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Autor Tópico: António Simplesmente -10  (Lida 1843 vezes)
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Nação Valente
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outono


« em: Julho 19, 2022, 18:19:29 »

Quando António viu pela primeira vez a escuridão da noite, uma tempestade diluviana quase destruiu a laboriosa aldeia de Oliveira do Dão. O seu nascimento, tão desejado, foi para aquela família humilde  como a luz redentora de uma casa sem herdeiro varão. Alegria e perplexidade invadiram como um turbilhão devastador a mente dos pais e irmãs de António. O seu pé defeituoso, foi visto, à luz da religiosidade popular, como uma maldição e um castigo divino. O pai, Zé d`Avó, arrasado com a fúria do dilúvio, ficou de rastos com aquela machadada do destino e não conseguia pregar olho. As irmãs, rezaram novenas até altas horas, para acalmar os maus espíritos. Apenas Maria, a mãe cansada pela canseira da parição, manteve a serenidade e procurou animar as hostes pensando “amanhã penso nisso" .E depois de alimentar o filho, dormiu a sono solto.
 
Entretanto,na mansão do morgado de terras do Dão, João Gonçalves Zarco, todas as criadas de fora e de dentro, foram reunidas na capela, para rogar pelo bom regresso do patriarca que fora a cavalo visitar uma herdade distante. Já a noite ia alta e do fidalgote nem sinal. Dona Efigénia Zarco, acolhida à cama por imperativos de gravidez, mandou um criado chamar o feitor Zé d`Avó com urgência, para pedir conselho sobre a demora do marido.O braço direito do morgado, apesar da angústia familiar que estava a enfrentar, não se fez rogado e deslocou-se de imediato à casa do patrão onde se inteirou da situação. Procurou acalmar dona Efigénia e prontificou-se de imediato a agir. Constituiu um grupo de serviçais para começar as buscas, apesar de não se enxergar um palmo à frente do nariz.
 
João Gonçalves Zarco aproximava-se com seu cavalo Alão, o mais seguro, fiel e inteligente da sua manada, quando foi atingido pela borrasca que se fez sentir em todo o vale do Dão. Apressou o Alão como que a tentar antecipar-se à fúria dos elementos e à cheia eminente do rio, mas um golpe de água repentino atirou-os ao chão. João e Alão, sentiram-se arrasta dos por uma corrente de água e lama, que descia apressada da encosta. O seu corpo,chagado e dorido, rebolou desamparado até ser travado por uma sebe de canas, que ladeava as margens do rio. A força da torrente, indiferente aos seus apelos de ajuda, submergi-o e quase o abafava, mas o morgado não era homem de desistir e recorrendo a todas as forças presentes, passadas e futuras que possuía, agarrou-se ao canavial que o protegia e com uma fúria mais ciclópica que a do vendaval, conseguiu pôr-se de pé. De vez em quando, a escuridão era alumiada por grandes clarões de luz, seguidos de estrondos que silenciavam a voz das águas revoltas. Um homem da sua estirpe, com antepassados que tinham enfrentado a dureza das ondas oceânicas e vencido todos os Adamastores, não podia deixar-se vencer por um regato de água ocasional. Era um homem na flor da idade, alto como um choupo e duro como o aço das suas alfaias. A esposa, D. Efigénia, ainda não lhe dera o primeiro descendente e portanto o futuro da sua família não estava garantida. Três vezes se levantou e três vezes a irreverência da ribeira improvisada o deitou ao chão. Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade o caudal desenfreado diminuiu de volume. Foi quando sentiu as pernas fraquejar, a cabeça rodopiar, o corpo amolecer e ao mesmo tempo ser invadido por uma sensação de não estar.

