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Autor Tópico: A S√°tira do Livro Roubado  (Lida 8392 vezes)
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #45 em: Julho 18, 2022, 10:36:29 »

Coitados, mesmo


‚ą©
César

V√™-se mesmo que estas duas, a Clara e a Lilicas, n√£o gostam de fazer nada! Preferem o jogo do empurra. S√£o est√ļpidas como as galinhas!
Pelo que estou a ver, ainda vou ter de ser eu a relembrar pecados velhos, quando a doce Clarinha queria morrer em mim e por mim. Mas, afinal de contas, ela n√£o queria sen√£o enviar-me para o maligno a toda a pressa. Mesmo antes de eu ter tempo de arranjar um confessor para lavar os meus pecados. Por vontade dela, eu n√£o teria podido providenciar uma casa condigna para deixar sequer os meus Cristos a algu√©m de confian√ßa. Nem mesmo o do interior oco, que um dia foi o meu ve√≠culo para transportar uma boa pitada de droga numa das minhas viagens ao mundo do √≥pio. J√° nem sei se √†s minhas custas se a expensas da funda√ß√£o, que me pagava todas as despesas sem quaisquer problemas. Eu era o director‚ĶO desejo da Clara e da autora, depois de a maldita h√©rnia discal me ter poupado a coluna e a vida, era que deveria ser a est√ļpida hepatite, (ou era sida?!) a mandar-me para o al√©m, sem eu ter encetado negocia√ß√Ķes com o p√°roco da capela de S. Salvador do Mundo para colocar l√°, em imagens quintuplicadas, Cristo meu protetor. Ele que viveu todo o tempo no meu quarto, quando o meu corpo se unia ao de todas as mulheres, conduzidas por Deus √† minha cama, cada uma como mais uma ovelha destinada ao sacrif√≠cio para salva√ß√£o do mundo.
Gabriel est√° √† porta, quase a entrar, e a Lilicas, mais o milenar tio-av√ī, j√° est√£o dentro, com a rapariga a preparar um grande golpe de teatro para enganar a Sarita, fingindo que ningu√©m se conhece. Mas, como toda a gente sabe, algumas das personagens femininas, incluindo Sarita, j√° estiveram at√© na minha cama. J√° nos lambemos de cima a baixo como gatos remelosos acabados de nascer para a vida. E n√£o tardar√° nada at√© que os outros homenzinhos e mulherzinhas, com pap√©is mais modestos na trama, com receio de certos gangues, se v√£o esconder no meu colch√£o. Devem estar carregados de medo de serem descobertos e atirados para o inferno por uma bala que, √† partida, traga logo a senten√ßa de morte de cada um j√° transitada em julgado.
Mas, para j√°, n√£o vou levantar mais v√©us. Vou apenas pedir ao mano Gabriel que aguarde mais um pouco fora de casa, at√© eu revelar como √© que uma Clara apaixonada por mim, como se eu fora o pr√≥prio Jesus, de repente, come√ßa a dizer-me, chorosa e no maior embuste do s√©culo, que tinha ido fazer exames √† Sida e que o resultado fora positivo, aconselhando-me depois, com o maior descaramento, a fazer tamb√©m os testes. A mal√©vola estava a transformar-me, em faz de conta, num transmissor do v√≠rus, por causa do cat√°logo de mulheres com que, ao longo da vida, tinha coitado sem me preocupar sequer com o assunto. Na verdade, eu, como sempre fora tratado como um deus, variasse embora de nome esse deus ao sabor da fantasia das minhas musas, nunca pus a hip√≥tese de algo t√£o ruim ter escolhido os meus humores √≠ntimos para se reproduzir. Nunca me julguei prato para v√≠rus idiotas, e, muito menos, para minhocas de sepultura, onde, √† fina for√ßa, no embuste mais do que provado da minha primeira vida de personagem, a doida da Clara lan√ßou um fato Pr√≠ncipe de Gales. Era para os bichos o roerem, juntamente com a minha carne, para onde uma renovada peste negra, vinda diretamente do s√©culo XIV, convergira em tropel, a fim de encher o meu corpo de bub√Ķes, que s√≥ postumamente ficariam satisfeitos.
Não dei grande crédito à advertência. Eu, que fora concebido no coro de uma igreja, com os santos todos a protegerem-me, e alguns a serem meus padrinhos espirituais, não devia temer nada disso. Vi logo que toda aquela telefónica conversa não passava de maldade de uma mulher inconformada com o fora que estava a levar, juntamente com um eufemístico pontapé. Só uma verdadeira burra não entenderia isso. E, como de jerica ela não tinha nada, vi logo que aquela algaraviada não passava de vingança pura, bem como de uma tentativa frustrada de me pregar um grande susto.
Mesmo assim telefonei-lhe. Tudo n√£o devia passar de um engano, garantira-me ela, e iria repetir os exames.
Entretanto, já Clara se transformara numa velhaca, a mesma que, numa versão mais atenuada de Lilicas paninhos quentes, anda agora derretida, quer comigo quer com o Gabriel. Como toda a gente já sabe, é-lhe indiferente ser coitada por mim ou pelo mano. Dada a sua natureza perversa, e com especialização em Cambridge, na disciplina sexual de sadomasoquismo, para ela seria um pormenor irrelevante coitar até mesmo com um sapo como se o animal fosse um verdadeiro príncipe. Entretanto, anda agora cheia de pruridos a discutir com a mamã, negando-se a espetar-me o punhal envenenado nas costas. Contudo, sendo ela mulher, demoníaca ainda por cima, vai acabar por fazê-lo, mais tarde ou mais cedo. A menos que me antecipe e lhe retire o gozo perverso da delação.
Depois, ou antes de mais, quando eu estava a cortar as r√©deas √† Clara, j√° Gabriel, de casamento marcado com a Sarinha e com a quinta dimens√£o, a rapariga, meia Clara do original, meia Lilicas do romance do meio, andou por todo lado a tentar saber coisas sobre mim. Por entre muitas verdades, trouxe no alforge das investiga√ß√Ķes um monte de mentiras sem nexo, depois aproveitadas para modelo e inspira√ß√£o para algu√©m fazer um brilharete √† nossa custa. A mam√£ escrevera no primeiro livro que, devido ao meu gosto exacerbado por sexo, talvez tivesse sido abusado na inf√Ęncia por um tio. E como a Clara era psic√≥loga, um dia comentou o assunto com o colega l√° no Gabinete de Psicologia onde ambos trabalhavam. Ent√£o, no romance do meio, para limparem a inf√Ęncia de Gabriel, fizeram uma analogia parva com a meninice de Jesus, dizendo que era preciso reescrever a hist√≥ria, desta vez bem melhor do que a mam√£ o tinha feito com C√©sar... A seguir, numa narrativa relativamente bem engendrada, sem omitir os atos mais banais da vida de um ser especial ‚ĒÄ sei l√°, apanhar o sarampo ou a varicela ‚ĒÄ tudo passaria a fazer sentido na vida de Jesus e de toda a gente, tapando-se, definitivamente, a boca aos especuladores. Sobretudo aos internacionais, que jamais haviam aprofundado a vida do Mestre pegando-lhe pela inf√Ęncia. A meninice condiciona sempre a vida de um homem. Mesmo que esse homem fa√ßa parte de uma trindade divina e tenha, eventualmente, em noites de sono muito pesado e quando rapazote, feito chichi na cama. E as coisas passaram-se ent√£o assim, depois de um professor maluco, com liga√ß√Ķes ao livro do meio e com fortes sintomas de Alzheimer, avivada pela ingest√£o de uma po√ß√£o de erva semelhante √† Jurema brasileira, ter