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Autor Tópico: Concurso "Cartas ao desbarato"  (Lida 120576 vezes)
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Fernando D.
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« Responder #270 em: Mar√ßo 12, 2011, 21:45:50 »

Tive o privil√©gio de desbaratar duas cartas  :yup: enriquecendo-me com a partilha. Bom fim de semana.
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« Responder #271 em: Mar√ßo 13, 2011, 10:52:28 »

Carta n.¬ļ 45

Querido Passado,
Faz algum tempo que ando para te escrever sobre o sentido que tens na vida.
Graças a ti estou justamente aqui, a escrever, no Presente, para depois de redigido, deixar de o ser.
Sim, graças a ti, vivo o Presente de presente...
O Presente, que amanh√£ j√° ser√° passado.
Os dias que me despertam, depressa voam para os teus braços.

√Čs como um mealheiro onde vou acumulando todas as minhas experi√™ncias, das quais umas est√£o mais vivas na mem√≥ria, outras, nem por isso.

A vida √© uma caminhada √°rdua. Principalmente para quem caminha s√≥ e sem apoio. Mas n√£o deixa de ser bonita...e gratificante. Cedo tive de aprender a apoiar-me numa bengala. A bengala da Esperan√ßa. √Č apoiado na Esperan√ßa que alcan√ßo um pouco mais de mim. Um pouco mais de c√©u, um pouco mais de terra, um pouco mais de amor. Valem-me tamb√©m os sonhos para elevarem o peso nos ombros. O saco torna-se pesado quando tenho de escalar √≠ngremes montanhas. Esse saco que trago na mente, carregado de pensamentos preconceituosos, desnecess√°rios que s√≥ atrapalham o caminhar.
Mas é saber que tenho o brilho do sol resplandecente atrás da montanha que me faz mover.

Hoje, ao rebobinar (te), percebo que os momentos de dificuldade poderiam ter sido mais suaves ou at√© mesmo ter evitado o sofrimento, se em vez de dar aten√ß√£o aos mesquinhos e med√≠ocres pensamentos brotados na minha mente, tivesse abra√ßado a toler√Ęncia e vivido a alegria de estar vivo. √Č, √†s vezes, o homem esquece-se de viver o Presente que lhe √© oferecido, mergulhado no complexo labirinto mental.

Os medos, as emo√ß√Ķes, as paix√Ķes, as frustra√ß√Ķes...
As lágrimas vertidas, as dores sentidas, os dissabores vividos, o silêncio que ainda hoje trago comigo, os entraves que se me colocaram, os obstáculos ultrapassados...são factores que fizeram o homem que sou. E que me orgulho de ser! Estou grato pelos momentos que partilhei contigo.

Com o decorrer dos anos, como um fruto numa √°rvore, vou amadurecendo, batalhando para desprender de preconceitos, libertar-me da pris√£o mental a que estou sujeito, causadora das dores emocionais, dos sofrimentos, vividos.
A fun√ß√£o do homem √© auto-disciplinar-se, construir-se. √Č descobrir-se a si mesmo, de modo a corrigir as mazelas para que alcance um estado de tranquilidade mental. Eu tenho essa percep√ß√£o.

O tempo é o elo que nos une. O mesmo tempo que me ensina a aceitar-te.
O tempo é meu amigo, tem-me preenchido a vida de experiências pedagógicas que me ajuda a compreender a complexidade humana.
Hoje, mais tolerante, em vez de julgar o pensamento alheio, respeito-o e concentro-me em aperfeiçoar o meu ser.
Eu sei que há quem há mais tempo continue a criticar outrem. Mas eu não me posso permitir desperdiçar (o meu) tempo a cometer o mesmo erro.
Dizes tu: l√° est√° ele com os seus ideais filos√≥ficos. Bem, acabo de cometer o mesmo erro, julgando que √© isso que est√°s a pensar. E pensei isso porque era o que queria que pensasses para poder responder dizendo que a vida √© isso mesmo, Filosofia. Amor ao conhecimento. √Č isso que tento fazer, conhecer-me melhor.
Sabes, h√° um erro que cometerei sempre. Amar. Mesmo n√£o sendo correspondido. √Č o amor que me alimenta a vida. Enquanto houver esperan√ßa, h√° vida. E enquanto eu viver, ter√°s trabalho.
Portanto, peço-te que sejas tolerante e me aceites como sou, assim como eu tive que aprender a aceitar-te.

Um abraço do teu amo...rrrrr em mim

Até já!


Carta n.¬ļ 46

27 de Fevereiro de 1978

Meu querido,

Mais uma vez te encontro através desta forma sempre fiel e imortalizada de comunicar, num papel em branco onde delineio espaçadamente todos os meus pensamentos, sentimentos e sentidos que só contigo têm rumo.
J√° n√£o vens h√° dois meses, mas o frio gelado c√° do Norte continua a fazer-se sentir por entre as brechas da janela, a lareira ainda aviva uma chama t√©nue de um peda√ßo chamuscado que restou do tronco que lenhaste pelo Natal. Tu sabes o qu√£o gosto desta terra distante, quase √† parte do mundo, pelo sossego que n√£o somente aparenta, mas que se sente, no chilrear dos melros, no ecoar do vento nas montanhas, no bater de leve da neve nas janelas. O Norte, sempre foi o meu encanto e o meu canto de ref√ļgio.
Dizem que não estou no Norte, mas eu sei que estou cá; porque me mentem? Hoje, também me falaram de um tal ano de 2011; meu Deus, que futuristas, quanto falta para lá chegar! Nesse tempo já serei velha, rodeada dos netos, quiçá bisnetos, seremos uma família feliz, ainda que, talvez, com alguns lapsos de memória, que a velhice se possa acompanhar! Tenho apenas 38 anos e sinto-me na vicissitude da vida… Tanto há para fazer, para viver, para ter, mas olho-me ao espelho e vejo outra pessoa; enrugada, triste, cabelos brancos, queixo proeminente pela falha dentária. Um horror! Acho que os espelhos desta casa não são espelhos, devem ser retratos de outros tempos fixados nas paredes. Um espelho reflecte, estes não reflectem absolutamente nada! E se reflectem são espelhos mentirosos. Acaso existem espelhos falseados? Pois teremos que trocar os desta casa, tu sabes o quão vaidosa sou!
Escrevo-te, pois só tu me compreendes, pois só a tua voz me pode confortar nesta penumbra tarde, que se tornou silenciosa e triste, num quarto isolado do mundo. A neve continua a bater na janela ao de leve, como que curiosa a saber como me sinto. Porque não tens aparecido ultimamente? Fazes-me falta! Sinto falta do teu amor, do teu abraço, do calor da tua pele, da doçura da tua voz, da ternura do teu toque que me mima sem temporalidade. Contigo o mundo não é estanque, o sorriso faz parte dos meus dias quando vens. A tua forma ímpar de estar no mundo faz-me desprender, sinto-me leve contigo e em ti! Sinto-me viva, sou Mulher! Sem ti, sou apenas um trapo, isolada do mundo e já não me sinto no Norte em frente à lareira aconchegada com a manta de veludo, que me deste pelo meu vigésimo nono aniversário. Sem ti, estou antes num lugar frio, triste, solitário que não é o Norte!
Porque não vens? Porque te demoras? Meu amor… Acaso os comprimidos que me deram te fizeram ir embora? Sem eles era mais feliz! Existia contigo… Vivia no Norte…
Porque te demoras? Porque me demoras? Estou t√£o cansada que me chamem LOUCA! Por favor, n√£o te demores mais.

