EscritArtes
Novembro 26, 2022, 13:29:32 *
Olá, Visitante. Por favor Entre ou Registe-se se ainda não for membro.

Entrar com nome de utilizador, password e duração da sessão
Notícias: Regulamento do site
http://www.escritartes.com/forum/index.php/topic,9145.0.html
 
  Início   Fórum   Ajuda Entrar Registe-se   *
Páginas: 1 ... 3 4 [5]   Ir para o fundo
  Imprimir  
Autor Tópico: A S√°tira do Livro Roubado  (Lida 9674 vezes)
0 Membros e 1 Visitante estão a ver este tópico.
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1113
Convidados: 0



« Responder #60 em: Outubro 14, 2022, 21:26:54 »

Verdade....


Deliciosas, é como estão estas Batatas à Henrique VIII feitas pelo Mestre Olivier, depois de ele, para desenjoar, ter convencido a mamã a substituir as milenares batatas à Maria Madalena pelas de sua autoria, ainda virgens. Deve ter sido por isso que não houve nenhum acontecimento extraordinário.
J√° estou arrependido de ter deixado tantos lugares vazios na mesa. A Clara n√£o p√īs c√° os p√©s, assim como o tio dela, o C√©sar tamb√©m n√£o veio. S√≥ c√° est√° mesmo a gente do livro do meio. E isto depois de ter sido servido o primeiro prato e quando o apetite est√° mais ou menos saciado. Os presentes, com um copito de vinho do Douro, j√° come√ßaram a falar, alguns at√© a dizer asneiras.
Mel, com Olivier encostado a um dos suportes da tenda satisfeito a olhar para os convivas, fala da Paix√£o de Cristo, como o ex libris da sua realiza√ß√£o. √Č nessa altura que o Professor aflora a estranha vis√£o de uma chupeta, num dia em que, sem saber como, teve o privil√©gio de viajar at√© ao passado, confrontando-se ent√£o com uma l√≠ngua defunta, confirmada depois pelo Mestre de L√≠nguas como sendo aramaico.
Mel pede ao Professor para repetir quanto vira e ouvira na tal viagem, mas este refuta, dizendo n√£o estarem reunidas as condi√ß√Ķes ideais. O Antiqu√°rio fulmina-o com o olhar (queria, talvez, aproveitar para obter mais algumas informa√ß√Ķes sobre o elixir‚Ķ) enquanto a Padeira fica de orelha agu√ßada, molhando no prato cheio de azeite um peda√ßo de broa, que sust√©m no ar. Deve estar a pensar na hip√≥tese de, finalmente, se tornar numa verdadeira actriz. Al√©m do mais, pela m√£o de Mel Gibson. Talvez ele n√£o deixe de a tornar conhecida no mundo inteiro como a mulher que foi da masseira da broa diretamente para a Meca do cinema.
Os autores do livro do meio estão fascinadas com a sua criação e a mamã, ao lado deles, está de cara murcha. O César e a Clara pregaram-lhe uma enorme partida. Não está presente nenhuma criatura do primeiro livro. Nem sequer estão os dois cavalos, o Pajem e o Fagote, e o Tentilhão anda sozinho a pastar na erva verde, sem ter ninguém com quem relinchar. Degusta o prado no meio da iluminação que o Olivier fez questão de estender a toda a propriedade, quando fez da noite escura um grande e claro dia.
A paisagem √© id√≠lica. A minha quinta assemelha-se ao Jardim do √Čden. A comida de Olivier √©, nada mais, nada menos, do que um delicios√≠ssimo man√° por que ningu√©m ter√° de pagar um c√™ntimo.
A mam√£ confessa j√° estar arrependida de se ter comprometido a n√£o usar a Jurema. Ela n√£o sabe √© que, desta vez, o anjo do romance do meio se transformou no bandido de servi√ßo. A autoria das alucina√ß√Ķes hoje pertence-me e a Jurema √© a minha c√ļmplice.
A Padeira come√ßou por dizer a Mel que, em vez de ser a rapariga inteligente que fizeram dela e uma actriz em embri√£o, n√£o passa de uma manta de retalhos, constru√≠da com v√°rias caracter√≠sticas de algumas personagens, tanto de segunda como de primeira, do livro da mam√£. A rapariga diz estar farta de n√£o ter individualidade definida. Al√©m de ter come√ßado j√° a detestar as encrencas em que a meteram no romance do meio, quando h√° raptos e mortes a torto e a direito. Afirma mesmo ter h√° j√° muito tempo um fraco pelo primeiro livro, onde o sexo fala sempre mais alto, ela a quem calhou ser uma solteirona empedernida, sem vislumbrar altera√ß√£o desse seu estado de ab√ļlica sexual.
Com tais comentários, a moça parece ter, além de jeito para as artes do palco, também o dom da adivinhação, mesmo sem experimentar ervas de alucinação. Mando-a calar. A razão pela qual Mel Gibson está neste jantar é, sobretudo, por causa do aramaico e do Professor. E este, sem uma ervinha milagrosa capaz de o propulsionar para o passado, como se fosse um foguetão de costas para o futuro, não consegue viajar no tempo.
Quando levantam os pratos com os restos do Pato √† Cornualha, n√£o se sabe de onde, aparece uma megera de turbante na cabe√ßa, carregada de sacos e saquinhos. Nota-se-lhe uma afinidade com o Professor. Este rasga-lhe um comprido sorriso de agradecimento, enquanto ela se senta precisamente no lugar que lhe foi reservado. O homem acaba de se sentir salvo, porque, de outro modo, n√£o saberia exemplificar perante o nosso convidado como tivera conhecimento da chupeta do Menino Jesus na viagem de marcha atr√°s no tempo. A mulher, a Megera √† nossa frente, √©, n√£o uma, n√£o duas, mas tr√™s personagens unidas pelo mesmo fio de palavras. Se numa √© professora de C√©sar, aquela que tinha uma casa com franjas √† porta e, at√©, a profetisa Ana da B√≠blia, n√£o deixa de ser agora tamb√©m uma feiticeira stripper disposta agora a ajudar o Professor em mais um regresso ao passado. Mas a criatura vem dividida entre o dever de servir quem lhe paga para executar as habilidades de adivinha√ß√£o e o rancor que nutre ainda por um certo pol√≠cia‚Ķ Julgou at√© encontr√°-lo no jantar, em vez do Porta-Chaves. Pensava atirar-lhe √† cara determinadas m√°goas de outros Carnavais, e por isso est√° com cara de desiludida. Felizmente, aqui para n√≥s, a mam√£ tinha colocado o ex-inspector fora do livro, substituindo-o por um outro pol√≠cia tamb√©m j√° com grande fixa√ß√£o pela Lilicas. Se a mam√£ n√£o fosse t√£o prudente e vision√°ria, talvez tivesse havido a destila√ß√£o de muito √≥dio por parte da feiticeira, e a nossa imagem de bons anfitri√Ķes ter-se-ia perdido para sempre.
Os autores do livro do meio e a Dona Tita L√≠via come√ßam a ficar agitados. Segredam uns com os outros, deixando a pobre da mam√£ completamente √† parte. V√™-se que a tratam como a uma ‚Äúescritora de lixo‚ÄĚ. Mas ela n√£o fica incomodada. A raz√£o por que est√° meia macamb√ļzia √© pela falta de solidariedade de grande parte das suas personagens.
Mel diz que √© melhor guardarem o ritual de regresso ao passado para depois da refei√ß√£o. Todos concordam. A Lilicas come√ßa ent√£o a contar anedotas de louras burras, para se vingar de morenas e ruivas que n√£o lhes ficam nada atr√°s. Finjo que n√£o se passa nada, quando a sobremesa est√° quase a ser servida. Enquanto conversa com os companheiros da mesa ao lado, Mel tem √† frente um pratinho das farofas, que Olivier preparou em doses individuais, mas n√£o lhes toca. Deixa-se levar pela imagina√ß√£o quando se fala na c√©lebre chupeta, embrenhando-se entusiasmado no di√°logo com o Professor e com o Mestre de L√≠nguas. A Megera Miscel√Ęnea tamb√©m j√° tem a dose das farofas √† frente. Est√° cheia de fome e a rir-se, mas, para imitar o nosso ilustre convidado, cuja presen√ßa a deixou verdadeiramente espantada, tamb√©m n√£o come ainda. Todas as personagens est√£o a fazer cerim√≥nia. O famoso cozinheiro parece meio desgostoso, julgando que ningu√©m gosta da sobremesa. Finalmente, Mel pega na pequena colher, d√° os parab√©ns a Jamie pelas batatas recheadas √† Henrique VIII e pelo Pato √† Cornualha, desejando a continua√ß√£o de bom apetite a todos. Elogia o manjar das farofas, que come com prazer. A Dona Tita L√≠via, at√© ao momento, tem-se limitado, quase exclusivamente, a olhar desconfiada para toda aquela gente, proferindo monoss√≠labos. Miscel√Ęnea √© a segunda a meter uma garfada √† boca, seguida por todos, e muda imediatamente de comportamento. Um poder desconhecido envolve a maravilhosa sobremesa de Jamie.
À medida que as farofas tocam na garganta dos seleccionados para a minha experiência, coisas estranhas começam a acontecer com alguns deles. Uns ficam inertes como todos os mortos-vivos das ocorrências anteriores, e outros mudam pura e simplesmente de personalidade. Também há os que ficam mais acutilantes do que antes de ingerirem as benditas farofas armadilhadas.
A mamã pisca-me o olho. Rapidamente percebe que o seu anjo actuou em vez dela para salvar o jantar do fracasso. Eu seleccionara determinados alvos. A Jureminha provoca efeitos diversos em cada um deles conforme as conveniências e a dose. A erva é mais eficiente do que um polígrafo. Baterá, talvez, aos pontos, o soro da verdade, usado para obrigar os criminosos a confessarem os seus crimes. Ao Mel e a todos os autores preferi mantê-los tão sóbrios quanto as doses do vinho da quinta permitirem. A vingança da mamã já começou a ser servida por um famoso mestre da culinária e por um alquimista improvisado, eu próprio, um verdadeiro seguidor da mamã, a quem peço encarecidamente a minha transferência definitiva para o primeiro livro. Também gosto muito de sexo e pouco de semáforos, quando tenho de usar, quase sempre, óculos de sol para não ficar encandeado.
A Megera, habituada a ingerir infus√Ķes de ervas diversas, agora sob o efeito da Jurema, reitera o que j√° tinha dito com uma estranha lucidez. Diz, sem quaisquer pruridos, que o livro do meio √© uma coisa mal engendrada. Acusa, sem papas na l√≠ngua, a Dona Tita L√≠via, a que denegara √† mam√£, por carta e escrito, a publica√ß√£o do livro, de ter dado o pontap√© de sa√≠da ao livro do meio. Aponta-lhe o dedo, acusando-a de entregar a cada um dos autores, fotocopiado, um exemplar do romance onde a Clara e o C√©sar eram personagens com outras vidas de fic√ß√£o.
‚ĒÄ Rira-se como uma louca ‚ĒÄ dizia a Miscel√Ęnea, apontando Dona Tita L√≠via ‚ĒÄ e aconselhara os parceiros a gozarem com a escrita da nossa m√£e como muito bem lhes apetecesse. Desde que sa√≠sse uma obra com boas perspetivas de venda, valia tudo. A mam√£ nunca iria descobrir, por ser uma tonta que nem o jornal lia, quanto mais literatura erudita como era a dos sete credenciados autores e os livros de Jorge Lu√≠s Borges. A mulher parece falar com conhecimento de causa. N√£o √© ela feiticeira? Acrescenta ainda que se sente pessimamente no papel de bruxa, mais ou menos b√≠blica, tra√ßado pelos parodiantes a partir de uma respeit√°vel senhora reformada, a professora de C√©sar noutros tempos. Sem dar mostras de querer calar-se diz, alto e em bom som, que, pelo seu papel debochado, e, ainda por cima, secund√°rio, no livro do meio, √© bem capaz de meter uma a√ß√£o em tribunal por difama√ß√£o e usurpa√ß√£o de identidade. Sozinha ou em litiscons√≥rcio com todas personagens enxovalhadas como ela.


