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Autor Tópico: Os Cus de Judas  (Lida 1984 vezes)
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Tim_booth
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« em: Outubro 01, 2008, 23:02:21 »

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Eu estava farto da guerra, Sofia, farto da obstinada maldade da guerra e de escutar, na cama, os protestos dos camaradas assassinados que me perseguiam no meu sono, pedindo-me que os n√£o deixasse apodrecer emparedados nos seus caix√Ķes de chumbo, inquietantes e frios como os perfis das oliveiras, farto de ser larva entre larvas na c√Ęmara ardente da messe que o motor da electricidade aclarava nas vacila√ß√Ķes hesitantes de desmaio, farto do jogo das damas dos capit√£es idosos e das melanc√≥licas piadas dos alferes, farto de trabalhar, noite ap√≥s noite, na enfermaria, molhado at√© aos cotovelos do sangue viscoso e quente dos feridos.
- António Lobo Antunes, Os Cus de Judas



Mais uma obra de Lobo Antunes, mais um grito de desespero, de dor, violenta dor, que o autor lan√ßa ferozmente nas p√°ginas de uma das suas mais famosas cria√ß√Ķes,Os Cus de Judas. O g√©nio do eterno candidato ao Nobel portugu√™s faz-se sentir aqui de uma forma bem mais √≥bvia do que na sua estreia. Em Mem√≥ria de Elefante encontr√°vamos isso mesmo, um Lobo Antunes que escrevia mem√≥rias da mem√≥ria, que procurava apagar bocados grandes daquilo que, a princ√≠pio, n√£o queria revelar aos leitores mas que acabaram por explodir, tal como as granadas que decepavam os seus camaradas em Angola, nas p√°ginas deste livro, tido por muitos como um dos mais significativos da carreira do mestre lusitano.

Mas antes de mais, vamos √† hist√≥ria. H√° um narrador, desta vez e ao contr√°rio do que acontecia em Mem√≥ria de Elefante a voz narrativa √© clara, presente, no Portugal do p√≥s 25 de Abril que num bar encontra uma mulher com quem decide partilhar a solid√£o de uma noite. Mais do que isso, decide partilhar os mais int√≠mos destro√ßos daquilo que s√£o agora as suas mem√≥rias, agarradas pelo mesmo arame farpado que cercava o campo portugu√™s nos v√°rios lugarejos angolanos, nos v√°rios Os Cus de Judas onde o m√©dico esteve destacado. Ao longo do livro, invariavelmente, no in√≠cio de cada cap√≠tulo o narrador interpela a sua companheira de noite com coment√°rios mundanos, pode por exemplo falar acerca das pedras de whiskey no copo, comentar como ambos envelhecem, mas acaba sempre por voltar a sua aten√ß√£o para os tempos de √Āfrica que o estilha√ßaram interiormente. Temos, portanto, por um lado o relato de duas pessoas sozinhas que passam a noite juntas desde o momento em que se conhecem no bar at√© √† manh√£ em que uma delas se veste envergonhada para trabalhar, e, tamb√©m, o relato que nunca se sabe muito bem at√© que ponto √© exteriorizado pelo narrador sobre os locais por onde passou os seus vinte e sete meses de servi√ßo militar.

E brutal n√£o √© suficiente para descrever o relato. Cada palavra com que Lobo Antunes se refere a √Āfrica √© como um punho bem cheio de areia do solo africano que nos √© lan√ßado aos olhos. Pior do que isso, √© um punho cheio de areia da d√©cada de 60, lan√ßada por um bra√ßo tatuado a caneta bic "Angola 67", um bra√ßo de raiva, de dor, de negro. Talvez por isso toda a narrativa se passe ao longo da noite e termine ao amanhecer. Para o narrador, aquilo que para si ou para a sua companheira vai contando √© o per√≠odo mais negro da sua vida. Quando amanhece na cidade, amanhece tamb√©m nele uma resigna√ß√£o, um esquecimento daquilo que foi e nunca mais ser√° antes de ter embarcado naquele navio para o continente africano.

As descri√ß√Ķes dos camaradas que chegam feridos √†s tendas de campanha n√£o precisam de ser detalhadas para nos contorcermos com dor; Lobo Antunes confia na for√ßa das palavras simples para fazer esse trabalho. Talvez porque mais do que palavras est√£o escritas neste livro, mem√≥rias, mem√≥rias verdadeiras, cicatrizes que nunca v√£o sarar, que nunca v√£o parar de doer nos dias mais frios dos Invernos mais frios e nos dias mais quentes, quando a serena tarde portuguesa faz lembrar o entardecer africano. Assim acaba por deixar o trabalho pesado para as palavras simples que iam sendo repetidas √† sua volta, os "caralho, caralho, caralho" do enfermeiro ao ver o soldado que se suicidou, como j√° tinha sido referido em Mem√≥ria de Elefante, numa das incurs√Ķes pela guerra do narrador.

