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Autor Tópico: Poker  (Lida 2507 vezes)
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Tim_booth
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Queria escrever à velocidade com que penso.


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« em: Novembro 01, 2008, 01:24:55 »

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Simplesmente, não acredito que as coisas aconteçam por acaso. Há quase sempre uma ligação, há algo por trás de cada acontecimento e somos nós que temos de puxar esse fio se queremos encontrar o novelo.
- Gonçalo Coelho, Poker



Novíssimo livro editado em Portugal, de um novíssimo autor que edita o seu primeiro volume, falo-vos de Poker. Viagem ao fundo da verdade de Gonçalo Coelho, um dos poucos policiais assumidamente policiais escritos em português por portugueses. Isto mesmo considerando que o autor é tão universal quanto um homem pode ser, tendo vivido no Reino Unido, no Brasil e em Portugal, o que acaba por transparecer para esta história de estreia.

O género policial, apesar de ter grandes tradições noutros países, especialmente nos EUA, não tem grandes raízes em Portugal. Os números são baixos tanto de autores como de leitores dedicados ao género. Claro, todos lemos Agatha Christie uma vez na vida, mas daí a sermos fãs de literatura policial vai um bom pedaço. Eu próprio não sou um grande apreciador do género e admito que daí possam vir alguns preconceitos contra esta história. Mas adianto-me.

Poker é uma alucinante sucessão de acontecimentos nos mais variados pontos do globo, especialmente no início e no final do livro. Começamos em S. Francisco e imediatamente saltamos para o Porto e depois para o Brasil, e depois para alto mar, e depois para Londres e Munique, a acção é, portanto, mais do que viajada. É a história de um economista português que se vê arrastado por uma repórter de investigação brasileira para a pista do assassinato de um dos homens mais ricos e poderosos do mundo. Pelo meio encontram uma quadrilha familiar de bons malandros que vive num navio e ainda temos tempo de assistir à primeira parte do jogo inaugural do campeonato do mundo de futebol de 2006, na Alemanha. Estes são os explosivos ingredientes para um policial fora dos trâmites dos clássicos mas, infelizmente, preso às fórmulas recorrentes dos mais recentes.

Nota-se, claramente, que este é um primeiro romance. E, neste caso, é um ponto a desfavor da obra. Há uma falta de consistência nítida e uma evolução clara no estilo e na qualidade da escrita ao longo do livro. Os primeiros capítulos são fracos, como se o autor ainda estivesse um pouco à espera de ver o que saía dali, em comparação com os últimos, mais maduros, mais seguros de si literáriamente, mas, infelizmente com um conteúdo inferior. Ou seja, o livro acaba por se balançar, nos primeiros capítulos temos alguma falta de experiência do autor compensada com o mistério de abertura da trama (que poderia subir muito em qualidade se no final do trabalho estes primeiros capítulos tivessem sido reescritos para concordar com o resto do sabor do livro), enquanto que nos últimos a prosa amadurecida perde pelo pobre desenrolar dos acontecimentos, na minha opinião, que a história sofre.

Há também momentos que não fazem muito sentido, dois em especial, que custam a entrar na cabeça - nomeadamente a mensagem que o cadáver de Bill Maxwell transmite a Vítor, indicando-lhe a 9ª Sinfonia de Beethoven, extremamente forçado e soando a copycat de O Código DaVinci; e a rápida mudança de comportamento que o bando de bandidos alemães tem em relação aos seus prisioneiros, mesmo tendo em conta o desenrolar da história.

Julgo ainda que Gonçalo Coelho comete um erro crasso ao fazer a associação final, que não vos vou revelar, leiam e discordem comigo depois. Apenas digo que associa a uma história mais ou menos leviana, no sentido em que não tem mais implicações do que nela própria, um tema de importância mundial. Tudo muito bem e de acordo se não desse a ideia de que foi algo que o autor se lembrou à última hora para dar profundidade ao livro. Parece que o tema é tratado como se fosse uma boia de salvamento moral para a história e isso desagrada. Talvez se esse tema se notasse como pano de fundo, em vez do negócio de vinhos, tudo fizesse mais sentido.

