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Goreti Dias
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« em: Outubro 29, 2018, 18:39:10 »

A manhã queria acordar bem disposta, mas o nevoeiro sobre o rio não lhe facilitava a vida. Pelasquase sete horas dos primeiros dias do mês de outubro, o sol levantava-se um pouco tarde já e, por isso, nem a água do rio se via bem no Cais de Gaia. Os barcos que prometiam viagens de sonho Douro acima, estavam ancorados no cais, dois deles a par. Um dos maiores, o "Sonho dourado", encontrava-se encostado à margem;o seu parceiro, "Lago azul" estava preso a seu lado. As águas serenas nem os faziam balançar. Embora pertença do mesmo proprietário, apenas o maior mostrava já sinais de alguma atividade de preparação para a viagem. No convés, o encarregado ia recebendo os funcionários que, em duas horas, teriam que preparar as salas de refeições que acolheriam os 350 convidados.
Márcia entrou pela primeira vez naquele mundo pela mão de uma amiga. Garantidamente, desconhecia tudo, mas faria o melhor que lhe fosse possível. Ainda meio na penumbra, era mais encantador do que tinha imaginado.
« Última modificação: Outubro 29, 2018, 18:59:13 por Goreti Dias » Registado

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Maria Gabriela de Sá
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« Responder #1 em: Outubro 31, 2018, 17:53:59 »

Na verdade, a ideia de poderem fazer-se viagens Douro acima nascera anos antes, quando Márcia e Júlia sentiam como nunca na pele o gosto amargo da traição. Rodolfo, o marido de Márcia, meses antes, havia sido apanhado por ela na cama dos dois como outra mulher. Daí a pouco estavam separados. A filha de ambos, uma menina de oito anos, passara a andar em casa do pai e da mãe semana a semana. Era mais um saltimbanco de palmo e meio entre um casal que colapsara com o vento forte de outras saias. Júlia nunca chegara tão longe. Nunca fora a ponto de dar o nó. Se o último namorado não servia, depois de um tempo a tentar enganar-se, cortava o mal pela raiz. Nem que tivesse de passar pelo inferno, mandava os homens borda fora sem pensar alguma vez deitar-lhes a mão. Entretanto andava largos meses com cara de enterro e olhos esgazeados por falta de sono, emagrecia até à anorexia e ficava em casa como um bicho-de-conta e sombrio. Até emergir um dia e dizer de si para si:

- Estúpida! Mas que sofrimento inútil. Acorda mulher!

Comprava depois uma gama completa de roupa nova e regressava ao mundo. Não que, nos primeiros tempos, lhe fosse fácil esquecer o defunto, mas não de podia dar ao luxo de morrer por ele quando, analisados os prós e contras, só via prós. O Maurício, um homem desmesuradamente bonito para o padrão comum, havia cumprido todos os requisitos para poder ser rotulado como um traste. Borda fora com ele ia também uma esperança que sempre se revelara utópica.
Foi neste estado de espírito que, uma e outra, resolveram fazer uma viagem a Paris, tentar cada uma emergir do caos onde dois homens as haviam deixado.

Numa das noites daquela semana tinham acabado de tentar entrar na Catedral de Notre Dame, apinhada de gente para um concerto sob a égide musical de Jules Massenet. Desistiram entretanto, por não conseguirem romper entre a multidão. Perderam-se a seguir por ali, a mirar a cidade, de corpo presente às vezes e outras em pleno coração do Porto, ambas a remoer o que lá ficara. Sim, Paris era uma festa, luz cor e de gente por todo o lado, embora às vezes nos confundisse e lhes parecesse que os pontos cardeais haviam mudado de sítio. Ou então era melancolia de ambas que não conseguia interpretar correctamente a geografia do céu. Sobretudo quando as nuvens decidiam cobri-lo destapando-o um tempo depois noutro ponto do dia. Em baixo, ali bem próximo da catedral,  o Sena corria garboso para o mar naquele Setembro chuvoso. A cidade e o rio bem casados e elas a remoerem os últimos acontecimentos. Luxuosos barcos de recreio moviam-se serenamente nas águas, com bandas de muitos elementos a inundarem de música gente com os bolsos cheios de dinheiro. Enquanto isso, as duas contavam os cêntimos a ver se daria para um almoço um pouco mais requintado na Madeleine. Seria uma forma de quebrarem a rotina económica do Quartier Latin e fingir, por uma hora ou duas, uma realidade sem outros constrangimentos que não fossem os preços mais ou menos elevados de La Carte. Se quisessem dar um passeio, sempre lhes restaria o popular Bateau Mouche.

