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Autor Tópico: Ensaio sobre a Cegueira  (Lida 4347 vezes)
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Tim_booth
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Queria escrever à velocidade com que penso.


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« em: Setembro 26, 2008, 23:47:59 »

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    (‚Ķ) Que ser√° isto, pensou, e de s√ļbito sentiu medo, como se ele pr√≥prio fosse cegar no instante seguinte e j√° o soubesse. Susteve a respira√ß√£o e esperou. Nada sucedeu. Sucedeu um minuto depois, quando juntava os livros para os arrumar na estante. Primeiro percebeu que tinha deixado de ver as m√£os, depois soube que estava cego.

- José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira


H√° livros que nos deixam sem palavras. H√° livros que nos deixam a querer falar sobre eles sem parar. H√° livros que por todas as suas componentes se destacam dos outros. H√° livros que nunca mais esqueceremos por muitos anos que vivamos. H√° livros que s√£o perfeitos. Tudo isto para dizer que Ensaio sobre a Cegueira √© uma suave, minto, uma fort√≠ssima mescla de todos estes livros. √Č um dos livros mais persistentes, e por persistente aqui quero dizer marcante, intrigante e tudo o mais que quiserem, a verdade √© que este livro n√£o se apaga da mem√≥ria e muito menos do esp√≠rito. Estava eu a dizer que este √© dos mais persistentes que j√° li at√© hoje. Provavelmente, um dos mais da hist√≥ria da Literatura. N√£o, n√£o me enganei. Nenhuma palavra a seguir √†quele mais ali atr√°s, √© mesmo suposto ser assim. Qualquer que seja o adjectivo que ponha a seguir ao ‚Äėmais‚Äô adequa-se certamente. Este √© um livro de topo.

Saramago coloca-nos um caso simples. Alguém que deixa de ver. A esse alguém, outro alguém se segue. A esse outro alguém, outro mais, e outro e ainda mais até que não exista ninguém no mundo capaz de ver. Esta cegueira espalha-se como uma epidemia. Sabe-se que é desta e não de outra qualquer por estes cegos terem a particularidade de ver tudo branco. Ver é um verbo que para aqui é atirado, como muitas vezes ao longo do livro acontece, apenas como força de expressão, como pode um cego ver? Dizia eu, em jeito de sinopse, que toda a humanidade cega, com a excepção de uma pessoa, a mulher do médico que examinou o primeiro homem a cegar. As primeiras vítimas da epidemia são ainda empurrados para uma quarentena pelo governo, na esperança de conter a doença, mas cedo se percebe que já não há nada a fazer. Esta é a história de um mundo de cegos onde quem tem olho finge não ter.

Que mais posso eu dizer àcerca do génio de Saramago? Ainda não disse tudo, nunca o direi, talvez nunca ninguém o dirá. Da qualidade da sua escrita já todos fomos testemunhas e já por três vezes falei na maneira especial que o autor tem de nos contar a história (é a tal vozinha no interior da nossa mente que vai relatando, não somos nós que estamos a ler, é como se alguém nos estivesse a contar um conto). Por isso não vos maçarei mais com pormenores técnicos, com recursos de estilo, com vírgulas, pontos finais e parágrafos.

E que dizer deste livro? Tantos já o tentaram e tanto foi já dito. Não sei se conseguirei acrescentar nada de novo à discussão, talvez não acrescentando consiga trazer mais gente à luz desta obra magistral.

Espantosa √© a vis√£o cega deste livro, se me permitem o foleiro trocadilho. Uma sociedade √©-o at√© quando? Quando √© que as necessidades da sobreviv√™ncia se sobrep√Ķem √†s normas de conviv√™ncia? Quando √© que um homem deixa de ser um homem? Tantas quest√Ķes nos imp√Ķe esta obra que √© imposs√≠vel enumera-las a todas. Neste ensaio, que toma a forma de romance, √© explorado o baixo do baixo do baixo onde se pode cair. As imagens que vemos em cada p√°gina s√£o repugnantes pela frieza e principalmente pela naturalidade com que se apresentam. Pois se √© preciso matar um homem para sobreviver, para preservar uma r√©stia de orgulho e dignidade, para qu√™ diz√™-lo de outra maneira? Se para comer as mulheres t√™m de deixar de o ser, de que maneira se pode escrever isso sem o escrever? Arrepia aquilo que se l√™.

As personagens não têm nome, nem precisam. A bem dizer, num mundo onde ninguém, com a excepção da mulher do médico, consegue ver, de que adiantam os nomes que não são mais que sinais visíveis escritos num qualquer registo? Interessa o que são, e dessa maneira as identificamos na narrativa - a mulher do médico, o médico, o primeiro cego, a mulher deste, o velho da pala, a mulher dos óculos escuros, o rapaz estrábico, o cão das lágrimas.