Zé d´Avó chegou com os seus homens às margens do rio já os pássaros sobreviventes anunciavam o nascer do dia com tristes trinados matinais. O espetáculo dantesco que observaram fê-los pensar no pior. O rio engordara para além do leitoe apanhara coisas e animais desprevenidos que navegavam como náufragos sem sentido. O moinho das Quebradas, local onde se passava a vau de uma para outra margem estava em parte submerso. Uma coluna de fumo espesso saía da chaminéda casa do moleiro. Zé bateu na grossa porta aferrolhada. O moleiro abriu a porta:
-Entrem já estava à vossa espera, disse aliviado.
Num canto da sala de pedra solta e negra de fuligem, ardia uma generosa fogueira junto da qual estava um vulto embrulhado num grosso cobertor. Aproximaram-se e os seus corações exultaram de alegria. Era o senhor de Oliveira do Dão.
-Quando o temporal amainou saí para ver os estragos, que foram muitos, pelo menos um rodete e duas mós foram levados, disse um homem atarracado e com uns olhos  pequeninos e piscos. Foi então que vi preso no açude o Alão, o cavalo preferido do senhor Joãozinho. Não o fazia por aqui, mas fiquei preocupado e peguei no petromax e caminhei pela margem. Em boa hora o fiz, porque uns metros adiante, na curva, vi o morgado preso no canavial. Estava enregelado...vim buscar um cobertor e uma bebida quente e consegui despertá-lo e trazê-lo para dentro do moinho. É um homem forte como um boi, senão...
 
O disco solar despontava no horizonte quando João Zarco entrou na sua casa, de pé, mas muito combalido. D. Efigénia passou a noite numa dupla aflição, entre a ausência do marido e as dores de parto que não paravam de aumentar. Era uma mulher de aspeto frágil mas muito corajosa. Suportou estoicamente aquela longa noite, mas ao raiar do dia as dores não abrandavam e mandou um criado chamar o doutor João Oliveira, que apesar de carregado de anos a dar saúde às gentes da terra, não demorou a estar ao seu lado. O primeiro som que o proprietário João ouviu ao entrar na sala de fora, foi um choro de criança. Refeito da surpresa, sentiu-se invadido pela mesma sensação que horas antes o atingiu no canavial, ao mesmo tempo que indo buscar ainda forças, onde já não as havia, se arrastou para o quarto conjugal, enquanto balbuciava: obrigado Senhor, tenho um herdeiro. Nos braços de D. Efigénia, feliz no grande sorriso, estava uma fidalguinha.
Terá  Gonçalves Zarco ficado satisfeito?


« Última modificação: Outubro 18, 2022, 18:34:39 por Nação Valente » Registado
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« Responder #1 em: Julho 20, 2022, 12:59:00 »

Onde é que eu já li este texto?

Abraço
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #2 em: Julho 26, 2022, 19:43:56 »

 
Tempo de corvos
 
Dias depois de completar doze anos, António ia partir para Viseu. Enquanto esperava pelo comboio na companhia da sua mãe, lembrou-se do primeiro dia em que frequentara a escola primária e do ar curioso e assustado dos meninos que com ele ocupavam a mesma trincheira da pobreza. Nascer pobre numa aldeia de um país periférico e atrasado significava, no final conturbado do século XIX, ter como destino a vida dura e austera de gerações de camponeses cujos horizontes se perdiam nas faldas das serras adamastóricas que aprisionavam vidas e sonhos. A fuga consentida para os jovens, com pacto secular com a miséria passava pela missão de servir nos caminhos do Senhor. Esse passo maior que as suas débeis pernas ia António dá-lo naquela manhã submersa a caminho do Seminário menor. Quando a máquina que se arrastava envolta numa nuvem de fumo, assomou da última curva e se aproximou da estação, pouca terra, pouca terra, António menino que queria ser forte, sentiu as pernas fraquejar e não conseguiu segurar uma lágrima que teimosamente lhe acarinhou o magro rosto. Um apito estridente, logo abafado por um longo silvo que escorregou pelas profundezas do vale do Dão, pôs aquela engrenagem de ferro e fogo em marcha cada vez mais acelerada. António encostado ao ombro da mãe, viu no cais os braços das irmãs a afastar-se como se resolvessem viajar para outras paragens. Mas para além da ilusão óptica, quem se afastava para um mundo povoado de sotainas pretas era ele.