Sempre tua,

Carta n.¬ļ 47

13 de Março de 2011

Não vou começar esta carta com um olá, muito menos será uma carta dirigida, é apenas uma dissertação feita ao acaso na esperança desesperada que um dia alguém a leia, é apenas um rabisco solicitado por um momento inusitado entre uma sensação de exaustão puramente psíquica de quem está cansado de viver, é apenas uma tentativa, ainda que frustrada de chegar a ti, seja lá quem tu fores, mas é a ti que eu quero chegar, a ti ou a algo que neste mundo valha a pena, é apenas uma carta de busca de esperança ou a tentativa de manter a que resta, pois se esta se esvai, de que serve viver?
√Č portanto uma carta dirigida ao meu pr√≥prio ego e interesse, fazendo jus √†s denomina√ß√Ķes de ego√≠smo que ultimamente tenho sido sujeito. Resta saber se essas acusa√ß√Ķes s√£o l√≠citas ou se revogam impreterivelmente as leis do ego√≠smo. Pois se sou ego√≠sta ao tentar perceber o mundo, ao tentar fazer parte dele, ao tentar libertar-me de uma condi√ß√£o est√ļpida que me impuseram de ser mais um; ent√£o, deixem-me ser ego√≠sta‚Ķ Porque eu tamb√©m tenho o direito de magoar, eu tamb√©m tenho o direito de aniquilar, eu tamb√©m tenho o direito de revogar sonhos, eu tamb√©m tenho o direito de destruir essa palavra equivoca que se prenuncia irreflectidamente nos tempos de hoje, que n√£o se vive, n√£o se sente, n√£o se toca verdadeiramente, essa palavra que se chama amor e todos voc√™s a destru√≠ram em mim! Pois, agora, chamam-me ego√≠sta‚Ķ Porqu√™? Porque simplesmente passei a aniquilar essa palavra nos outros. Talvez tenha escolhido as pessoas erradas, talvez as minhas v√≠timas tenham sido as pessoas que mais admirei, talvez tenham sido as pessoas que mais se deram a mim, de forma gratuita, sem pedir nada em troca. Mas n√£o era um Monstro que os outros queriam que eu fosse? Pois aqui o t√™m! Um ego√≠sta que destr√≥i as palavras amor, respeito, entrega e felicidade.
Além disto, penso que o que há de mais importante a destruir é a Vida! Assim, seria um Monstro com todas as qualidades possíveis e solicitas de imaginação. Mas, Vida, eu não posso/consigo tirar a ninguém, se não a mim próprio! Como tal, e como pouco resta a levar daqui, a não ser um poço sem fundo, onde a queda é dissimulada e lenta, asfixia cada vez mais, à medida que a profundidade aumenta, resta-me destruir o que me falta: A Vida! Não a dos outros; a minha!
O cansaço abateu-se sobre a minha tentativa frustrada de egocentrismo puro e não consigo mais viver com o peso de ser o Monstro! Assim, num acto voluntário e firme de quem se cansou da vida ou de quem a vida se cansou, só há uma palavra que me resta: ADEUS!

Carta n.¬ļ 48

Do sal √† √°gua  ...em multid√£o
De quais orienta√ß√Ķes me despem os oceanos para se espelharem no espa√ßo em que adormecem e se acumulam as aus√™ncias dos meus in√≠cios?
 Ali, onde o √≥leo perfumado √© leito e as armaduras se distribuem em v√īos de fantasias reais, se despedem os meios-tons do sil√™ncio de haver mais por regredir, (c√° do meu canto sem encanto finjo n√£o chorar cada momento amigo da dist√Ęncia).
Amparo-me em √Ęmagos-motes, povoando um √ļnico instante: ser mar e areia confluindo entre margens de o√°sis. Quando ent√£o intuiria que tudo se dota das mais estranhas singularidades?  Seria meu ...ou eu esse mar, essa sereia, onde recolhida em saudade, peso  menos  que o opaco horizonte que me deseja enxergar. O que serei dessa fra√ß√£o n√£o minha, crispada de ventres, sabor e calma?
A cada final de aurora em que recolho o que gostaria de nutrir por muito mais tempo. Num ínterim que escapa de um céu iridescente escorrego nalguma rua imaginária, salpicando sinais aos imprevistos que me impulsionam para fora de mim (o algoz tão próximo) as muralhas adornadas de pombas, a coragem flutuante nos ramos de acácia.
Lago do papel que não me ilustra, afago o ocre dos papiros impressos nas orgias outonais, nas cumeeiras das casas à minha frente, dançando em colunas rotas de ternura.
As ilhas de sal que ficaram ao longe me perpassam o corpo com apari√ß√Ķes de vidro. A do√ßura, n√≠vea, se torna compulsiva e me d√° uma possibilidade √ļnica de vislumbrar-me maior que a felicidade, pecadora ou angelical, quem me implorar√° sentires nunca experimentados? Dedilho vagarosamente no meu ser a fei√ß√£o mais c√ļmplice, o jeito que n√£o descrevo.
Como um tra√ßo corrompido a lan√ßar-se num abissal infinito, com v√©us de alguma estrela diversa da minha ousadia, opto,  sabendo que j√° op√ß√£o n√£o me resta, pelos mais salgados sais ... sem raz√£o, perpetuo o desfiar dos relic√°rios,  relatos p√°lidos de ostras, renascendo rapidamente em outra intrus√£o sem dia nem tempo por acabar... Se partirem-se os meus opostos, acoberto-me na pr√≥pria engenharia do exerc√≠cio que me constr√≥i sem dar conta √†s ren√ļncias por verter.
Obtusa, replanto lírios recolhidos de águas e salinas, muitas outras vezes, apenas para reconhecer o gosto de gostar-me.
Com a alma espiralada na praia, a magia do meu regresso se redobra, porque simplesmente n√£o suponho conformar-me em nublados  resumos  de mim.
...como se n√£o conhecesse o pranto  ...o sol insufla-me a car√≠cia do calor em buqu√™s de vinho enquanto o vento, em ziguezagues, me sublinha  a testa com mais uma de suas veredas.



« Última modificação: Mar√ßo 16, 2011, 15:45:58 por Administra√ß√£o » Registado
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« Responder #272 em: Mar√ßo 13, 2011, 10:55:29 »

Carta n.¬ļ 49

Caro amigo Emanuel
Escrevo-te esta, a pensar se ainda te quedas nesse pedestal dos iluminados ou, se antes pelo contr√°rio, desces √† terra e permutas de lugar com as gentes comuns. N√£o que eu precise de exemplos da tua humildade ou sobranceria concomitantes, apenas por amizade te quero alertar que: ou deixas de puxar os gal√Ķes e nada fazer para demonstrares a tua ess√™ncia imaculada ou este te et√©reo amigo te explica e realiza de verdade o acto de ser mais que humano sem ser necess√°rio botar figura por de cima de qualquer ara.
Assim sendo, e j√° que te contentas em propalar uma superioridade que fica sempre por demonstrar, aqui te digo de forma simples e sucinta: haver√° sempre mais deuses que altares, porque √© raz√£o do homem ser t√£o pequenino, que de t√£o pequenino e invis√≠vel se faz de tal forma semelhante a um deus bojudo e vago, que s√≥ mesmo por tamanha compaix√£o e solidariedade entre iguais te alerto do perigo de seres destronado pelas mistifica√ß√Ķes que laboriosamente criastes ao longo dos s√©culos.
Amigo Emanuel, lembro-te ainda dos falsos brilhos que exalam dos c√Ęnticos dos templos, a√≠, tal como bem sabemos, solta-se a frustra√ß√£o dos homens e dos deuses, embrulhadas de forma vistosa pelo pastor recitante. Antes de sermos o que somos; tudo e nada, presentes e ausentes do tempo e do lugar, us√°mos essas t√©cnicas de manipula√ß√£o e branqueamento de mentiras evidentes.
Afinal somos iguais, seja no submundo do opróbrio e da miséria, como no fausto e mentira dos altares e futilidades mundanas em que é reclamada a presença de algo de lá do alto, sendo o alto, aquilo a que os humanos sabem de cor e salteado como o lugar maior de perversão e de pecado
J√° me adiantei demais nesta missiva, espero bem que n√£o haja nenhum Assange a espiolhar a nossa correspond√™ncia e a divulg√°-la, para fazer pirra√ßa aos states, ao al√° e ao Vaticano. No fim, tu √© que tens raz√£o em seres esse ente male√°vel e perme√°vel que tanto se d√° com c√°d√°fis como berlusconis, s√≥crates ou cavacos. √Čs um espertalha√ßo meu amigo Emanuel: bebem do vinho e do teu veneno tamb√©m. Afinal, s√≥ mesmo um deus se pode permitir a um desconchavo t√£o grande.
E eu na mesma!