Continua

leiam também O Estranho Fascínio da Internet
Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Goreti Dias
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 18588
Convidados: 997



WWW
« Responder #61 em: Outubro 15, 2022, 19:48:22 »

Absolutamente louco! Até nos nomes das personagens. Eu a pensar que era por causa daquele da boroa d' Avintes... quando me falam em livros roubados...
Registado

Goretidias

 Todos os textos registados no IGAC sob o n√ļmero: 358/2009 e 4659/2010
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1113
Convidados: 0



« Responder #62 em: Outubro 15, 2022, 20:28:17 »

Ainda ir√£o descobrir-se muitos segredos....

Com o que acabara de ouvir (mal, ainda) o Professor empertigou-se na cadeira, regurgitou parte das farofas no prato, e as restantes, empolgando-se-lhe na goela, s√£o suficientes para ele tomar a cadeira reservada ao Agricultor. O Agricultor assumiu assim, mais uma, vez tal papel, despindo entretanto a gabardina sebenta ro√≠da pelos ratos no quarto dos fundos onde a Sara espetou com ele. Vociferava revoltado pelas atrocidades cometidas sobre ele. Maldosamente - dizia - tinham-lhe retirado o prazer de uma vida pacata, para o meterem em embrulhadas t√£o complicadas como viajar no tempo de marcha-atr√°s, transformando-o ainda num alquimista falhado √† procura nem ele sabia de qu√™. Tudo por causa de uma √ďpera a que o autor, o italiano Gaitano Donizetti, chamou ‚ÄúO Elixir do Amor‚ÄĚ,  e a que Clara, a sobrinha, tinha, por azar, assistido na televis√£o. Fora numa noite em que ela e C√©sar haviam dormido juntos, depois de se deliciarem com um coito em casa do rapaz ‚Äď disse com veem√™ncia. Tal como a feiticeira Miscel√Ęnea, o homem jurou que, dentro de pouco tempo, iria contratar um advogado para p√īr tudo em pratos limpos. Haviam de pagar caro, entre outras coisas, o facto de o vestirem com uma gabardina a luzir com o sebo de anos e anos de banhos turcos, ou l√° o que era. O raio do trapo, al√©m de ser asqueroso, era sobretudo anti-higi√©nico, completamente em desacordo com as fun√ß√Ķes a desempenhar no novo papel. No m√≠nimo, deviam t√™-lo feito envergar uma bata branca, muito mais apropriada √† qu√≠mica e √† alquimia do que aquele farrapo j√° do tempo de Dom Fuas Roupinho.
Mel Gibson abria os olhos de espanto e divertia-se com ar matreiro. Nunca pensou num jantar em Portugal como motivo para uma com√©dia como a que se desenrolava no solar dos anfitri√Ķes, com personagens a sa√≠rem de uns livros para outros, cheias de personalidade como se tivessem vontade pr√≥pria e n√£o se tivessem subjugado nunca aos caprichos dos autores. Jamais vira semelhante, nem na vida de ator, nem na de realizador, nem na vida em geral. Mas, o melhor era deixar prosseguir o espect√°culo, enquanto fazia render no prato as deliciosas farofas de Olivier. Prolongando a sobremesa, teria pretexto para continuar a divertir-se com aquele esc√Ęndalo portugu√™s, que fora dado de presente a um australiano devoto da vidente L√ļcia, e agora igualmente amigo de um anjo a quem tocou chamar-se Gabriel.
Mal o Agricultor acalmou, logo outra cadeira foi ocupada, enquanto eu, por momentos, ficava sem mulher. A minha Sara desta vez saiu Clara, e eu, para a Clara poder desopilar todas as m√°goas sem me atingir com cuspe, sentei-me como se fosse C√©sar, ao lado direito de Mel, embora n√£o tivesse mudado de personalidade. Apenas fingi ser outro. Foi para a situa√ß√£o parecer mais veros√≠mil. Ela devia mesmo querer enfrentar C√©sar,  e, para parecer mais velho do que nos meus vinte e oito anos do livro do meio, franzi o sobrolho.
Enquanto isso, desbobinava a Clara sobre mim os seus quatro mil trezentos e vinte minutos de vida em comum com C√©sar, atirando-me √† cara pormenores mais do que s√≥rdidos. Lembrou-se da cena dos enchidos, quando os dois foram jantar ao restaurante chin√™s. Despejou ainda a compara√ß√£o que tinha feito entre C√©sar e um c√£o em v√°rias ocasi√Ķes. Relembrou, com nitidez de louca, quando disse a C√©sar que ele era pior de que um rafeiro permanentemente com cio e a quem, para coitar, qualquer burra de saias servia. Al√©m do mais - dizia - longe ia o tempo em que teria amado morrer nos bra√ßos de C√©sar, banhada pelos fluidos do santo que via no meu irm√£o, mais tarde alcunhado, depreciativamente, como ‚Äúo cara de anjo‚ÄĚ. Depois - continuava - estava farta de ser barro para escritores sem escr√ļpulos moldarem personagens t√£o diab√≥licas como a Lilicas, ou t√£o sonsas como a Sara, desposada por um tal Gabriel depois de terem tirado ao rapaz uns bons anos. A ponto de parecer um menino de coro, como se o local onde C√©sar tinha sido planeado, na igreja da Nossa Senhora das Sete Cabecinhas, lhe tivesse influenciado a vida para o tornar num santo sim, mas de pau carunchoso. E se fosse ainda contabilizar padeiras e empregadinhas de bar que lhe tinham copiado os tiques e os dons, podia dizer que n√£o passava de uma mulher que, no lugar onde tinha a cabe√ßa e a cara, devia ter, no m√≠nimo um cubo, se n√£o tivesse de ser um hex√°gono ou um oct√≥gono. Da Lilicas at√© nem valia a pena falar, coitada! ‚ĒÄ dizia tamb√©m.
Clara - Eu sei bem que a Lilicas de loura burra n√£o tem nada. Ou eu n√£o fosse ela e ela n√£o fosse eu, enquanto n√£o me toca de novo o papel de Santa Sara, esposa amant√≠ssima do meu cunhado Gabriel. Em todo o caso, com um tr√™s em um t√£o explosivo como este, adivinha-se j√° a proximidade do fogo de um inferno em que muito boa gente h√°-de ficar tisnada. Por isso mesmo ‚Äď concluiu- j√° que, tanto quanto lhe parecia, todos estavam ali para debater problemas e traumas deixados pelos respetivos livros nas personagens, ela, no seu papel principal e uma das mais interessadas em limpar a imagem, alinharia com quem j√° se mostrara disposto a levar o caso a Tribunal. Fartara-se de aparecer em todos os lados,  travestida de milhentas mulheres e pulverizada como se fosse uma erva daninha nascida em corno de cabra,  e, al√©m de tudo, como uma verdadeira mutante. Estava farta, farta, farta!
Clara ‚ĒÄ Tamb√©m quero meter estes sonsos em tribunal! ‚ĒÄ reafirmou, convicta, olhando para o resto dos autores quando fixou tamb√©m  os olhos na mam√£, que lhe acenou afirmativamente.

