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Autor Tópico: A S√°tira do Livro Roubado  (Lida 8268 vezes)
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Nação Valente
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outono


« Responder #30 em: Maio 26, 2022, 21:35:58 »

Cada cabeça sua sentença
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #31 em: Maio 28, 2022, 17:17:19 »

Assim na terra como no céu, Nação Valente




Lilicas

O que tem de ser tem muita for√ßa, e ainda mais se n√£o passarmos de pessoas de papel como n√≥s aqui no livro. Por isso, l√° terei de continuar com a saga dos tr√™s em um, depois de, a partir de uma costela de um Ad√£o contempor√Ęneo, me terem transformado numa criatura triplicada e a defender interesses divergentes, como se eu fosse uma espia ao servi√ßo do amigo e do inimigo simultaneamente.
Como irão ver, não passo de uma agente neutra. Ou, para ser mais precisa, de uma figura decorativa, na maior parte das vezes como se fosse uma ridícula cadela de louça com sete mamas, colocada à entrada de uma casa de gente parola.
Contudo, por agora, compete-me dizer √† mana que sim senhor, que est√° tudo muito bem quanto √†s cobras e lagartos que terei de largar sobre C√©sar. N√£o seria bem desta maneira se a mam√£ n√£o concordasse com a Clara. Mas, assim, n√£o posso refutar a ingrata miss√£o de lan√ßar o meu querido Gabriel √†s feras, quando o que me apetecia era irromper por ele com a voragem do meu amor. Queria permitir-lhe soltar todos os palavr√Ķes do dicion√°rio, que tanto gozo lhe d√£o, enquanto a mais completa felicidade tomasse conta de mim, no auge dos meus prazeres de diabinho indom√°vel.
A minha criadora acaba de me conceder esse desejo, como se ela fosse um novo Aladino de saias, embora eu n√£o tivesse de me esfregar nem rebolar em nenhuma l√Ęmpada. √Č o que faz n√£o cedermos logo √† primeira. H√° sempre uma margem de manobra negocial. Isso pode trazer-nos grandes benef√≠cios.
Vamos à história:
Um dia, não sei ainda quando, neste romance são muitas mulheres a disputar o meu anjo, hei de entrosar-me de novo com César na arte do coito. Mas, desta vez, sem ninguém ao lado fingindo-se a dormir, como a Clara, sempre reticente ao léxico de Gabriel, enquanto ele vai derramando dentro de cada mulher os seus sagrados fluidos, como se fosse Deus a fecundar a Humanidade inteira.
Por outro lado, nem pensar em armar, desde já, confusão, sem antes implementar com o ex-inspector a acção curativa do seu mal. Tenho de relegar para o passado a história das revistas pornográficas, a que sistematicamente ele recorre, e ver se algo acontece com a sua virilidade, presentemente em período de recolhimento.
E Gabriel sem chegar da casa onde foi tirar fotografias ao piano, para convencer a Sara de que foi mesmo a Coimbra, quando, toda a gente sabe, o antiqu√°rio este m√™s n√£o lhe pagou o ordenado, por ter investido todo o dinheiro numa nova sociedade em que Gabriel tem tamb√©m uma quota. Por isso o rapaz foi ao velho Banco Ambrosiano abastecer-se de euros. A Sarita, apesar de nos ter convidado, a mim e ao meu tio-av√ī, para ficarmos na casa dela, n√£o passa de uma forreta. N√£o me admirava nada se nos desse de jantar broa com azeitonas e √°gua-p√©. Aquela palidez de Gabriel deve ser fome, e o facto de a Sara ser uma boa cozinheira, com especial aptid√£o para fazer batatas recheadas, deve ser uma treta t√£o monumental como o Coliseu de Roma. Uma ru√≠na em p√©, √© o que a Sarita √©. Se n√£o fosse a empregada, que at√© da espinha de uma solha consegue fazer uma deliciosa sopa de peixe, o meu amor j√° tinha morrido de inani√ß√£o. Quando Gabriel anda sem fundos, nem sequer lhe d√° dinheiro para ele ir comprar uma pizza , ou um hamb√ļrguer, enquanto ela se perde l√° pelo hospital a emprestar o ombro aos antigos apaixonados para eles carpirem as m√°goas. Depois, admire-se, leitor, que Gabriel recorra aos bancos privados para se autofinanciar!
A mam√£ est√° a fazer-me sinais para acabar com a conversa sobre a mana velha. Diz-me que estamos todos a ser personagens demasiado atrevidas e a pretenderem fazer dele gato-sapato. Acusa-nos de andarmos sem regras, incoerentes e a dizer o que nos d√° na gana. A ponto de a transformarmos numa escritora frouxa, tal como fizeram os outros senhores, que at√© o nome dela, e parte dos n√ļmeros do seu bilhete de identidade encriptografaram no romance do meio. Julgavam, tontos, que ela n√£o os descobria. Sobretudo com a minha ajuda, vinda das bandas do dem√≥nio e mancomunada com ele para fazer a vida das pessoas num inferno.
Bom, mas, sem perda de tempo, como esta casa est√° cheia de gente - j√° n√£o sei se a casa √© de C√©sar ou de Sarita, porque o suum cuique, aqui, num romance sem direito, nem esquerdo, nem passado, nem presente, nem meio, nem principio definidos, n√£o tem import√Ęncia nenhuma ‚Äď vou tratar de procurar um s√≠tio sossegado para despir as minhas cal√ßas de cabedal negro e lan√ßar-me, toda sedas e veludos, de encontro ao peito do meu anjo, que, dizem as minhas antenas de captar manifesta√ß√Ķes sobrenaturais, est√° para a√≠ invis√≠vel e a descodificar o ambiente adensado por estas paragens.
O melhor √© ambos utilizarmos o espa√ßoso jipe dele. Como os dois temos habilidade de contorcionistas, n√£o podendo usar o est√ļdio, por causa da parafern√°lia de instrumentos fotogr√°ficos, decidimo-nos pela viatura. C√©sar poder√°, at√©, com o √ļltimo modelo da m√°quina que traz sempre a tiracolo, tirar uma foto √† excel√™ncia do acto b√≠blico id√™ntico, ao descrito no primeiro romance, afinal a raz√£o de a minha autora chegar agora √† ribalta.
Gabriel est√° bem perto da porta de casa e j√° cheirou o meu perfume feminino. √Č uma das coisas que ele prefere, relativamente √† arrapazada Sarita. A Sarita, sendo mais parecida com a Clara, s√≥ gosta de usar cheiros de homem. Sou mesmo f√™mea, e das boas. As outras duas s√£o uma reles imita√ß√£o. Donde se prova que, sendo uma terrena e outra b√≠blica, as duas, a Sarinha e a Clara, t√™m uma ves√≠cula perigosa. Frascos de cheiro. Muito mais do que comigo, √© preciso redobrar-se de aten√ß√£o com elas.
E, é claro, já estou junto do meu amor, no jipe, sentada sobre a roda do volante, depois de nos termos afastado lá mais para o fundo, para a beira do rio, onde Santo António já deve ter acabado a pregação. Nenhum de nós faz ideia qual a moral do sermão de hoje, se o bondoso santo não tiver enveredado pelo tema da sátira de livros saídos do caixote de lixo de uma editora com visão de raio x acerca de lucros.
O local est√° deserto, e Gabriel j√° nem se lembra da desculpa que tem de dar √† mulher por causa da aus√™ncia de um dia inteiro. Pensa apenas numa qualquer posi√ß√£o do Kama Sutra, adequada ao coito entre n√≥s, daqui a pouco. Segredo-lhe para dentro do bolso da camisa √†s risquinhas vermelhas e brancas, ali sobre o peito, que, se ele n√£o me amar ao vivo e n√£o em faz-de-conta como da outra vez, com a Clara ao lado fingindo-se adormecida, sou capaz at√© de lhe arrancar o cora√ß√£o aos beijos, ou √† dentada, enquanto o sinto a bater desordenadamente sob os l√°bios e boca, de um vermelho carnudo que o desejo torna ainda mais vivo. Oh! N√£o sei porque ter√£o os terr√°queos inventados os bot√Ķes e o fecho-ecler. Mas n√£o h√° nada que resista aos dentes de uma mulher com cio permanente de gata!
A minha √ļnica preocupa√ß√£o √© que Gabriel, depois, n√£o entre em casa com umas cal√ßas estropiadas por uma Lilicas doida de excita√ß√£o e a desbravar os caminhos do √™xtase com a voracidade de uma m√°quina de terraplanagem.
A Sarita costuma dizer que quer morrer nos braços do seu amor. Por sinal, o amor dela é também o meu amor, e a Clara diz mais ou menos a mesma coisa, livre daquele pedaço de civilização a que chama cuecas. Já eu não quero morrer coisa nenhuma, quando tenho algo tão bom para viver. Pontos de vista de raparigas pudicas, que não comem nem deixam comer…
O meu amor auxilia-me a libertar-me dos cabedais. S√£o a minha marca de prest√≠gio no mundo inteiro. E h√° horas em que os atilhos s√£o uma perversa inven√ß√£o da Humanidade. Dev√≠amos andar nus. Ou, ent√£o, ir para um pa√≠s tropical, onde uma simples parra fosse a √ļnica vestimenta permitida, tanto a homens como mulheres, e s√≥ para manter a tradi√ß√£o b√≠blica. Os nossos l√°bios enfrentam-se avidamente neste frenesim, quando as m√£os s√£o semelhantes a dedos de pianista dedilhando teclas. A ida de Gabriel √† casa de uma amiga da mam√£ fazer a fotografia √† rel√≠quia inspirou-me. A minha l√≠ngua hoje est√° solta como nunca. Sinto-me o c√ļmulo da met√°fora. O prazer connosco √© sempre ao rubro. A boca do meu anjo provoca em mim aut√™nticos del√≠rios de poesia de alcova.
De repente, um lampejo de intelig√™ncia traz-me √† ideia as leis da f√≠sica, e fico a saber a raz√£o pela qual C√©sar tem agora os l√°bios grossos, bem diferentes das linhas fininhas que a mam√£ lhes deu no romance inicial, quando lhe desenhou o perfil. O calor dilata os corpos e, de tanto beijar e ser beijado, a boca do meu anjo inchou naturalmente, sem botofe ou coisa que o valha, nem opera√ß√Ķes pl√°sticas, nem nada. Ou ent√£o foi por simpatia com as etnias de Angola, para onde foi ainda beb√©, ou com as de Mo√ßambique, como se diz noutro lado da farsa que √© a nossa vida de personagens de romance.
N√£o interessa, para o caso.
Por agora, depois de as descalçar quando tive de despir o couro das calças, vou enfiar de novo as botas esporadas. Dão um ar mais velhaco à cena. Além de que não posso esquecer a outra missão. Tenho de a cumprir no decorrer desta história. Terei de usar o chicote sádico-erótico com que tentarei a cura de um homem profundamente desgostoso por causa do seu comportamento murcho na cama.
Ah!, mas vou deixar-me de tantas lucubra√ß√Ķes!... S√£o poucos os instantes com o meu amor‚Ķ Ele j√° come√ßou a desfolhar as p√°ginas do dicion√°rio e a dizer aqueles palavr√Ķes excitantes, que lhe fazem bem √† alma e lhe apaziguam os sentidos... Querido Gabriel... Nunca conheci ningu√©m como tu... Nem no para√≠so onde fui serpente enrolada em macieira e veneno de ma√ß√£-de-ad√£o alojada simbolicamente no pesco√ßo do meu amor, que agora mordisco... Adoro cavalgar como √°gua celeste no teu corpo de Ad√≥nis, com a roda do volante atr√°s de mim como se tivesse de fazer todos os caminhos da vida ao contr√°rio at√© poder chegar a ti!... Oh!... Quem me dera ter todo o tempo do mundo e nunca mais sairia de dentro deste jipe, depois de um coito entre um anjo e uma pervertida, juntos na terra por Deus certamente com um qualquer prop√≥sito ainda desconhecido. Mas, no fim, na hora do apocalipse, tudo ser√° revelado‚Ķ E este ve√≠culo adquiriu para mim a dimens√£o de templo‚Ķ Sempre que possa, recolherei aqui para meditar nos segredos do amor‚ĶOh!...