alucinado e visto uma chupeta b√≠blica. A chupeta, segundo este doido varrido, seria o objecto sobre que haveria de incidir a pesquisa, para se desvendarem todos os mist√©rios relacionados com O Filho de Deus. E os tr√™s pergaminhos onde a tem√°tica estaria √† espera de ser descodificada, de acordo com os √ļltimos boatos, andariam dispersos pelas bibliotecas e adelos de uma terra pequena, √† beira de um rio. Esses manuscritos, segundo uns, remontariam, com o fulgor da minha gargalhada ir√≥nica, √† Idade da Pedra Lascada. J√° para outros, os pap√©is seriam do tempo de Maria Madalena, e o mais certo √© ambas as teorias estarem redondamente enganadas. Ainda relativamente aos manuscritos, houve tamb√©m uma tese que os dava como do tempo de Colombo. Mas rapidamente foi colocada de parte por causa das batatas. Julgo que j√° algu√©m disse isso aqui, quando No√© apareceu como mais uma figura de estilo para colorir A S√°tira do Livro Roubado. Finalmente, ainda quanto aos benditos manuscritos da minha perdi√ß√£o, a √ļltima opini√£o era de que se tratava dos meus, quando eu, a t√≠tulo p√≥stumo, por causa da minha morte com Hepatite B, estive quase a ser escritor. Quase, digo eu, e a concretizar-se tudo isto, ficaria a dever tal sorte de coisas √† Clara, quando ela, em pleno cemit√©rio, foi √† minha ex levar os rabiscos que eu arrazoei na cama de um hospital, onde o n√ļmero da besta e o seu esp√≠rito maligno influenciaram toda a minha escrita.
A prop√≥sito, √†s vezes tamb√©m se dizia que a minha m√£e era uma esp√©cie de Maria Madalena, e n√£o sei se est√£o a ver bem a coisa‚ĶJ√° agora, para tudo ficar mais claro, lembro aqui um poema. Acho que foi a minha criadora quem o escreveu, a prop√≥sito da minha m√£e biol√≥gica. Os versos acabaram por ser o mote para a poesia do livro do meio e chamam-se ‚ÄúPedras‚ÄĚ. No meio de tudo, era com umas grandes pedras que nos apetecia atirar a toda a gente, por nos terem metido √† for√ßa em tr√™s romances, cada um pior do que o outro.
Ocorrendo-me mais uma vez o nome de No√©, aproveito para dizer o seguinte: √© um homem que deveria figurar naquela esp√©cie de concursos de televis√£o. Se exceptuarmos Jesus, que n√£o √© compar√°vel sen√£o a Ele pr√≥prio, No√© deveria ser o n√ļmero um da Humanidade. Como o leitor deve estar lembrado, foi o grelo da batata, no templo do c√©lebre barqueiro, a prova plen√≠ssima de que o tub√©rculo j√° existia na Judeia e na Palestina muito antes de Colombo regressar da Am√©rica com a novidade
Agora, digo aqui, nesta retrata√ß√£o, n√£o fui eu a escrever tanto horror. E se n√£o foi a mam√£ a engendrar aquela trama maligna para o livro do C√©sar, foi de certeza o Diabo, que, atrav√©s de mim, fez psicografia, como fez certamente uma ecografia ao sistema neurol√≥gico do professor ‚Äúaramaiquez‚ÄĚ, acabando por ditar o veredito de que ele e todas as outras personagens do livro do meio n√£o passavam de megal√≥manas, e de quem ele se poderia aproveitar para levar muitas almas para o inferno.
Quanto a Clara, com grande descaramento, foi ela quem come√ßou por levantar a minha ficha junto da Carolina woman in red, a primeira a fazer cair por terra a minha ascend√™ncia aristocr√°tica francesa e o meu castelo na Normandia. Como est√£o fartos de saber, foi a woman in red quem primeiro revelou a verdadeira idade das minhas irm√£s, colocando-me, por causa disso, na posi√ß√£o de morgado de uma fam√≠lia, que, no m√≠nimo, tinha na terra uma casa, outrora pertencera a gente rica e agora devidamente restaurada, onde eu podia levar todas as mulheres da minha vida. Digo, com orgulho, que passaram por l√° umas poucas‚Ķ incluindo a Sarita, transformada entretanto na esposa amant√≠ssima de Gabriel. E isso deve ela agradec√™-lo a Clara, pois, j√° na vers√£o Lilicas, Clara chegou inclusivamente a ver o √°lbum do meu enlace com a Patr√≠cia, quando eu tinha vinte e oito anos. Foi o mote para a idade do mano no livro do meio, os meus vinte e oito anos do retrato. Nessa altura j√° eu pensava nas instala√ß√Ķes fotogr√°ficas para captar as auras. Todavia, s√≥ consegui isso muito mais tarde, quando me chamava Gabriel. E foi, afinal, Gabriel quem mais beneficiou do est√ļdio. Sobretudo quando fotografava o rosto da Sara e o brilho de santidade que dela emana em todas as circunst√Ęncias da vida, esteja ela, como a mais comum dos mortais, ajoelhada aos p√©s do Esp√≠rito Santo, ou simplesmente na sanita a bra√ßos com uma pung√™ncia inadi√°vel.
Depois, o relatório da Clara sobre mim ficou completo com os acrescentos das minhas ex, incluindo a ex sogra, todas elas a acusarem-me de ladrão e de proxeneta. Além de ter ficado também no ar a ideia de que, depois das mulheres, os homens também não me seriam indiferentes, vindo então à baila um amigo que, um dia, nos meus tempos de merda, me deu abrigo lá em casa, no quarto e na cama.
Isto dos gays √© a mais pura das mentiras, n√£o tenham d√ļvidas.
A mamã acaba de me dar autorização para me defender como puder. Já que terceiros desfizeram da obra dela - e de mim - como quem malha em mortos, passa a valer tudo. Olho por olho, e dente por dente, como diria Mister Talião se ainda cá andasse. Mas, como já partiu há muito para o reino dos espíritos, aqui fica a ideia para todos disporem dela à vontade passando à ação defensiva.
N√£o foram s√≥ os chegados que me desdenharam a torto e a direito, quando a Clara/Lilicas enveredou pela devassa sobre o meu passado de menino de coro e, a seguir, da minha vida de homem que experimentou muitas das perversidades deste mundo, quando dizia com os seus bot√Ķes: ‚Äú√© para n√£o morrer est√ļpido‚Ä̂Ķ- Os vizinhos e conhecidos faziam a mesma coisa: malhavam em mim como quem malha no esqueleto de uma oliveira para deitar as azeitonas abaixo. Em suma, fui tratado como um homem sem alma. At√© pol√≠cia meteu, quando algu√©m descobriu as minhas incurs√Ķes no mundo da droga e umas pequenas burlas sem import√Ęncia.
N√£o percebo a raz√£o por que os feios t√™m sempre tanta inveja dos bonitos. Nunca podemos vestir um trapo lavado sem nos roerem na pele. Nem sequer nos √© permitido usar fatos com pequenos bolsos para os lencinhos dobrados deitarem a cabe√ßa de fora, tal como os peixinhos amigos de Santo Ant√≥nio estar√£o agora a fazer sobre o cora√ß√£o de Gabriel. As criaturinhas ainda devem estar no bolsinho da camisa √†s riscas do meu irm√£o, em que a Lilicas se fartou de dar beijos. Deve ter sido isso que atraiu os ‚Äújaquinzinhos‚ÄĚ. Todas as criaturas gostam de ser acarinhadas‚Ķ O bicho homem nunca mais aprende que n√£o vale a pena andarmos zangados uns com os outros. Muito menos a roubar o que algu√©m conquistou √† custa do seu suor. Mais vale a regra dos beijos. Mesmo lambuzados e a deixaram no beijado aquela sensa√ß√£o de quer ir lavar a cara com a m√°xima urg√™ncia para remover o muco.
E n√£o h√° meio de encarreirar na trilha da ‚ÄúClaral√≠lica‚ÄĚ, obviamente j√° maligna!

