EscritArtes
Dezembro 05, 2022, 23:59:21 *
Olá, Visitante. Por favor Entre ou Registe-se se ainda não for membro.

Entrar com nome de utilizador, password e duração da sessão
Notícias: Regulamento do site
http://www.escritartes.com/forum/index.php/topic,9145.0.html
 
  Início   Fórum   Ajuda Entrar Registe-se   *
Páginas: 1 2 3 [4] 5   Ir para o fundo
  Imprimir  
Autor Tópico: A S√°tira do Livro Roubado  (Lida 10063 vezes)
0 Membros e 2 Visitantes estão a ver este tópico.
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1120
Convidados: 0



« Responder #45 em: Julho 18, 2022, 10:36:29 »

Coitados, mesmo


Parece j√° n√£o haver d√ļvidas de que o livro do meio s√≥ est√° escrito daquela maneira devido √†s personagens da mam√£. O livrito dos pantomineiros, com tantos exemplares vendidos, at√© poderia ter o mesmo t√≠tulo, mas nunca por nunca teria aquela trama se n√£o fosse gente de papel como a velha coscuvilheira do andar de cima da casa de C√©sar, a sensualidade de Clara e do mano C√©sar (ou de mim pr√≥prio, j√° agora, quando tinha quarenta e cinco anos, antes do tempo e da idade que tenho agora terem andado para tr√°s). Os ingredientes estavam l√° todos. A come√ßar por uma m√£e mais ou menos pecadora e parecida com Maria Madalena por quem C√©sar tinha verdadeira adora√ß√£o; um pai bo√ßal que se expressava, em grande parte das situa√ß√Ķes da vida, com essa mesma bo√ßalidade herdada por C√©sar; um padrinho que, por causa de umas cal√ßas rasgadas, teve a espontaneidade de dizer ‚Äúporra,‚ÄĚ para terceiros glosarem em circunst√Ęncias distintas num livro do futuro. E j√° para n√£o falar em express√Ķes como macaquinho, ou o meu coment√°rio de n√£o ter culpa de ser bonito, t√£o id√™ntico √†quele em que C√©sar, meditando, dizia para com os seus bot√Ķes serem-lhe as mulheres mais ou menos indiferentes por j√° ter andado com milhentas. Tudo para o achincalhamento de uma escritora que s√≥ n√£o foi gratuito porque todos se fartaram de ganhar dinheiro √† nossa custa.
Depois, eram os Cristos no quarto de C√©sar, a inf√Ęncia de C√©sar, a vida pecaminosa de C√©sar, o A C√©sar o que √© de C√©sar por a√≠ adiante‚Ķ
A mam√£ diz-me para me deixar de conclus√Ķes, ainda mais ou menos precipitadas e d√°-me um pequeno raspanete. Atira-me √† cara que j√° estar a ver h√° muito as minhas prefer√™ncias pelo primeiro livro. N√£o √© mentira nenhuma‚Ķ Provavelmente, tudo se deve √† circunst√Ęncia de eu ser sens√≠vel, talvez por causa da minha perene palidez e por ter horror a cad√°veres. Tamb√©m n√£o posso com assassinos, embora haja l√° no livro primog√©nito um morto. Logo eu, mas na pele do mano mulherengo. O meu fraco √©, sem sombra de d√ļvida, pela primeira hist√≥ria. 
A minha m√£e liter√°ria ordena-me com voz √°spera para n√£o perder tempo. H√° ainda muito trabalho pela frente. E, apesar de, na v√©spera, ela ter quase dado a entender ao Professor que ele hoje n√£o iria √† biblioteca dos livros vindos do Brasil na bagagem de um homem ilustre da terra, como castigo pelas suas ‚Äúbocas, ‚ÄĚ ter√° de ir l√°.
Se não houver mais contratempos, vou ficar em casa com duas mulheres ainda meio atordoadas com o efeito da Jurema. O mesmo vai acontecer com o prisioneiro do quarto dos fundos, partilhado com o Professor ou com a alma gémea deste, que, pelos vistos, é um Agricultor dos antigos.
A verificar-se a intermit√™ncia das personalidades, entrando e saindo na pele umas das outras, o meu dia promete ser movimentado. Tendo aqui tr√™s mulheres distintas e uma s√≥ verdadeira como a trindade divina, cada uma a mostrar as suas acrobacias na cama, vai ser bonito. Uma a ligar o sem√°foro, outra a imaginar vergastar as minhas costas com o comprido chicote onde a minha h√©rnia se ressentiria com os verg√Ķes, e outra ainda a dizer que quer morrer nos meus bra√ßos se, por acaso, n√£o cristalizar nos per√≠odos em que queria matar o C√©sar com sida, com hepatite B ou l√° o que √©. Eu e o mano velho somos tamb√©m uma √ļnica personagem. Mas, neste momento, isso n√£o interessa para nada.
O Professor j√° saiu de casa. Queira Deus que n√£o mude bruscamente de Professor para Agricultor. At√© porque, n√£o conhecendo esta terra, o homem da hortali√ßa poder√° perder-se pelos caminhos do Portugal rural onde os campos de milho crescem em extens√£o, abund√Ęncia e, quase poderia dizer-se, malignidade.
A minha Sarinha, depois do pequeno-almo√ßo, parece estabilizada nela pr√≥pria. Diz-me que vai dar um passeio e n√£o a posso impedir. √Č mesmo melhor ela n√£o estar aqui at√© eu conseguir arranjar uma hist√≥ria veros√≠mil (ou mesmo a hist√≥ria verdadeira‚Ķ) para justificar a presen√ßa do Pombo-Correio c√° em casa antes de ela o descobrir.
A Lilicas tem passado estes √ļltimos instantes a retocar as unhas das m√£os e dos p√©s, ainda de roup√£o vermelho vestido. Como est√° ainda meio tonta, olha para mim como se tivesse dormido um sono de s√©culos, atroando o ar com roncos nocturnos que a deixaram ap√°tica e sensaborona. Ainda bem. Basta ter de a aturar logo √† noite, se ela entretanto recuperar da letargia.
Sara j√° regressou. Passou pouco mais de hora e meia desde que saiu e vem aflita. Informa-me do rapto do Professor e diz-me que, de quanto ela tem conhecimento do livro do meio, foi o Antiqu√°rio, o meu patr√£o das fotografias. N√£o sabe para onde o levaram e tamb√©m n√£o quer saber. Afinal, o homem deixou-a preocupada com a minha sa√ļde quando foi a ponto de insinuar ser a minha palidez uma esp√©cie de morte anunciada.
A Lilicas parece n√£o dar por burro nem por albarda. Nem mesmo por causa do tio-av√ī estar por esse mundo de Deus, num lugar l√ļgubre, qui√ß√° com uma morda√ßa na boca e at√© com algemas nos punhos. J√° para n√£o falar num eventual arraial de pancadaria no corpo mo√≠do de onde sobressai a cara de figo seco com que Deus o malfadou.
Digo √† minha queria mulher para se acalmar e pe√ßo licen√ßa √† autora para fazer um pequeno intervalo. Nesta altura dos acontecimentos, a Sara estar√° em melhores condi√ß√Ķes para descodificar o sentido das coisas. Sendo desta terra, tem por for√ßa mais conhecimento da vizinhan√ßa e poder√° at√© ajudar na investiga√ß√£o. Ser√° melhor a mam√£ n√£o deixar√° surgir nela a personagem de Clara, por me parecer que a da minha mulher, neste momento, lhe deva ser mais √ļtil. A mam√£ tem um excelente sentido de oportunidade.
Estou liberto. Sara vai substituir-me por alguns instantes. Que nunca a inspira√ß√£o lhe acabe. J√° come√ßo a ficar farto de tudo‚Ķ                                             







Contínua
« Última modificação: Outubro 12, 2022, 16:34:38 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1228
Convidados: 0


outono


« Responder #46 em: Julho 24, 2022, 16:15:40 »

"O bicho homem nunca mais aprende"...pois só aprende o que lhe dá jeito, e nisso é perfeito na imperfeição. Grande César.
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1120
Convidados: 0



« Responder #47 em: Agosto 12, 2022, 18:59:47 »

Pois não, só na cova....