Foi com o pensamento num outro país e numa outra cidade que Márcia se lembrou do rio mais belo do mundo, o seu Douro omnipotente, dizendo à amiga:

- Mas não haverá em Portugal alguém capaz de fazer do nosso rio a mesma festa que Paris faz no Sena?

 E não demorou muito até isso acontecer.

Agora ali estava Júlia a preparar-se para iniciar a viagem com 350 convidados. Felizmente, embora não pudesse considerar-se uma milionária, tinha o suficiente para entrar no “Sonho Dourado”. E ainda ia muito a tempo de gozar os seus trinta e cinco anos.
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Alice Santos
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De mãos dadas pela poesia.


« Responder #2 em: Outubro 31, 2018, 18:39:21 »

isto vai dar romance... ai vai, vai...
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Goreti Dias
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« Responder #3 em: Novembro 05, 2018, 15:12:05 »

Quando Júlia pisou o convés, tinha a recebê-la (e aos restantes convidados) o “chefe”, emproado no alto da sua gravata muito na moda, casaco de fantasia e calça escura. De tão formal, parecia até demasiado arrogante. Comandava com mão de ferro os funcionários, a avaliar pelo ar assustado de alguns. Homens e mulheres, impecavelmente vestidos, acompanhavam cada grupo de turistas aos seus lugares, horas antes devidamente identificados com os nomes de cada passageiro. Não interessou a Júlia saber quem eram os funcionários e, tão pouco, os restantes companheiros de viagem. Estava ali, com a alma vestida de negro, os cabelos querendo fugir para as águas daquele rio mas, mesmo assim, com vontade de recomeçar. Mais uma vez! Que lhe importava de onde viera o dinheiro que a permitia levar a vida que levava?
O pedaço de mau caminho encarregado de a levar à sua mesa, na proa do barco onde se sentavam os afortunados com dinheiro para tal, indicou-lhe o seu lugar. Na pequena placa, frente à parafernália de pratos, pratinhos, talheres e copos, lia-se, em bela letra desenhada, o seu nome. A seu lado, um nome desconhecido para si. Deslizou o olhar arguto pelos restantes nomes. Não reconheceu qualquer um.
Cadeira puxada delicadamente para trás (gostava disso! Aquelas mãos morenas… hum…), Júlia sentou-se elegantemente à mesa redonda e aguardou.
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outono


« Responder #4 em: Novembro 05, 2018, 23:38:32 »