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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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« Responder #46 em: Julho 24, 2022, 16:15:40 »

"O bicho homem nunca mais aprende"...pois só aprende o que lhe dá jeito, e nisso é perfeito na imperfeição. Grande César.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #47 em: Agosto 12, 2022, 18:59:47 »

Pois não, só na cova....

César....

Supostamente ela teria o v√≠rus da Sida e, depois de me deixar indeciso, sem saber o que pensar ou fazer, numa noite acabou por descair-se: s√≥ queria vingar-se e ver-me ‚Äď disse - ver-me n√£o, os nossos quiproqu√≥s tinham lugar apenas atrav√©s do telefone‚Ķ ‚Äď borrado de medo. Nessa altura armou um grande teatro. Sempre lhe senti essa voca√ß√£o. Tanto para o escrever como para o representar. Chamou-me todos os nomes poss√≠veis e imagin√°rios. Desde traficante a proxeneta e mulherengo sem alma. Disse-me, entretanto, que um dia eu havia de morrer s√≥ como um c√£o abandonado numa estrada, sem ningu√©m para me fazer um ch√° e chegar-me uns chanatos quentes no Inverno, depois de me ter dito, em altos gritos, que eu era uma criatura amoral. Antes, n√≥s os dois e apesar de tudo, julgava eu, √©ramos perfeitos nas nossas singularidades: eu com a cole√ß√£o de poemas escritos nos guardanapos de papel das esplanadas e ela a colocar em cena, desde logo e verbalmente, o que mais tarde a mam√£ viria a reduzir a escrito. Come√ßou com uma morte, negra como a peste, a minha pr√≥pria morte e com flores, id√™nticas em tudo √†quelas que n√£o pude cultivar, nos ramos de todas as minhas ex amantes, quando se plantaram l√° no cemit√©rio, como t√ļlipas de cabe√ßa desca√≠da, a espreitar para dentro da cova. Como numa prociss√£o de missa negra, todas levavam ent√£o flores semelhantes √†s que eu n√£o tinha podido plantar quando sentia dentro de mim a voca√ß√£o de floricultor. De facto, nunca consegui desabrochar nessa arte sen√£o na fic√ß√£o de uma escritora que escreve, com igual empenho, tanto romances er√≥ticos como g√©neros melodram√°ticos capazes de deixar em o leitor de l√°grima ao canto do olho. Durante essa discuss√£o, comportei-me como um c√≠nico, quando afirmei ter gostado dela e que nenhum homem lhe teria aturado tantos desmandos. Ela, nessa altura, andava uma aut√™ntica asna, quando, ressalvando o exagero da met√°fora, me pediu quase uma declara√ß√£o por escrito a mencionar a data, ano, dia e hora do fim do meu amor por ela. Contudo, durante a acalorada troca de palavras, houve um momento em que n√£o consegui conter a minha sui g√©neris gargalhada.
 Foi nessa altura que a Claral√≠lica me acusou de ser ruim, a ponto de nem a terra e uma legi√£o de minhocas me quererem comer, por mais esfomeados de cad√°veres que estivessem. Por fim, acrescentou ela, quando me desenterrassem, inteiro e seco como um bacalhau, o povo ainda havia de passar a chamar-me santo.
N√£o me contive, confesso. Eu santo! E ri a bom rir.
Agora c√° estou eu, finalmente, Gabriel, um jovem de vinte e oito anos, casado com uma mulher mais velha, uma santa tamb√©m. E a Lilicas tem muito a agradecer-me pela circunst√Ęncia de a ter livrado de uma miss√£o t√£o espinhosa como lan√ßar lama sobre uma pessoa por quem ela se sente sempre t√£o bem coitada, quando os nossos efl√ļvios, os meus e os do mano C√©sar, se derramam no corpo dela com a for√ßa das Cataratas do Ni√°gara no pino do Inverno. Se n√≥s os dois, um com cara de anjo e outro anjo de corpo inteiro, n√£o lev√°ssemos a cabo a nossa miss√£o de amantes, a Lilicas j√° teria cumprido a amea√ßa de morrer. N√£o foi o que prometeu mal viu o Gabriel? ‚Äú Morro se n√£o me amares‚ÄĚ ‚Äď disse ent√£o.
Quanto a mim, se outros crimes mais graves n√£o cometer, pelo menos um crime de l√ļbrica omiss√£o n√£o gostaria de perpetrar. Ainda mais sobre uma criatura para quem o meu dicion√°rio na cama n√£o √© um problema. √Č s√≥ soltar o palavr√£o, e ele sai da boca como se fosse um peregrino agradecendo com entusiasmo a Deus o ter chegado ao fim da caminhada. Mesmo sendo a companheira de jornada uma mulher diab√≥lica e ninfoman√≠aca como a Lilicas solas e cabedais. Acho que Gabriel, ou eu ‚Äď  n√≥s somos n√£o uma trindade como a de Deus mas apenas  um duo quase perfeito ‚Äď pensa o mesmo sobre rapariga‚Ķ
E, agora, depois de tanto tempo √† porta de casa para aquele beijo b√≠blico, que deposita sempre na face da Sarita, √© melhor Gabriel entrar, se n√£o quiser desafiar a sorte e ir juntar √† velha h√©rnia discal, √† palidez e √† asma, uma nova doen√ßa que o atire de verdade para o mesmo local onde eu estive como defunto de fic√ß√£o (n√£o.., parece-me que a asma, a mesma por que Clara deixou de fumar,  est√° agora  apegada √† Lilicas, n√£o sei se para sempre se s√≥ nas alturas cruciais, durante o coito, quando as circunst√Ęncias a obrigam a arfar como uma gata ronrona e mais ou menos tuberculosa).
Para já, como o mano não se deve ter lembrado de agradecer a oferta do banco Ambrosiano depositada nas níveas e brancas mãos dele, vou fazer um telefonema à nossa querida e velha benfeitora. Nunca se sabe quando as vacas magras voltarão a andar à solta, disseminando a miséria pelos nossos bolsos e deixando-nos embaraçados quando nem sequer tivermos dinheiro para mandar castrar um gato.