A mulher do m√©dico, os olhos do seu grupo, os olhos do mundo, aquela que desejava ser como os outros, aquela que, ao contr√°rio de todos queria abrir os olhos e ver-se cega (e mais uma vez aqui este verbo, como se ver fosse alguma coisa que dos olhos estivesse dependente), ver branco e nada mais. Ela √© a personagem mais marcante de todo o livro - √© a salva√ß√£o da r√©stia de humanidade do seu grupo e √© a testemunha do decl√≠nio da ra√ßa humana. Se por um momento troc√°ssemos o nosso olhar com o dela seria imposs√≠vel voltarmos a ser a mesma pessoa. √Č tamb√©m a sensa√ß√£o que d√° ao acabar de ler este mundo, como se tivessemos presenciado o ponto mais baixo da humanidade. Um frio desconfort√°vel na barriga, um arrepio na espinha, uma l√°grima que corre por aquilo que n√£o somos. Ainda.

Acrescentei aquele ainda porque este √© tamb√©m um pren√ļncio do futuro. O que √© aquela cegueira afinal? Tanta pode ser a sua causa, de tanta maneira pode ser interpretada a sua origem. Agora em que o mundo atravessa uma das mais graves crises financeiras de que h√° mem√≥ria, a humanidade cega a tudo o resto e v√™ apenas o valor da sua vida diminuir. Come√ßa-se a sentir no mundo de hoje o cheiro f√©tido que se sente ao longo das p√°ginas do livro. Pergunto-me quantos j√° ter√£o cegado desta branca cegueira, pergunto-me quantos sobreviver√£o √† epidemia. Preocupo-me com a dist√Ęncia a que ainda est√° o dia em que algu√©m gritar√° ‚ÄúEu vejo‚ÄĚ e se algu√©m ser√° poupado √† cegueira geral para ser o olhar que preciso para sobreviver.

Ensaio sobre a Cegueira é o livro mais inquietante, mais cruel, mais frio, mais horripilante, mais enternecedor, mais triste, mais feliz, mais livro, mais obra, mais arte, enfim, mais tudo, que já me passou pelas mãos. Passará, se ainda não o fez, pelas vossas em breve. Acaso não ceguem antes.

Escrito originalmente aqui.
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« Responder #1 em: Setembro 27, 2008, 10:36:21 »

Ol√° Tim, Ol√° Dite, quero come√ßar por vos dizer que me sinto pequenina, perante t√£o s√°bios cr√≠ticos. Que acrescentar aquilo que foi dito? S√≥ concordar com voc√™s. H√° livros que realmente nos deixam sem palavras, e este √© seguramente um deles, pois lio uma primeira vez, e depois o saboreei uma segunda. S√≥ houve um outro que me deixou tambem presa, at√© o acabar. Se O Amanh√£ Chegar  De SiDNEY  SHELDON.BJS para v√≥s. Elvira
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« Responder #2 em: Setembro 27, 2008, 11:51:00 »

Amigas, só vos posso dizer que escrever sobre este livro foi a coisa mais difícil que alguma vez tive de escrever. Queria escrever tanto mais, dizer tanto mais, mas as palavras não saíam. Vou relê-lo com certeza, talvez nessa altura consiga dizer mais, para já continuo sem palavras.

Cheers
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Laura
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« Responder #3 em: Setembro 27, 2008, 12:52:00 »

Valeu a pena a espera... podia ter esperado um ano... acima de tudo, afilhado, gosto da tua paix√£o.
Abraço,
Laura
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Guacira
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« Responder #4 em: Setembro 27, 2008, 13:17:19 »

Ol√°, Tim,
fui invadida por uma alegria/surpresa, ao ver que esta obra-prima de sensibilidade do Saramago seria oferecida aqui, compondo o card√°pio do final de semana.
Fant√°sticas reflex√Ķes e alertas encontram-se ali...desde que li a obra, pungente, fiquei pensando como seria estar no lugar da √ļnica pessoa dotada(ainda) da vis√£o org√Ęnica, naquele contexto de cegueira de alma, de cora√ß√£o, que o desespero, a dor, o medo, a fragilidade e a pequenez expuseram t√£o fortemente.
Poucos dias atr√°s, minha filha viu o filme e ficamos analisando o mundo contido naquela obra, inclusive comparando a linguagem cinematogr√°fica com a do livro, incomparavelmente mais rica.
Realmente, estamos entrando numa dimens√£o t√£o materialista,as rela√ß√Ķes t√£o grosseiras, a sensibilidade t√£o entorpecida, que o filme exibido, agora por aqui, n√£o veio sem prop√≥sito. Tor√ßo que o que √© exposto ali, sobre nossos comportamentos, n√£o continue a se configurar uma realidade vivenciada no cotidiano...seria estabelecer mais que o c√°os
no mundo, a sua derrocada final...
Parabéns pela ecolha e pela sensibilidade exposta na análise, como sempre, aliás.
Um abraço, Guacira.
« Última modificação: Setembro 27, 2008, 13:25:51 por Guacira » Registado
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« Responder #5 em: Setembro 27, 2008, 14:18:47 »

Obrigado Guacira. √Č realmente imposs√≠vel n√£o pensarmos naquela mulher que v√™ o mundo a destruir-se √† sua volta. N√£o lhe invejaria os olhos, preferia ser cego.