Hoje o nosso encontro foi muito r√°pido. Teve de ser assim. O dom da invisibilidade de Gabriel desvanece-se logo, mal a sua carne entre em contacto com outra. Muito mais quando tem pela frente um braseiro como a minha pr√≥pria carne. Por isso teve que ser um coito rel√Ęmpago. Mas n√£o deixou de ser um ol√≠mpico e divinal coito enquanto durou. O bom acaba depressa. E eu n√£o poderia permitir que o meu anjo ficasse conotado, aos olhos de uma terriola inteira, como um mulherengo incorrig√≠vel e incapaz de resistir a uma burra de saias. Neste caso, de cal√ßas e casaco de cabedal. Quero que ele seja venerado por toda a natureza tal como eu o venero. Os peixes, quando deitarem a cabe√ßa de fora, como fazem com Santo Ant√≥nio para ouvir a palavra de Deus, ter√£o tamb√©m de o reverenciar, tal como as aves do c√©u, antes que uma gripe qualquer se abata sobre elas e lhes limpe o sarampo.
A mam√£ est√° outra vez a chamar-me a aten√ß√£o. Continuo a comportar-me como uma personagem rebelde, que entrou em cena para uma a√ß√£o completamente diferente deste meu papel de agora representado √† revelia dela. Como g√©mea da Clara j√° avinagrada com o meu anjo, a autora atribui-me a fun√ß√£o de vasculhar o passado, o presente e o futuro de Gabriel, descobrindo-lhe todos os podres. Mas eu continuo a achar que o meu amor, para al√©m de gostar desmesuradamente de sexo ‚Äď isso n√£o √© defeito nenhum, antes pelo contr√°rio‚Ķ - n√£o tem quaisquer malforma√ß√Ķes an√≠micas ou morais. Ele √© um ser mais do que perfeito, um verbo que uma mulher pode conjugar em todos os tempos e em todas as l√≠nguas. Gabriel tem uma voca√ß√£o universalista. Sobretudo na cama. Se algo de mal tenho a dizer √© sobre Clara. √Č uma idiota chapada, al√©rgica aos perfumes femininos, que, depois de se ter empanturrado com as c√īdeas do p√£o em casa de Gabriel, quando ele ainda se chamava C√©sar e tinha quarenta e cinco anos, anda a difam√°-lo e a desnudar-lhe a intimidade. Nem sequer tem respeito pelas sagradas imagens de Cristo crucificado da c√≥moda, no quarto onde, na maioria das vezes, t√™m lugar os grandes banquetes de C√©sar. E se anda por a√≠ tanta gente √† procura do c√°lice da √ļltima ceia e de outras rel√≠quias sagradas, o local mais prov√°vel onde tudo isso possa estar √©, sem sombra de d√ļvida, o quarto de Gabriel. Ou, ent√£o, √† vista de toda a gente, na mesa met√°lica da cozinha, na fruteira, disfar√ßado debaixo das peras e ma√ß√£s que ambos comiam depois da sopa feita pela mulher-a-dias √†s quintas-feiras.
Eu para aqui, respondona, a discutir com a mamã, e o Gabriel com um problema sério para resolver quando tiver de enfrentar a Sarita, já de novo aprumado e com o ar de anjo que o torna tão sublime!
J√° estou outra vez artilhada com o meu fato preto. Se fosse uma mulher comum, estar√≠amos agora os dois a trocar impress√Ķes, poucas, √© certo, devido √† timidez engendrada pela mam√£ para Gabriel, sobre o que se passou entre ambos. Mas comigo n√£o √© preciso nada disso. Antes de nos amarmos j√° eu conhecia a natureza e as sensa√ß√Ķes do meu amor. Toda eu sou de pr√©s. Dito de uma forma mais popular, antes de ser j√° era, como a pescada. Nem s√≥ a Sarita √© de outra dimens√£o. As minhas origens s√£o tamb√©m l√°. √Č da√≠ que conhe√ßo Gabriel, embora C√©sar, o barro onde ele foi esculpido, seja de um outro mundo e de uma mat√©ria bastante mais pesada do que o √©ter, onde personagens b√≠blicas como n√≥s os tr√™s nascemos.
A minha criadora, com cara de poucos amigos, ordena-me que, ou entro de uma vez por todas no trilho iniciado pela ciumenta Clara, ou ent√£o retira-me a palavra e concede-a a outra personagem. Independentemente de eu ficar ou n√£o prejudicada em n√ļmero de p√°ginas‚Ķ Chama-me malcriada, uma luciferina rapariga, para quem a paci√™ncia dela come√ßa a esgotar-se, e pergunta-me se eu gostava de continuar por aqui.
Respondo-lhe, obviamente, que sim. Quanto mais n√£o seja, por causa de Gabriel, porque, quanto ao meu tio-av√ī, de quem sou privilegiada motorista e por quem devia nutrir algum amor familiar, as coisas n√£o s√£o como deviam. Ele est√° farto de desdenhar, quer do meu nome, quer da minha certid√£o de nascimento. A ponto de dizer, √† boca pequena, que j√° me conheceu tr√™s registos. Mas, pelo meu anjo, sou capaz de tudo, e insisto com a autora para, pelo menos para j√°, n√£o me obrigar a uma investiga√ß√£o kafquiana sobre Gabriel. Para isso est√° c√° o ex-inspector, com quem ainda tenho de trocar umas impress√Ķes do g√©nero do sadomasoquismo por causa da compulsividade dele quanto √† pornografia. √Č para ver se se cura de um v√≠cio que √†s vezes o deixa seriamente envergonhado.
A mamã reconsidera e anui ao meu pedido, dado eu não ter tido ainda uma verdadeira oportunidade de interagir com o homem. A contrapartida é, por agora, dar a vez a outra pessoa.
Feito o acordo, tenho de verificar se Gabriel n√£o leva para casa os meus vest√≠gios, um cabelo com a raiz preta retinta, seguido de um louro burro ou de um ruivo mais inteligente. Ou outra coisa qualquer que um ADN mais preciso possa revelar √† ci√™ncia criminal. √Č no mundo do crime que o meu ‚Äúpecado‚ÄĚ com ele se insere, √† luz de olhos humanos excessivamente curtos. J√° para n√≥s os dois, coitar, sempre que as circunst√Ęncias o permitam e com quem nos apetecer, √©, simples e olimpicamente, uma maravilha.
Gabriel confere de novo se as fraldas da camisa estão no sítio, penteia o cabelo dourado e, fazendo-se mais engraçado do que já é, acaricia o beijado e rebeijado bolso da camisa. Vai levar os meus beijos para casa, diz ele…
Pergunto-lhe, a rir √† gargalhada, o que far√° com eles se a ‚Äúm√£ezinha‚ÄĚ Sarinha os descobrir, enfiados no bolso e a quererem deitar a cabe√ßa de fora como se fossem peixinhos atentos e semelhantes aos do querido Santo Ant√≥nio. S√£o demais estes ‚Äújaquinzinhos‚ÄĚ. Ainda bem que os livros n√£o t√™m cheiro. Ele responde-me, igualmente a rir, que seria talvez bom provocar a mulher com tais espectadores. Era para ver se, de uma vez por todas, ela deixava de querer coitar sob aquelas luzes intensas de sem√°foro, que ultimamente t√™m deixado os olhos do meu amor vulner√°veis. A ponto de o obrigarem a usar √≥culos de sol.
De repente olho para o meu pobre querido, lindo de morrer e, depois de se derreter, pela terceira vez hoje, no corpo de tr√™s mulheres diferentes, satisfeito como um nababo e cansado como um peregrino sexual, j√° sinto remorsos pela minha futura trai√ß√£o. Tudo por causa de uma g√©mea maluca e de muito mau gosto, j√° para n√£o falar na autora. Claramente, a mam√£ tomou as dores dos filhos mais velhos, a Clara e o C√©sar. N√£o era melhor a mana terr√°quea divertir-se com o Gabriel, como eu pr√≥pria, e deix√°-lo em paz? Irra que irm√£ rancorosa me haviam de arranjar! Eu bem a percebo. Ela queria era casar-se de v√©u e grinalda. Sobretudo, com flor de laranjeira a simbolizar uma virgindade h√° muito escoada ralo abaixo √†s m√£os de um homossexual, que, a muito custo e s√≥ para disfar√ßar, talvez at√© embriagado, conseguiu consumar o ato. Aberto o canal, agora desencadeou-se nele um mau tempo com a for√ßa de um tornado no epicentro. (N√£o sei se os tornados tamb√©m t√™m epicentro ou se, a centros com ‚Äúepis‚ÄĚ, s√≥ t√™m direito os tremores de terra‚Ķ ‚Äď aqui fica a ressalva, para n√£o passar ainda por mais burra‚Ķ)
A Clara j√° n√£o casou cedo. .....

continua

E é claro que quero muito que os meus leitores leiam também "O Estranho Fascínio da Internet"
« Última modificação: Maio 29, 2022, 19:35:57 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Nação Valente
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outono


« Responder #32 em: Junho 04, 2022, 21:28:18 »

Que venha a seguinte, com ou sem virgindade.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #33 em: Junho 05, 2022, 00:16:05 »

√Č para j√°....


A Clara já não casou cedo. Além do mais, não logrou com isso grandes prazeres, pudesse embora o Paulo ter sempre feito um bom teatro nas alturas cruciais:
‚Äď Oh! meu amor! Oh!, como me sinto o mais ditoso dos homens, quando os nossos fluidos se encontram na s√ļmula sagrada cria√ß√£o b√≠blica. Oh!, que luz e sedu√ß√£o irradiam do teu corpo, minha deusa do Olimpo, a mais maravilhosa das criaturas existentes entre o c√©u e a terra! Como sou feliz! Amo-te tanto! O nosso amor foi talhado no c√©u, a golpes de luar, com o aval de todas as estrelas e a assinatura do Sol, representando Deus, que, logo no nascimento, tra√ßou o nosso destino! Oh!...
Vá leitor, junte-se à minha à gargalhada, esbanjada com um prazer dos diabos, enquanto imagino a cara de delambida da minha irmã a revirar os olhos e a pensar que morreu no fim da peça, quando, afinal, não passou de uma atriz completamente enganada. E, além do mais, uma atriz de segunda categoria.
Aqui e agora, s√≥ porque Gabriel √© um inexperiente em arte dram√°tica, Clara quer despejar sobre ele todas as frustra√ß√Ķes, usando terceiros inocentes para descobrir com que cobertores o meu anjo se embrulhou na inf√Ęncia, no tempo das fraldas e do ranho, e com quantas mulheres se deitou? Haja santa paci√™ncia! L√° porque o rapaz, mesmo nos quarenta e cinco anos da literatura inicial, quando os dois se encontram pela primeira vez, possui em casa uma central telef√≥nica, onde as chamadas femininas fazem fila, n√£o √© caso para tanto! Mesmo tendo as raparigas de esperar para serem atendidas! √Č uma b√™n√ß√£o para qualquer mulher ir ao quarto de C√©sar e √† presen√ßa dos Cristos. E, por isso e mais alguma coisa, n√£o √© raz√£o para lhe fazerem uma devassa √† vida desde que nasceu. Sobretudo porque nunca ningu√©m sabe onde uma investiga√ß√£o de natureza t√£o s√≥rdida pode levar. Al√©m do mais, qual o meu interesse em desencantar uma tal woman in red para desencovar as mis√©rias antigas de C√©sar ,antes de nos encontrarmos neste cruzamento da vida? E, depois, que me importa se ele, na opini√£o da Carolina, √© ou n√£o o maior pervertido do planeta, qui√ß√° do sistema solar inteiro? Quero l√° saber do rasto dele, em que se incluem dois filhos e a ex-mulher, a Patr√≠cia! At√© por esta, h√° pouco, ter padecido de um tumor na cabe√ßa, e a quem, sinceramente, desejo as melhoras. Ela n√£o deve ir para casa do nosso Pai sen√£o na altura devida.
Falando do Pai, estou obviamente a falar de Deus, porque, quer queiramos quer n√£o, Ele ainda √© o Presidente do Universo. Como todos sabemos, uns melhor e outros pior, o Al√©m √© um enorme √≥rg√£o colegial, onde existem pelo menos tr√™s reparti√ß√Ķes importantes: o c√©u, o purgat√≥rio e o inferno. Porqu√™ sujeitar-me ent√£o a ir procurar pessoas das antigas rela√ß√Ķes de C√©sar, se a Clara, l√° no outro livro, j√° fez essa figura de parva, quando se apresentou √† ex Carolina, e ambas cortaram na casaca do meu anjo como quem est√° a esquartejar cad√°veres? N√£o basta o que fizeram os ‚Äúparodiantes‚ÄĚ, ao esfrangalharem o primeiro livro da mam√£ para ver qual a ponta por onde nos podiam agarrar? Al√©m disso julgam que vou a casa da leg√≠tima ex, a Patr√≠cia, fazer figura de ursa, macaquinha de circo, ou at√© de trapezista sem rede para me esborrachar no lajedo? Trapezista j√° fui uma vez. ‚ÄúTrapezista‚ÄĚ era uma das minhas muitas alcunhas do livro do meio, quando era motorista do meu tio-av√ī. E, sobretudo, n√£o se esque√ßam que o carro √© dele‚ĶPor tudo isto, nem pensar em semelhantes coisas! At√© porque n√£o me interessa conhecer as queixas de uma ex como outra qualquer, ressabiada por o meu amor escrever poemas nos guardanapos de papel, nas esplanadas, a todas as mulheres com quem se cruzava e com quem poderia divertir-se. N√£o preciso, nem quero, perguntar nada a ningu√©m... Sob pena de anular a minha reputa√ß√£o de mulher luciferina. Eu, como o infernal patr√£o, tenho conhecimento das coisas por vias n√£o convencionais. Para substituir o telefone tenho a telepatia, para me locomover uso o teletransporte e a invisibilidade, que, no mesmo instante do tempo terr√°queo, me colocam, a mim, criatura celestial, embora moradora nas catacumbas, em todos os locais do universo. O carro do velhote √© apenas um disfarce. E Deus nos livre de algu√©m saber que nem sequer a carta de condu√ß√£o tenho‚Ķ Como poderia uma Lilicas Cl√°udia, loura e burra, de acordo com o papel que me cumpre representar, aprender as curvas e contracurvas do C√≥digo da Estrada? Curvas, por curvas, bastam-me as minhas. Sou boa como milho quando, se tiver um parceiro √† altura como o meu querido Gabriel, vai tudo a direito. A ponto de p√īr um quarteir√£o inteiro a coitar por auto-sugest√£o.
Depois, se Gabriel ainda est√° aqui a meu lado, a ensaiar mentalmente o que h√°-de dizer √† Sara quando chegar a casa, a prop√≥sito da ‚Äúida‚ÄĚ a Coimbra, como poderei telefonar-lhe a dizer que eu, Lilicas (ou Clara) fui fazer exames m√©dicos, incluindo ao HIV, indo depois mostr√°-los ao consult√≥rio de uma doutora parecida com a querida mulher do meu anjo, com o mesmo ar arrapazado da Sarinha e, acima de tudo, com a mesma especialidade cl√≠nica dela? Se pudesse fazer aqui uma remiss√£o para o livro inicial veriam que, de facto, a Clara, um dia, foi ao m√©dico saber se tinha alguma doen√ßa ruim... Mas, como n√£o posso referir-me ao passado, nada mais acrescento no presente. Deixo apenas umas pequeninas retic√™ncias‚Ķ
Por aqui, por estas bandas, a l√≥gica √© a mais pura das batatas, as mesmas batatas de que, algures num outro livro, h√° uma receita com recheio, escrita no verso de pelo menos um manuscrito, datada, segundo alguns membros de um gangue, do tempo de Maria Madalena, a quem atribu√≠ram a autoria da receita (n√£o do manuscrito‚Ķ) metendo os autores, depois, os p√©s pelas m√£os quanto √† data√ß√£o do mesmo e da receita. Vieram, entretanto, com a desculpa de que n√£o podia ser, por causa de, nessa altura, os tub√©rculos n√£o serem conhecidos na Europa. Os tontos nem sequer equacionaram a hip√≥tese de as batatas serem uma das esp√©cies de semente que No√© guardou na grande arca aquando do dil√ļvio, e que, devido √† humidade, ganhou grelo, apressando-se ele a lan√ß√°-la √† terra mal parou de chover.
Depois, foi um segredo bem guardado…Nessa altura Noé, reforçando a inspiração de ter construído a arca, metendo dentro tudo o que lá meteu, entendeu o facto como um sinal de Deus. Deus não iria, ao menos dessa vez, levar por diante a ideia de um apocalipse regado a chuva. De outra forma, se não houvesse em breve terra firme e seca para lançar a batata grelada à terra, Deus antes a teria deixado apodrecer. Entretanto só as pessoas com forte ligação a Jesus comiam batatas, recheadas ou não, porque elas, depois do que acontecera na arca, tinham um poder sagrado. Potenciavam a capacidade de fazer milagres. Sobretudo em caldeiradas de peixe. Os peixes sempre foram um verdadeiro símbolo de Cristo, embora Jesus preferisse o pão, com ou sem manteiga.
N√£o devia dizer isto, mas eu e o meu tio-av√ī estamos enterrados nesta hist√≥ria at√© ao pesco√ßo. Ele √© um dos mentores do clube dos Recolectores Ambidestros de Venenos Vacinas e Ant√≠dotos, embora eu seja apenas uma esp√©cie de bobo da corte, para alguns um agente duplo, dado ter uma rela√ß√£o pr√≥ matrimonial com um membro de um gangue que o meu tio-av√ī e os comparsas querem derrotar.
Agora eu, Lilicas Cláudia, desço finalmente do Jipe onde fui ao céu com o meu anjo. Ambos causámos enorme surpresa em toda a legião dos serafins, anjos, querubins e santos, que, à revelia do Altíssimo e imitando a curiosidade dos terráqueos, não deixaram - vi muito bem - de espreitar para dentro da viatura, quando o meu amor exercitava a gramática da Escola César/Gabriel. Apesar de eu, desta vez, por o local ser um pouco exposto aos olhos do mundo, apenas ter lançado pequenos ais e uis em falsete, para não acordar os animaizinhos da terra uma vez que eles são todos dotados de ouvidos capazes de captar os mais ínfimos decibéis seja qual for a origem do barulho.
Gabriel j√° est√° vis√≠vel e bonito como sempre, dirigindo-se √† porta de casa. Vou ver se, indo por atalhos ou, mais concretamente, por teletransporte, consigo chegar antes dele, fingindo entretanto uma grande surpresa quando a Sarita no-lo apresentar, a mim e ao meu tio-av√ī.
A mamã diz-me que já está mais contente comigo. Indiretamente, é certo, mais lá fui tirando para fora as fraldas à vida de César, tal como ele há pouco tirou as da camisa. Os nossos propósitos são sempre os mesmos: coitar. Oh! e como nós ficamos felizes e olimpicamente bem coitados! Coito assim há só um…

Continua.