continua
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outono


« Responder #48 em: Agosto 22, 2022, 14:11:15 »

Vacas magras à solta?
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #49 em: Agosto 23, 2022, 17:32:56 »

À solta a ver se encontram uma nesguinha de erva ao lado de um riacho cantante, Nação Valente


Sara

Por onde andará o meu amor que não chega de Coimbra? Provavelmente não conseguiu tirar nenhuma foto de jeito para o antiquário, por causa de quem se mata a palmilhar o país. Tudo para desencantar antiguidades dignas de estarem expostas no Museu do Louvre, mesmo ao lado da Mona Lisa, por quem Leonardo teve uma paixão tão grande como a minha por Gabriel.
E ele doente, com aquela palidez mortal que o meu hóspede lhe detetou num simples golpe de vista, como se o homem, mal o viu, se tivesse apaixonado por ele. Ou, então, o velho diagnosticou-lhe o mal como quem tira parecenças a meninos. Dizem os entendidos que têm de ser captadas de relance. Ou será que o velho se apaixonou mesmo por Gabriel num acabado sentimento homo?
Neste ponto história, deveria estar a fingir que não tenho ainda cá em casa, nem o professor, nem a tonta da ninfomaníaca sobrinha-neta? Pergunto à mamã como deve ser e ela responde-me que não me preocupe muito. Só se a minha vida ficar facilitada com mais um embuste. De outro modo, para quê negar tanto as evidências?
Respondo que está bem, até porque tenho de ser, ao menos para já, boazinha, uma daquelas mulheres que não partem um prato e para quem Gabriel se tornou no centro do mundo. Nasci para o servir e estou por isso reduzida à condição de escrava. Ele é o meu senhor, o meu ai Jesus.
Mas sim, √© melhor fingir que l√° dentro, na sala, a vasculhar a fartura de bibliotecas deste livro, est√£o o velho e a doidivanas da Lilicas. Ele a mirar as raridades e a proferir exclama√ß√Ķes sobre a qualidade das obras, n√£o se coibindo de falar das fotografias que est√£o espalhadas por diversas mesas e aparadores, por sinal de outro romance.
Já ela, a ninfomaníaca, com todo o descaramento, vestida de roupão vermelho e com um turbante na cabeça da mesma cor, depois de ter tomado banho, está agora a pintar as unhas de um rubro garrido que a deixam com aquele ar de galdéria com que leva todos os homens para a cama.
Mesmo sendo Gabriel um anjo impoluto, invulner√°vel a tenta√ß√Ķes, ela que n√£o se lembre de se lhe meter debaixo dos p√©s!‚Ķ Se isso acontecer, vai ficar a conhecer a cor da minha raiva b√≠blica, quando lhe rogar uma praga t√£o grande que as garras dela se h√£o-de partir ao m√≠nimo gesto l√ļbrico. Jamais haver√£o de crescer. Se se atrever √† provoca√ß√£o, ficar√° sem for√ßa, tal como Sans√£o ficou sem a dele, quando Dalila, √† trai√ß√£o, lhe cortou o cabelo √† escovinha (onde √© que eu j√° li isto?!). O poder da minha maldi√ß√£o ser√° maior se, entretanto, o meu marido apanhar alguma doen√ßa ruim‚Ķ
Hoje, para o jantar, haver√° batatas recheadas √† Maria Madalena, uma receita de um livro de cozinha muito antigo, que a minha sogra me deu como presente de casamento. Pensava ela que eu nem sequer um ovo sabia estrelar. L√° porque era dona de um solar oitocentista, julgava-me uma menina queque, uma tia, apenas preocupada em aparecer nas revistas cor-de-rosa. Mas, depois, quando lhe servi pela primeira vez as batatas, desdobrou-se em desculpas por causa dos seus preconceitos para com os meus dotes culin√°rios. Era para ser outra coisa, mas, √† √ļltima da hora, gosto quase sempre de fazer surpresas aos meus h√≥spedes.
Depois, de cada vez que algu√©m come c√° em casa as bem-aventuradas batatas, fica rendido ao prato. A ponto de ter de passar a receita para uma quantidade de pessoas. Nomeadamente, √†s esposas de pol√≠ticos importantes com quem Gabriel tem rela√ß√Ķes estreitas. E √© uma ma√ßada escrev√™-las pelo meu pr√≥prio punho, quando d√° o chilique ao meu computador, e quando somem de l√°, como por feiti√ßaria, tanto as receitas como a prosa que de vez em quando l√° verto sobre uma infinidade de coisas. Ent√£o se os desaparecidos forem os poemas que, sem ele sonhar, escrevo para o meu amor, fico uma aut√™ntica Maria Madalena, chorosa e triste.
√Äs vezes apanho pela frente uma daquelas mulherzinhas emproadas e cheias de tiques, com a mania dos segredos culin√°rios, e, sabendo elas das minhas origens b√≠blicas (ou ser√£o, na verdade, √°rabes?...), com grandes conhecimentos de l√≠nguas, pedem-me que escreva a receita noutros idiomas. Mas, como hoje toda a gente fala franc√™s, ingl√™s, italiano e por a√≠ adiante, um dia destes uma delas foi ao ponto de me pedir o diabo da receita das batatas recheadas em latim. √Č por causa de o latim ser uma l√≠ngua morta. Os mortos faladores de latim n√£o devem estar com grande paci√™ncia para vir l√° do outro mundo, onde est√£o sossegadinhos, fazer tradu√ß√Ķes nesta terra de loucos. Muito menos de receitas de batatas. Nunca vi tanto medo de furtos. Nem sequer dos colares de ouro e das pulseiras que t√™m guardados nas gavetas, comprados sabe-se l√° com que dinheiro. Por falar nisso, se calhar, a mulherzinha da receita queria registar o prato como sendo uma cria√ß√£o sua, dando a umas simples batatas com carne dentro um estatuto id√™ntico ao de um bolo-rei recentemente inventado nas padarias do norte. Mas livre-se ela de ganhar em direitos de autor dinheiro que, em princ√≠pio, me competem a mim!
Gabriel, parece-me, est√° a chegar de Coimbra. Ter√° conseguido a t√£o desejada foto de uma antiguidade para o livro do patr√£o, ou ter√° sido, simplesmente, uma viagem em v√£o?
N√£o!, que maravilha! Embora a suar as estopinhas, depois do esfor√ßo de um dia inteiro a vasculhar s√≠tios t√£o inusitados como galinheiros, onde, uma vez, um colecionador descobriu a raridade de uma c√≥moda do s√©culo XVIII a servir de poleiro √†s bichanas, o meu amor teve √™xito. Gabriel vem feliz com a foto. Trata-se de facto de uma raridade. √Č o que sei, mesmo sem ver a fotografia, porque sou uma mulher iniciada na transcend√™ncia. √Č um piano de cujo modelo s√≥ h√° tr√™s no mundo. E um deles deve deixar sair ainda por todos os poros da madeira pintada de negro um cheiro a malignidade. Era de onde sa√≠am as m√ļsicas de Wagner, que enfeiti√ßavam os ouvidos de Hitler quando este era a encarna√ß√£o do diabo.
Mal seja oportuno, vou pedir a Gabriel que mostre a fotografia √† Lilicas. √Č s√≥ para ver a rea√ß√£o dela quando captar os fluidos do mal, dos quais, provavelmente, o instrumento estar√° impregnado. A ponto de tudo isso ter passado para a foto, como a minha irm√£ Clara acredita. Isso dar-me-√° a perce√ß√£o exata at√© que ponto deva ou n√£o temer a doidivanas da rapariga. Estou maluca! Este piano √© o de uma amiga da mam√£ e n√£o o do Hitler! Mas, como me d√° jeito, fica assim. Espero que o leitor n√£o se aborre√ßa muito com a incoer√™ncia‚Ķ