Por detrás daqueles muros rigorosamente vigiados, onde se produziam os discípulos de Pedro, os dias passavam sempre iguais: aulas, rezas, missas, tudo muito condimentado com muita disciplina castigos divinos e terrenos para quem não respeitasse as regras. Deitado na sua cama, nas longas noites de Inverno, António saltava todas as barreiras e voava para Oliveira do Dão e para a liberdade de correria, tanto quanto lhe permitia o seu pé defeituoso, pelos campos abertos, agitando os milheirais, espantando a passarada do fim do dia, mergulhando nu nos pegos da ribeira (com os poucos moços que com ele se identificavam),nos dias quentes de estio ou olhando a menina dos olhos verdes que à tardinha o espreitava da janela e com quem se via a passear de braço dado depois da missa domingueira.

Tinha saudade do principal companheiro de estroina, que nascera um ano depois por insistência do patrão do seu pai, que não desistira de fabricar um varão, depois do nascimento da filha um ano antes. Quem pagou as favas foi dona Efigénia que ainda não acabara de desmamar a filha recém-nascida e já tinha um embrião a crescer dentro de si. António e Afonso tornaram-se amigos pois frequentava a casa do fidalgo e foi crescendo como se fosse filho adotivo. Frequentaram juntos a escola onde António mostrou inteligência acima da média e como e onde ganhou estatuto para prosseguir estudos. Mas quem nascia para ser peça da engrenagem produtiva, só tinha um caminho: o seminário. Quando regressava do devaneio, sobre a menina dos olhos verdes, António entristecia profundamente. Como seria possível se ia ser padre? Que raio de vida a do pobre!
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« Responder #3 em: Julho 27, 2022, 01:07:42 »

Prosseguindo....
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« Responder #4 em: Agosto 08, 2022, 21:37:26 »

Tentações

António bem recomendado pela mãe e pela madrinha D. Efigénia, que lhe destinou a carreira eclesiástica, cumpria religiosamente as tarefas de seminarista. Habitou-se a sobreviver naquele meio hostil à sua natureza rural. Estabeleceu com os companheiros Américo e Marcelo uma cumplicidade que permitia amenizar o ambiente soturno e escuro do seminário. Depois da missa de domingo davam uma volta pela cidade. As suas sotainas pretas distinguiam-se no meio do colorido que animava as ruas do centro. Donzelas provocadoras, olhavam-nos com malícia como tentações saídas do inferno. Pares de namorados circulavam em amena cavaqueira como se pertencessem a outro mundo. Regressavam ao Seminário esquecidos do cinzentismo que ajudavam a compor, mas com grandes interrogações próprias da adolescência. Desafiando o pecado não conseguiam tirar da mente a imagem daqueles corpos femininos que observavam nos seus passeios e na solidão das retretes não conseguiam fugir à sua natureza humana pecaminosa aliviando os seus impulsos sexuais. Anos antes quando esses desejos começaram a perturbá-los viram-se inocentemente a praticá-los em conjunto, chegando a fazer campeonatos de produtividade.
Um dia, ao abrir a sua Bíblia, António encontrou uma estranha mensagem. Com a ajuda dosamigos procurou descobrir o seu autor. Pela caligrafia associou-a a Salomão um jovem estranho e portador de um olhar triste. "Se quiseres podemos ajudar-nos. Desabotoa dois botões da batina como sinal". Américo e Marcelo pensaram, pensaram e disseram a António:
-Não podemos entrar nos quartos dos outros, mas como as portas ficam abertas vamos espreitar o Salomão. Deslizaram como sombras ao longo do corredor e colados às paredes cinzentas foram-se aproximando do quarto suspeito. O silêncio do recolher pesava como chumbo. Os seus pés procuravam levitar para não despertarem nenhum demónio. Junto da porta olharam para o interior do quarto e os seus olhos não conseguiram enxergar no escuro denso, mas sons estranhos escapavam para o corredor. Um chiar de molas cansadas misturados com gemidos abafados desafiavam o silêncio obrigatório. Ao longe começaram a ouvir-se passos arrastados pelo peso dos anos. A figura colossal do Director começou a vislumbrar-se na penumbra. Os três mosqueteiros da sobrevivência afastaram-se a tempo de um castigo exemplar.
Quando voltou para o ùltimo ano no Seminário menor António já não encontrou Salomão, tinha sido expulso. O grupo de António não sentiu a sua falta e este comentou para os outros:
-Ao menos livrou-se desta cruz. E nós conseguiremos?
« Última modificação: Agosto 14, 2022, 19:17:18 por Nação Valente » Registado
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« Responder #5 em: Agosto 12, 2022, 18:50:32 »