O recado é o do costume... ler o Estranho Fascínio da Internet
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outono


« Responder #34 em: Junho 12, 2022, 18:12:31 »

Coitados...
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #35 em: Junho 12, 2022, 18:46:51 »

√Č mesmo,,,,


‚ą©
César

V√™-se mesmo que estas duas, a Clara e a Lilicas, n√£o gostam de fazer nada! Preferem o jogo do empurra. S√£o est√ļpidas como as galinhas!
Pelo que estou a ver, ainda vou ter de ser eu a relembrar pecados velhos, quando a doce Clarinha queria morrer em mim e por mim. Mas, afinal de contas, ela n√£o queria sen√£o enviar-me para o maligno a toda a pressa. Mesmo antes de eu ter tempo de arranjar um confessor para lavar os meus pecados. Por vontade dela eu n√£o teria podido providenciar uma casa condigna para deixar sequer os meus Cristos a algu√©m de confian√ßa. Nem mesmo o do interior oco, que um dia foi o meu ve√≠culo para transportar uma boa pitada de droga numa das minhas viagens ao mundo do √≥pio. J√° nem sei se √†s minhas custas se a expensas da funda√ß√£o, que me pagava todas as despesas sem quaisquer problemas. Eu era o director‚ĶO desejo da Clara e da autora, depois de a maldita h√©rnia discal me ter poupado a coluna e a vida, era que deveria ser a est√ļpida hepatite, (ou era sida?!) a mandar-me para o al√©m, sem eu ter encetado negocia√ß√Ķes com o p√°roco da capela de S. Salvador do Mundo para colocar l√°, em imagens quintuplicadas, Cristo meu protector. Ele que viveu todo o tempo no meu quarto, quando o meu corpo se unia ao de todas as mulheres conduzidas por Deus √† minha cama, cada uma como mais uma ovelha destinada ao sacrif√≠cio para salva√ß√£o do mundo.
Gabriel est√° √† porta, quase a entrar, e a Lilicas, mais o milenar tio-av√ī, j√° est√£o dentro, com a rapariga a preparar um grande golpe de teatro para enganar a Sarita, fingindo que ningu√©m se conhece. Mas, como toda a gente sabe, algumas das personagens femininas, incluindo Sarita, j√° estiveram at√© na minha cama. J√° nos lambemos de cima a baixo como gatos remelosos acabados de nascer para a vida. E n√£o tardar√° nada at√© que os outros homenzinhos e mulherzinhas, com pap√©is mais modestos na trama, com receio de certos gangues se v√£o esconder no meu colch√£o. Devem estar carregados de medo de serem descobertos e atirados para o inferno por uma bala que, √† partida, traga logo a senten√ßa de morte de cada um j√° transitada em julgado.
Mas, para j√°, n√£o vou levantar mais v√©us. Vou apenas pedir ao mano Gabriel que aguarde mais um pouco fora de casa, at√© eu revelar como √© que uma Clara apaixonada por mim, como se eu fora o pr√≥prio Jesus, de repente, come√ßa a dizer-me, chorosa e no maior embuste do s√©culo, que tinha ido fazer exames √† Sida e que o resultado fora positivo, aconselhando-me depois, com o maior descaramento, a fazer tamb√©m os testes. A mal√©vola estava a transformar-me, em faz de conta, num transmissor do v√≠rus, por causa do cat√°logo de mulheres com que, ao longo da vida, tinha coitado sem me preocupar sequer com o assunto. Na verdade, eu, como sempre fora tratado como um deus, variasse embora de nome esse deus ao sabor da fantasia das minhas musas, nunca pus a hip√≥tese de algo t√£o ruim ter escolhido os meus humores √≠ntimos para se reproduzir. Nunca me julguei prato para v√≠rus idiotas e, muito menos, para minhocas de sepultura, onde, √† fina for√ßa, no embuste mais do que provado da minha primeira vida de personagem, a doida da Clara lan√ßou um fato Pr√≠ncipe de Gales. Era para os bichos o roerem, juntamente com a minha carne, para onde uma renovada peste negra, vinda directamente do s√©culo XIV, convergira em tropel, a fim de encher o meu corpo de bub√Ķes, que s√≥ postumamente ficariam satisfeitos.
Não dei grande crédito à advertência. Eu, que fora concebido no coro de uma igreja, com os santos todos a protegerem-me, e alguns a serem meus padrinhos espirituais, não devia temer nada disso. Vi logo que toda aquela telefónica conversa não passava de maldade de uma mulher inconformada com o fora que estava a levar, juntamente com um eufemístico pontapé. Só uma verdadeira burra não entenderia isso. E, como de jerica ela não tinha nada, vi logo que aquela algaraviada não passava de vingança pura, bem como de uma tentativa frustrada de me pregar um grande susto.
Mesmo assim telefonei-lhe. Tudo n√£o devia passar de um engano, garantira-me ela, e iria repetir os exames.
Entretanto, já Clara se transformara numa velhaca, a mesma que, numa versão mais atenuada de Lilicas paninhos quentes, anda agora derretida, quer comigo quer com o Gabriel. Como toda a gente já sabe, é-lhe indiferente ser coitada por mim ou pelo mano. Dada a sua natureza perversa, e com especialização em Cambridge, na disciplina sexual de sadomasoquismo, para ela seria um pormenor irrelevante coitar até mesmo com um sapo, como se o animal fosse um verdadeiro príncipe. Entretanto, anda agora cheia de pruridos a discutir com a mamã, negando-se a espetar-me o punhal envenenado nas costas. Contudo, sendo ela mulher, demoníaca ainda por cima, vai acabar por fazê-lo, mais tarde ou mais cedo. A menos que me antecipe e lhe retire o gozo perverso da delação.
Depois, ou antes de mais, quando eu estava a cortar as r√©deas √† Clara, j√° Gabriel, de casamento marcado com a Sarinha e com a quinta dimens√£o, a rapariga, meia Clara do original, meia Lilicas do romance do meio, andou por todo lado a tentar saber coisas sobre mim. Por entre muitas verdades, trouxe no alforge das investiga√ß√Ķes um monte de mentiras sem nexo, depois aproveitadas para modelo e inspira√ß√£o para algu√©m fazer um brilharete √† nossa custa. A mam√£ escrevera no primeiro livro que, devido ao meu gosto exacerbado por sexo, talvez tivesse sido abusado na inf√Ęncia por um tio. E como a Clara era psic√≥loga, um dia comentou o assunto com o colega l√° no Gabinete de Psicologia onde ambos trabalhavam. Ent√£o, no romance do meio, para limparem a inf√Ęncia de Gabriel, fizeram uma analogia parva com a meninice de Jesus, dizendo que era preciso reescrever a hist√≥ria, desta vez bem melhor do que a mam√£ o tinha feito com C√©sar... A seguir, numa narrativa relativamente bem engendrada, sem omitir os actos mais banais da vida de um ser especial ‚ĒÄ sei l√°, apanhar o sarampo ou a varicela ‚ĒÄ tudo passaria a fazer sentido na vida de Jesus e de toda a gente, tapando-se, definitivamente, a boca aos especuladores. Sobretudo aos internacionais, que jamais haviam aprofundado a vida do Mestre pegando-lhe pela inf√Ęncia. A meninice condiciona sempre a vida de um homem. Mesmo que esse homem fa√ßa parte de uma trindade divina e tenha, eventualmente, em noites de sono muito pesado e quando rapazote, feito chichi na cama. E as coisas passaram-se ent√£o assim, depois de um professor maluco, com liga√ß√Ķes ao livro do meio e com fortes sintomas de Alzheimer, avivada pela ingest√£o de uma po√ß√£o de erva semelhante √† Jurema brasileira, ter alucinado e visto uma chupeta b√≠blica. A chupeta, segundo este doido varrido, seria o objecto sobre que haveria de incidir a pesquisa, para se desvendarem todos os mist√©rios relacionados com O Filho de Deus. E os tr√™s pergaminhos onde a tem√°tica estaria √† espera de ser descodificada, de acordo com os √ļltimos boatos, andariam dispersos pelas bibliotecas e adelos de uma terra pequena, √† beira de um rio. Esses manuscritos, segundo uns, remontariam, com o fulgor da minha gargalhada ir√≥nica, √† Idade da Pedra Lascada. J√° para outros, os pap√©is seriam do tempo de Maria Madalena, e o mais certo √© ambas as teorias estarem redondamente enganadas. Ainda relativamente aos manuscritos, houve tamb√©m uma tese que os dava como do tempo de Colombo. Mas rapidamente foi colocada de parte por causa das batatas. Julgo que j√° algu√©m disse isso aqui, quando No√© apareceu como mais uma figura de estilo para colorir A S√°tira do Livro Roubado. Finalmente, ainda quanto aos benditos manuscritos da minha perdi√ß√£o, a √ļltima opini√£o era de que se tratava dos meus, quando eu, a t√≠tulo p√≥stumo, por causa da minha morte com Hepatite B, estive quase a ser escritor. Quase, digo eu, e a concretizar-se tudo isto, ficaria a dever tal sorte de coisas √† Clara, quando ela, em pleno cemit√©rio, foi √† minha ex levar os rabiscos que eu arrazoei na cama de um hospital, onde o n√ļmero da besta e o seu esp√≠rito maligno influenciaram toda a minha escrita.
A prop√≥sito, √†s vezes tamb√©m se dizia que a minha m√£e era uma esp√©cie de Maria Madalena, e n√£o sei se est√£o a ver bem a coisa‚ĶJ√° agora, para tudo ficar mais claro, lembro aqui um poema. Acho que foi a minha criadora quem o escreveu, a prop√≥sito da minha m√£e biol√≥gica. Os versos acabaram por ser o mote para a poesia do livro do meio e chamam-se ‚ÄúPedras‚ÄĚ. No meio de tudo, era com umas grandes pedras que nos apetecia atirar a toda a gente, por nos terem metido √† for√ßa em tr√™s romances, cada um pior do que o outro.
Ocorrendo-me mais uma vez o nome de No√©, aproveito para dizer o seguinte: √© um homem que deveria figurar naquela esp√©cie de concursos de televis√£o. Se exceptuarmos Jesus, que n√£o √© compar√°vel sen√£o a Ele pr√≥prio, No√© deveria ser o n√ļmero um da Humanidade. Como o leitor deve estar lembrado, foi o grelo da batata, no templo do c√©lebre barqueiro, a prova plen√≠ssima de que o tub√©rculo j√° existia na Judeia e na Palestina muito antes de Colombo regressar da Am√©rica com a novidade
Agora, digo aqui, nesta retracta√ß√£o, n√£o fui eu a escrever tanto horror. E se n√£o foi a mam√£ a engendrar aquela trama maligna para o livro do C√©sar, foi de certeza o Diabo, que, atrav√©s de mim, fez psicografia, como fez certamente uma ecografia ao sistema neurol√≥gico do professor ‚Äúaramaiquez‚ÄĚ, acabando por ditar o veredicto de que ele e todas as outras personagens do livro do meio n√£o passavam de megal√≥manas, e de quem ele se poderia aproveitar para levar muitas almas para o inferno.
Quanto a Clara, com grande descaramento, foi ela quem come√ßou por levantar a minha ficha junto da Carolina woman in red, a primeira a fazer cair por terra a minha ascend√™ncia aristocr√°tica francesa e o meu castelo na Normandia. Como est√£o fartos de saber, foi a woman in red quem primeiro revelou a verdadeira idade das minhas irm√£s, colocando-me, por causa disso, na posi√ß√£o de morgado de uma fam√≠lia que, no m√≠nimo, tinha na terra uma casa, outrora pertencera a gente rica e agora devidamente restaurada, onde eu podia levar todas as mulheres da minha vida. Digo, com orgulho, que passaram por l√° umas poucas‚Ķ incluindo a Sarita, transformada entretanto na esposa amant√≠ssima de Gabriel. E isso deve ela agradec√™-lo a Clara, pois, j√° na vers√£o Lilicas, Clara chegou inclusivamente a ver o √°lbum do meu enlace com a Patr√≠cia, quando eu tinha vinte e oito anos. Foi o mote para a idade do mano no livro do meio, os meus vinte e oito anos do retrato. Nessa altura j√° eu pensava nas instala√ß√Ķes fotogr√°ficas para captar as auras. Todavia, s√≥ consegui isso muito mais tarde, quando me chamava Gabriel. E foi, afinal, Gabriel quem mais beneficiou do est√ļdio. Sobretudo quando fotografava o rosto da Sara e o brilho de santidade que dela emana em todas as circunst√Ęncias da vida, esteja ela, como a mais comum dos mortais, ajoelhada aos p√©s do Esp√≠rito Santo, ou simplesmente na sanita a bra√ßos com uma pung√™ncia inadi√°vel.
Depois, o relatório da Clara sobre mim ficou completo com os acrescentos das minhas ex, incluindo a ex sogra, todas elas a acusarem-me de ladrão e de proxeneta. Além de ter ficado também no ar a ideia de que, depois das mulheres, os homens também não me seriam indiferentes, vindo então à baila um amigo que, um dia, nos meus tempos de merda, me deu abrigo lá em casa, no quarto e na cama.
Isto dos gays √© a mais pura das mentiras, n√£o tenham d√ļvidas.
A mam√£ acaba de me dar autoriza√ß√£o para me defender como puder. J√° que terceiros desfizeram da obra dela - e de mim - como quem malha em mortos, passa a valer tudo. Olho por olho,  e dente por dente, como diria Mister Tali√£o se ainda c√° andasse. Mas, como j√° partiu h√° muito para o reino dos esp√≠ritos, aqui fica a ideia para todos disporem dela √† vontade passando √† ac√ß√£o defensiva.
N√£o foram s√≥ os chegados que me desdenharam a torto e a direito, quando a Clara/Lilicas enveredou pela devassa sobre o meu passado de menino de coro e, a seguir, da minha vida de homem que experimentou muitas das perversidades deste mundo,  quando dizia com os seus bot√Ķes: ‚Äú√© para n√£o morrer est√ļpido‚Ä̂Ķ- Os vizinhos e conhecidos faziam a mesma coisa: malhavam em mim como quem malha no esqueleto de uma oliveira para deitar as azeitonas abaixo. Em suma, fui tratado como um homem sem alma. At√© pol√≠cia meteu, quando algu√©m descobriu as minhas incurs√Ķes no mundo da droga e umas pequenas burlas sem import√Ęncia.
N√£o percebo a raz√£o por que os feios t√™m sempre tanta inveja dos bonitos. Nunca podemos vestir um trapo lavado sem nos roerem na pele. Nem sequer nos √© permitido usar fatos com pequenos bolsos para os lencinhos dobrados deitarem a cabe√ßa de fora,  tal como os peixinhos amigos de Santo Ant√≥nio estar√£o agora a fazer sobre o cora√ß√£o de Gabriel. As criaturinhas ainda devem estar no bolsinho da camisa √†s riscas do meu irm√£o, em que a Lilicas se fartou de dar beijos. Deve ter sido isso que atraiu os ‚Äújaquinzinhos‚ÄĚ. Todas as criaturas gostam de ser acarinhadas‚Ķ O bicho homem nunca mais aprende que n√£o vale a pena andarmos zangados uns com os outros. Muito menos a roubar o que algu√©m conquistou √† custa do seu suor. Mais vale a regra dos beijos. Mesmo lambuzados e a deixaram no beijado aquela sensa√ß√£o de quer ir lavar a cara com a m√°xima urg√™ncia para remover o muco.
E n√£o h√° meio de encarreirar na trilha da ‚ÄúClaral√≠lica‚ÄĚ, obviamente j√° maligna!
Supostamente ela teria o v√≠rus da Sida e, depois de me deixar indeciso, sem saber o que pensar ou fazer, numa noite acabou por descair-se. S√≥ queria vingar-se e ver-me ‚Äď disse - ver-me n√£o, os nossos quiproqu√≥s tinham lugar apenas atrav√©s do telefone‚Ķ ‚Äď borrado de medo. Nessa altura armou um grande teatro. Sempre lhe senti essa voca√ß√£o. Tanto para o escrever como para o representar. Chamou-me todos os nomes poss√≠veis e imagin√°rios. Desde traficante a proxeneta e mulherengo sem alma. Disse-me, entretanto, que um dia eu havia de morrer s√≥ como um c√£o abandonado numa estrada, sem ningu√©m para me fazer um ch√° e chegar-me uns chanatos quentes no Inverno, depois de me ter dito, em altos gritos, que eu era uma criatura amoral. Antes, n√≥s os dois e apesar de tudo, julgava eu, √©ramos perfeitos nas nossas singularidades: eu com a colec√ß√£o de poemas escritos nos guardanapos de papel das esplanadas e ela a colocar em cena, desde logo e verbalmente, o que mais tarde a mam√£ viria a reduzir a escrito. Come√ßou com uma morte, negra como a peste, a minha pr√≥pria morte e com flores,  id√™nticas em tudo √†quelas que n√£o pude cultivar,  nos ramos de todas as minhas ex amantes,  quando se plantaram l√° no cemit√©rio,  como t√ļlipas de cabe√ßa desca√≠da,  a espreitar para dentro da cova. Como numa prociss√£o de missa negra, todas levavam ent√£o flores semelhantes √†s que eu n√£o tinha podido plantar quando sentia dentro de mim a voca√ß√£o de floricultor. De facto, nunca consegui desabrochar nessa arte sen√£o na fic√ß√£o de uma escritora que escreve com igual empenho tanto romances er√≥ticos como g√©neros melodram√°ticos capazes de deixar em o leitor de l√°grima ao canto do olho. Durante essa discuss√£o, comportei-me como um c√≠nico, quando afirmei ter gostado dela e que nenhum homem lhe teria aturado tantos desmandos. Ela, nessa altura, andava uma aut√™ntica asna, quando, ressalvando o exagero da met√°fora, me pediu quase uma declara√ß√£o por escrito a mencionar a data, ano, dia e hora do fim do meu amor por ela. Contudo, durante a acalorada troca de palavras, houve um momento em que n√£o consegui conter a minha sui g√©neris gargalhada.
 Foi nessa altura que a Claral√≠lica me acusou de ser ruim, a ponto de nem a terra e uma legi√£o de minhocas me quererem comer, por mais esfomeados de cad√°veres que estivessem. Por fim, acrescentou ela, quando me desenterrassem, inteiro e seco como um bacalhau, o povo ainda havia de passar a chamar-me santo.
N√£o me contive, confesso. Eu santo! E ri a bom rir.
Agora c√° estou eu, finalmente, Gabriel, um jovem de vinte e oito anos, casado com uma mulher mais velha, uma santa tamb√©m. E a Lilicas tem muito a agradecer-me pela circunst√Ęncia de a ter livrado de uma miss√£o t√£o espinhosa como lan√ßar lama sobre uma pessoa por quem ela se sente sempre t√£o bem coitada, quando os nossos efl√ļvios, os meus e os do mano C√©sar, se derramam no corpo dela, com a for√ßa das Cataratas do Ni√°gara no pino do Inverno. Se n√≥s os dois, um com cara de anjo e outro anjo de corpo inteiro, n√£o lev√°ssemos a cabo a nossa miss√£o de amantes, a Lilicas j√° teria cumprido a amea√ßa de morrer. N√£o foi o que prometeu mal viu o Gabriel? ‚Äú Morro se n√£o me amares‚ÄĚ ‚Äď disse ent√£o.
Quanto a mim, se outros crimes mais graves n√£o cometer, pelo menos um crime de l√ļbrica omiss√£o n√£o gostaria de perpetrar. Ainda mais sobre uma criatura para quem o meu dicion√°rio na cama n√£o √© um problema. √Č s√≥ soltar o palavr√£o, e ele sai da boca como se fosse um peregrino, agradecendo com entusiasmo a Deus o ter chegado ao fim da caminhada. Mesmo sendo a companheira de jornada uma mulher diab√≥lica e ninfoman√≠aca como a Lilicas solas e cabedais. Acho que Gabriel, ou eu ‚Äď  n√≥s somos n√£o uma trindade como a de Deus mas apenas  um duo quase perfeito ‚Äď pensa o mesmo sobre rapariga‚Ķ
E agora, depois de tanto tempo √† porta de casa para aquele beijo b√≠blico, que deposita sempre na face da Sarita, √© melhor Gabriel entrar, se n√£o quiser desafiar a sorte e ir juntar √† velha h√©rnia discal, √† palidez e √† asma, uma nova doen√ßa que o atire de verdade para o mesmo local onde eu estive como defunto de fic√ß√£o (n√£o.., parece-me que a asma, a mesma por que Clara deixou de fumar,  est√° agora  apegada √† Lilicas, n√£o sei se para sempre se s√≥ nas alturas cruciais, durante o coito, quando as circunst√Ęncias a obrigam a arfar como uma gata ronrona e mais ou menos tuberculosa).
Para já, como o mano não se deve ter lembrado de agradecer a oferta do banco Ambrosiano, depositada nas níveas e brancas mãos dele, vou fazer um telefonema à nossa querida e velha benfeitora. Nunca se sabe quando as vacas magras voltarão a andar à solta, disseminando a miséria pelos nossos bolsos e deixando-nos embaraçados quando nem sequer tivermos dinheiro para mandar castrar um gato.