Poker não é uma obra-prima, nem mesmo dentro do género da literatura policial. Está longe disso. Assenta em fórmulas reconhecidamente fracas de policiais modernos sem ter como auxiliar os temas polémicos. Essa é a sua fraqueza. No entanto, Gonçalo Coelho revela uma certa mestria na escrita corrida e simplista, sem adornos desnecessários, também no transporte da oralidade para os diálogos e da paixão pelas viagens que é definitivamente contagiante. Talvez, numa próxima aventura, o autor experimente algo assim, quem sabe. Infelizmente, Gonçalo Coelho não mostra aqui a sua verdadeira arte, que conheço de outras paragens, e talvez por isso este livro devesse ter passado mais alguns anos na gaveta. Melhor do que isso até seria se tivesse passado por um processo de retratamento para se enquadrar melhor com o actual estilo e capacidade do autor. Assim fica um amargo na boca do leitor quando acaba. Espero que isso não custe a Gonçalo Coelho na próxima obra que será, certamente, mais digna da sua verdadeira capacidade.
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goncalos
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« Responder #1 em: Novembro 01, 2008, 17:29:38 »

Olá Tim,

Escreveste de acordo com a tua consciência e entendo isso perfeitamente. Aliás, pela tua entrevista, já tinha vislumbrado esta tua forma de estar na escrita. Tens uma visão já mais ou menos concebida do que é ou não boa arte. Talvez os críticos tenham de ser assim, de facto, para poderem criticar. Têm que ter já formado, dentro de si, um standard do que é bom e mau.
Quanto ao copycat, a crítica de que uma solução se parece com outra de outro livro, só posso dizer que é praticamente impossível escrever-se alguma coisa que não se assemelhe de alguma forma a algo que já foi antes escrito algures. Se eu te disser que li recentemente que só em Portugal em Outubro de 2006 se editaram 1600 livros, mais de 50 por dia…
Quanto a soluções para certas cenas do livro que te pareçam forçadas pois é uma opinião que respeito. São apenas as minhas soluções e ficção é assim mesmo. Desvia-se forçosamente da realidade. Sempre me pareceu extremamente forçado o modo como em obras como Madame Bovary ou o Idiota de Dostoyevsky o enredo vira a certa altura para uma tragédia infernal em que, subitamente, tudo corre mal, tudo é sacrificado em nome da sagrada tragédia horrenda com que essas obras tinham de terminar na mente do escritor. No entanto, são grandes clássicos. Esses sim são obras-primas, eu não pretendo escrever obras-primas. A arte mais criativa é assim mesmo, é forçada no sentido da criação que está na mente do artista. Conheces o quadro intitulado “Quadrado Branco sobre Fundo Branco” de Malevich? Parecer-te-ia-forçado? Eu acho que foi um tremendo acto de libertação na pintura e na arte em geral. Um quadro é apenas um quadro e um livro de ficção é apenas um livro de ficção, deve ser um espaço eternamente livre para criar. E um livro é também feito de uma história através da qual os leitores viajam, vivem por momentos fora da realidade à frente dos seus olhos, reflectem e sentem coisas. Foi apenas isso que pretendi. Tenho a certeza que aqui ou ali fizeste pelo menos uma ou várias destas coisas durante a leitura do Poker.
Gostei de saber da tua opinião. Enquanto escritor, não pretendo responder a críticos porque entendo que os críticos criticam e os escritores escrevem, cada um tem o seu lugar, mas não te vejo como um mero crítico, por isso escrevi estas palavras e também porque gosto do Escritartes enquanto espaço livre também de troca de ideias.
 