Vénia maior.
Obrigado pela tua também.


Carta n.¬ļ 50

Prezado amigo Ramalho
Hoje ando em corrupio de ideias e de desassossego por causa daquela frase que me enviaste, em nota de rodap√©, na nossa √ļltima conversa naquele chat liter√°rio de gra√ßa e desaforo que sendo nada recomend√°vel d√° gra√ßa pelo nome desabrido que ostenta; realmente, ‚Äúquem for poeta que se foda‚ÄĚ √© nome que n√£o lembra a ningu√©m de baptizar site ou coisa liter√°ria semelhante. √Č que nem tenho mem√≥ria de tamanha ousadia perpetrada pelos hiper-revolucion√°rios artistas surrealistas.Tanto os originais como as contempor√Ęneas e desenxabidas c√≥pias pululantes foram sempre mais conformes que disformes. Adiante!
  Voltando ao assunto que me for√ßa ao prazer ansiado de escrever a quem merece comunica√ß√£o constante, √© voltar a uma s√°bia provoca√ß√£o do meu estimado amigo Ramalho, que por desassombro maior, n√£o s√≥ ‚Äúapoia‚ÄĚ o inenarr√°vel Pessoa no apodo de rid√≠culo a todas as cartas de amor, bem como as considera n√£o literatura e coisa de n√≠vel e ao n√≠vel da pornografia liter√°ria de paulo coelho ou saramago. O apodo de rid√≠culo a todos os que ousam escrever sobre amor ou coisas similares, n√£o √© adjectivo que me repugne, caro Ramalho, ali√°s pateta mesmo √© quem confunde luz com sol ou claridades e, ainda por cima da campa da escrita insalubre se ostenta de escriba do amor.
Rid√≠culo caro amigo, √© mais o autor que o pr√≥prio acto de escrita, e sujeito-me nesta afirma√ß√£o a contradizer-me sobre o que penso e sinto sobre obra e criador, mas de facto no caso do esclerosado Pessoa, do caso pessoano do amor e do caso do pessoa rid√≠culo e da Of√©lia pateta, h√° realmente uma forte uni√£o entre a g√©nese dum cr√Ęnio vazio a verter um texto ileg√≠vel.
Os pessoas, os saramagos, os coelhos e as suas cartas e textos e todas coisas que derivam deles serão patéticas e execráveis mas, meu grande amigo Ramalho, só o amor não pertence a esses filmes do tipo orson reles em sessão pornograficamente contínua. O amor e os escritos de literatura sobre o mesmo, serão tudo menos ridículos.
Quem nunca amou e n√£o queira amar nem escrever que apanhe uma valente pedra.
Na cabeça ou no sítio que não lhe fizer falta.
Haja Ramalho, haja meu amigo, vontade de ser violento contra a viol√™ncia dos desafectos. S√≥ na falsa e med√≠ocre po√©tica se escrevem coisas insustent√°veis porque em boa verdade se estamos de acordo do desnecess√°rio e da inutilidade da poesia, o chiste de: ‚Äúquem for poeta que se foda‚ÄĚ √© amea√ßador por ser um atentado √† mediocridade e √† presun√ß√£o.
Abraço mui fraterno.
Cuida-te com desvelo.

P.S- Dá-me troco: Quem não sabe criar nem escrever amor, ou é pateta ou poeta erudito ou popular. Pode também ser intelectual ou filósofo ambulante!
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« Responder #273 em: Mar√ßo 13, 2011, 18:13:21 »

Mãos à obra.
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« Responder #274 em: Mar√ßo 14, 2011, 06:13:47 »

Participem.O prazo termina hoje às 24:00h.
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Pensar amar-te, é ter o acto na palavra e o coração no corpo inteiro.
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« Responder #275 em: Mar√ßo 14, 2011, 19:49:35 »

Participem.
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« Responder #276 em: Mar√ßo 14, 2011, 21:14:07 »

At√© √† meia noite de hoje podem enviar as vossas participa√ß√Ķes.
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« Responder #277 em: Mar√ßo 14, 2011, 21:46:27 »

Meia noite do Brasil? Ainda dá tempo. Meia noite de Portugal não mais. Enviarei texto para o próximo concurso.

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Oswaldo Eurico Rodrigues


Escrevo também nos sites Recanto das Letras (www.recantodasletras.com.br)
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« Responder #278 em: Mar√ßo 16, 2011, 15:48:38 »

Carta n.¬ļ 51
Caríssimo Leonardo

Saiba que é meu maior desejo senti-lo a sorrir, quando ler e degustar estas modestas letras que lhe envio em tom de descargo de pouca consciência.
Sempre nos entendemos quanto aos nossos posicionamentos √©tico-pol√≠ticos, vc sempre √† frente de todas as revolu√ß√Ķes, a m√£o armada sempre com bons n√©ctares e a boca disposta a tecer belas ret√≥ricas de √©tica e fraternidades afins. Eu, pelo contr√°rio, sempre defendi toda a legitimidade do lucro, mesmo que assente em selvagem concorr√™ncia, porque o ser humano n√£o √© animal dom√©stico, e eu n√£o me governo com trocos ou esmolas. Das solidariedades tamb√©m estamos conversados, vc sempre quase a obrigar o ser humano a ser solid√°rio eu, a usar a sabedoria popular bem espalhada na minha m√°xima adorada: ‚Äúquem quer bolota trepa‚ÄĚ, porque mais vale uma caridadezinha de tempos a tempos, que um ex√©rcito de viciados nas solidariedades alheias.
Pergunta-se agora o meu amigo, se faz sentido algum o que eu agora escrevo nesta carta, pergunta-se e com raz√£o. Neste momento actual da exist√™ncia humana, nunca me senti t√£o amea√ßado nas minhas convic√ß√Ķes e liberdade de pensar e de agir, por outras palavras: estou √† rasca. Sim √† rasca! Quero l√° saber dos prec√°rios e das gera√ß√Ķes √† rasca, importa-me mais saber que, se essa gente de fraca cabe√ßa e ac√ß√Ķes impensadas ainda ganha f√īlego para fazer alguma revolu√ß√£o.
Está a ver meu amigo como é que fico com uma revolução feita por esses mentecaptos?
√Č que se fosse o Leonardo a fazer a revolu√ß√£o, ainda nos poder√≠amos entender, n√£o por causa da nossa amizade, mas pelos requintados gostos que o meu amigo cultiva, algo incompat√≠vel com uma revolu√ß√£o sem classe e executada por brutamontes. Fora o meu amigo a liderar qualquer movimento rasco-revolucion√°rio e eu saberia que a revolu√ß√£o estaria ganha, vitoriosa por ser encabe√ßada por algu√©m de requinte e elevado sentido est√©tico. Pense nesta sugest√£o que deixo nestas palavras, n√£o se quede s√≥ em te√≥rico do blog da estrela, transmute essa dilet√Ęncia em ac√ß√£o educativa, d√™ aos seus comparsas trogloditas, sess√Ķes de ch√°, enologia e boas maneiras. Concedo que possa haver uma revolu√ß√£o, mas por favor: que tenham maneiras e educa√ß√£o. De resto, dos vinhos  e demais vitualhas, tratarei eu com pleno prazer.


Aguardo por si com a mesa posta, quando vc regressar da revolução.




Calorosas sauda√ß√Ķes conservadoras.
 