O barco vai de saída, por esse rio acima. Os passageiros apreciaram, numa outra perspectiva, as pontes que levam para a outra margem. Na hora da refeição, Júlia, sentou-se no lugar que lhe tinha sido reservado. Chegaram depois os outros comensais. À sua direita, sentaram-se dois viajantes, uma jovem mulher de cor escura, e um rapaz, de idade indefinida, com borbulhas no rosto, sinais de adolescência em curso. Júlia olhou para a mulher com quem partilhava a mesa, e procurou entabular conversa. Sempre tivera facilidade em relacionar-se com pessoas, nos mais diversos contextos.
-Peço desculpa, pela curiosidade, mas é a primeira vez que faz esta viagem? Eu viajo muito, e conheço outros rios, mas não conheço um tão belo como este.
-Sim, é a primeira vez, e espero que não seja a última, porque sei da sua beleza. Quem a descreveu, com grande entusiamo, foi o meu marido.
-Chamo-me Júlia. E não me leve a mal, pela pergunta, mas o seu marido não está nesta viagem.
-Muito prazer. Chamo-me Isabel. O meu marido não está, nem nunca estará. Morreu há uns anos, assassinado. Está sepultado em Luanda. Estou aqui com o nosso filho, que ainda não tinha nascido aquando da sua morte, e viemos conhecer as suas origens. A  família dele é desta região, e o meu marido prometeu-me, que quando se esclarecesse uma situação complicada, onde estava metido, regressaríamos ao Porto. Cá estamos, sem a sua presença física, mas, acredito, que estará connosco.
-Então o jovem é seu filho?
-É nosso filho, e também tem muito interesse, em conhecer parte das suas raízes. Chama-se António, como o pai.
-Lamento, disse Júlia, mas desejo que aproveitem este passeio.
António levantou os olhos do “smartphone” de última geração, sorriu um pouco envergonhado, e explicou que estava a seguir um roteiro, ao minuto, da viagem que estavam a fazer. Acrescentou que estava curioso, porque tinha uma descrição do rio quando ainda não estava amordaçado, pelas inúmeras barragens. Nessa altura, havia muitos naufrágios com barcos rabelos, e sentia alguma emoção em passar pelo local onde naufragou o barco onde seguia a produtora de vinhos D. Antónia conhecida pela Ferreirinha, que se salvou, o que não aconteceu ao seu grande amigo barão de Forrester. Uma história que conhecia da televisão
-O António parece conhecer muito bem a nossa história, disse Júlia.
-Eu e o António, sabemos bastante sobre este país, pelas informações que o meu marido me transmitiu. Por outro lado, o António tem um pouquinho da alma lusitana, e foi aumentado os seus conhecimentos sobre Portugal. Até porque não viemos apenas para fazer turismo. Viemos para conhecer familiares que temos nestas paragens. E em certo sentido, ajustar contas com o passado.
-Como assim? Perguntou Júlia.
-É uma longa história, respondeu Isabel. Essa história está contada num livro, mas nem tudo corresponde à realidade. Os autores, por omissão ou desconhecimento, deturparam alguns factos. Esse livro acompanha-me para não esquecer os nomes dos protagonistas. Eu tenho a versão da história que o meu marido me relatou. Não tem papel, nem caracteres. Está bem viva na minha memória. Digamos que o meu marido morreu duas vezes, quando foi esfaqueado,(que ironia) e quando o voltaram a matar nas páginas do livro. Em primeiro lugar, quero, em sua honra, fazer justiça. E, em segundo lugar, batalhar pelo que temos direito.
-E afinal, porque sou leitora, que livro é esse? Perguntou Júlia como apreciadora de boa literatura.
-Isabel abriu a mala que a acompanhava, e tirou de lá um livro, muito manuseado, de capa vermelha, com um título em letras brancas “O Esfaqueador da Régua”.
A refeição começou a ser servida. O barco navega indiferente a quem transporta, e indiiferente às suas alegrias e tristezas, por este rio acima.
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Goreti Dias
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« Responder #5 em: Novembro 06, 2018, 21:09:28 »

