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Autor Tópico: O ano da morte de Ricardo Reis  (Lida 5689 vezes)
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elvira
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« Responder #15 em: Setembro 26, 2008, 14:44:51 »

Olá Tim, como gosta de ler mando-lhe este texto, comente

Há uma cidade a rebentar na humidade vertiginosa da noite e um homem com olhar de açucar encostado ao néon melancólico das esquinas espera o próximo shoot de herína... há uma cidade por baixo da pele e umacasa de sangue cagulado na memória atravessada por canos rotos e um corpo pingando mágoas... há uma cidade de alarmes e um tilt lancinante de flipper dentro de um pulmão adolescente e uma dor de chuva fustigando o sexo adormecido no soalho do quarto da pensão...há uma cidade de visco e de esperma ressequido e uma pastilha elástica presa ao fundo dum copo...há um sorriso e um engate e um camone e um arrebenta e uma boca de lodo aberta sobre o rio... há uma cidade defome e lixoe enquanto o ciúme escorrega das mãos dos amantes... há um dedo de láminas usadas e um beco sem saida onde se enroscou um puto e um cão de febre...há uma cidade crescendo no grito e na gasolina no fogo nocturno da minha vertigem presa nas alturas de cimento armado onde coabitam sexos mergulhados em naftalina... há uma navalha cortando o betão  das avenidas eum pássaro de enxofre nas feridas duras dos cabelos...há uma cidade de estátuas desmanteladas contra o espelho  dum bordel  e a luz do teu olhar dentro duma janela antiga...há uma cidadeque se escapa para fora da noite espia avança e mata...há uma cidade de trapos queimados e de vozes ardendo e uma toalha para limpar o sono dos poucos brinquedos...há uma alucinação furiosa que me incendeia a veia e revela teu rosto lívido que se suicida... há uma cidade de papel engordurado que eu amachuco com o pânico nos dentes e todo o meu corpo  sangra... treme... e tem medo... e morre
Al Berto

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Tim_booth
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Queria escrever à velocidade com que penso.


WWW
« Responder #16 em: Setembro 26, 2008, 22:03:34 »

Há uma cidade a rebentar na humidade vertiginosa da noite e um homem com olhar de açúcar encostado ao néon melancólico das esquinas espera o próximo shoot de heroína... há uma cidade por baixo da pele e uma casa de sangue coagulado na memória atravessada por canos rotos e um corpo pingando mágoas... há uma cidade de alarmes e um tilt lancinante de flipper dentro de um pulmão adolescente e uma dor de chuva fustigando o sexo adormecido no soalho do quarto da pensão...há uma cidade de visco e de esperma ressequido e uma pastilha elástica presa ao fundo dum copo...há um sorriso e um engate e um camone e um arrebenta e uma boca de lodo aberta sobre o rio... há uma cidade de fome e lixo e enquanto o ciúme escorrega das mãos dos amantes... há um dedo de laminas usadas e um beco sem saída onde se enroscou um puto e um cão de febre...há uma cidade crescendo no grito e na gasolina no fogo nocturno da minha vertigem presa nas alturas de cimento armado onde coabitam sexos mergulhados em naftalina... há uma navalha cortando o betão  das avenidas eum pássaro de enxofre nas feridas duras dos cabelos...há uma cidade de estátuas desmanteladas contra o espelho  dum bordel  e a luz do teu olhar dentro duma janela antiga...há uma cidade que se escapa para fora da noite espia avança e mata...há uma cidade de trapos queimados e de vozes ardendo e uma toalha para limpar o sono dos poucos brinquedos...há uma alucinação furiosa que me incendeia a veia e revela teu rosto lívido que se suicida... há uma cidade de papel engordurado que eu amachuco com o pânico nos dentes e todo o meu corpo  sangra... treme... e tem medo... e morre
Al Berto

Desafio aceite, Elvira.

Antes de mais, comentar algo de Al Berto é terrivelmente difícil. Um poeta genial, embora de obra relativamente curta, não consegue evitar deixar a sua prosa despida de poesia e poesia não é de todo a área em que mais me sinto à vontade. Dito isto, vejo neste texto um exemplo claro da prosa poética, a constante repetição de "Há uma cidade" que ritma a leitura e nos remete para a cidade que, aos olhos de Al Berto, não é mais que a própria humanidade, cada vez mais decadente. O que de diferente traz o texto é precisamente a falta de moral com que se fala desta cidade, apenas se relata, não se julga. O que eu anteriormente qualifiquei como 'decadente', para o autor simplesmente é. Ao longo da visão que nos vai descrevendo, o texto vai-se envermelhecendo de sangue, o leitor vai emergindo numa cidade escura, violenta, leviana e real, tão real como a morte, até não suportar mais, nem leitor nem autor, a visão que tem. Clímax desta morte, a visão de o único rosto que parece escapar ao ambiente da restante cidade, o 'teu' que desaparece e, com ele, também a visão do autor, em raiva e tristeza, não com a tal decadência subentendida, mas com o fim do que de bom tem a humanidade. Perdão, a cidade.

Aceitam-se outras interpretações, go on...

Cheers
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elvira
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« Responder #17 em: Setembro 29, 2008, 11:48:31 »

Olá Tim,começo por lhê dizer que não conheço a obra de AL Berto, este texto veio-me parar ás mãos por acaso, o meu marido andou a fazer o mestrado de Literatura comparada, na faculdade de letras do Porto, onde tiveram que estudar vários autores, entre  essa  papelada toda  vi esse texto, e logo me identifiquei com essa escrita. Tabem este autor, nos põe a reflectir sobre nós, enquanto inseridos nesta conturbada sociedade.Bjs ELvira
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Laura
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« Responder #18 em: Outubro 09, 2008, 22:24:42 »

Espantoso o texto do Al Berto. Espantosa a análise do Tim. Espantoso, para mim também, como vivo na cidade e não vivo na cidade.
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