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Autor Tópico: O Lobo das Estepes  (Lida 1898 vezes)
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Tim_booth
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« em: Outubro 23, 2008, 22:42:48 »

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E rezava assim o escrito que devorei, em tens√£o sempre crescente, de um f√īlego s√≥:
TRATADO DO LOBO DAS ESTEPES
Só para loucos

- Hermann Hesse, O Lobo das Estepes


Hermann Hesse volta a passar diante dos meus olhos deixando uma muito melhor impress√£o do que tinha deixado da √ļltima vez com Siddhartha. Esta foi a vez de O Lobo das Estepes que √©, segundo muitos, o melhor livro do autor e segundo outros tantos √© tamb√©m o mais auto-biogr√°fico. Algu√©m um dia me disse √†cerca deste livro, desculpem a imprecis√£o da minha mem√≥ria identificativa mas as opini√Ķes que me chegaram sobre esta obra em particular s√£o mais do que muitas, que este seria o oposto de Siddhartha, se em Siddhartha vemos a luz, aqui viamos uma completa escurid√£o, se em Siddhartha estava o caminho aqui estava a perdi√ß√£o. Ora em completa honestidade n√£o posso concordar completamente com estas afirma√ß√Ķes mas a verdade √© que n√£o est√£o totalmente desviadas da minha aprecia√ß√£o da obra.

Em O Lobo das Estepes temos um livro dentro de um livro, isto é, alguém que escreve um prefácio, o editor, sobrinho da senhoria do personagem principal, a um manuscrito que depois é totalmente reproduzido. O manuscrito é o que verdadeiramente interessa, mas, verdade se diga, a inclusão deste livro dentro de outro não é de todo descabida. Por um lado contribui para adensar o mistério do destino de Harry Haller bem como para dar uma nota introdutória sobre as características do homem vistas na terceira pessoa, o que não acontece durante o manuscrito, totalmente escrito na visão de Haller.

Harry Haller, como j√° se percebe, √© a personagem principal, √© o lobo das estepes como tantas vezes se auto-caracteriza. Haller √© um intelectual desiludido com o mundo burgu√™s onde se v√™ mergulhado, verdadeiramente desiludido mas que, ao mesmo tempo, consegue manter um certo fasc√≠nio pelas pequenas coisas como o cheiro a limpeza no √°trio de uma casa. Sente-se mesmo tentado a tentar compreender o mundo por si s√≥ quando √© convidado para jantar em casa de um professor com quem havia colaborado alguns anos antes, mas a visita apenas serviu para levar Haller at√© ao seu limite final, isto depois de se ver confrontado com a vis√£o nacionalista do professor e com um retrato que considerava completamente desajustado do poeta Goethe que a esposa do acad√©mico tinha em casa. Este fracasso na tentativa de jantar leva Haller a pensar em suic√≠dio e em atrasar o retorno ao quarto onde dorme pois teme encontrar a l√Ęmina de barbear demasiado junto ao pesco√ßo. Nestas deambula√ß√Ķes conhece Herm√≠nia, uma jovem mulher que lhe transformar√° a vida, o levar√° a aprender a dan√ßar as dan√ßas novas, o levar√° √†s festas mais populares e lhe apresentar√° pessoas como a bela Maria, com quem Haller desenvolve uma rela√ß√£o carnal, e o saxofonista Pablo, personagem de todas a mais sorridente. Para al√©m disto h√° um Tratado do Lobo das Estepes que Harry descobre na rua quando procura um teatro m√°gico, s√≥ para loucos, tratado esse que tem preto no branco toda a vida de Harry Haller, o verdadeiro mas n√£o √ļnico Lobo das Estepes.

