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Autor Tópico: Memorial do convento  (Lida 3810 vezes)
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Tim_booth
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« em: Setembro 06, 2008, 00:55:49 »

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    N√£o tenho for√ßas que me levem daqui, deitaste-me um encanto, N√£o deitei tal, n√£o disse uma palavra, n√£o te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que n√£o o far√°s e j√° o fizeste, N√£o sabes do que est√°s a falar, n√£o te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.

    - Jos√© Saramago, Memorial do convento


Como classificar o (provavelmente) mais famoso trabalho de José Saramago? O que dizer acerca de um livro que todos, pelo menos, ouvimos falar? O que referir mais quando todas as personagens foram analisadas, todos os cenários foram caracterizados, todas as metáforas elogiadas, todos os parágrafos comentados? Não posso fazer mais do que oferecer a minha limitada visão acerca da obra, verdadeira obra, que seguro neste momento nas mãos.

O Memorial do convento trata de muito mais do que simplesmente da construção do convento de Mafra, ao contrário do que as sinopses mais simplistas referem, redigidas claramente por quem nunca leu o livro, ou lendo nunca se deu ao trabalho de o apreciar. Nele encontramos, pelo menos, três pontas diferentes, das quais a construção do convento não é de todo a mais significativa, apesar de dar o título à obra. A relação de Baltazar e Blimunda, a construção da Passarola são temas tão ou mais centrais do que o convento de Mafra. No entanto, se um é o amor entre homem e mulher do povo, outro nasce da ideia de um simples padre, o convento que nasce do capricho de um Rei é mais imponente para título. Talvez já aqui Saramago nos esteja a dar uma pista para a permanente crítica social que se encontra ao longo do livro.

Quem nunca se deparou com um romance de Saramago, certamente ter√° algumas, muitas, dificuldades no princ√≠pio da leitura. Frases que ocupam p√°ginas inteiras, par√°grafos que s√£o cap√≠tulos, vozes misturadas e apenas dois sinais de pontua√ß√£o usados - a v√≠rgula e o ponto final - s√£o dif√≠ceis para o mais atento dos leitores. Nos di√°logos, escritos na mesma frases, a troca de vozes √© feita pela capitaliza√ß√£o da primeira letra da nova voz. Pode parecer dif√≠cil, e √©, mas este n√£o seria o mesmo livro se fosse escrito de outra forma. √Č a tal voz que se senta na nossa mente, como anteriormente escrevi acerca de Todos os nomes, aperfei√ßoada e levada ao extremo, contando-nos um entrela√ßado de hist√≥rias, com um cen√°rio hist√≥rico.

O Memorial do convento centra-se no reinado de D. Jo√£o V e no seu desejo de ter um filho herdeiro do trono. Como promessa, edifica em Mafra um convento franciscano. H√°, no reino, um padre, Bartolomeu de Gusm√£o, que tem o sonho de voar. H√° um soldado maneta, que perdeu a m√£o esquerda na guerra e uma jovem mulher com um estranho poder de vis√£o e cuja m√£e √© enviada em auto-de-f√© para √Āfrica. Estes s√£o os principais personagens de um romance que apenas de uma maneira reduzida podemos considerar como hist√≥rico.

Baltazar conhece Blimunda durante o auto-de-fé da sua mãe. Era já conhecido do padre Bartolomeu de Gusmão que os convida, a ambos, para o ajudarem a trabalhar na sua invenção secreta, a Passarola, onde se veio a revelar imprescindível o estranho poder de Blimunda. O sonho do padre é concretizado e os três voam, mas vêem-se perseguidos pela Inquisição e forçados a esconder a invenção perto de Mafra, de onde Baltazar é originário. Nesta altura os trabalhos de construção do convento estão a começar e trabalho não falta na localidade, Baltazar e Blimunda ficam a viver com a irmã de Baltazar, o seu cunhado e sobrinho na velha casa dos pais do soldado enquanto o padre Bartolomeu foge dos seus irmãos na fé que o perseguem por heresia.

Gostava de ser capaz de enumerar todos os pormenores deliciosos de que o Memorial do convento est√° recheado. Mas s√£o tantos, e por vezes t√£o caricatos, que apenas uma leitura atenta da obra pode fazer justi√ßa √† sua qualidade. Temos preciosidades como ‚ÄúQuem vai √† guerra empadas leva‚ÄĚ, a prop√≥sito de uma manifesta√ß√£o de freiras no Terreiro do Pa√ßo, a fant√°stica descri√ß√£o da fertilidade do Rei, que apesar de parecer incapaz de fecundar a rainha foi capaz de espalhar a real semente por in√ļmeras freiras que visitava com regularidade fazendo um n√ļmero sem fim de bastardos reais. Temos a deliciosa descri√ß√£o das rela√ß√Ķes sexuais que Rei e Rainha mantinham duas vezes por semana, com protocolo pr√≥prio, quase c√≥mico se n√£o se aproximasse tanto da verdade daqueles dias. Enfim, um sem n√ļmero de verdadeiros peda√ßos de g√©nio de que apenas um grande contador de hist√≥rias √© capaz.

A voz narrativa ao longo deste livro √©, no m√≠nimo, peculiar. √Č omnisciente e omnipresente, √© quase uma voz conscienciosa capaz de tra√ßar ju√≠zos de valor acerca das ac√ß√Ķes de cada personagem, capaz de saltar no tempo para referir que passados muitos anos o gosto portugu√™s pela cor verde vai-se acentuar numa rep√ļblica, √© capaz de divertir com uma constante ironia dos costumes reais e das tradi√ß√Ķes do pa√ßo. √Č, verdadeiramente, a voz de Saramago.