‚Č°


Sara

Não sei o que me passou pela cabeça, estou meia zonza. E, de hora a hora, sinto-me mais preocupada com a palidez do Gabriel.
√Äs vezes, quando me lembro de quem me alertou para a situa√ß√£o, o Professor, fico um pouco revoltada. Mas, depois, refletindo bem, devo agradecer-lhe o aviso. Assim poderei procurar ajuda junto dos meus colegas, uma vez que as doen√ßas infecto-contagiosas, a minha especialidade, pouco me poder√£o ajudar no diagn√≥stico. Para mim, vis√≠vel, vis√≠vel, s√≥ mesmo a h√©rnia que lhe atacou os lombares. Todo o resto passa-me um pouco ao lado. √Č o drama da especializa√ß√£o‚Ķ n√£o d√° duas para a caixa bem dadas no resto do card√°pio das doen√ßas. Gabriel, por sua vez, tamb√©m n√£o ajuda nada com aquela atitude de n√£o ligar minimamente ao assunto.
Hoje procurei ‚Äúo Gordo‚ÄĚ, o meu colega, que, tal como a Clara antes de largar o tabaco por causa da asma de C√©sar, fuma como uma chamin√©. O Gordo farta-se de dizer mal do velho,  que agora me encheu os ouvidos com os supostos males de Gabriel. A ponto de ele o achar uma esp√©cie de bruxo, at√© com o suic√≠dio de uma rapariga √†s costas inclusivamente, l√° por causa dos m√©todos nada ortodoxos de diagn√≥stico,  antes de o expulsarem do necrot√©rio liter√°rio onde prestava servi√ßo.
Se me perguntarem quem √© esta gorda personagem masculina, digo que se trata de uma manta de retalhos. Neste caso, de peda√ßos de papel. Se a tal organiza√ß√£o das Placas Tect√≥nicas do Novo Mundo lhe paga as despesas, telem√≥veis, portagens, almo√ßos e desloca√ß√Ķes, isso torna-a id√™ntica a C√©sar, o ex da minha irm√£ Clara. O C√©sar, agora meu marido com o nome de Gabriel, da funda√ß√£o onde trabalhava,  usufru√≠a das mesmas benesses que o ‚ÄúGordo‚ÄĚ recebe pelos seus trabalhinhos. A diferen√ßa √© a proveni√™ncia do dinheiro. No caso do monte de banhas a massa vem de um Antiqu√°rio, um morador numa zona chique do pa√≠s e objecto de constantes provoca√ß√Ķes, como aquele mais ou menos depreciativo ‚Äúqueque ‚ÄĚ, a que j√° se habituou a resistir mesmo vindo do ‚ÄúGordo‚ÄĚ. Este colega e meu antigo apaixonado n√£o deixa de ser um complexado. Para se sentir gente, teve at√© de se inscrever na Organiza√ß√£o das Placas. Julga poder vir a dominar tudo e todos, se algum dia os Tect√≥nicos descobrirem os planos da p√≥lvora seca, que supostamente tem Jesus como detonador. Esta obesidade ambulante n√£o sabe como fica rid√≠cula com o colar das pedras preciosas, certamente furtadas do manto e da coroa da Nossa Senhora das Sete Cabecinhas. E se o Professor, que me incutiu na cabe√ßa o mal do meu marido, √©, ou pode ser, um vigarista, este outro bando a que o Gordo pertence n√£o deixa der ser igualmente uma quadrilha de ladr√Ķes.
Depois, a rapariga com quem ele vive, a que trabalha l√° no bar do hospital, √© semelhante √† √ļltima namorada do meu marido, antes de ele morrer com hepatite num hospital l√ļgubre, quando andava noutra dimens√£o, quando tinha quarenta e cinco anos e biscates a torto e a direito. A mo√ßa, minha ex concorrente, especializara-se em alcova num bordel espanhol. A dita rapariga √© a mulher do Gordo, que se intitula como mais uma licenciada desempregada que sempre quis agarrar um doutor de verdade. Entre ela e a Lilicas n√£o h√° grandes diferen√ßas‚Ķ E, entre C√©sar e o Gordo, existe a beleza de permeio. O C√©sar √© lindo como o meu amor e o Gordo √© gordo. Al√©m de feio. Mas, igualmente, entre um e outro venha o diabo e escolha! Nenhum deles pode ver um par de pernas que fica logo a suspirar por despir o vestido √† dona.
Nestes livros todos n√£o faltam personagens a fazerem simultaneamente o papel de amantes e de m√£es, como a maioria dos homens gosta. Incluindo Gabriel, para quem √†s vezes n√£o passo de uma m√£ezinha. Com a preocupa√ß√£o que me obrigou a recorrer ao ‚ÄúGordo‚ÄĚ, √© como me sinto, uma m√£e em duplicado. At√© porque o doido do meu antigo professor foi raptado e n√£o sei onde o encafuaram‚ĶO meu faro policial diz-me que o homem n√£o deve estar longe do solar, mas √© melhor perguntar √† mam√£.
Ela manda-me para casa. Tenho de me inteirar dos acontecimentos das √ļltimas vinte e quatro horas, al√©m de ter tamb√©m de p√īr um emplastro Le√£o nas costas de Gabriel o mais depressa poss√≠vel. Sob pena de o rapaz, durante os pr√≥ximos dias, n√£o se endireitar, para preju√≠zo de toda a gente. Fico intrigada com a revela√ß√£o da mam√£ sobre o que ainda n√£o conhe√ßo, mas tenho de continuar a ser uma personagem obediente e uma boa dona de casa. J√° eram assim todas as mulheres da B√≠blia, de onde fui tirada, talvez do Antigo Testamento. J√° n√£o sei a quantas ando. Acho que me esqueci de tudo. Estou um bocado cansada. Deve ser a velhice a come√ßar a atormentar-me‚Ķ
Antes de chegar à mansão, confronto-me com o Antiquário e com o velhote, o Professor. Este reclama estar a ser vítima de um engano torpe. Afirma que não é, nem nunca foi professor de nada nem de ninguém, dizendo não passar de um pobre agricultor a tentar limpar a honra de uma sobrinha maltratada por um bando de escribas mal-intencionados a mando de uma editora que quer ter nas bancas a sátira do ano. O Professor torcia-se e retorcia-se enquanto era levado à força pelo Antiquário e eu fugia a sete pés. Vi de muito perto a possibilidade de ser sequestrada também. E assim tive conhecimento em primeira mão do rapto.
Quando chego a casa encontro Lilicas a escanhoar as unhas, tanto das mãos como dos pés. Com tanto raspar os dedos, ainda vai ficar só com os cotos, e depois não poderá pegar com mestria o chicote de dominadora sádica. Não sei o que terá acontecido. Contudo, a sanha de mulher do demo, parece-me, encontra-se perfeitamente neutralizada. Ainda bem.
Antes de projectarmos fazer qualquer coisa em prol do Professor, do Agricultor ou l√° o que √©, o meu amor, pedindo licen√ßa √† mam√£, conta-me ent√£o todos os estranhos acontecimentos da noite. Sobretudo fala-me das minhas batatas recheadas, de que tantas vezes tive de escrever a receita em latim para n√£o ficar vulgarizada. Fiquei um bocado zangada com a autora por ela ter acrescentado a Jurema ao prato, confesso. Mas ele diz que foi para evitar umas mortes neste romance, que o tornariam num livro mal-assombrado. E ela tinha acrescentado que, para m√°s assombra√ß√Ķes, tinha bastado o primeiro romance, aquele de onde nos tiraram quando eu era Clara e o Gabriel era C√©sar, o Professor Agricultor e a Lilicas apenas o desdobramento de Clara. J√° para n√£o falar das outras personagens, aqui, como em todo o lado desta tremenda saga da s√°tira, a limitarem-se a viver pap√©is secund√°rios, e, quantas vezes, tristes.
Com o maior apreço pela heroicidade do meu anjo, depois de ele andar, toda a santa noite, a transportar às costas as mulheres desta casa de um lado para o outro, coloquei-lhe o emplastro para ver se a hérnia deixava de o aborrecer durante um bocado. Foi quando fiquei a saber do Pombo-Correio escondido no quarto dos fundos.
No meio de tudo, eu pensava em como era bom viver numa terra agrícola, onde o milho abundava e chegava, tanto para gente como para galinhas, patos e perus, cisnes e gansos. Sobretudo chega também para o nosso mensageiro comer, depois de se ter auto transformado em pergaminho e num valiosíssimo documento da antiguidade, presentemente a viver enclausurado na alcova do Professor.
Agora, meu anjo, ajuda-me, porque tu foste o √ļnico a n√£o provar o sabor da Jurema nas minhas batas recheadas. Por isso, continua. Est√°s s√≥brio e j√° tens a permiss√£o da autora. Eu rendo-me, como sempre, aos teus encantos, e bebo, s√īfrega de amor, as tuas palavras.



continua
« Última modificação: Outubro 12, 2022, 16:44:45 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1228
Convidados: 0


outono


« Responder #48 em: Agosto 22, 2022, 14:11:15 »

Vacas magras à solta?
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1120
Convidados: 0



« Responder #49 em: Agosto 23, 2022, 17:32:56 »

À solta a ver se encontram uma nesguinha de erva ao lado de um riacho cantante, Nação Valente




