas malucas em Fran√ßa, uma delas casada, razoavelmente saciada pelo marido nessa manh√£, que at√© prescindiu de coitar com C√©sar s√≥ para a solteira se derreter como manteiga de cacau nos bra√ßos do nosso querido anjo universal.
Se a generosa mulher portuguesa/francesa soubesse que o anjo copulador tinha nascido com um vulc√£o no s√≠tio onde n√£o devia haver sexo nenhum, n√£o tinha deixado escapar a oportunidade de ir ao c√©u com ele, quando, de manh√£, nem sequer tinha, com toda a certeza, estado √† porta do para√≠so com o marido. Com um Ad√≥nis como aquele, por quem todas as santas e santos eram capazes de virar a cara, s√≥ para terem nem que fosse por um instante um pequeno vislumbre de beleza di√°fana e concentrada numa √ļnica pessoa, a solid√°ria criatura nunca devia ter estado. Os olhos tamb√©m comem e o homem dela n√£o devia passar do b a b√° habitual‚Ķ
Quanto √† conversa entre as raparigas, o estupor nem uma palavra disse sobre o facto de a l√≠ngua materna dele ser a mesma de Cam√Ķes. Nem antes, nem depois de‚Ķ Ao que sei, elas quase tinham tirado √† sorte para ver quem iria guardar os fluidos dele, de sangue inclusive, se por acaso arranhassem as costas ao rapaz. Mas sobretudo de s√©men, para quando os ventos da hist√≥ria e a evolu√ß√£o da ci√™ncia precisassem de analisar tudo e mais alguma coisa e ver at√© que ponto, naqueles sagrados h√ļmus, n√£o andava alguma parentalidade com Jesus. Principalmente quando C√©sar passou a encarnar a personagem de Gabriel, um anjo de corpo inteiro, mas, mesmo assim, com os p√©s demasiado bem assentes na terra para n√£o rejeitar nenhum vestido que lhe aparecesse pela frente. O filho de uma √©gua, depois de saciado por uma das raparigas, limitou-se a ir para a casa de banho rir das mo√ßas, enquanto elas pensavam ter comido um franc√™s louro e de olhos azuis. A outra mulher, a generosa, ao menos imaginariamente, tamb√©m n√£o deixou, com certeza, de se banquetear com C√©sar √† grande e √† francesa.
Ainda vou levar o Gabriel a tribunal. N√£o me comparando √† minha irm√£ Lilicas, sou uma mulher habilitada a induzir, num cara de anjo ou num um anjo completo, uns ais de prazer, que, na escala de um a dez, teriam a cota√ß√£o m√°xima. Embora, como j√° disse, a Lilicas Cl√°udia, ou l√° que outros nomes e idades tem noutros tantos bilhetes de identidade, seja bem capaz de rebentar com a pauta. Interpretando os sinais acerca da sua personalidade, bem podemos esperar que os seus √™xtases er√≥ticos-vaquicos incomodem os ouvidos do tio-av√ī, um professor alienado por causa de uma planta, com um efeito semelhante ao da Jurema brasileira, e com ambi√ß√Ķes de plebeu que aspira √† salva√ß√£o da humanidade.
De causar arrepios √© tamb√©m o caso de um ex-inspector traumatizado pela virilidade perdida no meio dos livros de hist√≥ria de arte, folheados em Londres no tempo de todas s pesquisas. E mais dram√°tico ser√° ainda o que se h√°-de passar com a minha irm√£, a Sarita, se um dia sonhar que a cabra da Lilicas lhe anda a papar o anjo. Vai cair-lhe definitivamente o queixo, que ela tenta segurar l√° em cima, √† custa de cremes e in√ļmeras injec√ß√Ķes de botofe. Mas o problema √© dela. Tamb√©m quem mandou a Sarita casar-se com um rapaz com idade para ser seu filho? Toda a gente sabe, o mo√ßo, quem o quiser ver feliz, √© ao lado da m√£e. Sobretudo quando se sente perdido, no meio de pessoas como uma tal Carla, a grande reformuladora do velh√≠ssimo kama Sutra. Todos avisaram a Sarinha, aconselhando-a a limitar-se a umas ‚Äúcoitas‚ÄĚ com Gabriel. Mas ela n√£o deu ouvidos a ningu√©m. E, na minha opini√£o, ainda vai sofrer muito por causa disso.