Abraço,
Gonçalo
______________________________
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« Última modificação: Novembro 17, 2008, 23:11:07 por goncalos » Registado
Laura
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« Responder #2 em: Novembro 01, 2008, 23:55:59 »

Eu gosto de policiais... e cada um sente um livro à sua maneira.
Abraço,
Laura
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« Responder #3 em: Novembro 02, 2008, 06:38:51 »

Eu estou a terminar a leitura!
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Tim_booth
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« Responder #4 em: Novembro 02, 2008, 20:39:31 »

Gonçalo, fico muito contente por ver que respondeste e acima de tudo, percebeste que o que escrevi não passa de uma simples opinião, não queria que ficasses melindrado com nada do que disse, mas, tal como tu o disseste, não podia deixar de o dizer.
Bem, primeiro de tudo não sou crítico no sentido em que leio para avaliar alguma coisa, sou crítico no sentido em que depois de ler, avalio o que li. Ou seja, o que escrevo não é razão da leitura, antes a consequência. Mas tanto num caso como noutro tenho de discordar com o que tu dizes; nem se deve ter padrões do que é a arte, ou estaríamos ainda com o padrão de Aristóteles, arte como imitação, e não se devem os escritores limitar a escrever. Portanto o que faço não se rege por padrões do que é arte, antes por uma visão que é, obviamente, subjectiva, do que é arte, ou mais precisamente, do que é um bom livro. E os escritores não se devem limitar a escrever da mesma maneira que os críticos não se devem limitar a criticar: os leitores têm de ser os primeiros críticos do próprio trabalho, é por isso que muitos dizem que a gaveta é a melhor conselheira, querendo com isto dizer que antes de apresentarem qualquer trabalho o revêm vezes e vezes sem conta até passar nos seus próprios critérios críticos; e os críticos não se devem limitar a criticar, mesmo sendo essa a sua ocupação, porque assim não percebem certos mecanismos internos da escrita, não os apreciam e, assim, não percebem alguns pormenores geniais de livros. Como disse logo no início da recensão, o policial não é dos meus géneros preferidos, não que tenha um género preferido, e admiti desde o início que a minha opinião podia ser afectada por isso, o que julgo que aconteceu com as minhas implicações com a história, mas que, como tu disseste, são opiniões. No entanto a sensação com que fiquei foi mesmo essa, a de que o livro segue a fórmula de outros do mesmo estilo, não porque se editam 50 livros por dia em média (é claro que a percentagem de ficção entre esses 50 é diminuta), mas porque se analisarmos a estrutura interna do livro encontramos demasiados pontos comuns entre vários livros do género. O que referi foi apenas o mais evidente.
Mais uma vez repito, o que escrevi acerca do livro não passa de uma opinião, haverá certamente outras contrárias à minha, espero que muitas. Espero verdadeiramente que muitas, desejo mesmo que o livro tenha muito sucesso e que consigas continuar a tua carreira na literatura.
Mais uma vez obrigado por teres respondido e não te teres ofendido com a minha opinião, assim se vê pelo interior das pessoas.

Um grande abraço.

Laura, Dite e Goreti, é ler é ler!

Cheers
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Goreti Dias
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« Responder #5 em: Novembro 02, 2008, 21:16:15 »

Pois já li. Eu adoro trillers, estilo "Cromossoma 6", "Cocaina"de Robin Cook e por aí. Este livro não está dentro desse padrão agora "tão na moda", ainda para mais potenciado pelo fenómeno CSI. Não! É um livro "suavemente policial", óptimo para se ler numas tardes de fim de semana. Uma escrita correctíssima, porém sem grandes suspenses. Gostei do que li e penso que a obra pode ser percursora de outras mais elaboradas. A seu tempo. O Gonçalo tem razões para estar feliz e eu acredito que o livro vá vender muito bem. Não pode haver um mercado livreiro destinado apenas aos eruditos. As pessoas comuns também podem ser educadas para a leitura e este é um livro que o pode fazer. Lobo Antunes não é para todos e o Gonçalo não tem a idade dele. Felizmente! Quando lá chegar pode escrever até melhor do que ele!
Parabéns ainda e sobretudo por aceitares de bom grado as críticas que te fazem. É um sinal de superioridade. Com elas crescerás muito mais do que com os elogios pouco verdadeiros!
Um grande abraço para o Gonçalo e outro para o Tim pela sua frontalidade. As opiniões podem apresentar-se como tal e sem ofender ninguém. Assim. Estão os dois de parabéns!
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Obrigado, Administração, por avisar!
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Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
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Olá! Boas leituras e boas escritas!
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Boa noite a todos.
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