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Autor Tópico: Do Rock - Crazy Horse  (Lida 2288 vezes)
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marcopintoc
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« em: Agosto 20, 2008, 01:01:20 »

O canto do olho do Jorge Passado , meu companheiro de drogas e festivais , chamou-me  para uma confer√™ncia das op√ß√Ķes poss√≠veis de subida aos c√©us em virtude das m√°s condi√ß√Ķes climat√©ricas. Disse assim:
- Foda , p√° , foda.se, p√° . P√°, est√° a chover como a merda . Ent√£o p√°? O que damos p√° ?  (uma generosa linha de branca antes de sairmos do carro era o motivo para o atabalhoamento do seu discurso)
A minha sinusite impediu-me sempre de desfrutar a plenitude dos prazeres da senhora branca pelo que me encontrava menos afectado que o meu compincha. Apelei ao bom senso:
- Temos que meter as trips ,p√° ! J√° viste o que chove ? Fazer ganzas ? ‚Äď Jorge acenou que n√£o ‚Äď Fazer um risco ? . Jorge discordou:
- Fica tudo em papas ‚Äď depois levantou a cabe√ßa numa pergunta que era a esperan√ßa de muita alucina√ß√£o naqueles olhos dementes. Eu tinha a resposta:
- As trips p√° . Vamos ver os cotas com cores bonitas! ‚Äď O convite agradou a Jorge Passado. Eu n√£o imaginava a barbaridade que estava a dizer. Tomei a pastilha cerca de trinta minutos antes do in√≠cio da maior tareia de rock n‚Äôroll que apanhei.
Quando Neil Young e os Crazy Horse subiram ao palco chovia copiosamente, os homens com rugas feitas de noites de guitarra  ,bateria e baixo  olharam as grossas gotas com desprezo . Um subiu a gola do casaco mas as m√£os rudes e calejadas de eternas horas a dar no bord√£o da guitarra baixo n√£o hesitaram um segundo. Tinha um trabalho a fazer. Quando a banda encarou a plateia, o grande lama√ßal de Vilar de Mouros, havia o brilho de sexo , de drogas e de muita veteranice das coisas do rock. Quando as guitarras entraram Neil Young arrancou um solo que parecia dizer √† borrasca que se aguentasse que agora era a hora da  eucaristia do deus dos roqueiros .Um frenesim percorreu a multid√£o , algo mais subtil que a histeria das entradas das bandas de sucesso comercial, um ‚Äúummm‚ÄĚ, as cabe√ßas a abanar ligeiramente , os p√©s a acompanhar o bombo. Olhei em volta, nesse momento o √°cido era uma parte de pleno direito da minha corrente sangu√≠nea pelo que ganhei aquele voyeurismo que caracteriza a viagem. Sondei com olhos plenos de rel√Ęmpagos de luz o terreiro f√©rtil de gritos de insubordina√ß√£o e grandes noites de m√ļsica. Vi algumas caras conhecidas. Um dos Xutos , um antigo traficante de cavalo l√° da minha terra , tr√™s tipas que gostaria de ter na minha tenda ao final da noite , um maluco que costumo ver em todos os concertos onde as guitarras s√£o rainhas. Todos os olhares estavam siderados nos homens sobre o palco. Havia um certo drama no ar, como se no imagin√°rio colectivo a chuva incessante fizesse que o guitarrista, dedos r√°pidos e alma fundida com o instrumento, arriscasse a electrocuss√£o num duelo entre o trov√£o eminente e a distor√ß√£o habilmente trabalhada pelo ‚Äúslide‚ÄĚ.
Quando o tema terminou o p√ļblico aplaudiu com vigor. A banda apenas agradeceu com um acenar de cabe√ßas, como quem agradece uma imperial e arrancou logo para o tema seguinte. O baixo e bateria malharam um ritmo bem marcado at√© o l√≠der da banda, o canadiano Neil Young , uma lenda viva do rock , acabar de beber o que me pareceu ser cerveja e arrancar ao breu da noite as almas dos que assistiam ao seu espect√°culo. De olhos fechados, √† beira do palco , a catadupa a escorrer pelo corpo da Fender Stratocaster , as cordas a brilhar , um caleidosc√≥pio feito de notas distorcidas  , a aura do grande solo. A cabe√ßa para tr√°s, o cabelo longo mas j√° sem gl√≥ria, escorrido da √°gua de Vilar de Mouros. O transe; o dele, o meu.
No lamaçal as brumas de setenta e um misturaram-se com os ácidos de Woodstock e a branca refinada e barata dos dias presentes. No centro de uma poça de água dançava uma mulher, ainda jovem , firmeza no seu busto exposto , os longos cabelos negros eram cataratas de ocultação do seus seios generosos, uma tatuagem de escorpião junto à cintura. Estendeu um braço ao homem à beira do palco. Ele viu-a.
Eu estava agora mais pr√≥ximo, do palco e da jovem que chamava o velho m√ļsico. Havia algo prestes a acontecer. O √°cido permitiu-me um √≠nfimo detalhe na minha observa√ß√£o. Que algum deus aben√ßoe os engenheiros das boas qu√≠micas. Procurei nos olhos de Neil Young , um sorriso de desafio rasgou assimetricamente a boca onde os dentes conhecem o sabor de todos os fumos do mundo . Desafio. Havia um desafio feito no gesto daquela mulher de mamas ao l√©u que apelou a algo. N√£o era lux√ļria, era algo que aquele homem conhecia bem. Milhares de palcos, noites e noites perante multid√Ķes, trazem um carisma a alguns homens. O que sucedeu foi, no meu psicad√©lico entender , a honra do overdrive , o momento em que o rock se torna duro e a lux√ļria √© ejaculada na forma de uma sequencia de cordas, torturadas ao limite  , uma palheta que se assemelha a uma l√≠ngua sobre a vulva, o cilindro met√°lico no dedo m√©dio deslizava ao longo do bra√ßo da guitarra ; o efeito era √≥bvio. Ela reagiu ao homem de pernas abertas, instrumento extens√£o de si mesmo; a cabe√ßa atirada para tr√°s, a chicotada da longa cabeleira encharcada nas costas, todo o esplendor revelado; os meus olhos feitos microsc√≥pio vislumbraram o enrijecer dos mamilos perante a chuva e a m√ļsica. Aquele solo era dela, aquela vis√£o era dele.
Com um sorriso e um piscar de olho o musico voltou ao microfone, uma manta cobriu a nudez da rapariga. As palavras falavam sobre uma rapariga de canela. Olhei-a de novo, de facto o sol havia criado na sua tez o dourado apetitoso da especiaria.

