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Autor Tópico: O delfim  (Lida 4197 vezes)
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Tim_booth
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« em: Setembro 13, 2008, 17:37:13 »

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¬ęUm momento, nada de pressas. Tu sabes a raz√£o por que nenhum homem deve fornicar a mulher leg√≠tima?¬Ľ Fica calado, √† espera; calado e a oscilar. ¬ęTu sabes¬Ľ, torna depois, ¬ęporque √© que isso deve ser considerado um delito perante a lei? Chiu, eu explico. Porque a mulher leg√≠tima √© o parente mais pr√≥ximo que o homem tem, e entre parentes pr√≥ximos as liga√ß√Ķes est√£o proibidas. √Č ou n√£o √© bem jogado?¬Ľ
- José Cardoso Pires, O delfim



Mais um título do mestre Cardoso Pires chega ao Livros (s)em critério, desta vez O delfim, a história de Tomás Palma Bravo, senhor da Lagoa, de Maria das Mercês, do criado Domingos e da Gafeira.

O delfim conta a hist√≥ria daquela pequena aldeia, a Gafeira, vista em dois anos consecutivos por um escritor e inveterado ca√ßador que vai tomando notas, no seu caderno de bolso, das suas conversas com os habitantes: o cauteleiro, o padre, o dono do caf√©, o presidente da junta, e, especialmente com o Engenheiro Tom√°s Palma Bravo, o Infante. Visto pelas pessoas da Gafeira, Tom√°s √© como um senhor feudal a que devem prestar vassalagem, isto, √© claro, enquanto reina a dec√™ncia no seio da fam√≠lia. E mesmo assim n√£o se escondem de comentar as estranhas rela√ß√Ķes entre o engenheiro e o seu criado Domingos nas suas costas, nem a aparente infertilidade de Maria das Merc√™s. Assim se vai construindo o livro, de relatos e conversas, de mem√≥rias e cita√ß√Ķes do escritor ca√ßador que volta √† Lagoa um ano depois da sua √ļltima ca√ßada, quando j√° a hist√≥ria do Infante n√£o passa de uma mem√≥ria da aldeia.

Este √© provavelmente um dos livros mais densos que li em muito tempo. N√£o pela intrincada narrativa (que existe - constantes analepses, por vezes impercept√≠veis em que o escritor nos leva para o √ļltimo ano sem que se perceba muito bem como), n√£o pelo complicado enredo (que n√£o √© t√£o complicado assim - apenas um crime ou a falta dele) mas pela enorme profundidade que, mais uma vez, Cardoso Pires consegue dar √†s coisas aparentemente simples. Milhares de interpreta√ß√Ķes poss√≠veis surgem ao falarmos de O delfim. Muitas das an√°lises centram-se na caracter√≠stica mais marcante do engenheiro, o marialvismo de tempos passados, a honra quase medieval com que se parece reger e que Jos√© Cardoso Pires caracteriza com tanta mestria. Outras preferem o simbolismo da Lagoa e da submiss√£o da terra a um homem, a uma fam√≠lia que gere o terreno mais lucrativo da aldeia. A Lagoa que √© isco de ca√ßadores e turistas mas que Tom√°s reserva apenas aos seus convidados, dando-lhe uma honra de senhora, honra de mulher amada, quase divina.

A verdade √© que O delfim √© tudo isto e muito mais. √Č o esp√≠rito do portugu√™s colonial ironizado ao seu expoente m√°ximo no √ļltimo representante vivo. √Č a dignidade de uma alma do passado. √Č o desespero de uma mulher mal-amada. √Č a vergonha dos criados frente a um senhor. √Č o machismo personificado em forma de pessoa intrigante. √Č o carism√°tico engenheiro, a sua bela mulher, o seu criado maneta e a Lagoa numa mistura impercept√≠vel por quem nunca se entregou ao mundo de Jos√© Cardoso Pires.

Comecemos pela mais evidente personagem, aquele que mais nos preenche o espírito na leitura deste romance: o Engenheiro. Herdeiro da família Palma Bravo, sente nos ombros o peso de continuar a secular tradição de senhores feudais que os seus antepassados começaram. Tem como farol guia o seu tio Gaspar, senhor de uma honra intocável que se vestiu de luto completo quando a filha fugiu com um homem. Dele vem a inspiração para Tomás e uma das suas célebres tiradas: "Se eu tivesse uma filha casada, ai dela que pusesse os cornos ao marido que era como se os pusesse a mim!" (citado de memória). Trata os criados como criados excepto o seu fiel Domingos, rapaz maneta mas hábil com as máquinas. Tomás tem por ele um apreço quase inexplicável, uma relação que vai muito além da normal entre patrão e servente, e, por ele, acaba por deitar a perder a honra familiar. O infante é símbolo do Portugal colonial, símbolo evidente do machismo arcaico, da honra e da altivez, jura preferir ser enterrado na Lagoa, tal como os peixes, com coveiroa de escafandro se for preciso, porque "o cemitério é de todos, mas a Lagoa é só minha."