Vamos lá continuar...
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« Responder #6 em: Agosto 22, 2022, 14:32:25 »

António Simplesmente - 5

Não sei para onde ir

-Bom tarde, minha mãe...
-António, que surpresa, não te fazia por cá?
-As saudades são maiores que a vontade, os desejos mais fortes que as obrigações. Pelas vicissitudes da vida sou um bicho de cultura. Pairo no etéreo da reflexão mas as minhas raízes estão aqui na terra mater, no bucolismo da natureza, no cantarolar das águas correntes, no balançar dos choupos, no coaxar das rãs nos charcos...
-Como falas bem meu filho, enches esta tua mãe, sem estudos, de satisfação. Não passo de uma camponesa que apenas conhece as palavras pobres, da nossa pobreza, e tenho dificuldade em perceber o que dizes, mas que é bonito é. Mas fala-me da tua nova vida no Colégio.
-A vida lá é monótona, quer dizer enfadonha, melhor um pouco chata...eheheh...acho que estou a melhorar do que se chama falar complicado, mas estou bem, rodeado de muitos livros que leio e releio na ânsia de aprender o mundo por outros olhos. Também vou dando umas aulas aos jovens do Colégio. Atrevo-me a dizer que não me falta quase nada, a não ser mesmo o quase. De facto, a minha vida parou numa encruzilhada sem saídas. Por isso vim pedir conselho a quem tem a sabedoria da vida e o curso da dura experiência. Venho cansado da viagem, de horas a moer os ossos por essas estradas de tortura, e preciso de relaxar nesta paisagem da minha meninice. Mas diga-me, “como vão as coisas por cá?”
-É a labuta de todos os dias meu filho. Tem que se arrancar da terra, com muito suor, a nossa sobrevivência. Ganhamos o pão de cada dia em cada dia e damos graças a Deus por nunca nos faltar a comida na mesa. Olha, vou preparar um jantar como tu gostas e precisas. Estás com um ar um pouco deslavado. Tens-te alimentado bem?
-No colégio servem-me todas as refeições no meu quarto, às vezes na companhia de dois padres professores, que me ajudam a sair um pouco da minha solidão, quase natural. Quando estou só vêem-me as saudades de todos vós e penso na singeleza da vida campestre. Muitas vezes regresso à infância que é onde me sinto bem, e vejo-me a andar pelos campos a ver crescer as hortaliças, a lanchar na casa da madrinha D. Efigénia. A propósito como está a menina Maria Eugénia, há muito tempo que não a vejo.
-Ocupem os vossos lugares na mesa: a chanfana está quase pronta. – disse Maria-Ó Zé despacha-te com o vinho.
-Este é de boa cepa, foi-me oferecido pelo senhor Joãozinho. É da vinha touriga nacional da ladeira do pego. Está sempre reservado para as visitas do António.
-Ó homem, e não te esqueças que está também reservado para a cozedura da minha chanfana, pois depois de pôr a carne de cabra entre camadas de cebola e alho e louro, é tudo regado com o bom vinho dos compadres, cozido em lume brando e panela de barro como convém.
-Que dizem, minhas irmãs? O dedo da mãe para a cozinha continua viçoso. Quem me dera tê-la sempre comigo. De certeza que estaria bem mais anafado.
-Mano António, precisas é de uma cozinheira mais nova. Olha que foi a Madalena, que nos trouxe esta receita a pensar na tua saúde...
-Bem Rosarito, falemos de coisas bem sérias e que me trouxeram aqui. Como todos sabem recebi ordens menores no Seminário, mas neste momento ainda não tenho idade para continuar os estudos eclesiásticos. Neste interregno tenho pensado muito se terei vocação para vir a ser padre. Tenho, também discutido o assunto com o Reitor nas nossas conversas de serão e a verdade é que tanto ele como eu concordamos que esse não deve ser o meu caminho. Achamos que Deus me reserva outra missão bem mais espinhosa, mas gostaria de ouvir os vossos sábios conselhos, antes de tomar qualquer decisão.
- Nas noites longas de inverno em que o sono teima em andar arredio, tenho falado com o teu pai sobre o que será melhor para o teu futuro e principalmente para a tua felicidade. Com muita franqueza, achamos que o sacerdócio não te entusiasma, sentimos-te triste e acabrunhado e pensamos que serias mais feliz se constituísses uma família...mas que pretendes fazer?
Que resolverá António Simplesmente? Enveredar pelo sacerdócio ou lançar-se na incógnita da aventura da vida?
« Última modificação: Setembro 15, 2022, 19:13:46 por Nação Valente » Registado
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« Responder #7 em: Agosto 23, 2022, 17:36:15 »