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Marco Pinto Correia

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Goreti Dias
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« Responder #1 em: Agosto 20, 2008, 10:05:03 »

Descri√ß√Ķes assombrosas de realce e pormenor! Fant√°stico!
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Goretidias

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britoribeiro
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« Responder #2 em: Agosto 21, 2008, 13:13:08 »

2001, estive l√°. Neil Young, Ben Harper, Xutos e Megadeth.
Fantasticas descri√ß√Ķes. Parabens!

Abraço
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Laura
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« Responder #3 em: Agosto 21, 2008, 20:57:17 »

Proporcionou-nos aqui uma bela cena de sexo quase t√Ęntrico. Gostei particularmente do pormenor dos olhos feitos microsc√≥pio e da tatuagem do escorpi√£o‚Ķ
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marcopintoc
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« Responder #4 em: Agosto 22, 2008, 22:41:05 »

Caros(as) Amigos(as)

Grato pelas vossas leituras e coment√°rios a  este primeiro texto de uma s√©rie de cr√≥nicas que decidi escrever sobre uma das minhas paix√Ķes que √© o rock . Tenho anotado ao longo dos anos , quer por experi√™ncia pr√≥pria quer por relato de terceiros , variadas hist√≥rias , momentos ou simples banalidades sobre eventos onde as guitarras s√£o rainhas.
Abraço
Marco

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Ol√° para todos!
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Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
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Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
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Boa noite!
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Oi pessoal. FigasAbraço
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Boa noite a todos
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Boa tarde a todos
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Boa tarde a todos
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Boa tarde a todos
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Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
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Boa noite feliz para todos.
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Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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