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outono


« Responder #50 em: Agosto 30, 2022, 20:42:49 »

Não me aborreço nada com incoerências. Já estou habituado.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #51 em: Agosto 30, 2022, 23:54:45 »

Ainda bem.

Continuação

Quando pergunto a Gabriel onde conseguiu aquela obra-prima, aconselha-me a ter paciência e a aguardar mais um pouco. Para já, não pode revelar o nome do dono do piano. Embora, como me disse, seja de facto uma dona, uma mulher tão velha e gasta como a cinza.
Dou uma gargalhada com a metáfora e digo-lhe que, quanto a mulheres, mais vale ter cuidado, não vá uma, já feita mesmo em cinza, renascer como uma Fénix. A ponto de lançar as garras sobre ele e de o deixar mais esburacado do que ficaria se tivesse de ser submetido à operação da hérnia discal. Dou-lhe um beijo no rosto suado, na cozinha, num momento em que estamos os dois sozinhos. Ele não pensa, obviamente, que me refiro à Lilicas, e, enquanto ele está a beber um copo de água, vou à sala de estar ordenar à rapariga para se vestir decentemente. Informo-a da hora do jantar. Será servido mal o meu anjo acabe de tomar banho, depois de ter andado em algumas capoeiras à procura da relíquia um dia inteiro. Ah!, quanto não sofre um fotógrafo apaixonado pela sua arte!…
Hoje pus a mesa oval segundo o meu ritual de esoterismo. Num dos topos ficarei eu, sozinha, do meu lado esquerdo sentar-se ‚Äď √° Gabriel, seguir-se-√£o tr√™s lugares vazios.
Depois, em frente a mim, no outro extremo, ficar√° o tio da Lilicas, e esta sentar-se-√° ao lado do velhote, esperando eu que para o jantar ele tire aquela gabardina cinzenta cor de rato e ensebada que nunca despe. Gosto sempre de deixar tr√™s s√≠tios sem destinat√°rios. Fa√ßo isso depois de conhecer o ditado,‚ÄĚ √† hora do jantar sempre o diabo traz mais um‚ÄĚ. Ou, se o prov√©rbio n√£o se confirmar, essas duas cadeiras, com os pratos, talheres, copos e demais apetrechos, ficam reservadas para os bons esp√≠ritos que nos queiram fazer companhia, se por l√° n√£o houver algu√©m com um poder demon√≠aco capaz de os afugentar. Vale mais prevenir do que remediar. Por isso conto sempre, n√£o com mais um que o diabo possa trazer, mas com uma legi√£o deles. Enquanto houver de comer para todos n√£o me escaqueiram a lou√ßa. Al√©m do mais, tenho de ter cuidado com os couros da minha ‚Äúconvidada‚ÄĚ. Principalmente com as botas, n√£o v√° a ninfeta dedicar-se a dar com os bicos pontiagudos nos joelhos do meu amor. Se a Lilicas resolver pontapear alguma coisa, pela frente ter√° apenas o vazio.
Devia ir lavar as costas ao meu anjo e fazer-lhe uma massagem. No mínimo, para ele relaxar do cansaço de hoje e ver até que ponto a hérnia discal não ficou dorida, depois de um dia inteiro de jipe com uma máquina fotográfica ao ombro, que, para o seu corpo lindo e franzino, pesa toneladas. E nem me quero relembrar da recorrente palidez de Gabriel...Se Deus quiser, uma palidez não é mortal para ninguém. Muito menos o será para o meu anjo. Não foi em vão que foi concebido no coro de uma igreja, com tantos santos e santas a protegê-lo. No fundo, no fundo, do que Gabriel há-de padecer é da doença da eternidade, porque os anjos nunca morrem. Contudo, com estes dois emplastros acampados cá em casa, não tenho grande tempo para mimos a quem de mimos tanto precisa.
Nem sei por que ofereci guarida a um vagabundo seboso e a uma ninfomaníaca reles só porque o homem foi meu professor, embora a minha irmã Clara conteste isso a pés juntos. Para ela, a criatura não passa de um embusteiro. A sobrinha neta do sujeito, para a Clara, é igualmente outra história mal contada, com fortes probabilidades de dar ainda muitas dores de cabeça a demasiada gente.
Por agora, tenho de ir à cozinha ver o andamento das batatas recheadas. E, com tanto diz que diz sobre elas, mais sobre os papéis onde está escrita a receita, nem informei o leitor como se preparam:
Para sete pessoas:
S√£o necess√°rias 7 batatas grandes, com pele, a que se tira o miolo (recomenda-se, para o efeito, um berbequim)
100g de cebola picada
200 gramas de carne de vaca ( ou boi) picada juntamente com um
chouriço médio;
50 gramas de azeitonas pretas descaroçadas;
1 colher de ch√° de sa;.
2 colheres de sopa de vinho branco;
1 ramo de salsa;
1 dente de alho;
3 colheres de sopa de azeite;
Um  pouco de leite;
Um pouco de farinha;
2 gemas de ovo;
7 folhinhas grandes de hortel√£;
Pimenta qb;
14 palitos;
Azeite para deitar sobre as batatas;

Para acompanhamento pode servir-se uma infinidade de saladas, esparregado de brócolos, de espinafres etc.