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« Responder #279 em: Mar√ßo 16, 2011, 16:14:22 »

Ainda faltam algumas cartas que, tendo chegado em formato de momento incompatível, publicaremos brevemente e entrarão em concurso.
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« Responder #280 em: Mar√ßo 16, 2011, 20:25:16 »

Carta n.¬ļ 52

Para além deste planeta
Ol√°, novamente! Sei que me pediste para limar as arestas do tempo e tentei faz√™-lo, acredita. S√≥ que as coisas n√£o s√£o t√£o simples como parecem e decidi escrever-te para te mostrar os limites ilimitados desta ilus√£o que me tolda o racioc√≠nio. Sim, √© verdade que desejava que ele me faltasse sempre que sinto que alguns laivos de raiva me podem conspurcar o discernimento e o corpo, coagindo-me a viver esta vida que sinto n√£o ser a minha. As minhas chagas, j√° cansadas, vertem as imagens horrendas de um ar irrespir√°vel, dos mendigos sem m√£os, dos cegos sem olhos, que vagueiam pela sociedade, tamb√©m ela cansada, do destempero humano que o homem governante, imprime na vida iludit√≥ria dos seus vassalos que j√° nem for√ßas t√™m para rastejar neste solo minguado de possibilidades. Lembras-te da √ļltima visita que te fiz? Foi bom poderes sangrar todos os meus escolhos e conseguires imunizar-me o cerne! Iludiste-me (ou n√£o?) quando me disseste que me tornaria num ser des(inquietado) de todas as maleitas que, aqui na terra, d√£o forma a este dep√≥sito do qual a minha mente se julga dona e senhora. Fez-me bem ter a√≠ estado e, enquanto durou, foi bom. O problema √© que agora, sinto estar, de novo, a transformar-me: j√° n√£o respiro, n√£o como, n√£o me compade√ßo pela mis√©ria vizinha, nem dos gr√£os humanos que rastejam solitariamente √† procura de provarem quem de direito se devia responsabilizar por eles. √Č isto que pretendes? Porque n√£o respondeste ao meu pedido? Ou ser√° que nem chegaste a receb√™-lo? D√° um sinal de resposta enviando-me o passaporte. N√£o me mandes o laranja. Esse est√° completamente descarregado. V√™ se me consegues mandar o verde, aquele que tem a forma de um trevo de quatro folhas. Pelo menos pode ser o pronuncio de que algo ir√° melhorar, neste canto do Universo. Vou tentar que me concedam uma licen√ßa sem vencimento no cargo que ocupo. Estou cansado de me sentir impotente! √Č verdade que me mostraste que desempenhar o cargo de Regedor Humano n√£o iria ser nada f√°cil. Mas agora, raios me partam se este v√≥mito constante n√£o me est√° a mostrar que me devo ausentar, por um tempo que seja.
Preciso estar contigo para falarmos naquele tratamento que me aconselhaste. Lembras-te que me deste a ler o teu livro ‚ÄúReconstru√ß√£o‚ÄĚ? Aconselhaste-me a memorizar a f√≥rmula PTX x FR(3/34,905) mas n√£o entendo para que serve t√™-la em meu poder se, s√≥ tu e apenas tu, poder√°s tirar partido dela! Quero acreditar que fizeste de prop√≥sito para me obrigares a ter necessidade de te pedir, de novo, asilo. Se foi o caso, garanto-te que n√£o saio da√≠ sem me mostrares qual o segredo! Acredita que, s√≥ assim, terei coragem de retomar o meu cargo com a certeza de poder transformar este meu Planeta, num outro, onde o barro humano seja t√£o s√≥lido como s√≥lida √© esta certeza em te querer visitar.
√Č bom que comeces a pensar com carinho na recep√ß√£o que me vais fazer e n√£o te esque√ßas de me reservar o quarto que fica virado para o astro rei pois assim terei a certeza de poder raciocinar com mais claridade! (Esta √© para te p√īr bem disposto!)
Um beijo

Carta n.¬ļ 53


De m√£o para m√£o
Ol√° irm√£! Sei que deves estar ainda magoada comigo. H√° muito que desejo a reconcilia√ß√£o e tu deves, talvez, sentir o mesmo. Onde j√° se viu as duas m√£os estarem zangadas? Na protuber√Ęncia do nosso conflito foi-nos incapaz atingir a lucidez nos gestos e nas fei√ß√Ķes que nos deviam ter levado √† sensatez de uma decis√£o mais assertiva. Se n√£o, pensa com calma e v√™ se n√£o tenho raz√£o. Lembras-te como reagiste, naquele confronto do nosso dono com aquele homem, completamente dopado pelo √°lcool que lhe consumia as entranhas? O que fizeste? Nada! Eu apenas quis agir pela paz enquanto tu, levantaste-te pela viol√™ncia! Lembras-te daquela crian√ßa abandonada em m√£o de ningu√©m? Eu queria do√°-la a uma vida digna e tu decidiste que ela permanecesse no frio da insensibilidade humana! Lembras-te daquele rosto esculpido pela m√£o da fome? Irm√£, eu s√≥ queria dar-lhe um sustento e tu, negando-lhe o direito mais b√°sico de toda a humanidade! Insististe at√© permitir que o relevo se vingasse mais naquela carca√ßa, cada vez mais, a descoberto! Lembras-te daquele sem-abrigo, completamente mergulhado na solid√£o do abandono? Eu apenas queria instigar o nosso amo a que procurasse o aconchego de um lar e tu? N√£o ajudaste em nada! Limitaste-te a esconderes-te no bolso fr√°gil deste tempo, ignorando aquele corpo de ningu√©m! Lembras-te quando te levantaste, em riste, para ferir os sentimentos da mulher do nosso amo? Eu tentei proteg√™-la porque acredito num mundo mais justo, equilibrado pelos valores certos? O que fizeste? Cobriste-a de ‚Äúporrada‚ÄĚ e sentiste-te rejubilada! Lembras-te daquele jovem, esmiu√ßado pelo pican√ßo da coca√≠na? O que fizeste? Nada! Bem me podias ter ajudado a levant√°-lo e segur√°-lo pelos ombros, mantendo-o de p√© e encaminh√°-lo para uma cura, mas n√£o, preferiste esconderes-te, de novo, na profundeza do bolso. Como me senti impotente por, sozinha, n√£o conseguir recuper√°-lo daquele flagelo! Por todas estas raz√Ķes, ainda continuas a acreditar que a grande culpada do breu deste nosso desentendimento, continuo a ser eu? V√° l√°, sai desse bolso corrompido e reconhece, de uma vez por todas que, s√≥ em un√≠ssono, seremos capazes de tornar este corpo que tamb√©m √© o nosso corpo, mais digno do que nunca! Quero que reflictas e chegues √† conclus√£o que s√≥ unindo o mundo das nossas m√£os conseguiremos revitalizar (e ainda vamos a tempo) este corpo no qual nascemos.
Certa da tua compreens√£o, aguardo por um gesto teu neste meu gesto e estou convicta que usar√°s do discernimento necess√°rio para que juntas, possamos (re)construir um amo melhor. Um ser humano repleto de bons sentimentos!
Da sempre amiga e tua irm√£
                                                          A m√£o esquerda

P.S. N√£o deve ser em v√£o a raz√£o de ter nascido deste lado do corpo, n√£o achas?

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« Responder #281 em: Mar√ßo 16, 2011, 20:37:13 »

Neste momento, todas as cartas cumprindo o Regulamento foram aqui publicadas. Fica, assim, encerrado este concurso. Os autores t√™m agora dois dias para pedirem alguma poss√≠vel rectifica√ß√£o. Ap√≥s esse prazo, o t√≥pico √© trancado e as cartas passar√£o a ser apreciadas pelo j√ļri.
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Os poemas s√£o reflexos da minha alma...


« Responder #282 em: Mar√ßo 18, 2011, 23:18:15 »

Sinto-me naufragar
no meio destas cartas com tanta qualidade.
Parabéns a todos os participantes.

