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Autor Tópico: Lutador anti-fascista  (Lida 1465 vezes)
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Antonio
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« em: Setembro 28, 2007, 13:05:13 »

Ano de 1969.
A crise acad√©mica desencadeou-se em Coimbra aquando da visita do ent√£o Presidente da Rep√ļblica, Am√©rico Thomaz.
Na sessão de inauguração de um novo edifício, salvo erro ligado às Matemáticas (mas haverá muita gente que conhece melhor esta peripécia do que eu e pode corrigir-me), o presidente da Associação Académica e actual deputado Alberto Martins pretendeu usar da palavra como representante dos estudantes. Tal foi-lhe negado.
Quando os participantes na cerimónia saíram para o exterior, um muito numeroso grupo de estudantes insultou o Thomaz (chamando-lhe, em bem sonoro e afinado coro, de palhaço) e outras altas individualidades como o então ministro da Educação, o bem conhecido Hermano José Saraiva.
Daí para a frente, foi um processo tumultuoso que teve o seu zénite na greve aos exames da Academia coimbrã.
Mas o movimento alastrou a Lisboa e ao Porto que eram, ao tempo, as √ļnicas cidades com ensino superior (se j√° havia em √Čvora, pe√ßo desculpa, mas teria ainda muito pouca gente).

No Porto, eu frequentava o 2¬ļ ano, que era tamb√©m o segundo dos chamados preparat√≥rios e que eram leccionados na Faculdade de Ci√™ncias. S√≥ depois faria os dois √ļltimos anos, na Faculdade de Engenharia, √† rua dos Bragas.
E, embora longe do vigor contestat√°rio da cidade do Mondego, foram-se fazendo uns com√≠cios (s√≥ depois da revolu√ß√£o √© que percebi que o Partido Comunista, e n√£o s√≥, j√° estavam por tr√°s das movimenta√ß√Ķes).
Estes realizavam-se sobretudo no átrio interior da entrada da Faculdade de Ciências.
A frontaria do vetusto e bonito edif√≠cio estava (e ainda est√°) voltada para o largo dos Le√Ķes (oficialmente √© a pra√ßa de Gomes Teixeira), com o seu grupo escult√≥rico no meio do lago e os tapetes de relva bem verdinha.
Entrando pela larga e pesada porta de ferro e vidro, podíamos ver o átrio e, ao fundo, duas escadarias largas, em pedra, que conduziam ao andar superior. Entre ambas existia um espaço ocupado por uma secretária.
Pouco visíveis da entrada e muito perto das escadas, nasciam lateralmente dois corredores mal iluminados que davam para a zona da Química, um deles, e para a da Mineralogia e Geologia, o outro.
Pois era nessas escadarias que, quasi todos os dias, havia uns quantos colegas mais activos politicamente que faziam as suas interven√ß√Ķes orat√≥rias de mal dizer do regime, do governo, da guerra colonial, da falta de liberdade e democracia e de tantas coisas a que o salazarismo-marcelismo fornecia m√ļltiplos argumentos.
E o maralhal quando lá passava ficava a ouvir durante algum tempo, aplaudindo as passagens mais empolgantes. E depois ia à vidinha.
Mas não eram só os anti-fascistas quem tinha voz.
O Zé Gordo, um tipo anafado de óculos verdes, graduado da Mocidade Portuguesa e defensor assumido e convicto do regime, também falava para uma plateia onde tinha alguns (poucos) apaniguados e muitos mais mirones. Quando era aplaudido pelos colegas situacionistas, logo os apupos se ouviam bem mais alto e, alguns democratas ainda pouco esclarecidos, mandavam-no calar ou ir para a rua.
Confesso que admirava a coragem do sujeito.