Madrinha, ainda bem que valeu a pena a espera. A paix√£o vai estar c√°, sou um homem de livros, sem eles n√£o viveria.

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« Responder #6 em: Setembro 27, 2008, 17:42:20 »

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Realmente, estamos entrando numa dimens√£o t√£o materialista,as rela√ß√Ķes t√£o grosseiras, a sensibilidade t√£o entorpecida, que o filme exibido, agora por aqui, n√£o veio sem prop√≥sito. Tor√ßo que o que √© exposto ali, sobre nossos comportamentos, n√£o continue a se configurar uma realidade vivenciada no cotidiano...seria estabelecer mais que o c√°os no mundo, a sua derrocada final...

Quero acreditar que não, Guacira... há ainda tanta beleza no mundo e dentro da própria humanidade, que creio não poderem ser destruídas nunca. Podem às vezes transformar-se em bigornas, como diz o antónio paiva, mas são fluidas e se hoje são bigornas, amanhã são espadas e depois são flores. De qualquer forma, nunca escolheria a cegueira...
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« Responder #7 em: Setembro 27, 2008, 17:53:53 »

De qualquer forma, nunca escolheria a cegueira...

Já eu não tenho essa certeza Laura. Se o mundo chegar a tal estado como na sociedade descrita no livro, o que cada vez parece menos longínquo, prefiro não estar cá para o ver. E estando, se me fosse dada a oportunidade de ver, não o faria. Sou como a mulher do médico que fecha os olhos na esperança de os abrir para a cega brancura.

Cheers
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Laura
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« Responder #8 em: Setembro 27, 2008, 17:55:13 »

Pois eu não sou nada como essa mulher do médico... não sou nada de cruzar os braços... por vezes, até cruzo, mas é sempre temporário.
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« Responder #9 em: Setembro 27, 2008, 18:03:46 »

Fico feliz por ti. J√° sei a quem me chegar quando todos cegarmos, sei que vais conseguir manter os olhos abertos. Mas aten√ß√£o, h√° que fazer aqui uma ressalva em honra do livro: na minha interpreta√ß√£o, a √ļnica raz√£o pela qual a mulher do m√©dico n√£o cegou foi precisamente porque tinha a mesma atitude que tu tens. O que ela queria era n√£o ter, quando o cansa√ßo a matava. E nessa altura apareceu o c√£o das l√°grimas...
Quando dizes que não és nada como a mulher do médico eu digo exactamente o oposto: tu és a mulher do médico.

Cheers
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« Responder #10 em: Setembro 27, 2008, 18:52:09 »

Agora vou mesmo ter que ler, para saber o que é o cão das lágrimas...
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« Responder #11 em: Setembro 27, 2008, 18:57:14 »

J√° disse foi eu de mais... o dif√≠cil de comentar este livro √© que tudo do que vale a pena falar estragar√° a experi√™ncia de leitura (bem, estragar n√£o estraga, duvido que sequer lhe tire impacto, mas pode reduzir o horizonte de interpreta√ß√Ķes...). Laura, √© imperioso ler o "Ensaio sobre a Cegueira". N√£o sei como me deixei viver este tempo todo sem o ter lido.

Cheers

P.S.: E leia-no se possível antes de verem o trailer para o filme Blindness, a estrear em Novembro julgo eu, que revela pormenores mais deliciosos quando lidos...
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« Responder #12 em: Setembro 28, 2008, 23:57:20 »

Este livro est√° realmente muito poderoso. A met√°fora da perda de vis√£o j√° de si, √© muito poderosa mas a forma como √© utilizada por Saramago, os caminhos porque ele nos leva, merecem sem d√ļvida uma leitura e dificilmente nos deixam indiferentes.
Escrevi há pouco tempo uma crónica sobre ele, publicada no Primeiro de Janeiro e que decidi até colocar na selecção de crónicas que coloquei no meu site. Aqui fica uma transcrição desse meu texto para juntar a estas belas críticas literárias lançadas pelo Tim Booth e que são já motivo de algumas visitas minhas a este site:

CEGUEIRA

Para efeitos √ļnicos desta cr√≥nica e correndo o risco de nesta premissa inicial ser pouco original, imagine o leitor que, a certa altura, no nosso pa√≠s, surgiu uma epidemia de cegueira, epidemia esta que, um pouco √† imagem da met√°fora de Saramago (Ensaio sobre a Cegueira), consiste numa escolha de valores e de regras de vida que levem a ignorar toda a dimens√£o humana do outro com quem nos cruzamos diariamente, a ignorar o valor da meritocracria, o valor de dar sempre uma oportunidade a todos, o valor da exist√™ncia de regras em sociedade, o valor da justi√ßa, da solidariedade, e tantos outros que t√™m de existir lado a lado com a iniciativa e com a ambi√ß√£o de conseguir mais e melhor para si e para todos √† volta, sendo que uns t√™m de temperar os outros para que as rodas da sociedade nos levem a algum lado em vez de simplesmente atropelar e trocidar a maioria. Claro, tudo isto cai por terra quando o primeiro descobre que, subvertendo apenas alguns destes valores, a sua vida progride enormemente ao contr√°rio da dos outros. Uma corrup√ß√£ozinha, um favorzinho, um pequeno tr√°fico de influ√™ncias, um ganho de audi√™ncia √† custa da desgra√ßa ou da futilidade alheia, enfim, um belo salto na carreira ou na fortuna, cometendo-se apenas um pequeno delito que n√£o far√° mal a ningu√©m. √Č talvez a√≠ que se aloja e come√ßa a progredir o v√≠rus da cegueira, como o fungo na humidade. Ou talvez comece antes a cegueira, quando nos batem nos olhos, desde crian√ßas, imagens dos telejornais, plenas de uma realidade cruel, repletas de gente que sofre: pessoas a morrer √† fome em estado lastim√°vel, guerras em directo assistidas a partir do sof√° como se de partidas de futebol se tratassem, milhares de pessoas a chorar e a lamentar inc√™ndios nas suas casas, ou terremotos, ou familiares mortos nos acidentes de via√ß√£o ou de comboio, ou atentados √† bomba que vitimam outros milhares todos os anos, em nome desta ou daquela causa que para n√≥s nunca valeu nada. Talvez seja a√≠ que come√ßamos a ser ‚Äúcegados‚ÄĚ, a habituar-nos a ver e a n√£o reparar, a ignorar o interior dos outros, porque realmente perante a evid√™ncia nua e crua das televis√Ķes nada podemos fazer para ajudar quem est√° do outro lado do √©cran. Da habitua√ß√£o ao sofrimento nos telejornais √† habitua√ß√£o √† realidade das ruas, diante dos nossos olhos, vai um curto passo. O seguinte √© ignorar os concidad√£os, os vizinhos, os familiares. Passa depois por ignorar o lado interior humano de todos e cada um de n√≥s trocando o que somos por uma imagem mental que lhe toma o lugar e na qual constam alguns items de maior import√Ęncia, a saber, sal√°rio estimado, marca e modelo do carro, casa onde mora, roupa que veste, t√≠tulo profissional, e, por fim, a quantidade de m√ļsculos, de curvas ou de gordura no corpo. Esta cegueira n√£o √© negra, √© colorida, como o mar de leite da imagina√ß√£o de Saramago onde as cores se fundem numa √ļnica que cega: os reclames, as revistas, as TVs, as marcas, os slogans, todos os produtos, todos os pre√ßos e, consequentemente, as nossas frustra√ß√Ķes ou prazeres consoante aquilo que o dinheiro nos comprar. Certamente n√£o faltar√° quem diga que √© desta cegueira que emanam todos os problemas do nosso Portugal. E, dir√£o, se o problema n√£o √© maior √© porque h√° quem n√£o esteja cego, d√™ o bra√ßo e ajude a guiar os demais cegos ao seu caminho porque l√° diz Saramago que h√° uma coisa chamada ‚Äúa responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam‚ÄĚ.
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« Responder #13 em: Setembro 29, 2008, 00:04:03 »

Fantástica crónica Gonçalo, conseguiu espalhar tudo um pouco daquilo que eu queria dizer e não consegui. A verdade é que este livro é o exacto oposto da cegueira, abre-nos os olhos a tudo o que se passa à nossa volta só para percebermos que nunca tínhamos reparado nisso antes...

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elvira
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« Responder #14 em: Setembro 29, 2008, 11:24:28 »

Ol√° Tim, Dite, Laura, Guacira,Gon√ßalo, li atentamente cada palavra vossa, e gostei de cada uma,das vossas  criticas. Por vezes √° palavras queremos dizer, mas que na nossa inquieta√ß√£o deixamos guardadas,n√£o querendo ver.Disse ao Tim que este foi o livro que me abriu os olhos para a obra de Saramago, e desde ent√£o, leio todos os seus livros com outros olhos, os de ver.Gostei de saber que √° outras pessoas que comungam o mesmo gosto pela obra de Saramago. Bjs Para v√≥s Elvira.
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