Continua

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outono


« Responder #36 em: Junho 18, 2022, 21:42:56 »

Vacas magras...gatos...fungag√° da bicharada?
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #37 em: Junho 19, 2022, 21:58:11 »

Hão de engordar, Nação Valente


Sara

Por onde andará o meu amor que não chega de Coimbra? Provavelmente não conseguiu tirar nenhuma foto de jeito para o antiquário, por causa de quem se mata a palmilhar o país. Tudo para desencantar antiguidades dignas de estarem expostas no Museu do Louvre, mesmo ao lado da Mona Lisa, por quem Leonardo teve uma paixão tão grande como a minha por Gabriel.
E ele doente, com aquela palidez mortal que o meu hóspede lhe detectou num simples golpe de vista, como se o homem, mal o viu, se tivesse apaixonado por ele. Ou, então, o velho diagnosticou-lhe o mal como quem tira parecenças a meninos. Dizem os entendidos que têm de ser captadas de relance. Ou será que o velho se apaixonou mesmo por Gabriel num acabado sentimento homo?
Neste ponto história, deveria estar a fingir que não tenho ainda cá em casa, nem o professor, nem a tonta da ninfomaníaca sobrinha-neta? Pergunto à mamã como deve ser e ela responde-me que não me preocupe muito. Só se a minha vida ficar facilitada com mais um embuste. De outro modo, para quê negar tanto as evidências?
Respondo que está bem, até porque tenho de ser, ao menos para já, boazinha, uma daquelas mulheres que não partem um prato e para quem Gabriel se tornou no centro do mundo. Nasci para o servir e estou por isso reduzida à condição de escrava. Ele é o meu senhor, o meu ai Jesus.
Mas sim, √© melhor fingir que l√° dentro, na sala, a vasculhar a fartura de bibliotecas deste livro, est√£o o velho e a doidivanas da Lilicas. Ele a mirar as raridades e a proferir exclama√ß√Ķes sobre a qualidade das obras, n√£o se coibindo de falar das fotografias que est√£o espalhadas por diversas mesas e aparadores, por sinal de outro romance.
Já ela, a ninfomaníaca, com todo o descaramento, vestida de roupão vermelho e com um turbante na cabeça da mesma cor, depois de ter tomado banho, está agora a pintar as unhas de um rubro garrido que a deixam com aquele ar de galdéria com que leva todos os homens para a cama.
Mesmo sendo Gabriel um anjo impoluto, invulner√°vel a tenta√ß√Ķes, ela que n√£o se lembre de se lhe meter debaixo dos p√©s!‚Ķ Se isso acontecer, vai ficar a conhecer a cor da minha raiva b√≠blica, quando lhe rogar uma praga t√£o grande que as garras dela se h√£o-de partir ao m√≠nimo gesto l√ļbrico. Jamais haver√£o de crescer. Se se atrever √† provoca√ß√£o, ficar√° sem for√ßa, tal como Sans√£o ficou sem a dele, quando Dalila, √† trai√ß√£o, lhe cortou o cabelo √† escovinha (onde √© que eu j√° li isto?!). O poder da minha maldi√ß√£o ser√° maior se, entretanto, o meu marido apanhar alguma doen√ßa ruim‚Ķ
Hoje, para o jantar, haver√° batatas recheadas √† Maria Madalena, uma receita de um livro de cozinha muito antigo, que a minha sogra me deu como presente de casamento. Pensava ela que eu nem sequer um ovo sabia estrelar. L√° porque era dona de um solar oitocentista, julgava-me uma menina queque, uma tia apenas preocupada em aparecer nas revistas cor-de-rosa. Mas, depois, quando lhe servi pela primeira vez as batatas, desdobrou-se em desculpas por causa dos seus preconceitos para com os meus dotes culin√°rios. Era para ser outra coisa, mas, √† √ļltima da hora, gosto quase sempre de fazer surpresas aos meus h√≥spedes.
Depois, de cada vez que algu√©m come c√° em casa as bem-aventuradas batatas, fica rendido ao prato. A ponto de ter de passar a receita para uma quantidade de pessoas. Nomeadamente, √†s esposas de pol√≠ticos importantes com quem Gabriel tem rela√ß√Ķes estreitas. E √© uma ma√ßada escrev√™-las pelo meu pr√≥prio punho, quando d√° o chilique ao meu computador e quando somem de l√°, como por feiti√ßaria, tanto as receitas como a prosa que de vez em quando l√° verto sobre uma infinidade de coisas. Ent√£o se os desaparecidos forem os poemas que, sem ele sonhar, escrevo para o meu amor, fico uma aut√™ntica Maria Madalena, chorosa e triste.
√Äs vezes apanho pela frente uma daquelas mulherzinhas emproadas e cheias de tiques, com a mania dos segredos culin√°rios, e, sabendo elas das minhas origens b√≠blicas (ou ser√£o, na verdade, √°rabes?...), com grandes conhecimentos de l√≠nguas, pedem-me que escreva a receita noutros idiomas. Mas, como hoje toda a gente fala franc√™s, ingl√™s, italiano e por a√≠ adiante, um dia destes uma delas foi ao ponto de me pedir o diabo da receita das batatas recheadas em latim. √Č por causa de o latim ser uma l√≠ngua morta. Os mortos faladores de latim n√£o devem estar com grande paci√™ncia para vir l√° do outro mundo, onde est√£o sossegadinhos, fazer tradu√ß√Ķes nesta terra de loucos. Muito menos de receitas de batatas. Nunca vi tanto medo de furtos. Nem sequer dos colares de ouro e das pulseiras que t√™m guardados nas gavetas, comprados sabe-se l√° com que dinheiro. Por falar nisso, se calhar, a mulherzinha da receita queria registar o prato como sendo uma cria√ß√£o sua, dando a umas simples batatas com carne dentro um estatuto id√™ntico ao de um bolo-rei recentemente inventado nas padarias do norte. Mas livre-se ela de ganhar em direitos de autor dinheiro que, em princ√≠pio, me competem a mim!
Gabriel, parece-me, est√° a chegar de Coimbra. Ter√° conseguido a t√£o desejada foto de uma antiguidade para o livro do patr√£o, ou ter√° sido, simplesmente, uma viagem em v√£o?
N√£o!, que maravilha! Embora a suar as estopinhas, depois do esfor√ßo de um dia inteiro a vasculhar s√≠tios t√£o inusitados como galinheiros, onde, uma vez, um coleccionador descobriu a raridade de uma c√≥moda do s√©culo XVIII a servir de poleiro √†s bichanas, o meu amor teve √™xito. Gabriel vem feliz com a foto. Trata-se de facto de uma raridade. √Č o que sei, mesmo sem ver a fotografia, porque sou uma mulher iniciada na transcend√™ncia. √Č um piano de cujo modelo s√≥ h√° tr√™s no mundo. E um deles deve deixar sair ainda por todos os poros da madeira pintada de negro um cheiro a malignidade. Era de onde sa√≠am as m√ļsicas de Wagner, que enfeiti√ßavam os ouvidos de Hitler quando este era a encarna√ß√£o do diabo.
Mal seja oportuno, vou pedir a Gabriel que mostre a fotografia √† Lilicas. √Č s√≥ para ver a rea√ß√£o dela quando captar os fluidos do mal, dos quais, provavelmente, o instrumento estar√° impregnado. A ponto de tudo isso ter passado para a foto, como a minha irm√£ Clara acredita. Isso dar-me-√° a perce√ß√£o exata at√© que ponto deva ou n√£o temer a doidivanas da rapariga. Estou maluca! Este piano √© o de uma amiga da mam√£ e n√£o o do Hitler! Mas, como me d√° jeito, fica assim. Espero que o leitor n√£o se aborre√ßa muito com a incoer√™ncia‚Ķ
Quando pergunto a Gabriel onde conseguiu aquela obra-prima, aconselha-me a ter paciência e a aguardar mais um pouco. Para já, não pode revelar o nome do dono do piano. Embora, como me disse, seja de facto uma dona, uma mulher tão velha e gasta como a cinza.
Dou uma gargalhada com a metáfora e digo-lhe que, quanto a mulheres, mais vale ter cuidado, não vá uma, já feita mesmo em cinza, renascer como uma Fénix. A ponto de lançar as garras sobre ele e de o deixar mais esburacado do que ficaria se tivesse de ser submetido à operação da hérnia discal. Dou-lhe um beijo no rosto suado, na cozinha, num momento em que estamos os dois sozinhos. Ele não pensa, obviamente, que me refiro à Lilicas, e, enquanto ele está a beber um copo de água, vou à sala de estar ordenar à rapariga para se vestir decentemente. Informo-a da hora do jantar. Será servido mal o meu anjo acabe de tomar banho, depois de ter andado em algumas capoeiras à procura da relíquia um dia inteiro. Ah!, quanto não sofre um fotógrafo apaixonado pela sua arte!…
Hoje pus a mesa oval segundo o meu ritual de esoterismo. Num dos topos ficarei eu, sozinha, do meu lado esquerdo sentar-se ‚Äď √° Gabriel, seguir-se-√£o tr√™s lugares vazios.
Depois, em frente a mim, no outro extremo, ficar√° o tio da Lilicas,  e esta sentar-se-√° ao lado do velhote, esperando eu que para o jantar ele tire aquela gabardina cinzenta cor de rato e ensebada que nunca despe. Gosto sempre de deixar tr√™s s√≠tios sem destinat√°rios. Fa√ßo isso depois de conhecer o ditado,‚ÄĚ √† hora do jantar sempre o diabo traz mais um‚ÄĚ. Ou, se o prov√©rbio n√£o se confirmar, essas duas cadeiras, com os pratos, talheres, copos e demais apetrechos, ficam reservadas para os bons esp√≠ritos que nos queiram fazer companhia, se por l√° n√£o houver algu√©m com um poder demon√≠aco capaz de os afugentar. Vale mais prevenir do que remediar. Por isso conto sempre, n√£o com mais um que o diabo possa trazer, mas com uma legi√£o deles. Enquanto houver de comer para todos n√£o me escaqueiram a lou√ßa. Al√©m do mais, tenho de ter cuidado com os couros da minha ‚Äúconvidada‚ÄĚ. Principalmente com as botas, n√£o v√° a ninfeta dedicar-se a dar com os bicos pontiagudos nos joelhos do meu amor. Se a Lilicas resolver pontapear alguma coisa, pela frente ter√° apenas o vazio.
Devia ir lavar as costas ao meu anjo e fazer-lhe uma massagem. No mínimo, para ele relaxar do cansaço de hoje e ver até que ponto a hérnia discal não ficou dorida, depois de um dia inteiro de jipe com uma máquina fotográfica ao ombro, que, para o seu corpo lindo e franzino, pesa toneladas. E nem me quero relembrar da recorrente palidez de Gabriel...Se Deus quiser, uma palidez não é mortal para ninguém. Muito menos o será para o meu anjo. Não foi em vão que foi concebido no coro de uma igreja, com tantos santos e santas a protegê-lo. No fundo, no fundo, do que Gabriel há-de padecer é da doença da eternidade, porque os anjos nunca morrem. Contudo, com estes dois emplastros acampados cá em casa, não tenho grande tempo para mimos a quem de mimos tanto precisa.
Nem sei por que ofereci guarida a um vagabundo seboso e a uma ninfomaníaca reles só porque o homem foi meu professor, embora a minha irmã Clara conteste isso a pés juntos. Para ela, a criatura não passa de um embusteiro. A sobrinha neta do sujeito, para a Clara, é igualmente outra história mal contada, com fortes probabilidades de dar ainda muitas dores de cabeça a demasiada gente.
Por agora, tenho de ir à cozinha ver o andamento das batatas recheadas. E, com tanto diz que diz sobre elas, mais sobre os papéis onde está escrita a receita, nem informei o leitor como se preparam:
Para sete pessoas:
S√£o necess√°rias 7 batatas grandes, com pele, a que, se tira o miolo (recomenda-se, para o efeito, um berbequim)
100g de cebola picada
200 gramas de carne de vaca ( ou boi) picada juntamente com um
chouriço médio
50 gramas de azeitonas pretas descaroçadas
1 colher de ch√° de sal.
2 colheres de sopa de vinho branco
1 ramo de salsa
1 dente de alho
3 colheres de sopa de azeite
Um  pouco de leite
Um pouco de farinha
2 gemas de ovo.
7 folhinhas grandes de hortel√£
Pimenta qb
14 palitos
Azeite para deitar sobre as batatas

