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Autor Tópico: A primeira visita  (Lida 2715 vezes)
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gdec2001
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« em: Setembro 01, 2009, 17:47:25 »


A primeira visita 



Esperavam-me todos no fundo da escadaria interminável. Avancei o pé direito e atirei-me suavemente no espaço ; planei durante alguns segundos antes de atingir o pavimento atapetado com uma muito ligeira flexão que não alterou a dignidade do meu porte.
Rodearam-me imediatamente exprimindo por leves risos a alegria que lhes dava a visita da minha excepcional personalidade.
O director avançou um pouco e disse depois de uma saudação discreta:
- Recebemos com jubilosa surpresa a notícia da vossa visita. Ela é para nós motivo de grande felicidade que saberemos merecer, estai certo. Agradeço-vos em nome de todos e dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos.
Aplaudi com um curto movimento de cabeça ; a comoção que me provocaram aquelas nobres palavras impediu-me de responder imediatamente. A referência aos filhos dos filhos deles intrigava-me no entanto.
Depois que consegui articular o meu discurso, seguimos por um comprido corredor.
Reparei que íamos perdendo alguns companheiros, absorvidos, ao que parecia, por vagos corredores abertos regularmente nas paredes laterais que levavam, conjecturei, aos aposentos interiores.
Fiquei só com o director que não cessava de dar-me explicações de tudo e de nada. Comecei a prestar-lhe atenção quando entrámos na sala principal. Dizia:
- É nossa convicção - hipótese nunca antes formulada - que a única diferença sensível entre os homens e os animais é o uso da fala. Suspendeu-se para que eu aprovasse ; aprovei.
- Propomo-nos eliminar essa diferença e contribuir para o progresso da humanidade acrescentando-a, por assim dizer, com o imenso potencial daqueles a que chamam «irracionais». Sorriu sem ironia e suspendeu-se para que eu aprovasse; aprovei.
- Temos aqui alguns exemplares de antropóides superiores de diferentes espécies. Apercebi-me vagamente deles de um lado e de outro da sala subdividida em pequenos compartimentos envidraçados contendo, além de outros objectos menores, um leito e uma árvore bastante esquemáticos. Na verdade pareceram-me todos macacos vulgares embora, repito, apenas vagamente me tivesse apercebido deles. O director apontou- me um à direita que sem ser o maior era o mais visível - o único que eu via realmente. Explicou-me:
- Este, chama-se... Não percebi o nome e tive acanhamento de pedir-lhe que o repetisse.
- É o nosso melhor aluno e já conseguimos que pronunciasse correctamente o nome dele. Há-de convir que não é um nome fácil de pronunciar; calculei que sim, que não fosse, e exprimi-lho com um gesto. Olhei para o macaco e surpreendi-lhe um rápido pestanejar que me era especialmente dirigido. O director notando-o retirou-se delicadamente para a sala próxima, de onde provinha um ruído regular.
Aproximei-me. Aquele cujo nome não pude perceber olhava em volta receosamente. Os seus lábios articulavam palavras que não compreendi imediatamente. Dizia:
_ Salve-nos. Estamos presos e não nos deixam dizer uma palavra. Notando que o director se aproximava continuou:
_ Recebemos com jubilosa surpresa a notícia da vossa visita. Ela é para nós motivo de grande felicidade que saberemos merecer, estai certo. _ Agradeço-vos em nome de todos e dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos...
Comoveram-me as suas últimas palavras, mas fiquei intrigado com a referência aos filhos  dos filhos deles. Presenteei-o com algumas palavras do meu discurso.
O director aproximou-se com um largo sorriso :
_ Jurava que esse malandro tem estado a dizer mal de nós e a pedir-lhe para o ajudar a sair daqui, disse. Faz isso com todos os visitantes, mas gosto dele. Note que é o único de quem já conseguimos arrancar uma palavra; tenho de gostar dele.
Pensei que devia indignar-me e chamar à ordem aquele sorridente director, mas como aquilo não era nada comigo e a minha intervenção podia ser interpretada como falta de urbanidade, calei-me e assenti com um sorriso.
Passamos à sala próxima: menor, repleta de máquinas e instrumentos. De encontro a uma das paredes notei quatro animais sentados sobre as patas de trás, iguais, imóveis e atentos. A forma característica do focinho, como uma rodela de limão, permitiu-me identificá-los sem surpresa.
Apurei o ouvido às explicações do director ; mostrava-me uma complicada máquina, ao centro :
- É um electroencefalógrafo quase vulgar. Sabe que normalmente os eléctrodos são apertados de encontro à cabeça do paciente, mas como todos os tecidos, e especialmente o ósseo, são absorventes das ondas cerebrais praticamos nos nossos hóspedes uma antiga operação que nos permite colocar os eléctrodos em contacto directo com o cérebro. Apontou para um recipiente contendo algumas calotes cranianas e interrompeu-se. sorrindo, Pareceu-me que devia sorrir, mas antes que o conseguisse continuou:
_ É pena que ainda não tenhamos encontrado maneira de nos servirmos correctamente desta maravilhosa máquina: se anestesiamos o paciente, não obtemos senão fracas emanações cerebrais; se operamos sem anestesia, obtemos uma reacção demasiado viva.  Creio porém, disse, que estou em vias de encontrar a solução:
_ Nesta câmara, apontou-me, está um símio sem crânio em absoluta imobilidade, alimentado artificialmente. Espero que a incisão operatória sare completamente e então poderei observá-lo ali. É muito difícil conseguir; morrem, observou. Não me foi difícil admiti-lo.
Entretanto os quatro animais que eu havia notado começaram a agitar-se tremendo e ronronando surdamente. Uma luz apareceu numa tela em frente, que escureceu. Olhei e distingui perfeitamente três letras luminosas: S. O. S ....
Alarmei-me um pouco, mas o director explicou tranquilamente:
- Mais um terramoto ou qualquer outra grande catástrofe ; os nossos aparelhos são tão sensíveis que podem captar qualquer pedido de socorro, mesmo que puramente mental, desde que seja feito simultaneamente por um certo número de pessoas angustiadas... É pena que não seja da nossa competência prestar qualquer ajuda, ajuntou tristemente.
A luminosidade das letras diminuia. - Estão a morrer, disse; se os tivessem salvo as letras ter-se-ia apagado duma só vez.
Ficamos a assistir. Quando a tela ficou vazia indiquei que acabara a minha visita. Atravessei a sala grande lançando um olhar de esguelha para ver se via aquele cujo nome não pude perceber; não o vi. Depressa chegámos ao corredor onde recuperámos os companheiros que saíam regularmente dos seus aposentos. Chegados junto da escadaria, o director adiantou-se e disse:
- Recebemos com jubilosa surpresa a notícia da vossa visita ... , etc .... , etc ....
Respondi-lhe. Quando acabei estendeu-me a mão com um sorriso de cordialidade; apertei-lha a medo e não consegui retirá-la depois. O director olhava-me com um sorriso de cordialidade. Com a mão livre agarrei-me às escadas e arrastei-me por ali acima interminavelmente . O director seguiu-me de rastos sorrindo e todos sorrindo agarrados uns aos outros arrastavam-se atrás de mim.
Cheguei ao cimo ofegante. Num supremo esforço libertei-me do director empurrando-o com o pé!
Quando chegaram ao fundo levantaram-se prestos e acenaram-me amistosamente. Levantei-me e acenei-lhes do mesmo modo.

