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Autor Tópico: Regresso √†s origens  (Lida 1897 vezes)
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Goreti Dias
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« em: Setembro 18, 2007, 22:21:09 »

O horizonte estende-se nu, deserto, cinzento. Num abraço de desespero, encontra-se com as nuvens negras que tapam o sol, e tudo gira emplumado de luto.
Encontro-me perfeitamente isolada, n√£o vejo vivalma e um arrepio de frio percorre-me a espinha dorsal. Uma tempestade parece pronta a submergir-me, mas eu prossigo na minha teimosa subida.
Do outro lado da montanha, espera-me a minha pequena aldeia, a aldeia onde nasci e que deixei h√° uns bons anos para trabalhar numa f√°brica de confec√ß√Ķes, numa cidade a muitos quil√≥metros dali.
Enquanto subia apressada, tentando escapar √† chuva que se aproximava, ia pensando nos meus colegas de inf√Ęncia. Onde estariam todos? Teriam ficado por ali? Teriam abandonado a sua terra como eu? Quem sabe que surpresa me esperar√°? Fui lembrando um a um, cada um deles: a sardenta Joana, a loira Maria a quem os rapazes arreliavam chamando-lhe ru√ßa, a Lucinda, minha prima, filha da Tia Ana... Como pude estar tanto tempo longe e nada saber deles?! Escrevia de vez em quando para a minha av√≥, a parente mais chegada, nada mais. Agora regressava para umas curtas f√©rias com ela.
Que infeliz ideia a minha! Porque n√£o fui de autocarro at√© √† aldeia, num dia destes? Que queria ver neste descampado, nestes montes cobertos de feno seco, sem uma √°rvore frondosa, apenas uma ou outra azinheira raqu√≠tica √† for√ßa da terra √°rida? Um regresso √†s origens, √† inf√Ęncia feliz, uma busca de paz, a procura do sabor do primeiro beijo de amor, t√≠mido e √ļnico, perdido no tempo, t√£o perdido que nem lhe sentia j√° o m√≠nimo gosto. S√≥ a recorda√ß√£o do gesto restava. Mas tinha sido por ali, debaixo de uma daquelas azinheiras, que  duas crian√ßas tinham pousado os seus l√°bios ing√©nuos um no outro.
Que parva! Onde isso vai! √Čramos duas crian√ßas, nunca mais nos vimos, o mundo se encarregou de nos separar. Ora! Tenho saudades! E depois?! Que mal h√° nisso? Algu√©m por aqui l√™ os meus pensamentos? Onde param as perdizes que persegu√≠amos brincando? E os pequenos insectos? E as flores silvestres que colh√≠amos para tecer grinaldas com que ele me enfeitava os cabelos? Nada! O Inverno aproxima-se a passos largos. E eu a sonhar com Primaveras! Que loucura! A chuva vai come√ßar a cair!
Ei-la que se abate sobre a terra! A aldeia tão longe ainda! Só depois do cume ela será visível . Estugo o passo debaixo da chuva, ignorando o frio que começo a sentir!
Finalmente, atinjo o cume. Paro estupefacta. A aldeia brilha lavada aos meus p√©s. Que linda est√°, t√£o branca, t√£o acolhedora! Brevemente abra√ßarei a minha av√≥ que me espera ao fundo da aldeia, na √ļltima casa.
Então, logo ali ao dobrar do cume, reparo numa pequena vivenda, nova, linda na sua singeleza. Uma varanda de madeira rodeia a casa. As janelas estão fechadas. Reparo melhor e verifico que uma pessoa se encontra sentada numa cadeira de verga, abrigada da chuva pelo largo beiral. Um automóvel vermelho está estacionado em frente à casa.
Que estranho! N√£o me recordo desta casa. Deve ser recente! Algum forasteiro que escolheu este local para descansar, certamente!
Preparava-me para passar adiante, em passo ligeiro, na √Ęnsia de me afastar da chuva impertinente e fria, quando uma voz me chamou:
- Ei! Menina! Abrigue-se um pouco! N√£o v√™ a chuva? E sem guarda-chuva?! Que lhe deu para andar por estes lados com uma chuva destas e sem abrigo? √Č de c√°? Nunca a vi!
- Vim visitar a minha av√≥ que mora nesta aldeia e resolvi sair antes, para vir a p√© e rever estes s√≠tios que j√° n√£o via h√° tantos anos. S√≥ que n√£o esperava que chovesse!  Devia ter feito a viagem toda no autocarro! Foi uma perfeita loucura! Obrigada pela oferta de abrigo. Contudo, n√£o vou aceitar porque, encharcada como estou, se parar ainda ser√° pior. Ainda apanho uma gripe!  Vou despachar-me para chegar a casa da minha av√≥ o mais r√°pido poss√≠vel! Obrigada, de qualquer forma - respondo da forma mais simp√°tica que consigo porque, de facto, estou a tiritar de frio e nada bem disposta. A solu√ß√£o n√£o parece agradar ao jovem que me interpelara da varanda :
