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Autor Tópico: O Saco dos milagres (Conto de Natal)  (Lida 357 vezes)
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Maria Gabriela de Sá
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« em: Dezembro 03, 2023, 01:12:17 »

Um Conto de Natal
O saco dos Milagres
Nos contos de natal, é inevitável haver quase sempre pobrezinhos. Os pobrezinhos existem desde tempos imemoriais, criados com desatenção por Deus, que se alheou a seguir da sua obra por não querer admitir o erro e a injustiça… Os pobres são-nos muito úteis para estimularmos a consciência da nossa relativa fartura e correlativa caridade. Ao menos uma vez por ano. Sobretudo porque os pobres são o melhor pretexto para a prática de boas ações nos desobrigar durante um ano inteiro de sermos em tudo melhores um pouco.
Não houve, se muito bem calhar, até hoje, história desta quadra que não tenha pobres, a fim de os pobres nos santificarem um tanto ou quanto. Os pobres são, provavelmente, a melhor intenção dos ricos para a solidariedade, o enfeite preferido da sua árvore de natal, de que se esquecem logo em janeiro, quando a desmontam e guardam as boas intenções na caixa dos adiamentos.
Este conto de Natal vai ser uma exceção: há um casal de velhotes e uma casa aonde os dois filhos e os cinco netos irão consoar, mas não há pobrezinhos, pai, mãe, filhinhos sem brinquedos, ou um Pai Natal esquecido de entrar pela chaminé. Ou até da chave de certa porta para deixar os devidos presentes, pedidos por carta registada e aviso de recepção, de forma a poder reclamar-se dos esquecimentos. Há, sim, bacalhau, batatas e couves que chegam para comer, regados a bom e premiado azeite. Há rabanadas, arroz doce, filhós, há cobertores quentinhos para aconchegar o frio, que chega sempre por esta altura. Só não há grande dinheiro para alguns sonhos e outras tantas extravagâncias. O lema da casa sempre foi contar tostões, visto o Diabo, o maior banqueiro do mundo, se ter aliado a Deus na partilha do “money” a montante e a jusante, deixando a maioria aquém dos seus desejos quanto a meios de fortuna: incluindo a dona da casinha desta história:
E, assim:
Um, dia, com bastante antecedência, ao local onde tudo aconteceu e à casa da beneficiária principal, chegou um homem alto e magro, de cabelos e barbas brancas. Além de mil e uma malas e sacos bem pesados e a abarrotar, trazia consigo todas as estações do ano. Parecia-se já um pouco com o Inverno, anunciando-o com alegria na sua voz de violoncelo afinado e pronto a hipnotizar com o seu timbre.
Por não ser um típico Pai-Natal, ninguém sabia se vinha da Lapónia, do Norte ou do Sul, das terras das neves e das auroras boreais, dos animais e dos pássaros exóticos, do Oriente, das cidades das Mil e Uma Noites e dos Jardins Suspensos da Babilónia, ou do Ocidente, das paradisíacas praias do Atlântico e Pacífico. Na verdade, porque tinha viajado muito, o homem trazia consigo um pouco dessas paisagens. Trazia-as nos olhos que as haviam contemplado com êxtase e paixão.
Depois das infinitas cartas que recebera de toda a gente e de todo o mundo, enchera a bagagem com presentes para todos: homens e mulheres, meninos e meninas e os outros se os houver, onde, quando, como, porquê e para que fim, quando o fim mais desejado por todos será, diz o narrador deste conto, a FELICIDADE.
Para as crianças nascidas e por nascer, as prendas vinham devidamente acondicionadas num grande saco branco. Por fora, via-se escrita, a letras garrafais de cor a verde, a palavra ESPERANÇA. O que levava o observador a pensar na grande possibilidade de o mundo ir melhorar nos próximos tempos. Mas havia ainda um saco especial, ainda mais do que o saco dos petizes, o que mais despertava a curiosidade. Estava  identificado a dourado,  como se fora o brilho da estrela que indicara o caminho aos Reis Magos na sua demanda pelo Menino Jesus : era O SACO DOS MILAGRES.
Quando o homem, com a antecedência já assinalada, chegou à porta da protagonista desta história, e ela viu a enorme bagagem do velho e simultaneamente moderno Pai-Natal, deitou as mãos a cabeça: se ele viesse com o intuito de se hospedar em sua casa até à data de regresso ao país da fantasia, Lapónia fosse este, não lhe chegaria o Museu do Louvre para guardar tanta tralha.
 â€“ Não te preocupes. Tenho o UNIVERSO a expandir-se todos os dias. E tu, para já, toma este Buda. É para te dar sorte. Tens a Árvore de Natal pronta?
– Há um mês, mais propriamente.
E o homem foi ao Saco dos Milagres, de onde retirou um envelope lacrado e preso por uma fita vermelha.
 â€“ Toma. Vai pendurá-lo. Mas não abras senão no dia 25 às 8 horas da manhã. De contrário o milagre não se realiza.