Encontramos uma tremenda crítica ao poder. O poder absoluto que vai contra a vontade da população, que mata gente debaixo de pedras, aos milhares, para cumprir um capricho real, um poder que amarra homens e os tira das suas casas para serem practicamente escravos de uma obra que, se apenas da vontade do Rei dependesse, seria tão grande como a Basílica de S. Pedro em Roma. E mesmo neste Portugal do séc. XVII (ou será do séc. XX?) encontramos em duas pessoas, homem e mulher invulgares, um amor que não precisa da palavra amor para assim se definir. Baltazar e Blimunda são um poema em forma de história, talvez um dos mais belos poemas de amor que alguém alguma vez escreveu.

A realidade da hist√≥ria de Portugal, misturada com a irrealidade destes dois seres torna o Memorial do convento num livro √ļnico dentro do seu g√©nero. A nossa aten√ß√£o √© desviada dos acontecimentos para a rela√ß√£o que, apesar de parecer ter um papel secund√°rio na hist√≥ria, tem o papel principal da nossa leitura.

Para al√©m disso, h√° preciosidades lingu√≠sticas que mostram o porqu√™ deste ser o √ļnico Nobel da literatura portugu√™s: Saramago domina a l√≠ngua de Cam√Ķes como poucos, sem preciosismos desnecess√°rios. A sua escrita n√£o √© formal, n√£o est√° carregada de pretencionismo, est√° sim carregada de recursos estil√≠sticos que parecem t√£o naturais, por se aproximarem tanto da oralidade, que nos fazem pensar duas vezes se realmente existem ou n√£o.

Escrito originalmente aqui.
« Última modificação: Setembro 06, 2008, 11:25:16 por Tim_booth » Registado

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« Responder #1 em: Setembro 06, 2008, 10:12:24 »

Vais-me arruinar, com as tuas críticas positivas... vais, vais! Mais um livro que vou ter de ler.
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« Responder #2 em: Setembro 06, 2008, 10:26:33 »

√Č obriga√ß√£o de todo o portugu√™s ler este livro que j√° foi, ali√°s, de leitura obrigat√≥ria no ensino secund√°rio. Coloca o dedo na ferida de muita gente em todos os tempos. Dever-se-ia dizer que √© uma obra intemporal, √©-o, de facto.
Um óptimo incentivo à leitura!
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Tim_booth
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« Responder #3 em: Setembro 06, 2008, 11:20:03 »

Penso que ainda √© de leitura obrigat√≥ria, pelo menos no √ļltimo ano foi. Apesar de discordar de leituras obrigat√≥rias, quem l√™ for√ßado, l√™, √† partida, contrariado. Quando, na altura era obrigado a ler este livro n√£o o fiz, concentrei-me em disciplinas que me eram mais precisas (matem√°tica e f√≠sica) e s√≥ o li durante as f√©rias, s√≥ assim fui capaz de o apreciar devidamente. Mais ainda na re-leitura que fiz este ano, s√≥ assim consegui absorver pelo menos em parte a magnific√™ncia que este livro encerra.

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« Responder #4 em: Setembro 06, 2008, 19:13:17 »

Ol√°, Tim_booth,
concordo com voc√™, quando diz que esta obra do Saramago √© muito mais do que vemos aparentemente, em rela√ß√£o √† constru√ß√£o do convento.Esta foi uma boa desculpa da arte, para ir al√©m, como, ali√°s, √© do feitio do autor. Ele trilhou em sua obra, caminhos subvertidos e muito pr√≥prios, e muito me agradam as transgress√Ķes... Entendo que Belinda seria a representa√ß√£o da dimens√£o  inexplic√°vel e inexplicada da vida; o elemento m√°gico, que bem acolhe a vis√£o de mundo do autor, em que a vida tem muito mais a dizer, do que o que podemos compreender... Nesta obra transitamos entre a hist√≥ria, que seria a meu ver a parte mais desinteressante, a fic√ß√£o, a magia.
Muito bom também é ter trazido à luz, um pouco de ciência e a forma absurda como foi tratada pela Inquisição...a Passarola, seria o precursor do balão (aeróstato), que também entrou na dimensão de algo fantástico, para despistar os curiosos e sabotadores.
O frei Bartolomeu de Gusmão (brasileiro) foi um grande inventor que a Inquisição perseguiu ao ponto de se fazer exilar e morrer na Espanha.
Na obra, o casal real √© mostrado de forma cr√≠tica e quase caricata (ver o epis√≥dio do cobertor...), e o trabalhador an√īnimo quase como her√≥i. Saramago mistura com maestria a hist√≥ria e o fant√°stico, o humor a cr√≠tica...
Acho que j√° falei muito, mas teria muito mais...estilo, discurso....
Um abraço,
Guacira.
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Tim_booth
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« Responder #5 em: Setembro 06, 2008, 19:40:46 »

Guacira, fale à vontade, os livros querem-se discutidos, não apenas lidos! Realmente o Memorial do Convento retrata a família real comicamente enquanto que se dá ao trabalho de nomear os heróis anónimos: no episódio do transporte da pedra há uma passagem em que o autor escolhe um nome por letra para nomear todos os heróis que construíam o convento, uma passagem verdadeiramente notável.

Cheers
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