E a Lilicas, que n√£o acorda, aqui √† mesa! - digo eu. Esta √© uma das tais a quem a Jurema fulmina,  e, por uma quest√£o de igualdade, ela tamb√©m tem direito a dizer de sua justi√ßa. Assim como todos quantos est√£o neste enorme plen√°rio, com Mel Gibson como orador especial.
Parece-me, contudo, n√£o servirem de nada o dicion√°rio de aramaico e os conhecimentos de Mel dessa l√≠ngua j√° t√£o morta. A Jurema √© capaz de ser bastante mais eficiente‚Ķ Por isso tenho de beijar a Clara outra vez, para ver se arranco, ou deposito, j√° nem sei, nela a Lilicas que me cumpre despertar. Depois de Mel, completamente imparcial, o mais l√ļcido sou eu. Nem uma dentada espetei no raio das farofas contaminadas,  e assim vou tomar provid√™ncias relativamente a esta gente toda e dar-lhes o tratamento adequado. √Äs outras mulheres, √†s que nunca provaram a Jurema e que, nessa medida, provavelmente n√£o ir√£o conseguir acordar por elas mesmas, vou aplicar tamb√©m a receita ‚ÄúBranca de Neve‚ÄĚ. E n√£o me importo muito com isso‚Ķ J√° aos homens que ainda est√£o pendurados nas cadeiras, se n√£o for l√° com um aban√£o,  capaz de lhes remover as farofas do s√≠tio onde est√£o entaladas, com uma almotolia de bico afiado deito-lhes um bocado de azeite pela boca abaixo,  at√© as farofas se afogarem. Depois, quero ver quem me aparece pela frente. Depender√° da sua utilidade,  para esta nova trama,  certas personagens serem ou n√£o acordadas. Aqui, como no futebol, a lei da vantagem pode ser bastante importante.
Mel Gibson deve estar admirado com os meus truques e √© bem capaz de os adoptar para o cinema quando realizar um filme baseado neste romance da mam√£. Mal chegue √† Austr√°lia, ou a Hollywood, tamb√©m poder√° dizer:‚ÄĚ h√° sempre um truque desconhecido que espera por n√≥s em qualquer parte do mundo‚ÄĚ e sempre √ļtil no cinema.
Mal recomeço o meu trabalho de acordador, o meu ilustre convidado, se já o estava, continua ainda mais morto de riso. Ele e Olivier entreolham-se continuamente, na maior cumplicidade, e a autora também morde os lábios. Já os parodiantes, desde que se sentaram naquela mesa redonda, sente-se-lhes vontade de abalarem porta fora. Nota-se em todos a grande dificuldade de suportarem o ridículo da situação. Mas, para os obrigar a não irem embora antes de se debaterem todos os pontos da ordem de trabalhos que presidiram ao jantar, quando se sentaram e tiveram a leviandade de se descalçar debaixo da mesa, mandei o nosso cão, o Jerry, esconder um sapato de cada um. Por isso julgo improváveis que se vão embora, calçados só num pé, com as coisas por aqui ainda tão inconclusivas.
A Lilicas j√° foi acordada pelo meu beijo, dado, obviamente, nos l√°bios da Clara. A mo√ßa quer, √† fina for√ßa, sentar-se na cadeira onde esteve a irm√£. Eu, se n√£o tenho nenhum ascendente sobre Clara (at√© porque n√£o sou verdadeiramente o C√©sar), domino completamente a Lilicas, mais uma que diz ‚Äú morro se n√£o me amares‚ÄĚ. Por isso √© com relativa tranquilidade que obedece, quando a mando calar e sentar-se no lugar devido. O pior de tudo, neste romance maluco, √© que, quando entra uma personagem, quem lhe usurpou a vida tem de sair para lhe dar lugar. √Č o grande dilema da Clara, da Sara e da nossa querida Lilicas ninfoman√≠aca.
A Lilicas por agora fica acordada,  porque a Sara n√£o volta t√£o cedo. O problema √© se a Lilicas fica com ci√ļmes quando eu espetar dois beijos na Padeira nota 14 e na Doutorinha boazona. Talvez n√£o tenha sido boa ideia trazer a Lilicas para o nosso conv√≠vio, quando tenho ainda de dar uns beijos mais. Se calhar, a Clara ofereceria maiores garantias de neutralidade. Mas agora tamb√©m n√£o vou meter na boca da Lilicas nenhuma colher de farofas temperadas a Jurema para a p√īr KO outra vez e ouvir de novo a Clara a deitar c√° para fora cobras e lagartos acerca do mano.
Pisco o olho à Lilicas, e ela começa a pensar que aqueles beijos serão meros beijos técnicos. A rapariga, enquanto Lilicas, além de ser boa noutras coisas, é boa a fazer de conta. Por outro lado, ainda está meio confusa, depois de acordar com um beijo do seu anjo Gabriel perante tanta gente. Além de tudo com Mel e Olivier presentes, com quem, quer com um quer com outro, também não se importaria nada de tirar uns trocados. O Porta-Chaves, pelos meus cálculos, já levou a conta dele. Além de que agora a Lilicas também se julga a Clara. E, por ela, pela Lilicas, até posso falar: como é doida por sexo, deve achar o livro inicial como o melhor para ela.
Contando com a Miscel√Ęnea, j√° temos almas femininas dispostas √† guerra, e acho que estabeleci bem a ordem para o acordar: primeiro as senhoras (sou mesmo um cavalheiro). Embora n√£o me v√° importar muito com as duas ou tr√™s estrangeiras que foram enxertadas no livro do meio s√≥ para aborrecerem a mam√£. V√£o ficar para o fim. Mesmo assim, s√≥ ser√£o acordadas se a opini√£o delas for muito relevante,  ou se isso me der algum gozo. De contr√°rio, permanecer√£o mortas-vivas para sempre. N√£o √© assim, mamy?
A mam√£ disse que estava bem.
√Č altura do empurr√£o.
Como uma das pessoas mais inofensivas √© o Homem-Pergaminho, a esse vou apertar-lhe levemente o pesco√ßo. Acordar√° com facilidade. Dorme, ou l√° o que √© isso que sucede com ele, profundamente. Acontece com as criaturas mais puras, sem tiques ou taras de muitas outras pessoas, reais ou de papel. Usarei a mesma t√°tica do empurr√£o com o Mestre de L√≠nguas Mortas, com praticamente o mesmo resultado, segundo julgo. Esta ave rara denota, apesar de tudo, alguma velhacaria. Pois n√£o era o mestre de meia-tigela que queria viajar no tempo e ganhar louros pertencentes, na sua maior parte, ao Professor? Afinal,  quem tivera a vis√£o de uma chupeta, numa viagem inusitada ao tempo de Jesus,  quando o conhecimento da inf√Ęncia Dele era um problema para os Recolectores Ambidestros de Infus√Ķes Venenos e Ant√≠dotos? Pelos vistos, a Jurema atua nas personagens segundo a dimens√£o do seu pecado‚Ķ

Continua
Registado
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Mensagens: 1225
Convidados: 0


outono


« Responder #63 em: Outubro 21, 2022, 19:17:32 »

Numa s√°tira do absurdo, tudo pode acontecer.
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1113
Convidados: 0



« Responder #64 em: Outubro 22, 2022, 15:27:35 »

Ponha absurdo nisto, nação Valente - risos


Quanto ao Gordo, o eterno o apaixonado da Sara, aquele que morreu noutro romance, esse não se vai safar sem levar um murro nos queixos. Vai fazer-lhe bem. Mesmo que parta um ou dois dentes, é a melhor maneira de perder parte das banhas, sob as quais a Doutorinha deve ficar mais amassada do que sardinha moída. Vai deixar de poder comer torresmos durante algum tempo.
O √ļltimo a acordar, por ser o mais perigoso, o que j√° devia ter, pelo menos, dois homic√≠dios √†s costas, ser√° o Antiqu√°rio. N√£o √© novidade para ningu√©m, ele √© o retrato falado, f√≠sico e psicol√≥gico, do primo do C√©sar, o que se dedicava a assaltar resid√™ncias em Cascais e arredores. E como eu e o C√©sar somos uma e a mesma pessoa, embora com idades diferentes, √© √≥bvio que tenho alguma relut√Ęncia em ter na fam√≠lia um criminoso do calibre dele. Era prefer√≠vel mand√°-lo, o quanto antes, para os anjinhos‚Ķ N√£o sei por que insistir√° a mam√£ em n√£o querer sangue neste seu trabalho, sabendo, como toda a gente sabe, que o sangue, a faca e o alguidar vendem sempre muitos livros‚Ķ
O Pombo-Correio despertou cheio de serenidade. √Č pena n√£o haver por aqui uma pomba para ele arrulhar. O homem merece. Agora fala baixinho com o Mestre de L√≠nguas antigas, tamb√©m j√° de olho aberto pelo mesmo processo de despertar. Este pede ao nosso Deus Merc√ļrio para subir ao menos uma perna da cal√ßa, a fim de ele poder ver algumas das inscri√ß√Ķes que o colega do jantar e do livro tem gravadas nessa parte do corpo, submersas no meio dos p√™los. Mel sorri, s√≥ para n√£o rir √† gargalhada. Nunca deve ter imaginado que em Portugal houvesse tantos bobos.
Agora √© a vez da Padeira. √Ä cusca da mulher jamais deve ter passado pela cabe√ßa a hip√≥tese de um dia ser beijada pelo marido da colega Sara, a sua √ļnica rival nas altas notas que o Mestre de L√≠nguas lhes dava enquanto leccionava na secund√°ria da terra.