Come√ßando pelo que n√£o gostei, ou melhor, n√£o se trata de n√£o gostar porque quero continuar a acreditar que o g√©nio liter√°rio de Hesse apenas ficou perdido na tradu√ß√£o. Ora o que n√£o gostei foi precisamente da palavra em si. Um discurso demasiado simples quando devia ser mais elaborado, e que quando era elaborado usava lugares-comuns ou figuras de estilo demasiado fracas para atrairem o gosto est√©tico pela literatura. Mas, mais uma vez repito, isto √© algo que n√£o posso objectivamente avaliar porque apenas li a tradu√ß√£o, n√£o o original, e por vezes, h√° coisas que se perdem na tradu√ß√£o, estes pormenores que para a maioria do p√ļblico n√£o interessa muito mas que para mim s√£o precios√≠ssimos s√£o, geralmente, os primeiros a desaparecerem. Ali√°s, esse √© um dos motivos porque gosto de manter a minha aten√ß√£o em autores de express√£o lus√≥fona. Mas disperso.

H√°, no entanto, peda√ßos de prosa que n√£o se alimentam exclusivamente da capacidade de manobrar a linguagem, e esses Hesse parece dominar com perfei√ß√£o. Exemplo disso √© o aluncinante ‚ÄúTeatro M√°gico‚ÄĚ que mais parece sa√≠do de um filme de David Lynch, ou o Baile de M√°scaras, ou mesmo o pr√≥prio saxofonista que n√£o passa de uma m√°scara de um sorriso. Nesse aspecto, Hesse foi magistral em arquitectar um mundo maravilhoso e viciante, viciante mesmo com drogas leves e pesadas que refor√ßam a espiral psicad√©lica em que o livro vai deslizando com cada vez mais velocidade.

Pondo de lado aquilo que me irritou, a tal limitada express√£o liter√°ria do texto que encontrei, n√£o posso classificar esta obra da mesma maneira que fiz com Siddhartha, apesar de o conte√ļdo ser na mesma √≠ndole, isto √©, uma obra que se debru√ßa sobre o interior e at√© sobre a reliogisidade do ser humano, f√°-lo de uma maneira ligeiramente diferente, ligeira o suficiente para eu gostar bastante mais do que Siddhartha. Continuei a sentir que dava respostas simples de mais para problemas t√£o mais complexos, mas, a grande diferen√ßa, √© que o fazia de uma maneira quase impercept√≠vel. Talvez por ser um testemunho quase auto-biogr√°fico, como se diz que √©, que acabou por tornar toda a viagem muito mais real para mim. Isto porque senti que Haller estava realmente perdido por momentos, senti a vertigem que foi para ele experimentar as coisas novas, senti o desejo que ele sentiu pelo desconhecido e a atrac√ß√£o pela loucura. Tudo isto contribuiu para me distrair da mensagem simples do livro, de que o homem n√£o √© uno, antes se divide em milhares de milh√Ķes de facetas e de que a √ļnica maneira de lidar com isso √© rir da multiplicidade que somos todos n√≥s. Ora isto para mim foi uma quase-revela√ß√£o. N√£o digo que nunca tivesse pensado nisso, porque pensei, mas estava inclinado para a vis√£o linear que Harry tamb√©m tinha inicialmente, que somos no m√°ximo dois, uma parte racional e outra parte animal. Pensava, tal como Harry, que dentro de mim havia um Tim e um Lobo das Estepes, ou um Lince Ib√©rico para manter as regi√Ķes correctas, e que se podia resumir a humanidade a isso. Este fant√°stico livro fez-me repensar a minha teoria, sem d√ļvida alguma, fez-me repensar a mim pr√≥prio. Verdadeiramente n√£o apreciei o livro pela seu conte√ļdo liter√°rio mas por me ver ao espelho como Harry se via. Certamente que muitos sentir√£o o mesmo.

Escrito originalmente aqui.
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Laura
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« Responder #1 em: Outubro 28, 2008, 22:53:46 »

Querido Tim,

N√£o deves deixar que a forma te cegue em rela√ß√£o ao conte√ļdo de uma obra. E isto √© verdade para tudo na vida, n√£o apenas para as obras de arte.
√Č verdade que Dali disse que a arte √© tudo aquilo que √© absolutamente in√ļtil. Ent√£o, seguindo esta ideia, nenhuma obra que transmita uma mensagem ou sirva um prop√≥sito √© arte. Como j√° deves ter adivinhado, n√£o concordo com Dali. Nem mesmo gosto dos quadros dele. De t√£o in√ļteis que aparentam ser.
Nunca compraria um deles, nem mesmo se ganhasse o Euromilh√Ķes.
Qual é, realmente, a função da arte?