  Dulce Pinho
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« Responder #283 em: Mar√ßo 19, 2011, 10:57:39 »

Lista final das cartas a concurso


Carta n.¬ļ 1

Lisboa 25 de Outubro de 2010


Minha querida amiga

Espero que estejas melhor de sa√ļde, fiquei e ainda estou incr√©dula com as ultimas noticias sobre essa tua maleita, mas como me conheces bem n√£o resisti a enviar-te o 1¬ļ epis√≥dio da F√°bula que te falei.
Conto que neste episódio dês umas valentes gargalhadas pois se não te fizer melhorar fisicamente de certo o fará à alma.


O curral das ressabiadas

   Dona loba era a fazendeira, a dona de uma grande quinta e que tentava manter limpa, organizada e acima de tudo, que todos os animais que recebera nas suas instala√ß√Ķes fossem felizes e vivessem na paz dos Deuses.
Durante v√°rios anos sempre com o seu vigor foi alimentando, tratando das suas companhias mais que preciosas. N√£o se privava de nada.
Era feliz na companhia da sua mana mais nova, a linda Karoxa que adorava dar ‚Äúbeijokas fofas nas boxexas‚ÄĚ.
D. Loba a caminho da meia-idade, ou da ternura dos quarenta como lhe queiram chamar, sofrera durante anos a fio a desilus√£o de um grande amor, tendo como sua companheira fiel a ansiedade que a levou a ganhar um disparate de peso a mais.
Deixando a sua preciosa quinta aos cuidados da sua mana, sujeitou-se a uma transformação radical, uma metamorfose extrema tal como a sua mana Karoxa o fizera outrora.
Se antes D. Loba chamava √†s aten√ß√Ķes mesmo exageradamente grande mas com atributos de deixar at√© os mais novos a babarem, agora que voltava √†s eleg√Ęncias dos seus 20 anos, na quinta todos andavam num desassossego feroz.
D. Karoxa n√£o se ficava atr√°s, tamb√©m ela voltara √†s suas formas de adolescente, misturando com a sua forma de ser rebelde, louca mas muito meiga, t√£o meiga que √†s vezes os outros animais chegavam a confundir a sua meiguice e amizade com outras ‚Äúcoisitas‚ÄĚ que nada tinham a ver com a sua forma de estar na vida.
E nem imaginam como as outras fêmeas da quinta se contorciam de inveja.
Faziam de tudo para chamarem à atenção dos machos, exibiam-se, por vezes subtilmente, até se oferecerem a todo o gás, mas eles só tinham olhos para a D. Loba e D. Karoxa.
Na quinta existia um Cabritinho lindo, nascera j√° com aspecto de modelo profissional, com uma apar√™ncia sempre muito bem cuidada e agora que se estava a tornar forte, com porte, tanto a Cabrita Loira como a √Āguia Louca n√£o se cansavam de o perseguir.
Coitado do Cabritinho j√° n√£o sabia onde se enfiar para se esconder das duas stockers loucas que n√£o lhe davam descanso nem de noite, nem de dia.
D. Loba e D. Karoxa tentavam a todo o custo manter a ordem na quinta e enquanto D. Karoxa ia dizendo as verdades, dando na cabe√ßa, puxando as orelhas e amea√ßando que ia chamar a D. Loba para dar com o seu famoso ‚Äúxinelo‚ÄĚ nas desmioladas, assanhadas, o Cabritinho ia chorando as suas m√°goas no colo de D. Loba.
A √Āguia Louca, ave sabida usou das suas artimanhas para tentar captar a aten√ß√£o do pobre Cabritinho e assim colocou as garras de fora, p√īs-se a trabalhar e sem pedir licen√ßa a ningu√©m criou um clube de f√£s no Face-Book para o Cabritinho.
Entre o ficar envergonhado e com o ego na lua o Cabritinho at√© gostou da ideia s√≥ que, apesar de ficar eternamente agradecido, n√£o demonstrou qualquer interesse com assuntos que a √Āguia Louca queria levar a cabo com esta artimanha.

Amiga, por hoje √© tudo, para a semana que vem enviarei o 2¬ļ epis√≥dio.

Da tua amiga que nunca te esquece, que te mantém no coração,

...

Carta n.¬ļ 2

Lisboa 2 de Novembro de 2010


Minha querida amiga

Fiquei feliz por teres gostado da F√°bula e tal como te tinha prometido, nesta carta envio o 2¬ļ epis√≥dio.

O Curral das ressabiadas

√Č claro que a Cabrita Loira se aproveitou da situa√ß√£o para fazer cerco ainda mais cerrado, enviando mensagens, fazendo-se de infeliz, com pena dela pr√≥pria chorando √† frente de todos num verdadeiro cantinho de lamenta√ß√Ķes em que por mais que fizesse o seu ‚Äúamor‚ÄĚ n√£o era correspondido.
Fazia de tudo, até elegera o Cabritinho a Muso Oficial da Quinta mas ele não a compensara da forma que ela esperava.
Vendo o pobre Cabritinho em total desespero, encurralado pelas duas fêmeas que não se cansavam de o perseguir, as manas juntaram-se e entraram no Clube de Fãs para manterem a ordem e protegerem o seu Cabritinho.
O que ninguém esperava era que com tantos cuidados uma história tórrida, louca quente e abrasadora estava a nascer pelos animais que menos se esperava que fossem intervenientes.
D. Karoxa n√£o tinha m√£os e palavras a medir, recebia confiss√Ķes de paix√Ķes por parte dos outros animais que se iam encantando uns pelos outros sem que desconfiassem.
Coitada da D. Karoxa com tantas lam√ļrias daqui e dali j√° nem sabia o que era dormir. J√° nem se lembrava do que era deitar-se cedo e acordar no outro dia a meio da manh√£. Se agora conseguisse dormir 2 horas era quase um milagre, tal era, coitada.
Por outro lado o Cabritinho descobrira o fascínio que uma fêmea mais velha podia exercer, deixando todas as suas hormonas saltitantes em forte curto-circuito fazendo-o procurar o colo de D. Loba para se acalmar.
Apesar da compreensão, dos conselhos de D. Loba, do abraço forte que esta tinha, não era indiferente o calor que ambos sentiam quando estavam juntos.
Quando menos esperavam foram assaltados por uma febre invasora que só acalmava quando os dois ficavam juntos.
Tudo isto não era normal, D. Loba sabia exactamente qual a doença que ambos padeciam e não havia cura. Os sintomas eram terríveis, calor, desejo incondicional, loucura e tudo causado por esta maleita, A PAIXÃO!
Pobre D. Loba, morria de preocupação como é que a vida lhe pregara uma partida destass e ainda mais por um Cabritinho de Leite!
Ai o que iriam dizer dela, PED√ďFILA! De certeza que lhe iriam chamar assim. Mas por muito que combatesse este sentimento quando menos esperou viu-se envolvida num louco tango selvagem com o seu Cabritinho.
A coisa era tão intensa, tão efervescente que ambos quando se falavam no xat de Portugal o Normal, já planeavam em afastar os móveis da sala para que não houvesse mais estragos dentro do covil.
Agora sim, as outras duas estavam piores que ursas, choravam baba e ranho de todo o tamanho, faziam-se de vitimas, imploravam, enfim faziam um choradinho de meter dó, coitadas das ressabiadas!
A vizinha do lado n√£o se ficava atr√°s, tentava tudo por tudo, pobre vaquinha, bem que queria canalizar todas as aten√ß√Ķes para si enquanto confessava que o seu companheiro, o Sr. Porco j√° ressonava que nem ele pr√≥prio.
E dia após dia lá vinha ela ao fim da tarde às vezes com histórias mirabolantes, sem pés nem cabeça, na esperança que alguém da quinta lhe desse a atenção que pretendia.
Entre todos na quinta andavam a tentar tirar à sorte quem é que a iria aconselhar a ir ao veterinário pois desconfiavam que a pobre vaca estivesse já com uma ponta de BSE.

Amiga, para a semana que vem, enviarei o 3¬ļ epis√≥dio.

...