Corta-se, em cada uma das batatas, uma calote de tamanho médio, e a seguir retira-se uma boa parte do miolo com um berbequim. Reserva-se dentro de água para não oxidarem (já agora, aproveita-se o miolo para fazer sopa…)
Para um tacho, deita-se a cebola picada e aloura-se com o azeite sem deixar queimar muito. Entretanto, junta-se o sal, o picado, a que se adiciona, depois de ferver um pouco, o vinho, o alho picado, a salsa, igualmente picada e pimenta (ou malagueta, eu prefiro malagueta…) a gosto.
Deixa-se refogar durante meia hora em lume brando e depois retira-se do lume, até arrefecer um pouco.
Quando o refogado estiver suficientemente frio para se lhe meter as mãos, começa-se por se lhe adicionar as azeitonas, o leite, a seguir a farinha e por fim as gemas de ovo. Mexe-se muito bem.
Introduz-se, de seguida, o preparado dentro das batatas e, no buraco, a tapá-lo o mais possível, coloca-se uma folha de hortelã, recolocando em seguida cada uma das calotes nas respectivas batatas.
Prende-se, depois, cada calote com dois palitos, e coloca-se tudo numa assadeira, depois de se ter deitado um pouco de sal e um bocado de azeite por cima das batatas, ficando no forno a 220 graus por cerca de uma hora, com uma viragem a meio da assadura.
E pronto! Lá se acabou o mistério das batatas recheadas, agora que a escrevi para o mundo inteiro!
A mam√£ aconselha o leitor a n√£o confiar muito na receita. Precisar√°, sem d√ļvida, de ser testada, uma vez que tem boas raz√Ķes para desconfiar que acabo de a inventar‚Ķ
Pelo aspeto, as batatas parecem-me boas, o refogado de br√≥colos est√° verdinho e com bom ar. N√£o h√° raz√Ķes para me preocupar, embora a mulherzinha, que trouxe de casa do C√©sar para me ajudar nas lides desta, √†s vezes cometa pequenos deslizes. Um dia, em vez de ado√ßar a salada de frutas com a√ß√ļcar, p√īs-lhe umas duas ou tr√™s colheres de bicarbonato de s√≥dio e depois era ver a espuma escorrer pela mesa de jantar fora √† primeira mexedela. J√° para n√£o falar quando, durante as nossas f√©rias, a criatura mete as camisas preferidas do meu marido na m√°quina de lavar roupa enquanto esta ainda est√° h√ļmida e depois vou encontr√°-las cheias de ferrugem. Parece que faz de prop√≥sito. Mas como Gabriel n√£o a quis despedir, vi-me for√ßada a traz√™-la como interna, s√≥ para n√£o desagradar ao meu marido. Deve ter muita considera√ß√£o por ela, e n√£o deve ser por causa de segredos dele que a trouxe a tiracolo como a m√°quina das fotos. Embora, depois de anos e anos a mudar-lhe a roupa da cama e a fazer-lhe a lida da casa, quando ele era um rapaz de outra dimens√£o, acredito que n√£o haja podres na vida do meu marido que ela desconhe√ßa.

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« Responder #52 em: Setembro 05, 2022, 13:16:26 »

Berbequim nas batatas n√£o me convence... Mas gostei do que li!
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #53 em: Setembro 05, 2022, 19:03:33 »

Os livros aceitam tudo Goreti Dias, até berbequins para esburacar batas. Agora é Sara quem vai dizer de sua justiça...

Sara
O Gabriel hoje está demorado no banho. Deve ter-se cansado muito com a viagem. Ou então continua à espera das minhas mãos para lhe fazerem a massagem habitual, que, não raras vezes, nos leva ao meu cenário preferido, o semáforo… Depois, fazemos amor como dois eternos apaixonados, e eu experimento uma e outra vez a sensação de querer morrer nos seus braços. Nisso não sou diferente da Clara, a mana e a rapariga precedente nesta aventura literária, que se tem vindo a repetir em diversos livros graças ao talento da mamã. Livro ridicularizado sim, com todas as letras, mas nem por isso desaproveitado por terceiros demasiado bem colocados nos meandros da literatura, onde velhos livros, mexidos e remexidos, se transformam em verdadeiras omeletas de papel.
O velho professor j√° desceu do quarto dos fundos, depois de, finalmente, ter tirado a sebosa gabardina. Neste meio tempo vou l√° acima - Deus me perdoe a coscuvilhice - vasculhar os segredos que o homem tem naquele farrapo do tempo das Ordena√ß√Ķes Afonsinas. A treta do banho n√£o sei de qu√™ para o tornar invulner√°vel a todos os perigos nunca me convenceu. A Lilicas, onde eu disse ‚Äún√£o sei qu√™‚ÄĚ, diria prontos, ou prontes, o C√©sar remataria sem d√ļvida com o n√£o sei qu√™ n√£o sei que mais. Mas, no meio de tudo, o velho √© o mesmo porco de sempre.
O trapo está dentro do guarda-roupa, ao fundo, engelhado, e, por azar ou descuido da velha que está lá em baixo na cozinha a preparar as batatas, pressinto um rato num dos bolsos, onde o homem, se não guardou um resto de queijo, no mínimo deve ter esquecido um pedaço de broa, já mais duro do que chifres. Ouço um roer intenso vindo do fundo do armário…Como tenho bastante nojo a estes animais, o melhor é deixar a gabardina em paz. Que se danem os segredos do velhote, agora à mercê de um rato desrespeitador de coisas alheias, e que, se a broa, ou mesmo queijo, não for suficiente para lhe saciar o apetite, não deixará de se deliciar com a gordura do pano na mais completa indiferença pelos banhos indianos que um mágico do oriente tenha dado à gabardina.