Para acompanhamento pode servir-se uma infinidade de saladas, esparregado de brócolos, de espinafres etc.

Corta-se, em cada uma das batatas, uma calote de tamanho médio, e a seguir retira-se uma boa parte do miolo com um berbequim. Reserva-se dentro de água para não oxidarem (já agora, aproveita-se o miolo para fazer sopa…)
Para um tacho, deita-se a cebola picada e aloura-se com o azeite sem deixar queimar muito. Entretanto, junta-se o sal, o picado, a que se adiciona, depois de ferver um pouco, o vinho, o alho picado, a salsa, igualmente picada e pimenta (ou malagueta, eu prefiro malagueta…) a gosto.
Deixa-se refogar durante meia hora em lume brando e depois retira-se do lume, até arrefecer um pouco.
Quando o refogado estiver suficientemente frio para se lhe meter as mãos, começa-se por se lhe adicionar as azeitonas, o leite, a seguir a farinha e por fim as gemas de ovo. Mexe-se muito bem.
Introduz-se, de seguida, o preparado dentro das batatas e, no buraco, a tapá-lo o mais possível, coloca-se uma folha de hortelã, recolocando em seguida cada uma das calotes nas respectivas batatas.
Prende-se, depois, cada calote com dois palitos, e coloca-se tudo numa assadeira, depois de se ter deitado um pouco de sal e um bocado de azeite por cima das batatas, ficando no forno a 220 graus por cerca de uma hora, com uma viragem a meio da assadura.
E pronto! Lá se acabou o mistério das batatas recheadas, agora que a escrevi para o mundo inteiro!
A mam√£ aconselha o leitor a n√£o confiar muito na receita. Precisar√°, sem d√ļvida, de ser testada, uma vez que tem boas raz√Ķes para desconfiar que acabo de a inventar‚Ķ
Pelo aspeto, as batatas parecem-me boas, o refogado de br√≥colos est√° verdinho e com bom ar. N√£o h√° raz√Ķes para me preocupar, embora a mulherzinha, que trouxe de casa do C√©sar para me ajudar nas lides desta, √†s vezes cometa pequenos deslizes. Um dia, em vez de ado√ßar a salada de frutas com a√ß√ļcar, p√īs-lhe umas duas ou tr√™s colheres de bicarbonato de s√≥dio e depois era ver a espuma escorrer pela mesa de jantar fora √† primeira mexedela. J√° para n√£o falar quando, durante as nossas f√©rias, a criatura mete as camisas preferidas do meu marido na m√°quina de lavar roupa enquanto esta ainda est√° h√ļmida e depois vou encontr√°-las cheias de ferrugem. Parece que faz de prop√≥sito. Mas como Gabriel n√£o a quis despedir, vi-me for√ßada a traz√™-la como interna, s√≥ para n√£o desagradar ao meu marido. Deve ter muita considera√ß√£o por ela, e n√£o deve ser por causa de segredos dele que a trouxe a tiracolo como a m√°quina das fotos. Embora, depois de anos e anos a mudar-lhe a roupa da cama e a fazer-lhe a lida da casa, quando ele era um rapaz de outra dimens√£o, acredito que n√£o haja podres na vida do meu marido que ela desconhe√ßa.
O Gabriel hoje está demorado no banho. Deve ter-se cansado muito com a viagem. Ou então continua à espera das minhas mãos para lhe fazerem a massagem habitual, que, não raras vezes, nos leva ao meu cenário preferido, o semáforo… Depois, fazemos amor como dois eternos apaixonados, e eu experimento uma e outra vez a sensação de querer morrer nos seus braços. Nisso não sou diferente da Clara, a mana e a rapariga precedente nesta aventura literária que se tem vindo a repetir em diversos livros graças ao talento da mamã. Livro ridicularizado sim, com todas as letras, mas nem por isso desaproveitado por terceiros demasiado bem colocados nos meandros da literatura, onde velhos livros, mexidos e remexidos, se transformam em verdadeiras omeletas de papel.
O velho professor j√° desceu do quarto dos fundos, depois de, finalmente, ter tirado a sebosa gabardina. Neste meio tempo vou l√° acima - Deus me perdoe a coscuvilhice - vasculhar os segredos que o homem tem naquele farrapo do tempo das Ordena√ß√Ķes Afonsinas. A treta do banho n√£o sei de qu√™ para o tornar invulner√°vel a todos os perigos nunca me convenceu. A Lilicas, onde eu disse ‚Äún√£o sei qu√™‚ÄĚ, diria prontos, ou prontes, o C√©sar remataria sem d√ļvida com o n√£o sei qu√™ n√£o sei que mais. Mas, no meio de tudo, o velho √© o mesmo porco de sempre.
O trapo está dentro do guarda-roupa, ao fundo, engelhado, e, por azar ou descuido da velha que está lá em baixo na cozinha a preparar as batatas, pressinto um rato num dos bolsos onde o homem, se não guardou um resto de queijo, no mínimo deve ter esquecido um pedaço de broa, já mais duro do que chifres. Ouço um roer intenso vindo do fundo do armário…Como tenho bastante nojo a estes animais, o melhor é deixar a gabardina em paz. Que se danem os segredos do velhote, agora à mercê de um rato desrespeitador de coisas alheias, e que, se a broa, ou mesmo queijo, não for suficiente para lhe saciar o apetite, não deixará de se deliciar com a gordura do pano na mais completa indiferença pelos banhos indianos que um mágico do oriente tenha dado à gabardina.
Acho melhor ir ver se Gabriel n√£o precisar√° de alguma coisa.
O meu amor continua esmerado na higiene pessoal e tão arrumado que dá gosto. Nem um pêlo ficou na banheira, o vidro já está corrido. Já só tem a toalha vermelha de riscas enrolada à cintura.
Vê-lo assim, com aquele peito olímpico à mostra, praticamente sem penugem, traz-me à ideia o meu querido semáforo, que, a ser hoje ligado, terá de ser bastante tarde, quando o velho e a neta já ressonarem como dois comboios a vapor nos aposentos das traseiras, os que dão para o rio. Reservei-lhos só para não me incomodarem com o barulho dos roncos durante a noite.
A camisa e a roupa interior de Gabriel j√° dormem no cesto da roupa suja, juntamente com as pe√ļgas. Os mocassins est√£o √† janela, a recuperar do odor de um dia inteiro √† procura de fotografias para o livro de um antiqu√°rio com ar suspeito.
O homem, o antiquário, com tantos carros topo de gama, parece um ladrãozeco barato e um chulo dos anos setenta. Tanto quanto me dizem as minhas antenas bíblicas, é o namorado da Lilicas, a mesma que há pouco estava lá em baixo de turbante vermelho na cabeça e roupão igual a pintar as unhas de encarnado. A menos que já tenha enfiado de novo aqueles cabedais pretos e as botas esporadas de cavaleira sexual. D. Duarte, o Rei de Portugal já morto, devia gostar bastante desta mulher e do apreço que ela tem por montarias.
Eu e Gabriel descemos juntos, de m√£os dadas. Sou a mulher mais feliz do mundo. E se um dia voltar para o para√≠so, hei-de escrever um livro repleto desta felicidade. Incluirei mesmo o sem√°foro nas narra√ß√Ķes, s√≥ para demonstrar a todas as mulheres descendentes de Ad√£o e Eva que a Terra tamb√©m pode ser um aut√™ntico Jardim do √Čden. Basta s√≥ ter a sorte de encontrar um anjo do mesmo quilate de Gabriel, ouro puro. S√≥ o raio da h√©rnia discal bem como a sua palidez me preocupam. E, em vez de dar como bons os diagn√≥sticos surrealistas do velho sebento, o melhor √© prometer um anjo de cera do tamanho e peso do Gabriel a Nossa Senhora de F√°tima. Ela, sim, tem todas as influ√™ncias junto de Deus. At√© porque o meu amor recusa-se a ser tratado por m√©dicos de carne e osso como eu, e isso leva-me mesmo a acreditar ainda mais que, em vez de estar casada com um homem, tenha sido mesmo um verdadeiro anjo a desposar-me. S√≥ o sexo me confunde um pouco. Desde que me conhe√ßo, sempre ouvi dizer que os anjos n√£o t√™m sexo, e, logo, nunca poder√£o, nem fazer chichi e, muito menos, amor.
J√° agora, antes de mais algu√©m se adiantar a quer saber coisas sobre a inf√Ęncia do Menino Jesus, porque n√£o socorrer-me da biografia de Santo Ant√≥nio de Lisboa, ou de P√°dua, como os italianos querem, que tantas vezes Lhe pegou ao colo, como rezam os seus milagres?! Farei isso mal tenha tempo. Tudo isto porque, quando penso em Gabriel, agora de m√£o dada comigo, penso tamb√©m em Jesus e n√£o consigo evitar compara√ß√Ķes entre um e outro: ambos s√£o criaturas divinas, cada um √† sua maneira. Um com mais apet√™ncia para o amor de cama, e o outro louvando at√© ao infinito o amor de Deus, Pai de todos n√≥s.
A mamã diz-me para parar com o misticismo e pensar no próximo jantar, ainda sem data. Nessa altura terei de usar uma mesa bastante maior para servir de novo o prato das batatas recheadas. Diz-me ainda que, para fazer o repasto, terei de convidar o mestre inglês Jamie Olivier. Ela, a mamã, confidenciou-me o seguinte:
- Como muitas cabeças vão rolar, ao menos que embarquem para o outro mundo com a barriga cheia…
- Est√° bem ‚ĒÄ respondo ‚ĒÄ Ser√° uma forma de satisfazer a √ļltima vontade de condenados √† morte. Parece, pelo ror de vezes que falaram nas minhas batatas recheadas no livro do meio, que os meus pr√≥ximos convidados ser√£o mesmo fan√°ticos delas. Antes de algu√©m lhes espetar nas n√°degas a letal inje√ß√£o, h√£o-de empanturrar-se com elas. Talvez com um toque de modernidade dado pelo mestre Olivier. A mam√£, quando o convidar, vai falar-lhe da suposi√ß√£o quanto √† autoria da receita, atribu√≠da, segundo algumas vozes de peso no mundo da criptografia, a Maria Madalena. Pelos vistos tamb√©m tenho de convidar Mel Gibson, que ter√° de se fazer acompanhar por um dicion√°rio de aramaico antigo a fim de facilitar a vida de todas as personagens deste romance.
Só espero, dada a minha profissão de médica, que não me convidem para carrasca na altura de começar a fazer sangue.

