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Autor Tópico: O Lobo das Estepes  (Lida 1902 vezes)
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Tim_booth
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« em: Outubro 23, 2008, 22:42:48 »

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E rezava assim o escrito que devorei, em tensão sempre crescente, de um fôlego só:
TRATADO DO LOBO DAS ESTEPES
Só para loucos

- Hermann Hesse, O Lobo das Estepes


Hermann Hesse volta a passar diante dos meus olhos deixando uma muito melhor impressão do que tinha deixado da última vez com Siddhartha. Esta foi a vez de O Lobo das Estepes que é, segundo muitos, o melhor livro do autor e segundo outros tantos é também o mais auto-biográfico. Alguém um dia me disse àcerca deste livro, desculpem a imprecisão da minha memória identificativa mas as opiniões que me chegaram sobre esta obra em particular são mais do que muitas, que este seria o oposto de Siddhartha, se em Siddhartha vemos a luz, aqui viamos uma completa escuridão, se em Siddhartha estava o caminho aqui estava a perdição. Ora em completa honestidade não posso concordar completamente com estas afirmações mas a verdade é que não estão totalmente desviadas da minha apreciação da obra.

Em O Lobo das Estepes temos um livro dentro de um livro, isto é, alguém que escreve um prefácio, o editor, sobrinho da senhoria do personagem principal, a um manuscrito que depois é totalmente reproduzido. O manuscrito é o que verdadeiramente interessa, mas, verdade se diga, a inclusão deste livro dentro de outro não é de todo descabida. Por um lado contribui para adensar o mistério do destino de Harry Haller bem como para dar uma nota introdutória sobre as características do homem vistas na terceira pessoa, o que não acontece durante o manuscrito, totalmente escrito na visão de Haller.

Harry Haller, como já se percebe, é a personagem principal, é o lobo das estepes como tantas vezes se auto-caracteriza. Haller é um intelectual desiludido com o mundo burguês onde se vê mergulhado, verdadeiramente desiludido mas que, ao mesmo tempo, consegue manter um certo fascínio pelas pequenas coisas como o cheiro a limpeza no átrio de uma casa. Sente-se mesmo tentado a tentar compreender o mundo por si só quando é convidado para jantar em casa de um professor com quem havia colaborado alguns anos antes, mas a visita apenas serviu para levar Haller até ao seu limite final, isto depois de se ver confrontado com a visão nacionalista do professor e com um retrato que considerava completamente desajustado do poeta Goethe que a esposa do académico tinha em casa. Este fracasso na tentativa de jantar leva Haller a pensar em suicídio e em atrasar o retorno ao quarto onde dorme pois teme encontrar a lâmina de barbear demasiado junto ao pescoço. Nestas deambulações conhece Hermínia, uma jovem mulher que lhe transformará a vida, o levará a aprender a dançar as danças novas, o levará às festas mais populares e lhe apresentará pessoas como a bela Maria, com quem Haller desenvolve uma relação carnal, e o saxofonista Pablo, personagem de todas a mais sorridente. Para além disto há um Tratado do Lobo das Estepes que Harry descobre na rua quando procura um teatro mágico, só para loucos, tratado esse que tem preto no branco toda a vida de Harry Haller, o verdadeiro mas não único Lobo das Estepes.

Começando pelo que não gostei, ou melhor, não se trata de não gostar porque quero continuar a acreditar que o génio literário de Hesse apenas ficou perdido na tradução. Ora o que não gostei foi precisamente da palavra em si. Um discurso demasiado simples quando devia ser mais elaborado, e que quando era elaborado usava lugares-comuns ou figuras de estilo demasiado fracas para atrairem o gosto estético pela literatura. Mas, mais uma vez repito, isto é algo que não posso objectivamente avaliar porque apenas li a tradução, não o original, e por vezes, há coisas que se perdem na tradução, estes pormenores que para a maioria do público não interessa muito mas que para mim são preciosíssimos são, geralmente, os primeiros a desaparecerem. Aliás, esse é um dos motivos porque gosto de manter a minha atenção em autores de expressão lusófona. Mas disperso.

Há, no entanto, pedaços de prosa que não se alimentam exclusivamente da capacidade de manobrar a linguagem, e esses Hesse parece dominar com perfeição. Exemplo disso é o aluncinante “Teatro Mágico” que mais parece saído de um filme de David Lynch, ou o Baile de Máscaras, ou mesmo o próprio saxofonista que não passa de uma máscara de um sorriso. Nesse aspecto, Hesse foi magistral em arquitectar um mundo maravilhoso e viciante, viciante mesmo com drogas leves e pesadas que reforçam a espiral psicadélica em que o livro vai deslizando com cada vez mais velocidade.