E chegamos ao dia D.
Melhor, dia P, pois estava convocado um plen√°rio para discutir qualquer coisa que j√° n√£o sei o que era.
O √°trio estava prenhe de malta. Rapazes e raparigas, naturalmente. Nas escadas de pedra postavam-se os activistas da luta anti-fascista, agora j√° reconhecidos por todos.
Eu estava mais ou menos a meio com o meu colega e amigo Fernando.
A sessão começou às três da tarde.
Discursos, aplausos, apupos quando se falava no Marcelo, no Thomaz ou no regime e, a certa altura, ouviu-se uma voz a dizer.
- A polícia de choque chegou!
- Ningu√©m arreda p√©! ‚Äď disse um dos l√≠deres.
E o plen√°rio continuou como se o alerta n√£o tivesse sido ouvido.
Sinceramente, não me pareceu que houvesse alguma intervenção policial, pois tudo decorria com bastante calma.
Pelo sim pelo n√£o, fui magicando na t√°ctica a seguir.
Sair dali era uma vergonha. E eu também era do reviralho, que diabo. E não era nenhum cobardola. Havia que enfrentar a situação de frente mas com inteligência.
E que decidi fazer?
Partindo do princípio que os agentes não eram muito dotados intelectualmente e que, pensava eu, batiam no que mexia, o melhor seria estar quieto. Melhor ainda: poderia dar-me uns ares de informador da PIDE, fazendo uma cara de quem está a apreciar o comportamento de uns e outros. E olhar sempre os monos nos olhos.
Passados uns bons dez minutos, e vindos dos dois corredores que atrás referi, irromperam a correr pelo átrio uma boa quantidade de agentes com cassetetes no ar e capacetes na cabeça. Ainda não se usavam os escudos de plástico transparente.
O p√Ęnico foi geral. As meninas, como √© habitual nestas coisas, come√ßaram com os gritos mais ou menos hist√©ricos.
Como não entrara polícia pela porta principal, foi por ela que os estudantes começaram a sair.
Mas eu mantive a minha táctica. Curiosamente, o Fernando procedeu exactamente da mesma maneira sem combinarmos nada. Só quando a zona estava quasi vazia é que ele me fez um sinal para sairmos,
Ninguém nos tocou!
Nos relvados do largo estavam imensos contestatários, sentados ou em pé, a insultar os polícias. Dirigimo-nos calma mas firmemente para a porta onde já estavam a juntar-se os invasores.
Mal pus um pé na rua...
Pumba!
Apanhei com um pedaço de relva, com as raízes cheias de terra, em cheio na cara. Era dirigido aos monos mas eu é que apanhei com o torrão nas trombas.
Porra! Então a polícia não me agrediu e foram os anti-fascistas a fazê-lo?
Fiquei pior que estragado!
Mas compreendi e perdoei de imediato! Solidariedade académica e anti-fascista acima de tudo.
Entretanto, eu e o Fernando dirigimo-nos para o passeio onde ficam as igrejas do Carmo e das Carmelitas, com o intuito de chegarmos ao bar de Letras onde a malta mais amiga se juntava diariamente.
Eis que olho para trás e vejo um mono a correr atrás de nós com gestos ameaçadores.
Toca a aplicar a mesma dose. Paramos, olhamos o homem bem de frente com cara de poucos amigos, e não é que ele dá meia volta e manda uma cassetetada numa velhinha que ia a correr?
A tese foi completamente confirmada pela experiência.
Chegados ao bar, contamos as ocorrências com um acento triunfal.
E havia raz√Ķes para isso.

E assim começou e acabou a minha actividade como anti-fascista!
Ou ser√° que qualquer dia me lembro de outra ac√ß√£o her√≥ica que, quem sabe, me torne credor de uma daquelas medalhas que o Presidente da Rep√ļblica distribui no 10 de Junho?
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Goreti Dias
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« Responder #1 em: Setembro 28, 2007, 17:12:39 »

Tens uma escrita realista... impetuosa... gosto desta descrição de tempos ainda tão vivos na recordação das pessoas!
Um abraço
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Goretidias

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Antonio
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« Responder #2 em: Setembro 28, 2007, 17:19:13 »

Não tenho formação em Letras, mas em Engenharia.
Mas acho que os meus textos s√£o, como dizes, muito realistas.
√Č o meu neo-realismo...ah ah ah
« Última modificação: Setembro 28, 2007, 17:21:42 por Antonio » Registado
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« Responder #3 em: Setembro 28, 2007, 18:40:13 »

Bom!
O que coloco em Contos é ficção.
O que coloco aqui (em Crónicas) são histórias reais e nada romanceadas.
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Antonio
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« Responder #4 em: Setembro 29, 2007, 18:06:08 »

Obrigado pelo coment√°rio!

Beijo
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Boa tarde a todos!
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Ol√° para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
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