Bem... Isto é imenso, lindo... Porque terão as pessoas esta cara tão estranha? Parecem amedrontados...
- Menina, como se chama?
- Márcia.
- É a primeira vez que vem trabalhar aqui? Já fez este trabalho em outro barco?
O interrogatório inicial do chefe deixou-me pouco à vontade. Mas precisava trabalhar, não havia lugar a melindres.
- Vá trocar de roupa. O vestiário é no piso inferior. Está indicado no local. Faça o favor de bater à porta. O espaço serve as meninas e os meninos.
Essa agora! Por esta não esperava. Ainda haverá sessão de striptease, querem ver? Ena! Estas escadas são difíceis de descer. Para mais, com a mala da roupa...
Feliz mente trago já as calças da farda vestidas e um top que vai ficar por baixo da camisa. Há um colega homem a trocar de roupa, mas não se incomodou com a minha presença. Para todos os efeitos, eu estou pouco interessada em saber se veste roupa interior da Armani ou da feira da Vandoma. O meu falecido usava ceroulas e também nunca me preocupei com isso. Quer dizer, lavar ceroulas não era coisa bonita de se fazer. Se ele trajasse aqueles boxers lindos que eu gosto de apreciar nas montras da Calvin Klein... Oh! isso sim... Mas ele não queria mostrar os joelhos. Ai que pudico! Santo Deus! Vão ver que por isso nunca engravidei. Os espermatozóides mais eficientes deviam ficar no tecido a mais e no lugar errado...
Que disparate! Do que me havia eu de lembrar agora! Deixa-me mas é despachar a vestir a camisa para voltar a subir.
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Oswaldo Eurico Rodrigues
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« Responder #6 em: Novembro 08, 2018, 14:42:01 »

O barco desliza pelo rio. As histórias afloram e das águas. Em breve, o falecido marido da Isabel estará presente nas vozes da sua mulher e do seu filho António. Júlia se encanta com as descrições da Isabel a respeito do seu falecido esposo. António também a fascina. Ele parece ser familiar a ela. Como seria possível enxergar no rosto do adolescente um olhar que tanto a cativa desde há muito. A boca do rapaz ela conhece. O seu porte, embora de adolescente, ela vê como o de um homem feito. Não é possível! O gestual de António é o mesmo que a fazia viajar, que a hipnotizava e lhe dava prazer. Devia estar ficando louca! Não poderia ser! Aquele rapaz era... Não! Não era! Não pode ser.
Isabel perguntou o que ocorria a sua companheira de viagem.
_ Está tudo bem, Júlia? Parece-me lívida!
_ Foram lembranças que me avançaram repentinamente! Desculpa-me. Preciso tomar um pouco de ar.
Com o coração aos pulos, foi até o banheiro e olhou para o espelho.
_ Como ele pode fazer isso comigo?! A coisa é mais grave do que eu pensava. Ele deixou um herdeiro com a sua cara.
Ela sentiu uma bofetada do destino na sua cara.
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Oswaldo Eurico Rodrigues


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« Responder #7 em: Novembro 16, 2018, 21:47:20 »