Bom, mas não vou perder tempo…
Penso, entretanto, se Mel Gibson ou mesmo Olivier n√£o seriam capazes de me ajudar a levar a cabo a tarefa de despertar mais duas ninfas mortas-vivas. J√° tratei daquelas com quem tinha mais intimidade. Agora √© a vez das restantes, e um dos convidados podia ficar com a Padeira. Talvez Mel, por causa das ambi√ß√Ķes da rapariga ao cinema e ao teatro‚ĶJ√° a Doutorinha, poderia ser assunto para Olivier. Quem sabe se, finalmente, n√£o aprenderia a cozinhar como deve ser, depois de sentir nos l√°bios um beijo arrebatador, como a personalidade do rapaz parece estar √† altura de proporcionar? A partir da√≠, talvez n√£o fosse s√≥ esporadicamente que ela perguntaria ao Gordo se gostava de batatas com recheio‚Ķ Mas, n√£o... Acho que n√£o devo meter nisto terceiros‚Ķ Afinal, fui eu quem usou a Jurema na sobremesa‚Ķ
C√° vai.
A Padeira apercebe-se de imediato  de que se passou algo de anormal neste improvisado sal√£o, onde, supostamente, se iria tratar de assuntos relacionados com o papel de cada personagem nos respetivos livros. Tinha de ser ela a mais perspicaz de todos! Afinal quem √© que, neste jantar, para al√©m do nosso convidado, um grande ator, tinha nascido com alma de atriz e intelig√™ncia para saber, de antem√£o,  onde se representa bom teatro?
Enquanto a moça acordava da recente letargia que lhe abrira na vida um hiato temporal, ao sentir o meu beijo, mais curioso e técnico do que arrebatado, sussurrou-me ao ouvido dois ou três huns melados, dizendo:
- Oh, Gabriel!...Beijas como um anjo!...
Baixinho, mandei-a sentar-se na cadeira, direita como todos os outros. Disse-lhe, entretanto, e mais uma vez a meia voz, que a peça onde ela irá entrar um dia não estava ainda em cena. Já não suportava ver tantas anomalias à mesa do meu jantar especial.
O despertar seguinte tem a Doutorinha como alvo. A rapariga disse t√£o mal da Sara que merece, depois do beijo ‚ÄúBranca de Neve‚ÄĚ, uma valente mordedura no l√°bio inferior. Se gritar de dor, faz de conta que √© o grito dela no livro do meio. quando os autores, ali na segunda mesa redonda, boquiabertos com a minha atua√ß√£o, a mandaram para o c√©u, √†s m√£os de um dos presentes, um grande maligno do romance n√ļmero dois. Como sabem, foi o Antiqu√°rio que se encarregou de lhe tirar a tosse, antes de fazer o mesmo ao Gordo. E, por tudo isso, uma mordidela ser√° coisa pouca perante um homic√≠dio t√£o b√°rbaro como aquele em que, noutra obra, fora transformada em presunto.
A Doutorinha, durante a minha ac√ß√£o ‚ÄúBranca de Neve‚ÄĚ e contra as minhas previs√Ķes, se sentiu alguma dor pela mordedura engoliu o grito estoicamente, e, mais desperta do que antes, depois de ter ingerido a Jurema noutra ocasi√£o, parecia estar a ganhar anticorpos. Em vez de receber o beijo passivamente, como da primeira vez no meu laborat√≥rio fotogr√°fico, correspondeu a ele, mais do que eu pr√≥prio desejaria, enquanto eu dizia com os meus bot√Ķes:
- Pronto! Tenho mais uma doida a querer morrer nos meus bra√ßos e a desejar, quem sabe, experimentar o sem√°foro, que foi, bem vistas as contas, uma cria√ß√£o da mam√£ para a Clara, quando esta estava um dia no tr√Ęnsito, e aproveitado para a Sara numa altura em que a minha mulher mandou uma camioneta de grelos por uma ribanceira abaixo. E n√£o s√≥‚Ķ
Agora não tenho outra alternativa senão despertar os outros machos, e o meu primeiro encontrão vai para o Porta-Chaves. Não oferece grande resistência em sair do mundo dos mortos-vivos. O homem, sendo polícia, poderia ter sido mais esperto… Nunca deveria beber quando em serviço. Mas agora também não são horas de censurar quem quer que seja.
Mal o Porta-Chaves regressou do reino de um falso Morfeu, provocou alguma agita√ß√£o nos autores e na Dona Tita L√≠via, que, depois de ser L√≠via de batismo, ficou l√≠vida de cor. Devia ter pensado, ela e os amiguinhos, que o inspetor no ativo iria logo ali come√ßar com os autos de inquiri√ß√£o, as pulseiras electr√≥nicas, ou, no m√≠nimo, o termo de identidade e resid√™ncia. Afinal, devem ter mesmo a consci√™ncia pesada para fazerem logo suposi√ß√Ķes t√£o gravosas.
N√£o sei como tenho conseguido manter tanta gente mais ou menos calada, enquanto pespego por a√≠ beijos neste mulherio todo e encontr√Ķes nos homens. Estou a pensar se n√£o seria tamb√©m de repenicar alguns √≥sculos nas autoras mulheres e, sobretudo, na Dona Tita L√≠via. Afinal foi ela quem desencadeou a escrita do livro do meio. Ningu√©m ia adivinhar, sem a ler primeiro, a hist√≥ria onde a Clara e o C√©sar s√£o duas personagens doidas por sexo. Especialmente o mano‚Ķ Sempre era melhor as senhoras levarem um beijo meu na boca do que beberem um singelo copo de √°gua, como aqueles a que recorriam para se acalmarem quando faziam a leitura do romance primog√©nito.
O despertar do Gordo também não ofereceu grandes problemas. Só se queixou um bocadinho da boca quando lhe dei o soco. Mas nem sequer deitou sangue. O murro não foi por aí além… Até porque eu não sou nenhum cavalo, e é bom não esquecer as minhas mazelas. Sobretudo a palidez permanente, e a omnipresente hérnia discal na minha zona lombar, que, felizmente, hoje não me incomoda.
E n√£o vou ser muito ma√ßudo nas narra√ß√Ķes. √Äs estrangeiras aconteceu como √†s portuguesas. Depois de as ter beijado, fiquei com mais duas personagens femininas caidinhas por mim, uma n√≥rdica e uma do Imp√©rio do Sol Nascente, a quem n√£o sei se terei tempo de me dedicar como elas gostariam. J√° quanto ao pessoal menor, quer de um quer de outro livro, sinto um bocado de remorsos pela minha atua√ß√£o. Aldrabei bastante‚Ķ Mas j√° estava farto de ser pr√≠ncipe, e o que me apetece agora, para al√©m de qualquer outra coisa, √© transformar-me num grandess√≠ssimo sapo e descansar um bocadinho sobre uma pedra. Contudo, tenho ainda de fazer sair daquele torpor de Jurema o Antiqu√°rio. E, dada a perigosidade dele, antes, vou pedir a Olivier a faca do queijo, n√£o v√° ele encantar-se pelo meu pesco√ßo ao acordar e dar-lhe uma mordedura ao bom estilo de Dr√°cula.
O Chef já alinhou na brincadeira. Tal como Mel Gibson, morde os lábios para não desatar a rir, enquanto dou um murro nas costas do primo de César (sou mauzinho, ele também é meu primo…) que desperta estremunhado, perguntando:
Antiqu√°rio ‚Äď Onde √© que est√£o as rel√≠quias? E o p√≥? Quem √© que me limpou o p√≥ do ba√ļ?
Toda a gente dá uma gargalhada, sobretudo o argentino, que parecia histérico.
O Antiquário acabou por se ir lembrando aos poucos de onde estava e qual era o objetivo da reunião. O português, embora falado com sotaques de várias nacionalidades, era a língua oficial do jantar, e, como num mundo de personagens tudo é permitido, nunca houve dificuldades de maior na comunicação. Por isso é que o argentino riu daquela maneira trepidosa.
Vou s√≥ evocar o mon√≥logo que tive ainda com os meus bot√Ķes:
- Olha se o Velho russo tivesse vindo! ‚Äď Ser√° que tinha de beijar aquela m√ļmia?
N√£o teria de despertar a Miscel√Ęnea. Ela nunca tombara verdadeiramente. Mas se tivesse de lhe dar tamb√©m um beijo, n√£o me sentiria minimamente incomodado. Se calhar at√© teria gostado de mordiscar a boca a uma feiticeira como aquela, visto os autores do livro do meio n√£o lhe terem dado a idade da minha professora no primeiro romance da mam√£, quando ela vivia com as franjas √† porta de casa e dava vinho √†s visitas. De contr√°rio, teria mais uma m√ļmia ambulante para oscular. No livro do meio, a Miscel√Ęnea n√£o era propriamente um esqueleto.
Acabara o meu trabalho de despertador e agora tinha de passar a narrativa a outros. Bem vistas as coisas, depois de Clara e de César - que continuavam sem aparecer - quem ali tinha precedência era mesmo o Agricultor, tio da rapariga. Ele tinha deixado a vida de Professor a reclamar dos ulteriores romances, especialmente do romance do meio. Tinham-no criado quase como um demente, sempre vestido com uma gabardina podre de lixo. O homem estava iradíssimo e, enquanto se dirigia à sua cadeira, encheu de perdigotos o pobre do Mel. O nosso convidado só por vergonha não pediu um guarda-chuva, por causa dos pequenos voos aéreos do velhote.