Agora, quando eu esperava fazer definitivamente as pazes com C√©sar, come√ßou ele a sujar a minha imagem de boazona, mas nem tanto, dizem os senhores do romance do meio, com toda a imparcialidade que a provecta idade lhes confere. Depois de termos penado tanto, eu, C√©sar e todas as personagens do primeiro romance, era o que devia acontecer, ficarmos amigos. Todos fornecemos qualquer coisa para os parodiantes comporem nova gente de papel, e o livro II nasceu assim como uma manta de retalhos. Por isto e por causa disto, tinha pensado em exorcizar com C√©sar, ajudado pela bondade de anjo dele, o tempo em que a minha voca√ß√£o de Lilicas maquiav√©lica so√ßobrou, perante uma Clara encandeada pelos olhos do seu aristocrata gato franc√™s, substantivo e t√≠tulo honor√≠fico t√£o do agrado do meu pr√≠ncipe dos anjos. N√£o falo do gato Ren√©, n√£o senhor. Esse pertencia mesmo √† oficina dos livros, para onde ia dormir, quase todas as tardes, regaladas sestas e quando, depois, se dedicava a dar concertos de mio encarrapitado em pilhas de literatura. Assim, pensava eu redimir-me perante C√©sar, o meu actual Gabriel, o meu Sol, o meu Mar, e, por entre tantos mares que h√° por a√≠, esperava que ele fosse, ao menos por momentos e outra vez, o meu Mar dos Sarga√ßos ou a minha Montanha Russa, como eu lhe chamava depois nas cartas que lhe enviava ro√≠da de remorso por t√™-lo virtualmente ‚Äúmatado‚ÄĚ, enterrando-o a seguir com uma cruz na caixa de correio, onde n√£o faltaram ‚ÄúDes fleurs du mal postas nas campas dos defuntos a t√≠tulo de choro e de homenagem. No entanto, querendo C√©sar, parece, eternizar os nossos enfunos, vou seguir-lho o exemplo limitando-me a narrar os factos.
Depois do ‚Äúassassinato‚ÄĚ na caixa do correio, transformei-me numa vi√ļva negra √† espera da √ļltima hora, e pedia tanto a C√©sar que me perdoasse o vexame como pedia o mesmo a Deus, que, bem vistas as coisas, era mais o Diabo. Implorava-lhe para me levar at√© ao Seu reino. Neste miser√°vel mundo de paix√Ķes e vilezas, s√≥ havia lugar para mim se decidisse continuar com os prop√≥sitos de Maquiavel, iniciados na fat√≠dica noite do truque dos telefones.
Passei um Natal em completa abstin√™ncia de a√ß√ļcares, e, na noite de consoada, empanturrei-me de couves e de bacalhau, por sinal bastante salgado. Isso obrigou-me a beber um bocado mais de vinho, e, pela primeira vez na minha vida, enfrentei o Menino Jesus na Missa do Galo com uma asa, n√£o s√≥ com um, mas com v√°rios gr√£os. S√≥ queria esquecer o mal causado, e tive medo de que C√©sar, ou Gabriel, seja, se risse do cart√£o que lhe tinha enviado dias antes, estendendo os votos de boas-festas a todos os natais da vida dele. Era como se um de n√≥s fosse morrer realmente, em princ√≠pio eu, que, por aqueles dias, para ter direito a funeral, j√° s√≥ me faltava o caix√£o, porque a cara era mesmo de enterro.
Ele, o meu anjo, respondeu-me com toda a generosidade. Embora o tenha feito num escrito sucinto. Era poupado na escrita como nas palavras. Economizava sobretudo na energia eléctrica, visto que tinha sempre extremo cuidado em não manter muita luz acesa para evitar o desperdício.
Depois, passados uns dias, já o Novo Ano era crescidinho, surgiu o telefonema dele. Foi numa altura em que as minhas plantas, murchas até aí e completamente solidárias com o luto da dona, arrebitaram as orelhas, quando o visor do meu telemóvel mostrava, sem margem de erro, que o meu perdão tinha por fim acolhimento na alma do meu amor. Daí a pouco convidava-me ele para ir lá a casa assinar o tratado de paz, que certamente iria ser selado com um coito destinado a figurar na história como o ex libris dos armistícios.
Entretanto prometi, a Deus e ao céu inteiro, jamais magoar aquela criatura sagrada, de novo a abrir-me as portas de casa e da alma, que, esperava eu, se tivesse enchido mais durante a minha ausência, deixando-me, daí para a frente, sem motivos para duvidar de que Gabriel, o meu anjo, não era nenhum pobre de espírito nem um amante exacerbado de sexo.
Era Inverno, e, depois de tanta chuva no cora√ß√£o, apareci-lhe embrulhada at√© ao pesco√ßo numa gabardina que me tinha custado os olhos da cara, j√° velha, mas em bom estado e limpa. N√£o tinha nada a ver com a do tio-av√ī da Lilicas, que, por causa dos c√≥digos para decifrar a pandemia dos manuscritos sobre Jesus entre os homens, fedia como uma doninha. Al√©m do mais, uma doninha morta.
