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Autor Tópico: Uma turma dif√≠cil  (Lida 1391 vezes)
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Antonio
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« em: Setembro 16, 2007, 18:57:59 »

Tendo regressado da comiss√£o de servi√ßo no Ultramar (como se dizia na altura) em Outubro de 1975 e tendo terminado um m√™s depois o servi√ßo militar obrigat√≥rio, vi-me com um ‚Äúcanudo‚ÄĚ debaixo do bra√ßo mas sem emprego.
A situação era particularmente delicada pois estávamos no auge do gonçalvismo (que esteve em vias de provocar uma guerra civil em Portugal) e, consequentemente, as empresas fechavam às catadupas, muitos empresários fugiam para o estrangeiro e a oferta de emprego baixava.
Acresce que a procura aumentou imenso. Quer devido aos imensos militares que estavam na tropa e que, de repente, vieram engrossar as hostes de desempregados, quer devido aos incont√°veis ‚Äúretornados‚ÄĚ das nossas col√≥nias africanas.
Foi neste quadro que, tr√™s anos ap√≥s ter conclu√≠do os meus estudos, estava a viver com os meus pais. √Č certo que tinha um bom p√©-de-meia trazido da Marinha mas, com a infla√ß√£o na casa dos vinte por cento, esse dinheiro desvalorizava rapidamente.
Lembro-me de quando nós, os desempregados, nos encontrávamos na baixa portuense e perguntávamos:
- √ď p√°! O que √© que fazes?
A resposta era, invariavelmente:
- Nada! Compro tudo feito!
Ou de uma anedota que circulava na época:
‚ÄúUm jovem engenheiro sem emprego, foi oferecer os seus pr√©stimos a um circo. O dono deste disse-lhe que s√≥ tinha uma vaga: a de fun√Ęmbulo e teria de caminhar no arame sobre uma arena com le√Ķes. O nosso jovem, valente, aceitou o desafio a troco de um pequeno sal√°rio. Mas, como n√£o era propriamente um expert nessa actividade, logo no primeiro ensaio caiu na arena. Estarrecido, viu um dos le√Ķes aproximar-se mas, qual n√£o √© o seu espanto quando o animal lhe sussurra ao ouvido:
- N√£o te preocupes. N√≥s, os le√Ķes, tamb√©m somos todos malta de engenharia!‚ÄĚ.
Corri tudo a procurar onde ganhar dinheiro. Escrevi muitas dezenas de cartas.
Finalmente, talvez em Janeiro de 1976, arranjei umas aulas de Matem√°tica num ano ‚Äúzero‚ÄĚ do Instituto Industrial, hoje o Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Mas sem qualquer v√≠nculo.