Começo por falar em Gutenberg. Ninguém aqui devia ignorar quem ele é. Foi com Gutenberg, na Idade Média, que os livros se tornaram acessíveis a todos. Gutenberg dedicou a sua vida a isso. A tornar os livros acessíveis a todos. (Podem ler mais sobre ele aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Johannes_Gutenberg). O primeiro livro que resolveu imprimir para as massas foi a Bíblia. Correndo o risco de ser queimado vivo, na altura. Diria mesmo que Gutenberg foi um grande artista, pois o seu ofício se transformou em arte.

Gutenberg. Livros. Arte. Massas. Como se liga tudo isto? Talvez existam duas formas de arte, realmente. Uma que √© de facto absolutamente in√ļtil, para as elites desocupadas e outra que comunica. Outra que toca cordas dentro do humano, como o arco de um violino, que abre cabe√ßas, cria revolu√ß√Ķes e nos faz evoluir. Prefiro a segunda forma, claro est√°.

Existe um excelente ensaio sobre arte e percep√ß√£o neste site: Art & Communication (http://artandperception.com/2006/11/art-and-communication.html). Resumindo, ele diz que ‚Äúa arte √© comunica√ß√£o, mas nem toda a comunica√ß√£o √© arte. [‚Ķ] Arte √© comunica√ß√£o com qualidade.‚ÄĚ Ele diz at√© mais. Diz que ‚Äúarte √© of√≠cio‚ÄĚ (art is craft). Diz ainda que ‚Äúao considerarmos a arte como uma inst√Ęncia da comunica√ß√£o, temos um princ√≠pio organizador que pode ser utilizado para prever, medir, valorizar ou criar arte. Temos uma forma de ajudar a nossa pr√≥pria arte e uma forma de ajudar outros artistas. Por exemplo, se a arte √© comunica√ß√£o, segue as regras da comunica√ß√£o. Se for demasiado original, torna-se dif√≠cil para as pessoas compreenderem. Se for demasiado vulgar, aborrece. Grita demasiado alto e irrita. Fala em sussurro e n√£o tem impacto. Se o sujeito n√£o se relacionar com a experi√™ncia de quem percepciona, n√£o ser√° captada. Se lidar com um determinado assunto de forma pouco estimulante, n√£o ser√° valorizada.‚ÄĚ

Diz ainda algo que me agradou particularmente: ‚ÄúUm of√≠cio torna-se arte quando se liberta da funcionalidade mec√Ęnica e come√ßa a emanar. [‚Ķ] A vida de uma pessoa torna-se arte quando se transforma em algo mais do que a mera sobreviv√™ncia.‚ÄĚ

Ent√£o, em rela√ß√£o √† tua an√°lise, o que se discute √© forma vs. conte√ļdo. Ou a simplicidade da escrita, vs a complexidade da mensagem.
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« Responder #2 em: Outubro 30, 2008, 13:46:35 »

Sim, nada a apontar em rela√ß√£o a isso Laura, analisei forma e conte√ļdo e cheguei a conclus√£o de que a forma n√£o era perfeita para mim mas o conte√ļdo apaixonante. Tamb√©m eu escrevi h√° uns tempos um rascunho de um ensaio em que me debru√ßava precisamente sobre a defini√ß√£o de arte, http://www.escritartes.com/forum/index.php/topic,5936.msg24933.html#msg24933, √©s capaz de ter visto, onde digo basicamente que arte √© express√£o. Hesse expressa-se aqui vivamente, nada contra a classifica√ß√£o de arte, tal como o havia feito em Siddhartha, a √ļnica diferen√ßa √© que aqui o conte√ļdo foi muito mais ao meu encontro do que no anterior.

Um grande abraço Madrinha

Cheers
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« Responder #3 em: Outubro 30, 2008, 14:32:16 »

Resumindo: aqui a arte tornou-se √ļtil. Penso que todos dev√≠amos ler o livro e tentar deixar que ele nos convencesse a olharmo-nos ao espelho...
Abraço
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« Responder #4 em: Outubro 31, 2008, 10:48:17 »

Isso da utilidade da Arte é discussão com séculos... Smiley

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