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outono


« Responder #38 em: Junho 25, 2022, 19:29:11 »

H√£o-de engordar sim, com receitas de batatas recheadas.
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« Responder #39 em: Junho 27, 2022, 16:50:13 »

Engordar par a matança....

SEGUNDA PARTE





‚Äú‚Ķ√Č pelas m√£os que se conquista o c√©u.‚ÄĚ



¬Ī


Gabriel

Estamos finalmente √† mesa, depois de a Sarinha me ter apresentado quem ficou hospedado neste solar oitocentista gra√ßas √† bondade dela. √Č t√£o diferente da Clara, que at√© um fato Pr√≠ncipe de Gales deitou na sepultura do C√©sar... A minha mulher n√£o pode ver um pobre esfarrapado. Se ele estiver com frio, vai sempre ao meu arm√°rio ver se h√° por l√° alguma coisa que eu n√£o vista para lhe dar. Aconteceu isso com certeza com o professor, por causa da gabardina sebenta, que, felizmente, n√£o tem vestida. Algu√©m generoso, um s√©culo antes de Cristo, lha deve ter dado julgando-o um pedinte.
Bom, mas ficou decidido com a mam√£ que todas as personagens iriam fingir n√£o se conhecer l√° da casa de C√©sar, onde Clara e Lilicas se empanturraram de sumo enquanto o professor admirava a colec√ß√£o de Jorge Lu√≠s Borges a dormir na prateleira, ainda com o velho cheiro a amon√≠aco de h√° anos quando o gato franc√™s lhe urinou em cima. Assim, ningu√©m me conhecia quando a minha querida mulher fez as apresenta√ß√Ķes, e Lilicas, em voz de ventr√≠loquo, me disse ao ouvido que se eu n√£o a amasse morria na primeira oportunidade. Depois de se ter esfor√ßado a pensar que eu seria um velho barrigudo, qui√ß√° perverso como a minha profiss√£o de fot√≥grafo eventualmente habituado a bizarrias poderia fazer supor, fingiu muito bem.
Gra√ßas a Deus a Sarinha, habituada aos ass√©dios das outras mulheres sobre mim, disp√īs estrategicamente todas as personagens √† mesa. Se eu ficasse ao lado da Lilicas, ou mesmo √† sua frente, n√£o sei se n√£o haveria jogos rasteiros durante o jantar. A rapariga √© mesmo muito assanhada.
Como entrada, a Sara mandou assar no fog√£o a lenha umas espigas de milho cultivadas na herdade. Est√£o √† nossa frente, sobre uma travessa de barro redonda pintada com diversos motivos regionais. S√£o sete as espigas, douradas e apetitosas. Est√£o √† espera de serem comidas com manteiga amolecida no recipiente do fondu, em que sete pinc√©is √†s cores aguardam o toque das nossas m√£os para depois barrarmos este manjar. Eu escolhi o pincel de cabo vermelho, e, pela primeira vez em frente a Sarinha, as m√£os da Lilicas tocaram as minhas com alguma provoca√ß√£o. Eu queria o pincel encarnado, mas ela adiantou-se acabando por levar a melhor. Depois, em homenagem √† aura lil√°s da minha querida mulher, fiquei com o roxo. Na nossa mesa nunca h√° outros farin√°ceos sen√£o as espigas. N√£o comemos p√£o nem broa. A Sarita diz ter bastado o tempo em que eu era C√©sar e me empanturrava com o miolo, enquanto a Clara, ela pr√≥pria, comia as c√īdeas. Al√©m disso Sarinha faz mais ou menos uma dieta para n√£o engrossar a silhueta, e o √ļnico estrago a que se d√° ao luxo, de vez em quando, s√£o as espigas de milho assadas. √Č nesta altura que Lilicas se tamb√©m refere √† linha, enquanto intimamente chama sardanisca a Sarita.
A Sarinha acabou de ordenar √† velha empregada do C√©sar para trazer a travessa das batatas recheadas, bem como o esparregado de br√≥colos. E, como a velhota lhe pediu para ir ver a bisneta que teve um beb√©, dispensou-a at√© amanh√£ de manh√£. Servir a sobremesa e o caf√© ir√° ficar por conta dos anfitri√Ķes.
O professor e a sobrinha-neta, depois de se lambuzarem com elas, dizem que as espigas estavam deliciosas e a Sarinha elogia as batatas, o prato a seguir. Isso faz logo crescer água na boca dos dois, embora a rapariga, em vez dos tubérculos recheados, preferisse comer-me a mim. Confesso que também já estou um bocado farto desta receita, quase tanto como do bendito semáforo. Tenho de a gramar sempre quando convido algum dos meus amigos ministros para jantar. Sobretudo por causa das queques mulheres deles, descaradas o suficiente para pedirem à Sarinha a receita em latim.
Ela serve toda a gente, e, mal desejamos uns aos outros bom apetite, o professor, esfomeado, leva o primeiro peda√ßo de batata √† boca, quase em simult√Ęneo com a azougada sobrinha neta e com o meu amor.
De repente, vejo os tr√™s ca√≠dos para tr√°s na cadeira, inanimados, ficando como frangos depenados, de pesco√ßo inclinado, e como sacos de batatas vertendo o conte√ļdo, enquanto a minha imagina√ß√£o desce √† bruma da hist√≥ria ‚ÄúA Branca de Neve‚ÄĚ, mas desta vez em triplicado. S√≥ espero que o velho, ao menos, n√£o julgue, nem mesmo hipnotizado, que lhe vou dar um beijo despertador, como se eu fosse o pr√≠ncipe do conto. Se tiver de acordar algu√©m de um sono perverso, como me parece este, sejam ao menos a Sarinha e a Lilicas.
Mas, por agora, não sei o que fazer. Apetece-me, tal como ao meu irmão César, chamar pela minha mãe e encostar a cabeça no colo dela. Além de que não tenho mais ninguém em casa a quem recorrer para me dar um conselho.
De repente, vejo o velho a estremecer na cadeira. Parece que vai recobrar do estertor de há pouco. Mas, ao invés de acordar com um comportamento idêntico ao anterior, como tinha antes do jantar, o homem abana a cabeça de um lado para o outro, como se se debatesse com uma grande confusão cerebral.
Come√ßo a raciocinar mais friamente. Julgo estar de facto na minha casa com a Branca de Neve em triplicado. Sem sombra de d√ļvida, h√° aqui um caso de envenenamento em que, em vez de ma√ß√£s dadas por uma bruxa desejosa de ser a mulher mais bela do mundo, foram usadas batatas recheadas e n√£o sei qual √© o intuito. Interrogo-me sobre o veneno e penso se n√£o devia ir dar um beijo na boca a cada uma das mortas-vivas aqui √† mesa, de goela esticada, onde muito possivelmente o peda√ßo da batata se alojou. Mas, tendo j√° um homem confuso √† mesa, se as duas acordassem no mesmo estado, ficaria com um problema acrescido.
Que raio de tóxico terá sido utilizado nos tubérculos?! Sim, porque nenhum dos sinistrados tinha ainda comido mais fosse o que fosse, para além das espigas!
Lembro-me imediatamente da velhota bisav√≥ vinda de casa de C√©sar, que um dia p√īs bicarbonato na salada de frutas. Como a receita leva leite, ter√° ela confundido o frasco do amaciador de camisas com o lactic√≠nio? Mas, que diabo! Ela est√° a ficar senil, mas nem tanto!... Espera l√°!... A menos que tenha sido a mam√£ a autora do prod√≠gio‚ĶRecentemente esteve no Brasil, e foi bem capaz de ter ido √† Amaz√≥nia buscar uns raminhos de Jurema, uma planta alucinog√©nia que induz nas pessoas tantas personalidades quantas forem precisas. Vou perguntar-lhe.
Responde-me afirmativamente e, para já, aconselha-me a deixar falar o tonto do professor, enquanto disfarça uma pequena gargalhada.
O homem, se, por um lado, está aflito, por outro parece-me radiante, e o lado da aflição pede-lhe para ir urgentemente ao quarto dos fundos buscar a gabardina ao armário.
Quando regressa j√° tem de novo o trapo vestido, que lhe real√ßa o velho ar de figo seco. Leva uma das m√£os a um local rec√īndito da gabardina e lan√ßa um grito de desespero:
Professore ‚Äď Roubaram-me os c√≥digos, valha-me Jesus Cristo! Estou perdido! Nunca mais conseguirei desvendar a criptografia dos escritos antigos, nem os do Mar Morto, nem os do Mar Vivo, nem o raio que parta o meu azar! N√£o! Espera l√°!... Est√° aqui um rasg√£o do tamanho de uma cratera! Aqui h√° ratos, de certeza, e, al√©m do mais, devem andar tremendamente esfomeados! S√≥ podem ter sido os ratos! E deixei-me eu hospedar nesta casa! Onde est√° a Sara, meu Deus?! Porque n√£o alimentou ela convenientemente os roedores?!
Agora est√° sentado ao fundo da escadaria.
Explico ao homem quanto se passou com as batatas, enquanto ele ampara a cabeça do lado esquerdo, como se quisesse saltar para outra vida que conhecesse melhor do que outra vida qualquer onde já tivesse andado a fazer tropelias por conta própria ou ao serviço de terceiros.
Professor: - O que estou eu aqui a fazer? Onde est√° a minha mulher?
- Mas, professor…
Professor: - N√£o me chame professor pela sua rica sa√ļde! N√£o me irrite ainda mais do que estou!
- Est√° bem. Ent√£o como hei-de chamar-lhe? Alquimista?
Professor: - De mal a pior! Alquimista nunca! Se tem de me chamar alguma coisa relacionada com profiss√Ķes ent√£o nesse caso chame-me agricultor!
- Agricultor, como assim?
Agricultor: - Se quer saber o que se tem vindo a passar, de há cinco anos a esta parte, é o seguinte: fui raptado de um livro para, além de um boneco com um nariz maior do que o do Pinóquio à conta de tanta mentira, me transformarem num professor tonto! Já para não falar dos abusos cometidos com outras pessoas lá do romance de onde vim! Até nem se importaram que me transformasse eventualmente num assassino!
Começo a ficar curioso e o melhor é deixar o homem falar, lá na sua faceta de agricultor.
Por isso eu estranhava, de vez em quando, haver por aqui algumas camionetas de couves e grelos a fazerem distrair as mulheres, sobretudo ao volante, como aconteceu uma vez com Sara quando ela provocou mesmo um acidente!
Mas, voltemos ao velhote:
- Então prossiga. Já que o apetite se foi, é melhor contar toda a sua história para ver se isto começa a fazer algum sentido.
Agricultor: - Pois, para constar, eu sou tio de uma personagem do livro roubado, roubado por tanta gente que mais parece uma companhia da tropa. Sou tio da Clara, a minha sobrinha, a √ļnica, a verdadeira, aquela que, pintem-lhe o cabelo de branco, louro ou preto retinto, vistam-lhe umas cal√ßas de cabedal ou metam-lhe uma bata cir√ļrgica sobre a pele, √© √° √ļnica, a original!
E, continuando:
Agricultor - A Clara, um dia, quando foi a um concerto de m√ļsica cl√°ssica, numa funda√ß√£o de que nunca soube o nome, conheceu um indiv√≠duo chamado C√©sar‚ĶAt√© parece voc√™, mas com mais idade‚Ķ O rapaz era doido por uma √≥pera cujo nome √© ‚ÄúO Elixir do Amor‚ÄĚ. Mas tamb√©m era um bocado trapaceiro, um mulherengo sem emenda que a deixava muitas vezes a ver navios para ir para a farra, quase sempre na cama com outras, embora ela tenha desconfiado disso desde bem cedo‚Ķ O fulano era bom a mentir, porque, na maioria das vezes, ficava calado. E quem se limita ao sil√™ncio nunca corre o risco de dizer grandes asneiras. Apesar de quando em vez l√° sair uma‚Ķ
Agricultor - Um dia, a minha sobrinha, só para não ficar em casa a moer as saudades do rapaz, segundo tenho ouvido dizer um verdadeiro acrobata sexual, foi à terra ver-nos, a mim e à minha mulher e levou-nos a passear. Pronto! Foi o suficiente para a legião de escribas me atribuir o estatuto de professor e à Lilicas a profissão, familiar, é certo, de motorista!
Agricultor ‚ĒÄ Entretanto, meteram-nos um outro grau de parentesco pelo meio, dando-lhe a ela simultaneamente os estapaf√ļrdios nomes de Lilicas Cl√°udia ou, ainda, como queria j√° n√£o sei quem, Romualda Ant√≥nia, porque o nome n√£o interessava para nada. Eles queriam mesmo era gozar connosco.
Agricultor - De maneira que, como o senhor vê, andamos todos aqui a fazer figura de palhaços. De sobrinha, a Clara passou a sobrinha-neta, e até lhe chamarem ninfomaníaca insaciável não demorou mais do que 1000 caracteres de escrita em tamanho 12, a mais comum nos livros.
Agricultor - Mas mais grave foi levaram-me a cometer o mesmo pecado de difamação. Lá porque a rapariga gosta de, de, de… sabe como é… não era caso para dizerem tão mal dela. Ainda por cima, com tanta cor no cabelo! A personagem da Clara, alililada, mais parece um manequim do que uma pessoa de carne e osso!
Vejo o agricultor de novo agitado e, desta vez, parece-me, é a personagem do professor. Vou ver se consigo perceber mais qualquer coisa deste assunto:
- Senhor Agricultor…
Agricultor: - Mas qual agricultor qual quê! Agora estou no meu papel de Professor e devo informá-lo do seguinte: dentro em breve alguém há-de vir entregar-me um de três manuscritos que foram espalhados por esta terra, como quem planta pevides de abóbora-menina num campo. Tanto quanto sei pelo romance do meio, para lá destas duas mortas-vivas aqui esticadas à mesa, vai ter um cadáver fresquinho à porta, morto por um elemento de uma organização chamada Placas Tectónicas de um Mundo Novo. E, enquanto isso, lá terei eu de adiar os planos da descoberta do meu elixir!, olhe, se quer que lhe diga ainda não sei de quê!
Come√ßo a ficar preocupado com o rumo de tudo isto. Eu Gabriel, o anjo, um fot√≥grafo com um gosto especial por auras, com um cad√°ver √† porta? Nem por sombras! Posso ser mulherengo, proxeneta √†s vezes, mas meter-me com assassinos nunca! E, pelos vistos, a organiza√ß√£o de que este professor faz parte, a dos Recolectores Ambidestros de Infus√Ķes Venenos e Ant√≠dotos, n√£o √© para brincadeiras. Embora, por certas deixas, uma aqui outra ali, deva haver ainda uma terceira quadrilha‚Ķ
O melhor é falar com a mamã. Ela não irá contrariar a minha vontade de personagem com horror a cadáveres. De jeito algum quero assistir a um funeral nos próximos cem anos! Nem ao da minha mãe verdadeira, que ainda está rija como um salpicão de fumeiro.
A autora anui. Mas, para evitar o cad√°ver, assassinado sem cuidados nenhuns, nem, t√£o-pouco, requinte, ela aconselha-me a, mal eu pressinta algu√©m √† porta, falar em segredo com o candidato a morto e meter-lhe um bocado de batata recheada debaixo da l√≠ngua como se fosse uma pastilha de cianeto. Ao m√≠nimo perigo, ele deve entalar na garganta o peda√ßo de batata‚Ķ Apesar de eu saber, a mam√£ explicou-me, os fins da pastilha... No caso dos espi√Ķes, era destinada a funcionar em situa√ß√Ķes limite e quando fossem apanhados. Deviam suicidar-se antes de denunciarem quem quer que fosse, depois ou antes de serem torturados. Mas, aqui, o objetivo √© apenas um engodo para terceiros semelhante ao de Julieta quando tentou convencer as duas fam√≠lias de Verona, Capuleto e Montecchio, de que o amor entre ambos era de almas g√©meas incapazes de viverem uma sem a outra. Pobre do Romeu que n√£o percebeu o esp√≠rito da coisa‚Ķ Mas, visto por um prisma mais m√≠stico, nem tudo foi mau para ambos. Foram mais depressa para a eternidade fazer companhia aos anjos meus parentes, sem precisarem de aturar por mais tempo este mundo de ladroagem e de desmancha-prazeres dos amantes. L√° na It√°lia, o veneno deu para o torto, mas a mam√£ diz que aqui isso n√£o pode acontecer.