- Nem pense! Eu levo-a lá de carro. Afinal, nas aldeias todos somos vizinhos, não é verdade? Entre!
Fiz-lhe a vontade, n√£o querendo ser indelicada mas, na verdade, bastante contrariada. Queria era fugir para um abrigo quente, mas r√°pido! Ele parecendo adivinhar os meus pensamentos insiste:
- V√° l√°! R√°pido!
Olha para mim e exclama:
- Meu Deus! Est√° pior do que eu pensava. Venha c√°! Entre!
Entro de forma relutante e sigo-o casa dentro. Encaminha-se para uma porta que abre e diz:
- Trate de tomar um banho bem quente! Vista um roupão dos que encontrar na gaveta superior do armário. Ser-lhe-á grande, mas serve enquanto não tem outra roupa. Vem sem mala, não traz bagagem para ficar em casa de sua avó?
Um pouco atarantada com a situação, respondo que dias antes a enviara por uns parentes que vieram à aldeia. Parece decidido, o rapaz:
- Fique à vontade, vou a casa dela buscar alguma coisa para poder vestir e depois levo-a lá. Como se chama a sua avó? Eu sou de cá, conheço toda a gente.
Respondo-lhe e ele olha-me de forma estranha, da cabeça aos pés. A hesitação dura pouco e ordena-me:
- Despache-se a tirar essas roupas e tome o seu banho quente. Eu volto j√°!
Fecho a porta, admirada com tanta rapidez de decis√£o, mas aceito a ordem. Livro-me de toda a roupa que n√£o tinha um fio seco e enfio-me debaixo do chuveiro. A √°gua quente escorrendo-me pelos ombros faz-me parar de tremer de frio. Que bom! Deixo-me ficar, ensaboando-me devagar, gozando o calor t√£o apetecido. Quem ser√° o cavalheiro t√£o cavalheiro? Diz que √© de c√° ... ter√° nascido aqui? Ou ter√° vindo morar para a aldeia? Para conhecer toda a gente... Ele logo diria! √Č bem simp√°tico, elegante... que charme!
Ainda estava a secar-me quando ele bate à porta da casa de banho:
- Já cheguei! Trouxe-lhe roupas que a sua avó escolheu de entre as que havia na sua mala. Estão em cima da cama no quarto em frente. Esteja à sua vontade. Eu espero-a na sala. Até já!
Fico encantada com a sua voz suave, agora menos autorit√°ria. Visto um roup√£o e penso ‚ÄĚ Isto √© dele!‚ÄĚ, sabendo-me bem a intimidade inesperada de um tecido que j√° esteve sobre a sua pele. Dirijo-me ao quarto e troco a maciez do tecido turco pelas minhas roupas. Dou uma escovadela ao longos cabelos castanhos e dirijo-me √† sala. Uma saborosa lareira ardia alegre, espalhando um calor suave. Levanta-se e entrega-me uma ch√°vena de leite quente:
- Tome bem quente! Acabei de o aquecer no microondas. Não é como aquele que habitualmente bebíamos em crianças, acabado de tirar pela tia Ana, mas é o que há. Acabadinho de chegar... do supermercado da cidade!
Solta uma gargalhada sonora e acrescenta, bem disposto, olhando-me nos olhos:
- Dá cá um abraço, rapariga! Então não me conheces? Bem..., para falar verdade, eu também não te conheci! Estás linda... Ana!
Olho-o com mais aten√ß√£o e reparo nos seus olhos. Ah! Aqueles olhos cinzentos n√£o eram para esquecer, n√£o por mim, que os olhei profundamente no passado, com ingenuidade, mas com muito carinho. Um rubor sobe-me ao rosto e fico sem saber se o abra√ßo ou n√£o. N√£o tenho tempo para pensar mais. Ele j√° se aproximou o suficiente para eu sentir que n√£o vale de nada a minha indecis√£o. Ele j√° decidiu. Aperta-me nos bra√ßos fortes e eu apenas tenho tempo de dizer ‚ÄĚJo√£o‚ÄĚ! O abra√ßo dura uma eternidade, m√ļltiplas sensa√ß√Ķes me percorrem e eu nem sei classific√°-las! Afastamo-nos um pouco, embara√ßados com tamanha efus√£o.
O tempo voou enquanto eu lhe contava como me afastara da aldeia e ele me contava como resolvera mandar construir ali aquela casinha para onde vinha todos os fins de semana. Afinal, trabalhava numa cidade a vinte e poucos quilómetros daquela em que eu morava. Tinha vontade de lhe perguntar se casara. Ele antecipou-se:
- Est√°s casada ou solteira?  Eu ainda n√£o encontrei quem me fizesse esquecer umas certas tran√ßas !
Coro ( hoje não faço mais que corar, penso irritada!) e tartamudeio:
- N√£o, estou sozinha!
...
O que se passou naquele dia e nos seguintes foi um conto de fadas. As tran√ßas que ele n√£o esquecera eram as minhas, e dele eram os l√°bios que primeiro beijei e que me tinham feito sonhar durante aquele passeio a p√© pelo monte. Afinal n√£o fora m√° ideia ter vindo por ali. Quem sabe se o teria encontrado indo no autocarro! Era j√° tarde quando naquela noite ele me levou a casa. A minha av√≥ n√£o ficara preocupada. Percebera, logo que ele apareceu a buscar as roupas, que ter√≠amos muito que conversar. Afinal, dois amigos de inf√Ęncia que se encontram depois de tantos anos querem contar todas as novidades e mais algumas! N√£o sabia que t√≠nhamos sido uns amigos t√£o especiais e muito menos sabia que a maior parte do tempo que gast√°mos naquele dia fora a tentar vencer a timidez que me assaltara. Fic√°mos horas de m√£os dadas, relembrando as nossas correrias, as nossas brincadeiras, at√© ele falar num certo beijo muito carinhoso. A medo, repet√≠mo-lo, tentando reencontrar o sabor antigo. N√£o o reconhecemos. O inesperado da situa√ß√£o e a nossa maturidade encarregou-se de lhe retirar a leveza, a ingenuidade. E o que se pretendia suave e carinhoso tornou-se fogoso corcel √† desfilada nos nossos cora√ß√Ķes. Nenhum de n√≥s estava preparado para tal intensidade! Como seria poss√≠vel termos continuado tempo fora √† espera um do outro? Viv√™ramos todos estes anos √† espera de um beijo que amea√ßava n√£o terminar!
Aquela noite passei-a sem dormir, rolando na minha cama, sonhando acordada com as suas m√£os e os seus l√°bios, antecipando ternuras desconhecidas, √Ęnsias infinitas. Os dias seguintes, passei-os numa felicidade sem limites adivinhados. Tranquilos, namor√°mo-nos pelos campos, pelas veredas e debaixo das azinheiras, tentando encontrar flores que tecessem grinaldas de noiva. N√£o as havia ainda. Mas n√£o tardariam:
- Ana, meu amor, casas comigo?
- Sim!
O sol brilhou sobre os montes lavados da chuva de Outono e um arco √≠ris em todo o seu esplendor lan√ßou sobre n√≥s a sua ben√ß√£o colorida, pren√ļncio das p√©talas de rosa que cobririam o adro da igreja e as nossas cabe√ßas da√≠ a uns meses, quando a Primavera engrinaldasse os muros dos caminhos. Tapetes de musgo e margaridas brancas nos serviriam de passadeira at√© √† pequena capela branca no alto do monte.
 E ser√≠amos felizes para todo o sempre!

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Goretidias

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britoribeiro
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« Responder #1 em: Outubro 24, 2007, 18:28:03 »

A vontade de revisitar a serra, o encontro com o passado, o destino. Muito bom.

Abraço
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Goreti Dias
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« Responder #2 em: Dezembro 05, 2009, 03:21:03 »

Quando ele n√£o nos mata. Obrigada.
Abraço
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margarida, plenamente de acordo.
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Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
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Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Ol√° para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
Março 01, 2018, 20:26:58
Boa noite!
Dezembro 30, 2017, 21:19:00
Ol√°, amigos do Escritartes!
Dezembro 27, 2017, 09:04:13
Boas Festas!
Dezembro 21, 2017, 10:51:56
Ol√° para todos! Desde j√°, um feliz natal e um 2018 de novas escritas!
Novembro 11, 2017, 17:23:12
Boa tarde a todos! Votos de muita inspiração na nobre arte da escrita.
Outubro 25, 2017, 10:20:24
Meu bom dia a todos!
Julho 18, 2017, 20:17:24
Ol√° para todos! Boas escritas!
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