A Lagoa, essa, é mística, pintada em tons de magia ao longo do livro, diz-se que tem poderes misteriosos e que, depois do desaparecimento do Infante, se conseguem ouvir o latir dos seus cães durante a noite, entre eles o Domingos que a população afirmava gostar de ser tratado como um cão pelo patrão. Tudo isto nos relata o escritor caçador através das suas notas, notando-se que também para ele, como para toda a restante população da Gafeira, a Lagoa não é um lugar comum. Parece, na verdade, ser o cerne discreto de toda a história, local de toda a acção relevante e local de miséria para a família Palma Bravo. Forma-se no nosso imaginário como nos filmes, com aquela neblina nas manhãs e brilhante ao sol durante as tardes de verão. Local de paixão tanto quanto local de crime. E assim é.

O escritor ca√ßador torna-se num buraco atrav√©s do qual espreitamos as personagens da terra. √Č a boquilha por onde somos apresentados ao Infante e √† sua fam√≠lia, √† Lagoa e aos seus mist√©rios. √Č, no fundo, um voyeur que se alimenta das intrigas do povo e nos transmite as ideias que lhe ficam, de onde a √ļnica absurda ser√°, talvez, uma admira√ß√£o envergonhada pelo engenheiro que se vai percebendo pela maneira como fala das suas palavras e como trata a sua figura como algu√©m a ser ouvido. √Č s√≠mbolo da Na√ß√£o rendida aos esp√≠ritos do passado, envergonhada, e, ao mesmo tempo, orgulhosa por eles.

Mas a mais intrigante, talvez até mal explorada, personagem é Maria das Mercês. Mulher urbana de pensamento progressivo e liberal, deixa-se ser posse de um homem de outros tempos, encantada pelo orgulho e pelo desprezo com que o Engenheiro a trata. Maria das Mercês que acaba os seus dias como Tomás Manuel queria acabar os seus (num indício claro do real desenrolar dos acontecimentos) que se permite ficar presa em sua própria casa numa solidão sufocante em que se vê obrigada a falar sozinha para reconhecer o som da sua própria voz. A voz de Maria das Mercês parece, na verdade, ser a voz de muitas mulheres daqueles inícios dos anos 60, agrilhoadas a um mundo que não as ouvia, a um amor que não as respeitava e seduzidas por um machismo que rejeitam.

Este é o mundo do Delfim, Tomás Manuel de Palma Bravo. A escrita de Cardoso Pires é igual a si própria, uma escrita que propositadamente tenta dificultar a leitura para relembrar ao leitor de que a sua atenção é necessária para receber todos os proveitos deste magnífico livro, obra de um verdadeiro génio das letras portuguesas.

Escrito originalmente aqui.
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Goreti Dias
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« Responder #1 em: Setembro 13, 2008, 17:52:19 »

Com uma análise destas, dizer mais o quê?! Um livro magnífico, aqui muito bem explorado.
Um abraço
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Goretidias

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Tim_booth
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« Responder #2 em: Setembro 13, 2008, 18:07:09 »

Obrigado Goreti, e, mesmo assim, sinto que ficou muito por dizer desta excelente obra.

Cheers
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Laura
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« Responder #3 em: Setembro 14, 2008, 18:03:00 »

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A Lagoa, essa, é mística, pintada em tons de magia ao longo do livro, diz-se que tem poderes misteriosos e que, depois do desaparecimento do Infante, se conseguem ouvir o latir dos seus cães durante a noite, entre eles o Domingos que a população afirmava gostar de ser tratado como um cão pelo patrão. Tudo isto nos relata o escritor caçador através das suas notas, notando-se que também para ele, como para toda a restante população da Gafeira, a Lagoa não é um lugar comum. Parece, na verdade, ser o cerne discreto de toda a história, local de toda a acção relevante e local de miséria para a família Palma Bravo. Forma-se no nosso imaginário como nos filmes, com aquela neblina nas manhãs e brilhante ao sol durante as tardes de verão. Local de paixão tanto quanto local de crime. E assim é.

Pois os locais... somos nós, os que neles vivem, que os fazemos. Pintamo-los com as nossas cores.

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Mas a mais intrigante, talvez até mal explorada, personagem é Maria das Mercês. Mulher urbana de pensamento progressivo e liberal, deixa-se ser posse de um homem de outros tempos, encantada pelo orgulho e pelo desprezo com que o Engenheiro a trata. Maria das Mercês que acaba os seus dias como Tomás Manuel queria acabar os seus (num indício claro do real desenrolar dos acontecimentos) que se permite ficar presa em sua própria casa numa solidão sufocante em que se vê obrigada a falar sozinha para reconhecer o som da sua própria voz. A voz de Maria das Mercês parece, na verdade, ser a voz de muitas mulheres daqueles inícios dos anos 60, agrilhoadas a um mundo que não as ouvia, a um amor que não as respeitava e seduzidas por um machismo que rejeitam.

Ainda bem que a minha mãe não foi assim... Mais uma belíssima análise, Tim. Mais um livro para a minha colecção...
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Tim_booth
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« Responder #4 em: Setembro 14, 2008, 18:10:13 »

Ainda bem que gostaste Laura. O livro, esse sim, é realmente magnífico e vale todos os leitores que conseguir. A não perder também o filme, superiormente bem realizado mas a consumir nesta ordem: livro e filme.

Cheers
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Laura
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« Responder #5 em: Setembro 14, 2008, 18:16:46 »

Nunca vejo um filme, sem ler o livro primeiro. Estes s√£o mais importantes para mim... Obrigada, Tim.
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