Carta n.¬ļ 3

CARTA RACIONAL

Cara Raz√£o,

√Č com pleno e puro agrado que te escrevo esta carta, a ti que est√°s em mim numa tal omnipresen√ßa que nada mais existe a n√£o seres tu. Escrevo-te com o objectivo de me aproximar por via das palavras do Sol inating√≠vel mas que me vai, quando poss√≠vel, iluminando.
Quando me deixas na escurid√£o l√°grimas v√£o ca√≠ndo como uma cascata de um rio outrora calmo, de corrente s√ļbtil. O meu cora√ß√£o, em vez de sangue, bombardeia todo o tipo de sentimentos e emo√ß√Ķes desencadeando posteriormente em sofrimento ou em vulgar felicidade ‚Äď que n√£o √© mais do que outro g√©nero de sofrimento. Tu sabes, minha cara Raz√£o. Tu sabes que quando me abandonas, por motivos que te s√£o alien√°veis, eu deixo de ser o ser que vai escrevendo esta carta, para ser o ser que vai lendo-a, inundando-a de paix√£o desesperante.
Por este meio, penso (l√° est√°, penso!) poder criar um elo de liga√ß√£o imut√°vel, indestrut√≠vel e insepar√°vel que consistir√° por conseguinte numa constante troca de correspond√™ncia; mantendo, por sua vez, o rio o seu percurso esperado, sem desagrad√°veis surpresas. Quero-te (se quero tenho que poder) como o meu maior amor, como a natureza que vai controlando a corrente da minha vida t√£o verdadeira e correcta quanto puderes. N√£o deixes que os teus malditos advers√°rios me conquistem, porquanto eu sou teu, n√£o naturalmente, mas por arte; nasci terra de ningu√©m, fui proclamado pelos dem√≥nios das sensa√ß√Ķes e depois de numerosas e √°rduas batalhas fui conquistando a minha independ√™ncia com o intuito de entregar-ta a ti, minha mais-do-que-tudo. N√£o obstante o inimigo estar n√£o raras vezes √† espreita, acredito nas tuas capacidades b√©licas de me defender dele e das suas prazerosas e indiscut√≠veis tenta√ß√Ķes. Acredito e pretendo que esta carta reforce toda a tua confian√ßa, que apesar de inabal√°vel, √© necess√°rio ter em conta toda a precau√ß√£o, pois se √©s confiante podes n√£o ser o suficiente (ou n√£o o ser eu) para me transmitires por inteiro e sem hemorragias pelo meio essa confian√ßa.
Querida Razão, as tuas armas são-me indispensáveis e não as quero perder pois a guerra só terminará na morte. Pensamento, ponderação, análise são das armas mais importantes contanto não deixarem de ser mais sofisticadas, eficazes e superiores às armas passionais do inimigo. Peço-te portanto que não deixes de trabalhar nelas e, no que me diz respeito, vou também ajudando utilizando-as da melhor maneira possível. Creio que juntos vamos conseguir ser melhores!
Por fim, terminando como iniciei, declaro todo o meu amor por ti, sabendo eu que é recíproco. Ambos, também o sei, entendemos que este amor não é o Amor que o adversário nos tenta impingir, mas um amor mais alto, mais além, incomensurável. Minha Razão, a ti me dedico, o mesmo é dizer, que a mim me dedico. Juntos somos Uno, juntos somos mais e mais.

Assim me despeço.

Para sempre teu,

O Corpo.

Data: Algures na Intemporalidade.


Carta n.¬ļ 4


    Ah, Mundo...


    Cresce em mim a saudade de ti! N√£o te vejo h√° muito. Este quarto ex√≠guo tornou-se toda a minha realidade... Eles dizem que sou perigoso, incapaz de funcionar em liberdade nas tuas ruas, na superf√≠cie que d√° tapete ao formigame humano. Temo jamais regressar a ti.
   Perdoa-me n√£o preceituar esta carta com a usual data que inicia qualquer documento, mas a verdade √© que me perdi no tempo h√° muito. N√£o se contam aqui os dias nem os meses. O fundo branco e almofadado das paredes que me cercam neste √Ęmbito faz-se tamb√©m c√°rcere do tempo, encurralando a sua ess√™ncia no esquecimento de que pade√ßo. Pois √©... parece que a minha soledade se tornou completa, abarcando ambos espa√ßo e tempo, os dois hoje t√£o longe de mim.
   Esta manh√£ permitiram que eu escrevesse. Ouvi-os deliberar. Parece que v√™em na escrita uma √Ęncora no real, um exerc√≠cio √† mente que promove benef√≠cios e progressos. Libertaram-me da firme ind√ļvia que me tinha de bra√ßos im√≥veis e trouxeram-me papel e l√°pis. De repente, eis que este angustioso espa√ßo deixou de me confinar por inteiro; prende-me o corpo, mas n√£o a opini√£o, livre de voar atrav√©s da palavra, ainda que somente de exist√™ncia depositada numa folha. A palavra √© for√ßa. Se a uso, meu esp√≠rito agiganta-se! Em oposto, usam aqui palavras que me fustigam, vis ferramentas da arrog√Ęncia. Sim, eu ou√ßo-os, √†s vezes, falando entre si. Cospem termos como ‚Äúpsicose‚ÄĚ e ‚Äúdem√™ncia‚ÄĚ. Mencionam-nos na terceira pessoa, alheios, tal qual se refugiados no anteparo da sua presum√≠vel sanidade mental. Esquecem-se de que s√£o carne semelhante √† que me reveste, igual mat√©ria. N√£o equacionam sequer a possibilidade de ser t√©nue a diferen√ßa entre a minha loucura e a deles, de que dementes todos o sejamos, partilhando um mal comum de d√≠spares sintomas... e os meus apenas d√™em um pouco mais nas vistas.  
   Oh, Mundo que me fugiste, ser√° que ainda esperas por mim? Reconhecer-me-√°s no dia em que eu pisar teu ch√£o novamente? S√£o essas quest√Ķes a raz√£o da minha missiva. Por dentro sofro e sangro. Poderei ainda fazer parte de ti? Desejo-o tanto! Quero voltar a saborear o sol, a calcorrear pelas areias da praia, cheirar o limo do mar a olhos fechados. Quero ouvir vozes e risos. Quero viver. Tenho de partir daqui. Preciso de urgente liberdade, antes que a ins√Ęnia que nego acabe por me engolir e eu me torne, de facto, no louco que me acusam de ser. Como √© curioso sentir, Mundo, que embora esta sala me prenda, √©s tu quem verdadeiramente me tem cativo.
   N√£o me podiam privar de ti. N√£o tinham esse direito...
  Desvalorizaram-me. Julgaram-me uma simples mente vazia perdida para o marasmo e a incapacidade. Erraram. Cometeram um s√≥ lapso, pequenino, t√£o subtil como um magro fio de malha, mas pela ponta de um fio solto se come√ßa a desfazer o mais grosso tecido. N√£o deviam ter-me posto este l√°pis na m√£o; sua c√ļspide pode assumir-se arma mais s√©ria que a mera escrita que capacita... Ou√ßo algu√©m chegar. Deve vir em rotina, para verificar se me encontro pl√°cido, escrevinhando rabiscos ao sabor da displicente falta de tino. Aperto o objecto com for√ßa, nele esmagando as mais recalcadas frustra√ß√Ķes, e cerro os dentes enquanto aguardo que abram a porta. Meu visitante ter√° a amarga sauda√ß√£o de um frio golpe; depois, uma corrida pelo corredor levar-me-√° a rua e... ah, Mundo, velho amigo, come√ßo a sorrir, creio que nos iremos afinal reencontrar em breve...