¬Ī


Gabriel

O problema do momento nesta casa passa pelo desaparecimento do velho. O meu medo √© que, no meio disto tudo, uma velha jeitosa lhe deite a luva e lhe surripie o dinheiro da conta banc√°ria,  em detrimento dos familiares verdadeiros, quer ele seja um profissional do ensino ou um homem da agricultura.
Como a Sara √© nada e criada nesta terra, al√©m de ser uma mo√ßa por quem o ‚ÄúGordo‚ÄĚ teve uma paix√£o, pergunto se o apaixonado dela, por vingan√ßa, n√£o estar√° metido no sequestro. At√© para me eliminar e retomar a vez na candidatura √† m√£o da minha querida esposa. √Ä Sara isso parece absurdo, porque, hoje mesmo, ele lhe disse, relativamente √† minha suposta doen√ßa, que precisava primeiro de exames para emitir um diagn√≥stico correcto, embora, um bocado √† sorte, tivesse atirado sobre a minha palidez a hip√≥tese de eu ter um linfoma, por a√≠ num s√≠tio qualquer do meu corpo lindo. A minha mulher ficou um bocado assopapada, mas foi s√≥. Se o Gordo quisesse ver-me morto, n√£o precisava de me curar primeiro para me matar logo a seguir. Esperava que o bicho cumprisse a obriga√ß√£o de me mandar para a eternidade com os meus tenros vinte e oito anos, fazer as del√≠cias de todas as mo√ßoilas do Al√©m.
Sarita, apesar de ainda sentir os efeitos da Jurema, diz-me que vai dar uma volta pela vizinhança. Entretanto aproveitará, diz-me, para comprar um bocado de broa à melhor padeira da terra, aquela que herdou dos pais a fábrica da panificação apetrechada com tudo e mais alguma coisa.
A minha mulher n√£o est√° bem, mas op√Ķe-se √† minha resist√™ncia a que saia de casa e leva a melhor. E eu, com tanto trabalho pela frente, estou sem disposi√ß√£o para a tentar demover.
Quando, da√≠ a alguns instantes, regressa, diz-me que falou com a Padeira, de quem fora colega na escola prim√°ria, onde, por sinal, a hoje industrial do p√£o era boa aluna a portugu√™s. A ponto de tirar, uma vez, um catorze a portugu√™s. A vizinha, dizia a Sara, era bastante ladina. Estava sempre √† coca de tudo, tal como a vizinha do andar de cima no pr√©dio de C√©sar. - Pareciam irm√£s - comentara, at√©, a Sara, numa ocasi√£o. E, por causa dos pormenores que deu √† ex-colega sobre o Professor, incluindo o da sujidade da gabardina, vi logo n√£o ter sido boa ideia deixar ir uma mulher inocente como Sara no encal√ßo de sequestradores, que tinham feito o que fizeram certamente com o conluio de algu√©m, nem eu imagino quem por mais anjo e amigo de Deus que seja. A Sara tamb√©m ter√° referido √† criatura que o Professor fora √† biblioteca da terra consultar uns manuscritos do tempo de Jesus e pesquisar a √°rvore geneal√≥gica Dele. Inclusivamente, a descend√™ncia, mas sobretudo a inf√Ęncia, dado n√£o haver na Terra grandes dados bibliogr√°ficos sobre o assunto. Os poucos existentes tinham sido guardados naquele local por sete autores da antiguidade, sete como os escritores do livro do meio e, al√©m do mais, as folhas do manuscrito tinham um conte√ļdo demasiado herm√©tico. Era urgente decifr√°-lo e s√≥ o Professor era especialista nesses assuntos. Depois, para disfar√ßar, Sara emendou, dizendo √† Padeira que n√£o tinham sido sete, mas sim doze os escribas, os mesmos cujo rosto estava incrustado em baixo-relevo na frontaria do edif√≠cio biblioteca, ladeados pelos signos do Zod√≠aco e colocados sobre outras tantas cornijas, tamb√©m elas querendo significar que, tal como o ano tem doze meses, o mundo tem doze pilares a sustent√°-lo quando inteiro, e apenas sete estiver a escaqueirar-se. Da√≠ a confus√£o da minha pequena Sara.
A mamã, antes de eu empalidecer para além do meu estado normal, diz-me para, de novo, apelar à minha invisibilidade de anjo, tal como quando tirei a foto ao piano-relíquia e seguir de perto a Padeira. Confidencia-me que vou ter grandes surpresas…
N√£o perco tempo e, sem precisar de ensebar o meu p√≥lo vermelho vestido de manh√£ quando eu ainda estava ensonado por causa dos acontecimentos da noite, vou √† padaria, come√ßando logo a espiar a aluna cinco estrelas, que noutro tempo foi colega de Sara. Incido de imediato nos pensamentos da broeira e constato que o Professor esteve escondido em casa dela, passando a seguir para casa de terceiros. Inicialmente foi levado pelo Gordo e pelo Antiqu√°rio com um nome falso retirado da B√≠blia, e ambos disseram √† Padeira que, por causa de uma doen√ßa rara,  cuja cura era preciso inventar, ele se transformara em objecto de estudo secreto. Todavia, a rapariga, fina como um alho - nisso a Sarinha tinha raz√£o - desconfiando do outro sujeito e do Gordo, a quem quase j√° n√£o via desde o tempo da escola prim√°ria, resolveu agir por conta pr√≥pria. O encarcerado Professor tinha chamado n√£o sei quantas vezes pela sobrinha Clara, dizendo em altos gritos que queria regressar, o quanto antes, ao primeiro romance, onde tinha figurado apenas como pacata personagem e sem as tribula√ß√Ķes de hoje em dia.
O Agricultor entrara em cena, percebi logo.
No decorrer da espionagem √† mente da mulher,  vi tamb√©m l√° guardada a imagem do pedagogo, o mesmo que lhe tinha dado a nota alt√≠ssima a l√≠ngua portuguesa no nono ano. E, para tentar perceber as coisas pela raiz, a Padeira resolveu recorrer ao velho mestre. Tudo porque o velhote, o Agricultor/Professor, al√©m de ter chamado pela Clara numa das varia√ß√Ķes de personalidade, tinha desatado a falar uma l√≠ngua que ela ouvira apenas uma vez, quando fora ao cinema ver A Paix√£o de Cristo, um filme realizado por Mel Gibson. Mal Sara cometera com a Padeira tais inconfid√™ncias acerca da biblioteca e do homem da gabardina azeitada, a rapariga imaginou-se logo perante um assunto da mais elevada transcend√™ncia. Por isso, de imediato foi buscar a B√≠blia, abrindo-a no Salmo 38. Julgando-se eleita por Deus para cumprir altos des√≠gnios na Terra,  e n√£o sabendo bem a que salmo recorrer, leu um que lhe parecia ter um conte√ļdo gen√©rico. Provavelmente, pensou, o salmo daria para resolver todas as situa√ß√Ķes de crise onde pudesse vir a entrar como protagonista.
Esta gente parece toda clonada. A Padeira parece ter a mesma veia teatral da Claralílica, quando esta se auto inventou uma doença mortal só para pregar um susto ao mano César. Tanto uma como a outra, pelos vistos, têm jeito para a arte da representação e para o romance. Quer do género trágico, quer da verdadeira comédia. Onde desembocará o futuro de ambas? Mas é melhor continuar com o meu trabalho, a fim de não irritar a autora com a minha malandrice.
Entretanto, e recapitulando, a Padeira-artista foi a casa do mestre de l√≠nguas que lhe dera sempre boas notas. Relatou-lhe os factos passados entre as quatro paredes da casa dela, onde, al√©m de um forno em que assava cabritos gordos e b√≠blicos para casamentos, tinha agora um vivo, o Professor, a falar uma l√≠ngua morta,  e cuja descodifica√ß√£o, para o bem da Humanidade, tinha de ser feita o mais urgentemente poss√≠vel,  como lhe disse o mestre mal ouviu o relato da antiga aluna hoje uma conceituada Padeira da terra.
O novo homem, o Tradutor de L√≠nguas Antigas, logo que a Padeira lhe falou na capacidade de o Professor regressar ao passado e falar como no filme de Mel, ficou entusiasmado com a possibilidade de ele pr√≥prio ficar na Hist√≥ria, mesmo √† custa de terceiros, como o primeiro homem a viajar no tempo. Al√©m de tudo, de marcha atr√°s. Ir desembocar numa terra onde o maior mist√©rio por desvendar tinha ocorrido, o nascimento e inf√Ęncia de Jesus Cristo, era fascinante, dada a escassez de elementos desse per√≠odo, a que, l√° no regresso ao passado do velho Professor, este tinha acedido. E logo pela vis√£o sagrada de uma pequena chupeta.
Foi por tudo isso que ambos, em plena luz do dia, trataram de mudar o Professor de casa da Padeira para a do Mestre de L√≠nguas, depois de o pobre homem ter ingerido uma outra mistela que os dois lhe deram. Usaram o trator de transportar o milho, sob cuja folhagem ocultaram o candidato a alquimista meio inconsciente. E era ver a mo√ßoila, rosada e milheira, a conduzir o ve√≠culo pelas ruas da terra, com eleg√Ęncia e rapidez tal como se a Padeirinha fosse uma nova Michelle Mouton.
Agora j√° havia dois prisioneiros, o velho Professor e o Pombo-Correio, que, al√©m de tudo, eram da mesma fac√ß√£o. Ambos pertenciam aos Recolectores Ambidestros de Infus√Ķes Venenos e Ant√≠dotos, os bons, j√° que os maus estavam agregados √†s Placas Tect√≥nicas do Mundo Novo, o mesmo mundo que queriam dominar, mal descobrissem o significado de uma cabala com origem em Jesus, a que, supunham, teriam acesso a partir dos manuscritos procurados por toda a gente como se fossem diamantes perdidos no p√≥ dos tempos.
Eu, Gabriel e anjo, enquanto as coisas não dão para o torto e me vou podendo rir, dou aquela gargalhada comum ao César, lembrando-me de imediato de que estou numa missão de espionagem. E, além de tudo, invisível. Dá-me um enorme gozo imaginar os tais papéis como, só e apenas, o livro em que a autora conta a vida da Clara e do meu irmão, e que estas personagens todas andam aqui, como já andaram noutro romance, feitas baratas tontas a cavar a própria sepultura. Mas isso não são contas do meu rosário, nem devem ser as contas do colar do Gordo, aquele que a Ordem das Placas Tectónicas lhe colocou ao pescoço, quando, numa escala de 1 a 20, lhe atribuíram o grau 3 na hierarquia. A minha tarefa é narrar os factos e tão só. E os factos estão mais nítidos na cabeça da minha espiada do que estariam se eu tivesse feito deles um portfolio de fotografias ou um documentário em vídeo.
Dizem as ocorr√™ncias que o Antiqu√°rio e o Gordo est√£o fulos com a Padeira, pois, quando pretendiam tamb√©m eles experimentar a viagem no tempo √†s arrecuas utilizando os dons do Professor, este tinha desaparecido sem deixar rasto. Era como se, em vez de ele aceder aos acontecimentos apenas por via da mente e das vis√Ķes que a Jurema e a ED juntas lhe provocavam, tivesse recuado mesmo √†quele tempo, fisicamente falando, de gabardina sebenta vestida e tudo. E era isso que ambos queriam testemunhar.
O mais curioso por agora  ‚ĒÄ isto nem a Padeira sabe e eu sei-o porque sou um privilegiado‚Ķ ‚ĒÄ o Professor tamb√©m j√° n√£o est√° na gaiola do Mestre-Escola. Escapuliu-se de l√°. A mistura da Jurema e da ED, aliada a uma senha, uma password a que teve acesso na mais recente viagem ao passado, fazem aquilo que a velha gabardina nunca fez, ou seja, deixam-no completamente invulner√°vel, depois de paralisarem os inimigos mal estes ou√ßam aquelas palavras e aquele som,  que parecem vindos de um lugar maldito.
N√£o sei se as hei-de repetir‚Ķmas, n√£o fique o leitor curioso. A senha √© ‚Äúquem quiser visitar o reino das m√ļmias e do outro mundo ter√° de viver no inferno por um segundo‚ÄĚ. E, por meio deste c√≥digo, foi-me revelado onde est√° o Professor...
Com tudo isto é noite e hoje toda a gente jejuou. A fome deve ter alastrado lá pelo solar como fogo queimando as matas de verão. Queira Deus que as três batatas recheadas guardadas na garagem não tenham sido devoradas por aqueles famintos todos. Isso seria catastrófico pela segunda vez consecutiva.
√Č melhor sair da minha invisibilidade tempor√°ria e levar um bocado de broa. Deve haver l√° por casa umas azeitonas e umas lascas de presunto ‚Äď salsichas e enchidos n√£o levo porque o C√©sar n√£o gosta‚Ķ ‚ĒÄ e presumo que Sara, atordoada como ainda anda, n√£o tenha mandado a mulherzinha fazer o jantar. Nem sequer se deve ter lembrado de dizer √† mais recente tia-bisav√≥ da terra para preparar uma a√ßorda de bacalhau, com os restos do p√£o que vieram de casa de C√©sar quando esta gente toda se mudou para aqui por n√£o cabermos l√° todos.
Mal chego, nem acredito! Querida Sarinha! Mesmo ainda titubeante, depois de afirmar ser a Clara, ainda se lembrou do meu aniversário e tem uma lindíssima mesa posta para oito pessoas.
Abraço-a e dou-lhe um ligeiro beijo nos lábios. Não quero parecer exibicionista entrelaçando as nossas línguas, uma vez que a Lilicas, de novo vestida de solas e cabedais, olha para mim com aqueles olhos de mulher fatal, e com vontade de celebrar os meus anos muito para lá da mesa, onde um bolo de aniversário, com vinte e nove velas, me sugere inevitavelmente o semáforo, em que Sara quererá também uma festa mais íntima. A minha querida esposa toda ela é luz, embora hoje quem tem direito a velas seja eu.
Vejo que Lilicas recuperou da apatia e daquela atitude compulsiva de querer ficar s√≥ com os cotos das m√£os e p√©s. O efeito da Jurema j√° deve ter passado, o que, por um lado, √© mau, pois, parece-me, vou ter demasiadas comemora√ß√Ķes‚Ķ
S√≥ por causa disso preferia que o Agricultor e a sobrinha Clara aparecessem de novo. S√≥ assim conseguiria dormir, ap√≥s vinte e quatro horas sem p√īr os p√©s na cama, quando a Branca de Neve me entrou pelo solar adentro em triplicado, tendo eu de me desdobrar em pr√≠ncipe beijoqueiro e rel√≥gio despertador dos novos contos do Era uma vez.
A autora diz-me que a Lilicas, hoje, merece uma noite de gl√≥ria na arte de coitar, t√£o do agrado dela, cuja linguagem j√° fez escola na sem√Ęntica er√≥tica. At√© porque tamb√©m me comprou um bolo, que se esmigalhou dentro da caixa, na rua, depois de ela ter escorregado com as botas do sadismo num troncho de penca. Ficou completamente desconsolada com o percal√ßo. A Sara olhou-a com olhos de medusa, quando a Lilicas lhe mostrou o presente e a pobre, depois de ter sido t√£o maltratada no livro do meio, merece uma colher de ch√°. Mas isso ser√° depois de Sara desligar as luzes e mergulhar no sono, mal eu tire os √≥culos de sol com que enfrento o sem√°foro. J√° n√£o consigo coitar com ela sem os p√īr nos olhos para esbaterem a luz, a luz de que ela tanto precisa para se deslumbrar, uma e outra vez, com o meu corpo de Ad√≥nis e agora tamb√©m anjo. (Nunca √© demais lembrar que o C√©sar, o meu irm√£o, do qual fui retirado por h√°beis manejadores de personagens, √© t√£o fascinante como eu, embora n√£o seja anjo por inteiro. De anjo, C√©sar apenas tem a cara‚Ķ)
O jantar ficou finalmente pronto. Graças a Deus hoje não há as malditas batatas recheadas, e Sara, com certeza, lembrou-se de fazer a minha comida preferida, arroz de estilhaços. Era o que a minha mãe biológica fazia, depois de me perguntar, quando eu era uma criança loura de caracóis, antes de ir para França, a salto:
‚ĒÄ C√©sar, filho, o que queres comer nos teus anos?
Eu dizia sempre: ‚ĒÄ arroz de estilha√ßos.
Depois, ela, com a machada da lenha, cortava o frango em pedacinhos pequeninos, e então fazia um arroz malandro que me sabia pela vida…
Mas, agora, antes de me sentar à mesa, é melhor trancar as janelas e as portas a sete chaves, porque o Antiquário (até me esqueço que ele é meu patrão e primo…), a Padeira e o Gordo, já para não falar no Tradutor de Línguas, devem andar a correr céu e terra à procura do Professor.
Cá está o arroz. Cheira lindamente e na mesa não falta ninguém. Nem o Pombo-Correio, que passou toda a tarde no quarto com o Professor, a ressonar ao lado dele, enquanto revia mentalmente toda a informação que transportava no corpo, gravada a tinta de tatuagens com o sacrifício de quem a nada se poupa em prol das grandes descobertas. Sobretudo se tiverem um carácter bíblico.
O arrozinho está bom. Mas nada que se compare com o da minha mãe… Que saudades… Devo estar a ficar velho…
Desta vez, as coisas, parece, estão a correr bem. Só não percebo por que terá a Sara mandado colocar oito lugares à mesa. Da casa somos dois e, com o Professor, a sobrinha-neta e o Pombo-Correio, ao todo, perfazemos cinco…
A brincar, pergunto à minha querida esposa se estivemos prestes a ser excluídos do jantar e se ela pensava sentar à mesa os sete parodiantes mais a coordenadora da publicação, a Dona Tita Lívia…
Ela desata a rir à gargalhada. Neste livro, todos gostamos muito de rir.