Contínua
Registado
Goreti Dias
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 18588
Convidados: 997



WWW
« Responder #65 em: Outubro 30, 2022, 08:05:01 »

Um Gabriel só podia beijar como um anjo, ora essa!Já uma hérnia discal pede calma, pois claro. Murros só levezinhos.
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1113
Convidados: 0



« Responder #66 em: Novembro 02, 2022, 20:09:00 »

Claro os Gabriéis tem a obrigação de fazer tudo bem...

Agricultor: ‚ĒÄ J√° toda a gente sabe, mas vou repetir mais uma vez: eu, no primeiro livro, era tio da Clara, agricultor de profiss√£o, e depois fui desembocar no livro do meio como uma personagem com uma estranha miss√£o: tinha de conhecer a inf√Ęncia de Jesus, regredindo at√© ao ano zero DC, e, com os ensinamentos dessa √©poca, bem como dos ulteriores, depois de Ele j√° ter doutrinado os ap√≥stolos, teria de descobrir um elixir da treta, que nunca ningu√©m, nem sequer o dito Professor meu clone, soube verdadeiramente de que se tratava ‚ĒÄ disse, enfrentando corajosamente os autores do livro entremeado.
Agricultor ‚ĒÄ Por isso, minhas senhoras e meus senhores, se me senti importante no primeiro livro, por nunca ter sido personagem de nada, nem nos teatricos da minha aldeia, no segundo sinto-me verdadeiramente insultado! Nunca me vi confrontado com tanto rid√≠culo! As situa√ß√Ķes em que os autores me meteram metem-me nojo, e o meu lugar √© no romance inicial, para onde quero voltar de imediato! Assim, vou apelar ao tribunal e quem quiser pode vir comigo! Que me diz, Mister Mel Gibson? ‚Äď interpelou ele o nosso convidado.
Surpreso com a pergunta, Mel, na sua enorme capacidade de improviso, apontando para os livros vindos da Austr√°lia, respondeu que a queixa-crime podia mesmo ser redigida em aramaico, provocando com isso uma retumbante gargalhada geral, e que, ‚ĒÄ acrescentou ‚ĒÄ dado o rumo dos acontecimentos, era a √ļnica utilidade para os calhama√ßos, pelos quais tivera de pagar excesso de bagagem no avi√£o. Mas tamb√©m n√£o fazia mal, porque o dinheiro gasto no transporte dos livra√ßos era pouco para pagar o grande gozo que lhe estava a proporcionar o jantar oferecido pelos seus anfitri√Ķes, num belo solar portugu√™s do s√©culo XIX. Al√©m de ter confessado que a minha mans√£o oitocentista n√£o seria mais atrativa se estivesse pejada de fantasmas brincalh√Ķes, a pregarem sustos com o √† vontade de que s√≥ uma alma penada √© capaz. Estava soberba de motiva√ß√Ķes, com tantas personagens a entrarem e a sa√≠rem constantemente de cena. Era uma maravilha.
Tive de confessar a Mel que fora eu, mais a minha querida Jurema, o autor daquele prodigioso repasto, ao menos na vertente l√ļdica. Cumpria-me fazer isso, n√£o fosse ele pensar que eu n√£o passava de um mulherengo beijoqueiro de mortas-vivas, algumas delas com pretens√Ķes ao mundo da s√©tima arte sem quaisquer segredos para ele. Mel acabou por entender o melindre da minha posi√ß√£o, e as suas gargalhadas prolongaram-se por mais alguns instantes. Neste, como em todos os romances onde h√° anjos como eu, toda a gente gosta muito de rir. Aprendemos com o meu irm√£o C√©sar, que continua em parte incerta‚Ķ
Depois, foi a Miscel√Ęnea a queixar-se de novo. No primeiro livro - disse - n√£o passara de uma professora reformada e com fraca mem√≥ria para os antigos alunos, mas, na hist√≥ria do meio, aparecia como um aut√™ntico escarro. Vinha dividida entre uma prostituta contempor√Ęnea e uma profetiza b√≠blica a correr atr√°s de uma chupeta messi√Ęnica, e trazia ainda a mente envenenada relativamente a uma personagem que a autora, felizmente, tinha retirado de cena, um ex-inspector aposentado. Al√©m do mais - dizia ‚Äď ela, que nunca, jamais, tivera pretens√Ķes a receber um Nobel da Qu√≠mica, e muito menos da Feiti√ßaria, teria preferido mil vezes morar at√© √† morte na casa de franjas do que conviver com personagens numa trama onde as mortes eram o prato do dia. Que lhe interessava a ela participar num livro feito √† base de batatas recheadas e broa de milho, fossem as batatas uma receita de Maria Madalena e a da broa da autoria da Padeira de Aljubarrota? Por tudo isso amaldi√ßoava o facto de a terem arrancado √†s p√°ginas de um romance onde n√£o passava de um verbo-de-encher para a colocarem noutro dessa mesma maneira. E, verbo-de-encher por verbo-de-encher, teria preferido ficar na primeira hist√≥ria, por mais picante e at√© ordin√°ria que ela parecesse a leitores delicados,  como pareciam os autores do livro do meio. Tamb√©m lamentava ter - ela e mais n√£o sei quantos - obrigado Mel Gibson, de quem era fervorosa admiradora, a deslocar-se da Austr√°lia para aturar tanta gente, doida ainda por cima.
A lista de personagens dispostas a ir a tribunal estava a aumentar. Pelos vistos haveria causa, queixa-crime por escravatura, ou processo cível, ainda não se sabia com quantos queixosos, apesar de se vislumbrar há bastante tempo que os arguidos seriam oito.
No meio de tantos descontentes, eu estava com um enorme problema às costas e, possivelmente, até a minha hérnia discal se iria ressentir disso, embora a dificuldade fosse apenas no sentido metafórico do termo. Com tantas misturas, já não sabia quem era quem, que papéis estavam a viver aquelas personagens ali à minha frente.
Como continuava a ser necess√°rio um moderador, prossegui entretanto com as minhas fun√ß√Ķes, tentando travar o caos que come√ßava a instalar-se com tantas queixas, tanto de personagens do primeiro livro, aquele pelo qual  a mam√£ foi enxovalhada,  a  partir de um caixote de lixo, como do segundo, o livro dos pantomineiros. Nesta altura ainda me pus a refletir sobre alguns escritores e sobre a sua fama. At√© agora, sempre os julguei dotados de inspira√ß√£o e g√©nio, e que nunca precisariam de enganar os pequeninos. Contudo, hoje n√£o me parece bem assim‚Ķ
A mam√£ manda-me prosseguir. Diz-me para me deixar de cogita√ß√Ķes. Isso √© para ela. Eu estou aqui para outra coisa: obedecer, obedecer, obedecer‚Ķ
De repente, olho para o port√£o da quinta e fico estupefacto. Parte das personagens do primeiro romance da mam√£ est√° a chegar. V√™m todas mais ou menos esbaforidas,  com ar de lhes ter passado um caterpillar em cima. A roupa est√° toda amarrotada, cabelos desgrenhados, e t√™m todas um ar cansado. Aproximo-me delas e reconhe√ßo a Womam in red, que enverga o seu fin√≠ssimo vestido vermelho. A rapariga deve ter ficado com o fetiche da cor.
A Woman in red explica-me a raz√£o do atraso. Como tinham todos pap√©is secund√°rios no livro, acharam que ningu√©m, de entre eles,  devia chegar com aparato e limusina. Isso seria para os mais importantes, e estes, com toda a certeza, j√° teriam chegado h√° muito tempo. Tinham decidido alugar uma camioneta, como se fosse uma excurs√£o. Mas na auto-estrada houvera um grande acidente. Por isso ficaram retidos mais de duas horas, passando-se entretanto algo estranh√≠ssimo: os telem√≥veis de todos ficaram simultaneamente sem bateria, como se uma for√ßa misteriosa os quisesse impedir de chegar a horas. Por essa raz√£o n√£o puderam comunicar o percal√ßo.
A mam√£ foi logo ter comigo. Olh√°mos um para o outro. N√£o o dissemos em voz alta, mas ambos pensamos que, n√£o havendo neste novo livro cisnes,  para morrerem com a cabe√ßa tombada,  como as flores que as ex-amantes de C√©sar lhe levaram ao cemit√©rio, a avaria dos telem√≥veis seria talvez um pren√ļncio do Apocalipse. Era o que a organiza√ß√£o dos Recolectores queria evitar quando o Professor era o professor, e quando eu, Gabriel e anjo, vivia com a minha amada Sara um belo casamento, logo assombrado pelo agoirento homem da gabardina ensebada. (Parece-me que h√° cisnes, mas j√° n√£o me lembro e o par√°grafo saiu bem‚Ķ) Nunca esquecerei o olhar do velho quando, ao lado da sobrinha-neta e com m√©todos pouco ortodoxos de diagn√≥stico, lan√ßou no ar a suspeita de que a minha palidez era mais um menos uma esp√©cie de caix√£o e o sinal da minha partida a breve prazo para o mundo dos mortos.
Toda aquela gente acabada de chegar estava, mais do que com fome, verdadeiramente esfomeada. Isso obrigou Olivier a aquecer-lhes a as batatas √† Henrique VIII e o Pato √† Cornualha no micro-ondas, enquanto a Padeira e Mel Gibson levaram o Pajem e o Fagote, dois cavalos que faziam parte da comitiva dos rec√©m-chegados, para junto do Tentilh√£o. E este, mal viu os colegas, lan√ßou no ar uma enorme relinchadela de boas-vindas, que fez estremecer a tenda como quem d√° um espirro. O animal estava farto de andar a pastar sem companhia. J√° a Padeirinha, pelos vistos, estava desesperada por arranjar uma. A mulher aproveitou o pretexto dos cavalinhos visitantes, bem como o gosto do nosso convidado por equ√≠deos, para, juntos, os levarem at√© perto do nosso puro-sangue √°rabe. Enquanto isso, dissimuladamente, a Padeira come√ßa a exibir-se, artisticamente falando, antecipando mais ou menos uma futura audi√ß√£o em Hollywood. A terra dos sonhos poderia ficar √† dist√Ęncia de um sim de Mel. Tinha de se apressar.
Na minha opini√£o, talvez n√£o houvesse necessidade de estarem aqui tantas personagens, a comerem do bom e do melhor quando, no primeiro romance, n√£o passavam de mero enchimento de papel. Que fazem aqui todos os amigos da Clara, incluindo o colega do Gabinete de Psicologia? √Č certo que ele est√° no livro do meio, disfar√ßado de ex-inspector, e at√© emprestou ao Gordo uma camisa preta, a √ļnica vaidade do monte de banhas depois do colar que as Placas Tect√≥nicas do Novo Mundo lhe ofereceram. Embora o psic√≥logo, enquanto ombro amigo da Clara e onde ela secava as l√°grimas por causa de C√©sar, sobretudo quando tomavam a bica no final do expediente, at√© nem ser das mais neutras. Mas como a mam√£ tinha decidido retir√°-lo desta trama, n√£o sei por que est√° ele aqui agora, juntamente com todas as ex-amantes do meu irm√£o. At√© parece uma revisita√ß√£o ao cemit√©rio quando o ‚Äúcara de anjo‚ÄĚ morreu de Sida ou Hepatite B, j√° nem sei. Seria decente, julgo, poupar-se esta gente toda a uma exposi√ß√£o algo dolorosa. Sobretudo as mulheres. Morriam todas de amores pelo meu irm√£o. Tanto que, depois dos mil e um embustes dele, todas lhe levaram um ramo de flores √† campa, onde se perfilaram como aut√™nticas vi√ļvas, sem qualquer outro rumo na vida que n√£o fosse chorar eternamente o morto, enquanto a Clara arremessava l√° para dentro um fato Pr√≠ncipe de Gales, metido ainda no saco da loja onde o comprara. Depois, tamb√©m seria de bom-tom evitar trazer aqui a leg√≠tima esposa, a oficial, embora tamb√©m j√° ex √† altura dos acontecimentos, e obrig√°-la a enfrentar a legi√£o de namoradas do mulherengo que tinha arranjado para marido. Muito menos os filhos. Assim, evitar-se-iam traumas √†s crian√ßas, dos quais n√£o sei se algum dia se libertar√£o. Talvez os milagres da psicologia d√™em algum resultado. Embora a Clara n√£o fizesse jus ao t√≠tulo acad√©mico que ostenta no cart√£o profissional‚Ķ Como p√īde ela ter embarcado numa paix√£o t√£o fulminante? √Č por ser burra, com toda a certeza!...