Carta n.¬ļ 5

Contando os dias
Meu estimado marido, aproveitei que as crianças já dormem para te redigir mais esta carta, desta vez de coração garroteado. Não vale a pena expressar por palavras o quanto sinto a tua ausência, e o vácuo que deixaste nesta casa.
Sei que faltam escassos meses para voltares para a tua fam√≠lia e para o conchego do teu lar, e que tudo o que est√°s a fazer √© para nosso benef√≠cio e felicidade, todavia, desde que partiste, com pesar no olhar, que as noites para mim s√£o uma eterna ang√ļstia mesmo sabendo que a lua que vejo √© a mesma que tu v√™s. Hoje estou particularmente fr√°gil e sens√≠vel, qui√ß√° por se avizinhar o Natal, e ser o primeiro, em seis anos, que n√£o o passamos juntos. N√£o h√° um dia que n√£o me sobressalte sempre que o telefone toca, n√£o h√° um dia que n√£o anseio por meter a chave na caixa do correio sempre que chego a casa √† espera de palavras escritas pela tua m√£o. Receio sempre m√°s not√≠cias meu homem, e, mesmo que a miss√£o que cumpres seja de louvar, her√≥ica at√©, o pa√≠s nunca conseguiria compensar tamanha perda se voltasses derrotado dentro de um caix√£o... Quantas noites sonho com essa guerra que n√£o te pertence‚Ķ Sonho com gente mutilada, com tiros e fei√ß√Ķes desesperadas, realidades que s√≥ a televis√£o me d√° a conhecer‚Ķ Devoro todos os notici√°rios espavorida e abra√ßada √† almofada‚Ķ Suspiros enchem o meu peito cada vez que fixo as nossas molduras!..
Mas deixa-me contar-te como v√£o por aqui as coisas. Os meninos v√£o bem na escola e a professora de m√ļsica do Daniel teceu-lhe elogiosos coment√°rios. Diz que ele tem um ouvido fora do comum para a idade e um sentido mel√≥dico extraordin√°rio. A Rita continua a melhor aluna da classe, como sempre e vai muito bem no ballet. Temos dois filhos maravilhosos, que todos os dias perguntam se falta muito para o teu regresso. Quanto a mim, vou riscando no calend√°rio que est√° atr√°s da porta da cozinha cada dia que passa. Para eles, chegou o entusiasmo natal√≠cio, e esta √© √ļltima semana de escola. J√° adornaram a √°rvore de natal e fizerem o pres√©pio sozinhos... Gostava que visses como ficou bonita!.. S√≥ faltam as prendas, e este ano n√£o lhes posso dar o que pediram, v√£o ter que se contentar com pouco que posso dar, a n√£o ser que a madrinha deles seja este ano generosa e que n√£o se lembre de lhes dar b√≠blias ilustradas e pares de meias como no ano passado. L√° querem os mi√ļdos saber de ilustra√ß√Ķes religiosas e, para meias, gra√ßas a Deus ainda temos dinheiro! H√°-de levar o dinheiro todo para a cova a sovina e, ainda por cima sempre com queixumes que a vida est√° m√°!.. Mas para a igreja nunca lhe falta dinheiro! Bem sei que tem uma reforma choruda dos anos que trabalhou l√° fora!.. O padre Francisco √© que a sabe levar‚Ķ Veremos se d√° uma alegria √†s crian√ßas este ano‚Ķ De resto os dias sucedem-se com a normalidade poss√≠vel, passo os dias no fundo de desemprego, envio curr√≠culos dos quais n√£o tenho retorno, vou dar uma ajuda √† minha m√£e (o meu pai continua sem melhoras e ela n√£o lhe consegue fazer a higiene sozinha), vou buscar os mi√ļdos √† escola, vou ao supermercado, enfim... Volta depressa marido, que morremos de saudades e precisamos de ti aqui!
Ainda que me sinta um tudo-nada aliviada sempre que te escrevo, e at√© poderia passar a noite nesta cama vazia a escrever-te, vou ter de terminar por aqui. √Č que j√° sinto os olhos humedecidos e n√£o quero molhar estas palavras com as minhas l√°grimas.

Com amor,

...

« Última modificação: Mar√ßo 19, 2011, 11:42:29 por Administra√ß√£o » Registado
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« Responder #284 em: Mar√ßo 19, 2011, 11:00:43 »

Carta n.¬ļ 6

Algures em Novembro

H√° muito que te queria escrever umas linhas, mas, sem pretexto, n√£o passava de uma vontade impressa no pensamento.
Agora, aconteceu o inesperado e o tal pretexto que n√£o tinha, apareceu do nada, obrigando-me a cumprir o que me havia prometido.
Sabes, é que, ainda que a vida nos tenha cruzado e descruzado as linhas do destino e o tempo se tenha ocupado em tornar cada vez maior a distancia física e o total desencontro de lugares, não conseguiu, contudo, apagar o que o sentimento desenhou e imprimiu na alvura da minha alma de então, cujo sentido se resume numa simples expressão, que, aliás, não te cansavas de mencionar nas cartas que trocamos na época; o amor fraternal.
Talvez n√£o saibas, mas ainda guardo todas essas cartas que me enviaste durante aqueles dois anos ap√≥s o nosso encontro casual naquela tarde quente de Junho. Cartas essas onde me deste a oportunidade de te conhecer verdadeiramente, de descobrir o ser  maravilhoso que existia no √≠ntimo de ti, capaz de dar tudo o que tinha pelo seu semelhante mais necessitado. De acreditar nas tuas convic√ß√Ķes, de te saber genu√≠no nos sentimentos que te moviam e que bebiam na fonte cristalina da tua f√© imensa  num Deus redentor. Nunca consegui seguir-te os passos, como era o teu desejo (ainda guardo igualmente aquela pequena b√≠blia de capas cinzentas que me ofereceste)...   perdoa-me, mas a f√© √© algo que nasce e que tem de vir de dentro de cada um, algo em que se acredite piamente, se sinta verdadeiramente e se entenda como uma verdade! E a verdade, √© que  nunca senti nada semelhante nem com o teu constante apelo nas in√ļmeras tentativas que fizeste para me converter em mais uma fiel ovelha do teu rebanho. Desculpa, mas eu sou assim, firme em certas coisas. J√° noutras...

Sabes, para al√©m de ficares eternamente nos cora√ß√Ķes daqueles que contigo privaram onde me incluo tamb√©m, deixaste um imenso vazio no cora√ß√£o daquela com quem partilhaste a vida e que te acompanhou sempre. A companheira que te amava incondicionalmente. Este poema foi escrito por ela e fazia parte do conte√ļdo do email que me enviou com o teu endere√ßo...

Amor,
No tempo e no espaço onde vivo sem teu amor
A existência perdeu seu brilho
E queria dizer-te, ainda hoje, que contigo foi toda a minha felicidade!

Amor perdido é um
Amor que permanentemente dói e dilacera a alma
Nem o vento, nem a chuva, nem o sol, ainda que acariciem meu rosto, poder√£o fazer-me esquecer o carinho de tuas m√£os
O despertar da manhã não traz esperança de mais um dia contigo
Nem o cair da tarde a alegria do reencontro
Nem a noite o calor de teu corpo
E quando nela tento o esquecimento
Tu ainda voltas no sonho…

Mas nada, nada pode reavivar a existência desse amor que só a ti pertence!
Amo-te é a palavra que te digo todos os dias
E é essa mesma palavra que tantas vezes repetiste que ainda ouço
Amor, vemo-nos logo, 365 dias foi apenas um dia!

Que me dizes? A tua c√©lebre frase, t√£o racional, que sempre atenuava minhas tristezas: ¬ęDeixa isso!¬Ľ?
Como deixo isso? Quem, para além de ti, poderá acompanhar-me nesta travessia?
Deus responde em teu lugar: vai ao jardim! Lá encontrarás a flor da amizade…

Esta carta nunca te irá chegar às mãos, mas vai ficar a pairar num espaço virtual, onde, acredito, a tua alma paire também...