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« Responder #40 em: Julho 02, 2022, 22:38:32 »

Se a mamã diz, está dito. Siga a dança.
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« Responder #41 em: Julho 04, 2022, 16:09:03 »

Pergunto-me se ao menos n√£o hei-de ir dar o beijo na Lilicas, acordando-a. Era para ver se o mensageiro n√£o se assustava com as duas est√°tuas √† mesa ao melhor estilo da Piet√° de Miguel √āngelo, de bra√ßos ca√≠dos uma e outra como Jesus no colo de Sua m√£e‚Ķ Mas, acho melhor n√£o‚Ķ De contr√°rio, a confus√£o aumentaria. Pelo comportamento do velho, estou mesmo a ver a Lilicas a afirmar que ela √© que √© a Clara. E, se despertasse a Sarinha, haveria de acontecer precisamente a mesma coisa, acrescentando as duas, na melhor das coer√™ncias, que uma era a Clara Vinagre e outra a Clara Mel. Embora, no livro do meio, o mel da Claralili esteja reservado para mim e que a Clarasara, toda ela, √© mel destilado quando abrimos a refinaria e acendemos as luzes do sem√°foro.
O melhor é falar com o homem, o Professor ou lá quem é, enquanto ele continua a levar as mãos à cabeça por causa dos códigos roídos pelos ratos.
- Professor, pode-me dizer o que t√™m de t√£o importante esses manuscritos? Tenho fortes raz√Ķes para supor que esse arrazoado todo s√£o os cadernos do livro escrito pela mam√£ sobre o C√©sar e a Clara, tendo a Sara, depois, apontado num deles a receita das batatas recheadas em latim.
Professor:-Nada disso. S√£o textos muito antigos, presumivelmente do tempo de Jesus, e andam duas organiza√ß√Ķes atr√°s deles. Uma delas √© a minha e representa o bem (Somos os Recolectores Ambidestros de Infus√Ķes Vacinas e Ant√≠dotos). A outra √© a das ‚ÄúPlacas Tect√≥nicas do Mundo Novo‚ÄĚ, que encarna o mal. Eles querem adquirir um poder maquiav√©lico para destruir o planeta, mal se verifiquem alguns sinais do g√©nero que o apocalipse pronunciou. Mas, e o mensageiro que nunca mais chega! Com tanta gente a procurar os manuscritos, onde trar√° o dele guardado?
De repente a minha imagina√ß√£o deu um salto de qualidade, e vejo o papiro, ou l√° o que √©, junto aos √≥rg√£os genitais do desconhecido mensageiro, enrolado com um pequena fita vermelha e escrito em letra l√ļcida calligaphy. √Č um bom s√≠tio para esconder um rolinho. Nenhum homem, com medo de que algu√©m duvidasse da sua masculinidade, se atreveria a, por muito interessado que estivesse em rel√≠quias, fazer uma revista minuciosa a um s√≠tio do corpo de outro homem t√£o √≠ntimo e delicado.
Sempre quero ver a esperteza do homem, digo agora eu. E acho que vou até à porta da rua já com um pedaço de batata na mão de atalaia para enganar o assassino, como a autora me aconselhou, caso apareçam as duas próximas visitas programadas para esta terra.
Entretanto vou ainda perguntar ao velho se sabe como é que iria ser o fim do seu correio expresso.
- Então Professor, o senhor, depois de ter andado no romance do meio e ter sido um grande produtor de couves e grelos, quando era simplesmente o tio da Clara, tem a noção de como é que o homem iria morrer?
Professor: - Tenho! Iria morrer de susto!
- De susto, Professor?!...
Professor - Sim, de susto! Assim: Bu!
Não me contenho e aqui vai a minha gargalhada, que se prolonga alguns instantes, com o velho espantado e pensando. provavelmente, como é que uma pessoa como eu, mesmo à beira da morte, consegue rir assim tão desassombradamente.
Entretanto olho para o p√°tio da entrada e vejo um homem a tentar abrir o port√£o. √Č, com toda a certeza, o mensageiro, e, enquanto o Professor vai √† casa de banho fazer chichi, aproveito para dizer ao ouvido do senhor:
- Confie em mim…
O homem permitiu que eu lhe colocasse o bocado da batata recheada sob a l√≠ngua, mas, como n√£o houve tempo para muitas explica√ß√Ķes, acabou por deix√°-la escorrer at√© √† garganta involuntariamente, enquanto cai no solo, ouvindo-se ao mesmo tempo no ar o som de um bal√£o a rebentar. Assustei-me bastante, confesso. Raz√£o tinha o Professor para dizer que aquele improvisado Deus Merc√ļrio iria morrer de susto.
Depois ainda vi um vulto a fugir, quase t√£o atordoado como eu com aquele inusitado morteiro.
A minha primeira preocupação foi se deveria ou não dar o beijo na boca a mais uma Branca de Neve com calças, e, com medo de que a criatura, ao acordar, pensasse mal de mim, antes de o Professor chegar da casa de banho, fiz de imediato a tentativa de descobrir onde o mensageiro transportaria o manuscrito.
Após algumas voltas e reviravoltas no belo adormecido, não havia maneira de encontrar o papiro. A ponto de ter pensado na hipótese de o falhado assassino, num golpe de magia, o ter levado.
Perante o meu insucesso, achei por bem aguardar a chegada do Professor, do Agricultor ou fosse lá quem fosse, para, juntos, fazermos uma vistoria ao homem da cabeça aos pés. Temia também, nesta nova personagem, depois de a ressuscitar, que ela ficasse com mais umas quantas personalidades para eu aturar, revelando-me entretanto verdades tão incómodas como as de alguns dos candidatos de certos concursos da televisão nos big brothers de todo o mundo. Nunca fui curioso…
Quando o Professor regressa, reconhece no homem um grande amigo, ao mesmo tempo que dá graças a Deus por a mamã ter temperado as batatas recheadas com a Jurema.
- N√£o encontrei o manuscrito‚ĶE agora, Professor?! ‚Äď pergunto, a medo, sem saber muito bem quem tenho pela frente.
Professor: - Agora, como n√£o conv√©m acord√°-lo de imediato, sob pena de lhe causarmos les√Ķes cerebrais irrevers√≠veis, vamos ter de despir o pobre do meu amigo. Algo me diz que, mesmo no caso de ser apanhado, n√£o seria roubado assim muito facilmente‚Ķ O manuscrito deve estar a salvo...
Começámos por tirar os sapatos e as meias ao morto de faz-de-conta. Fomos depois para a zona do casaco e da camisa e, quando o peito já estava sem roupa, verificámos, com enorme espanto, que o manuscrito era ele próprio, escrito com tinta negra de tatuagens, com comentários laterais e notas a vermelho, com a facilidade que as frentes de um canhoto representam para si próprio como caderno de apontamentos.
O Professor, trémulo como um caloiro de Medicina, sobre o peito daquele mostruário humano, lê o seu nome e emociona-se ainda mais por pensar que, finalmente, vai saber o comprimento do pénis do seu amigo. Ele sempre se gabara de ter sido imensamente bafejado pela natureza…
Hoje, o velho, como se fosse um pintor famoso no seu atelier cheio de modelos, ter√° pela frente um nu integral, de onde ter√° de copiar os caracteres escritos mesmo em letra L√ļcida Calligaphy. S√≥ assim ter√° acesso ao conte√ļdo da mensagem para a poder guardar em s√≠tio seguro. N√£o vai, sempre que precisar de saber elementos, obrigar o amigo a despir-se. E eu, Gabriel, o anjo, devo ser mesmo um iniciado para prever tantas coisas, tal  como o tipo de letra usado na comunica√ß√£o‚Ķ Mas ainda n√£o iniciei o curso de l√≠nguas mortas‚ĶO Professor que se arranje com a descodifica√ß√£o‚Ķ
O nosso h√≥spede, depois de ir √† cozinha buscar umas folhas de papel pardo, iguais √†quelas em que a Sara traz os peda√ßos de broa quando vai √† padaria, passou uma boa parte da noite a transcrever o latim gravado no corpo do amigo, soltando de vez em quando umas exclama√ß√Ķes: ‚Äún√£o √© poss√≠vel!...‚ÄĚ ‚ÄúEu tenho raz√£o!...‚ÄĚ Qual Maria Madalena qual carapu√ßa!...‚ÄĚ E como, nesse dia, o Professor estava farto de receitas, se vislumbrou alguma no livro ambulante n√£o se referiu a ela.
Depois da c√≥pia ‚Äď foi pena n√£o haver no solar um fotocopiador gigante‚Ķ ‚Äď sem me permitir perguntar ao velho acerca das conclus√Ķes sobre as partes √≠ntimas do morto-vivo, eu, que devia ir deitar-me, sobretudo por causa da minha h√©rnia discal e da minha palidez. acentuada pelos acontecimentos da noite, dou comigo a pensar no que fazer com o trio. Que destino iria dar √†s duas mulheres e ao homem? Na quest√£o da vida, todos estavam mais ou menos em banho-maria. N√£o eram mortos, mas tamb√©m n√£o eram verdadeiros vivos‚ĶSob o meu ponto de vista, era necess√°rio ressuscit√°-los o quanto antes, embora, se tivesse de ser eu o autor do despertar, pelo menos num caso, me fosse um bocado penoso servir de pr√≠ncipe.
Por isso decidi perguntar ao Professor o que deveríamos fazer.
Foi quando me apareceu pela frente o Agricultor a dizer que a Clara tinha de ser acordada para confirmar a vers√£o dele.
Agricultor: - Porra! Estou farto de andar em livros, disfarçado daquilo que não sou! Dê imediatamente um beijo nessa Lilicas aí pendurada na cadeira, porque quero ter o quanto antes a Clara de volta!
Fiquei assustado com a mudan√ßa repentina do velho, e, para o acalmar, disse-lhe que n√£o precisava de recorrer ao cal√£o para as suas palavras surtirem efeito. Foi quando ele afirmou ter sido a palavra ‚Äúporra‚ÄĚ, pela qual eu o repreendera, oriunda do livro inicial, e que, na obra do meio, tinha sido at√© menosprezada como recurso liter√°rio. Embora os autores tivessem depois usado e abusado dela, s√≥ por linear e simples chacota‚Ķ
Saltando de novo para a vida da verdadeira Clara e para a ‚Äúporra‚ÄĚ, ter√° sido o padrinho de C√©sar quem a proferiu, na altura em que C√©sar foi projetado para gente l√° no coro da igreja, quando o padrinho dele rasgara as cal√ßas no traseiro ‚Äď disse o Agricultor
Pelo local onde a ‚Äúporra‚ÄĚ foi dita, digo eu, a palavra teria, se calhar, adquirido uma vibra√ß√£o m√≠stica. Diria mesmo, b√≠blica. Apesar de no primeiro romance haver algum sexo intenso, mas sem, nem de perto, nem de longe, encher o livro, havia tamb√©m muitos Cristos e m√£es do tipo Maria Madalena. Devia ter sido por isso que os senhores parodiantes se lambuzaram com a hist√≥ria a ponto de meterem o Agricultor a executar fun√ß√Ķes para as quais nem ele sabia se estaria preparado. Como as de professor de n√£o sei o qu√™ e pesquisador de elixires, tamb√©m nem ele sabia quais. A menos que os autores tivessem de recorrer a aditivos artificiais para lhe estimularem a sensibilidade, o intelecto e a paranormalidade. Mas ele, enquanto Agricultor, nunca sentira nada disso a manifestar-se. Apenas lhe parecia que anormais eram as pessoas que se dedicavam a esquartejar romances alheios s√≥ para darem trabalho √†s personagens. Principalmente a um velho como ele, habituado ao bucolismo de uma pacata aldeia e apto apenas a lidar com vegetais e tub√©rculos, quando n√£o dava pequenos passeios de autom√≥vel com a sobrinha.
Entendo as raz√Ķes do homem. Mas, por agora, seria melhor, dadas as circunst√Ęncias, ter pela frente o Professor. Contudo, arrisco-me ainda a perguntar por que queria o Agricultor ver a Lilicas desperta em primeiro lugar, sendo, como ele disse, as duas, ela e a Sara, a mesma pessoa, ou seja, Clara.
Agricultor: - Porque assim, uma vez que estamos a lidar com uma quantidade de venenos, ver-nos-íamos livres de um… Não é a Lilicas ou lá o que é, uma verdadeira serpente?
Mais uma vez desato a rir a bandeiras despregadas. A criatura teve graça…
Mas eu queria mesmo de volta o Professor. Dou por isso um abanão na cabeça do meu interlocutor a ver se consigo solucionar ao menos parte da tríplice questão e deste cemitério improvisado em que se tornou a minha casa.
Reconhe√ßo de imediato a personalidade do meu catedr√°tico e pergunto-lhe o que vamos fazer a seguir. Responde-me que at√© ele, com uma s√©rie de coisas para fazer num outro contexto e com altera√ß√Ķes constantes na nova trama, assim ficar√° um bocado encalacrado. N√£o tenho outro rem√©dio sen√£o recorrer √† mam√£.
Com ar de zangada, ela é peremptória. Havendo um homicídio, pelo menos na forma tentada, além do mais perpetrado por um desconhecido, não há outra coisa a fazer senão chamar a Polícia Judiciária. Mas que ninguém se lembre de mandar vir um homem a gozar em plenitude uma merecida uma reforma, depois de anos e anos a mexer em cadáveres e a descobrir criminosos de todo o calibre. Sobretudo um que ela conhece muito bem, de quem dizem ter pele de goês e gosto por pornografia. Só porque sempre gostou muito de mulheres… Além de ter uma deferência especial por camisas pretas (Era, ao menos quanto a sexo, parecido comigo e com o meu irmão César, digo eu. E que mal haverá nisso?).
Lembro à autora um dado essencial: se não for o ex-polícia do romance do meio, certa personagem ficará com um problema entre as mãos. Refiro-me, obviamente, à Lilicas. No caso de uma mudança no investigador de serviço, como irá ela tentar curar uma impotência como há largas páginas lhe foi prometido?
A m√£e promete arranjar um outro investigador para o lugar do aposentado. E, esse sim, pode muito bem gostar de vasculhar nas montas das livrarias as revistas pornogr√°ficas. √Č conhecido como o homem do porta-chaves.- Est√° decidido! - Disse a mam√£, convictamente. - √Č esse senhor que, estando hoje de piquete, vai ter de lidar com o assunto do Homem-Pergaminho. J√° fiz a liga√ß√£o telef√≥nica e, dentro em breve, teremos aqui uns inspectores a fazer perguntas.
Ocorreu-me agora que dever√≠amos vestir o nosso Merc√ļrio, a fim de ele n√£o morrer de hipotermia. E, olhando para o Professor, pensei que poder√≠amos disfar√ßar o falso defunto com as roupas do velho. Sobretudo com a gabardina, embora ela j√° n√£o tenha, nem c√≥digos, nem a protec√ß√£o dos banhos turcos. Mas sempre pode dar maior credibilidade √† situa√ß√£o.
Sugeri isso ao mestre e este responde:
Professor: - De quem se dizia que n√£o passava quase de um retardado mental, n√£o est√° nada mal‚Ķ Mas, isso levaria, ali√°s, vai mesmo ter de ser, a outras altera√ß√Ķes na hist√≥ria. E n√£o est√° mal visto, n√£o senhor‚Ķ
O Professor come√ßou por descal√ßar os sapatos, seguiram-se as pe√ļgas de onde se desprendeu um intenso aroma a queijo franc√™s, vieram depois a camisa, as cal√ßas e o velho alquimista j√° estava de cuecas. Simultaneamente, olh√°mos um para o outro, enquanto perguntava a mim pr√≥prio se, pra acordar o mensageiro, n√£o seria melhor esperar por um acaso fortuito como o do pr√≥prio Professor, um pequeno abanar de miolos que despertasse daquele sono for√ßado o nosso inerte manequim de carne e osso, pesado como chumbo. Disso sab√≠amos n√≥s. T√≠nhamo-lo despido de cima a baixo, como se estiv√©ssemos a esfolar um grande coelho, ap√≥s o termos arrastado para dentro de casa como se ele fosse um saco de areia. A seguir, explicar√≠amos ao falso morto as raz√Ķes da troca - dizia de mim para mim.
Depois de pensarmos um pouco, para evitarmos o embaraço da criatura, optámos por vesti-lo com as vestes do amigo quando ele era ainda morto-vivo, enquanto o Professor começava a envergar as roupas do mensageiro e ficava com a meia preta e um bocado da perna à mostra. Era um mais alto do que o candidato a assassinado, e ficou a parecer um espantalho. Quase me ri na cara dele.
Por fim, o Professor ordenou-me:
Professor: - Como ele n√£o se mexe, trate de aprimorar o seu melhor ar de pr√≠ncipe e aplique-lhe a mesma receita da Branca de Neve. Se for preciso, mostre-lhe tamb√©m o seu lado de anjo. Mas s√≥ em √ļltimo recurso, n√£o v√° ele julgar-se morto e pensar at√© que est√° mesmo no c√©u!

