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Autor Tópico: Memória de elefante  (Lida 1749 vezes)
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Tim_booth
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Queria escrever à velocidade com que penso.


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« em: Setembro 07, 2008, 00:40:29 »

Citar
    - Tenho saudades da minha mulher.
    Uma das raparigas, que não falara ainda, sorriu-lhe com simpatia e isso encorajou-o a continuar:
    - Tenho saudades da minha mulher e não sou capaz de o dizer a ela nem a mais ninguém a não ser a você.

    - António Lobo Antunes, Memória de elefante


Memória de elefante é o primeiro romance publicado de António Lobo Antunes, em 1979, e deve ser lido como tal, como o primeiro, como um indicador do génio fervilhante que está por vir. Ou, talvez, deva ser lido precisamente ao contrário, como uma obra singular, experimentalista, difícil e, ao mesmo tempo, fácil de identificar com tanta coisa.

Este livro, com um forte traço auto-biográfico, conta alguns dias na pele de um psiquiatra, separado da mulher e das filhas, que se resignou a baixar os braços e parar de tentar encontrar um sentido para a sua vida fortemente marcada pela presença na Guerra Colonial. É, portanto, um dia-a-dia quase mecânico de uma máquina enferrujada pelas memórias ultra-marinas.

A propósito das memórias de guerra, junto mais um excerto que espanta pela violência feroz da realidade e mostra bem o cariz marcante que teve na vida do personagem, sempre tratado ao longo do livro como “o médico” ou “o psiquiatra”:

Citar
    Tu doente em Luanda, a miúda longe de ambos, e o soldado que se suicidou em Mangando, deitou-se na camarata, encostou a arma ao queixo, disse Boa noite e havia pedaços de dentes e de osso cravados no zinco do tecto, manchas de sangue, carne, cartilagens, a metade inferior da cara transformada num buraco horrível, agonizou quatro horas em sobressaltos de rã, estendido na marquesa da enfermaria, o cabo segurava o petromax que lançava nas paredes grandes sombras confusas.

    - António Lobo Antunes, Memória de elefante

Mas mais do que pela memória das atrocidades que presenciou, o médico vive perdido com a perda da sua família. Chega ao ponto de se esconder à porta do colégio das filhas para as poder ver à saída, tal vai a saudade e o desespero do personagem.

O livro é quase sempre narrado na terceira pessoa, apesar de num tom de voz tão íntimo que por vezes chega a parecer uma voz interior ao próprio médico que para si vai relatando a triste vida que a que se vê preso. Quer fugir da rotina mas, como um boomerang volta e chora a vida que um dia foi sua e agora lhe falta.

Lobo Antunes refere-se a este livro como uma obra inicial com os seus encantos de inexperiência mas parece rejeitar o seu conteúdo como um trabalho inferior. Eu, tal como muitos dos seus leitores, discordo em absoluto dessa qualificação. Como escrevi na introdução, não deve ser vista como uma primeira obra, talvez nem sequer se devesse pensar em Memória de elefante como um livro de António Lobo Antunes. Porquê? Porque nele se retratam emoções tão comuns, e, ao mesmo tempo, tão tristes que este livro poderia ser escrito por qualquer português - povo profundamente triste, por natureza. Não sendo uma história de espantar pela sua surpreendente trama, é exactamente aquilo que Lobo Antunes quer: um espelho da vida, páginas em que o leitor pensa “Isto é exactamente aquilo que um dia pensei”, “Senti-me tal e qual como ele aqui”.

Os momentos de desespero são muitos, tal como os de falta de vontade de viver. O psiquiatra senta-se a ouvir os seus pacientes para perceber, minutos mais tarde, que não ouviu uma única palavra que foi dita, tanto pelo doente como pela sua boca que automaticamente respondia.

Os momentos de tristeza são profundamente tocantes, como o monólogo no interior do carro - a única altura em que o narrador muda para a primeira pessoa - um baixar de braços e a tomada de consciência da perda da mulher amada.

Memória de elefante não será a obra-prima de Lobo Antunes, mas mesmo assim podemos encontrar pequenos momentos de génio, tal como o excerto acima, pormenores deliciosos de linguagem: “Dão-te tesão ò malacueco?” um delicioso manjar que mistura prosa quase poética com a franqueza rude de um “Foda-se” bem sonoro.

Talvez Memoria de elefante não seja um livro da obra do autor, talvez seja um livro da vida, quiçá de muitas vidas pertencentes a muitos mais.

Escrito originalmente aqui.
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damasco
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« Responder #1 em: Setembro 07, 2008, 02:16:25 »

Olá, Tim.
Passei aqui para ter dar os parabéns pelas análises que tens feito. Tenho estado a acompanhar e tem valido a pena. Infelizmente, os livros que tens escolhido ou não os li ou não estão frescos na memória, de modo a que possa apontar e discutir um ou outro aspecto. Assim que me sinta autorizado, fá-lo-ei certamente.
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Tim_booth
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« Responder #2 em: Setembro 07, 2008, 19:45:05 »

Obrigado Damasco, tem sido uma tarefa que me tem agradado imenso. Espero contar com a tua opinião num dos próximos!

Cheers
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« Responder #3 em: Setembro 07, 2008, 21:40:22 »

Vou ficar a espera Dite, ele até é pequeno, é num instante.

Cheers
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Goreti Dias
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« Responder #4 em: Setembro 08, 2008, 18:08:54 »

Exactamente! Um livro da vida! E eu apreciei deveras relembrar a minha leitura!
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Goretidias

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« Responder #5 em: Setembro 17, 2008, 23:36:31 »

Então, já lemos Dite? E uma apreciaçãozinha mais aprofundada? Wink

Cheers
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Boa tarde a todos!
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
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Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam pôr arte na pena. Figasabraço
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Olá! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
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Boas leituras e boas escritas para todos!
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Boa noite feliz para todos.
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Olá para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
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