Modelo e detective

O telefone tocou de forma estridente: trriiiiiiiim
O detective Correia continuou no seu sonho e gritou para a secretária.
Aida, porque não atende essa gaita?
Trriiiiiiiiim
O detective Correia, abriu os olhos assarapantado e espraiou-os pela vidraça da janela. Ao fundo o Tejo, ainda preguiçava na obscuridade do amanhecer.
Trriiiiiiiiim
O detective Joaquim Correia vivia sozinho com a sua gata, que conhecera junto a um candeeiro com o qual falava , quando regressava a casa acompanhado de uma boa dose de álcool.  
-Miau.
-Mas tu agora também mias? Disse JCorreia
Foi então que sentiu um objecto macio a roçar-se nas pernas. Baixou o olhar. E viu uma gata ainda muito nova.
Por aqui, a estas horas tardias? Com a tua idade já devias estar a dormir. Põe-te a andar.
Seguiu cambaleante para o seu  pequeno apartamento de alfama, onde situara a sua agência de investigação, depois de se reformar da PJ, por limite de idade. Começara como agente e chegou a chefe de brigada. Quando atingiu a aposentação, não se via a deambular pela cidade ou a jogar à sueca para matar os dias e decidiu continuar o seu trabalho, com entidade privada. Ao entrar na sua casa reparou que a gata o seguia.
-Estou a ficar baralhado, disse. Não sei se és gato ou cão, pois vens atrás de mim. Mas já que tanto insistes, entra lá. E foi assim que a gata se instalou na varanda, para ter mais liberdade, de viajar pelos telhados, e se fez gente.
JCorreia sempre fora um pouco solitário. Teve algumas namoradas para cumprir a tradição, e uma outra relação ocasional. Gostava de chegar a casa, calçar as pantufas, ler os vespertinos, fazer uma refeição frugal, beber os uísques que lhe desse na gana, fumar um charuto aromático, para reduzir o stress do trabalho. Não se imaginava na companhia de uma mulher, a chatear-lhe a cachimónia, “ó Quim chega aqui, arruma-me essa louça, descasca-me essas batatas…”
Mas tudo isso era apenas recordação. O tabaco foi o primeiro que teve que abandonar por causa de uma maldita bronquite, resquício da passagem pelo clima húmido da Guiné, na guerra colonial. Do álcool teve de se divorciar, depois de aposentado, por causa de uma cirrose, e as relações com as mulheres esfriaram após  ser operado à próstata. Mas na sua secretária tinham lugar reservado uma garrafa de uisque, e uma caixa de charutos, dos quais não usufruía o sabor, mas não dispensava o cheiro. Numa mesa à sua frente sentava-se a sua secretária, Aida da Consolação, uma quarentona ainda viçosa
A sua relação com Aida, começou quando ela ainda era uma menininha, que vendia flores aos transeuntes na praça do Rossio. O primeiro contacto aconteceu quando caminhava em alegre bate papo com um colega, depois de um almoço, bem regado “Quer um ramo de flores? Abanou a cabeça quase sem reparar naquela moça atrevida, que continuou “toma, eu ofereço-te”. Procurou afastar-se indiferente, mas ainda ouviu mais um piropo “ah!gatão!”.
Anos mais tarde, recebeu no seu gabinete da PJ, um prisioneiro enviado pelo exército, já que cumpria serviço militar, e tinha vestido, para provar, um sobretudo nos armazéns do Conde Barão. Muito distraído esqueceu-se do despir, e ao sair foi abordado por um segurança e preso. No interrogatório foi acompanhado pela mãe e pela namorada, nem mais nem menos que a menina, já mulher, que vendia flores no Rossio. Depois, Correia, não deixou de a seguir, nomeadamente nas marchas populares, onde ela se destacava, como modelo marchante. E não resta dúvida que teve um fraquinho pela moça.