Continua, Nac√£o Valente
« Última modificação: Julho 04, 2022, 20:58:27 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #42 em: Julho 10, 2022, 19:11:10 »

Manuscrito humano?
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« Responder #43 em: Julho 10, 2022, 19:19:13 »

Evidentemente, nação valente.

A Clara já não casou cedo. Além do mais, não logrou com isso grandes prazeres, pudesse embora o Paulo ter sempre feito um bom teatro nas alturas cruciais:
‚Äď Oh! meu amor! Oh!, como me sinto o mais ditoso dos homens, quando os nossos fluidos se encontram na s√ļmula sagrada cria√ß√£o b√≠blica. Oh!, que luz e sedu√ß√£o irradiam do teu corpo, minha deusa do Olimpo, a mais maravilhosa das criaturas existentes entre o c√©u e a terra! Como sou feliz! Amo-te tanto! O nosso amor foi talhado no c√©u, a golpes de luar, com o aval de todas as estrelas e a assinatura do Sol representando Deus, que, logo no nascimento, tra√ßou o nosso destino! Oh!...
Vá leitor, junte-se à minha à gargalhada, esbanjada com um prazer dos diabos, enquanto imagino a cara de delambida da minha irmã a revirar os olhos e a pensar que morreu no fim da peça, quando, afinal, não passou de uma actriz completamente enganada. E, além do mais, uma actriz de segunda categoria.
Aqui e agora, s√≥ porque Gabriel √© um inexperiente em arte dram√°tica, Clara quer despejar sobre ele todas as frustra√ß√Ķes, usando terceiros inocentes para descobrir com que cobertores o meu anjo se embrulhou na inf√Ęncia, no tempo das fraldas e do ranho, e com quantas mulheres se deitou? Haja santa paci√™ncia! L√° porque o rapaz, mesmo nos quarenta e cinco anos da literatura inicial, quando os dois se encontram pela primeira vez, possui em casa uma central telef√≥nica onde as chamadas femininas fazem fila, n√£o √© caso para tanto! Mesmo tendo as raparigas de esperar para serem atendidas! √Č uma b√™n√ß√£o para qualquer mulher ir ao quarto de C√©sar e √† presen√ßa dos Cristos. E, por isso e mais alguma coisa, n√£o √© raz√£o para lhe fazerem uma devassa √† vida desde que nasceu. Sobretudo porque nunca ningu√©m sabe onde uma investiga√ß√£o de natureza t√£o s√≥rdida pode levar. Al√©m do mais, qual o meu interesse em desencantar uma tal woman in red para desencovar as mis√©rias antigas de C√©sar antes de nos encontrarmos neste cruzamento da vida? E, depois, que me importa se ele, na opini√£o da Carolina, √© ou n√£o o maior pervertido do planeta, qui√ß√° do sistema solar inteiro? Quero l√° saber do rasto dele, em que se incluem dois filhos e a ex-mulher, a Patr√≠cia! At√© por esta, h√° pouco, ter padecido de um tumor na cabe√ßa, e a quem, sinceramente, desejo as melhoras. Ela n√£o deve ir para casa do nosso Pai sen√£o na altura devida.
Falando do Pai, estou obviamente a falar de Deus, porque, quer queiramos quer n√£o, Ele ainda √© o Presidente do Universo. Como todos sabemos, uns melhor e outros pior, o Al√©m √© um enorme √≥rg√£o colegial onde existem pelo menos tr√™s reparti√ß√Ķes importantes: o c√©u, o purgat√≥rio e o inferno. Porqu√™ sujeitar-me ent√£o a ir procurar pessoas das antigas rela√ß√Ķes de C√©sar se a Clara, l√° no outro livro, j√° fez essa figura de parva, quando se apresentou √† ex Carolina e ambas cortaram na casaca do meu anjo como quem est√° a esquartejar cad√°veres? N√£o basta o que fizeram os ‚Äúparodiantes‚ÄĚ ao esfrangalharem o primeiro livro da mam√£ para ver qual a ponta por onde nos podiam agarrar? Al√©m disso julgam que vou a casa da leg√≠tima ex, a Patr√≠cia, fazer figura de ursa, macaquinha de circo, ou at√© de trapezista sem rede para me esborrachar no lajedo? Trapezista j√° fui uma vez. ‚ÄúTrapezista‚ÄĚ era uma das minhas muitas alcunhas do livro do meio, quando era motorista do meu tio-av√ī. E, sobretudo, n√£o se esque√ßam que o carro √© dele‚ĶPor tudo isto, nem pensar em semelhantes coisas! At√© porque n√£o me interessa conhecer as queixas de uma ex como outra qualquer, ressabiada por o meu amor escrever poemas nos guardanapos de papel, nas esplanadas, a todas as mulheres com quem se cruzava e com quem poderia divertir-se. N√£o preciso, nem quero, perguntar nada a ningu√©m. Sob pena de anular a minha reputa√ß√£o de mulher luciferina. Eu, como o infernal patr√£o, tenho conhecimento das coisas por vias n√£o convencionais. Para substituir o telefone tenho a telepatia, para me locomover uso o teletransporte e a invisibilidade, que, no mesmo instante do tempo terr√°queo, me colocam, a mim, criatura celestial, embora moradora nas catacumbas, em todos os locais do universo. O carro do velhote √© apenas um disfarce. E Deus nos livre de algu√©m saber que nem sequer a carta de condu√ß√£o tenho‚Ķ Como poderia uma Lilicas Cl√°udia, loura e burra, de acordo com o papel que me cumpre representar, aprender as curvas e contracurvas do C√≥digo da Estrada? Curvas por curvas, bastam-me as minhas. Sou boa como milho quando, se tiver um parceiro √† altura como o meu querido Gabriel, vai tudo a direito. A ponto de p√īr um quarteir√£o inteiro a coitar por auto-sugest√£o.
Depois, se Gabriel ainda est√° aqui a meu lado, a ensaiar mentalmente o que h√°-de dizer √† Sara quando chegar a casa a prop√≥sito da ‚Äúida‚ÄĚ a Coimbra, como poderei telefonar-lhe a dizer que eu, Lilicas (ou Clara) fui fazer exames m√©dicos, incluindo ao HIV, indo depois mostr√°-los ao consult√≥rio de uma doutora parecida com a querida mulher do meu anjo, com o mesmo ar arrapazado da Sarinha e, acima de tudo, com a mesma especialidade cl√≠nica dela? Se pudesse fazer aqui uma remiss√£o para o livro inicial veriam que, de facto, a Clara, um dia, foi ao m√©dico saber se tinha alguma doen√ßa ruim. Mas, como n√£o posso referir-me ao passado, nada mais acrescento no presente. Deixo apenas umas pequeninas retic√™ncias‚Ķ
Por aqui, por estas bandas, a l√≥gica √© a mais pura das batatas, as mesmas batatas de que, algures num outro livro, h√° uma receita com recheio, escrita no verso de pelo menos um manuscrito, datada, segundo alguns membros de um gangue, do tempo de Maria Madalena, a quem atribu√≠ram a autoria da receita (n√£o do manuscrito‚Ķ) metendo os autores, depois, os p√©s pelas m√£os quanto √† data√ß√£o do mesmo e da receita. Vieram, entretanto, com a desculpa de que n√£o podia ser, por causa de, nessa altura, os tub√©rculos n√£o serem conhecidos na Europa. Os tontos nem sequer equacionaram a hip√≥tese de as batatas serem uma das esp√©cies de semente que No√© guardou na grande arca aquando do dil√ļvio, e que, devido √† humidade, ganhou grelo, apressando-se ele a lan√ß√°-la √† terra mal parou de chover.
Depois, foi um segredo bem guardado…Nessa altura Noé, reforçando a inspiração de ter construído a arca metendo dentro tudo o que lá meteu, entendeu o facto como um sinal de Deus. Deus não iria, ao menos dessa vez, levar por diante a ideia de um apocalipse regado a chuva. De outra forma, se não houvesse em breve terra firme e seca para lançar a batata grelada à terra, Deus antes a teria deixado apodrecer. Entretanto só as pessoas com forte ligação a Jesus comiam batatas, recheadas ou não, porque elas, depois do que acontecera na arca, tinham um poder sagrado. Potenciavam a capacidade de fazer milagres. Sobretudo em caldeiradas de peixe. Os peixes sempre foram um verdadeiro símbolo de Cristo, embora Jesus preferisse o pão com ou sem manteiga.
N√£o devia dizer isto, mas eu e o meu tio-av√ī estamos enterrados nesta hist√≥ria at√© ao pesco√ßo. Ele √© um dos mentores do clube dos Recolectores Ambidestros de Venenos Vacinas e Ant√≠dotos, embora eu seja apenas uma esp√©cie de bobo da corte. Para alguns um agente duplo, dado ter uma rela√ß√£o pr√≥ matrimonial com um membro de um gangue que o meu tio-av√ī e os comparsas querem derrotar.
Agora eu, Lilicas Cláudia, desço finalmente do Jipe onde fui ao céu com o meu anjo. Ambos causámos enorme surpresa em toda a legião dos serafins, anjos, querubins e santos, que, à revelia do Altíssimo e imitando a curiosidade dos terráqueos, não deixaram - vi muito bem - de espreitar para dentro da viatura, quando o meu amor exercitava a gramática da Escola César/Gabriel. Apesar de eu, desta vez, por o local ser um pouco exposto aos olhos do mundo, apenas ter lançado pequenos ais e uis em falsete para não acordar os animaizinhos da terra, uma vez que eles são todos dotados de ouvidos capazes de captar os mais ínfimos decibéis seja qual for a origem do barulho.
Gabriel j√° est√° vis√≠vel e bonito como sempre, dirigindo-se √† porta de casa. Vou ver se, indo por atalhos ou, mais concretamente, por teletransporte, consigo chegar antes dele, fingindo entretanto uma grande surpresa quando a Sarita no-lo apresentar, a mim e ao meu tio-av√ī.
A mamã diz-me que já está mais contente comigo. Indiretamente, é certo, mais lá fui tirando para fora as fraldas à vida de César, tal como ele há pouco tirou as da camisa. Os nossos propósitos são sempre os mesmos: coitar. Oh! e como nós ficamos felizes e olimpicamente bem coitados! Coito assim há só um…

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« Última modificação: Julho 11, 2022, 13:04:54 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #44 em: Julho 17, 2022, 16:13:33 »

Coitos na terra e no céu? E pobres dos anjos, que consta não terem sexo?
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Setembro 05, 2022, 13:39:27
Brevemente, novidades por aqui!
Setembro 05, 2022, 13:38:48
Boa tarde
Outubro 14, 2021, 00:43:39
Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Ol√°! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Ol√° para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Ol√° para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
Março 05, 2021, 20:17:07
Bom fim de semana para todos
Março 04, 2021, 20:58:41
Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Fevereiro 22, 2021, 16:41:57
Boa tarde a todos.
Fevereiro 18, 2021, 20:52:07
Boa noite a todos.
Fevereiro 17, 2021, 19:09:25
Boa quarta para todos.
Fevereiro 16, 2021, 19:10:20
Boa noite a todos os presentes.
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