Geraldes de Carvalho
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Dionísio Dinis
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« Responder #1 em: Setembro 05, 2009, 12:02:19 »

À primeira vista é um grande texto para reflectir e elogiar a linha de escrita e de pensamento do autor.À segunda leitura, o leitor fica devedor de aprender a sábia lição que encarna no texto em questão.

O meu imenso obrigado por este momento magnífico de leitura e aprendizagem das lições essenciais da vida.

Abraço fraterno
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gdec2001
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« Responder #2 em: Setembro 05, 2009, 22:45:15 »

Quem tem de agradecer sou eu. Pela sua atenta e construtiva leitura .
Abraço fraterno é mesmo bonito . Retribuo .
Geraldes de Carvalho
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Goreti Dias
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« Responder #3 em: Setembro 07, 2009, 09:35:24 »

A um empurrão desses levantaram-se... pois.
Gostei!
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Goretidias

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margarida
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« Responder #4 em: Setembro 08, 2009, 19:24:40 »

Eu cheguei ao fim deliciada! :yahoo:
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gdec2001
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« Responder #5 em: Setembro 09, 2009, 00:42:28 »

Cara Margarida
Quem fica deliciado sou eu

Cara Goreti
...pois.

Agradecido a ambas

vosso
Geraldes de Carvalho
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britoribeiro
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« Responder #6 em: Setembro 09, 2009, 15:48:02 »

Uma mensagem muito bem construida. Parabéns!
Abraço
BR
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gdec2001
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« Responder #7 em: Setembro 10, 2009, 00:31:02 »

Muito grato meu caro Brito Ribeiro
abraço
Geraldes de Carvalho
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Boa noite feliz para todos.
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Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
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Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
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Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
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Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
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Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
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Bom dia!
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Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam pôr arte na pena. Figasabraço
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Olá! Boa leitura e boa escrita para todos!
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Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Olá para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
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