Acho melhor ir ver se Gabriel n√£o precisar√° de alguma coisa.
O meu amor continua esmerado na higiene pessoal e tão arrumado que dá gosto. Nem um pêlo ficou na banheira, o vidro já está corrido. Já só tem a toalha vermelha de riscas enrolada à cintura.
Vê-lo assim, com aquele peito olímpico à mostra, praticamente sem penugem, traz-me à ideia o meu querido semáforo, que, a ser hoje ligado, terá de ser bastante tarde, quando o velho e a neta já ressonarem como dois comboios a vapor nos aposentos das traseiras, os que dão para o rio. Reservei-lhos só para não me incomodarem com o barulho dos roncos durante a noite.
A camisa e a roupa interior de Gabriel j√° dormem no cesto da roupa suja, juntamente com as pe√ļgas. Os mocassins est√£o √† janela, a recuperar do odor de um dia inteiro √† procura de fotografias para o livro de um antiqu√°rio com ar suspeito.
O homem, o antiquário, com tantos carros topo de gama, parece um ladrãozeco barato e um chulo dos anos setenta. Tanto quanto me dizem as minhas antenas bíblicas, é o namorado da Lilicas, a mesma que há pouco estava lá em baixo de turbante vermelho na cabeça e roupão igual a pintar as unhas de encarnado. A menos que já tenha enfiado de novo aqueles cabedais pretos e as botas esporadas de cavaleira sexual. D. Duarte, o Rei de Portugal já morto, devia gostar bastante desta mulher e do apreço que ela tem por montarias.
Eu e Gabriel descemos juntos, de m√£os dadas. Sou a mulher mais feliz do mundo. E se um dia voltar para o para√≠so, hei-de escrever um livro repleto desta felicidade. Incluirei mesmo o sem√°foro nas narra√ß√Ķes, s√≥ para demonstrar a todas as mulheres descendentes de Ad√£o e Eva que a Terra tamb√©m pode ser um aut√™ntico Jardim do √Čden. Basta s√≥ ter a sorte de encontrar um anjo do mesmo quilate de Gabriel, ouro puro. S√≥ o raio da h√©rnia discal bem como a sua palidez me preocupam. E, em vez de dar como bons os diagn√≥sticos surrealistas do velho sebento, o melhor √© prometer um anjo de cera do tamanho e peso do Gabriel a Nossa Senhora de F√°tima. Ela, sim, tem todas as influ√™ncias junto de Deus. At√© porque o meu amor recusa-se a ser tratado por m√©dicos de carne e osso como eu, e isso leva-me mesmo a acreditar ainda mais que, em vez de estar casada com um homem, tenha sido mesmo um verdadeiro anjo a desposar-me. S√≥ o sexo me confunde um pouco. Desde que me conhe√ßo, sempre ouvi dizer que os anjos n√£o t√™m sexo, e, logo, nunca poder√£o, nem fazer chichi e, muito menos, amor.
J√° agora, antes de mais algu√©m se adiantar a quer saber coisas sobre a inf√Ęncia do Menino Jesus, porque n√£o socorrer-me da biografia de Santo Ant√≥nio de Lisboa, ou de P√°dua, como os italianos querem, que tantas vezes Lhe pegou ao colo, como rezam os seus milagres?! Farei isso mal tenha tempo. Tudo isto porque, quando penso em Gabriel, agora de m√£o dada comigo, penso tamb√©m em Jesus e n√£o consigo evitar compara√ß√Ķes entre um e outro: ambos s√£o criaturas divinas, cada um √† sua maneira. Um com mais apet√™ncia para o amor de cama, e o outro louvando at√© ao infinito o amor de Deus, Pai de todos n√≥s.
A mamã diz-me para parar com o misticismo e pensar no próximo jantar, ainda sem data. Nessa altura terei de usar uma mesa bastante maior para servir de novo o prato das batatas recheadas. Diz-me ainda que, para fazer o repasto, terei de convidar o mestre inglês Jamie Olivier. Ela, a mamã, confidenciou-me o seguinte:
- Como muitas cabeças vão rolar, ao menos que embarquem para o outro mundo com a barriga cheia…
- Est√° bem ‚ĒÄ respondo ‚ĒÄ Ser√° uma forma de satisfazer a √ļltima vontade de condenados √† morte. Parece, pelo ror de vezes que falaram nas minhas batatas recheadas no livro do meio, que os meus pr√≥ximos convidados ser√£o mesmo fan√°ticos delas. Antes de algu√©m lhes espetar nas n√°degas a letal inje√ß√£o, h√£o-de empanturrar-se com elas. Talvez com um toque de modernidade dado pelo mestre Olivier. A mam√£, quando o convidar, vai falar-lhe da suposi√ß√£o quanto √† autoria da receita, atribu√≠da, segundo algumas vozes de peso no mundo da criptografia, a Maria Madalena. Pelos vistos tamb√©m tenho de convidar Mel Gibson, que ter√° de se fazer acompanhar por um dicion√°rio de aramaico antigo a fim de facilitar a vida de todas as personagens deste romance.
Só espero, dada a minha profissão de médica, que não me convidem para carrasca na altura de começar a fazer sangue.