Parece existir uma certa curva descritiva do estado de sanidade mental do narrador em função dos meses que passou em Angola - enquanto que nos primeiros o clima mais perceptível era o da ansiedade natural de quem sabe que está a lutar por coisas que não acredita, ao longo do relato vai-se confundindo com uma loucura ensurdecedora com o ponto mais alto dessa mesma loucura algures no capítulo N (isso mesmo, os capítulos estão numerados com letras) e que depois se vai dissipando numa acomodação destroçada no final do serviço cumprido. No final ficou a sombra do homem que saiu de Portugal.

"Estás mais magro" dizem-lhe as tias. A guerra não fez dele um homem, não faz de ninguém nada a não ser munição. E tal como munição, sobram as carcaças da pólvora no chão sujo. Este é o autor de Os Cus de Judas, munição gasta que vagueia por Lisboa, de bar em bar, à procura de voltar a sentir-se preenchido.

Escrito originalmente aqui.
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Laura
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« Responder #1 em: Outubro 01, 2008, 23:43:41 »

‚ÄúA guerra n√£o fez dele um homem, n√£o faz de ningu√©m nada a n√£o ser muni√ß√£o.‚ÄĚ

Mas os livros que escreveu fizeram dele um homem, e mais do que um homem, Tim. Mais uma vez, obrigada, pela maravilhosa leitura que nos deixas. Assim sentida por ti…

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Tim_booth
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« Responder #2 em: Outubro 02, 2008, 10:26:28 »

Laura, √© realmente uma leitura maravilhosa, sentida por mim ou n√£o. E Lobo Antunes, se na guerra n√£o se fez homem pelos padr√Ķes das suas tias, fez-se um homem dos maiores que nesta terra andam.

Conceição, aviso de amigo, este livro não é para leitores impressionáveis! Mas é um livro a não perder, quando tiveres tempo faz-te a ele!

Cheers
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Goreti Dias
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« Responder #3 em: Outubro 02, 2008, 18:51:00 »

Vale a pena ler Lobo Antunes. Duro e cru, apetece ler! Obrigada por este belo texto de opini√£o!
Abraço
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« Responder #4 em: Outubro 02, 2008, 19:43:39 »

Goreti, Lobo Antunes é assim mesmo, cru. E genial.

Conceição, força nele, ainda para mais agora há uma edição de bolso bem bonita e barata da LEYA, vale a pena!

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anamarques
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« Responder #5 em: Outubro 07, 2008, 15:10:29 »

Bela cr√≥nica sobre um dos mais importantes livros que j√° li. Parab√©ns Tim. Foi atrav√©s deste livro, desta escrita, da voz do Ant√≥nio Lobo Antunes, que sem nunca ter l√° estado, pude perceber o que √© a guerra ( muito melhor do que vendo todos os filmes de guerra feitos at√© hoje). Qualquer guerra. E o p√≥s-guerra. as feridas que n√£o saram. √Č bom de ler e reler.
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Tim_booth
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« Responder #6 em: Outubro 07, 2008, 18:12:05 »

√Č mesmo isso Ana, com este livro n√£o ficamos a perceber o que √© a guerra, ficamos a perceber o que √© sobreviver depois da guerra... Obrigado pelo coment√°rio.

Cheers
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camila75
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« Responder #7 em: Outubro 10, 2008, 23:01:31 »

Este foi um dos meus livros de cabeceira durante muito tempo. Impressiona pela profundidade psicol√≥gica e intensidade com que o narrador nos transporta ao seu mundo de pesadelo interior, no qual se sente irremediavelmente s√≥. N√≥s, tal como a sua companheira, somos ouvintes exteriores e distantes, incapazes de compreender a enormidade do que nos √© transmitido. Como ele escreve a determinado momento, as nossas solid√Ķes nunca se tocam.   
A consciencialização é de facto um processo irreversível e há experiências que nos separam irremediavelmente dos outros e que não conseguimos partilhar.
Um outro livro excelente sobre este tema é o Coração das Trevas, de Joseph Conrad, que inspirou o filme Apocalipse Now.
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Camila75
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