O sacerdócio não será talvez aconselhável...
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« Responder #8 em: Setembro 05, 2022, 13:23:33 »

Concordo com a Gabriela!
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outono


« Responder #9 em: Setembro 14, 2022, 21:02:58 »


O despertar do amor- 6

Conheci o António por um acaso destino, o que certamente me estava destinado, desde que a Divina Providência me colocou neste mundo. Esta é a minha convicção, sem pôr em causa a existência do acaso, que considero fazer parte do destino que nos vem traçado na nossa breve passagem por este mundo. Quem não acredita no poder divino, achará que foi um acaso ter ido esperar à estação da CP de Viseu Juliana hóspede da casa da minha família, que alugava quartos para ajudar nos fracos rendimentos, de que dispúnhamos. Nem pode ter sido um acaso ser acompanhada, pelo seu irmão, que frequentava o seminário, para se preparar para ser servo de Deus.
Quando cruzei pela primeira vez os meus olhos com os dos do António, senti um calafrio que me percorreu todo o corpo. Não consegui evitar que a pele branca do meu rosto se ruborizasse, aproximando-se da cor do meu cabelo cor de fogo. Foi este fogo que senti estar a queimar-me a pele da cara. O primeiro pensamento que ocupou a minha mente, foi a de ter encontrado o homem que esperava encontrar para companheiro de uma vida em construção. Tinha feito dezanove anos, estava a concluir a formação para ser professora do ensino primário. O homem que estava à minha frente e que parecia corresponder ao meu olhar, era uns anos mais novo, e acompanhava a irmã, para iniciar mais um ano na sua formação para servir o Senhor. E isso provocou -me um sentimento contraditório de desejo/repulsa. Como era possível encontrar o homem dos meus sonhos, comprometido com a nobre missão de salvar almas?
António atraiu-me pelo seu olhar penetrante, que dizem ser o espelho da aula, pelo seu porte sereno, com um rosto magro num corpo onde predominava a elegância. Pareceu-me mais como um príncipe de conto de fadas do que com que um humilde filho de camponeses. Estive a sensação que era um ungido divino destinado a grandes feitos. A minha dúvida, no turbilhão de pensamentos, que me envolviam, era se essa missão contaria ou não com a minha presença. Como qualquer moça que naquele início do século XX, tinha como principal desejo casar e constituir uma família, a paixão por um jovem comprometido com a religião e com o celibato, era no meio de uma alegria momentânea, um doloroso dilema. Para uma devota, não seria pecado roubar da sua missão  um jovem destinado à vida eclesiástica? Não estaria desobedecer aos propósitos divinos’
O António seguiu para o seminário onde tinha terminado ordens menores, e como não tinha idade para frequentar a fase seguinte, ensinava jovens mais novos. Juliana a sua irmã que vivia em nossa casa, apercebeu-se da “química” que se gerara no nosso primeiro encontro, e adivinhou o meu embaraço.
- O António frequenta o seminário, como muitos outros jovens do meio rural, que procuram uma saída mais airosa à vida do meio onde nasceram. De entre os que entram e os que saem padres, a diferença é abismal – disse para me tranquilizar.
O meu espírito sentiu algum conforto, mas o mesmo o demónio transformava-me o sonho em pesadelos. Era uma incerteza saber se António queria ou não levar a sua carreira eclesiástica para a frente, mas era uma ousadia ser eu a desviá-lo desse caminho. Como devota sentia que não devia opor-me à vontade de Deus, e do destino que lhe traçara. Como mulher imperfeita e pecadora, sentia os desejos da carne, e via-me nos braços do homem que sentira como meu amado. Nas minhas contradições humanas interrogava-me como podia o destino colocar António no meu caminho, e ao mesmo tempo, colocar entre nós um muro inultrapassável.
- O meu irmão que ajudei a criar como irmã mais velha, e com quem sempre troquei inconfidências, aceitou a ida para o seminário com um destino, que consoante as mudanças trazidos pelo seu crescimento, foi pondo em causa. Nas nossas inconfidências interrogava-se sobre a sua vocação para a vida religiosa. Sempre o vi como alguém que gostaria de constituir família, e não como um celibatário.
Não tinha dúvida que a Juliana via com bons olhos o eventual namoro do António comigo. Menos dada a fundamentalismos religiosos, não via nenhum pecado, na nossa aproximação, nem no abandono da vida religiosa pelo irmão. A sua ajuda acabou por me fazer acreditar que António faria um dia parte da minha vida, de tal maneira que nas visitas de Juliana  ao seminário, eu era uma convidada especial, como especial eram os encontros, sempre à distância física, que os nossos olhos aproximavam numa mescla de desejos pecaminosos..
A nossa relação manteve-se neste registo platónico durante todo o ano. Quando chegou a altura das férias de verão, António partiu para a sua aldeia, deixando-me numa profunda tristeza pela sua ausência, mas o que nem idealizara em sonhos aconteceu, quando Juliana me convidou para ir com ela uns tempos na casa dos seus pais. Iria, pela primeira vez estar perto de António senti-lo, tocar-lhe. Estaria o seu desejo à altura do meu? Faria a nossa vida parte do mesmo destino?

« Última modificação: Setembro 22, 2022, 18:16:47 por Nação Valente » Registado
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« Responder #10 em: Setembro 17, 2022, 13:26:24 »

Com um ano platónico, tudo será possível. Que Deus os abençoe!
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« Responder #11 em: Setembro 22, 2022, 18:03:49 »