Contínua
« Última modificação: Outubro 12, 2022, 17:16:49 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1228
Convidados: 0


outono


« Responder #50 em: Agosto 30, 2022, 20:42:49 »

Não me aborreço nada com incoerências. Já estou habituado.
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1120
Convidados: 0



« Responder #51 em: Agosto 30, 2022, 23:54:45 »

Ainda bem.


A seguir, Sara responde-me que era no caso de aparecerem de novo o Agricultor e a Clara, sobrinha dele, bem como o César…Ela gostaria de o conhecer melhor…
Depois da estranha resposta, Sara come√ßa a rodopiar suavemente e, de repente, uns segundos ap√≥s a cantadoria dos parab√©ns, seguida de umas garfadas de bolo, a dan√ßa torna-se fren√©tica, enquanto ela, com rapidez, se vai sentar numa das cadeiras vazias. Era, tinha-me dito antes, o assento reservado a Clara. E, olhando para mim com olhos de carneiro mal morto, intitulou-se de novo a irm√£. Disse que me amara como nenhuma outra mulher, nem antes, nem durante, nem depois, pudesses eu embora ter conhecido um batalh√£o delas, ou at√© uma companhia inteira, e que lhe parecia um milagre estar outra vez comigo e poder morrer de novo enroscada no meu corpo e inundada pelos meus santos efl√ļvios. Entretanto ajoelhava-se a meus p√©s, como uma tia de C√©sar se ajoelhara no quarto onde ele tinha os Cristos sobre a c√≥moda. Pedia-me que lhe perdoasse por ter sido t√£o m√° para mim. S√≥ muito mais tarde - dizia - quando eu ca√≠ra naquela funda sepultura onde ela arremessara o fato Pr√≠ncipe de Gales, se tinha apercebido da minha verdadeira natureza ang√©lica, e de quanto eu era importante para a Humanidade. Sobretudo para as mulheres.
A mamã entrou outra vez em acção, embora me pareça que a dose da Jurema variou. Os efeitos não foram tão catastróficos como de véspera. A Sara está mais amena.
Olho para os outros e vejo a Lilicas impávida e serena. Numa daquelas birras de menina bem da linha infernal onde mora, só por causa de Sara ter desdenhado do bolo que ela tinha comprado com tanto amor e agora amassado como o chapéu de um pobre, decidiu não provar sequer do outro. Só comeu do dela, e está com as mãos todas lambuzadas de chantilly, depois de ter andado a catar migalhas dentro da caixa, onde trouxe os salvados do sinistro. Mas, mesmo assim, estava fresca como uma alface. Além de tudo, um sorriso cínico dançava-lhe nos lábios, gozando antecipadamente os delírios da noite, que, com certeza, pensava ter comigo. Ou não estivesse a Sara naquele estado mais ou menos catatónico e mentalmente neutralizada. A menos que eu quisesse regressar ao passado, coitando de novo com a Clara, o que, de todo em todo, lhe parecia impossível, dada a gravidade das ofensas antigas.
O Professor, de copo de champanhe na m√£o, fingia n√£o se passar nada. N√£o vi nele nenhuma pontinha do Agricultor tio da Clara, a qual, de momento, perante n√£o sei quantas testemunhas, assumia ter sido, pelo menos na etapa final do romance com C√©sar, verdadeiramente maquiav√©lica. √Č verdade ‚Äď digo eu ‚Äď apesar de, olhando para a Lilicas, me parecer que, nem de perto, nem de longe, Lilicas se assemelha √† rapariga tonta descrita por renomados escritores no romance do meio.
Quanto ao Pombo-Correio, até por ser o mais recente hóspede do solar, e talvez por uma questão de respeito para com as fraquezas humanas, tendo igualmente um copo na mão, de onde de vez em quando beberica, limita-se a um educado silêncio. Só depois reparo que nenhum dos dois amigos tinha tocado no bolo da Sara, estando duas fatias inteiras no prato de cada um.
Acho tudo muito estranho e julgo que o Professor, quando andou a viajar de marcha atrás no tempo, teve, com toda a certeza, conhecimento de todo o próximo futuro daquela casa de doidos em que se tornou o meu lar e que iria haver mais um envenenamento.
Com tudo isto, é claro, não toquei no bolo comprado pela minha mulher…Desculpa mamã, mas se querias pregar-me uma partida para a Lilicas abusar de mim, não conseguiste os teus intentos. Depois desta dramática actuação da Sara, dizendo que é a Clara, eu, se eu tiver de comer um pedaço de bolo para o meu aniversário não ficar em branco, como ficou o de César, será da tarte amassada com que a minha mais recente admiradora me queria homenagear. Ainda que fique, como ela, com os dedos besuntados de creme branco, sobre o qual uma linha desconchavada de letras a chocolate dizia: Feliz Aniversário Gabriel.
Pela segunda noite consecutiva esta mansão transforma-se numa casa de comédia.
A velhota lavadeira das camisas do César, e que veio depois para aqui, cismou em visitar todas as noites o tetraneto - talvez seja só bisneto, mas não importa - deixando-nos mais uma vez sozinhos, com os restos do arroz de estilhaços e as sobras dos bolos. Que maçada!
Depois, enquanto fui √† cozinha despejar os ossinhos dos pratos no lixo, a Lilicas dirigiu-se ao jardim, frente ao lago e, pegando no prato onde est√° o bolo envenenado a Jurema, vai-o esmigalhando e espalhando-o por todo o lado como se estivesse a deitar milho aos pombos. Quando me apercebo j√° n√£o posso fazer nada. Resta-me rezar a Deus para que as aves do c√©u, da terra, e at√© os peixes do rio, j√° para n√£o falar nos do lago, n√£o fiquem intoxicados. N√£o pretendo ser o salvador de nenhum cisne, ou mesmo de uma codorniz gulosa e uma s√©ria candidata √† diabetes. Embora me pare√ßa que a ‚Äúdoen√ßa‚ÄĚ provocada pela Jurema n√£o se transmita atrav√©s do ar, nem, t√£o pouco, da √°gua.
Reparo que o Professor e o Pombo-Correio, aproveitando os nossos afazeres domésticos de levanta-mesas e lava-loiças, deixam o solar às escondidas, não sei com que finalidade.
Enquanto isso Lilicas deita um sopor√≠fero √† base da Mimosa Hostilis no copo de champanhe da Clara e, quando esta est√° a dormir profundamente pingando na cadeira, trato de a levar para o quarto da Lilicas sem objec√ß√Ķes da mesma Lilicas. Se a Clara era uma personagem com origem na Sara, ou vice-versa, e como eu n√£o queria ver a mo√ßoila nem pintada, n√£o havia raz√£o nenhuma para a deitar na cama do meu quarto onde, hoje, de jeito nenhum, me apetecia levar com as luzes do sem√°foro para aturara a Sara. Foi por isso que n√£o me importei muito. Pelos vistos, tanto uma como a outra s√≥ se excitavam olhando o meu corpo de todos os √Ęngulos, precisando por isso de muita luz.
J√° na minha cama, com todos os candeeiros semi-apagados, a Lilicas come√ßou por fazer para um delicioso streep-tease. Primeiro viu-se livre do  top, que lhe deixara os ombros nus, foi prosseguindo at√© √†s botas, passou pelas cal√ßas de cabedal e pelas √≠ntimas pecinhas pretas. Tirou tudo com uma lentid√£o fora do comum, depois de me ter ocorrido colocar no leitor de Cds a √≥pera ‚ÄúElixir do Amor‚ÄĚ. Foi divino como sempre. Sem tabus de linguagem fomos n√£o sei quantas vezes ao c√©u. E durante esses momentos Lilicas gemia de gozo como a cabra imp√ļdica que √©. √ď Meu Deus!, mais uma mulher ca√≠da por mim como se eu fosse de facto um anjo! Como se, nestas coisas, tivesse trazido, logo de in√≠cio, do tempo em que eu, Gabriel ou C√©sar, fui concebido no coro de uma igreja com todas as coordenadas e b√ļssolas para fazer chegar uma mulher ao para√≠so sem me limitar a ser mero ve√≠culo de transporte. E n√£o conto mais nada, sob pena de o leitor ficar com √°gua na boca. Ou, pior ainda, com forte possibilidade de este livro ser de novo parodiado e a mam√£ ter de replicar, nascendo ent√£o uma pilha de obras maior do que a de Jorge Lu√≠s Borges l√° em casa de C√©sar a cheirar ao chichi do Ren√©, o velho gato franc√™s.
Por agora tenho de mudar a Clara do quarto da Lilicas, n√£o v√° ela acordar como Sara e estranhar o roup√£o vermelho com que a Lilicas enfrenta todos os diabos que a impelem genericamente para o mal. Sobretudo em quest√Ķes relacionadas com sexo. J√° ambas dormem, estou sozinho em casa, sem conseguir conciliar o sono. Os dois homens escapuliram-se, ainda n√£o regressaram e sinto no ar qualquer coisa que me escapa.
Com todo o cuidado, vou discretamente a uma janela da mans√£o e vejo o Antiqu√°rio farejando a casa como um c√£o perdigueiro. Deve andar atr√°s do Professor. Considera-o a √ļnica pessoa com capacidade para descodificar, depois de ter uma boa por√ß√£o de ED no est√īmago, o manuscrito a cujo roubo se antecipou na c√©lebre biblioteca da terra. N√£o sabe, com certeza, que os ratos do quarto dos fundos lhe roeram com a maior desfa√ßatez os c√≥digos com que ele pretendia decifrar todos os segredos do mundo. O Professor anda tranquilo da vida. N√£o lhe passa pela cabe√ßa deixar assomar a uma das janelas da sua dupla personalidade o Agricultor e devolv√™-lo ao livro original de onde ele foi arrancado a catorze m√£os. L√° porque consegue viajar ao tempo de Jesus, julga-se o supra-sumo dos mortais e j√° se d√° ao luxo de sair sem dizer, nem √°gua vai, nem √°gua vem. Tamb√©m √© verdade que se o Agricultor regressasse de vez, era como se o Professor cometesse suic√≠dio. A autora bem podia desde j√° colocar Fim no romance‚Ķ