Continua
Registado
Goreti Dias
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 18588
Convidados: 997



WWW
« Responder #67 em: Novembro 10, 2022, 20:27:56 »

Uma delícia!!!!
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1113
Convidados: 0



« Responder #68 em: Novembro 11, 2022, 02:26:03 »

E continua....


A woman in red tudo bem, √© bem-vinda, uma vez que esteve quase a ser leg√≠tima, sabendo, por isso, uma data de podres sobre o meu irm√£o. √Č normal estar nesta casa para atar algumas pontas do livro que apare√ßam soltas. Afinal era a secret√°ria da funda√ß√£o‚Ķ Al√©m de ter feito, durante algum tempo, umas pontinhas privadas na vida do C√©sar‚Ķ Agora muita da outra gente era escusado estar no meu solar, a que eu, depois, terei de mandar fazer uma enorme desinfec√ß√£o. Na verdade n√£o sei o que ir√° acontecer com a Sara ou comigo‚Ķ Posso at√© morrer entretanto, como diz o Professor‚Ķ Mas a mam√£ √© quem sabe. Aqui, ela manda mais do que Deus, e se Deus quiser tudo h√°-de correr pelo melhor, com a minha ajuda de anjo especialmente talhado para suprir as faltas de um jantar sui g√©neris a decorrer neste solar, o √ļnico evento digno de registo em mais de um s√©culo de hist√≥ria da velha mans√£o.
A mam√£ diz-me para continuar e para n√£o fazer coment√°rios. J√° n√£o √© a primeira vez que me repreende. Mas tamb√©m n√£o tenho sangue de barata! Eu aqui cheio de trabalho e o C√©sar sem dar √† costa. Ser√£o ileg√≠timos os meus queixumes? Sei, apesar de tudo e compreendendo bem a mam√£, qual √© a grande dificuldade deste romance. Na verdade, para o C√©sar entrar eu terei de sair e a nossa m√£e deve saber bem a utilidade de cada uma das suas cria√ß√Ķes nos v√°rios momentos desta trama maluca. Por agora deve dar-lhe jeito a minha presen√ßa enquanto lan√ßa uns sorrisos ir√≥nicos sobre os outros colegas escritores, que lhos devolvem cheios de velhacaria.
A m√£ezinha chama-me e segreda-me ao ouvido um assunto t√£o quente que deve, at√©, ter-me queimado o t√≠mpano. Pelos vistos, deveria entrar aqui uma nova personagem masculina, t√£o bela como eu e o mano C√©sar‚Ķ Trata-se de um ser diab√≥lico e intemporal, cujo nome jamais dever√° ser pronunciado neste livro, sob pena de desencadear desaparecimento de texto e avarias, tanto do hard como softwere. √Č um membro tenebroso das Placas Tect√≥nicas, ainda mais sinistro do que a pr√≥pria m√ļmia russa‚Ķ Assusto-me com a revela√ß√£o. Certamente esta personagem, de quem nem sequer se pode dizer o nome, vem retaliar connosco, por causa de termos evitado at√© agora tr√™s mortes e sermos capazes de impedir muitas mais, se contarmos com o pacifismo da mam√£. O tal deve ser o dem√≥nio em pessoa, e o meu estatuto de anjo, s√≥ por si, n√£o ser√°, talvez, suficiente para combater uma criatura t√£o maligna, que, pelos vistos, estar√° mais ou menos √† porta do meu solar, disposta a ceifar as nossas vidas s√≥ com o olhar. Era, com toda a certeza, hora de evocar aqui um salmo poderoso, e pergunto √† mam√£ se o 38 resultaria. Ela diz-me que sim. Pelo menos temporariamente, enquanto n√£o lhe ocorre uma estrat√©gia mais eficaz. N√£o tenho outro rem√©dio sen√£o confiar.
Todos estão a resmungar como loucos. Parece-me, também, que a velha moradora no prédio do meu irmão abriu mais o ouvido do que devia quando a mamã falou do homem mistério… A velha, com as suas características de coscuvilheira, forneceu muito material para a construção literária da Padeira, e está agora com as antenas no ar por causa da tal criatura intemporal. Talvez ela conheça algum responso capaz de afugentar esse maligno para o reino dos infernos, onde eu próprio o lancei imaginariamente mal a mamã o trouxe à colação.
Destas personagens todas, umas querem regressar ao primeiro livro e as do livro do meio est√£o t√£o revoltadas quanto envergonhadas. Sobretudo por causa das mortes ocorridas no romance do meio. quando o Apocalipse era dado como certo. O Antiqu√°rio, depois de acordar do falso sono, fartou-se at√© de bater no peito, tendo rezado v√°rias vezes o ato de contri√ß√£o,  como quem ora a Nossa Senhora de F√°tima e pede um milagre capaz de lhe apagar todo um passado de malfeitorias.
Por entre os restos das farofas frescas, que Olivier teve de fazer para a segunda revoada de gente, devoradas num √°pice, ouve-se insistentemente a palavra ‚Äújusti√ßa‚ÄĚ, proferida tanto pelos enxovalhados do primeiro romance como pelos do livro do meio. Nesta altura o parodiante, descal√ßo - eu ainda n√£o tinha ordenado ao Jerry a devolu√ß√£o dos sapatos aos donos - esgueiram-se da tenda, aproveitando a confus√£o, antes que a guilhotina da cozinha, onde Olivier separou as calotes das batatas, lhes degolasse o pesco√ßo. E, mal as oito criaturas se levantaram e come√ßaram a correr pela quinta, de meias de lycra as mulheres e pe√ļgas brancas os homens, n√£o houve ningu√©m capaz de sustar uma gargalhada, que eclodiu como um foguete no meio da noite. Julgo mesmo que at√© nem os peixinhos amigos de Santo Ant√≥nio resistiram. Os senhores nem sequer esperaram pela orquestra que, daqui a nada e para encerrar o evento, far√° ecoar pelos c√©us o g√©nio de Mozart, interpretando, entre outras melodias, a Marcha Turca, antes da √°ria ‚ÄúUna furtiva l√°grima‚ÄĚ da opereta de Donizetti, que um tenor da orquestra ir√° interpretar primorosamente. N√£o o devia dizer, mas foi a amiga da mam√£ quem nos emprestou a rel√≠quia do piano a que fui tirar fotografias, um piano irm√£o de outro em que Hitler ouvia Wagner, completamente embevecido, embora nas operetas se dispense o piano e a cauda.
Os fugitivos t√™m azar porque, mal chegou a gente do primeiro romance, mandei trancar os port√Ķes.
A Padeira e Mel Gibson, alertados pelo alvoroço, deixam os três cavalos entregues às delícias do pasto e juntam-se ao resto dos convivas. Tentam acalmá-los, enquanto se ouve com insistência um grito de ordem, de braço no ar:
- Vamos para tribunal! Vamos para tribunal! Estes autores n√£o sabem com quem se meteram!
A Padeira, pensando certamente no cen√°rio a que a guilhotina d√° vida, apressou-se a perguntar a Mel Gibson se n√£o queria que ela representasse um pouquinho de Maria Antonieta, quando ‚Äúla raine‚ÄĚ estava √† beira do cadafalso prestes a sucumbir degolada. Ele respondeu-lhe que n√£o havia necessidade. Enquanto estivera com ela, junto dos cavalos, tinha mais do que visto os seus dotes de atriz e, garantidamente, um dia seria uma estrela para quem at√© j√° vislumbrava um √ďscar no firmamento de Hollywood e no passeio da fama,
Penso de novo no tal ser intemporal e não sei se a mamã decidiu bem em não levantar mais uma pontinha do véu que tem como protagonista aquele de quem nem se pode dizer o nome. Não seria o caso de ele se pronunciar também e decidir se quer ou não assinar a queixa-crime contra os autores do livro do meio por falsa identidade e escravatura de todas as personagens?
Enquanto isso, eles, os autores, deambulam pela quinta, provavelmente a pensar no rio como a √ļnica via por onde escapar, depois de enganarem a espessa vegeta√ß√£o que a separa da margem. O ‚Äúintemporal‚ÄĚ traz-me √† ideia de novo Jorge Lu√≠s Borges e os seus jogos de espelhos. Devem ter pensado que a mam√£, ao escrever o livro inicial, se mirara neles projetando a pr√≥pria imagem na sua cria√ß√£o. Tontinhos, julgavam-na uma borra-botas que nunca tinha lido o velho Borges. nem a sua Hist√≥ria Universal da Inf√Ęncia, uma inf√Ęncia como a de C√©sar e como a do Menino Jesus, cuja hist√≥ria, segundo eles, era preciso reescrever.
- Como vê, Meritíssimo Juiz, estava tudo no livro roubado. Pano para mangas era o que não faltava.
- Cala-te, Gabriel! ‚Äď ordena a mam√£ - Ainda n√£o est√°s em audi√™ncia de julgamento!
- Está bem. Deixei-me levar pelo entusiasmo…
A Padeira e a vizinha cusca do C√©sar v√£o no encal√ßo dos fugitivos, depois de eu lhes entregar a chave da Capela. √Č para Mel Gibson ir ver a imagem do Senhor dos Pa√ßos, no seu realismo atroz e com a cruz √†s costas simbolizando a crucifica√ß√£o do mesmo Jesus no G√≥lgota. A luz el√©ctrica, difusa e amarela, real√ßa o aspecto m√≠stico da capelinha, onde eu e a Sara cas√°mos, e o nosso convidado vai gostar de ver a imagem. O facto de o querer mandar para a capela, sendo ele um ator e um realizador com uma profunda paix√£o pelos temas b√≠blicos em geral e por Jesus em particular, √© uma tentativa de evitar que perca a f√© no g√©nero humano. Principalmente nos escritores e guionistas que lhe tecem a trama dos filmes sagrados, n√£o v√£o eles entrar tamb√©m na senda da par√≥dia, como os fugitivos fizeram com o livro da mam√£.
O ‚Äúhept√°gono‚ÄĚ - agora lembrei-me do nome dos pol√≠gonos com sete lados e quis usar isso como met√°fora‚Ķ - mais o lado que os meteu na aventura do roubo, a coordenadora do projeto, tem nas m√£os uma verdadeira batata quente, n√£o sei se cozinhada de acordo com a receita de Maria Madalena ou se, pelo contr√°rio, √© √† moda de Jamie. Os sete magn√≠ficos e a acompanhante s√≥ t√™m um sapato e, por isso, suponho que n√£o querem regressar √† oficina dos livros fazendo figuras tristes, se optarem por fugir em meias e pe√ļgas, ou, at√©, completamente descal√ßos. Por outro lado, h√£o-de querer a todo o custo reaver o cal√ßado, munindo-se, para o resgatar, com coragem id√™ntica √† que tiveram no in√≠cio, quando decidiram comparecer no jantar. Talvez os senhores tenham vindo apenas com o fito de que Mel adaptasse o livro do meio ao cinema, ocorreu-me agora‚Ķ. E se fugirem assim como ladr√Ķes, n√£o deixar√£o de real√ßar aos olhos dos outros a sua pr√≥pria culpa. Nem uma desculpa, nem a promessa de n√£o voltar a prevaricar, nem, sequer, a nega√ß√£o do facto, alegando, por exemplo, que a editora lhes entregara, aos sete, atrav√©s da Dona Tita L√≠via, o livro da mam√£ para eles avaliarem at√© que ponto o manuscrito seria public√°vel, malgr√© o seu bocado de sexo e os palavr√Ķes. Nem essa desculpa deram! Mas a mam√£ tamb√©m n√£o a aceitaria, nem de √Ęnimo leve, nem de √Ęnimo pesado. Ela candidatou-se, s√≥ e apenas, √† publica√ß√£o de um livro e nunca ao Pr√©mio Nobel da Literatura. A√≠ sim, seriam necess√°rios sete votos ou mais para sair um vencedor, dependendo do n√ļmero de membros do √≥rg√£o de decis√£o e do valor equitativo dos candidatos. Nesse caso a mam√£ n√£o seria a ‚Äúescritora‚ÄĚ fatela, de cujo livro fizeram gato-sapato, mas uma pessoa a considerar no mundo das letras.
O nosso convidado j√° regressou. Vem com os olhos cheios da beleza, tanto da capela como da imagem do Senhor dos Passos e dos outros santos, que, em tamanho mais pequeno, tenho nos altares. S√£o eles, o S. Jo√£o, o S. Jorge o S. Jos√©, a Santa Alice, uma imagem trazida do Brasil no tempo em que os livros da biblioteca da terra andaram para c√° e para l√° no Oceano Atl√Ęntico. No Brasil h√° excelentes santeiros‚Ķ Al√©m destes santinhos h√° ainda a Santa Lu√≠sa, que o meu irm√£o C√©sar trouxe de Paris, juntamente com uns cristos. E os cristos, como √© sabido, s√£o as figuras pelas quais C√©sar tem verdadeira adora√ß√£o. Estavam sempre em cima da c√≥moda, no quarto dele, onde com a Clara e as outras se deliciava em orgias de sexo ao vivo. Devia ser para ficar mais protegido das doen√ßas m√°s que entram mais ou menos por um s√≠tio que todos os humanos t√™m. Na capela havia ainda mais um santo e uma santa, de cujos nomes n√£o me lembro, mas o padre que realizou o meu enlace retirou-os do altar, dizendo n√£o serem l√° grandes pe√ßas de santidade. E isto para n√£o falar na Santa Joana Princesa, filha do Rei D. Afonso V de quem Clara, apesar de a santinha ser apenas uma beata promovida unicamente pelo povo a altar mais elevado, sabia a biografia de tr√°s para a frente e da frente para tr√°s.
Mel diz-me que encontrou os autores na capela em atitudes, senão suspeitas, no mínimo estranhas. Não havendo muita luz para se aperceber dos pormenores, pareceu-lhe que os oito tentavam remover uma pedra em frente ao altar. Talvez a tampa de um sepulcro…
Meu Deus, não posso acreditar! Depois de ter uma casa em pantanas, com mortos-vivos à espera de reingressarem na sua verdadeira vida, tenho ainda de assistir a um bando de pés-descalços a delapidaram-me o património religioso! Além do mais escarafunchando os restos mortais de homens e mulheres santas que foram enterrados na minha capela!
Tenho de p√īr a mam√£ ao corrente da situa√ß√£o. Parece-me que os autores se querem substituir √†s personagens na busca do Santo Graal, do Elixir n√£o sei de qu√™, ou, simplesmente, dos sagrados h√ļmus de Jesus. Para esta gente maluca das Placas Tect√≥nicas, as rel√≠quias do Mestre s√£o apenas e s√≥ os fluidos corporais Dele. J√° para outros, o bando contr√°rio, s√£o nem eles sabem o qu√™, mas, em todo o caso, uma forma muito eficiente de chatearem a autora do primeiro romance, e de agora de me escaqueirarem a capela. Igualmente pareceu ao meu convidado ter visto imensos pol√≠cias a espreitar por sobre os muros da quinta, de armas apontadas para dentro, a fazerem, de vez em quando, sinais ao Porta-Chaves. Nada como ser estrangeiro e cidad√£o da Commonwealth para ter tamanhos dotes investigat√≥rios, ainda que Mel seja apenas ator e realizador de filmes, para l√° de um fervoroso devoto da Irm√£ L√ļcia.


cONTINUA
Registado
Goreti Dias
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 18588
Convidados: 997



WWW
« Responder #69 em: Novembro 18, 2022, 19:01:39 »

Com tantos santos, talvez algum lhe valha!
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1113
Convidados: 0



« Responder #70 em: Novembro 19, 2022, 01:10:14 »

Com certeza....Goreti


A mam√£ diz-me para ter paci√™ncia. N√£o √© altura de medos. Se n√£o houve mortes at√© aqui, tamb√©m n√£o h√£o-de ocorrer agora. Segundo ela, o objetivo da pol√≠cia, e o seu pr√≥prio objetivo, n√£o √© desencade√°-las, mas sim evitar que aconte√ßam. Entretanto a m√£ezinha pede ao Porta-Chaves para ir inteirar-se das ocorr√™ncias na capelinha, e eu aproveito para ir √† casa de banho fazer chichi. E eis uma coisa de que a literatura habitualmente n√£o vive. √Č demasiado humano e, dentro do humano, ‚Äúfazer chichi‚ÄĚ, al√©m de tudo, √© uma das fun√ß√Ķes do corpo pouco prest√°vel a met√°foras luminosas e grandes ideias po√©ticas. Sobretudo em virtude de o chichi vir de um s√≠tio multifuncional que, na linguagem de qualquer pa√≠s, se presta sobretudo a cal√£o ordin√°rio.
Vou andando…Vou, entretanto, deixar crescer a barba e o cabelo. Pode dar jeito…
Lilicas