Encontro adiado - 7

Um balde de água fria caiu-me em cima da cabeça quando a minha mãe, carregada de filhos, sem tempo para respirar, me disse de uma forma abrupta.
- Maria Madalena, tenho de te dizer, que não podes ir para Oliveira do Dão com a Juliana.
- Mas porquê minha mãe? Vou com a nossa hóspede moça séria e minha amiga.
- Está decidido, não podes ir
- Não tenha receio – continuei, com a esperança de reverter a decisão – Eu sei que nunca saí de casa, mas vou para junto de gente séria. Se receia que vá pela presença do António, lembro-lhe que ele está quase a sair padre. E precisa de confiar em mim.
- Sabes que sempre confiei em ti. Como filha mais velha tens-me ajudado na criação dos teus irmãos. Também o fiz na casa dos meus pais. Em relação ao António a única coisa que me preocupa é o falatório de gente invejosa. Não te quero ver nas bocas do maldizer. Mas o que me leva a não te deixar ir é porque preciso de ajuda, agora que a doença do teu irmão mais novo tem de ser de acompanhada a toda a hora.
Perante este argumento não tive mais nada para dizer. Era a minha sina. Em tempos tivera de interromper os estudos para professora, devido à ajuda familiar. Que podia fazer? Afastei-me silenciosa, escondendo as lágrimas que corriam pela cara. O meu irmão está doente desde o seu nascimento, tem três anos, e só tem piorado. Paciência, no fim das férias voltarei a ver António.
 Toda a vida fui preparada para saber esperar. A minha relação com o homem que me despertou para amor, continuava a ser bastante dúbia. Os receios iniciais, relacionados com a sua condição de seminarista, continuavam a atormentar-me. Como católica fiel não queria sentir-me responsabilizada por o desviar  da sua vocação, criticada na terra, e afastada do céu. Mas terá ele mesmo vocação para o sacerdócio? Pelas propostas que me tem feito tenho sérias dúvidas. Por intermédio de um amigo seminarista tem-me dado a entender que está disposto a mudar de rumo se eu quiser ser  sua mulher. Depois fez-me chegar uma carta, onde associa a vida de lavrador à felicidade, dizendo que o que mais deseja é chegar casa depois de um dia de trabalho, e sentir-se aconchegado nos braços de uma esposa, acrescentando que eu seria essa mulher. Custava-me acreditar naquelas palavras, até que um dia, enquanto nos despedíamos na porta do Seminário, passou um velho andrajoso a pedir ajuda. António aproximou-se dele e entregou-lhe as moedas que tinha consigo. Foi a gota de água que fez render-me, sem reservas, aos seus encantos. O nosso encontro na sua aldeia seria a continuação desse romance, que apenas fora adiado. Mas seria mesmo assim?

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« Responder #12 em: Setembro 22, 2022, 19:51:07 »

Logo veremos, não?
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« Responder #13 em: Setembro 28, 2022, 19:00:13 »

(vamos ver?)
  