Observando com mais aten√ß√£o, vejo l√° fora, sentado no galho de uma oliveira centen√°ria e numa posi√ß√£o algo inc√≥moda, uma figura com uns bin√≥culos na m√£o a tentar descobrir o que se passa no interior do solar. Reconhe√ßo-o imediatamente. Para l√° do aparelho de catar imagens ao longe, tem na m√£o um porta-chaves brilhando √† luz do jardim. A pol√≠cia mant√©m sobre n√≥s uma vigil√Ęncia discreta. O Porta-Chaves anda √† coca desde o dia em que c√° em casa houve uma tentativa de homic√≠dio frustrada devido aos efeitos da Jurema e √† ast√ļcia de uma autora atenta que quer este livro imaculado e sem pinta de sangue. O Antiqu√°rio tamb√©m anda por aqui, mas, mal me v√™ √† janela, desaparece no meio das sombras. Questiono-me sobre o que andar√° a fazer por aqui o meu patr√£o e primo. N√£o deve ser nada de bom‚Ķ
N√£o passaram mais de duas horas desde que o Professor e o amigo Pombo-Correio sa√≠ram de casa. De repente, ou√ßo o velho tractor da Padeirinha a rolar at√© √† beira do solar com uma carga de folhas em tudo semelhante aquela sob a qual haviam transportado o Professor para casa do Tradutor de L√≠nguas Antigas. Desta vez era o Professor quem conduzia. Ainda bem que o pol√≠cia dependurado no galho da oliveira n√£o pertence ao departamento de tr√Ęnsito para fiscalizar a sua carta apreendida. Se assim fosse, de certeza o velho teria uma pesada multa √†s costas por ter violado a inibi√ß√£o de conduzir. A seguir, os dois levam o ve√≠culo para as cavalari√ßas onde agora, por termos vendido os outros dois equ√≠deos, s√≥ est√° o Tentilh√£o, um puro-sangue √°rabe que a Lilicas, numa daquelas conversas do depois de‚Ķ j√° manifestou interesse em montar.
Pelo interior da casa des√ßo aos est√°bulos e vislumbro dois corpos inanimados debaixo da folhagem. Tenho uma enorme surpresa quando constato quem s√£o. O homem √© o Gordo e a rapariga √© a empregada do bar do hospital onde Sara trabalha, a Doutorinha desempregada que, dizem os entendidos, tem muito de algumas personagens do livro roubado. A um tempo √© a √ļltima namorada do C√©sar, a que tinha vindo de um bordel mas, por outro lado, √© a Clara em pessoa, uma grande parte das vezes ao contr√°rio: uma era a dra. Clara, outra era a doutora desempregada, depois de cinco anos na universidade; uma gostava de cozinhar e outra n√£o. Mas, deu-se at√© a coincid√™ncia de a Clara ter perguntado a C√©sar o queria comer, num jantar que lhe ia oferecer em casa e a Doutorinha, um dia, tinha instado igualmente com o Gordo para ele lhe dizer se gostava de batatas recheadas depois de ela descobrir num papel velho uma receita.
Já toda a gente percebeu que Clara é uma erudita. Cita tantos provérbios latinos como ditados populares de todos os tempos. A Doutorinha também não lhe fica atrás. Dito de outra maneira, uma é a personagem chapada da outra. Além do mais, constata-se também que todas as mulheres do livro do meio tem tudo o que a Clara possui, de bom e de mau.
A Jurema entrou ent√£o de novo em ac√ß√£o, presumindo eu que o Professor, na sua viagem √†s arrecuas pelo passado, tivesse tido conhecimento de algum evento desagrad√°vel prestes a acontecer nesta casa e que tivesse sido incumbido de mudar o nosso futuro de acordo com as inten√ß√Ķes da mam√£. Esta diz-me para me deixar de adivinha√ß√Ķes e fazer o meu trabalho. Respondo-lhe que estou sem grandes ideias e pe√ßo-lhe uma dica. Manda-me desenrascar.
√Č melhor, talvez, perguntar ao Professor ‚Äď √© mesmo o Professor, n√£o o Agricultor - o que est√° a acontecer, e questiono-o por n√£o ter confiado em mim colocando-me ao corrente da programa√ß√£o. Responde-me que, com a Clara de volta e a Lilicas em casa, eu teria trabalho a dobrar. Fora essa a raz√£o de n√£o me informar dos planos do bando das Placas Tect√≥nicas. Eles iam, sem mais nem menos, mandar a Doutorinha e o Gordo para os anjinhos. A ela por ter descoberto a receita das batatas e por querer transformar-se numa cozinheira t√£o boa como Clara, a ele por ser um borra-botas que tinha deixado fugir o Professor sem o ter for√ßado a descodificar o manancial de manuscritos dispersos por a√≠ e cujo conhecimento lhes daria um poder decisivo sobre o mundo. A ponto de poderem neutralizar definitivamente o Apocalipse prometido por Jesus quando Ele andou pela terra. Com a descoberta, poderiam mandar para o inferno s√≥ quem lhes apetecesse. O Professor sabe muito do assunto e pergunto-lhe como abortou o plano dos tect√≥nicos. Disse-me ter sabido por portas travessas - admiro o poder e a humildade deste homem‚Ķn√£o gosta de propalar o seu dom de viajante no tempo‚Ķ - e que a Doutorinha, empregada do bar, deveria ser morta √† facada no estacionamento do hospital com o colar recebido pelo Gordo das Placas Tect√≥nicas ao peito. Pusera-o naquele dia, quando se sentia mais vaidosa, para impressionar o marido de faz-de-conta. E como o Gordo tinha mais paix√£o pelo colar do que por ela, a pol√≠cia, mal descobrisse o corpo, haveria de lan√ßar logo as suspeitas do homic√≠dio sobre ele, que, por sinal, tamb√©m j√° tinham os dias contados. As altas esferas da organiza√ß√£o j√° o tinham sentenciado √† morte no √ļltimo conclave. Toda a gente sabia disso, menos ele. Pela quantidade de fumo negro sa√≠do da chamin√©, todos puderam prever que o pr√≥ximo a aniquilar seria algu√©m com um peso aproximado ao do Gordo. A fumarada fora, at√©, excessiva. O raio do homem ‚Äď disse o Professor ‚Äď pesava tanto como qualquer das est√°tuas da Ilha de P√°scoa e ele e o Pombo-Correio tinham suado as estopinhas para o colocarem no tractor, depois de inanimado com a Jurema adicionada pela autora ao bolo de chocolate, t√£o mo√≠da como pimenta da √ćndia esmigalhada. Foi por todas estas coisas ‚ĒÄ disseram ambos ‚ĒÄ que sa√≠ram sem me dizer nada. Foi para obviar duas mortes, aproveitando o facto de a Doutorinha e o seu Gordo estarem juntos na sala de estar. Ela a tentar ver a novela das onze da noite e ele a fazer zapping com o comando da televis√£o, uma vez que a programa√ß√£o do Canal de Hist√≥ria, nesse dia, inclu√≠a um document√°rio sobre duas seitas importantes. Uma era a dos Recolectores Ambidestros de Infus√Ķes Venenos e Ant√≠dotos e a outra era aquela a que o Gordo pertencia, a das Placas Tect√≥nicas do Novo Mundo. Embora o Gordo n√£o passasse de um soldado raso com cumprimento de servi√ßo pouco eficiente.
√Č muito engenhoso este Agricultor/Professor abancado c√° em casa com a sobrinha neta. Enquanto est√°vamos a festejar o meu anivers√°rio, dissimuladamente tratou de meter dentro de uma caixa da Tuppwrere as duas fatias de bolo do prato dele e do Pombo-Correio indo depois propor uma alian√ßa ao Gordo, que a aceitou de imediato. O Gordo sentia-se h√° muito tempo humilhado pelo Antiqu√°rio e era uma boa forma de se vingar dele. Foi quando o Professor, para selar o compromisso, tirou da caixinha os dois pedacitos do bolo colocando-os de seguida em dois pratinhos tirados da cristaleira pelas n√≠veas m√£os da Doutorinha, juntamente com quatro copos de champanhe. Tinha sido assim, sem mais ‚Äď disse o Professor.
Pronto! E agora eu, Gabriel, o anjo, tenho em casa mais dois mortos-vivos e n√£o sei onde escond√™-los. O velho sugere-me o meu est√ļdio de fotografia, onde raramente algu√©m vai. Nem a velhota do bicarbonato na salada de frutas lhe limpa o p√≥. Tenho medo que confunda os √°cidos de revela√ß√£o das fotografias com amaciador de roupa ou com outra coisa qualquer e envenene por a√≠ alguma pessoa. Sobretudo a mim.
« Última modificação: Outubro 12, 2022, 17:18:46 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Goreti Dias
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 18588
Convidados: 998



WWW
« Responder #52 em: Setembro 05, 2022, 13:16:26 »

Berbequim nas batatas n√£o me convence... Mas gostei do que li!
Registado

Goretidias

 Todos os textos registados no IGAC sob o n√ļmero: 358/2009 e 4659/2010
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1120
Convidados: 0



« Responder #53 em: Setembro 05, 2022, 19:03:33 »

Os livros aceitam tudo Goreti Dias, até berbequins para esburacar batas. Agora é Sara quem vai dizer de sua justiça...