Pondo de lado aquilo que me irritou, a tal limitada expressão literária do texto que encontrei, não posso classificar esta obra da mesma maneira que fiz com Siddhartha, apesar de o conteúdo ser na mesma índole, isto é, uma obra que se debruça sobre o interior e até sobre a reliogisidade do ser humano, fá-lo de uma maneira ligeiramente diferente, ligeira o suficiente para eu gostar bastante mais do que Siddhartha. Continuei a sentir que dava respostas simples de mais para problemas tão mais complexos, mas, a grande diferença, é que o fazia de uma maneira quase imperceptível. Talvez por ser um testemunho quase auto-biográfico, como se diz que é, que acabou por tornar toda a viagem muito mais real para mim. Isto porque senti que Haller estava realmente perdido por momentos, senti a vertigem que foi para ele experimentar as coisas novas, senti o desejo que ele sentiu pelo desconhecido e a atracção pela loucura. Tudo isto contribuiu para me distrair da mensagem simples do livro, de que o homem não é uno, antes se divide em milhares de milhões de facetas e de que a única maneira de lidar com isso é rir da multiplicidade que somos todos nós. Ora isto para mim foi uma quase-revelação. Não digo que nunca tivesse pensado nisso, porque pensei, mas estava inclinado para a visão linear que Harry também tinha inicialmente, que somos no máximo dois, uma parte racional e outra parte animal. Pensava, tal como Harry, que dentro de mim havia um Tim e um Lobo das Estepes, ou um Lince Ibérico para manter as regiões correctas, e que se podia resumir a humanidade a isso. Este fantástico livro fez-me repensar a minha teoria, sem dúvida alguma, fez-me repensar a mim próprio. Verdadeiramente não apreciei o livro pela seu conteúdo literário mas por me ver ao espelho como Harry se via. Certamente que muitos sentirão o mesmo.

Escrito originalmente aqui.
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Laura
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« Responder #1 em: Outubro 28, 2008, 22:53:46 »

Querido Tim,

Não deves deixar que a forma te cegue em relação ao conteúdo de uma obra. E isto é verdade para tudo na vida, não apenas para as obras de arte.
É verdade que Dali disse que a arte é tudo aquilo que é absolutamente inútil. Então, seguindo esta ideia, nenhuma obra que transmita uma mensagem ou sirva um propósito é arte. Como já deves ter adivinhado, não concordo com Dali. Nem mesmo gosto dos quadros dele. De tão inúteis que aparentam ser.
Nunca compraria um deles, nem mesmo se ganhasse o Euromilhões.
Qual é, realmente, a função da arte?

Começo por falar em Gutenberg. Ninguém aqui devia ignorar quem ele é. Foi com Gutenberg, na Idade Média, que os livros se tornaram acessíveis a todos. Gutenberg dedicou a sua vida a isso. A tornar os livros acessíveis a todos. (Podem ler mais sobre ele aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Johannes_Gutenberg). O primeiro livro que resolveu imprimir para as massas foi a Bíblia. Correndo o risco de ser queimado vivo, na altura. Diria mesmo que Gutenberg foi um grande artista, pois o seu ofício se transformou em arte.

Gutenberg. Livros. Arte. Massas. Como se liga tudo isto? Talvez existam duas formas de arte, realmente. Uma que é de facto absolutamente inútil, para as elites desocupadas e outra que comunica. Outra que toca cordas dentro do humano, como o arco de um violino, que abre cabeças, cria revoluções e nos faz evoluir. Prefiro a segunda forma, claro está.

Existe um excelente ensaio sobre arte e percepção neste site: Art & Communication (http://artandperception.com/2006/11/art-and-communication.html). Resumindo, ele diz que “a arte é comunicação, mas nem toda a comunicação é arte. […] Arte é comunicação com qualidade.” Ele diz até mais. Diz que “arte é ofício” (art is craft). Diz ainda que “ao considerarmos a arte como uma instância da comunicação, temos um princípio organizador que pode ser utilizado para prever, medir, valorizar ou criar arte. Temos uma forma de ajudar a nossa própria arte e uma forma de ajudar outros artistas. Por exemplo, se a arte é comunicação, segue as regras da comunicação. Se for demasiado original, torna-se difícil para as pessoas compreenderem. Se for demasiado vulgar, aborrece. Grita demasiado alto e irrita. Fala em sussurro e não tem impacto. Se o sujeito não se relacionar com a experiência de quem percepciona, não será captada. Se lidar com um determinado assunto de forma pouco estimulante, não será valorizada.”

Diz ainda algo que me agradou particularmente: “Um ofício torna-se arte quando se liberta da funcionalidade mecânica e começa a emanar. […] A vida de uma pessoa torna-se arte quando se transforma em algo mais do que a mera sobrevivência.”

Então, em relação à tua análise, o que se discute é forma vs. conteúdo. Ou a simplicidade da escrita, vs a complexidade da mensagem.
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« Responder #2 em: Outubro 30, 2008, 13:46:35 »

Sim, nada a apontar em relação a isso Laura, analisei forma e conteúdo e cheguei a conclusão de que a forma não era perfeita para mim mas o conteúdo apaixonante. Também eu escrevi há uns tempos um rascunho de um ensaio em que me debruçava precisamente sobre a definição de arte, http://www.escritartes.com/forum/index.php/topic,5936.msg24933.html#msg24933, és capaz de ter visto, onde digo basicamente que arte é expressão. Hesse expressa-se aqui vivamente, nada contra a classificação de arte, tal como o havia feito em Siddhartha, a única diferença é que aqui o conteúdo foi muito mais ao meu encontro do que no anterior.

Um grande abraço Madrinha

Cheers
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« Responder #3 em: Outubro 30, 2008, 14:32:16 »

Resumindo: aqui a arte tornou-se útil. Penso que todos devíamos ler o livro e tentar deixar que ele nos convencesse a olharmo-nos ao espelho...
Abraço
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« Responder #4 em: Outubro 31, 2008, 10:48:17 »

Isso da utilidade da Arte é discussão com séculos... Smiley

Cheers
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
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Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
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Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
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Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
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Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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