António simplesmente - 8

Amor e poesia

Aos dezoito anos entrei, pela primeira vez, numa carruagem de comboio, para viajar para fora da cidade onde nasci e sempre vivi. As viagens mais facilitadas pelo transporte ferroviário permitiam deslocações mais rápidas e mais fáceis. Até aí viaja muitas vezes para fora do meu corpo, visitando lugares que existiam nas páginas dos livros. Foi assim que fui visitando o meu país nas Viagens na Minha Terra, de Almeida Garret, e me apaixonei pelas belezas do meu país, e me sensibilizei com a menina dos olhos verdes, no vale de Santarém, com quem me identifiquei na sua singeleza. Também eu, enclausurada na minha terra, gostaria de ter sido personagem de escritor inspirado para viver para sempre, em letra de forma. E não consigo deixar de viver a descrição do percurso de Jacinto através da riqueza paisagística de Portugal até chegar a Tormes. Fora dessa imaginação que viagem poderia fazer a filha de humilde funcionário do Estado, cuja única riqueza acumulada foi ter feito uma dúzia de filhos, e que precisava de alugar quartos para sobreviver?
No trajecto entre Viseu e Oliveira do Dão, vi a deslocar-se em sentido inverso paisagens reais de Portugal. Uma sensação de felicidade, e ao mesmo tempo de receio, protegida apenas pelo meu vestido preto, e acompanhada por uma pequena mala com uma muda de roupa. O meu receio crescia em sentido inverso à diminuição da distância percorrida. Quando o comboio parou na estação do destino, saí como se tivesse viajado para o fim do mundo. Olhei à minha volta e não vi nem um rosto conhecido. E se se tivessem esquecido da minha chegada? Pouco depois vi a correr na minha direcção um vulto escuro, alto e meia desengoçado. O meu coração bateu desordenadamente. António chegara um pouco  esbaforido,  pegando-me nas mãos, e pedindo desculpas pelo atraso. Aquele primeiro contacto físico fez-me perder a insegurança momentaneamente. Depois vieram dias de uma felicidade estranha. Nunca estivera tão próxima de um quase desconhecido. António nos nossos encontros mantivera sempre uma atitude cortez mas tímida. Para além de me tratar como um cavalheiro, não percebera as suas verdadeiras intenções.
Esses curtos e ao mesmo tempo longos dias de férias fora do ambiente familiar ficaram para sempre marcados na minha memória. A família de António tratou-me como uma princesa. Pensei que todos me viam como a sua futura companheira. Passeávamos pelo campo como dois namoradas, ousando os primeiros contactos físicos. Sentia-me cada vez mais segura na sua companhia. Por momentos procurava esquecer a sua qualidade de estudante de Teologia, destinado à carreira eclesiástica. Num campo de densa folhagem António afastou-me de Juliana, agarrou-me pela cintura e beijou-me furtivamente. Foi o meu primeiro beijo, que continuo a saborear com volúpia. Afinal António não desistira de usufruir dos prazeres carnais, nem escondia a sua vontade de me amar. Da minha parte já estava rendida ao seu amor, fossem quais fossem as consequências.
Durante os serões que reuniam toda a família as conversas versavam sobre os temas campestres que me encantavam, e eram para mim a descoberta que de um mundo desconhecido para uma pequena citadina. António acompanhava todos os assuntos com curiosidade e sapiência. A sua formação académica ficava ausente das conversas simples de gente de aldeia. Uma ou outra vez fazia ligações simples entre as dificuldades das pessoas que trabalhavam a terra, e a avidez dos políticos que ocupavam o poder. Num registo religioso  conservador defendia a monarquia e mostrava preocupação com os republicanos, maçónicos que pretendiam adulterar as vivências milenares do povo português.