Concordo com o Professor. Mas o problema √© saber se h√£o-de ficar a dormir ou n√£o, caso em que a minha beijoquice ter√° de funcionar de novo. Se o bolo lhes est√° embarrilado na garganta e se, com os solavancos do tractor, n√£o saltou, ent√£o s√≥ mesmo o meu beijo para o remover. O Gordo, diz-me o velho, tem de acordar. Este precisa de lhe sacar informa√ß√Ķes sobre as conclus√Ķes dos outros acerca dos manuscritos. S√≥ em fun√ß√£o disso o Professor ir√° ou n√£o √† casa da mulher das cortinas de pl√°stico para ela o ajudar a regressar de novo ao passado.
L√° tenho de beijar o homem‚Ķ Sara nunca quis o Gordo para nada, nem sequer para um beijo numa altura de car√™ncia afectiva, e agora vou ter de ser eu a acord√°-lo desta forma!? Irra! Espero ao menos que ele n√£o se entusiasme e desate a lambuzar-me pensando tratar-se de Sara, uma paix√£o da qual, apesar da Doutorinha, nunca se recomp√īs tanto quanto dizem os ci√ļmes da rapariga, que expia constantemente o companheiro.
O Professor manda-me começar a actuação, ali na cama onde fotografo as auras. Ao lado do Gordo vivo-morto está a morta viva deitada e coberta com uma colcha de cetim vermelho.
Mal encosto os meus grossos lábios de africano no colega de Sara, este mexe-se abruptamente, fazendo ranger a cama e agarrando-se freneticamente ao meu pescoço. Tenta engolir o beijo que lhe deponho nos lábios, leve como se estivesse a beijar a face fria de um morto. Mas ele quer mais, quer a minha língua inteira e eu furto-me como posso a esse contacto.
Digo ao Professor para tomar providências e ele dá ao Gordo um valente sopapo na cara. Aos poucos, o homem vai recuperando a consciência. Quando isso acontece, o Professor explica-lhe que teve de os drogar e raptar para impedir o Antiquário de os mandar desta para melhor. Entretanto pergunta-lhe quais são os reais planos das Placas Tectónicas, se é que ele sabia.
O Gordo responde abertamente:
Aos primeiros sintomas Apocal√≠pticos do Universo, a organiza√ß√£o faria uma viagem para norte. Tanto quanto supunham, mesmo sem terem descodificado os manuscritos, as poderosas rel√≠quias de onde emanava o poder com que os Tect√≥nicos queriam dominar o mundo encontrar-se-iam enterradas na cripta de uma igreja, guardadas por sete santos e santas. Ou, pelo menos, por sete cabe√ßas de santos. Ele n√£o sabia muitos pormenores. De facto, na hierarquia, ocupava um posto demasiado rasteiro para estar ao corrente de tudo‚ĶTodavia, acrescentou, tanto quanto p√īde perceber, o chefe supremo das Placas era uma personagem a quem chamavam o Velho. Al√©m de haver gente de todo o mundo. Eram sete as l√≠nguas oficiais e, evidentemente, o portugu√™s. O Antiqu√°rio era, ao que supunha, o representante m√°ximo das Placas em Portugal.
O Professor interrompeu entretanto o Gordo, exclamando:
- Professor: Eles j√° sabem isso tudo e ando eu aqui preocupado com uma simples chupeta e com a inf√Ęncia do Menino Jesus!? Ora porra!
A mamã manda-o calar energicamente e ordena-me que verifique se se passa alguma coisa com os cisnes e com as aves, da capoeira, da terra e do céu, sem esquecer também os peixinhos do rio. Quando regresso digo-lhe que está tudo em ordem, apesar de o Porta-Chaves continuar pendurado no galho da centenária oliveira a observar o ambiente.
A autora dá um grito irado. Com personagens como nós - diz - tem de estar sempre atenta. Graças a si, está tudo bem - acrescenta. Ninguém imagina o seu trabalhão, quando andou a deitar enxofre na água e em todo lado onde a tonta da Lilicas espalhou o bolo envenenado. Fiquei então a saber que o enxofre era um tremendo desinfectante e, por agora, o Apocalipse ficou adiado.
Enquanto o Professor tenta obter mais informa√ß√Ķes do Gordo, subo e vou inteirar-me do estado da Sara, que hoje me saiu Clara. Continua a dormir no meu quarto, para onde a levei, o c√©lebre quarto do sem√°foro e, de seguida, vou espreitar a Lilicas pelo buraco da fechadura. Fico embasbacado‚Ķ O Porta-Chaves, at√© a√≠ pendurado na oliveira, submeteu-se como um gato manso ao cio da Lilicas, e esta, com as botas esporadas e uma venda nos olhos como a do Zorro, com o grosso cinto de cabedal zurze-lhe o canastro, de que s√≥ vislumbro uma parte das n√°degas enquanto ele mia.
Vou-me embora para n√£o perturbar a sess√£o.
Des√ßo de novo ao meu est√ļdio, onde o Professor j√° recolheu o m√°ximo de informa√ß√£o poss√≠vel que o Homem-Pergaminho anotou em folhas de papal pardo iguais √†s que a Sara gosta de trazer sempre na carteira para meter as azeitonas num cartucho em funil.
A morta-viva continua no mesmo estado e o Professor diz-me que tem de ficar assim. A minha casa está dividida em três mundos. Tenho o inferno a largar labaredas no quarto da Lilicas, dois cemitérios com outras tantas mortas-vivas, a Sara e a Doutorinha, e uma parte mais normalzinha constituída por três homens e um anjo. Por sinal, todos eles entusiasmados em erradicar da Terra o Apocalipse prometido por Jesus quando cá andou a pregar a homens moucos e loucos como certas pessoas.
O Professor e o Pombo-Correio, desta vez, p√Ķem-me ao corrente da situa√ß√£o. A viagem √† mulher da casa enfeitada com franjas, ora a professora de C√©sar, ora uma bruxa famosa que gosta de embebedar os visitantes, foi cancelada. Muito mais eficiente do que as ervas da criatura para p√īr as personagens KO √© a Jurema. E a mam√£ sabe dose√°-la muito bem.
E esta gente toda que n√£o dorme! Eu, um anjo, ainda se admite o meu l√ļcido estado de vigia. Todo eu sou et√©reo e passo bem sem o sono. Agora os terr√°queos, n√£o sei como conseguem aguentar a pedalada de tr√™s seitas, qual delas a mais perigosa e cada uma a tentar neutralizar os efeitos das outras por todos os meios.
Pergunto ao Professor e ao Homem-Pergaminho, ou Pombo-Correio (o Gordo não tem grande voto na matéria) o que irá seguir-se. Não sabem, é a resposta. Aconselham-me a pedir ajuda à autora.
Estou farto disto! N√£o passo de um pau mandado nas m√£os de tantos escritores, famosos e de meia-tigela como a mam√£. Apetecia-me debandar dos livros todos e n√£o passar cart√£o a ningu√©m! N√£o sei se o n√£o farei ainda! At√© j√° estou a imaginar as p√°ginas a abrirem-se como por magia e as personagens a esvoa√ßar de l√°, saindo de dentro como se fossem um bando de borboletas numa procura fren√©tica de flores e de mel. Embora, no caso, seja mais uma debanda pela liberdade, porque a Demanda do Santo Graal n√£o √© a nossa especialidade. S√≥ n√£o sei como faria a Sara voar o sem√°foro onde gosta de fazer amor comigo ‚Äď era melhor dizer coitar, por causa da minha escola lingu√≠stica, mas, fica assim‚Ķ  Ah!, como me apetecia incitar toda a gente √† rebeli√£o! Imaginar o Tentilh√£o a saltar dos livros, o Pajem e o Fagote - dois cavalos que aparecem no livro roubado - graciosamente e de patas no ar! √Č uma fantasia maravilhosa‚Ķ E, para ampliar o efeito, apetecia-me igualmente levar todas as ex amantes do C√©sar √† insubordina√ß√£o e obrig√°-las a pular do livro, no cemit√©rio e de preto como vi√ļvas negras, com a cabe√ßa baixa como as t√ļlipas que o meu irm√£o n√£o conseguiu cultivar durante os seus quarenta e cinco anos de vida. A seguir seriam os jaquinzinhos, os cisnes, os patos, os perus, todas estas mulheres alcoviteiras e manhosas que os autores criaram, umas vestidas de cabedal e outras de Coco Chanel, de lavradeiras, ou at√© mesmo de bruxas a que n√£o faltassem as respectivas vassouras. Nunca vi um voo mais diversificado, com as personagens a atropelarem-se umas √†s outras na pressa da fuga, as damas a puxarem os cabelos umas √†s outras, aos autores e autoras, enquanto os homens tentam ajustes de contas e andam todos √† bordoada. Que cena mais caricata! E n√£o √© que n√£o consigo estancar a minha gargalhada!?
Ria-se comigo leitor, porque a autora, estando a tomar um chá de camomila com umas barrigas de freira, engasgou-se e está agora a tossir quase ininterruptamente, pedindo, nos intervalos e a gaguejar, que lhe dêem umas palmadas nas costas.
Tenho de interromper a história para a ajudar. Bem merecia um murro bem dado por ter escrito o monstruoso do primeiro romance que nos meteu nestas alhadas consecutivas… Mas, como preciso dela, lá tenho de lhe dar uma palmadita nos espaldares enquanto chamo pelo S. Brás, o advogado dos engasgados.
Quando a mam√£ acalma, pergunto-lhe o que ir√° seguir-se. Ri-se de novo e diz-me para deixarmos o Gordo a velar pela sua bela adormecida e para entramos no solar.
√Č o que fazemos. Mas, indo j√° a noite um bocado adiantada, o Professor e o Homem-Pergaminho, cansados e cheios de fome, passam pela cozinha onde um resto do bolo com Jurema ficou esquecido num prato. Dividem-no a meio e comem-no com sofreguid√£o, antes de eu ter tempo de os avisar da gra√ßa que a mam√£ fez outra vez com a planta.
De repente o Professor regressa de novo à vida de Agricultor e, como uma seta, dirige-se ao quarto onde a Lilicas acaba de exercitar os couros e cabedais de ninfomaníaca, enquanto o Porta-Chaves, com as mãos a tapar o olho do furacão, se encolhe de pudor. Sobretudo pelo enxovalho por que acabou de fazer passar a nobre instituição em que trabalha.
Agricultor: ‚ĒÄ Estou farto desta gente toda! Seus bandalhos! O que fizeram voc√™s √† minha Clarinha, que a transformaram numa doida varrida? Que inferno! Nunca pensei que com a minha idade tivesse de passar por todos estes constrangimentos! Seus anormais desmiolados!
Já o Porta-Chaves tinha saído à pressa, quando, cheio de calma e modos carinhosos, eu disse à regressada personagem do Agricultor que a Clara, a sobrinha dele, estava deitada no meu quarto, para onde foi nos meus braços quando disse quem era, embora eu continuasse com a secreta esperança de que ela fosse, simplesmente, Sara, a doce mulherzinha com quem casara depois de apenas três meses de namoro.
O homem ficou fulo e prosseguiu:
Agricultor - Mas que pouca-vergonha vem a ser esta?! ‚Äď Agora voc√™, Gabriel, que at√© √© anjo, p√Ķe a minha sobrinha a dormir no seu quarto como se ela n√£o passasse de uma reles concubina? √ď Clarinha, onde √© que tu estavas com a cabe√ßa quanto te meteste com esta gentalha!?
O Pombo-Correio, depois de ter comido o pedaço do bolo, adquirira pose de santidade. Ou, quando muito, de livro sagrado. Devia sentir-se verdadeiramente um Homem-Pergaminho por causa dos escritos do seu corpo. E talvez quisesse mesmo petrificar-se ali como a estátua sagrada da bíblia, ou até do Corão, que um sacerdote daí a pouco pudesse folhear com a reverência das coisas sagradas.
E eu aqui sozinho, sem saber o que fazer... Ah, n√£o! Desta vez a mam√£ tem de me ajudar! E muito...  √Č o meu pensamento quando me dirijo ao sem√°foro, onde a Sara, a Sara, sim senhor, me faz uma aut√™ntica proposta desonesta‚Ķ
- Hoje?!... De maneira nenhuma! ‚Äď respondo, en√©rgico. Tinha-me esquecido dos √≥culos de sol no laborat√≥rio‚Ķ Deixei-os l√° quando a√≠ pusemos a morta-viva da Doutorinha mais o seu Gordo e n√£o havia forma de os ir buscar. Tamb√©m n√£o o queria fazer e, pela primeira vez depois de muito tempo, tinha uma verdadeira desculpa para n√£o levar com todas aquelas luzes na cara. N√£o haveria coito para ningu√©m.
E agora mam√£?!