Entretanto recebi uma comunicação do Ministério da Educação para me apresentar na Escola Industrial de Penafiel.
Era uma escola muito velhinha, que ficava no monte do Sameiro, bem perto do centro da cidade. Ao lado já estava em construção uma escola nova que seria inaugurada no ano lectivo seguinte.
Mudei logo. Tinha mais segurança de emprego. E, enquanto não aparecesse outra coisa, era trabalho. Embora nunca tivesse sido meu objectivo leccionar, era uma actividade que me dava algum prazer.
Isso aconteceu na altura das f√©rias da P√°scoa e fui substituir uma professora que dava F√≠sica ao antigo 6¬ļ ano do liceu ou equivalente (j√° n√£o sei muito bem como estava organizado ‚Äď ou desorganizado ‚Äď o ensino na √©poca, pelo que podem haver aqui algumas imprecis√Ķes) e que fora com o marido para o Canad√°.
Daria tamb√©m aulas a uns mi√ļdos do 3¬ļ (ou 7¬ļ) ano.
Quando comecei a travar conhecimento com outros professores e lhes dizia que tinha ido substituir a Dr.ª. Alice Pires, diziam-me invariavelmente:
- Ent√£o tens o 6¬ļ B! Est√°s lixado! Tem l√° um grupo que √© do piorio. Ningu√©m tem m√£o neles.
Comecei a ficar com algumas preocupa√ß√Ķes.
Mas quando falei com a professora de Matem√°tica dessa turma e a vi quasi a chorar por n√£o conseguir controlar a rapaziada, reparei no ar choninhas e absolutamente despido de autoridade que ela tinha e pensei:
- A esta até eu tinha vontade de dar tanga.
As primeiras aulas a essa turma decorreram com toda a normalidade. E refiro-me às primeiras duas ou três semanas. Não compreendia a razão de tanto alarmismo. Havia mesmo um grupo de alunos aplicados e interessados em aprender.
Uma vez, em conversa com uma professora que dava aulas de Qu√≠mica, a Concei√ß√£o Castro, e falando sobre as minhas impress√Ķes acerca dessa turma, disse-me ela:
- Olha! Se os professores se souberem impor n√£o h√° problemas.
Concordei.
At√© que, numa aula te√≥rica (n√£o havia aulas pr√°ticas) das onze ao meio-dia, a ser dada no laborat√≥rio de F√≠sica, estava eu a escrever no quadro quando come√ßo a ouvir um tic-tac esquisito. Voltei-me e vi o ar de riso da malta. Caminhei em direc√ß√£o ao ponto donde vinha o som e deparo com um metr√≥nomo (um daqueles aparelhos que servem para marcar o compasso da m√ļsica), dentro de um arm√°rio com material para experi√™ncias, a funcionar.
Desliguei-o e disse com um tom autorit√°rio:
- Quem ligou isto quer ter a dignidade de se acusar?
Claro que ninguém o fez. Após uma pausa, concluí:
- Espero que isto n√£o volte a acontecer!
E voltei para o quadro continuando a exposição da matéria. Quando estava de novo virado para o quadro: tic-tac…tic-tac…tic-tac…
Comecei a ferver.
Fui outra vez desligar o aparelho mas, desta vez, dirigi-me a um grupo de discentes (dos mais atrevidotes) que estava sentado junto do arm√°rio:
- Só pode ter sido um de vocês! Ninguém quer assumir o acto que praticou?
Silêncio….
Voltei para a secret√°ria, olhei para os gajos e disse com um tom de voz mais alto que o costume:
- Meus senhores. Se isto voltar a acontecer eu dou a aula por terminada. Ouviram bem? E mais! Considero toda a matéria que deveria ter sido ensinada nesta aula como efectivamente leccionada. Entendidos?
- Sim, senhor doutor ‚Äď responderam timidamente poucas vozes.
Passado um pouco eis-me, de novo, voltado para o quadro, e:
tic-tac…tic-tac…tic-tac…
Fiz uma pausa. Poisei o giz. Assumi um ar austero e disse:
- A aula está terminada! Podem estudar a matéria até à página 112 pois é considerada como ensinada. Muito bom dia!
Arrumei as minhas coisas e saí.
Apercebi-me que havia alguma discórdia entre os alunos. Mas fui à minha vida.
Na aula seguinte tudo correu normalmente. E assim foi até ao fim do ano.
Sem querer, tinha aplicado o velho lema dos líderes:
‚ÄúDividir para reinar‚ÄĚ.
De facto, os alunos interessados tinham-se imposto aos outros alegando que estavam ali para aprender e passar. Era rapaziada humilde e n√£o se podiam dar ao luxo de andar a brincar. Sen√£o iriam trabalhar mesmo sem terem completado os estudos.

Terminadas as aulas, uma tarde encontrei-me com um numeroso grupo de alunos daquela turma. Estavam a ver as notas. Cumprimentamo-nos como normalmente mas, um dos mais irreverentes, o Pinheiro, dirigiu-se a mim e disse-me:
- Tenho de lhe dar os parab√©ns, senhor doutor. Foi o √ļnico professor que conseguiu dominar a nossa turma.
Confesso que fiquei um bocado inchado. Mas fora assim mesmo!
Mais tarde uns colegas disseram-me que eu cometera uma ilegalidade e que, se fosse apresentada queixa contra mim, eu estaria tramado.
Só respondi:
- Ent√£o apresentem queixa e depois veremos!

Afinal, uma turma difícil nem sempre é assim tão difícil. Depende…
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Dionísio Dinis
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« Responder #1 em: Setembro 16, 2007, 19:18:42 »

Lido com gosto e de um f√īlego s√≥, s√≥ posso assim dizer, que gostei deveras deste seu texto!
Parabéns e seja muito bem-vindo!
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Pensar amar-te, é ter o acto na palavra e o coração no corpo inteiro.
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Goreti Dias
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« Responder #2 em: Setembro 16, 2007, 21:19:05 »

Mais um belíssimo conto! Talvez sirva de inspiração, quem sabe?!
Um abraço
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Goretidias

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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Ol√° para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
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