Quando o cansaço começava a empurrar as pessoas para a cama, começando pelo pai de António, moído de dura jeira, e continuando nas irmãs que se habituaram a levantar-se como o nascer do dia, António podia ficar só para mim, não fora a persistência da mãe Maria da Fé, que por ali is ficando, agarrada a uma ou outra tarefa. António aproximava-se de mim e sentava-se à minha beira, para aproveitarmos aquele tempo, entretidos com a paixão que nos avassalava. Ele conhecia o meu gosto pela arte poética, e introduzia a voz dos poetas para falar de amor talvez por lhe fugirem as palavras que gostaria de dizer. Luís Vaz de Camões, estava sempre presente com o soneto, “amor é fogo que arde sem se ver”, mas o homem que me fazia feliz conhecia a minha predilecção por Soares dos Passos, expoente do ultrarromantismo, a quem pretendia seguir nos versos que secretamente ia escrevendo.
No último desses serões de aldeia, António surpreendeu-me ao sentar- ao lado e ao abrir o livro de poemas do meu autor preferido e ao ler-me o poema,
Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.
…
Ao mesmo tempo, encostou o seu rosto ao meu, perante o olhar discreto da sua mãe, e o meu embaraço. Até as sardas queamenizavam a brancura da alvura da minha pele se devem ter-se escondido por detrás do rubor que me atingiu. Aquelas palavras do poema “DESEJO” que li muitas vezes, vinham ao encontro da vontade que tinha de mergulhar nesse mundo de prazer infindo, e cairia ali nos seus braços, esquecendo a sua condição de futuro padre, se não fora a presença da sua mãe. Percebi que pecar é uma das fraquezas da paixão humana Na solidão dos lençóis pensei que tinha que ser mais forte perante as tentações.
« Última modificação: Setembro 28, 2022, 19:14:34 por Nação Valente » Registado
Maria Gabriela de Sá
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« Responder #14 em: Outubro 02, 2022, 23:43:36 »

Há que ser sempre muito forte nas tentações....
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Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Olá! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
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Boa noite feliz para todos.
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Boa tarde a todos.
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Olá para todos!
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Olá para todos!
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Boa feliz noite para todos.
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Bom fim de semana para todos
Março 04, 2021, 20:58:41
Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
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Boa noite feliz para todos.
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Bom domingo para todos.
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Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
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Uma boa semana para todos.
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