Quando abriu o seu gabinete de investigação, sentiu a necessidade de contratar uma secretária que lhe arrumasse as notas escritas, desordenadas em papéis avulsos, e que lhe escrevesse os relatórios no computador, ao qual nunca se habituou, depois de anos e anos de tirocínio na máquina de escrever. Pensou então na Aida, que tinha feito formação nas TIC, e  era perita nas novas tecnologias.
JCorreia, desde que deixara o álcool, dormia mal. Acordava a meio da noite, levantava-se, sentava-se na cadeira de baloiço do escritório, consultava a agenda, esticava-se e punha os pés em cima da secretária. Colocava um charuto na boca, sem o acender. Na sua estante havia romances policiais, livros técnicos sobre investigação, e muitos livros de poesia,  desde  grandes clássicos, até à poesia contemporânea. Era um apaixonado por esta arte. E não desprezava os poetas menos conhecidos ou até quase anónimos. Procurava colectâneas de poesia. Foi assim que descobriu no Pavilhão da Pequenos Editores, da Feira do Livro de Lisboa, um livro intitulado Colectânea da Arte pela Escrita 8. Abriu ao acaso e leu um poema de uma autora chamada Flor Yaleo.  Achou o nome curioso e invulgar, mas ficou completamente deliciado com o poema, “Vou rasgar Palavras”
Hoje abri o roupeiro
Para entrar o sol
E secar as lágrimas
Da humidade do inverno
Que teima em ficar…
Aproveitei e sacudi
Sacudi as frases cheias de pó
Rasguei palavras
E coloquei-as a secar…
.
A partir daí era um dos seus livros preferidos, pela qualidade e pela diversidade. E enquanto esperava pela chegada do dia abria-o muitas vezes ao acaso, e ia lendo alguns textos. Depois de relaxar, fechava os olhos, até a secretária Aida chegar e o acordar do seu segundo sono.
Trriiiiiiiim
-Estou? Disse o detective Correia, ainda ensonado.
-Daqui fala Tózé Salafuma, seu colega de profissão, de Luanda. As minhas desculpas por o incomodar, mas uma cliente minha, deslocou-se para Portugal, e pediu-me param  lhe indicar um detective, já que precisa de encontrar família que não conhece. Pesquisei na Net e descobri o seu escritório, como um dos melhores. Gostaria de contratar os seus serviços para a minha cliente. Se estiver de acordo envio-lhe por email, informações mais detalhadas.
-OK, disse Correia, envie-me para eu analisar. Depois voltaremos a falar.
Os raios de sol matinal foram os primeiros a entrar no escritório do detective. Pela porta chegou outro raio de sol, a secretária Aida. Usava um vestido justo e curto de organdi, que lhe salientava as formas generosas. Sentou-se na sua mesa à frente do detective. E com sempre fazia, cruzou e descruzou as pernas, num ritmo sonolento, num ritual, que fazia parte do despertar de JCorreia.
Bom dia detective. Ao telefone, a esta hora matinal?
É verdade, hoje fui acordado por um tipo, que se diz chamar-se Tozé Salafuma, lá de Angola. Ficou de mandar um email. Faça o favor de o ler. Mas o nome não me é estranho. De onde será que o conheço?
Aida da Consolação cruzou de descruzou as pernas, fazendo recuar o vestido, enquanto ligava o computador para mais um dia de trabalho.
« Última modificação: Novembro 16, 2018, 22:04:55 por Nação Valente » Registado
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« Responder #8 em: Novembro 17, 2018, 18:48:35 »