√Č claro que os tempos das c√īdeas na cozinha voltaram. De repente ali estava eu, depois de ter pensado nunca mais entrar naquele santu√°rio dos Cristos. Eles estariam agora, provavelmente, com aten√ß√£o redobrada a todas as nossas ex√©quias na cama. Afinal eu j√° tinha dado provas de que me podia transformar numa demon√≠aca Lilicas, podendo enveredar de novo por mortes virtuais ou, eventualmente, por bruxedos de modo a desviar definitivamente do caminho do meu amor todas as outras mulheres. Incluindo a Sarita.
Contudo, n√£o demorei a perceber, as coisas continuavam como dantes. Talvez at√© pior porque eu tinha colado na testa o r√≥tulo de ‚Äú A matadora do correio expresso‚ÄĚ. E isso deveria ter levado C√©sar a redobrar os cuidados quanto a poss√≠veis ataques malignos vindos da minha pessoa. Por outro lado, Gabriel, no tempo em que eu chorava amargamente pela maldade Baudelairienne, sem contar com a Sarita, devia ter conhecido um quintal de raparigas. Foi, com toda a certeza, para afogar o desgosto de algu√©m o querer ver morto antecipadamente sem ele ter experimentado todas as mulheres que o destino lhe devia.
Quanto √†s outras coisas, tudo permanecia igual, e j√° nem falo na toalha das riscas vermelhas... Continuava pendurada no var√£o, √† espera do pr√≥ximo uso. Era ainda a mesma, mas que os senhores do romance do meio teimam em substituir por um roup√£o da mesma cor para Lilicas avan√ßar sobre o anjo em todo o esplendor da sua lux√ļria. Ao que parece, a Lilicas, se as coisas correrem bem e ele n√£o cair em tenta√ß√£o, ser√° o passaporte para Gabriel ascender a estruturas hier√°rquicas mais elevadas no Olimpo‚Ķ Segredos‚Ķ
Já eu própria, nesse primeiro dia, no Ano Novo, fui outra vez boa como o milho…
O C√©sar que n√£o venha agora estragar-me a reputa√ß√£o, l√° por actualmente se chamar Gabriel, ter vinte e oito anos e ser casado com a ‚Äúm√£ezinha‚ÄĚ Sarita, a quem eu n√£o confiaria um diagn√≥stico sobre mim, nem mesmo que padecesse de uma vulgar constipa√ß√£o. Que raio de m√©dica √© aquela que permite a um velho maluco atirar sobre o marido vatic√≠nios de morte s√≥ por causa de uma palidez dele, Gabriel? Nem sequer consegue enxergar que a cor de Gabriel √© a mesma do amarelo ser√°fico dos serafins e dos anjos? Tenham d√≥! E, depois, para que servem os exames complementares de diagn√≥stico? De facto, aquele hospital √© uma aut√™ntica casa de doidos, um covil onde v√£o cair, sobretudo ao bar, os desempregados espertos e doutorados, como algumas tontas que andam por l√°, depois de o canudo n√£o lhes servir para nada em mais lado nenhum. √Č s√≥ por vaidade! √Č o caso da rapariga dos ‚Äúcimbalinos‚ÄĚ. Foi para l√° s√≥ para lhe chamarem doutora e ser admirada como a boazona l√° do s√≠tio!
C√©sar continuava, no in√≠cio daquele malfadado ano, a ser aquele homem que, por todas as raz√Ķes e mais alguma, devia ser riscado do mapa das minhas ambi√ß√Ķes. Comigo manifestava-se como o mesmo retardado mental de sempre. S√≥ pensava em coitar, e, a cada telefonema, l√° tinha de andar a toalha das riscas vermelhas numa roda-viva, com os Cristos no quarto a servirem de testemunhas √†s ex√©quias. N√£o s√≥ do nosso crime l√ļbrico, mas talvez de dezenas deles, incluindo o da Lilicas, porque, com a Sarita, tudo passou a ser leg√≠timo quase logo no primeiro instante em que os olhos de ambos se cruzaram.
Era altura de ir embora. O César nem atava nem desatava. Eu apaixonada como uma burra sem cabeça, e ele, impávido e sereno, a ver, sempre que podia, a cor da minha lingerie, quando, depois do coito, eu ficava com cara de insossa e com uma sensação de vazio, que o rapaz, de todo, não tinha atributos para preencher. O potencial dele circunscrevia-se à cama e, além de tudo, a uma cama com vocação de cama rolante, em que muita gente podia dar uma volta, como se fosse a uma feira popular andar de carrossel. Sentia-me autenticamente o era e não era quanto a este anjo profundamente sexuado por quem, apesar de tudo, continuava obesamente apaixonada.
