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Autor Tópico: Estava-se marimbando... "Sofia"  (Lida 3312 vezes)
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Mel de Carvalho
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"abra√ßa o conte√ļdo e n√£o a forma" Saint-Exupery


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« em: Agosto 26, 2009, 18:02:55 »

Estava-se marimbando. Nitidamente marimbando.
Sorriu intimamente. Há quanto tempo não lhe vinha à cabeça aquela palavra? Dezenas de anos, largas dezenas de anos. Tantas quantos os que haviam passado desde que aquela cidade deixara de ser palco de aprendizagem e passara a ser tão-só palco de passagem.
De paragem por vezes (escassas) na √©poca da Feira de Outubro, na √©poca do Colete Encarnado. E, por fim, de visita ami√ļde √†quele hospital.
Detestava-o. Ali deixara para os encontrar mortos, ambos os pais. √Čpocas diferente. Doen√ßas diferentes. Mas incur√°veis. E o vazio pungente da orfandade. Como doen√ßa insan√°vel com que tinha de, todos os dias, conviver.
[Como é que se mata a saudade mãe? Como é que se mata a saudade, pai?]
E ali voltava por circunst√Ęncias an√°logas: familiares. Tios, primos. Uma infind√°vel cadeia de afectos que se quebravam.
Estava-se pois, marimbando. N√£o adiantava o corta e solda, o pinga aqui, remenda dacol√°. Todas as teorias do re-arranjo sabia-as na carne de que apenas adiavam a partida. Previamente marcada a cruzinhas por um Deus desconhecido num qualquer calend√°rio escondido do seu olhar. Mas agendado. Sem direito a altera√ß√Ķes de datas, de decalagem, de dias de compensa√ß√£o, porroga√ß√£o e etc. Data fixa, portanto!

Aconchegou a mala bege contra o colo. Sentada na esplanada do mercado, tentava ocupar-se a imaginar as vidas para além das janelas fechadas daquela hora. O calor Ribatejano impunha o recolhimento dos espécimes. Senis na sua maioria. Envelhecidos como frontarias dos prédios circundantes. Um apenas de traça antiga, à sua direita, reconstruído recentemente por cima do que fora uma casa de penhores. A cor rosácea. Rosa velho. Para não destoar dos demais...
Abriu-se uma porta-janela. Uma mulher a rondar os cinquenta (assim parecia) em trajes de "andar por casa" ocupou uma das cadeira de verga da varanda. Viu-a sentar, abrir o jornal (dali não sabia qual, imaginou o Expresso, pelo tamanho…).
Desejou ser "a mulher". Não por coisa nenhuma de especial, mas porque e só porque, estava em casa, lia, aparentemente pacificada e a ela o fim de tarde estava destinado a ser preenchido por uma não desejada tarefa: visita hospitalar…

Estava-se marimbando.
Comeria o bolo, de nozes e mel, beberia o suco natural. Que se lixasse. O que fosse depois, seria. Estava saturada de se privar. Comeria sim.
- desculpe, quando a senhora chegou ainda estavam nessa mesa as pessoas, por isso não retirei a loiça…
Sorriu. Respondeu monossil√°bica:
- não tem mal…
Embrenhou-se no saboreio lento das nozes trucidadas. Tentou que as papilas gustativas lhe devolvessem est√≠mulos. Compensa√ß√Ķes‚Ķ sensa√ß√Ķes.
Nada. Comeu mecanicamente. Como se, por proibido, desaconselhado, enfim, o organismo sequer valorizasse os alimentos. Marimbou-se, portanto. Comeu. Ponto. At√© √† √ļltima migalha, at√© √† √ļltima gota. Bebeu.

Apertou a mala. Ali dentro o seu destino nos próximos tempos misturado com as quinquilharias do costume. E os livros, e as canetas. E o telemóvel que não servia para coisa alguma. O do trabalho estava desligado, o pessoal, pensou, melhor seria que o aventasse definitivamente ao lago dos patos no jardim…
Detestou-se…
Teria de ali permanecer por mais uns minutos. Ela e o bolo. Ela e o suco… mais nada.