Desta tua amiga que nunca de ti se esqueceu

Carta n.¬ļ 7


Sexta Feira, 03 de Dezembro de 2030

Ol√°!
Por esta n√£o esperavas tu, companheira. Receberes uma carta do futuro, enviada de um tempo que n√£o passa de utopia.
Mas aqui estou eu, a escrever-te estas breves linhas para te dar conta de que ainda por aqui ando, o que julgo, muito te agradar√° saber.
A esta altura deves ter o cérebro a trabalhar a 100 0 à hora, a braços com a surpresa do impensável inesperado. Bem sei que não te deve ser fácil lidar com o surreal da situação, mas tenta acalmar-te e ler-me com atenção.
Pensa, se recebeste not√≠cias minhas com vinte anos de avan√ßo, √© sinal de que os tempos mudaram tanto tanto, as tecnologias evoluiram a uma ponto que entraram numa dimens√£o inimagin√°vel nesse tempo em que te encontras ainda. O que antes seria coisa de loucos, hoje √© algo t√£o normal como o simples acto de falar!  Mais, tendo em conta que  esta carta que tens nas m√£os foi escrita e enviada por mim, bem podes pular de alegria porque √© mais que certo ainda teres pelo menos mais vinte anos de vida!
Pois é, acredita que sou eu quem te o diz e como bem sabes, não sou pessoa de inventar seja o que for, muito menos mentiras.
Companheira, n√£o te vou estragar a surpresa daquilo que ainda tens para viver, pois isso seria uma desfeita para com a minha pr√≥pria pessoa e era bem capaz de te tentar desviar dos caminhos que, embora te possam trazer obst√°culos, s√£o os √ļnicos capazes de te proporcionar e fornecer o sal da vida, o tal que d√° aquele  temperozinho t√£o saboroso e pelo qual vale a pena correr certos riscos...  fa√ßo-me entender? Tens de viver cada dia como se fosse o √ļltimo e procurar em cada um deles, nas pequenas coisas por mais insignificantes que te pare√ßam, aquilo que marque a diferen√ßa e torne o de hoje sempre um pouquinho melhor do que o de ontem.
Continua a ser como √©s, n√£o fa√ßas √© muitas asneiras que te possam comprometer a sa√ļde do corpo bem como a sanidade da mente e vais ver que ainda me apanhas...

Aceita uma piscadela de olho desta que em ti vive e de ti ainda muito espera.

Até um dia, companheira!

Carta n. 8

Exma. Administração,

√Č com profundo sentimento de liberdade que lhes dirijo esta carta, depois de quase nove anos de degredo na vossa empresa, que coitada, por ela s√≥, n√£o faz mal a ningu√©m.
√Č certo e n√£o nego, muito ter aprendido com todos v√≥s, Senhores Administradores durante o tempo em que servi nas minhas fun√ß√Ķes de Director, por iner√™ncia do cargo, de quase tudo como √© habitualmente exigido aos directores que exercem os seus cargos responsavelmente.
Lamento no entanto confessar-lhes que o que aprendi convosco estou agora a tentar esquecer por todos os meios para voltar a ser digno de mim próprio. Nunca necessitei de recorrer ao cinismo e hipocrisia, nem muito menos à mentira e cobardia para alcançar os meus objectivos, nunca precisei virar a cara fosse a quem fosse, nem mesmo a partir de agora o farei com V. Exas. porque afinal o elo fraco está do vosso lado, não do meu.
√Č obvio que n√£o estou magoado, pois este mundo √© uma selva e todos somos animais, s√≥ que, uns mais que outros, convenhamos.
Sim, sofri imensas escoria√ß√Ķes na minha maneira de ser, mas nenhuma delas que n√£o tivesse conseguido cicatrizar, sem um leve pronuncio de infec√ß√£o, porque sempre consegui expelir o vosso veneno atempadamente do meu ego.
As pessoas que fui forçado a demitir, continuam minhas amigas, realidade que V. Exas. nunca entenderam, porque sempre muito distantes delas, faraós auto nomeados enquanto mergulhados na gamela do pseudo poder de quem não valendo, pensa valer, sem olhar em seu redor, apenas ouvindo os aplausos dos desgraçados submissos e nunca o grito de verdade e revolta dos que quase sempre têm razão e são capazes de fazer um retrato perfeito de quem os comanda, sem verdade, paixão e camaradagem, sim porque as amizades só têm validade nesta vida meus senhores e não me consta que de algo sirvam na sepultura.
N√£o desejando aumentar o peso do vosso saco de remorsos, porque afinal, quem possa ter o poder de o fazer, tal o far√°, sem de mim necessitar.
Despeço-me com votos sinceros de rápida e profunda recuperação, a qual acredito em alguns de vocês seja extremamente dolorosa, senão mesmo impossível.
E acreditem que teria sido mais bem feliz se n√£o vos tivesse conhecido, mas a vida tem destas surpresas e com elas temos de sobreviver.
Melhores cumprimentos e se necessitarem de algo apelem ao vosso poder indestrut√≠vel, como julgam possuir. 

Carta n.¬ļ 9

Na passadeira te ficaste
Hoje, devido a um acontecimento banal e inopinado, invadiste-me a mem√≥ria de tal forma que decidi escrever-te esta carta. A √ļltima que te escrevi j√° faz muitos anos, era eu pequeno, e foi escrita dias depois do teu falecimento. N√£o me recordo que palavras nela escriturei, mas tenho a certeza que a leste. Hoje o destino levou-me a atravessar aquela passadeira, carcomida pelos pneus dos autom√≥veis, onde tantas vezes atravessavas comigo de m√£os dadas e me ensinavas as regras do bom pe√£o. Olhar para a esquerda, olhar para a direita‚Ķ Atravess√°vamos e depois faz√≠amos um gesto de agradecimento aos condutores, que, dizias tu, ficava sempre bem. Depois segu√≠amos at√© ao port√£o da escola onde me deixavas. Dizias-me sempre para me aplicar nos estudos para ter um futuro risonho, e, antes de me dares um beijo de despedida, metias-me uma moeda no bolso para comprar uma guloseima no final das prelec√ß√Ķes da professora Teresa. Tenho tantas saudades desses tempos av√ī! E hoje emergiu-me tudo √† mem√≥ria, aquele dia fat√≠dico, aquela mesma passadeira, os condutores a sa√≠rem dos carros em teu aux√≠lio, tu no asfalto agarrado ao peito, a sirene da ambul√Ęncia que se aproximava, e eu ali, im√≥vel, pingos nos olhos, de mala a tiracolo sem saber o que se passava contigo. Ainda hoje me custa a compreender como o teu cora√ß√£o te atrai√ßoou. Sempre foste um homem de sa√ļde, fizeste muitos anos desporto, at√© foste federado em h√≥quei em patins, n√£o fumavas nem bebias‚Ķ Hoje n√£o choro porque j√° sou um homem e tu sempre me disseste que os homens n√£o choram, mas amanh√£, logo cedo passarei pelo cemit√©rio e te deixarei esta breve carta em cima da tua laje. √Č que desde a primeira carta que te escrevi, que acredito que √† noite nos cemit√©rios h√° vida e que tu a ler√°s.   
Com saudades,
Ricardo
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Bom dia. Para todos um FigasAbraço
Agosto 14, 2023, 16:53:06
Sejam bem vindos às escritas!
Agosto 14, 2023, 16:52:48
Boa tarde!
Janeiro 01, 2023, 20:15:54
Bom Ano! Obrigada pela companhia!
Dezembro 30, 2022, 19:42:00
Entrei para desejar um novo ano carregado de inflação de coisas boas para todos
Novembro 10, 2022, 20:31:07
Partilhar é bom! Partilhem leituras, comentários e amizades. Faz bem à alma.
Novembro 10, 2022, 20:30:23
E, se n√£o for pedir muito, deixem um incentivo aos autores!
Novembro 10, 2022, 20:29:22
Boas leituras!
Novembro 10, 2022, 20:29:08
Boa noite!
Setembro 05, 2022, 13:39:27
Brevemente, novidades por aqui!
Setembro 05, 2022, 13:38:48
Boa tarde
Outubro 14, 2021, 00:43:39
Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Ol√°! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Ol√° para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Ol√° para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
Março 05, 2021, 20:17:07
Bom fim de semana para todos
Março 04, 2021, 20:58:41
Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
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