Ups! Consolação? rsrsrs
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carlossoares
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« Responder #9 em: Novembro 23, 2018, 23:47:23 »

Vá lá! Isto está muito bom e promete! Não desanimem. Um abraço
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Carlos Ricardo Soares
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« Responder #10 em: Novembro 27, 2018, 18:16:48 »

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
O detective JCorreia ligou o seu leitor de música, e espreguiçou-se  na sua cadeira de baloiço. Sensível à poesia lida ou cantada, tinha uma atracção especial pelas canções de um artista que se tornou muito conhecido com a revolução de 1975, chamado Sérgio Godinho. Uma das suas músicas preferidas era “o primeiro dia”. Gostava particularmente da estrofe:
A principio é simples, anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no burburinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
 Raro era o dia em que, o detective, não começava com a audição desta canção, inspirado pela sua secretária Aida da Consolação. Nunca pretendera constituir família, apreciava sobretudo as mulheres dos outros, porque não lhe ocupavam as horas contadas do seu dia-a-dia. Mas muitas vezes, vinha-lhe uma fraqueza ao espírito, a que, se fosse com Aida, talvez arriscasse. Chegou a arrepender de não ter aceitado as flores que lhe ofereceu quando ainda era uma menininha muito sabidona. Agora era tarde. Aida casara com o “ladrãozeco” de pronto a vestir, que aprendera a lição e enveredara por uma vida de bom cidadão. Arranjara emprego na Estiva e aí ganhava duramente o seu pão. A última coisa que JCorreia queria era complicações com um estivador com mais de noventa quilos.
-Já recebi o email do detective Tózé Salafuma, vou imprimir e entregar-lho, disse Aida, enquanto se dirigia para a impressora meneando as ancas num ritmo musical que parecia ensaiado.
JCorreia acordou de um sonho acordado, no momento em  chegava ao fim a sua canção preferida “Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa” ,Olhou guloso para o corpo ondulante de Aida em movimento, e sem pensar no estivador, disse de si para si “um dia ainda perco a cabeça”. Aida entregou-lhe uma folha A4 com o texto, roçando displicentemente a mão pela sua num gesto que parecia provocatório. (interpretação do narrador)
Caro Colega,
A minha cliente, Isabel Albuquerque dos Santos e o seu filho António Eduardo dos Santos Silva Eira, pretendem descobrir o paradeiro de familiares do seu amado marido e pai, a saber: Gabriela Ferreira, conhecida como Gaby, e Matias, conhecido como M, cujo paradeiro em Angola, me deu água pela barba há muitos anos, e ainda de José Silva Eira e da sua mulher Aida da Purificação. Estes, digamos que são os “jóqueres” principais das peças do puzzle, e que se julga viverem na zona do Porto, e do alto Douro. Por onde anda essa gente? Os meus clientes são pessoas de boas famílias, e têm condições para pagar a investigação. Acrescento o seu contacto.
-Então chefe aceita a investigação? Perguntou Aida.
-Deixe-ma sair primeiro do meu sonho impossível
-Sonhos impossíveis podem tornar-se possíveis, se lutarmos por eles, disse Aida da Consolação procurando consolá-lo. Se me permite uma opinião, devia aceitar. Não temos muito trabalho. Nestes tempos modernos, casos de infidelidade já foi chão que deu uvas. Quem vive prisioneiro de fidelidades é considerado bicho careta.
Ou será uma falsa percepção do narrador sobre fidelidades no futuro?
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Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Olá para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
Março 01, 2018, 20:26:58
Boa noite!
Dezembro 30, 2017, 21:19:00
Olá, amigos do Escritartes!
Dezembro 27, 2017, 09:04:13
Boas Festas!
Dezembro 21, 2017, 10:51:56
Olá para todos! Desde já, um feliz natal e um 2018 de novas escritas!
Novembro 11, 2017, 17:23:12
Boa tarde a todos! Votos de muita inspiração na nobre arte da escrita.
Outubro 25, 2017, 10:20:24
Meu bom dia a todos!
Julho 18, 2017, 20:17:24
Olá para todos! Boas escritas!
Abril 11, 2017, 14:47:44
Boa tarde a todos
Abril 01, 2017, 20:52:08
Boa noite e um bom fim de semana para todos vocês.
Abril 01, 2017, 20:52:05
Boa noite e um bom fim de semana para todos vocês.
Fevereiro 22, 2017, 07:23:30
Bom dia!
Dezembro 24, 2016, 22:23:10
Boas Festas para todos os que por aqui navegam.
Dezembro 24, 2016, 11:32:23
Desejos de Bom Natal, PAZ, Amor e uns trocados. FigasAbraço a todos
Setembro 08, 2016, 19:38:09
Já está publicada a lista final de autores para a coletânea - 129
Setembro 07, 2016, 20:57:46
Boa noite a todos.
Setembro 06, 2016, 18:31:36
Boa tarde a todos
Setembro 01, 2016, 15:26:02
OLÁ!!!
Agosto 24, 2016, 05:49:47
Bom dia a todos
Agosto 04, 2016, 08:39:17
bom dia a todos
Julho 08, 2016, 18:22:38
Olá, Alice e Nação Valente!
Junho 13, 2016, 12:51:19
Em fase final de seleção de textos para a rádio. Inscreva-se!
Maio 30, 2016, 16:17:57
Apagamos o pdf, Nelson.
Maio 30, 2016, 16:13:58
Nelson, vamos apagar a sua resposta pois expôs os seus dados publicamente. Essa ficha deve ser mandada por mail para administracaoescritartes@gmail.com
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