São sempre os mesmos. Agora, com o Gabriel ausente, compete à doidivanas da Lilicas preencher o vazio narrativo. Que maçada!
Vou mas √© √† cozinha lamber,  de um prato qualquer,  um bocadito de farofas temperadas a Jurema,  para ver se desperto a Clara que existe em mim. N√£o √© ela a personagem primitiva?
Pelos vistos n√£o √© preciso. J√° est√° aqui gente importante do livro onde a mana velha era a estrela feminina. O C√©sar chegou finalmente. Traz com ele uns calhama√ßos, que carrega, com dificuldade, nas m√£os junto ao peito. A minha ignor√Ęncia diz-me que devem ser O C√≥digo Penal, o C√≥digo de Processo Penal, o C√≥digo Civil e o C√≥digo de Processo Civil.
Coitado do César. Bem se diz que um burro carregado de livros é um doutor e o ditado assenta-lhe lindamente. Ele não passou do segundo ano da faculdade, mas, mesmo assim, tem vantagens sobre qualquer um de nós, à exceção talvez da mamã. Ninguém aqui deve saber distinguir uma providência cautelar de um arresto. Esta gente continua a pedir justiça e chegou por fim o homem para elaborar a petição.
A mamã diz-me para lhe passar a palavra, enquanto ele se senta ao lado de Mel Gibson e coloca os livros à beira dos compêndios de aramaico, trazidos pelo nosso convidado.
A queixa-crime, no que me diz respeito, devia ser escrita mesmo em aramaico, por eu ser uma personagem pr√≥xima da B√≠blia. Mas n√£o tenho rem√©dio sen√£o submeter-me √† vontade da maioria. E esta, provavelmente, querer√° a peti√ß√£o em portugu√™s. Os tribunais tamb√©m n√£o devem aceitar outra l√≠ngua de litig√Ęncia, mesmo a do tempo de Jesus, pese embora a for√ßa dela na justi√ßa divina. 
E pronto. C√° est√° o ‚Äúadvogado‚ÄĚ de servi√ßo, lindo de morrer, como o meu amado Gabriel. Nestes romances os homens s√£o todos bonitos. E, al√©m de tudo, t√™m sempre qualquer coisa de anjo. Mormente a cara. Como o C√©sar, comest√≠vel at√© dizer chega, mesmo na vers√£o dos quarenta e cinco anos do primeiro livro. Isto tudo √© uma grande tenta√ß√£o, pese embora o facto de eu ainda n√£o estar completamente bem devido √† Jurema. At√© sempre C√©sar, ou Gabriel ou l√° quem tu √©s, que as personagens n√£o passam disso mesmo, maniet√°veis at√© ao infinito.

‚ą©
César
Era aqui que precisavam de um advogado do diabo? Pois aqui estou e, antes de começar a redigir a queixa, convém falar na estratégia, bem como nas dificuldades da questão.
Em primeiro lugar poder√° acontecer o seguinte: a entidade que regista a autoria das obras, ainda por cima, talvez n√£o aceite o processo do livro ‚Äú A S√°tira do Livro Roubado‚ÄĚ, alegando semelhan√ßas de conte√ļdo e de personagens com um outro livro de autores muito conhecidos, quando, afinal, foi exatamente o contr√°rio.
Segundo vejo, os ditos autores continuam descal√ßos junto √† capela do meu irm√£o, onde, felizmente, o Porta-Chaves os demoveu de a escaqueirarem. Mel Gibson toma notas num pequeno port√°til, Olivier ri-se, enquanto fiscaliza o trabalho de remo√ß√£o dos pratos e dos restos de comida para a cozinha, preparando j√°, o melhor poss√≠vel, o local para receber a orquestra que desencantei atrav√©s da funda√ß√£o. Sobretudo para ouvir cantar a √°ria Una Furtiva L√°grima‚ÄĚ. Nunca resisto a ela.
Quanto à maneira de atacar os parodiantes, a mamã poderia, por exemplo, publicar o livro sem a formalidade do registo e esperar que os outros senhores lhe movessem uma ação criminal. Neste caso, seria de atiçar a imprensa com o assunto, revertendo depois a situação a favor da dela.
Em segundo lugar, poderia a nossa querida m√£e, e n√≥s todos, lesados moral e economicamente, avan√ßar de imediato para o tribunal, atacando sem piedade os salteadores de capelas e de rel√≠quias. Depois esperavam-se desculpas esfarrapadas, que nenhum atrasado mental aceitaria, e muito menos um juiz s√©rio e competente. Finalmente tamb√©m poder√≠amos recorrer ao meio extrajudicial, mandando uma carta √† editora, mais concretamente √† instigadora desta situa√ß√£o, a Dona Tita L√≠via. Pedia-se uma boa indemniza√ß√£o. N√£o nos ‚Äúroubaram‚ÄĚ eles a todos do outro livro, pondo-nos,  depois, nomes falsos? E, no meio disto tudo, queria ver se a senhora iria sacudir a √°gua do capote e dizer que a culpa √© inteiramente dos autores... Mas, ent√£o, onde teriam eles ido buscar a fotoc√≥pia do bilhete de identidade da autora? √Ä pasta do arquivo morto? A resposta √© sempre a mesma: est√£o todos tramados. Assiste-nos, de qualquer maneira, o direito ao ressarcimento, independentemente de a publica√ß√£o deste livro ficar devidamente acautelada. N√£o queremos viver em v√£o mais uma das nossas vidas. O assunto morreria assim por aqui, e a mam√£ embolsaria um bom dinheiro. O livro do meio vendeu trinta mil exemplares, antes de uma √ļltima edi√ß√£o em que ela descobriu a marosca. Depois, a nossa m√£e, se quiser, em vez de pagar a um advogado a s√©rio, dava-me o dinheiro a mim. Como toda a gente sabe, gosto tanto de money como o diabo gosta de almas.
O burburinho est√° instalado e a Padeira pede opini√£o a Mel Gibson sobre a via a seguir. Fico indignado. Aqui o ‚Äúadvogado‚ÄĚ sou eu. Ele √© apenas ator e realizador e, al√©m da S√°tira do Livro Roubado, n√£o entrou em mais nenhuma hist√≥ria da nossa querida autora.
Felizmente o homem tem bom senso,  remetendo a decis√£o para as personagens.
Mando-os calar a todos e dou o meu pr√≥prio conselho, tentando excluir alguma ou algumas das hip√≥teses formuladas. Digo a esta alvoro√ßada gente que n√£o ser√° de esperar uma √ļnica rea√ß√£o dos prevaricadores, caso a mam√£ se decida pela publica√ß√£o do livro primog√©nito. Pura e simplesmente, ir√£o ignor√°-la como a uma condenada Z√©-Ning√©m sem voz.
Toda a gente fica espantada com a minha dissertação e o Agricultor de imediato tenta acalmar as personagens de modo a excluir, ao menos para já, a estratégia cuja falácia demonstrei. Calam-se todos, aceitando a sugestão do velho, que já foi um Professor pouco higiénico, graças a uma gabardina ensebada onde andou metido até recuperar a verdadeira personalidade.
Agora vamos decidir como avançar. Talvez pudéssemos começar com uma carta para resolver o assunto extrajudicialmente e, caso isso não resulte, irmos depois pela via judicial.

Continuará o César a falar

Registado
Goreti Dias
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 18588
Convidados: 997



WWW
« Responder #71 em: Novembro 20, 2022, 13:17:31 »

A advogada a falar rsrsrs
Registado
Maria Gabriela de S√°
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1113
Convidados: 0



« Responder #72 em: Novembro 21, 2022, 01:02:13 »

Ah,


César


Prevendo eventual empate nas decis√Ķes de tantos personagens, sugiro a esta gente de papel que, nas duas vota√ß√Ķes sucessivas, atribuamos o voto de qualidade a Mel Gibson. Este agradece a defer√™ncia e, dirigindo-se ao suporte da tenda onde est√° encostado o Olivier, apresenta-o como um grande cozinheiro, elogia de novo as Batatas √† Henrique VIII e o Pato √† Cornualha, lamenta n√£o poder ter provado a receita de Maria Madalena e pede que seja Olivier a decidir caso se verifique a igualdade do escrut√≠nio.
Olivier declina a sugest√£o.
O Antiqu√°rio manifestou-se no sentido de se avan√ßar de imediato com a peti√ß√£o para tribunal. Sendo quem tinha o cadastro mais sujo, com duas mortes nas costas, ningu√©m ficou admirado por ele querer limpar o nome, o mais depressa poss√≠vel, antes de o registo criminal lhe manchar a vida profissional, j√° de si bastante suspeita, sobretudo por causa das obras de arte roubadas noutros tempos. Deve ter-se lembrado da Mona Lisa e do percurso desgarrado que o quadro fez durante d√©cadas, antes de a retratada ir de novo esbo√ßar aquele sorriso matreiro para o Louvre.  
Depois, uma a uma, todas as personagens acolheram a ideia do Antiquário, enquanto eu recolhia o BI e o NIF de cada uma para formular uma petição sim, mas cível.
O meu primo, erguendo-se num √≠mpeto da cadeira onde estivera sentado at√© a√≠, rejeitou liminarmente a modalidade, esbracejando indignado por causa da brandura com que nos prop√ļnhamos enfrentar as feras. Manifestou-se em altos gritos sobre a deten√ß√£o de que foi v√≠tima no livro do meio. Na realidade, tinha at√© sido obrigado pelos autores a cometer dois homic√≠dios, al√©m de haver ainda projetos para ele mandar mais gente para o outro mundo, naquela esp√©cie de comboio expresso que √© a morte por encomenda. Por isso, recusa-se a abdicar da cadeia para os algozes, que o descreveram como um trampolineiro do pior calibre. Sendo embora verdade, nenhum homem, por mais ordin√°rio que seja, gosta de ser tratado por gente ilustre como Ex proxeneta e como salteador de casas devolutas, s√≥ para denegrirem a qualidade de todos os membros da Placas Tect√≥nicas do Novo Mundo. Esta entidade, no livro do meio, era, nada mais, nada menos do que a seita do mal, a que investia regularmente contra Os Recolectores Ambidestros de Infus√Ķes Venenos e Ant√≠dotos, o bem em figura de gente. Um ‚Äúbem‚ÄĚ algo esquisito, √© certo, criado por sete pessoas mais uma, a Dona Tita L√≠via, uma esp√©cie de procuradora suprema no assunto. A mulher n√£o deixa de ser mais uma m√£e das personagens, uma misturadora de √≥vulos e esperma na proveta em que se tornou o laborat√≥rio liter√°rio onde trabalha.
N√£o sei o que fazer, mas alguma coisa tenho de engendrar. Vou esperar pelo Gabriel. Ele est√° mais directamente envolvido na situa√ß√£o. O jantar √© dele. Aqui n√£o passo de convidado, embora especial, por ser o mano velho do anfitri√£o.  
A Clara permanece encapuzada no corpo da Lilicas, onde, por sua vez, tamb√©m jaz a Sara. A minha colega de protagonismo, a Clara, j√° disse que quer regressar ao primeiro romance. Talvez o tio assuma a representa√ß√£o da sobrinha quando votarmos. D√° nisto pertencer-se ao g√©nero de personagens tr√™s em um e sermos como um produto capilar dos mais avan√ßados. Est√°-se sempre com um problema entre m√£os, ou, melhor dizendo, na cabe√ßa. J√° eu, C√©sar, o ‚ÄúCara de Anjo‚ÄĚ, por ter sido t√£o maltratado pela mam√£, n√£o queria estar em livro nenhum. Muito menos neste, sujeitando-me de novo a levar com o despeito das minhas ex todas. Mas, a ter de migrar para algum lado, seja ao menos para uma hist√≥ria genu√≠na, onde haja mulheres diversificadas e muito sexo. Por isso a minha escolha √© √≥bvia, embora o caminho para l√° chegar me seja relativamente indiferente. Eu que aportei aqui ressuscitado como Jesus, depois de ter sido entregue aos bichos por uma autora semelhante a Judas, quando me ‚Äúmatou‚ÄĚ com hepatite B, ou Sida, j√° nem sei. Tive, apesar de tudo, uma segunda oportunidade. E c√° ando outra vez na literatura, bonito como sempre.
Pe√ßo permiss√£o a todos os presentes e vou providenciar um ch√° de alface para o tenor que tem estado l√° em baixo, √† beira-rio, a afinar a voz e a tentar, quem sabe?, enfeiti√ßar os peixinhos,  como lhes fez Santo Ant√≥nio com os serm√Ķes numa outra latitude.
N√£o vejo hora de ouvir a minha √°ria predileta. No fundo, no fundo, sou mesmo um rom√Ęntico, apesar da linguagem desbragada na cama. O meu maior prazer seria a descoberta do Elixir do Amor, o tal criado por Donizetti para a √≥pera, bem diferente do elixir do Professor, que nem um nome consistente arranjou para a falhada pesquisa. O homem nunca passou de um alquimista de meia-tigela, ainda que, nem pouco mais ou menos, compar√°vel √† mam√£. Esta, juntamente com a Clara, conseguiu perfeitamente reduzir-me a merda,  logo na segunda ou terceira tentativa.