Jurou que não. Afinal não iria perder um milagre para a curiosidade, que principiava a sentir avassaladoramente. Nem que tivesse de atar pés e mãos. Estipulou-se o horário de abertura das prendas, 8 horas…Mas especular sobre o homem, sobre o Buda e sobre o envelope pendurado na árvore isso podia:
De onde viria e por que chegara em semelhante altura? Do Nepal? Não! Se assim fosse, apesar do frio, viria enfaixado de panos alaranjados, teria a cabeça rapada e não envergaria fato e gravata, nem teria cabelo e barbas brancas. Que ela soubesse, festejar o Natal e o nascimento do Menino Jesus era coisa que não se encaixava nas tradições orientais. Por outro lado, perguntava-se se Buda e Jesus, talvez também Alá, não seriam amigos, se não houvesse algum anacronismo histórico no assunto, e andassem por aí a fazer favores uns aos outros. Mas o envelope pendurado, ali à mão de semear, era o maior motivo de interrogações e simultaneamente de tentações:
– É dinheiro, com toda a certeza, Mas quanto? Que eu saiba, cá em casa não há grandes necessidades. E não deve ser muito. O envelope é magro. Afinal, Pai-Natal ou sucessor de Calouste Gulbenkian, o visitante tem muita gente a precisar de uns dinheiritos extra. Se fossem uns milhares e tivessem vindo em devido tempo vá que não vá. Assim seria irónico. Passar uma vida a contar tostões e de repente aparecer um Ali-bá-bá de cabelo e barbas brancas a abrir-nos uma caverna seria quase indecoroso. Não é ser ingrata, é ser realista. Mas, pelo sim, pelo não, vamos lá cumprir a promessa. «No creo en brujas, pero que las hay, las hay».
É Dia de Natal. São sete horas da manhã. A noite foi difícil para todos e o sono renitente, dormido aos soluços como um barco à deriva num mar de curiosidade. Sobretudo para a dona da casa, que toda a santa  noite sonhou com o bendito envelope pendurado na sua Árvore de Natal há 24 dias, na maioria dos quais a tentá-la para, coisas do Diabo, para  o prometido milagre não se realizar. Finalmente tudo faria sentido. O homem das barbas brancas talvez fosse mesmo um santo, o novo Messias. Ou, no pior dos casos, um embusteiro que se socorrera de uma pequena estátua de Buda com as mãos nas pernas e da sua mística da boa sorte se colocado à entrada de casa e de costas.
Os mais velhos sentam-se à mesa e comem de tudo um pouco, num café da manhã especial no dia mais aguardado ao ano. Os mais pequenos, rondando o monte dos presentes no sopé da árvore, tentam adivinhar se houve eficiência no cumprimento dos pedidos e… Finalmente, 8 horas.
É domingo. A dona Hermengarda, mais lesta do que os netos, corre para o envelope e vê,  no registo do Euromilhões,  cinco números e duas estrelas. Não lhe dizem nada. Só joga uma vez por outra, quando o prémio é grande e os números não lhe dizem nada. Chama o marido.
– Alberto! Vai ver quais os números de sexta-feira do Euromilhões.
– ….. _ .. – Tens a certeza?
 â€“ Absoluta!
 â€“ São os nossos – gritam ambos cheios de contagiante alegria e a procurar palavras para explicar ao resto da família o que acontecera.
– Então somos os novos Excêntricos de Portugal.
 O homem das barbas brancas voltou daí a uns dias para cobrar os seus 20% de comissão, como fazia o Estado. Mas Hermengarda, depois de pagar o imposto devido, deu-lhe metade do prémio. Afinal o estranho Pai-Natal tinha sempre mil e uma famílias pobres a quem comprar prendas e precisava de suprir todos os anos o Saco dos Milagres com mais um para quem o merecesse.
GABRIELA SÁ
« Última modificação: Dezembro 05, 2023, 16:53:37 por Maria Gabriela de Sá » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #1 em: Dezembro 08, 2023, 23:20:58 »

Um homem com um saco de milagres. Viva a imaginação.
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Bom dia. Para todos um FigasAbraço
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Sejam bem vindos às escritas!
Agosto 14, 2023, 16:52:48
Boa tarde!
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Bom Ano! Obrigada pela companhia!
Dezembro 30, 2022, 19:42:00
Entrei para desejar um novo ano carregado de inflação de coisas boas para todos
Novembro 10, 2022, 20:31:07
Partilhar é bom! Partilhem leituras, comentários e amizades. Faz bem à alma.
Novembro 10, 2022, 20:30:23
E, se não for pedir muito, deixem um incentivo aos autores!
Novembro 10, 2022, 20:29:22
Boas leituras!
Novembro 10, 2022, 20:29:08
Boa noite!
Setembro 05, 2022, 13:39:27
Brevemente, novidades por aqui!
Setembro 05, 2022, 13:38:48
Boa tarde
Outubro 14, 2021, 00:43:39
Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Olá! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
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Boia noite para todos.
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Boa noite feliz para todos.
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Boa tarde a todos.
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Olá para todos!
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Boa feliz noite para todos.
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Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
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