Comecei ent√£o a soltar a veia epistemol√≥gica e a escrever cartas sobre cartas √† minha ‚ÄúMontanha Russa‚ÄĚ, j√° mais ou menos a desmoronar-se, carregadas de eufemismos que o C√©sar confessou n√£o entender. Dizia-lhe eu, entretanto, ‚Äútenho de acabar com tudo‚ÄĚ. Eu amando-o desesperadamente e a pedir-lhe constantemente um gesto, uma atitude inequ√≠voca de que Clara C. C. era o seu √ļnico amor. Como resposta, obtinha sempre um lac√≥nico nem √°gua vai nem √°gua vem, possivelmente por ele ter medo de molhar a cama, quase sempre o local das confer√™ncias.
Depois era o seu sil√™ncio, uma tortura, mais um riso c√≠nico e uma conversa bacoca, quando, de in√≠cio, decidida como uma verdadeira Maria da Fonte, tentava arrancar-lhe qualquer coisa suscept√≠vel de me dizer que a Clara n√£o era s√≥ a 11¬™ letra c√™ do seu √°lbum de recorda√ß√Ķes, depois de uma Carla, n√£o contando j√° com alfabetos estrangeiros capazes de estragarem a minha ordem no cat√°logo, mas sim a √ļnica, a mulher especial com quem ele gostasse de repartir as c√īdeas do p√£o e enfeitar a jarra da cozinha com rosas.
Nessa altura não sabia eu, já a Sara, na dimensão que não se toca nem com um dedo cá deste lado da fantasia, andava a toda a pressa a tratar dos papéis do casamento.
Enquanto isso, a mana ninfoman√≠aca insinuava-se tamb√©m junto de um ex-inspector aposentado, a quem queria aplicar a vers√£o de ‚Äú Lilicas Solas e Cabedais‚ÄĚ. Para o nosso anjo colectivo guardava a rapariga o ‚Äúdoce‚ÄĚ que havia em si, sabor que o pobre do go√™s pau de canela n√£o apreciava. O neg√≥cio deste, ao que tenho ouvido dizer, era mesmo o pornogr√°fico, e a Lilicas queria converter isso em sadomasoquismo puro como √ļltimo recurso para o mal do homem.
Eu n√£o sabia, nunca soube, ali√°s, quem era verdadeiramente aquele cara de anjo que me tinha calhado, depois de ter assistido, com uma por√ß√£o de testemunhas, a um concerto de m√ļsica cl√°ssica numa funda√ß√£o dedicada ao dinheiro antigo. Tudo era, sen√£o segredos, pelo menos sil√™ncios e, desde bem cedo, eles me puseram a cabe√ßa √†s voltas e a imagina√ß√£o a trabalhar √† velocidade da luz, mas j√° com os devidos ajustes que a f√≠sica qu√Ęntica introduzira √† teoria da relatividade. Se tivesse tido um pouco mais de paci√™ncia, tudo teria sido, talvez, diferente. Contudo, em t√£o grande rodopio, n√£o me dei a mim mesma a oportunidade de voar at√© ao c√©u, √† f√°brica onde se fazem os anjos, para poder compreender os mecanismos e todas as rodas dentadas de que Deus faz os seus entes celestiais. Sim, n√£o segui por a√≠, com muita m√°goa minha‚Ķ
Mas, leitor, como vamos entrar na parte sórdida da minha vida, deixo isso a cargo da Lilicas, se a mamã não se importar, porque a minha personagem acaba de fazer uma boa estirada. Estou olimpicamente cansada e a precisar de um céu para repousar deste corrupio.
A minha criadora diz que sim. Ser√° a Lilicas a narrar a hist√≥ria de um romance pantominado, depois de a mam√£ ter imaginado j√° o seguinte: deve andar por a√≠ muito escritor a lambuzar-se √† custa de escrita alheia. E ela espera n√£o se encontrar com algumas dessas criaturas em nenhum lado. Nesse caso esconderia delas a carteira, como a esconderia de vulgares ladr√Ķes que quisessem meter l√° dentro os seus dedos de garfo para lhe surripiarem umas notas. Ao menos para se ‚Äúinspirarem‚ÄĚ quando a sua imagina√ß√£o fosse de f√©rias para o Algarve apanhar banhos de sol e √°gua quente.
continua

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Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

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Boa noite feliz para todos
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Ol√°! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
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Boa semana para todos.
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Boa tarde a todos.
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Boa noite feliz para todos.
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Boa tarde a todos.
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Ol√° para todos!
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Boa feliz noite para todos.
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Bom fim de semana para todos
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Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Fevereiro 22, 2021, 16:41:57
Boa tarde a todos.
Fevereiro 18, 2021, 20:52:07
Boa noite a todos.
Fevereiro 17, 2021, 19:09:25
Boa quarta para todos.
Fevereiro 16, 2021, 19:10:20
Boa noite a todos os presentes.
Fevereiro 15, 2021, 14:54:45
Boa semana para todos.
Fevereiro 14, 2021, 15:29:30
Bom domingo para todos.
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