De s√ļbito o toque. Um passe doble, uma m√ļsica de tourada. Alta, incomodativa, rugiu que nem uma trovoada. Ou uma manada de bois soltos no largo da pra√ßa...
S√≥ ent√£o os viu. Estavam na mesa ao lado. Dois. A meia idade estampada no ‚Äúsal e pimenta‚ÄĚ, as Le Coq Sportif, os sapatinhos de vela ‚Ķ
A conversa:
- ...claro que estou com o Serafim, minha linda, o que é que achas? Queres que to passe? Duvidas de mim? Eu passo e já vês se tem voz de gaja…
- ... daqui a vinte minutos. Tens saudades do je, tens, meu amor??? ... J√° me contas isso tudo...
n√£o, n√£o posso ficar hoje para jantar...

Os risos. Os engates. O telemóvel agora desligado…

- tá caída, a gaja. Caídinha. Andam todas à babuje e um tipo tem de lhes dar linha… corda, se é que entendes…
- a tua mulher?...
- ...coitada. Está doente. As mulheres se não tivessem barriga eram eternas…. Ainda bem que têm e que um gajo tem sempre trabalhos fora…e longe.
- a que horas chegas a casa?
-ó pá, sei lá … quando chegar chego. Ela espera sempre… Telefono-lhe mais logo. Agora estou a trabalhar, bem vês…

Serafim, assim designado havia minutos, esbo√ßava um sorriso sacana‚Ķ. Porfiava o bigode fora de moda, desonante com o xadrez da ‚Äú Le Coq Sportif‚ÄĚ. A espuma da imperial a amarelar a boca.
- fazes bem, p√°. Marimba-te nisso. Como os meus filhos dizem, ‚Äúa malta tem de curtir uma beca‚ÄĚ. Puta que as pariu, est√£o sempre doentes, porra‚Ķ o que vale s√£o estas, s√£s que nem um p√™ro‚Ķe boas como a p√™ra rocha. Tudo tem um pre√ßo, porra. Estas valem... se valem...

Sopia levantou-se. O relógio marcava as 18.15. Dali ao Hospital, escassos minutos.
Estava-se marimbando. Fazia parte do grupo das ‚Äún√£o-s√£s que nem um p√™ro‚Ä̂Ķ. Bom seria que nenhum gajo se tentasse afiambrar. Poderia ficar envenenado, deu-se consigo a pensar‚Ķ
E, pensando bem, estava-se mesmo marimbando para que morressem no veneno que eles mesmo destilavam.
O seu destino, o dela, Sopia, estava dentro da mala que agora balouçava livre e serena na ponta dos dedos…
Elevou-se no porte, balançou os cabelos, ergueu o queixo, avant-garde...
   Caminhou a tarde. Marimbou-se no restante.

___
Tag: contosdemulheres
publicado em http://noitedemel.blogspot.com/2009/08/estava-se-marimbando-sopia.html

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Mel de Carvalho
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Burity
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« Responder #1 em: Agosto 26, 2009, 18:14:41 »

Gostei muito do texto! Abraço.
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Mel de Carvalho
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"abra√ßa o conte√ļdo e n√£o a forma" Saint-Exupery


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« Responder #2 em: Agosto 27, 2009, 11:35:17 »

Caro Burity,
sou-lhe grata pela leitura, pelas palavras.
Fraterno abraço
Mel
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josé antonio
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escrever é um acto de partilha


« Responder #3 em: Agosto 27, 2009, 16:44:20 »

Mel,

Belo pedaço de narrativa a não perder e reler...
Abraço
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Dionísio Dinis
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« Responder #4 em: Agosto 29, 2009, 20:58:19 »

A qualidade ímpar a que já nos habituou, volta mais uma vez a estar bem patente neste belíssimo naco de prosa.
Bem-haja amiga Mel pela partilha.
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Pensar amar-te, é ter o acto na palavra e o coração no corpo inteiro.
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Goreti Dias
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« Responder #5 em: Agosto 29, 2009, 21:41:26 »

Eu é que fiquei sem entender o que aconteceu ao meu comentário ao texto... fui a primeira a comentá-lo!

Com a rudeza da realidade, a simplicidade estudada das palavras necessárias. E bem distribuídas por um texto com a qualidade só tua.
beijo
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Goretidias

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gdec2001
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« Responder #6 em: Agosto 29, 2009, 22:34:07 »

Um bom pedaço de vida . Gostei
seu
Geraldes de Carvalho
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Geraldes de Carvalho
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Ol√° para todos!
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Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
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Boas!
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Boa noite!
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Oi pessoal. FigasAbraço
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Boa noite a todos
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Boa tarde a todos
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Boa tarde a todos
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Boa tarde a todos
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Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
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Boa tarde!
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Boa noite feliz para todos
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Boa noite feliz para todos.
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Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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