Continua
« Última modificação: Outubro 12, 2022, 17:20:47 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1228
Convidados: 0


outono


« Responder #54 em: Setembro 12, 2022, 17:52:46 »

Mas o rapaz tem sem√°foro de que cor?
Registado
Goreti Dias
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 18588
Convidados: 998



WWW
« Responder #55 em: Setembro 17, 2022, 13:25:05 »

Sem Olivier, pode ser?
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1120
Convidados: 0



« Responder #56 em: Setembro 25, 2022, 19:05:55 »

N√£o, caso encerrado, Goreti!



E agora mam√£?!
- Agora, as mesmas palmadinhas que me deste quando me engasguei com as barriga de freira, vais d√°-las, primeiro no Agricultor e, a seguir, na ‚ÄúB√≠blia‚ÄĚ, o Homem-Pergaminho que tens especado no teu sal√£o. Depois, se o Gordo n√£o tiver conseguido acordar a Doutorinha (n√£o admira porque ele, de facto, n√£o passa de um sapo) vais ter de fazer isso. Nada a que n√£o estejas habituado deste que chegaste ao meu novo romance. Finalmente, convocas uma reuni√£o de emerg√™ncia para daqui a meia hora.
Adianta alguma coisa dizer que a minha h√©rnia discal, depois de carregar tantos pesos durante toda a noite, me est√° a morder os lombares como uma v√≠bora? √Č claro que n√£o! A vida de personagem √© demasiado dura. Nos livros, a obedi√™ncia aos autores √© uma regra para n√£o ser discutida. A menos que eles permitam e, neste momento, n√£o me apetece discutir nem reivindicar nada com a minha criadora.
Felizmente quando chego ao est√ļdio a Doutorinha j√° est√° acordada e completamente ao corrente dos factos.

A reunião começou a horas e aqui vai a grande surpresa:
A Sara tem uma semana para organizar um grande jantar onde Mel Gibson tem de estar presente. Será o famoso cozinheiro Jamie Olivier a organizá-lo, e se até lá a mamã não mudar de ideias, Jamie ficará incumbido, entre outros pratos, de confeccionar a receita das batatas recheadas. A mamã diz-me para ninguém se preocupar. Sara pode gastar dinheiro à vontade por conta do dinheiro que ganhará com a Sátira do Livro Roubado.
Para espanto de toda a gente, autora convidou tamb√©m o Antiqu√°rio, o mesmo que queria tirar a tosse ao Gordo e √† Doutorinha. Mas o homem tinha ido a Chaves ver um primo prestes a morrer tuberculoso e a quem at√© o padre tinha dado j√° os √ļltimos sacramentos. Por isso era uma viagem inadi√°vel. E, quanto √† Padeira, teve de deixar a fornada das broas a meio, a fim de atender √† minha chamada, j√° para n√£o falar do Mestre de L√≠nguas mortas, que veio de ceroulas e tudo. Foi a mam√£ quem presidiu aos trabalhos. A ordem tinha apenas um √ļnico par√°grafo: saber at√© que ponto cada personagem estava contente com o seu papel e medidas a tomar da√≠ para o futuro.
N√£o as contei, mas pareceu-me que n√£o estavam todas. Nem pouco mais ou menos‚ĶPor isso, sobretudo as queixas do Gordo e da Doutorinha, que a essa altura j√° deveriam j√° estar a fazer p√≥ de tijolo, como n√£o havia qu√≥rum, ficaram em √°guas de bacalhau e a aguardar nova ata. Ficou,  entretanto,  acordado que os presentes de todos os livros teriam de avisar os ausentes para uma magna reuni√£o em data a anunciar oportunamente e de acordo com a disponibilidade dos convidados ilustres.
Sara, atrav√©s de correio eletr√≥nico, come√ßou de imediato a fazer os convites para o pr√≥ximo jantar, da√≠ a uma semana. Foi estabelecido um prazo assim curto porque Mel Gibson tinha a agenda demasiado sobrecarregada. Havia apenas o furo do fim-de-semana em que a Austr√°lia comemora o seu dia. Por sorte, coincidia com uma sexta-feira, e ele tinha o tempo suficiente para se deslocar ao local onde os acontecimentos estavam ent√£o a tomar dimens√Ķes catastr√≥ficas. Mel teria de dar o seu contributo para obviar o fim do mundo indesejado por todos. E ningu√©m como ele para perceber as reais inten√ß√Ķes de Jesus, quando proferiu as palavras apocal√≠pticas para, uns tempos depois, serem escritas na B√≠blia.
A minha mulher, √© claro, teve de recomendar a Mel para trazer o dicion√°rio de aramaico antigo, enquanto lhe explicava que, c√° no velho continente, na sua parte mais ocidental, as coisas estavam a fugir ao controlo. Sentia-se isso no ar,  e era tamb√©m nesse sentido que ia a interpreta√ß√£o de tr√™s seitas de cariz internacional, h√° tempos a estudar o assunto quase compulsivamente. Uma delas professava uma vers√£o mitigada entre o ap√≥crifo e agn√≥stico da vida e sabedoria de Jesus,  e queria, a todo o custo, evitar o Apocalipse prometido por Ele no tempo em que veio do c√©u √† terra nas entranhas da Virgem Maria. A presen√ßa do realizador de A Paix√£o de Cristo era importante, ele que, certamente, estudara a vida de Jesus, desde a concep√ß√£o √† flagela√ß√£o, nas fontes originais e sem as corruptelas lingu√≠sticas dos escribas posteriores. Quanto a Olivier, se ele n√£o pudesse preparar o banquete, haveria com certeza um bom cozinheiro nacional para a festa. Pelos meus c√°lculos, incluindo pessoas, cavalos aves e peixes, rondar√£o as sessenta criaturas, ainda sem contar com a orquestra que o mano, o C√©sar, vai arranjar atrav√©s da funda√ß√£o. Os m√ļsicos v√£o ter apenas direito a uns doces e a um pouco de champanhe franc√™s, antes ou depois da ctua√ß√£o ainda se h√°-de ver, mas, mesmo assim, √© muita criatura a quem dar de jantar.
O Chef ingl√™s ficou encantado com o convite. Embora estiv√©ssemos a correr alguns riscos, Sara prometeu-lhe, desde logo, al√©m do que ele pretendia cobrar em libras pelo trabalho, se n√£o a vida eterna ‚Äď come√ß√°vamos a acreditar que poder√≠amos neutralizar o Apocalipse com a ajuda de Mel e do seu aramaico‚Ķ ‚Äď pelo menos uma boa longevidade,  para ele virar e revirar as panquecas nas frigideiras da cozinha na sua escola-restaurante inglesa, se muito bem calhar, protestante. Este homem tamb√©m n√£o dorme‚Ķ
O meu irm√£o, o C√©sar, conseguiu convencer o primo, o Antiqu√°rio, a comparecer, bem como os restantes membros das Placas Tect√≥nicas, embora o chefe, o ‚ÄúVelho‚ÄĚ russo declinasse o convite. N√£o admira. J√° est√° um bocado farto das tropelias que variad√≠ssimos livros t√™m feito da sua personagem ao longo dos √ļltimos tempos. Por isso delegou a representa√ß√£o da organiza√ß√£o no Antiqu√°rio. Pelos vistos haveria ainda uma outra personagem mist√©rio, mas o Velho n√£o a quis submeter a exposi√ß√Ķes p√ļblicas suscet√≠veis de lhe corromper a imagem para sempre.