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« Responder #54 em: Setembro 12, 2022, 17:52:46 »

Mas o rapaz tem sem√°foro de que cor?
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« Responder #55 em: Setembro 17, 2022, 13:25:05 »

Sem Olivier, pode ser?
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« Responder #56 em: Setembro 25, 2022, 19:05:55 »

N√£o, caso encerrado, Goreti!

‚Äú‚Ķ√Č pelas m√£os que se conquista o c√©u.‚ÄĚ



¬Ī


Gabriel

Estamos finalmente √† mesa, depois de a Sarinha me ter apresentado quem ficou hospedado neste solar oitocentista gra√ßas √† bondade dela. √Č t√£o diferente da Clara, que at√© um fato Pr√≠ncipe de Gales deitou na sepultura do C√©sar... A minha mulher n√£o pode ver um pobre esfarrapado. Se ele estiver com frio, vai sempre ao meu arm√°rio ver se h√° por l√° alguma coisa que eu n√£o vista para lhe dar. Aconteceu isso com certeza com o professor, por causa da gabardina sebenta, que, felizmente, n√£o tem vestida. Algu√©m generoso, um s√©culo antes de Cristo, lha deve ter dado julgando-o um pedinte.
Bom, mas ficou decidido com a mam√£ que todas as personagens iriam fingir n√£o se conhecer l√° da casa de C√©sar, onde Clara e Lilicas se empanturraram de sumo. enquanto o professor admirava a colec√ß√£o de Jorge Lu√≠s Borges a dormir na prateleira, ainda com o velho cheiro a amon√≠aco de h√° anos quando o gato franc√™s lhe urinou em cima. Assim, ningu√©m me conhecia quando a minha querida mulher fez as apresenta√ß√Ķes, e Lilicas, em voz de ventr√≠loquo, me disse ao ouvido que se eu n√£o a amasse morria na primeira oportunidade. Depois de se ter esfor√ßado a pensar que eu seria um velho barrigudo, qui√ß√° perverso como a minha profiss√£o de fot√≥grafo eventualmente habituado a bizarrias poderia fazer supor, fingiu muito bem.
Gra√ßas a Deus a Sarinha, habituada aos ass√©dios das outras mulheres sobre mim, disp√īs estrategicamente todas as personagens √† mesa. Se eu ficasse ao lado da Lilicas, ou mesmo √† sua frente, n√£o sei se n√£o haveria jogos rasteiros durante o jantar. A rapariga √© mesmo muito assanhada.
Como entrada, a Sara mandou assar no fog√£o a lenha umas espigas de milho cultivadas na herdade. Est√£o √† nossa frente, sobre uma travessa de barro redonda pintada com diversos motivos regionais. S√£o sete as espigas, douradas e apetitosas. Est√£o √† espera de serem comidas com manteiga amolecida no recipiente do fondu, em que sete pinc√©is √†s cores aguardam o toque das nossas m√£os para depois barrarmos este manjar. Eu escolhi o pincel de cabo vermelho, e, pela primeira vez em frente a Sarinha, as m√£os da Lilicas tocaram as minhas com alguma provoca√ß√£o. Eu queria o pincel encarnado, mas ela adiantou-se acabando por levar a melhor. Depois, em homenagem √† aura lil√°s da minha querida mulher, fiquei com o roxo. Na nossa mesa nunca h√° outros farin√°ceos sen√£o as espigas. N√£o comemos p√£o nem broa. A Sarita diz ter bastado o tempo em que eu era C√©sar e me empanturrava com o miolo, enquanto a Clara, ela pr√≥pria, comia as c√īdeas. Al√©m disso Sarinha faz mais ou menos uma dieta para n√£o engrossar a silhueta, e o √ļnico estrago a que se d√° ao luxo, de vez em quando, s√£o as espigas de milho assadas. √Č nesta altura que Lilicas se tamb√©m refere √† linha, enquanto intimamente chama sardanisca a Sarita.
A Sarinha acabou de ordenar √† velha empregada do C√©sar para trazer a travessa das batatas recheadas, bem como o esparregado de br√≥colos. E, como a velhota lhe pediu para ir ver a bisneta que teve um beb√©, dispensou-a at√© amanh√£ de manh√£. Servir a sobremesa e o caf√© ir√° ficar por conta dos anfitri√Ķes.
O professor e a sobrinha-neta, depois de se lambuzarem com elas, dizem que as espigas estavam deliciosas e a Sarinha elogia as batatas, o prato a seguir. Isso faz logo crescer água na boca dos dois, embora a rapariga, em vez dos tubérculos recheados, preferisse comer-me a mim. Confesso que também já estou um bocado farto desta receita, quase tanto como do bendito semáforo. Tenho de a gramar sempre que convido algum dos meus amigos ministros para jantar. Sobretudo por causa das queques mulheres deles, descaradas o suficiente para pedirem à Sarinha a receita em latim.
Ela serve toda a gente, e, mal desejamos uns aos outros bom apetite, o professor, esfomeado, leva o primeiro peda√ßo de batata √† boca, quase em simult√Ęneo com a azougada sobrinha neta e com o meu amor.
De repente, vejo os tr√™s ca√≠dos para tr√°s na cadeira, inanimados, ficando como frangos depenados, de pesco√ßo inclinado, e como sacos de batatas vertendo o conte√ļdo, enquanto a minha imagina√ß√£o desce √† bruma da hist√≥ria ‚ÄúA Branca de Neve‚ÄĚ, mas desta vez em triplicado. S√≥ espero que o velho, ao menos, n√£o julgue, nem mesmo hipnotizado, que lhe vou dar um beijo despertador, como se eu fosse o pr√≠ncipe do conto. Se tiver de acordar algu√©m de um sono perverso, como me parece este, sejam ao menos a Sarinha e a Lilicas.
Mas, por agora, não sei o que fazer. Apetece-me, tal como ao meu irmão César, chamar pela minha mãe e encostar a cabeça no colo dela. Além de que não tenho mais ninguém em casa a quem recorrer para me dar um conselho.
De repente, vejo o velho a estremecer na cadeira. Parece que vai recobrar do estertor de há pouco. Mas, ao invés de acordar com um comportamento idêntico ao anterior, como tinha antes do jantar, o homem abana a cabeça de um lado para o outro, como se se debatesse com uma grande confusão cerebral.
Come√ßo a raciocinar mais friamente. Julgo estar de facto na minha casa com a Branca de Neve em triplicado. Sem sombra de d√ļvida, h√° aqui um caso de envenenamento, em que, em vez de ma√ß√£s dadas por uma bruxa desejosa de ser a mulher mais bela do mundo, foram usadas batatas recheadas, e n√£o sei qual √© o intuito. Interrogo-me sobre o veneno e penso se n√£o devia ir dar um beijo na boca a cada uma das mortas-vivas aqui √† mesa, de goela esticada, onde muito possivelmente o peda√ßo da batata se alojou. Mas, tendo j√° um homem confuso √† mesa, se as duas acordassem no mesmo estado, ficaria com um problema acrescido.
Que raio de tóxico terá sido utilizado nos tubérculos?! Sim, porque nenhum dos sinistrados tinha ainda comido mais fosse o que fosse, para além das espigas!
Lembro-me imediatamente da velhota bisav√≥ vinda de casa de C√©sar, que um dia p√īs bicarbonato na salada de frutas. Como a receita leva leite, ter√° ela confundido o frasco do amaciador de camisas com o lactic√≠nio? Mas, que diabo! Ela est√° a ficar senil, mas nem tanto!... Espera l√°!... A menos que tenha sido a mam√£ a autora do prod√≠gio‚ĶRecentemente esteve no Brasil, e foi bem capaz de ter ido √† Amaz√≥nia buscar uns raminhos de Jurema, uma planta alucinog√©nia que induz nas pessoas tantas personalidades quantas forem precisas. Vou perguntar-lhe.
Responde-me afirmativamente e, para já, aconselha-me a deixar falar o tonto do professor, enquanto disfarça uma pequena gargalhada.
O homem, se, por um lado, está aflito, por outro parece-me radiante, e o lado da aflição pede-lhe para ir urgentemente ao quarto dos fundos buscar a gabardina ao armário.
Quando regressa j√° tem de novo o trapo vestido, que lhe real√ßa o velho ar de figo seco. Leva uma das m√£os a um local rec√īndito da gabardina e lan√ßa um grito de desespero:
Professore ‚Äď Roubaram-me os c√≥digos, valha-me Jesus Cristo! Estou perdido! Nunca mais conseguirei desvendar a criptografia dos escritos antigos, nem os do Mar Morto, nem os do Mar Vivo, nem o raio que parta o meu azar!.. N√£o! Espera l√°!... Est√° aqui um rasg√£o do tamanho de uma cratera! Aqui h√° ratos, de certeza, e, al√©m do mais, devem andar tremendamente esfomeados! S√≥ podem ter sido os ratos! E deixei-me eu hospedar nesta casa! Onde est√° a Sara, meu Deus?! Porque n√£o alimentou ela convenientemente os roedores?!
Agora est√° sentado ao fundo da escadaria.
Explico ao homem quanto se passou com as batatas, enquanto ele ampara a cabeça do lado esquerdo, como se quisesse saltar para outra vida que conhecesse melhor do que outra vida qualquer onde já tivesse andado a fazer tropelias por conta própria ou ao serviço de terceiros.
Professor: - O que estou eu aqui a fazer? Onde est√° a minha mulher?
- Mas, professor…
Professor: - N√£o me chame professor pela sua rica sa√ļde! N√£o me irrite ainda mais do que estou!
- Est√° bem. Ent√£o como hei-de chamar-lhe? Alquimista?
Professor: - De mal a pior! Alquimista nunca! Se tem de me chamar alguma coisa relacionada com profiss√Ķes ent√£o nesse caso chame-me agricultor!
- Agricultor, como assim?
Agricultor: - Se quer saber o que se tem vindo a passar, de há cinco anos a esta parte, é o seguinte: fui raptado de um livro para, além de um boneco com um nariz maior do que o do Pinóquio à conta de tanta mentira, me transformarem num professor tonto! Já para não falar dos abusos cometidos com outras pessoas lá do romance de onde vim! Até nem se importaram que me transformasse eventualmente num assassino!

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Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Ol√°! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Ol√° para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Ol√° para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
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Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Fevereiro 22, 2021, 16:41:57
Boa tarde a todos.
Fevereiro 18, 2021, 20:52:07
Boa noite a todos.
Fevereiro 17, 2021, 19:09:25
Boa quarta para todos.
Fevereiro 16, 2021, 19:10:20
Boa noite a todos os presentes.
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