ÔĽÖ
Lilicas

Estou outra vez a bra√ßos com a narra√ß√£o da hist√≥ria. Como agora n√£o conduzo viaturas,  por causa desta enorme confus√£o, resta-me guiar durante algum tempo a com√©dia. √Č uma outra forma de ser motorista, ainda com mais responsabilidade por o carro sermos todos n√≥s, pelo que me sinto verdadeiramente chauffer de excurs√£o.
Gabriel j√° regressou sorrateiramente da casa de banho sem que ningu√©m o visse. Da entrada da tenda faz-me sinal para ir at√© l√°. De repente, a barba e o cabelo dele parecem ter meses. Vem estranho e percebo nele uma atitude suspeita. Desconfio que se vai livrar de mim, porque, tendo eu pedido um copo de √°gua a um dos empregados, √© o Gabriel quem o tr√°s. Ah!, meu amor, n√£o acordes a Sara, a velha que arranjaste para esposa, e muito menos a Clara, as duas adormecidas no meu inconsciente! Fica comigo para sempre, com os meus cabedais e cintos,  ou t√£o simplesmente nua como vim ao mundo!
J√° juntos, de novo disfar√ßados pela aura de uma invisibilidade semelhante √†quela de que usufru√≠mos quando ele chegou de Coimbra com a foto do piano, onde, daqui a pouco vai ser tocada a Marcha Turca, Gabriel, o meu anjo, enquanto me beija, sussurra-me que √© necess√°rio decidir a quest√£o da par√≥dia. Entrega-me o copo e eu bebo obedientemente. Tenho a certeza de que vou apagar-me dizendo: ‚Äú morro se n√£o me amares‚Ķ.‚ÄĚ‚ÄĚ, morrrrr‚Ķ‚Ķ‚Ķ..‚ÄĚ


‚Č°
Sara

Eu devia ser uma esp√©cie de mosca-morta, uma mulher b√≠blica a cem por cento obediente ao marido e a toda a gente. Mas que gente e que marido? Casei, j√° entrada na idade, com um homem muito mais novo, e agora vem um tal Professor, a mando dos escritores do livro do meio, dizer que Gabriel, o meu querido anjo, se vai finar por causa da uma palidez cr√≥nica, ou at√© de uma h√©rnia, se n√£o for de um est√ļpido linfoma como inventou o Gordo? √Č mesmo andar a brincar comigo, e, se n√£o fosse por outras raz√Ķes, esta era suficiente para me associar a quem quer tramar aqueles que me transformaram numa s√©ria candidata a vi√ļva! ‚Äď N√£o √© assim, Gabriel, meu amor?! Est√°s com uma barba e com um cabelo enorme, tens de ir ao barbeiro, meu querido‚Ķ

¬Ī
Gabriel

- √Č claro que √© assim, minha querida mulherzinha. Mas n√£o me apetece cortar o cabelo nem tratar da barba... E era pura perversidade desse velho tonto, do Professor, retirar-te as del√≠cias do sem√°foro e dos meus bra√ßos para sempre. O meu Deus (e os cristos do C√©sar, que s√£o a mesma entidade noutra vers√£o) n√£o haveria de querer meter-me numa cova, sujeitando-me ao apetite das minhocas como a mam√£ fez ao mano, ressuscitado agora como o pr√≥prio Jesus, para gozo supremo da autora.
Quanto ao processo, tamb√©m concordo com o Antiqu√°rio. O lugar dos satirizadores e dos utilizadores de falsas identidades √© na cadeia. Enquanto anjo e com conhecimentos abrangentes de tudo, tenho cem por cento de raz√Ķes para acreditar que o livro do meio, onde os autores nos ridicularizaram tanto, n√£o seria escrito daquela maneira se n√£o tivesse por tr√°s o livro da mam√£. Est√° perfeitamente estabelecido o nexo de causalidade, uma causalidade adequada, sem mais. Como tal, sendo todos n√≥s personagens falsas, respigadas aqui e ali de um outro romance, o meu voto vai no sentido de que se enverede pela via da queixa-crime. Sempre se gasta menos dinheiro. Cruzei-me h√° pouco com o C√©sar e ele p√īs-me ao corrente das vossas indecis√Ķes, meus queridos candidatos a litigantes.
E, depois desta minha explica√ß√£o, todos fizeram quest√£o de votar a favor da atua√ß√£o mais gravosa. Por isso n√£o foi necess√°rio o voto de desempate de Olivier. A unanimidade estava garantida. Toda a gente j√° conhecia a opini√£o de Gabriel, da Sara, da Lilicas, da Clara, do Agricultor, do Professor, do Mestre de L√≠nguas-Mortas, da Padeirinha, da Doutorinha, do Gordo, do Antiqu√°rio, da Miscel√Ęnea, do argentino, bem como de personagens como a womam in red, da velha cusca vizinha de C√©sar, da professora dele, entre outros. Pelos coment√°rios, em surdina, e pelos olhares depreciativos dirigidos aos autores do livro do meio durante o jantar, especialmente √† Dona Tita L√≠via, nota-se a l√©guas que todos j√° encontraram culpados. √Č opini√£o un√Ęnime de que foi ela a m√° da fita, uma mulher gananciosa e mesquinha, capaz de vender a alma ao diabo s√≥ para ter no mercado um livro que competisse com os sucessos de venda da altura. √Č muito bem feito! Aos autores agora fugitivos, al√©m da co-autoria do romance do meio, tem de lhes ser atribu√≠da ainda a co-autoria do crime de falsa identidade com que nos mascararam, como se a nossa vida fosse um Carnaval permanente.
 Mas, caros leitores, como n√£o se esqueceram, por certo, de que quem andou a estudar direito foi o C√©sar, o mano cujo hobby era a fotografia, √© melhor esperar por ele. At√© porque, para mim, a atividade fotogr√°fica era a tempo inteiro, e sempre foi uma grande aliada dos poetas e das suas poesias. Portanto, queridos colegas, esperem um bocadinho pelo meu irm√£o, enquanto eu, com Mel Gibson, vou dar uma volta pela quinta. Estou com saudade do meu puro-sangue √°rabe, o Tentilh√£o, e quero conhecer mais de perto o Pajem e o Fagote. E como j√° est√° tudo determinado, vou mandar a velhota, a velha empregada de C√©sar, a que lhe pedia amaciador para as camisas, aquela da chupeta do bisneto esquecida no bolso, devolver os sapatos aos parodiantes, e ver at√© que ponto eles esgaravataram a minha capela. A mulher ficou de guarda ao cal√ßado retido e √© tempo de comer qualquer coisa... Tudo menos as farofas alucinog√©nias... Como j√° est√° bastante senil, a mulherzinha deve achar tudo quanto se passou neste solar oitocentista perfeitamente normal. Assim, n√£o terei de lhe dar grandes explica√ß√Ķes‚Ķ Se, enquanto tomo as provid√™ncias necess√°rias aos sapatos, o Porta-Chaves quiser deixar ir os autores embora √© l√° com ele... C√©sar n√£o necessita da identifica√ß√£o de nenhum. Todos s√£o mais conhecidos do que o arroz-carolino. Vou tamb√©m perguntar ao pol√≠cia se quer participar criminalmente contra a gente de quem se fala.
Finalmente, tenho um aviso a fazer: j√° n√£o h√° mais farofas, nem com, nem sem Jurema...

Continua

« Última modificação: Novembro 24, 2022, 15:22:30 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Páginas: 1 ... 3 4 [5]   Ir para o topo
  Imprimir  
 
Ir para:  

Recentemente
[Novembro 25, 2022, 23:24:45 ]

[Novembro 25, 2022, 13:23:52 ]

[Novembro 25, 2022, 13:20:28 ]

[Novembro 24, 2022, 11:50:12 ]

[Novembro 21, 2022, 01:05:39 ]

[Novembro 21, 2022, 01:02:13 ]

[Novembro 20, 2022, 13:18:07 ]

[Novembro 18, 2022, 19:31:04 ]

[Novembro 18, 2022, 19:07:01 ]

[Novembro 18, 2022, 18:59:55 ]
Membros
Total de Membros: 792
Ultimo: Leonardrox
Estatísticas
Total de Mensagens: 129776
Total de Tópicos: 26580
Online hoje: 134
Máximo Online: 630
(Março 31, 2019, 09:49:42 )
Utilizadores Online
Users: 0
Convidados: 122
Total: 122
Últimas 30 mensagens:
Novembro 10, 2022, 20:31:07
Partilhar é bom! Partilhem leituras, comentários e amizades. Faz bem à alma.
Novembro 10, 2022, 20:30:23
E, se n√£o for pedir muito, deixem um incentivo aos autores!
Novembro 10, 2022, 20:29:22
Boas leituras!
Novembro 10, 2022, 20:29:08
Boa noite!
Setembro 05, 2022, 13:39:27
Brevemente, novidades por aqui!
Setembro 05, 2022, 13:38:48
Boa tarde
Outubro 14, 2021, 00:43:39
Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Ol√°! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Ol√° para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Ol√° para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
Março 05, 2021, 20:17:07
Bom fim de semana para todos
Março 04, 2021, 20:58:41
Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Powered by MySQL 5 Powered by PHP 5 CSS Valid
Powered by SMF 1.1.20 | SMF © 2006-2007, Simple Machines
TinyPortal v0.9.8 © Bloc
Página criada em 0.268 segundos com 28 procedimentos.