Continua

« Última modificação: Outubro 12, 2022, 17:30:23 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1228
Convidados: 0


outono


« Responder #57 em: Outubro 03, 2022, 16:01:39 »

Mistério para Poirot? A Sarinha, tão bondosa deve ser excluída.
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1120
Convidados: 0



« Responder #58 em: Outubro 12, 2022, 17:47:37 »

Isto aqui havia umas repeti√ß√Ķes e teve de levar uma volta, pelo que os vossos coment√°rios n√£o estar√£o ajustados, desculpem l√°


Ninguém queria acreditar quando Mel nos bateu à porta do solar, com uma pequena mala Louis Vitton na mão, e todos nos penalizámos por não termos ido esperá-lo ao aeroporto. Para nossa surpresa, tinha antecipado a viagem. Ele, um entusiasta da Vida de Jesus, não resistira à tentação de vir mais cedo, para, sem os mil e um mirones a que está habituado, poder conhecer, antes do encontro oficial, pelo menos em linhas gerais, os acontecimentos pré anunciadores do final dos tempos.
Felizmente ‚Äď parece mesmo obra de Deus - Olivier e os seus alunos tiveram a mesma ideia e, quando Mel chegou, pode assim comer umas maravilhosas batatas √† Henrique VIII, inventadas pelo Olivier quando ainda brincava no restaurante do pai, no dia em que, pela primeira vez, matou uma galinha cortando-lhe o pesco√ßo. 
Não sei se fiquei sugestionado com esta história da nova receita. Mas imaginei logo cabeças decapitadas, e lembrei-me, entretanto, de uma afirmação da mamã quando falou em empanturrar as pessoas com a receita de Maria Madalena. Era, segundo disse, para algumas cabeças irem saciadas para o outro mundo….
Na s√©rie de coincid√™ncias em que tantos livros andam envolvidos, pelos vistos foi j√° uma premoni√ß√£o do cozinheiro inventar o novo prato ainda t√£o jovem, mantendo-o virgem para o poder cozinhar num dia de apocalipse dom√©stico e num s√≠tio t√£o remoto como esta terra. Levando as coisas mais longe, s√≥ o facto de ter sido constru√≠do este solar nesta aldeia, faz pensar na m√£o do destino como a grande impulsionadora de fant√°sticos acontecimentos futuros e pr√≥ximos. N√£o deve ser por acaso que o meu lar se poder√° vir a transformar no palco de revela√ß√Ķes que abalar√£o o mundo de Cristo, incluindo tamb√©m o quintal liter√°rio de um pequeno burgo como Portugal.
No meio de tudo isto, com tanto sangue à vista, penso se a mamã não terá perdido a razão, ela que quis economizar em mortes num momento, para as esbanjar noutro e quando tiver os parodiantes à frente para os poder aniquilar com a verdade. Não será apenas uma vingança fria, mas um autêntico icebergue, que cairá no prato de cada um dos visados. Mas, quem sou eu para discutir isto e outras coisas? Tenho de limitar-me à condição de personagem e mais nada. Quanto às novas batatas do Jamie, a origem do nome só pode advir do facto de elas, antes de serem cozinhadas, serem guilhotinadas com um instrumento que o Olivier montou na cozinha. E também não quero saber pormenores…
A mam√£, julgo, n√£o ir√° usar a Jurema desta vez‚Ķ Quanto mais n√£o seja para n√£o desbaratar a fama do ingl√™s, nem provocar altera√ß√Ķes de personalidade √†s cinco ou seis dezenas de personagens convidadas para a reuni√£o, sendo uma delas t√£o ilustre como Mel Gibson.
Os autores do livro do meio s√≥ no √ļltimo momento confirmaram a presen√ßa. Isso n√£o provocou embara√ßo algum. Toda a gente contava com uma resposta negativa. A grande admira√ß√£o foi eles aceitarem. Embora tenha as minhas d√ļvidas de que Clara n√£o tenha exercido sobre eles alguma coac√ß√£o psicol√≥gica e, porque n√£o, chantagem?
Apesar de o solar ser grande, n√£o tem uma sala com condi√ß√Ķes para acomodar tantas personagens e, al√©m de tudo, de natureza t√£o diversa. Por isso, com algum al√≠vio, vimos o Olivier montar uma grande tenda numa das alas do jardim, naquela que vai at√© aos pl√°tanos da quinta, mais ao fundo. N√£o se esqueceu de nenhum pormenor: comedouros e bebedouros para os cavalos, aqu√°rios para os peixes, gaiolas de diversos tamanhos para as aves, enfim, nada ficou ao acaso, confirmando-se o grande estratega que Olivier √© quando tem de dar de comer a muitas criaturas, sejam embora dif√≠ceis os dentes de uns e de outros.
Eu, como o √ļnico a quem a autora n√£o conseguiu fazer provar da Jurema, seguindo o esoterismo de Sara e depois de me ter apercebido de que as personagens s√£o sempre as mesmas, tratei de ordenar os lugares segundo as nossas conveni√™ncias para n√£o haver problemas. Umas vezes era Clara quem entrava em cena, outras era a doidivanas da Lilicas. J√° noutros momentos era a do√ßura da minha mulher, aquela que queria morrer nos meus bra√ßos derretida como manteiga, nas horas em que nos dedic√°vamos ao ato b√≠blico da cria√ß√£o, embora ela, por ser j√° um bocado velha, s√≥ possa vir a ser m√£e adotiva. Por isso deix√°mos bastantes lugares vazios √† mesa. Se alguma personagem se transviar noutra, √© necess√°rio que ocupe a cadeira respetiva, de prefer√™ncia bem longe de uma outra personagem a arrogar-se o direito de ser quem a outra disser que √©. Sempre orientado por Olivier, mandei colocar tr√™s mesas na tenda. Duas delas, redondas, ficaram nos topos de uma rectangular bastante comprida. E, atendendo aos pap√©is principais e √† preced√™ncia dos livros, tive de sentar o C√©sar numa das mesas circulares, tendo reservado o seu lado esquerdo para Mel Gibson. √Ä direita de C√©sar √© o meu lugar de anjo, seguido da Sara e da Clara. Tendo as duas um feitio semelhante, e querendo ambas morrer de amor nos meus bra√ßos, se, por azar, acontecer de novo um epis√≥dio de transmuta√ß√£o de personalidades, n√£o andar√£o √† pancada uma com a outra.
J√° Lilicas vai ficar na mesa comprida, entre a cadeira do Pombo-Correio e a do Professor,  e, quanto ao Mestre de L√≠nguas Mortas, ficou √† esquerda do Mel Gibson, n√£o muito chegado. At√© porque tive o cuidado de deixar um bocado de espa√ßo livre da mesa para o realizador da Paix√£o de Cristo colocar o dicion√°rio de aramaico, bem como qualquer outra documenta√ß√£o vinda de Israel. Principalmente de Bel√©m e de Nazar√©. As aten√ß√Ķes aqui v√£o para os Recolectores Ambidestros de Infus√Ķes Venenos e Ant√≠dotos (RAIVA) de que o Professor √© o representante m√°ximo. O homem, al√©m de se centrar a sua pesquisa nos evangelhos ap√≥crifos acerca da inf√Ęncia de Jesus, tem tamb√©m um p√© nos escritos gn√≥sticos. Segundo alguns, deve andar por l√° perdida a chave para descobrir o grande elixir, para muitos o verdadeiro Santo Graal da Humanidade. Foi √† conclus√£o a que ele chegou, depois do del√≠rio com a chupeta e no meio de uma vis√£o meio amalucada no dia do seu rapto pelas Placas Tect√≥nicas do Novo Mundo e depois da dela√ß√£o do Gordo, o velho apaixonado da Sara, quando tamb√©m este experimentou o efeito alucinog√©nio da Jurema mudando de barricada. O Antiqu√°rio, esse coloquei-o no outro lado da mesa comprida, separando-o do Gordo e da Doutorinha pelo Porta-Chaves, apesar de, quanto a este, ser de esperar que, para al√©m do exerc√≠cio da sua actividade de pol√≠cia, durante o jantar n√£o tire os olhos de Lilicas.
Já aos autores dos livros, abanquei-os na segunda mesa redonda, por ordem alfabética, ficando a nossa querida mamã, a par com um outro M dos autores do livro do meio, juntamente com a Dona Tita Lívia.
A mam√£ prometeu-me que n√£o iria arrancar os olhos a ningu√©m, e eu n√£o tenho raz√Ķes para desconfiar da sanidade dos seus carretos. N√£o se deve passar deles desta vez. Depois, os criadores precisam de ficar entre pares,  para trocarem impress√Ķes acerca dos seus livros,  e para dedilharem entre si aquela linguagem de met√°foras e hip√©rboles que usam para dizer em muitas palavras o que poderia ser dito em duas ou tr√™s. As restantes personagens, sentei-as, ou melhor, reservei-lhes o lugar, mais ou menos segundo as afinidades, l√≠nguas e gostos. Apesar de o argentino, membro das Placas, perceber perfeitamente, tanto quanto julgo, o portugu√™s, at√© pelos encontros sistem√°ticos que tem com o chefe luso da organiza√ß√£o, o Antiqu√°rio. Os cavalos, as aves e os peixes ficaram um bocado mais abaixo, como n√£o podia deixar de ser. Era para n√£o incomodarem muito com as relinchadelas e as grasnadelas, embora os peixes sejam mudos.
O jantar começou com o atraso de meia hora. Os autores do livro do meio e a Dona Tita Lívia chegaram muito depois da hora combinada. Tinham ido a uma audiência de julgamento, e o juiz atrasou-se na leitura da sentença que, pela cara deles, não lhes foi favorável. Assim, eu e a Sara, enquanto esperávamos, podemos ir juntos dar milho aos pombos, aos patos e às galinhas, sem esquecer os cisnes do lago e as outras avezinhas mais pequenas, que voam livres pela quinta. Lançámos até uns grãos a mais para elas. A festa, além de tudo, pretendia também ser um verdadeiro bodo aos pobres. Houve ração fresca para os cavalos e, se não ficassem satisfeitos com o jantar, no fim sempre podiam ir mondar à dentada a erva, que abunda por aqui, especialmente junto ao rio perto da Igreja de Nossa Senhora das Sete Cabecinhas.

Continua....
Registado
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1228
Convidados: 0


outono


« Responder #59 em: Outubro 14, 2022, 20:41:18 »

Anuncia-se um jantar e peras.
Registado
Páginas: 1 2 3 [4] 5   Ir para o topo
  Imprimir  
 
Ir para:  

Recentemente
[Dezembro 04, 2022, 22:12:13 ]

[Novembro 30, 2022, 22:54:05 ]

[Novembro 30, 2022, 22:50:06 ]

[Novembro 30, 2022, 11:10:02 ]

[Novembro 27, 2022, 22:41:10 ]

[Novembro 26, 2022, 14:51:45 ]

[Novembro 25, 2022, 13:20:28 ]

[Novembro 24, 2022, 11:50:12 ]

[Novembro 21, 2022, 01:05:39 ]

[Novembro 20, 2022, 13:18:07 ]
Membros
Total de Membros: 792
Ultimo: Leonardrox
Estatísticas
Total de Mensagens: 129790
Total de Tópicos: 26582
Online hoje: 404
Máximo Online: 630
(Março 31, 2019, 09:49:42 )
Utilizadores Online
Users: 1
Convidados: 326
Total: 327
Últimas 30 mensagens:
Novembro 10, 2022, 20:31:07
Partilhar é bom! Partilhem leituras, comentários e amizades. Faz bem à alma.
Novembro 10, 2022, 20:30:23
E, se n√£o for pedir muito, deixem um incentivo aos autores!
Novembro 10, 2022, 20:29:22
Boas leituras!
Novembro 10, 2022, 20:29:08
Boa noite!
Setembro 05, 2022, 13:39:27
Brevemente, novidades por aqui!
Setembro 05, 2022, 13:38:48
Boa tarde
Outubro 14, 2021, 00:43:39
Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Ol√°! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Ol√° para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Ol√° para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
Março 05, 2021, 20:17:07
Bom fim de semana para todos
Março 04, 2021, 20:58:41
Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Powered by MySQL 5 Powered by PHP 5 CSS Valid
Powered by SMF 1.1.20 | SMF © 2006-2007, Simple Machines
TinyPortal v0.9.8 © Bloc
Página criada em 0.268 segundos com 29 procedimentos.